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Fortuna

As encruzilhadas nos presenteiam com a vida. Era um sábado à tarde. Eu estava no bowl de Irajá, palco do skate antes mesmo do skate virar esporte. Foi ali que vi, pela primeira vez, um dos maiores artistas que conheci na vida.

Lembro que ele panfletava um show de death metal, no qual faria a abertura tocando Jorge Vercillo e Raul Seixas ao violão. Ali pensei: esse maluco é o cara mais rock and roll que eu conheço. O tempo, o subúrbio e a música foram nos aproximando aos poucos. Tempos depois, fizemos parte do mesmo coletivo cultural, o Consciência Criativa. Foram anos de suor, amizade e movimento sem verba, em uma época em que pouquíssimos faziam cultura nos subúrbios.

Fortuna se fez presente, carregava o destino no próprio nome. Onde muitos o viam como um pária social, preconceito comum imposto aos meninos periféricos, os mais próximos descobriam sua imensa inteligência. No rosto, um olhar digno dos guerrilheiros. Por dentro, a sensibilidade rara dos poetas. Anderson era capaz de articular Raul Seixas, Botafogo, Neruda, García Lorca, teatro, música e rua com uma naturalidade que pouca gente tem. Transitava com o mesmo fascínio entre a canção simples de um bar e a grandeza de um show dos Rolling Stones. Fortuna sabia o que era arte porque, para ele, ela nunca esteve separada da vida. Estava no feijão com arroz, na conversa da esquina, na canção improvisada, na feira de domingo.

Era um garoto de sonhos simples: tocar no espaço cultural do próprio bairro, ter uma banda, jogar bola. Mas carregava um universo que mal cabia na própria mente. Anos se passaram, e foi um privilégio quando conseguimos criar para ele um presente que, no fim, virou presente para todos nós. Organizamos uma Suburbagem em que, literalmente, criamos uma banda para Fortuna se apresentar. Chamei alguns dos melhores improvisadores com quem convivi. Não tinha outro jeito. Para tocar com Fortuna, era preciso ser capaz de explodir fora da curva. A banda deveria entrar no universo dele, e não o contrário.

E assim foi.

Fizemos alguns ensaios para tentar entender aquele universo e partimos para a apresentação. Vieram improvisos, canções de amor, de revolta, declamações poéticas, gestos teatrais, movimentos imprevisíveis. Éramos praticamente uma instalação disfarçada de banda.

Lembro quando Fortuna desceu do palco para assistir à própria banda, sem encenação, por puro prazer. Ficamos mais de dez minutos improvisando e pedindo, pelo amor de Deus, que ele retornasse ao palco para finalizarmos a música. Lembro também da minha cara estupefata na primeira vez que ouvi a letra de “Andarilho das Estrelas”. O destino prega essas peças. Anderson era uma espécie de Van Gogh perdido no seu tempo. Sua arte não cabia na caixa das pasteurizações.

Lá por 2010, eu sofria para terminar a graduação, atravessado por milhares de problemas. Lembro que, numa chuva de verão, daquelas que entravam pela minha casa através dos telhados quebrados, perdi meu rádio. Comentei de leve na roda da galera, quase sem importância. Por mim, tudo bem. O que era um rádio para quem já tinha perdido tanta coisa em tão pouco tempo? Mas, um dia, surgiram Fortuna e Labanca com um rádio na mão. Anderson repetia, meio incrédulo: “Não cara, você não pode ficar sem rádio, você é artista, precisa ouvir música”. Ali entendi o quanto vocês apostaram em mim. Quantas vezes eu quase larguei a FAU e uma conversa ou um gesto maluco desses vindo de vocês me fazia pensar: tenho que seguir em frente.

Você sempre me lembrou que, antes de eu ser gente, eu era músico rs. Quando criei a animação para a música “Vanessa”, do André Figueira, pensei em um roteiro baseado em um jovem deslocado descobrindo a metrópole, com suas inúmeras contradições. Pensei: quem melhor representaria o profeta que apontaria o caminho para esse jovem? Ninguém menos que o próprio Fortuna. Do jeito dele, ele exercia esse papel. Liderava pela arte. Quantos eventos não organizamos apenas para ter o prazer de criar um palco para Fortuna se apresentar, sem ele ter nos pedido isso?

Quem não se lembra de sua clássica indagação: Qual grande artista a Lona revelou?

Seu poema maior, “A Cidade, o Caos”, foi um soco no meu estômago. Viver essa cidade como nós vivemos, e depois ouvir essa poesia declamada como sangue que cruza a América Latina por dentro do Para Pedro, se chocava brutalmente com a minha formação de arquiteto. A cidade, o Caos é o meu espaço vivido, a arquitetura que aprendi na infância. 

Não à toa, antes da primeira linha do resumo da minha dissertação, você está citado lá. Um pequeno trecho seu que representa tudo que pesquisei para que outros arquitetos leiam e conheçam aquilo que nossa turma chama de Subúrbio Carioca. Uma aula de cidade em um poema.

Eu poderia dizer que esse poema, imenso, foi sua grande obra, mas seria injusto. Sua obra maior foi a própria vida experimentada integralmente em forma de arte, como pouquíssimos tiveram coragem de viver, com todo o gigantesco ônus e todo o raro bônus dessa escolha.

A vida foi dura para todos nós que andamos juntos pelas ruas de Irajá e Vista Alegre, e extremamente covarde com você. Uma série de destinos entrecruzados, de amigos se costurando e se ajudando na tragédia que é sobreviver sendo pobre e tentando ser feliz sendo artista.

Você se foi, meu camarada. 

Eu não estava preparado para isso. Honestamente, ainda não estou. Mas você segue presente em nós que dividimos contigo esse tablado chamado vida, nas músicas que escutamos, nos palcos que inventamos, nas duras ruas que atravessamos, nos gestos que ficaram e nessa geração de bairro que você ajudou a mover culturalmente sem nunca precisar pedir licença ao mundo.

Qual grande artista a lona revelou? Fortuna.Você!

Anderson Fortuna foi grande. Grande demais para o reconhecimento pequeno que este país costuma reservar aos seus artistas pobres. Grande demais, também, para caber no esquecimento.

Todos nós, atravessados de algum modo pela tua presença, tivemos o raro privilégio de dividir contigo o chão deste Subúrbio, as agruras da vida e essa arte que ainda insiste em nos manter vivos na Terra. Agora meu camarada andarilho errante que carregou todos os sentimentos do mundo dentro de ti, siga livre, caminhando dentro de todos nós.

Um último e triste feliz aniversário ao camarada,

Anderson Fortuna,

Poeta, músico, artista e acima de tudo um Amigo.

Desenho autoral.
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O Congresso contra o Povo

O conservadorismo acolheu e organizou os mais pobres. Isso precisa ser sempre lembrado com alguma honestidade. Ele ocupou vazios, criou pertencimento, deu escuta e destino para gente que muitas vezes encontrou na esquerda apenas contradições e uma espécie de superioridade moral desgastada. Até aí não há tanta novidade. Desde pelo menos 2014, o país vive esse deslocamento, e fingir que ele não existe apenas aprofunda o nosso erro.

O ponto novo, porém, é que esse conservadorismo deixou de ser apenas sentimento social e passou a operar como poder. Quando toca o Congresso, quando define quais pautas avançam, quais travam, quais vidas merecem acesso ao orçamento público e quais podem seguir no improviso e na fome, ele revela o Brasil que deseja construir. E esse Brasil, muitas vezes, é duro com quem já não aguenta mais.

Se a esquerda tem o presidente, o conservadorismo tem o congresso e opera com ele para ter espaço de poder e gestão. Não amigos, não vivemos um governo de esquerda, mas sim o governo que sempre vivemos, esse parlamentarismo presidencialista esquisito onde as forças precisam manter sempre um grau de negociação para se manter no poder.

