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Fortuna

As encruzilhadas nos presenteiam com a vida. Era um sábado à tarde. Eu estava no bowl de Irajá, palco do skate antes mesmo do skate virar esporte. Foi ali que vi, pela primeira vez, um dos maiores artistas que conheci na vida.

Lembro que ele panfletava um show de death metal, no qual faria a abertura tocando Jorge Vercillo e Raul Seixas ao violão. Ali pensei: esse maluco é o cara mais rock and roll que eu conheço. O tempo, o subúrbio e a música foram nos aproximando aos poucos. Tempos depois, fizemos parte do mesmo coletivo cultural, o Consciência Criativa. Foram anos de suor, amizade e movimento sem verba, em uma época em que pouquíssimos faziam cultura nos subúrbios.

Fortuna se fez presente, carregava o destino no próprio nome. Onde muitos o viam como um pária social, preconceito comum imposto aos meninos periféricos, os mais próximos descobriam sua imensa inteligência. No rosto, um olhar digno dos guerrilheiros. Por dentro, a sensibilidade rara dos poetas. Anderson era capaz de articular Raul Seixas, Botafogo, Neruda, García Lorca, teatro, música e rua com uma naturalidade que pouca gente tem. Transitava com o mesmo fascínio entre a canção simples de um bar e a grandeza de um show dos Rolling Stones. Fortuna sabia o que era arte porque, para ele, ela nunca esteve separada da vida. Estava no feijão com arroz, na conversa da esquina, na canção improvisada, na feira de domingo.

Era um garoto de sonhos simples: tocar no espaço cultural do próprio bairro, ter uma banda, jogar bola. Mas carregava um universo que mal cabia na própria mente. Anos se passaram, e foi um privilégio quando conseguimos criar para ele um presente que, no fim, virou presente para todos nós. Organizamos uma Suburbagem em que, literalmente, criamos uma banda para Fortuna se apresentar. Chamei alguns dos melhores improvisadores com quem convivi. Não tinha outro jeito. Para tocar com Fortuna, era preciso ser capaz de explodir fora da curva. A banda deveria entrar no universo dele, e não o contrário.

E assim foi.

Fizemos alguns ensaios para tentar entender aquele universo e partimos para a apresentação. Vieram improvisos, canções de amor, de revolta, declamações poéticas, gestos teatrais, movimentos imprevisíveis. Éramos praticamente uma instalação disfarçada de banda.

Lembro quando Fortuna desceu do palco para assistir à própria banda, sem encenação, por puro prazer. Ficamos mais de dez minutos improvisando e pedindo, pelo amor de Deus, que ele retornasse ao palco para finalizarmos a música. Lembro também da minha cara estupefata na primeira vez que ouvi a letra de “Andarilho das Estrelas”. O destino prega essas peças. Anderson era uma espécie de Van Gogh perdido no seu tempo. Sua arte não cabia na caixa das pasteurizações.

Lá por 2010, eu sofria para terminar a graduação, atravessado por milhares de problemas. Lembro que, numa chuva de verão, daquelas que entravam pela minha casa através dos telhados quebrados, perdi meu rádio. Comentei de leve na roda da galera, quase sem importância. Por mim, tudo bem. O que era um rádio para quem já tinha perdido tanta coisa em tão pouco tempo? Mas, um dia, surgiram Fortuna e Labanca com um rádio na mão. Anderson repetia, meio incrédulo: “Não cara, você não pode ficar sem rádio, você é artista, precisa ouvir música”. Ali entendi o quanto vocês apostaram em mim. Quantas vezes eu quase larguei a FAU e uma conversa ou um gesto maluco desses vindo de vocês me fazia pensar: tenho que seguir em frente.

Você sempre me lembrou que, antes de eu ser gente, eu era músico rs. Quando criei a animação para a música “Vanessa”, do André Figueira, pensei em um roteiro baseado em um jovem deslocado descobrindo a metrópole, com suas inúmeras contradições. Pensei: quem melhor representaria o profeta que apontaria o caminho para esse jovem? Ninguém menos que o próprio Fortuna. Do jeito dele, ele exercia esse papel. Liderava pela arte. Quantos eventos não organizamos apenas para ter o prazer de criar um palco para Fortuna se apresentar, sem ele ter nos pedido isso?

Quem não se lembra de sua clássica indagação: Qual grande artista a Lona revelou?

Seu poema maior, “A Cidade, o Caos”, foi um soco no meu estômago. Viver essa cidade como nós vivemos, e depois ouvir essa poesia declamada como sangue que cruza a América Latina por dentro do Para Pedro, se chocava brutalmente com a minha formação de arquiteto. A cidade, o Caos é o meu espaço vivido, a arquitetura que aprendi na infância. 

Não à toa, antes da primeira linha do resumo da minha dissertação, você está citado lá. Um pequeno trecho seu que representa tudo que pesquisei para que outros arquitetos leiam e conheçam aquilo que nossa turma chama de Subúrbio Carioca. Uma aula de cidade em um poema.

Eu poderia dizer que esse poema, imenso, foi sua grande obra, mas seria injusto. Sua obra maior foi a própria vida experimentada integralmente em forma de arte, como pouquíssimos tiveram coragem de viver, com todo o gigantesco ônus e todo o raro bônus dessa escolha.

A vida foi dura para todos nós que andamos juntos pelas ruas de Irajá e Vista Alegre, e extremamente covarde com você. Uma série de destinos entrecruzados, de amigos se costurando e se ajudando na tragédia que é sobreviver sendo pobre e tentando ser feliz sendo artista.

Você se foi, meu camarada. 

Eu não estava preparado para isso. Honestamente, ainda não estou. Mas você segue presente em nós que dividimos contigo esse tablado chamado vida, nas músicas que escutamos, nos palcos que inventamos, nas duras ruas que atravessamos, nos gestos que ficaram e nessa geração de bairro que você ajudou a mover culturalmente sem nunca precisar pedir licença ao mundo.

Qual grande artista a lona revelou? Fortuna.Você!

Anderson Fortuna foi grande. Grande demais para o reconhecimento pequeno que este país costuma reservar aos seus artistas pobres. Grande demais, também, para caber no esquecimento.

Todos nós, atravessados de algum modo pela tua presença, tivemos o raro privilégio de dividir contigo o chão deste Subúrbio, as agruras da vida e essa arte que ainda insiste em nos manter vivos na Terra. Agora meu camarada andarilho errante que carregou todos os sentimentos do mundo dentro de ti, siga livre, caminhando dentro de todos nós.

Um último e triste feliz aniversário ao camarada,

Anderson Fortuna,

Poeta, músico, artista e acima de tudo um Amigo.

Desenho autoral.
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Reviver o Centro, assassinar o Lume.

A obra no Buraco do Lume é mais um exemplo da escolha do poder público de construir uma cidade de aparência.

