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Uma breve reflexão a partir do terremoto na Colômbia

A resposta do Estado colombiano ao terremoto dos últimos dias expõe uma questão política que ultrapassa a emergência imediata: que tipo de soberania e de capacidade estatal precisamos construir em um mundo atravessado por crises cada vez mais complexas, interdependentes e territorialmente desiguais.

O governo colombiano mobilizou estruturas nacionais de emergência, equipes de busca e salvamento, forças de segurança e mecanismos extraordinários de resposta. Ao mesmo tempo, produziu uma contradição importante. A resistência inicial à incorporação de equipes internacionais especializadas revelou uma concepção de gestão fortemente centralizada, orientada pela demonstração de autossuficiência e de controle nacional da resposta. Em um momento no qual cada hora pode significar vidas, retardar cooperação técnica externa é uma decisão política que precisa ser examinada para além da retórica ideológico-patriótica.

Soberania e capacidade de comando, diante de catástrofes de grande escala, exigem também humildade institucional, articulação e mobilização. Reconhecer rapidamente os próprios limites também é capacidade de Estado. Um governo forte amplia suas possibilidades de ação ao incorporar recursos externos dentro de uma estratégia própria, coordenando governos locais, universidades, forças de emergência, sociedade civil, organismos multilaterais e cooperação internacional sem perder direção política e sem se infantilizar diante do marketing ideológico que sustenta imagens de governo.

A distribuição territorial da resposta também importa. Quando o centro concentra decisões e determinados territórios permanecem dependentes de recursos improvisados ou capacidades locais frágeis, a centralização revela seus limites. Capacidade estatal se mede pela capilaridade concreta da ação.

É também nesse ponto que as bandeiras do marketing eleitoral começam a perder força. A mobilização da pátria, da bandeira e da unidade no campo do abstracionismo eleitoreiro pode produzir coesão social, levar candidatos ao poder, mas catástrofes não deveriam se transformar em palco de marketing ideológico. A pandemia já demonstrou isso no Brasil. Há momentos em que o discurso político precisa baixar o volume para que apareçam a técnica, a ciência, a logística, a engenharia, a saúde pública e a organização social e material dos territórios.

O terremoto colombiano possui origem geológica, mas ocorre em um mundo no qual crises ambientais, climáticas, sanitárias, energéticas e infraestruturais se tornam interdependentes. A crise climática é global em sua dinâmica e profundamente territorial e desigual em seus efeitos. Amplia eventos extremos, deslocamentos populacionais, pressões sobre sistemas urbanos e interrupções de cadeias logísticas. Já estamos neste mundo. Isso exige construções político-intelectuais menos inflamadas pelos recortes de comunicação e mais comprometidas com projetos de curto, médio e longo prazo.

No curto prazo, entram protocolos de emergência, cadeias de comando, equipamentos, informação e cooperação internacional. No médio prazo, sistemas de defesa civil, formação técnica, logística, infraestrutura, redes hospitalares, mapeamento de riscos e fortalecimento das capacidades municipais. No longo prazo, planejamento territorial, adaptação climática, autonomia tecnológica, política industrial, produção científica e integração regional.

Essas escalas precisam conversar. E para isso é preciso organizar uma mesa ampliada, mas minimamente objetiva: entender quem produz informação, quem decide, quem executa, quem possui capilaridade territorial, quem controla recursos e onde estão as capacidades que faltam. Municípios, universidades, governos nacionais, organizações sociais, setor produtivo e organismos internacionais não cumprem o mesmo papel, nem precisam cumprir. A articulação também não elimina os conflitos entre esses atores, seria ingênuo imaginar isso. Ela constrói convergências possíveis dentro dos dissensos. Não é uma mesa simples. Mas é uma mesa que precisa existir. Um projeto de nação exige essa capilaridade, capacidade de se articular, produzir continuidade e construir convergências.

É aí que a distinção entre nacionalismo abstrato propagandístico e projeto de nação ganha potência. O nacionalismo opera com símbolos de adesão imediata e simplificação dos conflitos; tudo pode acabar reduzido a soluções mágicas, uma cloroquina para se curar da dor. Problemas complexos pedem justamente o contrário da solução mágica: identificar escalas, reconhecer capacidades, distribuir responsabilidades e saber coordenar redes de conflitos.

A cooperação internacional também pode ser pensada como política permanente de soberania. Países podem construir acordos de reciprocidade, protocolos regionais de emergência, bancos compartilhados de equipamentos, redes científicas e equipes especializadas mobilizáveis entre fronteiras. Para a América Latina, essa poderia ser uma agenda concreta de integração, menos dependente de grandes declarações diplomáticas e mais vinculada à construção cotidiana de pautas comuns.

A Amazônia ajuda a compreender essa necessidade sem relativizar soberanias nacionais. O bioma, suas bacias hidrográficas, fluxos atmosféricos e sistemas ecológicos atravessam diferentes países, enquanto cada território permanece sob a soberania de seu respectivo Estado. Cooperar sobre fenômenos transfronteiriços não significa internacionalizar a gestão territorial. Significa reconhecer que a geografia não se encerra onde termina uma fronteira político-administrativa e que Estados fortes também precisam saber cooperar para proteger seus próprios povos e territórios.

Uma boa solução técnica ganha força quando encontra arquitetura política para sustentá-la. Articular significa reconhecer interesses, potencialidades, conflitos e construir convergências suficientes para transformar conhecimento em decisão. A política não substitui a técnica, e a técnica não governa sozinha. O difícil, e talvez o mais interessante, é construir as condições políticas para que boas soluções efetivamente aconteçam.

A soberania do século XXI será, a meu ver,  cada vez mais medida por essa capacidade relacional e territorial: organizar recursos próprios, reconhecer limites, acionar parceiros sem subordinação e transformar a cooperação e troca de saberes em aumento de potência política, técnica e territorial. Talvez seja justamente no intervalo entre a emergência e o horizonte imponderável que teremos de aprender a conceber projetos de nação capazes de transformar crises em aprendizado institucional, articular sociedade e conhecimento e produzir respostas à altura da complexidade do mundo que já chegou.

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BigTechs e a centralização das informações

O Delírio da Biblioteca de Babel

Têm sido amplamente divulgadas as práticas de grandes empresas de tecnologia e inteligência artificial que compram acervos e bibliotecas inteiras, digitalizam suas obras e retêm essas informações como matéria-prima para o treinamento de seus sistemas. Em muitos casos, não se tratando apenas de acessar o conteúdo, mas de garantir exclusividade sobre ele.

Além do caráter socialmente questionável e dos riscos éticos envolvidos, essas empresas parecem desconsiderar uma dimensão primordial da informação: sua credibilidade não se estabelece apenas pela acumulação de dados, mas pela possibilidade de circulação, confronto, verificação, legitimação e reconhecimento coletivo.

Ao retirar uma obra de circulação, uma empresa de inteligência artificial não se torna necessariamente a única potencializadora do conhecimento nela contido. Corre, ao contrário, o risco de transformar esse conhecimento em algo perdido no limbo do algoritmo: disponível para o sistema, mas inacessível à sociedade que o produziu. A grande revolução humana provocada pela imprensa consistiu justamente na ruptura de um processo de centralização da informação. A reprodução e a disseminação das fontes primárias ampliaram o acesso de sociedades inteiras ao conhecimento e tiveram um papel decisivo na formação cultural, científica e política da humanidade.

Informação, vale lembrar, não é sinônimo de conhecimento. Reunir todas as informações do mundo não significa, necessariamente, ampliar a capacidade de relacioná-las, criticá-las, tensioná-las ou confrontá-las com a experiência cotidiana. Podemos pensar em um exemplo alegórico: ao falarmos da gravidade, lembramos de Newton e da maçã; ao falarmos de Einstein, surgem histórias sobre sua observação atenta de fenômenos aparentemente banais como as formigas. Verdadeiras ou não em todos os seus detalhes, essas narrativas expressam uma ideia importante: o conhecimento não nasce apenas da informação obtida, mas também das relações sutis que estabelecemos entre o aprendizado delas e os acontecimentos e experiências de relação com o mundo ao nosso redor.

Da mesma forma, são as trocas entre muitas pessoas que possibilitam a validação, a contestação e a transformação do conhecimento. Um livro apropriado exclusivamente por uma empresa de inteligência artificial, do qual não seja possível encontrar sequer um exemplar em uma biblioteca ou em um sebo, permanecerá sob suspeita: tratava-se de uma obra concreta, produzida e datada, ou de uma invenção posterior do próprio sistema?