Em qualquer periferia de cidade grande e em muitos recantos de cidades médias e pequenas, existe um País à parte, onde a fome ainda organiza o cotidiano. Lugares onde viver com menos de um salário mínimo é regra, e ganhar um salário mínimo já parece vitória. Nesses territórios, o Bolsa Família não pode ser tratado como abstração eleitoral e cabresto, ele se torna a única estrutura real de sobrevivência. Organiza a compra da vida, a comida da criança, o remédio, o que dá pra organizar e ainda falta. E infelizmente, seguirá organizando a vida enquanto o Brasil não tiver um sistema produtivo capaz de absorver sua própria força de trabalho com dignidade e mínimo direito à mobilidade social.

A escala 6×1, que no fundo funciona como um 7×0 disfarçado, soma-se à miséria salarial, ao transporte exaustivo, ao aluguel impossível enquanto crescem alphavilles e studios e à ausência de horizonte palpável. O resultado é uma massa gigantesca de vulnerabilidade e sem esperança. Gente que trabalha muito, ganha pouco, descansa mal, adoece cedo e quase nunca consegue transformar esforço em prazer de vida. O país cobra disciplina de quem vive no limite, mas oferece muito pouco além da sobrevivência, na verdade nem a sobrevivência o País oferece.

Esse é o ciclo vicioso profundo. Não se levanta uma Nação condenando sua população a correr em círculo até morrer. Um trabalhador exausto não empreende sua liberdade. Uma mãe que passa três horas por dia no transporte não consegue “qualificar-se” por milagre. Um jovem que entra cedo demais no trabalho precário perde escola. O Brasil fala em produtividade, mas organiza a vida popular para desperdiçar inteligência humana. Maio é um mês significativo para os trabalhadores de um País cuja cultura foi forjada no escravagismo. 

A saída, a meu ver, passa por muitas lutas, porém quero deixar escrito alguns recortes. Um deles, ela exige tratar política social como infraestrutura de sustento da Nação. O SUS, apesar de todos os problemas, mostra uma coisa fundamental: quando o Estado chega de forma capilarizada, em rede, ocupando território, fomentando formação profissional, e garantindo continuidade política, ele muda a vida concreta. O mesmo princípio precisa orientar outras partes da estrutura social: renda, trabalho, cuidado, educação técnica, mobilidade e produção. Não basta distribuir benefício via política pública e deixar o restante da vida entregue ao mercado ruim, ao ônibus caro, ao aluguel predatório e ao subemprego moedor de gente. É preciso construir uma rede pública de política de sustentação da vida, integrada no território, capaz de enxergar família, bairro, escola, posto de saúde, transporte, cultura e emprego como partes do mesmo problema.

Isso passa por uma política nacional de trabalho honesta e decente, incapaz de se formar neste congresso de legisladores de causa própria, defensores de coisas espúrias. Como pensar política com estes seres abjetos incapazes de enxergar o país além da própria fazenda? O que dizer com palavras bonitas e sinceras? 

Há nesse Congresso uma venalidade profunda, uma mistura de pusilanimidade ética e arrogância oligárquica, gente que se ajoelha diante dos donos da terra (quando não são os próprios donos), da bala e do dinheiro e se vende barato para doleiros e cafetões de luxo, mas endurece a voz contra quem vive de salário, de benefício, do bico e com dívida. São capatazes legislativos de um país velho, cortesãos do atraso, defensores de pactos iníquos e projetos predatórios, enquanto chamam de responsabilidade aquilo que, no fundo, é apenas crueldade organizada. Essa é a gente que vai caminhar pelas ruas do seu bairro fingindo que gostam de comer pastel com caldo de cana. A cara de nojo que fazem quando mordem um pastel, não é pelo pastel, é pelo nojo que sentem ao estarem perto demais da gente. 

Tem pavor de pautas como: Redução progressiva da jornada, valorização real do salário mínimo, expansão da educação profissional ligada às cadeias produtivas locais, crédito orientado para pequenos produtores. Esse governo se torna tão ignorante que sequer enxerga que estas são pautas de caráter liberal.  Mas ainda cito mais possibilidades para construir: cooperativas, economia do cuidado, indústria verde, construção civil pública, saneamento, reabilitação de moradias e infraestrutura urbana nas periferias. 

O país precisa enfrentar essas criaturas sem receio. Criar um projeto que nos possibilite fortalecer a produção de vida, gerar trabalho e descanso para as pessoas reais, e não apenas empurrar corpos pobres para a vala da história, como empurraram para o Oceano de Sangue, Kalunga Grande (aprendi esse termo lendo o artigo da Vivian Carla Garcia Ferreira aqui).

Aqui também, a técnica pública institucional não pode ser resumida à burocracia de gabinete que atende a esses poderes de forma acrítica. Ela precisa medir tempo de deslocamento, renda disponível, acesso a creche, saúde mental, custo da alimentação, informalidade, produtividade territorial e capacidade real de permanência das famílias em seus bairros.

Um projeto sério para o Brasil começará quando a vida popular deixar de ser tratada como resíduo. O pobre precisa de tempo, renda, cidade, descanso, formação, crédito, saúde, cultura e poder sobre o seu próprio território. Enquanto isso não acontecer, seguiremos discutindo moralidade no alto, enquanto embaixo o país real tenta decidir se compra comida, paga passagem ou continua entregue a qualquer destino.

A boa política é aquela que transforma sobrevivência em caminho real de futuro. Esta política a meu ver, deve transpassar esse congresso e se possível desferir o máximo de danos a parte desta máquina público-privada usada a benefício próprio dessa gente estranha que ocupa as câmaras de poder.

Autoria própria
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Reviver o Centro, assassinar o Lume.

A obra no Buraco do Lume é mais um exemplo da escolha do poder público de construir uma cidade de aparência.

A intervenção segue o mesmo roteiro: mexe-se no espaço, vende-se a ideia de renovação sobre um território tratado como vazio, produz-se stand e material de divulgação e se constrói com apagamento de memória, sem se importar com o impacto real sobre quem vive e circula ali. O problema também é o mesmo de sempre: tratar o espaço como peça de marketing, enquanto transforma o que é bem comum, social e público em ativo privado.

O Buraco do Lume não é um terreno neutro no centro do Rio. É um espaço consolidado na experiência urbana da região. Tem história, tem função, tem presença, tem política.

Qualquer intervenção ali exigiria, no mínimo, debate público sério, leitura mais profunda da área e alguma inteligência política sobre o que significa agir num ponto tão simbólico e conectado do Centro. Mas o que se vê é, mais uma vez, uma ação com pouca densidade e diálogo e, no fundo, mais uma operação subordinada à especulação imobiliária desta cidade.

Existe um vício administrativo no Rio: a crença de que intervir fisicamente já é, por si só, governar bem. Não é. Sem escuta, sem participação, sem relação com a vida concreta do lugar, obra pode ser só maquiagem urbana e movimento econômico para um nicho muito específico de ricos da cidade. Tudo isso com aval de uma prefeitura que licencia o que interessa a quem pode pagar.

O que incomoda não é apenas a intervenção em si, mas a lógica que ela expressa. Uma lógica que prefere controle à convivência, desenho à complexidade, mercado à política urbana.

O Buraco do Lume merecia mais. Merecia menos solução apressada e mais reflexão social. Realização de destombamento, aumento de gabarito, permissão de construção de imóveis pequenos é um triste fim para este remanescente do Morro do Castelo, pólo de grandes movimentos culturais e políticos da Cidade do Rio de Janeiro. E tudo isso feito com a conivência de prefeituras e suas secretarias garantindo todas as licenças necessárias para as construtoras.

Vamos jogar ao relento um espaço livre fundamental para as conexões entre pedestres, usuários do Centro e comerciantes. Mas o movimento da prefeitura, infelizmente, segue o padrão: substituir cidade, e tudo o que essa palavra significa, por cenografia urbana.

No fim, fica a impressão de sempre: o Rio continua tratando seus espaços importantes como palco de intervenção superficial e negócios econômicos dos patrocinadores do poder. O que falta é visão de cidade. Uma cidade que morre enquanto seus espaços livres cedem lugar a empreendimentos ultracompactos voltados à valorização imobiliária, quando o interesse público deveria estar voltado à produção de habitação social e à preservação da vida urbana real.