A intervenção segue o mesmo roteiro: mexe-se no espaço, vende-se a ideia de renovação sobre um território tratado como vazio, produz-se stand e material de divulgação e se constrói com apagamento de memória, sem se importar com o impacto real sobre quem vive e circula ali. O problema também é o mesmo de sempre: tratar o espaço como peça de marketing, enquanto transforma o que é bem comum, social e público em ativo privado.

O Buraco do Lume não é um terreno neutro no centro do Rio. É um espaço consolidado na experiência urbana da região. Tem história, tem função, tem presença, tem política.

Qualquer intervenção ali exigiria, no mínimo, debate público sério, leitura mais profunda da área e alguma inteligência política sobre o que significa agir num ponto tão simbólico e conectado do Centro. Mas o que se vê é, mais uma vez, uma ação com pouca densidade e diálogo e, no fundo, mais uma operação subordinada à especulação imobiliária desta cidade.

Existe um vício administrativo no Rio: a crença de que intervir fisicamente já é, por si só, governar bem. Não é. Sem escuta, sem participação, sem relação com a vida concreta do lugar, obra pode ser só maquiagem urbana e movimento econômico para um nicho muito específico de ricos da cidade. Tudo isso com aval de uma prefeitura que licencia o que interessa a quem pode pagar.

O que incomoda não é apenas a intervenção em si, mas a lógica que ela expressa. Uma lógica que prefere controle à convivência, desenho à complexidade, mercado à política urbana.

O Buraco do Lume merecia mais. Merecia menos solução apressada e mais reflexão social. Realização de destombamento, aumento de gabarito, permissão de construção de imóveis pequenos é um triste fim para este remanescente do Morro do Castelo, pólo de grandes movimentos culturais e políticos da Cidade do Rio de Janeiro. E tudo isso feito com a conivência de prefeituras e suas secretarias garantindo todas as licenças necessárias para as construtoras.

Vamos jogar ao relento um espaço livre fundamental para as conexões entre pedestres, usuários do Centro e comerciantes. Mas o movimento da prefeitura, infelizmente, segue o padrão: substituir cidade, e tudo o que essa palavra significa, por cenografia urbana.

No fim, fica a impressão de sempre: o Rio continua tratando seus espaços importantes como palco de intervenção superficial e negócios econômicos dos patrocinadores do poder. O que falta é visão de cidade. Uma cidade que morre enquanto seus espaços livres cedem lugar a empreendimentos ultracompactos voltados à valorização imobiliária, quando o interesse público deveria estar voltado à produção de habitação social e à preservação da vida urbana real.

Revier Centro é Reviver o lucro de alguns enquanto noventa por cento da cidade está entregue à própria sorte. 

Imagem ilustrativa: Bloco de Carnaval no Buraco do Lume:

Imagem retirada do artigo: projetocolabora.com.br/ods11/rioerua-o-buraco-do-lume-e-100-anos-de-cobica-no-centro/

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Praça Onze Maravilha: entre o fetiche e a captura

Dia da Consciência Negra. No palco de um evento tradicional do Estácio, a prefeitura escolheu um estranho roteiro simbólico: usar uma celebração da memória negra para lançar mais uma operação urbana. Batizada de “Praça Onze Maravilha”. O nome tenta acenar para a história; o conteúdo, porém, repete a velha fórmula da cidade-negócio.

Enquanto Porto Maravilha ainda patina com edifícios vazios, terrenos cercados e pouca vida cotidiana real, a prefeitura apresenta mais um experimento com o mesmo DNA: criar valor construtivo para operações imobiliárias, embrulhado em discurso de “revitalização” e “cultura”. A lógica é conhecida desde o Estatuto da Cidade: produz-se solo criado, vende-se potencial construtivo, atrai-se capital financeiro, promete-se urbanidade, mas esta nunca vem. Na prática, entrega-se um pacote de adensamento, edifícios inexpressivos e usos sazonais, desconectados da vida de quem sustenta aquele território, outrora esquecido, no dia a dia.

É importante lembrar onde estamos pisando. A área da antiga Praça Onze, berço do samba, território de negros, pobres, ciganos, imigrantes, já foi estraçalhada várias vezes em nome da “modernização” global do Rio. A Avenida Presidente Vargas demoliu casas e modos de vida inteiros. O viaduto 31 de Março aprofundou o rasgo social e urbano. O que antes era território de compartilhamento, festa, trabalho e moradia virou corredor de passagem rápida, cheio de vazios e cicatrizes. Agora, o projeto chega mais sofisticado: menos demolição direta, mais captura simbólica. Usa a cultura negra como cenário de fundo para abrir caminho a uma nova rodada de valorização fundiária voltada para os de cultura branca.

Dentro desse pacote, surgem dois equipamentos que, vistos isoladamente, me parecem potentes: a Biblioteca dos Saberes e o Centro Cultural Rio-Áfricas. São ideias que, em outros arranjos urbanísticos, podem fortalecer um verdadeiro direito à cidade, à memória e à produção de conhecimento a partir das periferias negras. Aqui, porém, surgem como âncoras de um tabuleiro imobiliário vazio de lógica inclusiva. Servem para dar verniz “afro” a um modelo que já conhecemos bem no Porto Maravilha: torres adensadas, arquiteturas genéricas, usos voltados para turismo, escritórios e moradia temporária, com pouco enraizamento comunitário. O projeto peca não apenas no processo econômico que o viabiliza, a própria lógica do projeto parece não compreender bem a dinâmica daquela região, sequer no seu apogeu funcional: o Carnaval.

À primeira vista, pode parecer que funciona. É uma região atravessada por megaeventos sazonais, shows, carnaval e desfiles na Sapucaí. O problema é justamente esse: a cidade-espetáculo encobre a cidade real da mesma forma que os camarotes não veem o que acontece embaixo do Balança mas não cai. A operação urbana não se pergunta o que acontece no Catumbi numa terça-feira chuvosa de março, quando não há bloco, não há show, não há turista, assim como o Viaduto 31 de Março também não perguntou. Não enfrenta as condições de moradia precária nos arredores, a informalidade do trabalho, o transporte caro e ineficiente, a dificuldade de acesso a serviços públicos básicos. Repete-se o que já aconteceu no Porto: milhões investidos no cenário, pouca transformação estrutural na vida de quem mora e trabalha por perto. E que loucura, com quilometros de praça criada ao longo do cais, resolvem inventar um parque em uma ilha artificial com uma entrada só. Saudades do velho Niemeyer que pensou ao menos que as estruturas do sambódromo abrigariam escolas públicas nos demais dias do ano.

A dinâmica social de formação do Rio segue exibindo suas feridas abertas. A cidade insiste em tratar seu espaço como ativo financeiro, não como infraestrutura de vida cidadã. Em vez de assumir a urbanidade: rua, praça, transporte, moradia digna, equipamentos públicos robustos como base concreta para reconstruir vínculos, a prefeitura aposta em mais uma operação que empilha metros quadrados vendáveis para uso de airbnb. A memória negra, a cultura popular e a história da Praça Onze aparecem como logomarca, não como sujeito político de decisão.