O que faz de Notre-Dame de Paris uma obra de impacto? A existência de um primeiro fac-símile ou o fato de o livro ter circulado por inúmeros países, transformando uma arquitetura construída em personagem, inspirando filmes, animações, adaptações, narrativas infantis, interpretações críticas e incontáveis apropriações culturais?

O impacto de uma obra está, em grande parte, em sua capacidade de ser encontrada por múltiplas entradas: edições, citações, leituras, vozes comuns, traduções, formatos, adaptações e remixagens. Sua força não reside apenas em uma suposta origem preservada, mas nas redes de sentido que se formam ao seu redor. Foi exatamente assim que mantemos vivas obras fundantes da humanidade como a Bíblia, Ilíada ou Popol Vuh.

O caráter regressivo do sistema devorador criado pelas big techs está justamente na incompreensão de que a informação só adquire sentido dentro de fluxos e redes sociais complexas, e de que o conhecimento é sempre, em alguma medida, uma produção coletiva.

Ao ignorarem essa dimensão, essas empresas alimentam uma disputa alienada e eticamente problemática, cujo resultado pode não ser o aumento da capacidade cognitiva da sociedade nem a valorização real de seus sistemas. Pode ser, ao contrário, a perda da autonomia coletiva para processar, verificar e produzir conhecimento ou até mesmo a incapacidade de reconhecer como importante aquilo que desapareceu nos porões de um algoritmo.

As bigtechs tentam encontrar o Livro Total que conteria o compêndido perfeito de todos os demais. O mito borgiano, perseguido por muitos na infinita Biblioteca de Babel. A nós, respiremos os bons ácaros dos bons sebos e conversemos sobre o que lemos nas boas rodas de amigos. 

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Rentismo, Territórios e Crise Climática

Imagem de Nano Banana – extraída do Google Imagen

O financiamento internacional não circula de maneira neutra pelo mundo. Seus percursos acompanham alianças políticas, interesses comerciais, disputas militares e posições estratégicas. Em um cenário internacional reorganizado por guerras, pela corrida tecnológica e pela busca de segurança energética, dentro da lógica hiperprodutivista do capital contemporâneo, parte dos recursos antes destinados ao desenvolvimento econômico e social tende a ser absorvida pelas prioridades militares dos países centrais ou redirecionada aos territórios considerados decisivos para suas estratégias. Estamos em um mundo marcado por conglomerados transnacionais que concentram cadeias inteiras de produção, do televisor ao navio,ao mesmo tempo que a organização social se dissolve no hiperindividualismo. Neste cenário, como demonstraram Alesina e Dollar, a distribuição da ajuda internacional responde tanto às necessidades econômicas quanto às alianças e aos interesses geopolíticos dos países financiadores.

Para os países periféricos, esse movimento ocorre em um terreno historicamente marcado pela dependência financeira. Os capitais chegam vinculados a projetos, garantias, concessões e expectativas de rentabilidade. A questão, portanto, não se resume a uma suposta baixa capacidade burocrática desses Estados, como o senso comum costuma emanar com a alcunha do “Estado ineficiente”. Muitas vezes há conhecimento técnico, instituições, profissionais e instrumentos públicos capazes de realizar intervenções complexas. O problema está no modo como essa capacidade é politicamente orientada e comprometida com determinados projetos.

O Rio de Janeiro é um exemplo visível desse processo. Durante o ciclo dos grandes eventos, sua capacidade pública foi mobilizada em obras, operações urbanas e infraestruturas orientadas à construção civil, ao turismo e à valorização imobiliária. Esse território, produzido por decisões políticas e investimentos rentistas, passou a alimentar circuitos financeiros que incluem o mercado imobiliário e plataformas como o Airbnb, convertendo planejamento urbano, paisagem e habitação em fontes de renda concentrada.

Trata-se de um modelo rentista porque a riqueza passa a depender cada vez mais da posse e do controle de ativos. Terras, imóveis, concessões, plataformas, recursos naturais e infraestruturas tornam-se apenas fontes de extração contínua de renda. O dinheiro circula, mas permanece concentrado em circuitos seletos. Grandes projetos movimentam contratos e valorizam áreas específicas sem necessariamente ampliar as capacidades produtivas do território ou distribuir os benefícios gerados.

Essa lógica que aparece na infraestrutura da cidade, é a mesma em muitos territórios e cidades brasileiras. Rodovias, portos, ferrovias e redes de energia são frequentemente concebidos a partir de corredores particulares, ligados à exportação de mercadorias ou a empreendimentos isolados. A infraestrutura deixa de formar uma rede nacional articulada e passa a servir a uma sucessão de projetos desconectados. Assim, tenta-se produzir crescimento localizado, contratos e valorização fundiária sem consolidar uma base integrada entre pesquisa, tecnologia, cadeias de fornecedores e equidade sócio-ambiental.

A crise climática, no entanto, possui outra espacialidade. O capital rentista seleciona lugares, concentra ganhos e abandona territórios quando deixam de oferecer retorno. O clima atravessa massivamente o conjunto do espaço. Alcança bairros pobres e ricos, áreas urbanas e rurais, infraestruturas, rios, florestas, plantações, APAs e sistemas energéticos. Evidentemente, seus efeitos não serão socialmente iguais. Os grupos mais ricos possuem seguros, reservas financeiras, climatização, mobilidade e maior capacidade de reconstrução. Ainda assim, não estão fora do sistema natural que sustenta a vida coletiva.

Ao invés de um projeto estruturante, complexo mas que atenda a massa da humanidade e da natureza na Terra, nos é dado um conceito: “resiliência”, devidamente aplicado de forma pasteurizada. Em muitos discursos, ela é apresentada aos pobres como a habilidade praticamente individual de suportar indefinidamente enchentes, calor, deslizamentos, remoções e precariedade. A vulnerabilidade aparece como condição a ser administrada, e não como resultado de decisões políticas. MacKinnon e Derickson já apontavam esse limite: comunidades não precisam apenas adquirir capacidade para resistir, mas recursos e poder para transformar as estruturas que produzem sua eterna exposição ao risco.

A reindustrialização do Brasil precisa enfrentar essa mesma contradição: reconstruir sua capacidade produtiva sem destruir os sistemas naturais que sustentam cidades, agricultura, energia e infraestrutura. A deterioração dos biomas compromete as próprias bases territoriais de qualquer projeto nacional de desenvolvimento.

O vendaval extremo vivido ontem no Rio de Janeiro, assim como as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, não pode mais ser tratado como fato excepcional, desconectado das transformações climáticas em curso. Fenômenos como um El Niño forte ou muito forte interferem na circulação atmosférica e ampliam a possibilidade de chuvas, ventos e outros eventos extremos. O problema central, porém, está no território que esses fenômenos encontram.

 Desde pelo menos o ciclo de preparação para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, o Rio mobilizou enormes recursos públicos, capacidade técnica e instrumentos urbanísticos para grandes obras, valorização imobiliária e construção de uma cidade voltada aos eventos, ao turismo e à circulação de capitais. Ainda assim, permanece despreparado para proteger sua população, suas árvores, redes elétricas, transportes, encostas e demais infraestruturas diante de acontecimentos climáticos cada vez mais frequentes. 

O contraste revela que não faltaram investimentos ou capacidade estatal. Faltou orientar essa capacidade para um projeto urbano duradouro, capaz de cuidar do território e das formas de vida que o habitam. Adiar novamente o enfrentamento dos limites do rentismo significará assumir o custo permanente de destruir, reparar e reconstruir cidades depois de tragédias cada vez mais anunciadas.

Cuidar do meio ambiente, nesse sentido, ultrapassa a ideia de proteção de uma natureza separada da sociedade, como era vista nos séculos passados. Significa mitigar os efeitos da crise climática, proteger infraestruturas, garantir água, preservar sistemas alimentares e assegurar as bases materiais da produção da vida coletiva. 

Uma política, seja ela de reindustrialização ou de qualquer meio de desenvolvimento econômico, precisará decidir se continuará financiando projetos pontuais que concentram renda e fragmentam o território ou se será capaz de construir redes públicas duradouras, complexas e distribuídas, comprometidas com as muitas formas de vida que existem nelas.