Revier Centro é Reviver o lucro de alguns enquanto noventa por cento da cidade está entregue à própria sorte. 

Imagem ilustrativa: Bloco de Carnaval no Buraco do Lume:

Imagem retirada do artigo: projetocolabora.com.br/ods11/rioerua-o-buraco-do-lume-e-100-anos-de-cobica-no-centro/

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Terra Rara e terras raras: pequeno texto sobre o impasse material do nosso tempo

Segue um pequeno texto sobre uma contradição pertinente do mundo contemporâneo. Falamos muito em inteligência artificial, transição energética, inovação, automação de futuro. Ao mesmo tempo, talvez tenhamos que  recordar o óbvio: não existe nuvem sem território físico, não existe inteligência artificial sem eletricidade, não existe transição energética sem mineração em larga escala, e não existe crescimento exponencial sustentado quando a base material do sistema opera no limite máximo. O século XXI promete leveza digital, mas se apoia sobre uma infraestrutura física brutalmente pesada.

Há um fetiche comum no debate público e corporativo. Falamos de tecnologia como se ela brotasse do nada, como se fosse resultado puro do engenho humano pairando acima da terra. Mas a história real é mais rude. Data centers exigem energia estável, água para resfriamento, linhas de transmissão, cabos, transformadores, terras baratas e capacidade de conexão. Painéis solares exigem prata. Turbinas eólicas, carros elétricos, sistemas militares e eletrônica de precisão exigem terras raras e outros minerais críticos. A dita economia do futuro nasce, portanto, de uma nova corrida sobre o solo. E como quase toda corrida por recursos em larga escala, ela rapidamente se converte em guerras geopolíticas.

O mercado da prata nos ajuda a entender um pouco isso. A prata ocupa um papel duplo, financeiro e industrial. Ao mesmo tempo em que é historicamente e segundo metal mais importante do mercado, embora mais raro e difícil de extrair que o ouro, também é muito importante em aplicações industriais, eletrônicas e fotovoltaicas. Isso significa que sua demanda já não pode ser lida dentro de um hibrido difícil de equilibrar: o especulativo do mercado financeiro e o necessário do consumo industrial. As terras raras, por sua vez, revelam um problema ainda mais pesado. Tanto pela existência geológica complexa desses elementos, quanto pela capacidade de processá-los, refiná-los e incorporá-los às cadeias industriais de maior valor agregado. A China percebeu isso antes de boa parte do Ocidente e consolidou posição dominante em etapas decisivas do refino. A disputa global perpassa a extração do minério. Ela é responsável pelos elos decisivos da transformação industrial.

O que está em curso é uma reorganização do poder mundial em torno destas novas cadeias produtivas estratégicas, semicondutores, minerais críticos, defesa e infraestrutura digital, isto é, os materiais do novo poder global. Em um cenário de crescimento global mais frágil, protecionismo seletivo e reindustrialização competitiva, cadeias de suprimento deixam de ser assunto secundário da globalização eficiente e passam a ser tratadas como matéria de soberania. Quem controla o refino, os chips, as baterias, controlará o ritmo da modernização dos outros.

A inteligência artificial radicaliza este quadro. Os debates principais sobre as IA costumam girar em torno de modelos, interfaces, produtividade e automação do trabalho intelectual. Tudo isso importa, mas há um subterrâneo raramente explicitado com a devida contundência. Por trás de toda rede de softwares há uma rede de hardwares. A expansão da IA depende de um salto gigantesco no consumo energético e de recursos. Isso nos obriga a encarar uma questão muito rude: a infraestrutura necessária para sustentar esse salto não cresce na mesma velocidade dos sistemas. Falta rede, falta transformador, faltam linhas de transmissão, faltam anos de investimento acumulado e, talvez o principal, faltam limites ecológicos que suportem essa voracidade. O discurso do crescimento exponencial esbarra no concreto do mundo, no aço, no cobre, no licenciamento, no território sacrificado e no tempo.


Este talvez seja o impasse mais decisivo do nosso tempo. O mundo quer eletrificar transportes, ampliar energias renováveis, sustentar a corrida dos data centers, expandir complexos industriais de alta tecnologia e ainda reforçar máquinas militares em meio a conflitos crescentes. Tudo ao mesmo tempo. Mas a infraestrutura de base não acompanha a voracidade. Redes elétricas envelhecidas, gargalos logísticos e dependência concentrada de poucos países indicam que o sistema quer operar num grau de complexidade superior ao que sua base material suporta.

É justamente aqui que outra leitura de mundo se faz necessária. Porque o discurso dominante tenta resolver esse impasse com a velha fórmula: abrir novas fronteiras extrativistas, flexibilizar regulações, converter territórios em zonas de sacrifício e acelerar a exploração em nome da inovação. A transição energética e digital corre o risco de repetir, em versão verde e algorítmica, a velha colonialidade do poder. 

Troca-se a fumaça velha do fóssil pelo garimpo limpo no selo institucional. Troca-se o petróleo pela mineração crítica. Troca-se o velho saque por um saque com selo ESG. E mais uma vez o Sul é convocado a fornecer o corpo, água, terra, trabalho e paisagem devastada para sustentar o padrão técnico dos centros de comando e dos bilionários do GAFAM.

A literatura crítica recente aponta isso: minerais críticos podem ser fundamentais para a descarbonização, mas sua extração, quando submetida à lógica convencional do capital global, tende a reproduzir conflito social, dano ambiental, concentração de valor e violência territorial similares ou piores que os modelos anteriores. A transição pode ser necessária e ainda assim operar de modo injusto. Uma coisa não anula a outra. É preciso perguntar quem extrai, quem processa, quem lucra, quem adoece, quem perde território e quem define a finalidade social dessa nova base técnica.

O Brasil entra nesse debate com potencialidade e risco. Potencialidade porque possui reservas importantes de minerais estratégicos para a transição energética, como grafita, níquel, manganês, terras raras e lítio, além de matriz elétrica relativamente favorável, base industrial ainda recuperável e capacidade científica instalada. Risco porque sua história socioeconômica mostra uma tendência persistente de ocupar o lugar de provedor de matéria-prima, deixando o refino, a tecnologia, a manufatura complexa e os ganhos estruturais para outros. O país pode ser peça relevante na cadeia global de minerais críticos, mas isso, por si só, não significa desenvolvimento nacional. Exportar o bruto enquanto importa a inteligência industrial do processo é continuar exercendo papel subalterno. O ponto decisivo é saber se o país será capaz de organizar política industrial, financiamento público, capacidade de refino, produção de componentes, domínio tecnológico e critérios socioambientais rigorosos para que essa riqueza se converta, de fato, em soberania material.

As guerras atravessam esse processo inteiro. Porque, além de destruírem sociedades, reordenam as cadeias produtivas, justificam emergências orçamentárias e ampliam a corrida por insumos estratégicos. Guerra produz espólio. Produz a oportunidade de redesenhar territórios inteiros a partir da ruína, reorganizando fluxos de vida e infra estruturas de mercado. 

Em escala global, o aumento do gasto militar mostra que recursos gigantescos estão sendo canalizados para destruição e contenção, enquanto a infraestrutura civil necessária à sustentação de uma transição justa segue em segundo plano. Há algo de irracional num sistema que responde à crise ecológica, energética e social com mais armamento e mais competição predatória, mas não parece ser pauta de quem manda no mundo.

Se prevalecer a lógica atual, veremos a ampliação de um modelo tecnicamente sofisticado e socialmente brutal: mais automação, mais consumo energético, mais extração, mais enclaves de riqueza, mais territórios sacrificados e mais guerra administrando os desesperos do próprio sistema. Uma espécie de futuro de alta tecnologia com estrutura moral arcaica. Muito bem retratado em filmes como Matrix e Exterminador do Futuro.

Mas outra direção ainda pode ser construída.

Uma direção em que transição energética não seja licença para devastar, em que inteligência artificial não seja pretexto para concentração radical de poder, em que soberania não se reduza à disputa bélica entre impérios e em que países como o Brasil recusem o lugar passivo no mundo. Isso exige mais do que política industrial ou regulação. Exige romper com a ideia moderna de desenvolvimento como simples aceleração da máquina, com a recusa dos conhecimentos tradicionais e com a crença de que toda tecnologia nova torna dispensável a memória longa da vida e da terra.

