artigo, ciência, meio ambiente, pensamento, política, Sem categoria, territórios

Uma breve reflexão a partir do terremoto na Colômbia

A resposta do Estado colombiano ao terremoto dos últimos dias expõe uma questão política que ultrapassa a emergência imediata: que tipo de soberania e de capacidade estatal precisamos construir em um mundo atravessado por crises cada vez mais complexas, interdependentes e territorialmente desiguais.

O governo colombiano mobilizou estruturas nacionais de emergência, equipes de busca e salvamento, forças de segurança e mecanismos extraordinários de resposta. Ao mesmo tempo, produziu uma contradição importante. A resistência inicial à incorporação de equipes internacionais especializadas revelou uma concepção de gestão fortemente centralizada, orientada pela demonstração de autossuficiência e de controle nacional da resposta. Em um momento no qual cada hora pode significar vidas, retardar cooperação técnica externa é uma decisão política que precisa ser examinada para além da retórica ideológico-patriótica.

Soberania e capacidade de comando, diante de catástrofes de grande escala, exigem também humildade institucional, articulação e mobilização. Reconhecer rapidamente os próprios limites também é capacidade de Estado. Um governo forte amplia suas possibilidades de ação ao incorporar recursos externos dentro de uma estratégia própria, coordenando governos locais, universidades, forças de emergência, sociedade civil, organismos multilaterais e cooperação internacional sem perder direção política e sem se infantilizar diante do marketing ideológico que sustenta imagens de governo.

A distribuição territorial da resposta também importa. Quando o centro concentra decisões e determinados territórios permanecem dependentes de recursos improvisados ou capacidades locais frágeis, a centralização revela seus limites. Capacidade estatal se mede pela capilaridade concreta da ação.

É também nesse ponto que as bandeiras do marketing eleitoral começam a perder força. A mobilização da pátria, da bandeira e da unidade no campo do abstracionismo eleitoreiro pode produzir coesão social, levar candidatos ao poder, mas catástrofes não deveriam se transformar em palco de marketing ideológico. A pandemia já demonstrou isso no Brasil. Há momentos em que o discurso político precisa baixar o volume para que apareçam a técnica, a ciência, a logística, a engenharia, a saúde pública e a organização social e material dos territórios.

O terremoto colombiano possui origem geológica, mas ocorre em um mundo no qual crises ambientais, climáticas, sanitárias, energéticas e infraestruturais se tornam interdependentes. A crise climática é global em sua dinâmica e profundamente territorial e desigual em seus efeitos. Amplia eventos extremos, deslocamentos populacionais, pressões sobre sistemas urbanos e interrupções de cadeias logísticas. Já estamos neste mundo. Isso exige construções político-intelectuais menos inflamadas pelos recortes de comunicação e mais comprometidas com projetos de curto, médio e longo prazo.

No curto prazo, entram protocolos de emergência, cadeias de comando, equipamentos, informação e cooperação internacional. No médio prazo, sistemas de defesa civil, formação técnica, logística, infraestrutura, redes hospitalares, mapeamento de riscos e fortalecimento das capacidades municipais. No longo prazo, planejamento territorial, adaptação climática, autonomia tecnológica, política industrial, produção científica e integração regional.

Essas escalas precisam conversar. E para isso é preciso organizar uma mesa ampliada, mas minimamente objetiva: entender quem produz informação, quem decide, quem executa, quem possui capilaridade territorial, quem controla recursos e onde estão as capacidades que faltam. Municípios, universidades, governos nacionais, organizações sociais, setor produtivo e organismos internacionais não cumprem o mesmo papel, nem precisam cumprir. A articulação também não elimina os conflitos entre esses atores, seria ingênuo imaginar isso. Ela constrói convergências possíveis dentro dos dissensos. Não é uma mesa simples. Mas é uma mesa que precisa existir. Um projeto de nação exige essa capilaridade, capacidade de se articular, produzir continuidade e construir convergências.

É aí que a distinção entre nacionalismo abstrato propagandístico e projeto de nação ganha potência. O nacionalismo opera com símbolos de adesão imediata e simplificação dos conflitos; tudo pode acabar reduzido a soluções mágicas, uma cloroquina para se curar da dor. Problemas complexos pedem justamente o contrário da solução mágica: identificar escalas, reconhecer capacidades, distribuir responsabilidades e saber coordenar redes de conflitos.

A cooperação internacional também pode ser pensada como política permanente de soberania. Países podem construir acordos de reciprocidade, protocolos regionais de emergência, bancos compartilhados de equipamentos, redes científicas e equipes especializadas mobilizáveis entre fronteiras. Para a América Latina, essa poderia ser uma agenda concreta de integração, menos dependente de grandes declarações diplomáticas e mais vinculada à construção cotidiana de pautas comuns.

A Amazônia ajuda a compreender essa necessidade sem relativizar soberanias nacionais. O bioma, suas bacias hidrográficas, fluxos atmosféricos e sistemas ecológicos atravessam diferentes países, enquanto cada território permanece sob a soberania de seu respectivo Estado. Cooperar sobre fenômenos transfronteiriços não significa internacionalizar a gestão territorial. Significa reconhecer que a geografia não se encerra onde termina uma fronteira político-administrativa e que Estados fortes também precisam saber cooperar para proteger seus próprios povos e territórios.

Uma boa solução técnica ganha força quando encontra arquitetura política para sustentá-la. Articular significa reconhecer interesses, potencialidades, conflitos e construir convergências suficientes para transformar conhecimento em decisão. A política não substitui a técnica, e a técnica não governa sozinha. O difícil, e talvez o mais interessante, é construir as condições políticas para que boas soluções efetivamente aconteçam.

A soberania do século XXI será, a meu ver,  cada vez mais medida por essa capacidade relacional e territorial: organizar recursos próprios, reconhecer limites, acionar parceiros sem subordinação e transformar a cooperação e troca de saberes em aumento de potência política, técnica e territorial. Talvez seja justamente no intervalo entre a emergência e o horizonte imponderável que teremos de aprender a conceber projetos de nação capazes de transformar crises em aprendizado institucional, articular sociedade e conhecimento e produzir respostas à altura da complexidade do mundo que já chegou.