Referências interessantes para ler:

ALESINA, Alberto; DOLLAR, David. Who gives foreign aid to whom and why? Journal of Economic Growth, 2000.

CHRISTOPHERS, Brett. Class, assets and work in rentier capitalism. Historical Materialism, 2021.

MACKINNON, Danny; DERICKSON, Kate Driscoll. From resilience to resourcefulness: a critique of resilience policy and activism. Progress in Human Geography, 2013.

FLORES, Bernardo M. et al. Critical transitions in the Amazon forest system. Nature, 2024.

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Logística global, inteligência artificial e crise climática: novas geografias e disputas de poder

Como a reorganização das cadeias produtivas, a concentração das infraestruturas digitais e os riscos ambientais potencializam o desenho de territórios, dependências e estratégias nacionais.

Durante algumas décadas, a indústria mundial foi organizada em uma lógica razoavelmente simples: produzir onde fosse mais barato e conectar fábricas, fornecedores e consumidores através de uma grande rede logística planetária.

Essa rede continua operando e provavelmente continuará por muito tempo. Mas alguns critérios que orientam a localização industrial estão mudando. A pandemia, as guerras, as sanções econômicas e as disputas tecnológicas evidenciaram a fragilidade de cadeias produtivas muito extensas, concentradas em poucos fornecedores e dependentes de alguns corredores logísticos.

Gopinath et al. (2025), ao analisarem dados bilaterais de comércio e investimentos, identificaram um aumento da fragmentação econômica segundo proximidades geopolíticas. Os autores tomam o cuidado de não anunciar uma nova Guerra Fria ou o fim da globalização. O que aparece é uma reorganização gradual das relações produtivas, principalmente nos setores considerados estratégicos. Setores como semicondutores, energia, medicamentos e minerais críticos, governos e empresas começam a aceitar custos maiores em busca de fornecedores mais próximos ou confiáveis. A eficiência passa a conviver com preocupações sobre segurança, resiliência e controle tecnológico, embora esse movimento ainda seja seletivo e desigual.

Nesse contexto, termos como nearshoring, reshoring e friend-shoring passaram a aparecer com frequência. A distância, o alinhamento político, a segurança tecnológica e a capacidade de reagir a crises começam a pesar mais nas decisões industriais. Ainda assim, esse deslocamento ocorre de forma desigual. Ando et al. (2026), analisando as redes produtivas das Américas, da Ásia e da Europa entre 2015 e 2024, indicam que parte das empresas diversifica fornecedores e rotas sem necessariamente transferir toda sua produção. Um exemplo é a Apple, que passou a ampliar parte da produção na Índia e no Vietnã para reduzir sua dependência da China. Ainda assim, a maior parte de sua cadeia continua ligada ao território chinês, mostrando que muitas empresas preferem diversificar riscos aos poucos, em vez de transferir toda a produção de uma só vez.

A crise climática torna esse desenho ainda mais instável. Portos, ferrovias, redes elétricas, áreas industriais e sistemas de armazenamento foram planejados a partir de padrões ambientais que estão se modificando drasticamente nos últimos anos. Verschuur et al. (2023), ao analisarem 1.320 portos, estimaram que interrupções relacionadas ao clima colocam em risco, anualmente, cerca de 81 bilhões de dólares em comércio e pelo menos 122 bilhões de dólares em atividade econômica. Essas interrupções podem ainda produzir um efeito em cascata: o bloqueio de um porto pode comprometer o abastecimento industrial, pressionar preços, reduzir empregos e ampliar desigualdades, atingindo com maior intensidade os territórios menos desenvolvidos, mais dependentes de poucas infraestruturas logísticas.

Outro trabalho dos mesmos pesquisadores identificou 94 portos com importância crítica para as cadeias globais. Em alguns países, mais de 10% da produção industrial depende do fluxo realizado através de um único porto (VERSCHUUR et al., 2022). Uma enchente, uma seca prolongada ou um evento extremo localizado pode, portanto, atravessar continentes inteiros através da rede produtiva.

A inteligência artificial aparece nesse cenário como uma ferramenta potencial para prever gargalos, administrar estoques, simular riscos climáticos e reorganizar fluxos em tempo real. Mas existe aí uma questão que me parece especialmente interessante: a IA, muitas vezes imaginada como uma tecnologia quase imaterial, exige uma infraestrutura bastante concreta.

Diferente de redes abertas e distribuídas, como os sistemas peer-to-peer, a infraestrutura da inteligência artificial permanece concentrada em poucoa poderes do capital que controlam capacidade computacional, plataformas, modelos e grandes bases de dados. Essa concentração amplia o risco de dependência tecnológica, opacidade nos critérios de decisão e apropriação privada de informações produzidas coletivamente. Sem redes abertas de pesquisa, padrões interoperáveis e mecanismos internacionais de cooperação, a IA pode reforçar monopólios, aprofundar assimetrias entre países e limitar a autonomia de governos, empresas menores e instituições científicas.

Além disso, ela depende de centros de dados, redes elétricas, água para resfriamento, semicondutores e cadeias globais de equipamentos e minerais. Estudos recentes apontam que o crescimento da IA pode pressionar sistemas elétricos e ampliar o consumo de água associado aos centros de processamento. Ao mesmo tempo, a própria IA pode contribuir para aumentar a eficiência dessas redes. O resultado dependerá da forma como essa infraestrutura será implantada e governada.

Talvez o imponderado do novo sistema logístico global esteja justamente nessa convergência. Criamos ferramentas cada vez mais capazes de antecipar gargalos e simular riscos, mas que dependem de infraestruturas concentradas, elevado consumo de energia e água, além de recursos naturais distribuídos de forma desigual pelo planeta. Estudos sobre inteligência artificial e economia de dados também apontam uma tendência de concentração da capacidade computacional, das plataformas e das bases proprietárias em poucos agentes econômicos, ampliando dependências e restringindo o acesso aos benefícios dessas tecnologias (DE PEDRAZA, 2023; HÖTTE et al., 2025). O risco está em incorporar ferramentas novas a uma racionalidade de gestão ainda orientada pela eficiência de curto prazo e pela redução de custos, pouco preparada para lidar com interdependências, efeitos em cascata e impactos socioambientais que atravessam territórios e cadeias produtivas inteiras (VERSCHUUR; KOKS; HALL, 2023). Um mundo que exigirá maior interdisciplinaridade e capacidade de lidar com a complexidade pode ficar obsoleto na incapacidade de lidar com os efeitos cascata da crise climática tentanto utilizar as mesmas ferramentas de controle economico e social que sustentaram os modelos pretéritos de mercado pós-revolução industrial.

Para o Brasil, essa reorganização produz disputas bastante concretas. A expansão da inteligência artificial e da transição energética aumenta a demanda por minerais críticos, energia, centros de dados e infraestrutura logística. Woodley et al. (2024) mostram que tecnologias como veículos elétricos exigem volumes muito maiores de lítio, níquel, grafite, cobre e terras raras. O país pode ganhar importância nessas cadeias, mas segue exposto ao risco de repetir uma inserção baseada na exportação de recursos com pouco domínio sobre o processamento, os equipamentos, o cuidado ambiental e as tecnologias finais.

A mesma contradição aparece nos centros de dados. A matriz elétrica relativamente renovável e a conexão com cabos submarinos tornam algumas regiões brasileiras atraentes, mas sediar servidores estrangeiros não significa controlar os dados, os modelos ou os serviços produzidos por eles. Estudos recentes também indicam que essas infraestruturas ampliam o consumo de energia e água, enquanto a concentração da capacidade computacional em poucas empresas aprofunda dependências tecnológicas e econômicas.

O lugar do Brasil nessa nova geografia dependerá das etapas que conseguir controlar. Extrair minerais, fornecer energia e receber centros de dados pode gerar investimentos importantes, mas a autonomia estará na capacidade de refinar materiais, fabricar componentes, desenvolver sistemas próprios, desenvolver tecnologia, manter bancos de dados de interesse público e adaptar portos e redes elétricas à crise climática. Caso contrário, continuaremos oferecendo o território, a energia e a matéria para uma inteligência produzida longe daqui, enquanto os custos ambientais, sociais e logísticos permanecerão inscritos como veias abertas sobre nossas paisagens.