Talvez o nosso tempo peça algo mais profundo. Não só novas fontes de energia, mas nova inteligência histórica. Não só novos minerais, mas nova ética material. Não só inovação, mas capacidade de construir uma ordem menos exploratória, menos colonial e menos suicidária da existência terrena. Antes de reorganizar a economia, precisamos reorganizar a imagem que fazemos de nós mesmos: deixar de pensar o humano como centro soberano do mundo e voltar a nos perceber como parte frágil de uma trama muito maior do que nossa ambição técnica.

No fundo somos apenas símios que refletem sobre si rodando em uma pedra rara no universo, assentados na periferia de uma galáxia cujo destino final é encontrar o grande atrator de Laniakea. E o mais irônico da vida é que talvez nem nossa galáxia alcance seu destino antes do colapso do universo. Em meio a isso continuamos a destruir nossa pedra rara mãe em nome de um progresso ilusório construído por um pensamento moderno que há muito já não responde a vida. Somos tão raros quanto pequenos, mas talvez nos falte entender que nossa pequenez e respeitar o universo para reescrever nossa visão de mundo, como um dia fizeram os polinésios em seus barquinhos navegando o oceano pacífico.

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Palestina livre, Irã livre

A Palestina é a fronteira ética do nosso tempo, mas também um labirinto para o pensamento de esquerda. Um dos erros mais comuns da política são as simplificações: quando o inimigo do meu inimigo vira meu amigo, o povo cai no esquecimento da pauta. Em nome da causa palestina, parte da esquerda global aceita, com silêncio, o autoritarismo do regime iraniano, como se a teocracia fosse elemento aceitável de resistência ao imperialismo ocidental. Essa visão transforma geopolítica em desculpa conveniente para acalmar o campo que não precisa lidar com a complexidade, ainda que deixe povos reais solitários em sua luta por liberdade e justiça social.

A pauta é uma: libertação não deve ser seletiva. Não existe solidariedade consistente com Gaza se ela nos exige fechar os olhos para prisões, torturas, censura e assassinatos ocorridos no Irã. A mesma ética que denuncia genocídio, apartheid, ocupação e massacre, principalmente desde 7 de outubro de 2023, precisa reconhecer que a República Islâmica também governa por coerção, medo e captura da cultura e do cotidiano. O inimigo do meu inimigo não vira automaticamente aliado. Vira apenas outro poder que deve ser questionado.

Aqui nos cabe recusar o “campismo”, essa tentação de escolher um bloco, tratá-lo como único e absolver tudo o que ele faz. Nessa linha, comecemos por um princípio básico: apoio às revoltas populares contra a brutalidade teocrática, sem aceitar sequestro por intervenções externas. Evitando assim a fraude da falsa simetria. Por que chamar a repressão iraniana de ordem por acreditar que ela combate o imperialismo trumpista? A esquerda não pode trocar o povo pela geopolítica. Assim como não podemos negligenciar a dor iraniana como pretexto para guerra e mudança de regime a serviço de interesses alheios.

O gesto mais potente vem de baixo. Ele aparece quando feministas e trabalhadoras iranianas transformam “Jin, Jiyan, Azadî” (Mulher, Vida, Liberdade) numa linguagem de mundo, principalmente a partir do levante de 2022. Ou quando sindicatos e organizações independentes enfrentam a polícia moral da sharia ao mesmo tempo em que se posicionam contra a guerra e contra o genocídio em Gaza. Essa linguagem toca verdadeiramente a luta palestina. Enquanto o conservadorismo comenta na TV pedindo e naturalizando a volta da monarquia iraniana como elemento de transição política, caberia à esquerda uma construção radical de solidariedade real, transversal: a liberdade do corpo em Teerã e a liberdade do corpo em Gaza pertencem ao mesmo campo ético de liberdade.

Quando essa ponte se constrói, ela deixa explícito o que o regime tenta esconder: o Estado iraniano não é a Palestina, na verdade ele é muito mais próximo de um Sionismo de moeda inversa do que supõe nossa liturgia. Assim como a Palestina não precisa da tutela de uma teocracia. E esse talvez tenha sido o maior temor de muitos poderes que envolvem as disputas do Oriente Médio a época de Arafat: o Fatah não defendia uma teocracia a priori, mas um Estado palestino laico.

Sobre o sindicalismo independente iraniano: em declarações recentes (por exemplo, ao longo de 2025), organizações de trabalhadores condenam o genocídio em Gaza e pedem o fim do armamento a Israel, ao mesmo tempo em que rejeitam guerra contra o Irã e denunciam o próprio regime. Isso desmonta o discurso que reduz a região a “governos falando com governos”. Existe, no meio disso, povo falando com povo, costurando redes de luta, resistência e sobrevivência que caminha no underground. Essa política que nasce na rua e não nos palácios é a que nos cabe dialogar, ajudar a construir e visibilizar.

Na diáspora, muita gente confunde “ser contra Israel” com “ser a favor do regime que diz ser contra Israel”. A militância vira pombo correio que defende um Estado que persegue mulheres por um fio de cabelo e prende estudantes por uma frase. Do outro lado, a direita ocidental usa a denúncia dos abusos morais do regime para justificar bombas e sanções que esmagam os pobres. Enquanto a propaganda dos poderes destrói o direito do povo à vida, não construímos pauta nem coletividade concreta para criar uma contra-proposta com pautas concretas e contemporâneas a tudo.

Devemos olhar para a política na escala miúda e multifacetada: solidariedade autônoma, quando pessoas no Irã se reúnem “pela Palestina” fora dos roteiros oficiais. Organizar as lutas através da ética cotidiana: cuidado e proteção mútua. É nessa escala que a esquerda pode apoiar Gaza sem servir de biombo para a teocracia do Teerã, e enfrentar a Teocracia de Teerã sem servir de biombo para a “teocracia” de Washington.

Quando uma dissidente iraniana, perseguida e encarcerada, pede cessar-fogo e ajuda humanitária irrestrita para Gaza, ela mostra que a solidariedade pró-Palestina é radical justamente por não ser cúmplice de tirania teocrática. A voz não deve depender de passaporte estatal, divino ou monárquico estabelecido. O regime iraniano tenta capturar a causa palestina para limpar a própria ficha corrida, tentando vender como sionistas pró-EUA qualquer um que seja contra suas diretrizes. Deixa sem comunicação, mata por divergência religiosa, mata por diferenças de gênero, simplesmente mata. Ao invés de trazer o povo para si, isola-o enquanto aglutina as forças conservadoras ocidentais contra si.

É aqui que a crítica de esquerda precisa ser dura e clara: apoiar a Palestina não autoriza romantizar nenhum regime que reprime seus povos. A luta palestina é por autodeterminação e direito à vida. A luta iraniana, nas ruas e nas prisões, é pelo mesmo motivo. Quando a esquerda troca o povo pelo regime, ela se perde, sacrifica vidas concretas em nome de uma “necessidade histórica” e permite a naturalização de discursos conservadores como o retorno a uma monarquia em pleno século XXI. O futuro do Irã, demarcado pela força da guerra e por anos de repressão, é impossível de prever.

O caminho é complexo e passa por solidariedade popular organizada e fortalecer outra linha ética que não seja essa ética dos poderes constituídos (bem revelada nos Epstein files), com os pés no chão e a cabeça a frente. Cobrar cessar-fogo imediato e fim do massacre em Gaza, fim da ocupação e do apartheid, mas também dizer sem rodeio: não à guerra “sionista-americana” contra o Irã e não à teocracia iraniana. Não existe libertação a partir de mísseis, nem democracia entregue por troca de cadeiras.