Standard
artigo, ciência, cultura, filosofia de vida, Inteligencia Artificial, literatura, pensamento, política

BigTechs e a centralização das informações

O Delírio da Biblioteca de Babel

Têm sido amplamente divulgadas as práticas de grandes empresas de tecnologia e inteligência artificial que compram acervos e bibliotecas inteiras, digitalizam suas obras e retêm essas informações como matéria-prima para o treinamento de seus sistemas. Em muitos casos, não se tratando apenas de acessar o conteúdo, mas de garantir exclusividade sobre ele.

Além do caráter socialmente questionável e dos riscos éticos envolvidos, essas empresas parecem desconsiderar uma dimensão primordial da informação: sua credibilidade não se estabelece apenas pela acumulação de dados, mas pela possibilidade de circulação, confronto, verificação, legitimação e reconhecimento coletivo.

Ao retirar uma obra de circulação, uma empresa de inteligência artificial não se torna necessariamente a única potencializadora do conhecimento nela contido. Corre, ao contrário, o risco de transformar esse conhecimento em algo perdido no limbo do algoritmo: disponível para o sistema, mas inacessível à sociedade que o produziu. A grande revolução humana provocada pela imprensa consistiu justamente na ruptura de um processo de centralização da informação. A reprodução e a disseminação das fontes primárias ampliaram o acesso de sociedades inteiras ao conhecimento e tiveram um papel decisivo na formação cultural, científica e política da humanidade.

Informação, vale lembrar, não é sinônimo de conhecimento. Reunir todas as informações do mundo não significa, necessariamente, ampliar a capacidade de relacioná-las, criticá-las, tensioná-las ou confrontá-las com a experiência cotidiana. Podemos pensar em um exemplo alegórico: ao falarmos da gravidade, lembramos de Newton e da maçã; ao falarmos de Einstein, surgem histórias sobre sua observação atenta de fenômenos aparentemente banais como as formigas. Verdadeiras ou não em todos os seus detalhes, essas narrativas expressam uma ideia importante: o conhecimento não nasce apenas da informação obtida, mas também das relações sutis que estabelecemos entre o aprendizado delas e os acontecimentos e experiências de relação com o mundo ao nosso redor.

Da mesma forma, são as trocas entre muitas pessoas que possibilitam a validação, a contestação e a transformação do conhecimento. Um livro apropriado exclusivamente por uma empresa de inteligência artificial, do qual não seja possível encontrar sequer um exemplar em uma biblioteca ou em um sebo, permanecerá sob suspeita: tratava-se de uma obra concreta, produzida e datada, ou de uma invenção posterior do próprio sistema?

O que faz de Notre-Dame de Paris uma obra de impacto? A existência de um primeiro fac-símile ou o fato de o livro ter circulado por inúmeros países, transformando uma arquitetura construída em personagem, inspirando filmes, animações, adaptações, narrativas infantis, interpretações críticas e incontáveis apropriações culturais?

O impacto de uma obra está, em grande parte, em sua capacidade de ser encontrada por múltiplas entradas: edições, citações, leituras, vozes comuns, traduções, formatos, adaptações e remixagens. Sua força não reside apenas em uma suposta origem preservada, mas nas redes de sentido que se formam ao seu redor. Foi exatamente assim que mantemos vivas obras fundantes da humanidade como a Bíblia, Ilíada ou Popol Vuh.

O caráter regressivo do sistema devorador criado pelas big techs está justamente na incompreensão de que a informação só adquire sentido dentro de fluxos e redes sociais complexas, e de que o conhecimento é sempre, em alguma medida, uma produção coletiva.

Ao ignorarem essa dimensão, essas empresas alimentam uma disputa alienada e eticamente problemática, cujo resultado pode não ser o aumento da capacidade cognitiva da sociedade nem a valorização real de seus sistemas. Pode ser, ao contrário, a perda da autonomia coletiva para processar, verificar e produzir conhecimento ou até mesmo a incapacidade de reconhecer como importante aquilo que desapareceu nos porões de um algoritmo.

As bigtechs tentam encontrar o Livro Total que conteria o compêndido perfeito de todos os demais. O mito borgiano, perseguido por muitos na infinita Biblioteca de Babel. A nós, respiremos os bons ácaros dos bons sebos e conversemos sobre o que lemos nas boas rodas de amigos. 

Standard
Arquitetura e Urbanismo, artigo, Inteligencia Artificial, pensamento, política, territórios

Logística global, inteligência artificial e crise climática: novas geografias e disputas de poder

Como a reorganização das cadeias produtivas, a concentração das infraestruturas digitais e os riscos ambientais potencializam o desenho de territórios, dependências e estratégias nacionais.

Durante algumas décadas, a indústria mundial foi organizada em uma lógica razoavelmente simples: produzir onde fosse mais barato e conectar fábricas, fornecedores e consumidores através de uma grande rede logística planetária.

Essa rede continua operando e provavelmente continuará por muito tempo. Mas alguns critérios que orientam a localização industrial estão mudando. A pandemia, as guerras, as sanções econômicas e as disputas tecnológicas evidenciaram a fragilidade de cadeias produtivas muito extensas, concentradas em poucos fornecedores e dependentes de alguns corredores logísticos.

Gopinath et al. (2025), ao analisarem dados bilaterais de comércio e investimentos, identificaram um aumento da fragmentação econômica segundo proximidades geopolíticas. Os autores tomam o cuidado de não anunciar uma nova Guerra Fria ou o fim da globalização. O que aparece é uma reorganização gradual das relações produtivas, principalmente nos setores considerados estratégicos. Setores como semicondutores, energia, medicamentos e minerais críticos, governos e empresas começam a aceitar custos maiores em busca de fornecedores mais próximos ou confiáveis. A eficiência passa a conviver com preocupações sobre segurança, resiliência e controle tecnológico, embora esse movimento ainda seja seletivo e desigual.