Criticar um projeto como o “Praça Onze Maravilha” não é ser contra cultura, nem contra novos equipamentos urbanos e arquitetonicos. É exigir que não se repita o ciclo em que a cidade negra é usada como palco, mas segue excluída da plateia e dos lucros. A Cury os lucros, aos povos negros a bala de fuzil, triste corolário desta cidade.

Pergunto-me honestamente: alguém debateu abertamente este projeto com os moradores da Rocinha, do Alemão, da Maré? descendentes diretos dos processos de exclusão e massacre desta cidade. Se a intenção fosse realmente construir um outro modelo, o ponto de partida seria ouvir e integrar quem já está ali e sua ancestralidade: blocos, terreiros, escolas de samba, moradores, trabalhadoras e trabalhadores que, há décadas, seguram o cotidiano que não sai na foto oficial.

Foi um evento bonito, fico grato pelo convite recebido, mas, em um evento onde a Arquitetura assumiu centralidade no debate de luta contra o massacre negro desde tempos escravagistas, é necessário que eu enquanto arquiteto tenha responsabilidade sobre o fazer e teça a crítica necessária para que o massacre não se repita no material e subjetivo. Ainda há tempo de fazer uma ação mais coerente e inclusiva, tendo como protagonista a necessidade real do nosso povo. Arquitetura e Urbanismo é escolha política, esta frase foi falada inclusive pelo vice-prefeito! E sobre isso complemento: escolha política têm cor, classe e território.

Tenhamos cuidado ou a Praça Onze seguirá como metáfora cruel: o lugar onde a cidade celebra a negritude no discurso e no fetiche, enquanto reorganiza o espaço para expulsá-la, mais uma vez, na prática material.

Masterplan da Praça Onze Maravilha

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Governança em Metrópoles: O Rio de Janeiro e uma Transição Possível para Redes Distribuídas

Este texto propõe uma pequena análise ensaística ou de opinião sobre a crise institucional enfrentada por metrópoles contemporâneas, com especial atenção ao caso do Rio de Janeiro. A partir das discussões em aula realizada no curso A inteligência do espaço-tempo e o stress global e da teoria desenvolvida por Robin Dunbar que fora citada, sugere-se aqui uma pequena reflexão acerca dos limites cognitivos e organizacionais que moldam a governança urbana. Ainda que não se trate de um modelo absoluto, a teoria de Dunbar oferece um ponto de partida relevante para pensarmos os desafios atuais de gestão em cidades de grande porte.

Robin Dunbar, antropólogo britânico, propôs que existe um número máximo de relações sociais estáveis que um indivíduo é capaz de manter é de aproximadamente 150 pessoas. Conhecido como “número de Dunbar”, esse limite marca o ponto em que formas de organização social baseadas apenas em vínculos informais e confiança direta tornam-se inviáveis. A partir desse ponto, a complexidade social crescente demandaria a construção de instituições formais para manter a coesão e a funcionalidade do grupo. Mesmo que não tomemos esse número como exato, ele nos permite levantar uma questão fundamental: todo sistema organizacional possui um limiar a partir do qual precisa se tornar mais sofisticado para manter sua capacidade de governança.

Assim, podemos sugerir que tais instituições formais atualmente conhecidas por nós também enfrentam limites operacionais. Diversos estudiosos apontam que, em populações acima de 1 a 10 milhões de habitantes, os custos de manutenção institucional tendem a superar os benefícios, gerando ineficiência, sobrecarga burocrática e vulnerabilidades estruturais. Nesse ponto, os sistemas entram em risco de disfunção, colapso ou rupturas sistêmicas.

Essa problemática se torna plausível no contexto do Rio de Janeiro. Com uma região metropolitana que ultrapassa os 13 milhões de habitantes, a cidade opera em um grau de complexidade que supera a capacidade adaptativa de suas instituições centralizadas, construídas sob lógicas administrativas do século XX. A excessiva centralização do poder decisório, aliada à fragmentação territorial, à assimetria de informações e à lentidão das respostas institucionais, compromete a eficácia das políticas públicas e alimenta uma crise permanente de governança.

Nas periferias urbanas, como favelas e comunidades autogeridas, observa-se a formação de sistemas sociais quase autônomos, ou dominados por outras estruturas de poder, muitas vezes desconectados ou mesmo em confronto com os canais formais de poder consituído. Esses territórios, diante da ausência do Estado ou de sua atuação precária, tornam-se espaços disputados por múltiplos atores, legais ou não, que passam a exercer formas locais de governança mais ágeis e eficientes em seu escopo limitado. A perda gradual de controle institucional sobre o território fluminense reflete, assim, tanto a falência administrativa, como um descompasso entre o desenho das instituições e a complexidade do tecido social contemporâneo.

Redes distribuídas como alternativa estrutural

A ciência dos sistemas complexos nos oferece uma alternativa teórica e prática a esse modelo centralizado. Inspirada em estruturas biológicas e tecnológicas informacionais, ela propõe a reorganização da governança em redes distribuídas, sistemas com múltiplos centros de decisão, autônomos, interconectados por fluxos contínuos de informação e orientados por protocolos colaborativos.

Essa proposta poderia ser sintetizada em três linhas (a princípio):

  1. Descentralização inteligente: por meio da criação de núcleos decisórios com autonomia territorial, como subprefeituras, associações locais e redes comunitárias. Esses núcleos seriam capazes de deliberar sobre questões específicas de seu território, comunicando suas decisões ao sistema mais amplo, sem a necessidade de submissão hierárquica. A descentralização, neste modelo, não implicaria a atual fragmentação vigente, mas uma reconfiguração organizativa a partir das redes.
  2. Inteligência coletiva: com o uso de plataformas digitais participativas para elaboração, monitoramento e fiscalização de políticas públicas. Esses espaços virtuais podem funcionar como canais de escuta contínua e construção colaborativa, onde a população contribui de maneira orgânica e descentralizada. A tecnologia atual já nos permite sistematizar essas contribuições de forma eficiente, acelerando os processos pré-deliberativos e fortalecendo a legitimidade popular das decisões.
  3. Adaptação em tempo real: a partir da incorporação de dados urbanos, sensores, algoritmos e inteligência artificial, é possível monitorar dinâmicas territoriais e redistribuir recursos públicos de forma responsiva e eficaz, acompanhando as variações reais da demanda nos diferentes bairros e regiões da metrópole. Um exemplo simples: uma mesma linha de ônibus poderia traçar uma rota diferente em determinados períodos como: dia e madrugada, em função do levantamento de demanda.

