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Uma breve reflexão a partir do terremoto na Colômbia

A resposta do Estado colombiano ao terremoto dos últimos dias expõe uma questão política que ultrapassa a emergência imediata: que tipo de soberania e de capacidade estatal precisamos construir em um mundo atravessado por crises cada vez mais complexas, interdependentes e territorialmente desiguais.

O governo colombiano mobilizou estruturas nacionais de emergência, equipes de busca e salvamento, forças de segurança e mecanismos extraordinários de resposta. Ao mesmo tempo, produziu uma contradição importante. A resistência inicial à incorporação de equipes internacionais especializadas revelou uma concepção de gestão fortemente centralizada, orientada pela demonstração de autossuficiência e de controle nacional da resposta. Em um momento no qual cada hora pode significar vidas, retardar cooperação técnica externa é uma decisão política que precisa ser examinada para além da retórica ideológico-patriótica.

Soberania e capacidade de comando, diante de catástrofes de grande escala, exigem também humildade institucional, articulação e mobilização. Reconhecer rapidamente os próprios limites também é capacidade de Estado. Um governo forte amplia suas possibilidades de ação ao incorporar recursos externos dentro de uma estratégia própria, coordenando governos locais, universidades, forças de emergência, sociedade civil, organismos multilaterais e cooperação internacional sem perder direção política e sem se infantilizar diante do marketing ideológico que sustenta imagens de governo.

A distribuição territorial da resposta também importa. Quando o centro concentra decisões e determinados territórios permanecem dependentes de recursos improvisados ou capacidades locais frágeis, a centralização revela seus limites. Capacidade estatal se mede pela capilaridade concreta da ação.

É também nesse ponto que as bandeiras do marketing eleitoral começam a perder força. A mobilização da pátria, da bandeira e da unidade no campo do abstracionismo eleitoreiro pode produzir coesão social, levar candidatos ao poder, mas catástrofes não deveriam se transformar em palco de marketing ideológico. A pandemia já demonstrou isso no Brasil. Há momentos em que o discurso político precisa baixar o volume para que apareçam a técnica, a ciência, a logística, a engenharia, a saúde pública e a organização social e material dos territórios.

O terremoto colombiano possui origem geológica, mas ocorre em um mundo no qual crises ambientais, climáticas, sanitárias, energéticas e infraestruturais se tornam interdependentes. A crise climática é global em sua dinâmica e profundamente territorial e desigual em seus efeitos. Amplia eventos extremos, deslocamentos populacionais, pressões sobre sistemas urbanos e interrupções de cadeias logísticas. Já estamos neste mundo. Isso exige construções político-intelectuais menos inflamadas pelos recortes de comunicação e mais comprometidas com projetos de curto, médio e longo prazo.

No curto prazo, entram protocolos de emergência, cadeias de comando, equipamentos, informação e cooperação internacional. No médio prazo, sistemas de defesa civil, formação técnica, logística, infraestrutura, redes hospitalares, mapeamento de riscos e fortalecimento das capacidades municipais. No longo prazo, planejamento territorial, adaptação climática, autonomia tecnológica, política industrial, produção científica e integração regional.

Essas escalas precisam conversar. E para isso é preciso organizar uma mesa ampliada, mas minimamente objetiva: entender quem produz informação, quem decide, quem executa, quem possui capilaridade territorial, quem controla recursos e onde estão as capacidades que faltam. Municípios, universidades, governos nacionais, organizações sociais, setor produtivo e organismos internacionais não cumprem o mesmo papel, nem precisam cumprir. A articulação também não elimina os conflitos entre esses atores, seria ingênuo imaginar isso. Ela constrói convergências possíveis dentro dos dissensos. Não é uma mesa simples. Mas é uma mesa que precisa existir. Um projeto de nação exige essa capilaridade, capacidade de se articular, produzir continuidade e construir convergências.

É aí que a distinção entre nacionalismo abstrato propagandístico e projeto de nação ganha potência. O nacionalismo opera com símbolos de adesão imediata e simplificação dos conflitos; tudo pode acabar reduzido a soluções mágicas, uma cloroquina para se curar da dor. Problemas complexos pedem justamente o contrário da solução mágica: identificar escalas, reconhecer capacidades, distribuir responsabilidades e saber coordenar redes de conflitos.

A cooperação internacional também pode ser pensada como política permanente de soberania. Países podem construir acordos de reciprocidade, protocolos regionais de emergência, bancos compartilhados de equipamentos, redes científicas e equipes especializadas mobilizáveis entre fronteiras. Para a América Latina, essa poderia ser uma agenda concreta de integração, menos dependente de grandes declarações diplomáticas e mais vinculada à construção cotidiana de pautas comuns.

A Amazônia ajuda a compreender essa necessidade sem relativizar soberanias nacionais. O bioma, suas bacias hidrográficas, fluxos atmosféricos e sistemas ecológicos atravessam diferentes países, enquanto cada território permanece sob a soberania de seu respectivo Estado. Cooperar sobre fenômenos transfronteiriços não significa internacionalizar a gestão territorial. Significa reconhecer que a geografia não se encerra onde termina uma fronteira político-administrativa e que Estados fortes também precisam saber cooperar para proteger seus próprios povos e territórios.

Uma boa solução técnica ganha força quando encontra arquitetura política para sustentá-la. Articular significa reconhecer interesses, potencialidades, conflitos e construir convergências suficientes para transformar conhecimento em decisão. A política não substitui a técnica, e a técnica não governa sozinha. O difícil, e talvez o mais interessante, é construir as condições políticas para que boas soluções efetivamente aconteçam.

A soberania do século XXI será, a meu ver,  cada vez mais medida por essa capacidade relacional e territorial: organizar recursos próprios, reconhecer limites, acionar parceiros sem subordinação e transformar a cooperação e troca de saberes em aumento de potência política, técnica e territorial. Talvez seja justamente no intervalo entre a emergência e o horizonte imponderável que teremos de aprender a conceber projetos de nação capazes de transformar crises em aprendizado institucional, articular sociedade e conhecimento e produzir respostas à altura da complexidade do mundo que já chegou.

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