Nesse contexto, termos como nearshoring, reshoring e friend-shoring passaram a aparecer com frequência. A distância, o alinhamento político, a segurança tecnológica e a capacidade de reagir a crises começam a pesar mais nas decisões industriais. Ainda assim, esse deslocamento ocorre de forma desigual. Ando et al. (2026), analisando as redes produtivas das Américas, da Ásia e da Europa entre 2015 e 2024, indicam que parte das empresas diversifica fornecedores e rotas sem necessariamente transferir toda sua produção. Um exemplo é a Apple, que passou a ampliar parte da produção na Índia e no Vietnã para reduzir sua dependência da China. Ainda assim, a maior parte de sua cadeia continua ligada ao território chinês, mostrando que muitas empresas preferem diversificar riscos aos poucos, em vez de transferir toda a produção de uma só vez.

A crise climática torna esse desenho ainda mais instável. Portos, ferrovias, redes elétricas, áreas industriais e sistemas de armazenamento foram planejados a partir de padrões ambientais que estão se modificando drasticamente nos últimos anos. Verschuur et al. (2023), ao analisarem 1.320 portos, estimaram que interrupções relacionadas ao clima colocam em risco, anualmente, cerca de 81 bilhões de dólares em comércio e pelo menos 122 bilhões de dólares em atividade econômica. Essas interrupções podem ainda produzir um efeito em cascata: o bloqueio de um porto pode comprometer o abastecimento industrial, pressionar preços, reduzir empregos e ampliar desigualdades, atingindo com maior intensidade os territórios menos desenvolvidos, mais dependentes de poucas infraestruturas logísticas.

Outro trabalho dos mesmos pesquisadores identificou 94 portos com importância crítica para as cadeias globais. Em alguns países, mais de 10% da produção industrial depende do fluxo realizado através de um único porto (VERSCHUUR et al., 2022). Uma enchente, uma seca prolongada ou um evento extremo localizado pode, portanto, atravessar continentes inteiros através da rede produtiva.

A inteligência artificial aparece nesse cenário como uma ferramenta potencial para prever gargalos, administrar estoques, simular riscos climáticos e reorganizar fluxos em tempo real. Mas existe aí uma questão que me parece especialmente interessante: a IA, muitas vezes imaginada como uma tecnologia quase imaterial, exige uma infraestrutura bastante concreta.

Diferente de redes abertas e distribuídas, como os sistemas peer-to-peer, a infraestrutura da inteligência artificial permanece concentrada em poucoa poderes do capital que controlam capacidade computacional, plataformas, modelos e grandes bases de dados. Essa concentração amplia o risco de dependência tecnológica, opacidade nos critérios de decisão e apropriação privada de informações produzidas coletivamente. Sem redes abertas de pesquisa, padrões interoperáveis e mecanismos internacionais de cooperação, a IA pode reforçar monopólios, aprofundar assimetrias entre países e limitar a autonomia de governos, empresas menores e instituições científicas.

Além disso, ela depende de centros de dados, redes elétricas, água para resfriamento, semicondutores e cadeias globais de equipamentos e minerais. Estudos recentes apontam que o crescimento da IA pode pressionar sistemas elétricos e ampliar o consumo de água associado aos centros de processamento. Ao mesmo tempo, a própria IA pode contribuir para aumentar a eficiência dessas redes. O resultado dependerá da forma como essa infraestrutura será implantada e governada.

Talvez o imponderado do novo sistema logístico global esteja justamente nessa convergência. Criamos ferramentas cada vez mais capazes de antecipar gargalos e simular riscos, mas que dependem de infraestruturas concentradas, elevado consumo de energia e água, além de recursos naturais distribuídos de forma desigual pelo planeta. Estudos sobre inteligência artificial e economia de dados também apontam uma tendência de concentração da capacidade computacional, das plataformas e das bases proprietárias em poucos agentes econômicos, ampliando dependências e restringindo o acesso aos benefícios dessas tecnologias (DE PEDRAZA, 2023; HÖTTE et al., 2025). O risco está em incorporar ferramentas novas a uma racionalidade de gestão ainda orientada pela eficiência de curto prazo e pela redução de custos, pouco preparada para lidar com interdependências, efeitos em cascata e impactos socioambientais que atravessam territórios e cadeias produtivas inteiras (VERSCHUUR; KOKS; HALL, 2023). Um mundo que exigirá maior interdisciplinaridade e capacidade de lidar com a complexidade pode ficar obsoleto na incapacidade de lidar com os efeitos cascata da crise climática tentanto utilizar as mesmas ferramentas de controle economico e social que sustentaram os modelos pretéritos de mercado pós-revolução industrial.

Para o Brasil, essa reorganização produz disputas bastante concretas. A expansão da inteligência artificial e da transição energética aumenta a demanda por minerais críticos, energia, centros de dados e infraestrutura logística. Woodley et al. (2024) mostram que tecnologias como veículos elétricos exigem volumes muito maiores de lítio, níquel, grafite, cobre e terras raras. O país pode ganhar importância nessas cadeias, mas segue exposto ao risco de repetir uma inserção baseada na exportação de recursos com pouco domínio sobre o processamento, os equipamentos, o cuidado ambiental e as tecnologias finais.

A mesma contradição aparece nos centros de dados. A matriz elétrica relativamente renovável e a conexão com cabos submarinos tornam algumas regiões brasileiras atraentes, mas sediar servidores estrangeiros não significa controlar os dados, os modelos ou os serviços produzidos por eles. Estudos recentes também indicam que essas infraestruturas ampliam o consumo de energia e água, enquanto a concentração da capacidade computacional em poucas empresas aprofunda dependências tecnológicas e econômicas.

O lugar do Brasil nessa nova geografia dependerá das etapas que conseguir controlar. Extrair minerais, fornecer energia e receber centros de dados pode gerar investimentos importantes, mas a autonomia estará na capacidade de refinar materiais, fabricar componentes, desenvolver sistemas próprios, desenvolver tecnologia, manter bancos de dados de interesse público e adaptar portos e redes elétricas à crise climática. Caso contrário, continuaremos oferecendo o território, a energia e a matéria para uma inteligência produzida longe daqui, enquanto os custos ambientais, sociais e logísticos permanecerão inscritos como veias abertas sobre nossas paisagens.