A ação radical da esquerda, hoje, é tirar oxigênio político, narrativo e material dos poderes constituídos: pressionar por embargo de armas, boicote e desinvestimento do aparato de ocupação; construir, em sindicatos, movimentos de mulheres, movimentos culturais, universidades e territórios, redes de apoio direto a palestinos e às forças iranianas feministas e trabalhistas que enfrentam a repressão; financiar defesa jurídica, acolhimento, comunicação, tradução e cuidado mental ao povo que mais sofre com os danos da guerra, porque guerra atravessa o corpo e dura décadas.

Em vez de torcer por bombas como “atalho”, o retorno a monarquias caducas, ampliar as vozes das ruas, justamente aquelas que não tem espaço nas mídias ocidentais e que também estão silenciadas pelos poderes iranianos. Acolher e fortalecer as relações de vizinhança, greve, mutualismo, proteção mental. Sem propaganda, sem tutela, sem terceirizar a ética ou a solução para os grandes poderes globais, cujo principal foco não é o povo palestino ou iraniano.

Palestina livre. Irã livre. A esquerda precisa caber inteira nessa luta.

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UE–Mercosul e o risco de esmagar a agricultura familiar

Quando o comércio corre mais rápido do que a justiça territorial, quem tropeça primeiro é quem pisa no barro.

Estrada

A enchente levou a estradinha de terra batida. No dia seguinte, o atravessador apareceu com o caminhão-baú e um papel na mão. “Sem esse documento, você não vende.” E, como diria Ana Castela, “acreditei que era herói, mas é bandido”.

No dia 9 de janeiro de 2026, o Conselho da União Europeia autorizou a assinatura do acordo UE–Mercosul. Para quem não acompanha: é um acordo de livre comércio que pretende reduzir tarifas e ampliar cotas entre os blocos, mexendo com o que cada lado vende e compra, principalmente agro e indústria. Visto do alto, parece diplomacia com elementos interessantes. No chão, porém, é disputa: preço, rota, contrato, e a terra rural voltando a ser peça do tabuleiro do capital.

Fresta


No Brasil, quem corre o risco de receber esse vendaval pela fresta é um ente imenso e pouco fotografado: a agricultura familiar. O Censo Agro de 2017 aponta mais de 10 milhões de pessoas ocupadas nisso e cerca de 23% do valor da produção vindo daí. Isso não é detalhe, é estrutura social de país. É renda circulando em cidade pequena e média, feira, caminhãozinho, escola rural, estrada de terra. É território respirando baixo, enquanto o agronegócio faz show com telão.

A primeira tensão nasce rápido. Se essa janela comercial aumentar o apetite por commodities, a terra encarece, o arrendamento endurece, a fronteira produtiva ganha força. O pequeno produtor, sem colchão financeiro, sentirá como água entrando pela soleira. A desigualdade no campo não chega com anúncio. Chega como “o preço do hectare”, “o vizinho vendeu”, “o atravessador apertou”. Chega como chuva que enlouqueceu, enchente onde era seca e, às vezes, sorrateira como tocaia de jagunço.

O Brasil traz uma notícia ambígua. Houve redução do desmatamento divulgada pelo PRODES. Respiro diante das tentativas de passar a boiada. Mas a economia que empurra o desmatamento é rede, e rede muda de humor com o mercado. Tem grilagem, licença duvidosa, legalidade convivendo e negociando com ilegalidade. E governança que evapora quando a renda da terra chama.

A Europa tenta colocar freio na própria fome de importação. A regra antidesmatamento exige diligência e rastreabilidade: produto “desmatamento zero”, legal, rastreável até a área de produção. Só que a própria UE vem adiando e revisando prazos porque sabe o peso operacional disso tudo. Agora imagine essa exigência aterrissando na América do Sul, onde o Estado muitas vezes chega tarde, e o atravessador chega cedo.

ESG não enche o prato

E aqui aparece a segunda tensão, silenciosa e cruel. Como fazer justiça ambiental num país que nunca pagou a dívida da reforma agrária? Rastreabilidade é necessária, sim. Eu não romantizo cadeia produtiva submersa, desenhada em Brasília nos gabinetes do agro. O problema é o Brasil real. O grande ajusta a exploração por compliance, como quem vive passeando de ponte aérea. O pequeno paga seu labor como quem compra botijão no desespero, no fim do mês. E quando não consegue, some da cadeia formal: vira refém de intermediário, vende mais barato, trabalha mais para sobrar menos. Quando vira marketing, “verde” vira barreira de entrada. O selo verde brilha, mas o prato do povo continua vazio.

Daí o paradoxo: a floresta em pé aparece como narrativa, mas quem entra decisivo no mercado global é quem já tinha estrutura, advogado, crédito barato e uma geografia montada a seu favor. Leia-se: latifúndio, lastro e poder.

Uma imagem simples, quase como se Jane Jacobs tivesse crescido no interior do Maranhão. Um satélite olha a Amazônia enquanto um homem olha a própria cerca. O satélite mede quilômetros quadrados. O homem mede dias de chuva, preço do adubo, a dívida do mês. Quando a política internacional só enxerga o satélite, atropela a escala da vida. Quando só enxerga a cerca, fere a escala da Mãe Terra. Falta olhar de chão, de dentro do território, e talvez principalmente de quem não tem nem satélite nem cerca.

Aqui já não cabe o maniqueísmo de vitrine que virou a política eleitoreira. Livre comércio versus protecionismo. Ambientalismo versus produção. O problema é a velocidade voraz do capital sobre a terra. O comércio corre, a governança territorial anda, e o pequeno produtor tenta pegar um trem que já saiu, carregando documento, nota fiscal e a esperança básica de não passar fome.

Contrapartida

Se a gente quiser falar sério de Sul Global, sem romantizar pobreza e sem engolir propaganda de “modernização” que sempre chega junto do capital, o papo é reto: como impedir que esse acordo vire motor de concentração territorial? Como evitar que o campo pobre e a floresta voltem a ser zona de sacrifício, agora com etiqueta reciclável e selo ESG?

A resposta, a meu ver, não é instagramável. É infraestrutura pública. Rastreabilidade precisa ser serviço público, cooperativo e territorializado: cadastro georreferenciado acessível, assistência técnica forte, cooperativas, consórcios municipais, plataformas de governança simples que virem prática campesina, não burocracia. Se o mundo exige geolocalização e diligência, o Estado precisa entregar ferramentas ao povo para isso não virar exclusão.

E aqui entra o urbanismo, no sentido mais político da palavra. A cidade consome sem ver a origem, especula a terra e terceiriza o custo social do alimento. A gente pega a carne no freezer e não vê o sangue vertido. Se a agricultura familiar é base social, ela não pode virar refém do humor do mercado externo ou de chantagem logística. CEASAs, mercados municipais, cozinhas públicas, logística curta. PNAE e PAA como programa de país, não apenas de governo. Escola pública e hospital público como compradores regulares de cooperativas e agricultores familiares, com contrato estável e rota planejada são alguns caminhos.

O UE–Mercosul é uma operação territorial transcontinental: gera valor, especulação e espalha impacto. E uma operação territorial deste porte exige contrapartida política. Uma contrapartida concreta possível para o Sul é criarmos um programa público que priorize a agricultura familiar, articulado a uma política urbana de alimentação do povo pobre. Sem contrapartida realmente popular, o acordo corre o risco de virar atalho para a riqueza passar correndo na sua lógica de extração, enquanto o pobre do campo fica no acostamento, vendo a vida se desfazer no pó da estradinha de terra batida.

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O Sequestro de Maduro e o Retorno do Quintal

O ano começa cinematográfico: Nicolás Maduro sequestrado por forças dos EUA. Numa crua ambiguidade conceitual, Washington chama de “operação de aplicação da lei”, enquanto Trump fala em administrar a Venezuela até uma transição. A lógica é de exceção e retomada do controle do quintal: a potência veste farda de polícia e de tutela, reorganiza o tabuleiro e debocha do direito internacional. Não nos enganemos, o direito só vale até a linha do interesse. A democracia representativa reaparece como mito pacificador: acalma consciências, enquanto convive com o submundo da política crua dos impérios.