No caso do Rio de Janeiro, a adoção de um modelo de rede distribuída implicaria na reconversão de suas instituições executivas: elas deixariam de ser instâncias de comando centralizado tradicionais e passariam a funcionar como plataformas de articulação entre diferentes territórios. A administração pública atuaria como orquestradora de uma malha de redes locais, reconhecendo, fortalecendo e conectando as capacidades já existentes nas bases comunitárias. Iniciativas que hoje são tratadas como exceções ou soluções paliativas ou vozes retificadoras das políticas pensadas pelos poderes constituídos, como associações de moradores, mutirões urbanos e coletivos culturais, passariam a integrar a estrutura legítima de governança metropolitana como verdadeiras construtoras das políticas estruturantes da cidade.

O Rio de Janeiro encontra-se em um ponto crítico de inflexão. A insistência em modelos centralizados diante da complexidade crescente da metrópole não apenas limita a eficácia administrativa, como também representa uma ameaça à própria coesão urbana, cada vez mais frágil e tensionada pelos inúmeros poderes paralelos que conformam nosso território. A transição para uma governança distribuída, orientada pelos princípios da ciência dos sistemas complexos pode ser uma boa alternativa de saída. Ela oferece uma oportunidade para ressignificar o papel do Estado, potencializar o protagonismo cidadão e construir uma cidade mais adaptativa e democrática.

Pollock
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O fim da CLT está só começando

No início da noite de um domingo chuvoso no Rio de Janeiro, deparo-me com a seguinte matéria:“prefiro sair. Pedidos de demissão batem recorde e já são quase 38% do total de dispensas” link ; Ainda junto a esta, li “Crianças demonizam CLT’: carteira assinada vira ofensa entre os jovens” link . Precisamos refletir sobre. 

O Brasil enfrenta um fenômeno crescente de evasão de trabalhadores do regime CLT, demonstrando uma tendência de recusa à exploração laboral tradicional. Explicações psicológicas individualizadas têm sido propostas, mas não respondem à complexidade da realidade. É importante considerar fatores estruturais e coletivos que moldam o desmonte das relações trabalhistas.

Desde 2016, o Brasil passou por reformas que enfraqueceram as leis previdenciárias, trabalhistas e sindicais, desmantelando proteções históricas não apenas dos trabalhadores, mas também dos empregadores, afinal, o sindicato é um instrumento legal de negociação dos dissensos entre as partes. Esse processo resultou em uma reorganização do mercado de trabalho, onde o vínculo formal perde atratividade tanto para quem contrata quanto para quem busca emprego. As empresas, ao promoverem a flexibilização, agora enfrentam dificuldades em atrair trabalhadores para posições formais, evidenciando uma contradição em suas próprias estratégias de mercado.

Devemos acender aqui um sinal amarelo. Tracemos um paralelo com a experiência africana, que oferece elementos valiosos para reflexão. Em muitas nações da África Subsaariana, a economia informal predomina, empregando entre 60% e 80% da força de trabalho e contribuindo significativamente para o PIB. Embora forneça meios de subsistência, essa informalidade está associada à ausência de proteção social e à hiper vulnerabilidade econômica. Em Gana, por exemplo, a criação da Union of Informal Workers Associations, refletiu a época, a urgência de construir estruturas representativas para os trabalhadores invisíveis, que sobrevivem à margem da formalidade.

Sem uma economia organizada em torno de uma estratégia de nação, os governos têm enorme dificuldade de promover melhorias significativas. O resultado é um ambiente que beira a barbárie, com conflitos civis mal resolvidos e lutas desesperadas pela sobrevivência, que muitas vezes culminam no êxodo de jovens e famílias inteiras para países europeus, em busca de um sonho vendido pelo capital, que não passa de miragem.

Nesse contexto, a promoção do autoempreendedorismo como resposta ao desemprego cria uma corrida solitária pelo ouro perdido. Indivíduos competem em um mercado saturado, sem direitos, proteções e seguridades do trabalho formal. Essa dinâmica resulta em instabilidade econômica e social, dificultando inclusive a implementação de políticas públicas estruturantes e a atração de novos investimentos para o país.

Necessidade de Reestruturação Sindical e Proteção Social

Para evitar um ciclo de precarização irreversível e o colapso, é essencial que o Brasil promova uma reforma sindical robusta, que fortaleça a representação dos trabalhadores e estimule negociações coletivas efetivas. Políticas que incentivem a formalização do trabalho, a construção de um sistema de bem-estar social e o desenvolvimento humano são importantes para garantir a estabilidade econômica e social. A experiência africana nos mostra que, embora a informalidade possa funcionar como rede de sobrevivência, ela limita qualquer projeto de crescimento inclusivo e sustentável. O empreendedorismo nem sempre traz dinheiro fácil, na maioria das vezes ele seduz porque entrega algum dinheiro rápido, mas que, por ser escasso e volátil, se dissipa sem deixar raízes para o futuro. “Dinheiro na mão é vendaval”.

O sindicalismo, por sua vez, precisará reaprender a caminhar sobre o novo solo das lutas. A luta dos precários atravessa outros territórios, físicos e virtuais, e exige novas formas de mobilização, para além da clássica negociação entre patrões e empregados. Precisamos mapear a nova geografia do trabalho e ocupar, com coragem e estratégia, os territórios por onde caminha.

O Brasil está em um ponto crítico, onde decisões sobre políticas trabalhistas e sindicais terão impactos duradouros. Aprender com as experiências de outras nações e reconhecer a importância de estruturas de proteção coletiva será vital para construir um campo de trabalho equilibrado. Se os campos que estão mais sentindo como: construção civil, um dos motores da economia do Brasil, não se atentarem a estas reais necessidades, o que veremos é a degradação que pode não ter volta. 

O Brasil está em uma encruzilhada histórica. As decisões que tomarmos sobre as relações de trabalho e o papel dos sindicatos impactarão significativamente o futuro do país. Se setores estratégicos, como a construção civil, um dos motores da economia nacional, não se atentarem à gravidade do cenário, presenciaremos uma degradação profunda e, talvez, irreversível.

Assim, precisamos alinhar o debate na direção que ele precisa ser tratado: o das lutas coletivas e relações de trabalho, e não o psicológico-social que faz parecer que os jovens estão iludidos, quando na verdade eles estão simplesmente pesando o seu preço real no mercado de trabalho. se eles não precisam neste momento se submeter a salários defasados, falta de direitos, jornadas exorbitantes como as 6×1, assédio moral, entre outros, eles estão certos em não ir trabalhar. O erro dos jovens está em não conseguirem se organizar coletivamente para enfrentar o vilipêndio que foi a destruição do fraco sistema de bem estar social do Brasil e esta é uma luta a qual gostaria de convocar com este texto. 

É preciso alinhar o debate ao que realmente está em jogo: as lutas coletivas e as relações de trabalho. Não podemos mais aceitar apenas análise psicológica que retrata os jovens como mimados ou iludidos por não aceitarem trabalho CLT. Eles estão, na verdade, fazendo um cálculo objetivo e subjetivo, embebidos da subjetividade do autoempreendedorismo, avaliam o custo de se submeter a jornadas abusivas, salários aviltantes, assédio moral e ausência de direitos. E estão certos em não aceitar esse jogo, vão arriscar enquanto são jovens o outro caminho que lhes é aberto pelo capital, a corrida do ouro perdido. O erro, se é que se pode chamar assim, está na falta de organização coletiva para enfrentar o saque sistemático ao que restava do já frágil sistema de proteção social brasileiro. Esta é a luta à qual este texto deseja convocar.