Perspectiva Scala AI City em Eldorado do Sul-RS- Uma cidade Data Center projetada com 7 a 10km² – maior que 4 bairros do Leblon no Rio de Janeiro.

Referências

ANDO, M.; HAYAKAWA, K.; KIMURA, F.; MUKUNOKI, H. Friend-shoring, near-shoring, and reshoring in factories America, Asia, and Europe amid rising geopolitical tensions. European Journal of Political Economy, v. 93, art. 102804, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.ejpoleco.2025.102804

GOPINATH, G.; GOURINCHAS, P.-O.; PRESBITERO, A. F.; TOPALOVA, P. Changing global linkages: a new Cold War? Journal of International Economics, v. 153, art. 104042, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jinteco.2024.104042

VERSCHUUR, J.; KOKS, E. E.; HALL, J. W. Ports’ criticality in international trade and global supply-chains. Nature Communications, v. 13, art. 4351, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41467-022-32070-0

VERSCHUUR, J.; KOKS, E. E.; HALL, J. W. Systemic risks from climate-related disruptions at ports. Nature Climate Change, v. 13, p. 804–806, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41558-023-01754-w

Standard
artigo, cultura, filosofia de vida, pensamento, política, rio de janeiro, Subúrbios, territórios

Fortuna

As encruzilhadas nos presenteiam com a vida. Era um sábado à tarde. Eu estava no bowl de Irajá, palco do skate antes mesmo do skate virar esporte. Foi ali que vi, pela primeira vez, um dos maiores artistas que conheci na vida.

Lembro que ele panfletava um show de death metal, no qual faria a abertura tocando Jorge Vercillo e Raul Seixas ao violão. Ali pensei: esse maluco é o cara mais rock and roll que eu conheço. O tempo, o subúrbio e a música foram nos aproximando aos poucos. Tempos depois, fizemos parte do mesmo coletivo cultural, o Consciência Criativa. Foram anos de suor, amizade e movimento sem verba, em uma época em que pouquíssimos faziam cultura nos subúrbios.

Fortuna se fez presente, carregava o destino no próprio nome. Onde muitos o viam como um pária social, preconceito comum imposto aos meninos periféricos, os mais próximos descobriam sua imensa inteligência. No rosto, um olhar digno dos guerrilheiros. Por dentro, a sensibilidade rara dos poetas. Anderson era capaz de articular Raul Seixas, Botafogo, Neruda, García Lorca, teatro, música e rua com uma naturalidade que pouca gente tem. Transitava com o mesmo fascínio entre a canção simples de um bar e a grandeza de um show dos Rolling Stones. Fortuna sabia o que era arte porque, para ele, ela nunca esteve separada da vida. Estava no feijão com arroz, na conversa da esquina, na canção improvisada, na feira de domingo.

Era um garoto de sonhos simples: tocar no espaço cultural do próprio bairro, ter uma banda, jogar bola. Mas carregava um universo que mal cabia na própria mente. Anos se passaram, e foi um privilégio quando conseguimos criar para ele um presente que, no fim, virou presente para todos nós. Organizamos uma Suburbagem em que, literalmente, criamos uma banda para Fortuna se apresentar. Chamei alguns dos melhores improvisadores com quem convivi. Não tinha outro jeito. Para tocar com Fortuna, era preciso ser capaz de explodir fora da curva. A banda deveria entrar no universo dele, e não o contrário.

E assim foi.

Fizemos alguns ensaios para tentar entender aquele universo e partimos para a apresentação. Vieram improvisos, canções de amor, de revolta, declamações poéticas, gestos teatrais, movimentos imprevisíveis. Éramos praticamente uma instalação disfarçada de banda.

Lembro quando Fortuna desceu do palco para assistir à própria banda, sem encenação, por puro prazer. Ficamos mais de dez minutos improvisando e pedindo, pelo amor de Deus, que ele retornasse ao palco para finalizarmos a música. Lembro também da minha cara estupefata na primeira vez que ouvi a letra de “Andarilho das Estrelas”. O destino prega essas peças. Anderson era uma espécie de Van Gogh perdido no seu tempo. Sua arte não cabia na caixa das pasteurizações.

Lá por 2010, eu sofria para terminar a graduação, atravessado por milhares de problemas. Lembro que, numa chuva de verão, daquelas que entravam pela minha casa através dos telhados quebrados, perdi meu rádio. Comentei de leve na roda da galera, quase sem importância. Por mim, tudo bem. O que era um rádio para quem já tinha perdido tanta coisa em tão pouco tempo? Mas, um dia, surgiram Fortuna e Labanca com um rádio na mão. Anderson repetia, meio incrédulo: “Não cara, você não pode ficar sem rádio, você é artista, precisa ouvir música”. Ali entendi o quanto vocês apostaram em mim. Quantas vezes eu quase larguei a FAU e uma conversa ou um gesto maluco desses vindo de vocês me fazia pensar: tenho que seguir em frente.

Você sempre me lembrou que, antes de eu ser gente, eu era músico rs. Quando criei a animação para a música “Vanessa”, do André Figueira, pensei em um roteiro baseado em um jovem deslocado descobrindo a metrópole, com suas inúmeras contradições. Pensei: quem melhor representaria o profeta que apontaria o caminho para esse jovem? Ninguém menos que o próprio Fortuna. Do jeito dele, ele exercia esse papel. Liderava pela arte. Quantos eventos não organizamos apenas para ter o prazer de criar um palco para Fortuna se apresentar, sem ele ter nos pedido isso?

Quem não se lembra de sua clássica indagação: Qual grande artista a Lona revelou?