Perspectiva Scala AI City em Eldorado do Sul-RS- Uma cidade Data Center projetada com 7 a 10km² – maior que 4 bairros do Leblon no Rio de Janeiro.

Referências

ANDO, M.; HAYAKAWA, K.; KIMURA, F.; MUKUNOKI, H. Friend-shoring, near-shoring, and reshoring in factories America, Asia, and Europe amid rising geopolitical tensions. European Journal of Political Economy, v. 93, art. 102804, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.ejpoleco.2025.102804

GOPINATH, G.; GOURINCHAS, P.-O.; PRESBITERO, A. F.; TOPALOVA, P. Changing global linkages: a new Cold War? Journal of International Economics, v. 153, art. 104042, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jinteco.2024.104042

VERSCHUUR, J.; KOKS, E. E.; HALL, J. W. Ports’ criticality in international trade and global supply-chains. Nature Communications, v. 13, art. 4351, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41467-022-32070-0

VERSCHUUR, J.; KOKS, E. E.; HALL, J. W. Systemic risks from climate-related disruptions at ports. Nature Climate Change, v. 13, p. 804–806, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41558-023-01754-w

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Fortuna

As encruzilhadas nos presenteiam com a vida. Era um sábado à tarde. Eu estava no bowl de Irajá, palco do skate antes mesmo do skate virar esporte. Foi ali que vi, pela primeira vez, um dos maiores artistas que conheci na vida.

Lembro que ele panfletava um show de death metal, no qual faria a abertura tocando Jorge Vercillo e Raul Seixas ao violão. Ali pensei: esse maluco é o cara mais rock and roll que eu conheço. O tempo, o subúrbio e a música foram nos aproximando aos poucos. Tempos depois, fizemos parte do mesmo coletivo cultural, o Consciência Criativa. Foram anos de suor, amizade e movimento sem verba, em uma época em que pouquíssimos faziam cultura nos subúrbios.

Fortuna se fez presente, carregava o destino no próprio nome. Onde muitos o viam como um pária social, preconceito comum imposto aos meninos periféricos, os mais próximos descobriam sua imensa inteligência. No rosto, um olhar digno dos guerrilheiros. Por dentro, a sensibilidade rara dos poetas. Anderson era capaz de articular Raul Seixas, Botafogo, Neruda, García Lorca, teatro, música e rua com uma naturalidade que pouca gente tem. Transitava com o mesmo fascínio entre a canção simples de um bar e a grandeza de um show dos Rolling Stones. Fortuna sabia o que era arte porque, para ele, ela nunca esteve separada da vida. Estava no feijão com arroz, na conversa da esquina, na canção improvisada, na feira de domingo.

Era um garoto de sonhos simples: tocar no espaço cultural do próprio bairro, ter uma banda, jogar bola. Mas carregava um universo que mal cabia na própria mente. Anos se passaram, e foi um privilégio quando conseguimos criar para ele um presente que, no fim, virou presente para todos nós. Organizamos uma Suburbagem em que, literalmente, criamos uma banda para Fortuna se apresentar. Chamei alguns dos melhores improvisadores com quem convivi. Não tinha outro jeito. Para tocar com Fortuna, era preciso ser capaz de explodir fora da curva. A banda deveria entrar no universo dele, e não o contrário.

E assim foi.

Fizemos alguns ensaios para tentar entender aquele universo e partimos para a apresentação. Vieram improvisos, canções de amor, de revolta, declamações poéticas, gestos teatrais, movimentos imprevisíveis. Éramos praticamente uma instalação disfarçada de banda.

Lembro quando Fortuna desceu do palco para assistir à própria banda, sem encenação, por puro prazer. Ficamos mais de dez minutos improvisando e pedindo, pelo amor de Deus, que ele retornasse ao palco para finalizarmos a música. Lembro também da minha cara estupefata na primeira vez que ouvi a letra de “Andarilho das Estrelas”. O destino prega essas peças. Anderson era uma espécie de Van Gogh perdido no seu tempo. Sua arte não cabia na caixa das pasteurizações.

Lá por 2010, eu sofria para terminar a graduação, atravessado por milhares de problemas. Lembro que, numa chuva de verão, daquelas que entravam pela minha casa através dos telhados quebrados, perdi meu rádio. Comentei de leve na roda da galera, quase sem importância. Por mim, tudo bem. O que era um rádio para quem já tinha perdido tanta coisa em tão pouco tempo? Mas, um dia, surgiram Fortuna e Labanca com um rádio na mão. Anderson repetia, meio incrédulo: “Não cara, você não pode ficar sem rádio, você é artista, precisa ouvir música”. Ali entendi o quanto vocês apostaram em mim. Quantas vezes eu quase larguei a FAU e uma conversa ou um gesto maluco desses vindo de vocês me fazia pensar: tenho que seguir em frente.

Você sempre me lembrou que, antes de eu ser gente, eu era músico rs. Quando criei a animação para a música “Vanessa”, do André Figueira, pensei em um roteiro baseado em um jovem deslocado descobrindo a metrópole, com suas inúmeras contradições. Pensei: quem melhor representaria o profeta que apontaria o caminho para esse jovem? Ninguém menos que o próprio Fortuna. Do jeito dele, ele exercia esse papel. Liderava pela arte. Quantos eventos não organizamos apenas para ter o prazer de criar um palco para Fortuna se apresentar, sem ele ter nos pedido isso?

Quem não se lembra de sua clássica indagação: Qual grande artista a Lona revelou?

Seu poema maior, “A Cidade, o Caos”, foi um soco no meu estômago. Viver essa cidade como nós vivemos, e depois ouvir essa poesia declamada como sangue que cruza a América Latina por dentro do Para Pedro, se chocava brutalmente com a minha formação de arquiteto. A cidade, o Caos é o meu espaço vivido, a arquitetura que aprendi na infância. 

Não à toa, antes da primeira linha do resumo da minha dissertação, você está citado lá. Um pequeno trecho seu que representa tudo que pesquisei para que outros arquitetos leiam e conheçam aquilo que nossa turma chama de Subúrbio Carioca. Uma aula de cidade em um poema.

Eu poderia dizer que esse poema, imenso, foi sua grande obra, mas seria injusto. Sua obra maior foi a própria vida experimentada integralmente em forma de arte, como pouquíssimos tiveram coragem de viver, com todo o gigantesco ônus e todo o raro bônus dessa escolha.

A vida foi dura para todos nós que andamos juntos pelas ruas de Irajá e Vista Alegre, e extremamente covarde com você. Uma série de destinos entrecruzados, de amigos se costurando e se ajudando na tragédia que é sobreviver sendo pobre e tentando ser feliz sendo artista.

Você se foi, meu camarada. 

Eu não estava preparado para isso. Honestamente, ainda não estou. Mas você segue presente em nós que dividimos contigo esse tablado chamado vida, nas músicas que escutamos, nos palcos que inventamos, nas duras ruas que atravessamos, nos gestos que ficaram e nessa geração de bairro que você ajudou a mover culturalmente sem nunca precisar pedir licença ao mundo.

Qual grande artista a lona revelou? Fortuna.Você!

Anderson Fortuna foi grande. Grande demais para o reconhecimento pequeno que este país costuma reservar aos seus artistas pobres. Grande demais, também, para caber no esquecimento.

Todos nós, atravessados de algum modo pela tua presença, tivemos o raro privilégio de dividir contigo o chão deste Subúrbio, as agruras da vida e essa arte que ainda insiste em nos manter vivos na Terra. Agora meu camarada andarilho errante que carregou todos os sentimentos do mundo dentro de ti, siga livre, caminhando dentro de todos nós.

Um último e triste feliz aniversário ao camarada,

Anderson Fortuna,

Poeta, músico, artista e acima de tudo um Amigo.

Desenho autoral.
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O Congresso contra o Povo

O conservadorismo acolheu e organizou os mais pobres. Isso precisa ser sempre lembrado com alguma honestidade. Ele ocupou vazios, criou pertencimento, deu escuta e destino para gente que muitas vezes encontrou na esquerda apenas contradições e uma espécie de superioridade moral desgastada. Até aí não há tanta novidade. Desde pelo menos 2014, o país vive esse deslocamento, e fingir que ele não existe apenas aprofunda o nosso erro.