No subsolo econômico, a Venezuela é petróleo e infraestrutura em ruínas. A Casa Branca acena a investimentos de empresas “interessadas” para “reconstruir” o setor. Enquanto isso, o povo venezuelano sente a vida no preço. A geopolítica  de Trump tem estilo de capitão de obra emergencial: chega de solavanco, troca o comando do canteiro e abre concorrência pelos contratos.

E Putin, deixou Maduro isolado? Moscou condena, mas evita personalizar; chegou a alertar seus cidadãos a não viajarem ao país. É o pragmatismo frio, comum a todos os líderes aqui citados, mas na Rússia ele parece método nacional: no inverno da geopolítica, aliados são ativos, não parentes. Maduro era um aliado simbólico no quintal americano; a prioridade russa segue sendo a Ucrânia, e o episódio vira laboratório caro.

Trump, num primeiro momento, reage com choque à alegação de que a Ucrânia teria tentado atingir uma residência de Putin e entra no diálogo. Depois, recua: diz não acreditar que Kiev tenha mirado a residência. O padrão que confunde ideólogos é menos lealdade e mais transação comercial: cúpulas, negociação e garantias para Rússia e Ucrânia. Zelensky pede garantias longas porque conhece o preço de promessas vagas do amigo norte-americano; Putin testa limites; Trump tenta produzir uma saída negociada na reorganização dos blocos de influência.

A China entra nisso como em quase tudo: sem muito espetáculo. Para ela, Venezuela parece ser menos aliança ideológica e mais energia, dívida e posição estratégica. Condena a violação de soberania porque o precedente lhe interessa, inclusive no léxico sobre Taiwan, mas joga o pragmatismo: negociar com quem controlar o canteiro amanhã para preservar petróleo, contratos e recebíveis.

E o chavismo: cai junto? Sequestrar um líder não desmonta o ecossistema, e nem parece ser esse o objetivo. Delcy Rodríguez como interina sugere continuidade ainda que com possível disputa interna, não colapso automático. A base burocrático-militar pode soar fragilizada ou desleal pela facilidade e velocidade com o qual o presidente da nação foi raptado. Assim, parece muito aberto, o chavismo pode rachar; mas pode também se fortalecer na defesa da soberania diante da invasão do inimigo comum.

Aqui faço parêntese e saio da arquibancada acrítica da vida: nenhuma das lideranças citadas está pensando primeiro no povo pobre. Não é essa a pauta. Maduro, que também debocha do direito internacional, sai de cena justamente quando a Venezuela ensaiava uma melhora insípida e desigual: riqueza circulando em bolsões dolarizados, enquanto o país segue com salário pulverizado, serviço público em ruína, pobreza massiva e migração como destino. O país parece preso entre limites internos do chavismo e do Estado rentista e a pressão geopolítica das sanções, que estrangulam receita, crédito e a operação petroleira.

Os erros estruturais são conhecidos: incapacidade de focar e diversificar os caminhos de produção de riqueza, aprofundamento do rentismo; câmbio prolongado se transformando em máquina de arbítrio e corrupção; Estado aparelhado por amiguismo. Um projeto político que finda (querendo ou não) por misturar austeridade e welfarismo: benefícios pontuais como sustentação política enquanto a austeridade recai sobre salário derretido, investimento público e capacidade técnica estatal. O caminho misto do Chavismo mantém as elites, organizadas em duas redes sobrepostas: empresarial tradicional e burocrata-militar, que disputam o próprio Estado como “meio de produção” decisivo para manutenção de seus interesses corporativos, enquanto o povo fica ao relento da própria sorte.

O Brasil, vizinho estrutural da Venezuela e fronteira ativa, corretamente condena os bombardeios e o sequestro do então presidente Maduro enquanto tenta manter canal com Caracas, sem abrir mão de diálogo com os EUA e da postura de mediador de conflitos.

Os riscos principais, entre muitos, cito três:

  • humanitário-fronteiriço: pressão migratória e acolhimento dos irmãos latinos diante do aumento da instabilidade,
  • geopolítico-comercial: preservar canais com Washington sem aceitar o precedente arbitrário como padrão e
  • político-interno: nos prendermos em caricaturas de “defender ditadura” x “entreguismo yankee” em um ano eleitoral.

A verdade do mundo é velha: a riqueza é produzida coletivamente e privatizada pelos que têm poder para fazer isso. E aqui a esquerda falhou de um jeito especifico, foi elegante e engenhosa em distribuir renda, mas tímida em reorganizar os caminhos da produção e universalizar a riqueza. Como diria minha avó, perdeu o fio da meada. Enfraqueceu-se ao não fazer os enfrentamentos estruturantes da sociedade. Agora, diante da austeridade e do colapso de expectativas, parte da esquerda latino-americana se refugiou na liturgia militante: slogan, panfleto, guerra imagética, e manutenção do poder pelo poder, deixando o campo livre para forças que capturam a indignação popular ou a domesticam com retórica e medo.

Lembro-me de uma conversa com um venezuelano que era repositor de mercado em Buenos Aires, um dos dez venezuelanos que conheci na vida. Embora sofresse preconceito, tivesse um emprego pobre, morasse em uma periferia de Buenos Aires, estava se sentindo melhor ali. Sua fuga não fora ideológica, apenas material, uma frase me dele marcou, era algo como: “Chaves é um Bolsonaro de bandeira trocada”. Com todos que conversei aprendi o quão complexo é o problema do país deles, e que nós, brasileiros não sabemos xongas do que acontece na América Latina.

Mediante isso, uma coisa é certa: responsabilidade não se fabrica por intervenção unilateral, narrativa panfletária ou verticalização burocrática; o precedente piora o mundo. A crítica ao Trump é simples: não é santificar o Chavismo-Madurismo, é não normalizar a soberania como detalhe e a instabilidade como padrão político. Amanhã a exceção escolherá outro alvo, e nunca há motivo nobre, e o alvo, direto ou indireto será a vida do pobre. No fim, todos tratam “democracia” como gramática útil para legitimar violência, negociação, força e propriedade.

Se a esquerda latino-americana quiser virar o jogo, precisa parar de tratar produção como palavra inimiga e empreendedorismo como culpa, mérito como crime, entre muitas outras pautas contemporâneas. É preciso começar a falar de produção popular organizada, com regra, técnica e escala, sem precarizar a vida.

Diversificar não é palavra solta, é criar milhares de pequenas indústrias do cotidiano: alimento, reforma, saneamento, manutenção urbana, reciclagem, energia solar de bairro, logística leve, carpintaria, metal, costura, software simples, conectadas por cooperativas, consórcios comunitários e redes multi-escalares de serviços. O motor não precisa ser só o Estado, embora ele deva ter participação ativa: pode ser fundo rotativo de bairro (crédito barato gerido localmente e alimentado por imposto sobre grandes fortunas), compras ancoradas por médias e grandes empresas via metas de consumo local e cadeias curtas, cooperativas de plataformas (o app pertencendo a quem trabalha, não a um rentista), e direitos para o trabalhador por conta própria que se enquadre em microempreendedor individual (bolsa auxilio, previdência, seguro, descanso, proteção à doença), pra que autonomia não vire abandono.

Substituir a disputa etérea e moral por uma arquitetura de vida: desenho institucional simples, replicável, que faça o pobre produzir com dignidade, e não apenas sobreviver no intervalo entre um benefício e outro. É recolocar o fio da meada na agulha. Sem isso, a exceção seguirá escolhendo seus alvos, e, como sempre, o alvo final será a vida do pobre, enquanto os bilionários aproveitam o mundo como parque de diversões.

Desenho de autoria pessoal: viagem a Buenos Aires em 2019: Roda de conversa – Venezuelanos terminando seu dia de trabalho enquanto muitos da cidade estavam começando o dia de trabalho.
os temas: América Latina, Chaves, Bolsonaro, Conca jogava muita bola.
— em Caballito.
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Praça Onze Maravilha: entre o fetiche e a captura

Dia da Consciência Negra. No palco de um evento tradicional do Estácio, a prefeitura escolheu um estranho roteiro simbólico: usar uma celebração da memória negra para lançar mais uma operação urbana. Batizada de “Praça Onze Maravilha”. O nome tenta acenar para a história; o conteúdo, porém, repete a velha fórmula da cidade-negócio.