Seu poema maior, “A Cidade, o Caos”, foi um soco no meu estômago. Viver essa cidade como nós vivemos, e depois ouvir essa poesia declamada como sangue que cruza a América Latina por dentro do Para Pedro, se chocava brutalmente com a minha formação de arquiteto. A cidade, o Caos é o meu espaço vivido, a arquitetura que aprendi na infância. 

Não à toa, antes da primeira linha do resumo da minha dissertação, você está citado lá. Um pequeno trecho seu que representa tudo que pesquisei para que outros arquitetos leiam e conheçam aquilo que nossa turma chama de Subúrbio Carioca. Uma aula de cidade em um poema.

Eu poderia dizer que esse poema, imenso, foi sua grande obra, mas seria injusto. Sua obra maior foi a própria vida experimentada integralmente em forma de arte, como pouquíssimos tiveram coragem de viver, com todo o gigantesco ônus e todo o raro bônus dessa escolha.

A vida foi dura para todos nós que andamos juntos pelas ruas de Irajá e Vista Alegre, e extremamente covarde com você. Uma série de destinos entrecruzados, de amigos se costurando e se ajudando na tragédia que é sobreviver sendo pobre e tentando ser feliz sendo artista.

Você se foi, meu camarada. 

Eu não estava preparado para isso. Honestamente, ainda não estou. Mas você segue presente em nós que dividimos contigo esse tablado chamado vida, nas músicas que escutamos, nos palcos que inventamos, nas duras ruas que atravessamos, nos gestos que ficaram e nessa geração de bairro que você ajudou a mover culturalmente sem nunca precisar pedir licença ao mundo.

Qual grande artista a lona revelou? Fortuna.Você!

Anderson Fortuna foi grande. Grande demais para o reconhecimento pequeno que este país costuma reservar aos seus artistas pobres. Grande demais, também, para caber no esquecimento.

Todos nós, atravessados de algum modo pela tua presença, tivemos o raro privilégio de dividir contigo o chão deste Subúrbio, as agruras da vida e essa arte que ainda insiste em nos manter vivos na Terra. Agora meu camarada andarilho errante que carregou todos os sentimentos do mundo dentro de ti, siga livre, caminhando dentro de todos nós.

Um último e triste feliz aniversário ao camarada,

Anderson Fortuna,

Poeta, músico, artista e acima de tudo um Amigo.

Desenho autoral.
Standard
Arquitetura e Urbanismo, artigo, ciência, filosofia de vida, Inteligencia Artificial, pensamento, territórios

Terra Rara e terras raras: pequeno texto sobre o impasse material do nosso tempo

Segue um pequeno texto sobre uma contradição pertinente do mundo contemporâneo. Falamos muito em inteligência artificial, transição energética, inovação, automação de futuro. Ao mesmo tempo, talvez tenhamos que  recordar o óbvio: não existe nuvem sem território físico, não existe inteligência artificial sem eletricidade, não existe transição energética sem mineração em larga escala, e não existe crescimento exponencial sustentado quando a base material do sistema opera no limite máximo. O século XXI promete leveza digital, mas se apoia sobre uma infraestrutura física brutalmente pesada.

Há um fetiche comum no debate público e corporativo. Falamos de tecnologia como se ela brotasse do nada, como se fosse resultado puro do engenho humano pairando acima da terra. Mas a história real é mais rude. Data centers exigem energia estável, água para resfriamento, linhas de transmissão, cabos, transformadores, terras baratas e capacidade de conexão. Painéis solares exigem prata. Turbinas eólicas, carros elétricos, sistemas militares e eletrônica de precisão exigem terras raras e outros minerais críticos. A dita economia do futuro nasce, portanto, de uma nova corrida sobre o solo. E como quase toda corrida por recursos em larga escala, ela rapidamente se converte em guerras geopolíticas.

O mercado da prata nos ajuda a entender um pouco isso. A prata ocupa um papel duplo, financeiro e industrial. Ao mesmo tempo em que é historicamente e segundo metal mais importante do mercado, embora mais raro e difícil de extrair que o ouro, também é muito importante em aplicações industriais, eletrônicas e fotovoltaicas. Isso significa que sua demanda já não pode ser lida dentro de um hibrido difícil de equilibrar: o especulativo do mercado financeiro e o necessário do consumo industrial. As terras raras, por sua vez, revelam um problema ainda mais pesado. Tanto pela existência geológica complexa desses elementos, quanto pela capacidade de processá-los, refiná-los e incorporá-los às cadeias industriais de maior valor agregado. A China percebeu isso antes de boa parte do Ocidente e consolidou posição dominante em etapas decisivas do refino. A disputa global perpassa a extração do minério. Ela é responsável pelos elos decisivos da transformação industrial.

O que está em curso é uma reorganização do poder mundial em torno destas novas cadeias produtivas estratégicas, semicondutores, minerais críticos, defesa e infraestrutura digital, isto é, os materiais do novo poder global. Em um cenário de crescimento global mais frágil, protecionismo seletivo e reindustrialização competitiva, cadeias de suprimento deixam de ser assunto secundário da globalização eficiente e passam a ser tratadas como matéria de soberania. Quem controla o refino, os chips, as baterias, controlará o ritmo da modernização dos outros.

A inteligência artificial radicaliza este quadro. Os debates principais sobre as IA costumam girar em torno de modelos, interfaces, produtividade e automação do trabalho intelectual. Tudo isso importa, mas há um subterrâneo raramente explicitado com a devida contundência. Por trás de toda rede de softwares há uma rede de hardwares. A expansão da IA depende de um salto gigantesco no consumo energético e de recursos. Isso nos obriga a encarar uma questão muito rude: a infraestrutura necessária para sustentar esse salto não cresce na mesma velocidade dos sistemas. Falta rede, falta transformador, faltam linhas de transmissão, faltam anos de investimento acumulado e, talvez o principal, faltam limites ecológicos que suportem essa voracidade. O discurso do crescimento exponencial esbarra no concreto do mundo, no aço, no cobre, no licenciamento, no território sacrificado e no tempo.