O ponto novo, porém, é que esse conservadorismo deixou de ser apenas sentimento social e passou a operar como poder. Quando toca o Congresso, quando define quais pautas avançam, quais travam, quais vidas merecem acesso ao orçamento público e quais podem seguir no improviso e na fome, ele revela o Brasil que deseja construir. E esse Brasil, muitas vezes, é duro com quem já não aguenta mais.

Se a esquerda tem o presidente, o conservadorismo tem o congresso e opera com ele para ter espaço de poder e gestão. Não amigos, não vivemos um governo de esquerda, mas sim o governo que sempre vivemos, esse parlamentarismo presidencialista esquisito onde as forças precisam manter sempre um grau de negociação para se manter no poder.

Em qualquer periferia de cidade grande e em muitos recantos de cidades médias e pequenas, existe um País à parte, onde a fome ainda organiza o cotidiano. Lugares onde viver com menos de um salário mínimo é regra, e ganhar um salário mínimo já parece vitória. Nesses territórios, o Bolsa Família não pode ser tratado como abstração eleitoral e cabresto, ele se torna a única estrutura real de sobrevivência. Organiza a compra da vida, a comida da criança, o remédio, o que dá pra organizar e ainda falta. E infelizmente, seguirá organizando a vida enquanto o Brasil não tiver um sistema produtivo capaz de absorver sua própria força de trabalho com dignidade e mínimo direito à mobilidade social.

A escala 6×1, que no fundo funciona como um 7×0 disfarçado, soma-se à miséria salarial, ao transporte exaustivo, ao aluguel impossível enquanto crescem alphavilles e studios e à ausência de horizonte palpável. O resultado é uma massa gigantesca de vulnerabilidade e sem esperança. Gente que trabalha muito, ganha pouco, descansa mal, adoece cedo e quase nunca consegue transformar esforço em prazer de vida. O país cobra disciplina de quem vive no limite, mas oferece muito pouco além da sobrevivência, na verdade nem a sobrevivência o País oferece.

Esse é o ciclo vicioso profundo. Não se levanta uma Nação condenando sua população a correr em círculo até morrer. Um trabalhador exausto não empreende sua liberdade. Uma mãe que passa três horas por dia no transporte não consegue “qualificar-se” por milagre. Um jovem que entra cedo demais no trabalho precário perde escola. O Brasil fala em produtividade, mas organiza a vida popular para desperdiçar inteligência humana. Maio é um mês significativo para os trabalhadores de um País cuja cultura foi forjada no escravagismo. 

A saída, a meu ver, passa por muitas lutas, porém quero deixar escrito alguns recortes. Um deles, ela exige tratar política social como infraestrutura de sustento da Nação. O SUS, apesar de todos os problemas, mostra uma coisa fundamental: quando o Estado chega de forma capilarizada, em rede, ocupando território, fomentando formação profissional, e garantindo continuidade política, ele muda a vida concreta. O mesmo princípio precisa orientar outras partes da estrutura social: renda, trabalho, cuidado, educação técnica, mobilidade e produção. Não basta distribuir benefício via política pública e deixar o restante da vida entregue ao mercado ruim, ao ônibus caro, ao aluguel predatório e ao subemprego moedor de gente. É preciso construir uma rede pública de política de sustentação da vida, integrada no território, capaz de enxergar família, bairro, escola, posto de saúde, transporte, cultura e emprego como partes do mesmo problema.

Isso passa por uma política nacional de trabalho honesta e decente, incapaz de se formar neste congresso de legisladores de causa própria, defensores de coisas espúrias. Como pensar política com estes seres abjetos incapazes de enxergar o país além da própria fazenda? O que dizer com palavras bonitas e sinceras? 

Há nesse Congresso uma venalidade profunda, uma mistura de pusilanimidade ética e arrogância oligárquica, gente que se ajoelha diante dos donos da terra (quando não são os próprios donos), da bala e do dinheiro e se vende barato para doleiros e cafetões de luxo, mas endurece a voz contra quem vive de salário, de benefício, do bico e com dívida. São capatazes legislativos de um país velho, cortesãos do atraso, defensores de pactos iníquos e projetos predatórios, enquanto chamam de responsabilidade aquilo que, no fundo, é apenas crueldade organizada. Essa é a gente que vai caminhar pelas ruas do seu bairro fingindo que gostam de comer pastel com caldo de cana. A cara de nojo que fazem quando mordem um pastel, não é pelo pastel, é pelo nojo que sentem ao estarem perto demais da gente. 

Tem pavor de pautas como: Redução progressiva da jornada, valorização real do salário mínimo, expansão da educação profissional ligada às cadeias produtivas locais, crédito orientado para pequenos produtores. Esse governo se torna tão ignorante que sequer enxerga que estas são pautas de caráter liberal.  Mas ainda cito mais possibilidades para construir: cooperativas, economia do cuidado, indústria verde, construção civil pública, saneamento, reabilitação de moradias e infraestrutura urbana nas periferias. 

O país precisa enfrentar essas criaturas sem receio. Criar um projeto que nos possibilite fortalecer a produção de vida, gerar trabalho e descanso para as pessoas reais, e não apenas empurrar corpos pobres para a vala da história, como empurraram para o Oceano de Sangue, Kalunga Grande (aprendi esse termo lendo o artigo da Vivian Carla Garcia Ferreira aqui).

Aqui também, a técnica pública institucional não pode ser resumida à burocracia de gabinete que atende a esses poderes de forma acrítica. Ela precisa medir tempo de deslocamento, renda disponível, acesso a creche, saúde mental, custo da alimentação, informalidade, produtividade territorial e capacidade real de permanência das famílias em seus bairros.

Um projeto sério para o Brasil começará quando a vida popular deixar de ser tratada como resíduo. O pobre precisa de tempo, renda, cidade, descanso, formação, crédito, saúde, cultura e poder sobre o seu próprio território. Enquanto isso não acontecer, seguiremos discutindo moralidade no alto, enquanto embaixo o país real tenta decidir se compra comida, paga passagem ou continua entregue a qualquer destino.

A boa política é aquela que transforma sobrevivência em caminho real de futuro. Esta política a meu ver, deve transpassar esse congresso e se possível desferir o máximo de danos a parte desta máquina público-privada usada a benefício próprio dessa gente estranha que ocupa as câmaras de poder.

Autoria própria
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Arquitetura e Urbanismo, artigo, brasil, carnaval, cultura, meio ambiente, rio de janeiro, territórios

Reviver o Centro, assassinar o Lume.

A obra no Buraco do Lume é mais um exemplo da escolha do poder público de construir uma cidade de aparência.

A intervenção segue o mesmo roteiro: mexe-se no espaço, vende-se a ideia de renovação sobre um território tratado como vazio, produz-se stand e material de divulgação e se constrói com apagamento de memória, sem se importar com o impacto real sobre quem vive e circula ali. O problema também é o mesmo de sempre: tratar o espaço como peça de marketing, enquanto transforma o que é bem comum, social e público em ativo privado.

O Buraco do Lume não é um terreno neutro no centro do Rio. É um espaço consolidado na experiência urbana da região. Tem história, tem função, tem presença, tem política.

Qualquer intervenção ali exigiria, no mínimo, debate público sério, leitura mais profunda da área e alguma inteligência política sobre o que significa agir num ponto tão simbólico e conectado do Centro. Mas o que se vê é, mais uma vez, uma ação com pouca densidade e diálogo e, no fundo, mais uma operação subordinada à especulação imobiliária desta cidade.

Existe um vício administrativo no Rio: a crença de que intervir fisicamente já é, por si só, governar bem. Não é. Sem escuta, sem participação, sem relação com a vida concreta do lugar, obra pode ser só maquiagem urbana e movimento econômico para um nicho muito específico de ricos da cidade. Tudo isso com aval de uma prefeitura que licencia o que interessa a quem pode pagar.

O que incomoda não é apenas a intervenção em si, mas a lógica que ela expressa. Uma lógica que prefere controle à convivência, desenho à complexidade, mercado à política urbana.

O Buraco do Lume merecia mais. Merecia menos solução apressada e mais reflexão social. Realização de destombamento, aumento de gabarito, permissão de construção de imóveis pequenos é um triste fim para este remanescente do Morro do Castelo, pólo de grandes movimentos culturais e políticos da Cidade do Rio de Janeiro. E tudo isso feito com a conivência de prefeituras e suas secretarias garantindo todas as licenças necessárias para as construtoras.