Enquanto Porto Maravilha ainda patina com edifícios vazios, terrenos cercados e pouca vida cotidiana real, a prefeitura apresenta mais um experimento com o mesmo DNA: criar valor construtivo para operações imobiliárias, embrulhado em discurso de “revitalização” e “cultura”. A lógica é conhecida desde o Estatuto da Cidade: produz-se solo criado, vende-se potencial construtivo, atrai-se capital financeiro, promete-se urbanidade, mas esta nunca vem. Na prática, entrega-se um pacote de adensamento, edifícios inexpressivos e usos sazonais, desconectados da vida de quem sustenta aquele território, outrora esquecido, no dia a dia.

É importante lembrar onde estamos pisando. A área da antiga Praça Onze, berço do samba, território de negros, pobres, ciganos, imigrantes, já foi estraçalhada várias vezes em nome da “modernização” global do Rio. A Avenida Presidente Vargas demoliu casas e modos de vida inteiros. O viaduto 31 de Março aprofundou o rasgo social e urbano. O que antes era território de compartilhamento, festa, trabalho e moradia virou corredor de passagem rápida, cheio de vazios e cicatrizes. Agora, o projeto chega mais sofisticado: menos demolição direta, mais captura simbólica. Usa a cultura negra como cenário de fundo para abrir caminho a uma nova rodada de valorização fundiária voltada para os de cultura branca.

Dentro desse pacote, surgem dois equipamentos que, vistos isoladamente, me parecem potentes: a Biblioteca dos Saberes e o Centro Cultural Rio-Áfricas. São ideias que, em outros arranjos urbanísticos, podem fortalecer um verdadeiro direito à cidade, à memória e à produção de conhecimento a partir das periferias negras. Aqui, porém, surgem como âncoras de um tabuleiro imobiliário vazio de lógica inclusiva. Servem para dar verniz “afro” a um modelo que já conhecemos bem no Porto Maravilha: torres adensadas, arquiteturas genéricas, usos voltados para turismo, escritórios e moradia temporária, com pouco enraizamento comunitário. O projeto peca não apenas no processo econômico que o viabiliza, a própria lógica do projeto parece não compreender bem a dinâmica daquela região, sequer no seu apogeu funcional: o Carnaval.

À primeira vista, pode parecer que funciona. É uma região atravessada por megaeventos sazonais, shows, carnaval e desfiles na Sapucaí. O problema é justamente esse: a cidade-espetáculo encobre a cidade real da mesma forma que os camarotes não veem o que acontece embaixo do Balança mas não cai. A operação urbana não se pergunta o que acontece no Catumbi numa terça-feira chuvosa de março, quando não há bloco, não há show, não há turista, assim como o Viaduto 31 de Março também não perguntou. Não enfrenta as condições de moradia precária nos arredores, a informalidade do trabalho, o transporte caro e ineficiente, a dificuldade de acesso a serviços públicos básicos. Repete-se o que já aconteceu no Porto: milhões investidos no cenário, pouca transformação estrutural na vida de quem mora e trabalha por perto. E que loucura, com quilometros de praça criada ao longo do cais, resolvem inventar um parque em uma ilha artificial com uma entrada só. Saudades do velho Niemeyer que pensou ao menos que as estruturas do sambódromo abrigariam escolas públicas nos demais dias do ano.

A dinâmica social de formação do Rio segue exibindo suas feridas abertas. A cidade insiste em tratar seu espaço como ativo financeiro, não como infraestrutura de vida cidadã. Em vez de assumir a urbanidade: rua, praça, transporte, moradia digna, equipamentos públicos robustos como base concreta para reconstruir vínculos, a prefeitura aposta em mais uma operação que empilha metros quadrados vendáveis para uso de airbnb. A memória negra, a cultura popular e a história da Praça Onze aparecem como logomarca, não como sujeito político de decisão.

Criticar um projeto como o “Praça Onze Maravilha” não é ser contra cultura, nem contra novos equipamentos urbanos e arquitetonicos. É exigir que não se repita o ciclo em que a cidade negra é usada como palco, mas segue excluída da plateia e dos lucros. A Cury os lucros, aos povos negros a bala de fuzil, triste corolário desta cidade.

Pergunto-me honestamente: alguém debateu abertamente este projeto com os moradores da Rocinha, do Alemão, da Maré? descendentes diretos dos processos de exclusão e massacre desta cidade. Se a intenção fosse realmente construir um outro modelo, o ponto de partida seria ouvir e integrar quem já está ali e sua ancestralidade: blocos, terreiros, escolas de samba, moradores, trabalhadoras e trabalhadores que, há décadas, seguram o cotidiano que não sai na foto oficial.

Foi um evento bonito, fico grato pelo convite recebido, mas, em um evento onde a Arquitetura assumiu centralidade no debate de luta contra o massacre negro desde tempos escravagistas, é necessário que eu enquanto arquiteto tenha responsabilidade sobre o fazer e teça a crítica necessária para que o massacre não se repita no material e subjetivo. Ainda há tempo de fazer uma ação mais coerente e inclusiva, tendo como protagonista a necessidade real do nosso povo. Arquitetura e Urbanismo é escolha política, esta frase foi falada inclusive pelo vice-prefeito! E sobre isso complemento: escolha política têm cor, classe e território.

Tenhamos cuidado ou a Praça Onze seguirá como metáfora cruel: o lugar onde a cidade celebra a negritude no discurso e no fetiche, enquanto reorganiza o espaço para expulsá-la, mais uma vez, na prática material.

Masterplan da Praça Onze Maravilha

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Entre Alphavilles e Airbnbs: o que sobra para o planejamento urbano?

Ainda conseguimos falar de planejamento em um mundo de não-cidades? A cidade sempre foi o palco dos encontros. Criamos templos, ágoras, praças, passeios, cafés, incluo até os shoppings; formas concretas de organizar nossas demandas e afetos segundo os modelos sociais e econômicos de cada tempo. Mas na era da hiperinformação, a cidade perde essa função básica: reunir. Um clique no Teams dobra espaço-tempo e aproxima Dubai de São Paulo. O que parecia impossível ontem já virou banalidade hoje.

E nessa ausência de cidade, o capital encontrou a chave para um novo ordenamento. Os condomínios: autossuficientes, murados, higienizados por crédito, financiamento e controle digital. Até o porteiro já não precisa mais habitar o mesmo chão do morador: um algoritmo o substitui em uma central distante. O condomínio esvazia a função pública da cidade, como se o planejamento urbano não passasse agora de uma ficção burocrática. Planejar pra quê? Para gerar solo criado que logo será engolido e convertido em mais condomínio.

Essa é a lógica que se espalha pelo Brasil. Entre 2009 e 2015, foram R$ 788 bilhões em habitação financiada pelo FGTS, orçamento público ou capital privado, sem contrapartida equivalente em mobilidade, saneamento ou espaço público, como mostra Maricato. Um padrão se repete: enclaves isolados, que reforçam a segregação socioespacial e restringem o acesso comum. Milton Santos já advertia: o território, apropriado seletivamente pelo capital, torna-se um mecanismo de exclusão.

Os estudos de caso não deixam dúvidas. Em Sorocaba, comparações entre bairros convencionais e condomínios fechados revelam disparidades evidentes no acesso a áreas verdes e lazer. Em tantos municípios, a expansão se dá sobre vazios urbanos, sem qualquer integração com planos diretores ou a malha urbana tradicional das cidades. O projeto de cidade pode ficar até bonito no papel dos planos diretores, mas na prática ficam à margem da engrenagem financeira imobiliária que vende na planta, vende na obra, vende depois de pronto.

O entorno? Não importa. O bairro? Irrelevante. A autossuficiência condominial resolve. O que faltar, complementamos com um shopping. O quintal com galinha e horta virou memória quase esquecida. O alimento, que o pobre produzia em casa de quintal, pequenas roças e granjas, virou ativo do agronegócio, rodando nas engrenagens do sistema financeiro, lado a lado com o sistema imobiliário.