Este talvez seja o impasse mais decisivo do nosso tempo. O mundo quer eletrificar transportes, ampliar energias renováveis, sustentar a corrida dos data centers, expandir complexos industriais de alta tecnologia e ainda reforçar máquinas militares em meio a conflitos crescentes. Tudo ao mesmo tempo. Mas a infraestrutura de base não acompanha a voracidade. Redes elétricas envelhecidas, gargalos logísticos e dependência concentrada de poucos países indicam que o sistema quer operar num grau de complexidade superior ao que sua base material suporta.

É justamente aqui que outra leitura de mundo se faz necessária. Porque o discurso dominante tenta resolver esse impasse com a velha fórmula: abrir novas fronteiras extrativistas, flexibilizar regulações, converter territórios em zonas de sacrifício e acelerar a exploração em nome da inovação. A transição energética e digital corre o risco de repetir, em versão verde e algorítmica, a velha colonialidade do poder. 

Troca-se a fumaça velha do fóssil pelo garimpo limpo no selo institucional. Troca-se o petróleo pela mineração crítica. Troca-se o velho saque por um saque com selo ESG. E mais uma vez o Sul é convocado a fornecer o corpo, água, terra, trabalho e paisagem devastada para sustentar o padrão técnico dos centros de comando e dos bilionários do GAFAM.

A literatura crítica recente aponta isso: minerais críticos podem ser fundamentais para a descarbonização, mas sua extração, quando submetida à lógica convencional do capital global, tende a reproduzir conflito social, dano ambiental, concentração de valor e violência territorial similares ou piores que os modelos anteriores. A transição pode ser necessária e ainda assim operar de modo injusto. Uma coisa não anula a outra. É preciso perguntar quem extrai, quem processa, quem lucra, quem adoece, quem perde território e quem define a finalidade social dessa nova base técnica.

O Brasil entra nesse debate com potencialidade e risco. Potencialidade porque possui reservas importantes de minerais estratégicos para a transição energética, como grafita, níquel, manganês, terras raras e lítio, além de matriz elétrica relativamente favorável, base industrial ainda recuperável e capacidade científica instalada. Risco porque sua história socioeconômica mostra uma tendência persistente de ocupar o lugar de provedor de matéria-prima, deixando o refino, a tecnologia, a manufatura complexa e os ganhos estruturais para outros. O país pode ser peça relevante na cadeia global de minerais críticos, mas isso, por si só, não significa desenvolvimento nacional. Exportar o bruto enquanto importa a inteligência industrial do processo é continuar exercendo papel subalterno. O ponto decisivo é saber se o país será capaz de organizar política industrial, financiamento público, capacidade de refino, produção de componentes, domínio tecnológico e critérios socioambientais rigorosos para que essa riqueza se converta, de fato, em soberania material.

As guerras atravessam esse processo inteiro. Porque, além de destruírem sociedades, reordenam as cadeias produtivas, justificam emergências orçamentárias e ampliam a corrida por insumos estratégicos. Guerra produz espólio. Produz a oportunidade de redesenhar territórios inteiros a partir da ruína, reorganizando fluxos de vida e infra estruturas de mercado. 

Em escala global, o aumento do gasto militar mostra que recursos gigantescos estão sendo canalizados para destruição e contenção, enquanto a infraestrutura civil necessária à sustentação de uma transição justa segue em segundo plano. Há algo de irracional num sistema que responde à crise ecológica, energética e social com mais armamento e mais competição predatória, mas não parece ser pauta de quem manda no mundo.

Se prevalecer a lógica atual, veremos a ampliação de um modelo tecnicamente sofisticado e socialmente brutal: mais automação, mais consumo energético, mais extração, mais enclaves de riqueza, mais territórios sacrificados e mais guerra administrando os desesperos do próprio sistema. Uma espécie de futuro de alta tecnologia com estrutura moral arcaica. Muito bem retratado em filmes como Matrix e Exterminador do Futuro.

Mas outra direção ainda pode ser construída.

Uma direção em que transição energética não seja licença para devastar, em que inteligência artificial não seja pretexto para concentração radical de poder, em que soberania não se reduza à disputa bélica entre impérios e em que países como o Brasil recusem o lugar passivo no mundo. Isso exige mais do que política industrial ou regulação. Exige romper com a ideia moderna de desenvolvimento como simples aceleração da máquina, com a recusa dos conhecimentos tradicionais e com a crença de que toda tecnologia nova torna dispensável a memória longa da vida e da terra.

Talvez o nosso tempo peça algo mais profundo. Não só novas fontes de energia, mas nova inteligência histórica. Não só novos minerais, mas nova ética material. Não só inovação, mas capacidade de construir uma ordem menos exploratória, menos colonial e menos suicidária da existência terrena. Antes de reorganizar a economia, precisamos reorganizar a imagem que fazemos de nós mesmos: deixar de pensar o humano como centro soberano do mundo e voltar a nos perceber como parte frágil de uma trama muito maior do que nossa ambição técnica.

No fundo somos apenas símios que refletem sobre si rodando em uma pedra rara no universo, assentados na periferia de uma galáxia cujo destino final é encontrar o grande atrator de Laniakea. E o mais irônico da vida é que talvez nem nossa galáxia alcance seu destino antes do colapso do universo. Em meio a isso continuamos a destruir nossa pedra rara mãe em nome de um progresso ilusório construído por um pensamento moderno que há muito já não responde a vida. Somos tão raros quanto pequenos, mas talvez nos falte entender que nossa pequenez e respeitar o universo para reescrever nossa visão de mundo, como um dia fizeram os polinésios em seus barquinhos navegando o oceano pacífico.

Standard
Arquitetura e Urbanismo, artigo, cultura, economia, filosofia de vida, pensamento, política

O mundo precisa reaprender a dialogar

Vivemos tempos estranhos. Enquanto as redes sociais gritam, os mercados oscilam e as potências se encaram, parece faltar algo básico na política: a capacidade de ouvir, entender e negociar. A era Trump, com sua retórica agressiva e decisões impulsivas, expõe uma fragilidade maior; a de um mundo que paulatinamente tem perdido seus mecanismos de mediação.