Vamos jogar ao relento um espaço livre fundamental para as conexões entre pedestres, usuários do Centro e comerciantes. Mas o movimento da prefeitura, infelizmente, segue o padrão: substituir cidade, e tudo o que essa palavra significa, por cenografia urbana.

No fim, fica a impressão de sempre: o Rio continua tratando seus espaços importantes como palco de intervenção superficial e negócios econômicos dos patrocinadores do poder. O que falta é visão de cidade. Uma cidade que morre enquanto seus espaços livres cedem lugar a empreendimentos ultracompactos voltados à valorização imobiliária, quando o interesse público deveria estar voltado à produção de habitação social e à preservação da vida urbana real.

Revier Centro é Reviver o lucro de alguns enquanto noventa por cento da cidade está entregue à própria sorte. 

Imagem ilustrativa: Bloco de Carnaval no Buraco do Lume:

Imagem retirada do artigo: projetocolabora.com.br/ods11/rioerua-o-buraco-do-lume-e-100-anos-de-cobica-no-centro/

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filosofia de vida, política, trabalho

Quem é o conservadorismo que me lê?

Notei, com o tempo, que tenho amigos e leitores conservadores que gostam do que escrevo. Fico feliz por isso. Entendo como sinal de que ainda consigo me comunicar com as pessoas, embora eu mesmo tenha dificuldade de fazer isso na fala. Creio que há aí um gesto importante: se não sou capaz de me comunicar com quem pensa diferente de mim, então talvez eu não seja capaz de me comunicar de verdade. 

Mas quem seria esse brasileiro específico? Tenho algumas percepções sobre isso, e quero dar aqui uma pequena pincelada.

O brasileiro não é conservador por folclore, por essência moral, muito menos por algum desajuste cognitivo ou intelectual. Pensar assim é partir da arrogância para construir uma caricatura. Creio que o tempo o empurrou para isso pelo medo e pela sobrevivência. Medo de cair mais um degrau, medo de perder o pouco que tem, medo de ver o filho capturado pelo crime, medo de não conseguir pagar o gás, medo de adoecer e não ter atendimento, medo de envelhecer sem proteção.

O Brasil das últimas décadas produziu consumo, desejo rápido de ascensão e vitrines digitais de vencedores, mas não ofereceu a mesma firmeza em trabalho, tempo e horizonte de vida. Ao mesmo tempo em que prometia autonomia, foi desmontando proteções do trabalho. Naturalizou vínculos frágeis, pejotização, intermitência e plataformização. A precarização não caiu do céu, ela foi construída como projeto de poder. E qualquer olhar honesto para o mundo do trabalho hoje percebe o estrago que a reforma trabalhista de 2017 aprofundou, especialmente entre os mais jovens.

A ideia do sujeito como “CEO de si mesmo” não é só delírio neoliberal importado de palestra motivacional. Muitas vezes, ela funciona como remédio paliativo de existência. Quando o mundo do trabalho retira garantias, o imaginário tenta devolver alguma dignidade. O homem que sai cedo de casa, pega condução, vende bolo, roda de aplicativo, faz bico, sonha abrir um negócio, assiste vídeo de empreendedorismo entre uma correria e outra, não está necessariamente imitando o rico nem sonhando em virar milionário. Muitas vezes, está apenas tentando não desabar de vez. É uma forma de dizer a si mesmo que ainda conduz alguma coisa, mesmo quando quase tudo ao redor diz o contrário. Por que enfrentar um 6×1 para um patrão por um salário mínimo, se eu posso tentar encarar um 7×0 para mim mesmo? Por que entrar cedo numa CLT, se mal acredito que um dia vou me aposentar?

O problema é que esse imaginário, quando capturado, ilude. Troca os direitos pela performance, descanso pela culpa e senso de comunidade por competição aflorada. O trabalhador deixa de se entender como parte de um corpo social e passa a ser tratado como pequena empresa em guerra contra a exaustão. E isso piora num país de trabalho fortemente informal e desregrado. 

É nesse ponto que a extrema-direita entra com inteligência afetiva. Ela percebe uma coisa que parte do campo progressista seja a esquerda ou mais liberal esqueceu: ninguém vive só de argumento cientificamente correto. As pessoas querem ser vistas, ouvidas, nomeadas, acolhidas em sua dor e em sua luta. Querem sentir que alguém as escuta sem rir de sua fé, de sua vergonha, de seu desejo de subir na vida, de seu apego à família e de sua necessidade de alguma ordem no cotidiano.

O ultra-conservadorismo cresce porque oferece espaço de escuta e fala para esse sofrimento. Não oferece país, nem transformação de verdade, mas oferece disciplina, pertencimento, inimigo comum e explicação simples, independente da ciência. Em vez de enfrentar a precarização da vida, organiza o desamparo como linguagem moral, mas o principal: organiza o acolhimento. Acalme-se, algum dia sua bênção virá, estamos entre irmãos.

Porém, ele também cresce e muito, na incapacidade das forças progressistas retomarem pautas comuns e pétreas de bem estar do povo, por medo de conflitar com suas pautas de poder pelo poder, cargo pelo cargo. Se tornando uma força de molde moral para controlar os que estão sob seu  cercado.

Talvez o erro mais sério de muita gente progressista atual tenha sido olhar esse Brasil apenas como objeto de pedagogia, estudo e pesquisa, e não como sujeito portador de inteligência. Houve análise demais e escuta de menos. Houve articulação demais e imaginação de menos. Como se bastasse anunciar indicadores, políticas públicas e boa intenção para que um povo exausto voltasse a acreditar na vida coletiva. Oferecemos política sem reconstruir vínculo, pertencimento e horizonte.

Porém, o povo também quer viver o sensível. Quer sentir que a vida pode ter algum brilho para além da conta paga em atraso. O conservadorismo entendeu isso antes: ocupou o campo do desejo, mesmo que com uma promessa estreita e envelhecida de mundo. Vende uma resposta, embora na prática atue de outra forma, basta ver o Trump e os seus piores conflitos: as lutas internas norte-americanas.

A disputa econômica também é disputa de imaginário, de vida boa, de futuro bonito, de reconhecimento solidário. O próprio debate sobre a escala 6×1 mostra isso. Não se trata apenas de horas e produtividade, embora isso importe. Trata-se do direito elementar de não viver esmagado pelo trabalho. É erro achar que economizar é não gastar mais com trabalhador. 

Horas de trabalho excessivas e salário baixo demais também destrói produtividade, aumenta rotatividade e piora o próprio negócio. E antes que me chamem de comunistas, economistas liberais defendem esse conceito.

A saída, então, não está em zombar do Brasil profundo, nem em idealizá-lo, mas em reencontrar dentro dele o seu desejo legítimo de vida. Algo que só é possível na escuta singela, sem julgamentos e com interesse de aprendizado. Há uma potência cotidiana que segue viva no país real. Ela está no churrasco improvisado de fim de semana, no salão de beleza lotado, no campo de várzea, no piseiro ligado numa caixa de som colorida, na mãe que faz render o almoço, na vizinha que olha o filho da outra, na feira, na oficina, na calçada, no culto de domingo, no chá partilhado enquanto se pega sol à beira do rio, no barulho de gente simplesmente sendo gente apesar de tudo. 

Por isso a boniteza de Paulo Freire ainda importa, como recusa da feiura moral que foi sendo naturalizada entre nós. Uma vida boa não pode ser privilégio de condomínio, nem fantasia vendida em parcelas, nem heroísmo individual de quem aguenta a escala, o bico e a humilhação calado. Ela precisa reaparecer como direito de respirar, conviver, descansar, estudar, circular, festejar, criar filhos sem terror e envelhecer sem descarte. 

O Brasil não precisa ser salvo de si mesmo. Precisa voltar a se enxergar como povo super diverso, criativo, complexo e digno de mais do que mera sobrevivência. Quando esse povo se vê apenas como empresário precário da própria miséria, o país encolhe. Quando volta a se reconhecer como portador de memória, trabalho, inteligência, diversidade de pensamento e desejo de beleza, o país pode novamente começar a pensar o Brasil.

Neste sentido retorno ao início. Afinal, aprendo com as trocas honestas dos amigos conservadores que me lêem e não sentem medo ou vergonha de conversar comigo sobre temas diversos.