Para o mercado que achou que o desmonte seria o fim dos sindicatos só esqueceu de uma coisa básica: não são os sindicatos que constroem as lutas, são as lutas que constroem os sindicatos. O desmonte criará um sindicalismo diferente que poderá ser mais visceral e combativo diante do massacre popular.  

Ao mercado que acreditou que o desmonte selaria o fim dos sindicatos, um recado: esqueceram do fundamento! Não são os sindicatos que constroem as lutas; são as lutas que constroem os sindicatos. E quando o povo voltar às ruas, às redes e às praças, não vai ser de paletó e crachá, virá selvagem. Virá com fome, com raiva e com uma clareza feroz de que ou este país se reconstrói a partir do trabalhador, ou arderá em sua própria injustiça, e esta será a cara do sindicalismo. Sua nova forma, ainda não sabemos.

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Jovens Arquitetos e Futuro

Os jovens de hoje cresceram conectados. Acostumados com redes sociais, fóruns online, plataformas digitais e games em rede, pertencem a um mundo repleto de ferramentas que permitem organizar ações de forma rápida e articulações horizontalizadas. A arquitetura no entanto, ainda opera sob dinâmicas de mercado saturado , elitizado e atravessado por desigualdades estruturais. Recessão, machismo estrutural , desvalorização profissional e classismo são alguns dos enfrentamentos cotidianos de quem se forma no país.

Atualmente, o Brasil conta com mais de 200 mil arquitetos e urbanistas registrados no CAU/BR. Apesar desse crescimento, a falta de investimentos públicos e privados no setor da construção civil e a crise imobiliária, ausência de industrialização e de um plano nacional de habitação colocou a categoria e na verdade todo o campo da construção civil em um limbo. Cerca de 60% dos arquitetos brasileiros trabalham de forma autônoma , a maioria, enfrentando precarização e instabilidade. Para as mulheres, que representam a maioria entre os formados, a realidade é ainda mais árdua: desigualdade salarial , assédio e invisibilização profissional fazem parte do cotidiano. Em um mercado altamente elitizado, muitos desistem da carreira, migrando para áreas correlatas ou aceitando condições de trabalho precarizadas em qualquer área pra sobreviver.

Quando estudante, lembro-me de algumas táticas. Sem dinheiro para conhecer o mundo, desbravei-o nas bibliotecas da FAU. Lia em todos os meus tempos vagos, revistas, livros, artigos, teses. Porém não falarei sobre isso agora. Para este texto vou citar 3 documentos que me auxiliaram na auto-organização: o livro Manual do Arquiteto Descalço (aqui); o documento da FNA, na época da gestão Jeferson se não me engano, Manual de Defesa Pessoal do Jovem Arquiteto e Urbanista (aqui), e mais atualmente a Cartilha T.A.B.A. Trabalhadores Articulados em Benefício da Arquitetura (aqui).

A verdade dura é: minha geração já não via muito futuro na profissão, pois a forma estruturante dela é para poucos terem sucesso.

Apesar das enormes dificuldades deste porvir, os jovens de hoje têm à disposição ferramentas e práticas que podem revolucionar o campo da arquitetura, na verdade do trabalho. Redes sociais e plataformas digitais como Discord, Instagram e TikTok já estão sendo utilizadas para criar comunidades de troca e apoio . Diferentemente da minha geração, que utiliza essas ferramentas de forma mais expositiva, os mais jovens constroem nichos e espaços de diálogo muito próprios que desafiam a lógica tradicional. Para além do entretenimento, o que precisamos é otimizar estas ferramentas para articulação. 

Jovens Arquitetos podem utilizar esses espaços para compartilhar oportunidades de trabalho, oferecer ajuda técnica e podem divulgar projetos colaborativos em redes de interesse mútuo ou complementar. Um exemplo inspirador no Brasil é a rede Arquitetos pela Moradia , que conecta e articula profissionais e estudantes interessados ​​em Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS) . O grupo promove debates sobre políticas habitacionais, divulga editais e cursos, e fomenta projetos que impactam comunidades locais.

No âmbito internacional, iniciativas como o Open Architecture Collaborative (nascido do Architecture for Humanity), nos Estados Unidos, demonstram o poder do trabalho coletivo. Esse grupo cria projetos de impacto social em áreas vulneráveis, promovendo soluções de habitação e infraestrutura. Na Colômbia, o MU Micro Urbanismo em Bogotá realiza intervenções urbanas táticas em comunidades periféricas, promovendo a transformação de espaços públicos negligenciados.

Esses exemplos mostram que, em contextos de crise, a organização coletiva pode ser uma ferramenta poderosa de transformação econômica e social. No Brasil, movimentos autogeridos como mutirões, cooperativas, coletivos culturais e coletivos de assistência técnica e melhorias habitacionais, assim como coletivos de jovens arquitetos realizando diversas entradas de trabalho e experimentações podem propor um novo paradigma para a arquitetura.

Táticas de Ação: Como Começamos um Coletivo de Arquitetura?

  1. Forme o Grupo
    • Identifique colegas com interesses em comum. Um coletivo pequeno e bem alinhado é mais eficaz do que grupos dispersos. Não precisam ser necessariamente arquitetos.
  2. Organizar Grupos de Estudo
    • Utilize bibliotecas públicas, materiais online e promova rodas de debate. Estude além da sala de aula para entender como aplicar o conhecimento na realidade local.
  3. Crie uma Rede Digital
    • Use plataformas como Discord, telegram ou WhatsApp para organizar canais dedicados a oportunidades de trabalho, compartilhamento de materiais e discussões sobre temas de interesse global e local: justiça ambiental, urbanismo sustentável, crise climática e assistência técnica, por exemplo.
    • Um coletivo deve possuir uma agenda ativa de ações. Rodas de conversa, grupos de estudo, cineclubismo, oficinas de experimentação e projetos utópicos, estudos de estética, estudos políticos, entre outros.
  4. Mapeie Demandas Locais
    • Identificar espaços públicos ou habitacionais que necessitem de intervenção. Use ferramentas como o Google Earth para mapear condições e criar um portfólio. Conheça sua vizinhança, caminhe e identifique os problemas, produza documentos pessoais, compreenda a economia que gira em torno da construção de uma casa popular periférica.
  5. Busque Apoio e Financiamento
    • Articule-se para, quando apresentar o portfólio e a proposta de impacto social do coletivo, ter capacidade de pleitear recursos.
    • Auxiliar ONGs, Cooperativas, associações de moradores ou coletivos a realizar ações de melhorias. Disputar editais, organizar-se para acompanhar metodologicamente os instrumentos de fomento, assim como captar recursos via ferramentas de doação colaborativa. 
  6. Realize Projetos Colaborativos
    • Comece pequeno: revitalizar uma calçada, criar mobiliário urbano sustentável ou promover oficinas de educação ambiental, de estudo do lugar, de memórias afetivas.