A Europa, nesse cenário, parece ter ficado sem rumo. Diante das pressões americanas e do avanço econômico da China, suas reações foram, muitas vezes, descoordenadas e marcadas por políticas internas que mais enclausuram e desunem do que somam. O economista Yanis Varoufakis aponta isso com lucidez: a Europa está se tornando um apêndice hesitante de um império em declínio. E o pior é que faz isso sem um plano próprio, sem coragem de assumir um papel autônomo na discussão global.

Mas o que significaria, hoje, retomar um projeto coletivo? Talvez não seja tão complexo quanto parece. Não se trata de criar novas alianças para enfrentar inimigos, mas de reinventar os modos de convivência globais. Abandonar tarifas que não servem a ninguém. Investir conjuntamente em tecnologia e sustentabilidade. Fortalecer laços com países que também buscam um lugar mais justo na engrenagem global. E, acima de tudo, recuperar a capacidade da mediação e da negociação. Essa arte, que em tempos de polaridades exacerbadas e guerras, parece tão esquecida, de construir acordos a partir de interesses compartilhados.

Quando diferentes interesses são colocados à mesa, a mediação busca justamente aquilo que, à primeira vista, parece impossível: transformar conflito em oportunidade. Para isso, é preciso mais do que diplomacia formal. É necessário método, é isso que separa a mediação do romantismo. Reconhecer os próprios limites, abrir mão de posições rígidas e aceitar que o outro também tem razões legítimas. Essa é uma arte rara, especialmente em tempos de egos inflados, disputas sangrentas de poder e nacionalismos exacerbados.

Em vez de disputas baseadas em força ou prestígio, os acordos bem-sucedidos tendem a se apoiar em algo mais sutil: o reconhecimento de que há um ganho possível para todos, ainda que não seja o ganho pleno. Parcerias econômicas, intercâmbios tecnológicos, cooperação climática, tudo isso exige uma mudança de postura, em que algum grau de interesse comum se sobreponha à vaidade  da disputa distópica da geopolítica. A Europa, por exemplo, poderia negociar diretamente com a China em torno de tecnologias verdes, não como quem desafia os EUA, mas como quem constroi pontes a partir de necessidades mútuas.

Essas negociações não se constroem em conferências relâmpago, mas em processos contínuos de escuta e operação conjunta. Elas exigem paciência, linguagem precisa e disposição para lidar com desacordos sem transformar tudo em guerra. É aí que a mediação se revela mais do que uma técnica: torna-se um modo de estar no mundo. Um modo de afirmar que, apesar das diferenças, ainda podemos e devemos construir futuros compartilhados.

É possível imaginar um mundo menos polarizado, se houver disposição para cooperar em vez de competir o tempo todo. A mediação, quando levada a sério, não é fraqueza: é maturidade política. É reconhecer que ninguém sobrevive sozinho em tempos de transição climática, crise econômica e tensões geopolíticas. Para a Europa, o convite está feito: em vez de seguir reagindo, pode escolher atuar. Não com gritos, mas com inteligência.

Talvez o que esteja em jogo não seja apenas uma disputa entre potências, mas a chance real de redesenhar as bases do sistema. As teorias da complexidade nos mostram que sistemas vivos, inclusive os sociais e econômicos, não operam bem sob controle centralizado e previsões lineares. Eles evoluem a partir da interação de múltiplos agentes, da cooperação descentralizada e de adaptação constante. Nesse sentido, o futuro não precisa repetir os impérios do passado: pode emergir como uma constelação de economias interdependentes, plurais, distribuídas, sem centros fixos, sem moedas únicas que arrastem nações inteiras para ciclos de dependência.

Uma economia global pensada a partir dessa lógica complexa não precisaria se apoiar em um único lastro, como o dólar, nem aceitar como naturais as atuais hierarquias de valor e poder. Poderia, ao contrário, reconhecer a diversidade de soluções locais, fomentar moedas complementares, redes de trocas descentralizadas, circuitos cooperativos de produção e alianças tecnológicas orientadas pelo bem comum. Em vez de mercados auto-regulados à moda antiga, teríamos ecossistemas econômicos interligados por princípios de equidade, sustentabilidade e solidariedade. A mediação, nesse novo mundo, deixa de ser um mero instrumento de conciliação entre velhos blocos, para se tornar um modo de cultivar a inteligência coletiva capaz de sustentar essa ordem viva e interdependente.

Standard
Arquitetura e Urbanismo, artigo, brasil, ciência, filosofia de vida, Inteligencia Artificial, pensamento, política, rio de janeiro, territórios

Governança em Metrópoles: O Rio de Janeiro e uma Transição Possível para Redes Distribuídas

Este texto propõe uma pequena análise ensaística ou de opinião sobre a crise institucional enfrentada por metrópoles contemporâneas, com especial atenção ao caso do Rio de Janeiro. A partir das discussões em aula realizada no curso A inteligência do espaço-tempo e o stress global e da teoria desenvolvida por Robin Dunbar que fora citada, sugere-se aqui uma pequena reflexão acerca dos limites cognitivos e organizacionais que moldam a governança urbana. Ainda que não se trate de um modelo absoluto, a teoria de Dunbar oferece um ponto de partida relevante para pensarmos os desafios atuais de gestão em cidades de grande porte.

Robin Dunbar, antropólogo britânico, propôs que existe um número máximo de relações sociais estáveis que um indivíduo é capaz de manter é de aproximadamente 150 pessoas. Conhecido como “número de Dunbar”, esse limite marca o ponto em que formas de organização social baseadas apenas em vínculos informais e confiança direta tornam-se inviáveis. A partir desse ponto, a complexidade social crescente demandaria a construção de instituições formais para manter a coesão e a funcionalidade do grupo. Mesmo que não tomemos esse número como exato, ele nos permite levantar uma questão fundamental: todo sistema organizacional possui um limiar a partir do qual precisa se tornar mais sofisticado para manter sua capacidade de governança.