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Arquitetura e Urbanismo, artigo, ciência, filosofia de vida, Inteligencia Artificial, pensamento, territórios

Terra Rara e terras raras: pequeno texto sobre o impasse material do nosso tempo

Segue um pequeno texto sobre uma contradição pertinente do mundo contemporâneo. Falamos muito em inteligência artificial, transição energética, inovação, automação de futuro. Ao mesmo tempo, talvez tenhamos que  recordar o óbvio: não existe nuvem sem território físico, não existe inteligência artificial sem eletricidade, não existe transição energética sem mineração em larga escala, e não existe crescimento exponencial sustentado quando a base material do sistema opera no limite máximo. O século XXI promete leveza digital, mas se apoia sobre uma infraestrutura física brutalmente pesada.

Há um fetiche comum no debate público e corporativo. Falamos de tecnologia como se ela brotasse do nada, como se fosse resultado puro do engenho humano pairando acima da terra. Mas a história real é mais rude. Data centers exigem energia estável, água para resfriamento, linhas de transmissão, cabos, transformadores, terras baratas e capacidade de conexão. Painéis solares exigem prata. Turbinas eólicas, carros elétricos, sistemas militares e eletrônica de precisão exigem terras raras e outros minerais críticos. A dita economia do futuro nasce, portanto, de uma nova corrida sobre o solo. E como quase toda corrida por recursos em larga escala, ela rapidamente se converte em guerras geopolíticas.

O mercado da prata nos ajuda a entender um pouco isso. A prata ocupa um papel duplo, financeiro e industrial. Ao mesmo tempo em que é historicamente e segundo metal mais importante do mercado, embora mais raro e difícil de extrair que o ouro, também é muito importante em aplicações industriais, eletrônicas e fotovoltaicas. Isso significa que sua demanda já não pode ser lida dentro de um hibrido difícil de equilibrar: o especulativo do mercado financeiro e o necessário do consumo industrial. As terras raras, por sua vez, revelam um problema ainda mais pesado. Tanto pela existência geológica complexa desses elementos, quanto pela capacidade de processá-los, refiná-los e incorporá-los às cadeias industriais de maior valor agregado. A China percebeu isso antes de boa parte do Ocidente e consolidou posição dominante em etapas decisivas do refino. A disputa global perpassa a extração do minério. Ela é responsável pelos elos decisivos da transformação industrial.

O que está em curso é uma reorganização do poder mundial em torno destas novas cadeias produtivas estratégicas, semicondutores, minerais críticos, defesa e infraestrutura digital, isto é, os materiais do novo poder global. Em um cenário de crescimento global mais frágil, protecionismo seletivo e reindustrialização competitiva, cadeias de suprimento deixam de ser assunto secundário da globalização eficiente e passam a ser tratadas como matéria de soberania. Quem controla o refino, os chips, as baterias, controlará o ritmo da modernização dos outros.

A inteligência artificial radicaliza este quadro. Os debates principais sobre as IA costumam girar em torno de modelos, interfaces, produtividade e automação do trabalho intelectual. Tudo isso importa, mas há um subterrâneo raramente explicitado com a devida contundência. Por trás de toda rede de softwares há uma rede de hardwares. A expansão da IA depende de um salto gigantesco no consumo energético e de recursos. Isso nos obriga a encarar uma questão muito rude: a infraestrutura necessária para sustentar esse salto não cresce na mesma velocidade dos sistemas. Falta rede, falta transformador, faltam linhas de transmissão, faltam anos de investimento acumulado e, talvez o principal, faltam limites ecológicos que suportem essa voracidade. O discurso do crescimento exponencial esbarra no concreto do mundo, no aço, no cobre, no licenciamento, no território sacrificado e no tempo.


Este talvez seja o impasse mais decisivo do nosso tempo. O mundo quer eletrificar transportes, ampliar energias renováveis, sustentar a corrida dos data centers, expandir complexos industriais de alta tecnologia e ainda reforçar máquinas militares em meio a conflitos crescentes. Tudo ao mesmo tempo. Mas a infraestrutura de base não acompanha a voracidade. Redes elétricas envelhecidas, gargalos logísticos e dependência concentrada de poucos países indicam que o sistema quer operar num grau de complexidade superior ao que sua base material suporta.

É justamente aqui que outra leitura de mundo se faz necessária. Porque o discurso dominante tenta resolver esse impasse com a velha fórmula: abrir novas fronteiras extrativistas, flexibilizar regulações, converter territórios em zonas de sacrifício e acelerar a exploração em nome da inovação. A transição energética e digital corre o risco de repetir, em versão verde e algorítmica, a velha colonialidade do poder. 

Troca-se a fumaça velha do fóssil pelo garimpo limpo no selo institucional. Troca-se o petróleo pela mineração crítica. Troca-se o velho saque por um saque com selo ESG. E mais uma vez o Sul é convocado a fornecer o corpo, água, terra, trabalho e paisagem devastada para sustentar o padrão técnico dos centros de comando e dos bilionários do GAFAM.

A literatura crítica recente aponta isso: minerais críticos podem ser fundamentais para a descarbonização, mas sua extração, quando submetida à lógica convencional do capital global, tende a reproduzir conflito social, dano ambiental, concentração de valor e violência territorial similares ou piores que os modelos anteriores. A transição pode ser necessária e ainda assim operar de modo injusto. Uma coisa não anula a outra. É preciso perguntar quem extrai, quem processa, quem lucra, quem adoece, quem perde território e quem define a finalidade social dessa nova base técnica.

O Brasil entra nesse debate com potencialidade e risco. Potencialidade porque possui reservas importantes de minerais estratégicos para a transição energética, como grafita, níquel, manganês, terras raras e lítio, além de matriz elétrica relativamente favorável, base industrial ainda recuperável e capacidade científica instalada. Risco porque sua história socioeconômica mostra uma tendência persistente de ocupar o lugar de provedor de matéria-prima, deixando o refino, a tecnologia, a manufatura complexa e os ganhos estruturais para outros. O país pode ser peça relevante na cadeia global de minerais críticos, mas isso, por si só, não significa desenvolvimento nacional. Exportar o bruto enquanto importa a inteligência industrial do processo é continuar exercendo papel subalterno. O ponto decisivo é saber se o país será capaz de organizar política industrial, financiamento público, capacidade de refino, produção de componentes, domínio tecnológico e critérios socioambientais rigorosos para que essa riqueza se converta, de fato, em soberania material.

As guerras atravessam esse processo inteiro. Porque, além de destruírem sociedades, reordenam as cadeias produtivas, justificam emergências orçamentárias e ampliam a corrida por insumos estratégicos. Guerra produz espólio. Produz a oportunidade de redesenhar territórios inteiros a partir da ruína, reorganizando fluxos de vida e infra estruturas de mercado. 

Em escala global, o aumento do gasto militar mostra que recursos gigantescos estão sendo canalizados para destruição e contenção, enquanto a infraestrutura civil necessária à sustentação de uma transição justa segue em segundo plano. Há algo de irracional num sistema que responde à crise ecológica, energética e social com mais armamento e mais competição predatória, mas não parece ser pauta de quem manda no mundo.

Se prevalecer a lógica atual, veremos a ampliação de um modelo tecnicamente sofisticado e socialmente brutal: mais automação, mais consumo energético, mais extração, mais enclaves de riqueza, mais territórios sacrificados e mais guerra administrando os desesperos do próprio sistema. Uma espécie de futuro de alta tecnologia com estrutura moral arcaica. Muito bem retratado em filmes como Matrix e Exterminador do Futuro.

Mas outra direção ainda pode ser construída.

Uma direção em que transição energética não seja licença para devastar, em que inteligência artificial não seja pretexto para concentração radical de poder, em que soberania não se reduza à disputa bélica entre impérios e em que países como o Brasil recusem o lugar passivo no mundo. Isso exige mais do que política industrial ou regulação. Exige romper com a ideia moderna de desenvolvimento como simples aceleração da máquina, com a recusa dos conhecimentos tradicionais e com a crença de que toda tecnologia nova torna dispensável a memória longa da vida e da terra.

Talvez o nosso tempo peça algo mais profundo. Não só novas fontes de energia, mas nova inteligência histórica. Não só novos minerais, mas nova ética material. Não só inovação, mas capacidade de construir uma ordem menos exploratória, menos colonial e menos suicidária da existência terrena. Antes de reorganizar a economia, precisamos reorganizar a imagem que fazemos de nós mesmos: deixar de pensar o humano como centro soberano do mundo e voltar a nos perceber como parte frágil de uma trama muito maior do que nossa ambição técnica.