A formação em arquitetura nos capacita com habilidades que vão além de projetos e obras. Cito alguns que considero interessantes. O olhar generalista e multidisciplinar, que comunga técnicas exatas, artes e ciências sociais aplicadas, nos dá flexibilidade para atuar em outros campos de trabalho. A capacidade de análise sistêmica é altamente valorizada em setores como gestão de projetos , consultoria estratégica e inovação tecnológica . A habilidade criativa nos conecta a áreas como design de serviços e publicidade, além de áreas que exigem soluções inovadoras para problemas. 

O equilíbrio entre conhecimentos técnicos e sociais também permite que arquitetos transitem por áreas como políticas públicas , consultoria ambiental e empreendedorismo social. Assim, apesar da recessão, um bom preparo pode nos levar a algumas possibilidades que ampliam o horizonte de atuação e mostram que a formação em arquitetura apesar de não ser o principal elemento, se torna um ativo importante.

Estudar é um Ato Político

Lembro-me de uma frase que se lia num banheiro público e que sempre ouvi nos tempos de FAU: “Não deixe a faculdade atrapalhar seus estudos”. Estudar, no sentido amplo, vai além das aulas e exige esforço ativo. Quando jovens arquitetos se reúnem para aprender juntos, estão resistindo a um modelo de educação que prioriza a competitividade em detrimento da colaboração. Círculos de estudo livres podem ser sementes de movimentos maiores, assim como os cafés modernistas ou os escritórios brutalistas um dia o foram. Teoria e prática não andam separadas.

Em uma economia de recessão, a utopia também é panfleto. Muitos movimentos da Arquitetura se organizaram a partir de projetos panfletos, de produção de ideias, narrativas, discursos utópicos, experimentações teóricas. Cidades futuristas do Archigram ou o Cenotáfio de Newton de Boullée, são exemplos interessantes de arquiteturas sem sombra. Curioso, usei o termo panfleto alguns dias após tê-lo criticado em dois textos anteriores sobre organização política. Mas aqui cabe.

Conclusão

A arquitetura nunca foi apenas sobre construir prédios. Os desafios do mercado brasileiro são reais, mas as oportunidades para transformar a profissão também. A recessão constante e a desvalorização nos mostram que o modelo está muito equivocado. Nosso esforço atual precisa caminhar para a transformação do campo de trabalho, é um esforço que exigirá a emancipação da profissão e o realinhamento dela com as necessidades do Brasil Real.  Ao organizar-se, estudar juntos, criar redes, elos e cooperativismos e agir coletivamente, jovens arquitetos podem criar algo novo, redefinindo o papel da arquitetura na sociedade. Fica como um pequeno convite à ação. 

archigram cities: veja aqui

@rodrigobertame

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A Dor do Pobre: 4614/24 e Desigualdade na Nova Política Fiscal

Quero começar este texto com uma frase curta e incisiva de Pagu: “A dor do pobre é o dinheiro”. As políticas de arcabouço fiscal do governo Lula ilustram bem essa frase. A PLC 4614/2024 é sobre isso. 

Duas medidas são duras: o aumento real do salário mínimo atrelado aos índices anuais efetivos de crescimento da despesa primária, conforme fixados na LC 200; e a exigência de que, para fins de concessão do BPC, a pessoa com deficiência seja definida como aquela incapaz de viver de forma independente e de trabalhar. De cara lhes digo: para o governo, o pobre é um gasto.

Ao impor um teto ao salário mínimo e limitar o acesso ao Benefício de Prestação Continuada, o governo abandona milhares de brasileiros já vulneráveis, deixando-os ainda mais expostos à precariedade, largados ao relento. Convém lembrar, bolsas e benefícios são, por si só, um atestado da incapacidade do Estado de enfrentar estruturalmente os problemas de desigualdade psico-socioeconômica que afetam o país.

O Projeto de Lei 4614/2024 exige que o beneficiário comprove incapacidade absoluta para a vida independente e para o trabalho. Esse requisito entra em conflito direto com o conceito de pessoa com deficiência (PCD) já consolidado no Brasil, em alinhamento com a ONU, que estabelece: “Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas”.

Assim sendo, o que o governo promove é a exclusão de um benefício afirmativo sem dar condições sociais para completa integração das pessoas a dignidade plena e todos os direitos civis. Entendemos que, mesmo a deficiência em um grau aparentemente leve carrega a longo prazo uma série de dificuldades ao longo da vida, ainda mais em um país pobre como o nosso. 

O que o governo promove, portanto, é a exclusão de um benefício afirmativo sem oferecer as condições sociais necessárias para a plena integração dessas pessoas à dignidade e aos direitos civis. Mesmo uma deficiência considerada leve pode, a longo prazo, acarretar sérias dificuldades — ainda mais em um país marcado pela pobreza como o nosso. Tanto estes benefícios, quanto o salário mínimo não se justificam como economia, visto ser um dinheiro que circula novamente na economia, tão logo é recebido.

Quando junta esta política com a aprovação da precarização do professor no Rio de Janeiro, o recado dado permanece: reduzimos a ajuda permanente e dificultamos as condições de ensino. Admira-me a esquerda se alinhar a este tipo de projeto, rasgando bandeiras históricas de lutas populares e por um mundo igualitário. 

Ao combinar essas políticas com a recente aprovação da precarização do trabalho docente no Rio de Janeiro (e no restante do Brasil), o recado é claro: reduzimos a ajuda permanente e precarizamos o acesso digno à educação. 

Surpreende ver setores da esquerda (incluso o governo) alinhados a esse tipo de projeto, que contradiz bandeiras históricas de lutas populares e pela igualdade. O projeto do Brasil desenha um país com um planejamento frágil, baixíssimo fomento em desenvolvimento real, subserviente ao agronegócio. Um país que escolheu o pobre como alvo de seu projeto de controle social e econômico. 

Não é pelo dinheiro economizado, é pelo valor que “sua cabeça agora está custando”. Com menos renda e salário, o que o governo faz é aumentar a massa de reserva de trabalhadores barateados pela necessidade de sobrevivência. Ao mesmo tempo, seguem os privilégios das famílias donas do poder, das OSs, das BETs e de inúmeras estruturas legais ou ilegais que gerenciam e rateiam o Brasil. Infelizmente, jogaremos fora um dos maiores ativos do País: o bem-estar e a dignidade do seu povo, Não terá narrativa ou militância que salve a esquerda do ônus destas decisões estapafúrdias.

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Cemitérios no Rio: desigualdade até na última morada?