Planejamento urbano, então, passa a ser outra coisa. Não mais apenas a técnica de organizar ruas e bairros, mas um campo de disputa e resistência. Disputa contra a apropriação mercantil que privatiza o espaço urbano e ambiental resistência contra a uso técnico para justificar a exploração. Porque essa hegemonia do capital é excludente? a maioria da população não cabe nela, ainda que queira, não tem crédito, não tem renda e muitos que tem, não conseguem pagar anos a fio. Além disso, a maioria das cidades brasileiras é de médio ou pequeno porte, não há demanda real para esta prática. Condominializar não resolve, metropolizar não resolve, verticalizar não resolve.

Contemporaneamente temos dois macro padrões se espraiando muito rápido. Imóveis verticais feitos para uso de sistemas de moradia intermitente tipo airbnb, e a alphavillização das cidades médias e pequenas. Em comum, ambos têm uma lógica genérica preparada para implementar-se em qualquer vazio urbano e uma lógica econômica que os permite funcionar desconectados da real demanda de habitação das sociedades. Aqui, reside o maior problema da relação entre o modelo, a cidade e o plano diretor.

O risco deste modelo de operar o espaço é criarmos imóveis para poucos e esquecer que a vida acontece fora dos muros. A cidade continua, com ou sem eles. E o planejamento, se ainda tem sentido, é o de devolver a cidade ao comum: reconectar, democratizar, criar frestas contra a homogeneização genérica. Mas como recuperar a importância e força do Planejamento Urbano e Territorial,? É preciso assumirmos que uma sociedade complexa também exigirá de nós, um olhar mais sofisticado e complexo na lida política, científica e técnica da produção deste instrumento.

Parque Alphaville em Campinas; imagem extraída de: https://neofeed.com.br/negocios/alphaville-do-patria-anuncia-aumento-de-capital-de-ate-r-12-bilhao/

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Arquitetura é um colo de avó: pequenas reflexões para a prática nacional

A primeira lembrança que me atravessa quando se fala em interiores não é um catálogo de decoração, mas a casa da minha avó. Ali, a vida tinha escala de 1×1: o corpo inteiro cabia entre o bordado da capinha do gás, a máquina de costura que se transformava em carro de fórmula 1, o quintal que era ao mesmo tempo o mundo inteiro e  cantinho de acolhimento. É dessa escala íntima, olho no olho, que eu via nascer a arquitetura. A arquitetura é um colo de avó, um bolo de laranja quentinho na mesa, um sol que entra na fresta da janela.

No Brasil, a profissão foi arrastada para um dilema: somos vistos ora como luxo e supérfluo, ora como engrenagem de projetos estatais grandiosos e inacabados. No meio, fica o vazio: a vida cotidiana do povo.

Essa fratura não é apenas cultural; ela é estrutural, econômica. Em poucas décadas, deixamos de ocupar um lugar estratégico dentro do projeto nacional de desenvolvimento e passamos a ser percebidos como caros e substituíveis. A armadilha, a meu ver se aprofundou quando a profissão centralizou-se na lógica do luxo como um caminho único. E isso não é necessariamente uma crítica implacável à arquitetura de luxo, que tem seu espaço de direito na sociedade atual. 

O luxo funciona como dispositivo de status e exclusividade: molda o gosto, define o que é belo e desejável, mas apenas para uma fração ínfima da sociedade. A classe média, que em países industrializados sustenta tanto o consumo quanto a cultura material da sociedade, no Brasil nunca se consolidou plenamente. E os pobres, que são maioria, só nos enxergam quando o Estado entra em seus territórios com grandes obras, remoções ou empreendimentos de impacto praticamente autoritário. Fora disso, a figura do arquiteto desaparece de seu horizonte de vida, diferente do médico por exemplo.

Essa ausência tem consequências devastadoras. Quando o cotidiano das famílias não reconhece o arquiteto como parte de sua economia; alguém que resolve problemas espaciais urgentes, que age na escala doméstica, comunitária, de vizinhança, a profissão se isola. E quando uma categoria se isola, perde relevância social e política. É sintomático que, enquanto o país vivia a explosão de consumo de carros e imóveis nos anos 2000, embalado pela ascensão de milhões ao consumo básico, nós não conseguimos nos inserir como serviço acessível para essa massa. Continuamos restritos a dois pólos já citados: o do luxo exclusivo e o do planejamento estatal de megaprojetos. Ambos distantes da vida real.

É nesse ponto que precisamos recuperar uma lição das escalas. Há a escala da família: o sofá da avó, o banheiro que falta em tantas casas brasileiras, o quartinho inacabado do filho o espaço íntimo que define dignidade. Há a escala da comunidade: a rua onde se joga bola, a praça onde se organiza uma festa, a rede de solidariedade que sustenta bairros inteiros. E há a escala da multidão e do estatal: os fluxos da cidade, os planos que estruturam mobilidade, habitação e saúde coletiva. Claro, não são escalas fechadas, longe de mim querer atravessar a cidade por apenas três recortes possíveis, apenas simplifico para fins de dar algum inicio de pensamento sobre o tema. 

O arquiteto, ou o estudante de arquitetura precisa ser capaz de transitar entre essas dimensões, sem perder de vista que elas se conectam como sistema, como ensinavam os pensadores que viam o espaço não apenas como território físico, mas como campo de cidadania, de luta, de afetos.

Se a economia brasileira gira em torno de estratégias de mega exclusão e certa inclusão controlada para evitar grandes turbas disruptivas, a arquitetura não pode se reduzir ser apenas vitrine da exclusividade. A profissão precisa se reorganizar a partir da vida real, da urgência, daquele que não pode esperar seis meses por um projeto para então começar uma obra. Nosso trabalho tem de ser mais ágil, mais enraizado, mais próximo do cotidiano da maioria. Não se trata de reduzir a qualidade ou o rigor técnico, mas de reinventar formas de inserção econômica laboral: organizações coletivas, solidárias, mutirões, cooperativismos, abertas a novas economias de escala que vão do mutirão à assistência técnica, do microempreendimento comunitário às tecnologias sociais, da carreira de estado à arquitetura liberal de atendimento popular.

Sem uma estratégia econômica que inclua de fato o povo, não haverá campo de trabalho sustentável para a arquitetura. E sem arquitetos presentes no cotidiano popular, não haverá cidade justa. Entre o sofá da avó e os grandes planos da nação, existe uma vasta zona de vida que precisa ser ocupada, praticamente um universo de cores que se assemelha a um quadro de Pollock. É ali que a arquitetura pode recuperar sua relevância. Não como luxo, não como burocracia estatal distante, mas como prática social que desenha futuro a partir do olho no olho, da escala humana, daquilo que funda a dignidade de viver.

Para tal, temos uma missão: compreender, técnica e cientificamente, onde estamos e para onde podemos ir. Isso começa pelo gesto simples de olhar ao redor: o bairro, a rua, a casa do vizinho que precisa de um banheiro digno. Jovens arquitetos podem se organizar em coletivos, experimentar formatos de cooperativas, oferecer serviços acessíveis de assistência técnica, participar de mutirões de construção, articular-se com movimentos sociais e comunidades. Outros podem se dedicar ao setor público, disputando políticas urbanas e habitacionais de forma crítica. Há também espaço para a inovação: explorar tecnologias sociais, novos materiais e soluções sustentáveis de baixo custo.

O ponto é não esperar pela grande encomenda ou pelo concurso distante; é começar nos interstícios, nos entremeios, nos lugares que parecem pequenos, mas que são o coração da vida real. É ali que a arquitetura renasce como prática social. Não precisamos reinventar tudo de uma vez, nem sermos reféns de ferramentas. Afinal não é a ferramenta que define o arquiteto, é o arquiteto que define a ferramenta que vai utilizar. Basta iniciar os processos, criar redes e caminhar juntos. A relevância virá quando conseguirmos estar presentes na escala da família, da comunidade e da multidão, com a coragem de projetar os afetos dos mais pobres. Ou estamos presentes na escala da vida real, ou seremos apenas designers do privilégio.

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