No fundo somos apenas símios que refletem sobre si rodando em uma pedra rara no universo, assentados na periferia de uma galáxia cujo destino final é encontrar o grande atrator de Laniakea. E o mais irônico da vida é que talvez nem nossa galáxia alcance seu destino antes do colapso do universo. Em meio a isso continuamos a destruir nossa pedra rara mãe em nome de um progresso ilusório construído por um pensamento moderno que há muito já não responde a vida. Somos tão raros quanto pequenos, mas talvez nos falte entender que nossa pequenez e respeitar o universo para reescrever nossa visão de mundo, como um dia fizeram os polinésios em seus barquinhos navegando o oceano pacífico.

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Palestina livre, Irã livre

A Palestina é a fronteira ética do nosso tempo, mas também um labirinto para o pensamento de esquerda. Um dos erros mais comuns da política são as simplificações: quando o inimigo do meu inimigo vira meu amigo, o povo cai no esquecimento da pauta. Em nome da causa palestina, parte da esquerda global aceita, com silêncio, o autoritarismo do regime iraniano, como se a teocracia fosse elemento aceitável de resistência ao imperialismo ocidental. Essa visão transforma geopolítica em desculpa conveniente para acalmar o campo que não precisa lidar com a complexidade, ainda que deixe povos reais solitários em sua luta por liberdade e justiça social.

A pauta é uma: libertação não deve ser seletiva. Não existe solidariedade consistente com Gaza se ela nos exige fechar os olhos para prisões, torturas, censura e assassinatos ocorridos no Irã. A mesma ética que denuncia genocídio, apartheid, ocupação e massacre, principalmente desde 7 de outubro de 2023, precisa reconhecer que a República Islâmica também governa por coerção, medo e captura da cultura e do cotidiano. O inimigo do meu inimigo não vira automaticamente aliado. Vira apenas outro poder que deve ser questionado.

Aqui nos cabe recusar o “campismo”, essa tentação de escolher um bloco, tratá-lo como único e absolver tudo o que ele faz. Nessa linha, comecemos por um princípio básico: apoio às revoltas populares contra a brutalidade teocrática, sem aceitar sequestro por intervenções externas. Evitando assim a fraude da falsa simetria. Por que chamar a repressão iraniana de ordem por acreditar que ela combate o imperialismo trumpista? A esquerda não pode trocar o povo pela geopolítica. Assim como não podemos negligenciar a dor iraniana como pretexto para guerra e mudança de regime a serviço de interesses alheios.

O gesto mais potente vem de baixo. Ele aparece quando feministas e trabalhadoras iranianas transformam “Jin, Jiyan, Azadî” (Mulher, Vida, Liberdade) numa linguagem de mundo, principalmente a partir do levante de 2022. Ou quando sindicatos e organizações independentes enfrentam a polícia moral da sharia ao mesmo tempo em que se posicionam contra a guerra e contra o genocídio em Gaza. Essa linguagem toca verdadeiramente a luta palestina. Enquanto o conservadorismo comenta na TV pedindo e naturalizando a volta da monarquia iraniana como elemento de transição política, caberia à esquerda uma construção radical de solidariedade real, transversal: a liberdade do corpo em Teerã e a liberdade do corpo em Gaza pertencem ao mesmo campo ético de liberdade.

Quando essa ponte se constrói, ela deixa explícito o que o regime tenta esconder: o Estado iraniano não é a Palestina, na verdade ele é muito mais próximo de um Sionismo de moeda inversa do que supõe nossa liturgia. Assim como a Palestina não precisa da tutela de uma teocracia. E esse talvez tenha sido o maior temor de muitos poderes que envolvem as disputas do Oriente Médio a época de Arafat: o Fatah não defendia uma teocracia a priori, mas um Estado palestino laico.

Sobre o sindicalismo independente iraniano: em declarações recentes (por exemplo, ao longo de 2025), organizações de trabalhadores condenam o genocídio em Gaza e pedem o fim do armamento a Israel, ao mesmo tempo em que rejeitam guerra contra o Irã e denunciam o próprio regime. Isso desmonta o discurso que reduz a região a “governos falando com governos”. Existe, no meio disso, povo falando com povo, costurando redes de luta, resistência e sobrevivência que caminha no underground. Essa política que nasce na rua e não nos palácios é a que nos cabe dialogar, ajudar a construir e visibilizar.

Na diáspora, muita gente confunde “ser contra Israel” com “ser a favor do regime que diz ser contra Israel”. A militância vira pombo correio que defende um Estado que persegue mulheres por um fio de cabelo e prende estudantes por uma frase. Do outro lado, a direita ocidental usa a denúncia dos abusos morais do regime para justificar bombas e sanções que esmagam os pobres. Enquanto a propaganda dos poderes destrói o direito do povo à vida, não construímos pauta nem coletividade concreta para criar uma contra-proposta com pautas concretas e contemporâneas a tudo.

Devemos olhar para a política na escala miúda e multifacetada: solidariedade autônoma, quando pessoas no Irã se reúnem “pela Palestina” fora dos roteiros oficiais. Organizar as lutas através da ética cotidiana: cuidado e proteção mútua. É nessa escala que a esquerda pode apoiar Gaza sem servir de biombo para a teocracia do Teerã, e enfrentar a Teocracia de Teerã sem servir de biombo para a “teocracia” de Washington.

Quando uma dissidente iraniana, perseguida e encarcerada, pede cessar-fogo e ajuda humanitária irrestrita para Gaza, ela mostra que a solidariedade pró-Palestina é radical justamente por não ser cúmplice de tirania teocrática. A voz não deve depender de passaporte estatal, divino ou monárquico estabelecido. O regime iraniano tenta capturar a causa palestina para limpar a própria ficha corrida, tentando vender como sionistas pró-EUA qualquer um que seja contra suas diretrizes. Deixa sem comunicação, mata por divergência religiosa, mata por diferenças de gênero, simplesmente mata. Ao invés de trazer o povo para si, isola-o enquanto aglutina as forças conservadoras ocidentais contra si.

É aqui que a crítica de esquerda precisa ser dura e clara: apoiar a Palestina não autoriza romantizar nenhum regime que reprime seus povos. A luta palestina é por autodeterminação e direito à vida. A luta iraniana, nas ruas e nas prisões, é pelo mesmo motivo. Quando a esquerda troca o povo pelo regime, ela se perde, sacrifica vidas concretas em nome de uma “necessidade histórica” e permite a naturalização de discursos conservadores como o retorno a uma monarquia em pleno século XXI. O futuro do Irã, demarcado pela força da guerra e por anos de repressão, é impossível de prever.

O caminho é complexo e passa por solidariedade popular organizada e fortalecer outra linha ética que não seja essa ética dos poderes constituídos (bem revelada nos Epstein files), com os pés no chão e a cabeça a frente. Cobrar cessar-fogo imediato e fim do massacre em Gaza, fim da ocupação e do apartheid, mas também dizer sem rodeio: não à guerra “sionista-americana” contra o Irã e não à teocracia iraniana. Não existe libertação a partir de mísseis, nem democracia entregue por troca de cadeiras.

A ação radical da esquerda, hoje, é tirar oxigênio político, narrativo e material dos poderes constituídos: pressionar por embargo de armas, boicote e desinvestimento do aparato de ocupação; construir, em sindicatos, movimentos de mulheres, movimentos culturais, universidades e territórios, redes de apoio direto a palestinos e às forças iranianas feministas e trabalhistas que enfrentam a repressão; financiar defesa jurídica, acolhimento, comunicação, tradução e cuidado mental ao povo que mais sofre com os danos da guerra, porque guerra atravessa o corpo e dura décadas.

Em vez de torcer por bombas como “atalho”, o retorno a monarquias caducas, ampliar as vozes das ruas, justamente aquelas que não tem espaço nas mídias ocidentais e que também estão silenciadas pelos poderes iranianos. Acolher e fortalecer as relações de vizinhança, greve, mutualismo, proteção mental. Sem propaganda, sem tutela, sem terceirizar a ética ou a solução para os grandes poderes globais, cujo principal foco não é o povo palestino ou iraniano.

Palestina livre. Irã livre. A esquerda precisa caber inteira nessa luta.

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