Nunca imaginei que fosse ser expulso de um jazigo. Pelo visto, a gentrificação alcança a todos. Quem diria que correríamos o risco de perder a última morada.

A saga de ver o jazigo da família ser ameaçado de leilão me fez enxergar um mundo imobiliário peculiar: a compra e venda de túmulos. Nos classificados, as melhores descrições possíveis: “Túmulo, ótima localização, direto com o proprietário”. O que viria a ser uma ótima localização? Estaria vivo o proprietário? “Oportunidade única: jazigo perpétuo, cemitério Caju, na primeira quadra”; “Jazigo Perpétuo, Cemitério da Cacuia, área nobre”; onde seria a periferia, no Dendê?

Não pensem que o Rio partido fica esquecido no além. Morar no São João Batista é luxo! Um buraco de 3m² pode ser comprado por módicos 180 mil reais, ou bem mais. Ainda assim, é mais barato e, quem sabe, até mais confortável que um estúdio da Avenida Paulista. Atravessou o túnel e pronto: estou pertinho da praia e do Bairro Peixoto, um dos cantinhos mais simpáticos para os vivos e mortos desta cidade se sentirem no aconchego de um Rio perdido no tempo.

Minha morada final, por enquanto, não custa mais de 30 mil reais. É no Murundu, ali entre Bangu e Realengo, terra de meu avô. Chão do meu batismo. Mas quem sabe, até lá, o Airbnb não crie um sistema imobiliário para a vida além? Podemos ser corpos nômades, vagando de aluguel nos túmulos por aí. Passar um fim de semana no Caju, ao lado do Cruzeiro. Outro fim de semana, curtir um samba com Paulo da Portela no Irajá. Passar uma tarde no Jardim da Saudade, sob um pé de laranjeira. Talvez uma noite no cemitério vertical. Ou tirar férias luxuosas na Recoleta.

Imagino até a notificação no celular: “Sua reserva no Vila Rosali foi confirmada. Check-in: 2084”. 104 anos, como o velho Niemeyer! Qual o prejuízo? Minha vida já é aluguel mal pago.

A morada final nunca foi algo que imaginei. Meu limite foi o velório. Quero todos os meus amigos presentes, os vivos e os mortos. Deem um jeito, dá para chegar de trem! De um lado, o samba; do outro, o rock’n’roll, sem misturar. Não gosto do Sambô. Um cortejo digno das vaidades que nunca tive, mas com o deboche niilista e existencial de quem sabe que a morte é só um detalhe.

Nada na vida é tão importante que não mereça ser celebrado. Se até lá meu túmulo ainda não tiver sido leiloado, deixo na lápide para todos: A vida é boa! Se sentirem saudades, fiquem tranquilos; venho visitá-los nas madrugadas para conversar.

quem é vivo sempre aparece

publicado originalmente no instagram: @rodrigobertame

replicado no Diário do Rio

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O Jeito Carioca e a Romantização da Precariedade

Espaços Culturais: Entre o Improviso e a Segurança

Nada justifica o falecimento da servidora Virgínia Gazola da Petrobrás acidentada no Armazém do Campo, no Rio de Janeiro. Infelizmente, não se trata de um evento trágico singular, mas de um reflexo de uma cultura arraigada que alimenta um marketing da identidade carioca, no qual o “jeito carioca de ser” de ser descontraído e improvisado é romantizado a ponto de encobrir graves negligências.

Espaços famosos da noite carioca, ocupados por bares, eventos culturais e áreas de lazer de rua frequentemente carecem de um mínimo de infraestrutura que garanta qualidade e segurança aos seus usuários. Muitos desses locais, mesmo com rotatividade suficiente para investir em melhorias, apoio e articulação política permanecem inertes. Vemos que, sustentabilidade financeira não se traduz, necessariamente, em responsabilidade.

Antes de avançarmos na crítica, é importante problematizar a própria imagem que vendemos do carioca. Essa imagem descontraída e improvisada foi historicamente capturada e moldada como parte de um projeto maior de controle simbólico, que remonta às décadas de 1920. O Rio de Janeiro é vendido como o cartão-postal do Brasil, mas a identidade de seu povo é frequentemente enquadrada em estereótipos que obscurecem a diversidade e a complexidade local.

Esse estereótipo não é inofensivo. Ele invalida práticas e comportamentos que fogem ao padrão romantizado, perpetuando a ideia de que o caos e o desleixo são parte da identidade carioca, parte da malandragem. Entendam! Uma coisa é, nascermos pobres, sem acesso a nada, precisarmos improvisar para solucionar problemas de vida cotidiana, outra coisa é o mercado cultural criar, conscientemente, simulacros deste modo improvisado de viver para vender a imagem de o Rio Cool. Na prática, o simulacro se reflete na aceitação tácita de condições precárias em espaços públicos e privados. Vendemos um certo desconforto e desorganização como elementos de autenticidade. Assim, somos “legais” à medida em que nossa experiência urbana reflita este estereótipo.

O acidente ocorrido no Armazém do Campo poderia, sim, ter sido evitado. Esse episódio expõe uma contradição dolorosa: triste que um espaço gerido por um movimento social de luta tenha vacilado com isso. Se o mundo que acreditamos é o melhor, temos a obrigação de, tanto nas lutas quanto na nossa micro escala de alcance sermos reflexo deste mundo, em todos os sentidos. Um espaço gerido por um movimento social de luta, que acredita em um mundo melhor, falhou em refletir esses ideais no cuidado e segurança oferecidos. Me assusta pensar que este mesmo espaço, ainda que sem alvará, tenha sido considerado Patrimônio Imaterial da Cidade, o que denota que o espaço não estava tão invisível ao poder público. Esse é um alerta ético.

Aqui entra também a relevância do conhecimento técnico. Arquitetos, engenheiros e técnicos possuem o ferramental necessário para pensar, projetar e construir espaços mais seguros, interessantes e funcionais, especialmente em contextos culturais e urbanos. Negligenciar isso, para além de irresponsável, é uma forma de desprezo pelos saberes profissionais que podem salvar vidas. Este alerta não cabe somente à casa em questão ou aos movimentos, mas a todo o circuito cultural do Rio, e incluo aqui os inúmeros empresários da economia cultural, de turismo e eventos.

Infelizmente, o desleixo não é exceção, mas padrão. Há no Rio uma infinidade de espaços culturais, bares e áreas de lazer que operam à beira da precariedade, oferecendo condições propícias às mais terríveis tragédias. Como exemplo, lembro-me de um dos banheiros de botequim mais bem cuidados que já encontrei, na Rua Paranhos, em Olaria. Na prática, um botequim de bairro suburbano, periférico, no pé do Complexo do Alemão, sem atrativos turísticos para participar do circuito hype do Rio. Paradoxalmente, aquele banheiro seria considerado luxuoso em comparação com muitos espaços badalados da Lapa ou outros polos da noite carioca.

Para enfrentar esse cenário, é necessário promover uma mudança de paradigma que integre políticas públicas, responsabilidade empresarial e educação técnica. Isso inclui a implementação rigorosa de normas de segurança em espaços culturais e comerciais, acompanhada de fiscalização efetiva para coibir negligências.  Também é fundamental oferecer programas de capacitação voltados para pequenos empresários, destacando que investir em segurança não é apenas uma obrigação, mas um diferencial competitivo. Além disso, criar linhas de crédito ou incentivos fiscais para estabelecimentos que realizem melhorias estruturais e de preservação e restauração de patrimônio arquitetônico pode estimular a adoção de boas práticas. 

Por fim, é essencial integrar (e respeitar) o saber técnico dos arquitetos, engenheiros e técnicos às discussões públicas sobre segurança e planejamento, garantindo soluções acessíveis, criativas e eficazes. Algo que com o tempo foi sendo perdido ou ocupado por outras forças econômicas que atuam na cidade. Avanços como os do Corredor Cultural parecem ter se estagnado diante da precariedade ou falta de política firme de preservação e restauração. E aqui, temos um compromisso necessário de ser assumido pela prefeitura atual do Rio, maior beneficiária e fomentadora da narrativa do jeito carioca de ser como identidade para atrair turismo e outras atividades econômicas.

Acidentes como o que vitimou a servidora são evitáveis. O primeiro passo é desconstruir a romantização da precariedade, do caos e do improviso, reconhecendo que, acima de tudo, o cuidado com o bem estar do cidadão é parte  fundamental de qualquer identidade cultural que se pretenda digna. O segundo ´passo é respeitar as condições técnicas mínimas da arquitetura e engenharia nos quesitos: segurança, conforto, ergonomia, entre outros.

Há um equívoco, quem acredita que este tipo de prática sugere uma certa gourmetização (a gentrificação dos espaços de cultura), como se isso afastasse o povo. Primeiro, a maior parte do povo sequer consegue chegar nos principais pólos centrais de noitada do Rio de Janeiro pois o metrô fecha cedo e muitos ônibus da zona norte, oeste e baixada param de circular. Segundo, muitos destes lugares, apesar de ter pouco cuidado na sua arquitetura e engenharia, já são gentrificados, com preços caríssimos para o que oferecem a seu público. O que estes empreendimentos fazem, é aplicar maximização do lucro a partir da redução dos custos de investimento, justificando isso na cultura do lugar: “este é o espírito do meu bar”.

Para ilustrar esta postagem, que é dura de escrever, optei por usar uma antiga foto de Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Marçal caminhando. Lembro-me de uma frase atribuída a Paulo da Portela que talvez fosse uma das mais replicadas por minha família e muita gente que conheço na vida: “Posso estar sem um nada no bolso, mas a elegância e a postura eu não perco“.  Este estereótipo romantizado do carioca ser autentico por um desleixo fantasiado de improviso não reflete a maior parte da população dessa cidade. E ainda que refletisse, nada justificaria a negligencia técnico-científica de todas as forças envolvidas na boa conservação dos espaços culturais da cidade.

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De onde surgiu Rick Azevedo? O drible do trabalhador no enfrentamento do 6×1

De onde surgiu Rick Azevedo? Essa pergunta tem ecoado entre certa parte dos pensadores da esquerda carioca. Confesso que também conheço pouco sobre ele, mas já o considero um nome promissor. A expressiva votação que o candidato do PSOL alcançou nos diz muito sobre a invisibilidade do trabalhador pobre diante do sistema político brasileiro.

Há dois pontos essenciais que gostaria de destacar. Primeiro, Rick foi direto e incisivo em uma análise crucial: diante da precarização, não basta resiliência; é preciso disputar espaço. Esse é o recado do “6×1”, um sinal de uma luta popular real. Engana-se quem pensa que essa pauta é restrita a celetistas ou trabalhadores com contrato formal; ela representa todos aqueles que, frente à precarização de suas vidas, precisam estar disponíveis para o mercado, 24 horas por dia, sete dias por semana, para sobreviver.

O que quero dizer com empregabilidade? Quando falo em “empregabilidade”, refiro-me não apenas à exigência de estar sempre “pronto para uso” no mercado, sempre competitivo e adaptado às transformações econômicas, tecnológicas e sociais. É a pressão para ser “empregável” em qualquer situação, diferentemente de um emprego, que é uma ocupação formal e estável. Empregabilidade abrange o trabalho informal, o bico, o subemprego, e principalmente o desemprego, todos os sistemas onde o trabalhador vende sua força na esperança de um retorno que talvez nunca venha.

Assim, a jornada “6×1” vai muito além de um acordo para celetistas. É a rotina dos entregadores, motoristas de Uber, microempreendedores (MEIs) e todo tipo de trabalhador que não consegue, em 40 horas semanais, garantir o básico para viver. Enquanto a Europa experimenta e disputa jornadas reduzidas, como o modelo “4×3”, que permite mais equilíbrio entre trabalho e vida, o Brasil segue pelo caminho oposto, abraçando uma lógica de exploração que mantém a mão de obra barata e a pobreza crônica, favorecendo a hiperexploração. E essa realidade só se aplica à gigantesca massa de pobres, sem heranças ou privilégios, cujas vidas são devoradas por um mercado que exige sempre mais e oferece cada vez menos.

O segundo ponto essencial é a coerência das ações de Rick. Ele é o “desconhecido mais conhecido” que já vi, e sua trajetória expõe a crise de desconexão da esquerda carioca – e talvez nacional. Seu impacto eleitoral não se limita aos corredores da esquerda. Rick caminhou por onde muitos formuladores e líderes da esquerda já não passam: as filas de trens, os pontos de ônibus, as ruas da Baixada Fluminense, os subúrbios, o duro solo do trabalhador carioca e fluminense. Ele foi ao encontro do trabalhador, do desempregado, do pobre, aquele que ele efetivamente busca representar.

Rick faz uma crítica necessária e contundente ao sistema sindical, num momento em que o próprio governo federal, que deveria carregar as bandeiras do trabalhismo e sindicalismo, se curva diante da correlação desfavorável de forças e tem de negociar com um parlamento que empurra os trabalhadores para novas formas de exploração. E, ironicamente, é o mesmo governo que, ao optar por um ajuste fiscal, ameaça o Sistema Único de Saúde (SUS) em um contexto onde até a saúde privada se torna precária para o trabalhador médio.

Rick Azevedo se apresenta como uma força emergente, uma representação autêntica da luta contemporânea pelo trabalho no contexto carioca. Ele pode simbolizar uma esperança para a reconstrução do pensamento trabalhista e sindical e para o próprio PSOL. Que o ímpeto de suas pautas permaneça forte em sua atuação como parlamentar, este será seu novo desafio, manter-se firme às pautas que o levaram ao cargo no legislativo. Ver essa chama acesa no PSOL é inspirador. Essa bolha furada prova que ainda é possível lutar de verdade, basta ter coragem.

imagem de divulgação do próprio vereador
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