Assim, podemos sugerir que tais instituições formais atualmente conhecidas por nós também enfrentam limites operacionais. Diversos estudiosos apontam que, em populações acima de 1 a 10 milhões de habitantes, os custos de manutenção institucional tendem a superar os benefícios, gerando ineficiência, sobrecarga burocrática e vulnerabilidades estruturais. Nesse ponto, os sistemas entram em risco de disfunção, colapso ou rupturas sistêmicas.

Essa problemática se torna plausível no contexto do Rio de Janeiro. Com uma região metropolitana que ultrapassa os 13 milhões de habitantes, a cidade opera em um grau de complexidade que supera a capacidade adaptativa de suas instituições centralizadas, construídas sob lógicas administrativas do século XX. A excessiva centralização do poder decisório, aliada à fragmentação territorial, à assimetria de informações e à lentidão das respostas institucionais, compromete a eficácia das políticas públicas e alimenta uma crise permanente de governança.

Nas periferias urbanas, como favelas e comunidades autogeridas, observa-se a formação de sistemas sociais quase autônomos, ou dominados por outras estruturas de poder, muitas vezes desconectados ou mesmo em confronto com os canais formais de poder consituído. Esses territórios, diante da ausência do Estado ou de sua atuação precária, tornam-se espaços disputados por múltiplos atores, legais ou não, que passam a exercer formas locais de governança mais ágeis e eficientes em seu escopo limitado. A perda gradual de controle institucional sobre o território fluminense reflete, assim, tanto a falência administrativa, como um descompasso entre o desenho das instituições e a complexidade do tecido social contemporâneo.

Redes distribuídas como alternativa estrutural

A ciência dos sistemas complexos nos oferece uma alternativa teórica e prática a esse modelo centralizado. Inspirada em estruturas biológicas e tecnológicas informacionais, ela propõe a reorganização da governança em redes distribuídas, sistemas com múltiplos centros de decisão, autônomos, interconectados por fluxos contínuos de informação e orientados por protocolos colaborativos.

Essa proposta poderia ser sintetizada em três linhas (a princípio):

  1. Descentralização inteligente: por meio da criação de núcleos decisórios com autonomia territorial, como subprefeituras, associações locais e redes comunitárias. Esses núcleos seriam capazes de deliberar sobre questões específicas de seu território, comunicando suas decisões ao sistema mais amplo, sem a necessidade de submissão hierárquica. A descentralização, neste modelo, não implicaria a atual fragmentação vigente, mas uma reconfiguração organizativa a partir das redes.
  2. Inteligência coletiva: com o uso de plataformas digitais participativas para elaboração, monitoramento e fiscalização de políticas públicas. Esses espaços virtuais podem funcionar como canais de escuta contínua e construção colaborativa, onde a população contribui de maneira orgânica e descentralizada. A tecnologia atual já nos permite sistematizar essas contribuições de forma eficiente, acelerando os processos pré-deliberativos e fortalecendo a legitimidade popular das decisões.
  3. Adaptação em tempo real: a partir da incorporação de dados urbanos, sensores, algoritmos e inteligência artificial, é possível monitorar dinâmicas territoriais e redistribuir recursos públicos de forma responsiva e eficaz, acompanhando as variações reais da demanda nos diferentes bairros e regiões da metrópole. Um exemplo simples: uma mesma linha de ônibus poderia traçar uma rota diferente em determinados períodos como: dia e madrugada, em função do levantamento de demanda.

No caso do Rio de Janeiro, a adoção de um modelo de rede distribuída implicaria na reconversão de suas instituições executivas: elas deixariam de ser instâncias de comando centralizado tradicionais e passariam a funcionar como plataformas de articulação entre diferentes territórios. A administração pública atuaria como orquestradora de uma malha de redes locais, reconhecendo, fortalecendo e conectando as capacidades já existentes nas bases comunitárias. Iniciativas que hoje são tratadas como exceções ou soluções paliativas ou vozes retificadoras das políticas pensadas pelos poderes constituídos, como associações de moradores, mutirões urbanos e coletivos culturais, passariam a integrar a estrutura legítima de governança metropolitana como verdadeiras construtoras das políticas estruturantes da cidade.

O Rio de Janeiro encontra-se em um ponto crítico de inflexão. A insistência em modelos centralizados diante da complexidade crescente da metrópole não apenas limita a eficácia administrativa, como também representa uma ameaça à própria coesão urbana, cada vez mais frágil e tensionada pelos inúmeros poderes paralelos que conformam nosso território. A transição para uma governança distribuída, orientada pelos princípios da ciência dos sistemas complexos pode ser uma boa alternativa de saída. Ela oferece uma oportunidade para ressignificar o papel do Estado, potencializar o protagonismo cidadão e construir uma cidade mais adaptativa e democrática.

Pollock
Standard
artigo, brasil, ciência, economia, filosofia de vida, pensamento, política

Estatal, Público, Privado e Comum

Falemos um pouco sobre os conceitos de estatal, público, privado e comum. Muitas vezes soam embaralhados no debate político e no circuito popular. É muito corriqueiro pensarmos o sistema estatal e o sistema público por exemplo como a mesma coisa, coisa de governo. Esse tipo de confusão acaba por esconder disputas de poder e visões diferentes, principalmente, sobre quem deve gerir o que é de todos e como deve ser gerido.

Estatal é tudo aquilo que pertence diretamente ao Estado. São bens e instituições geridas pelo poder público, com autoridade centralizada. Público, em sentido mais amplo, é aquilo que existe para uso e benefício de todos, independentemente de ser estatal ou não. Aqui está um sombreamento corriqueiro. Muitas vezes entendemos um bem estatal como um bem público. Ainda que seu produto final seja deste caráter específico, sua gestão não necessariamente é. Decisões de gestão da Petrobrás, por exemplo, não precisam de audiência pública aberta a todos os cidadãos brasileiros para acontecer.

O privado por sua vez, é mais simples de entender: aquilo que é de propriedade de indivíduos ou empresas, voltado para interesses particulares, ainda que sob regulação pública. É no campo privado que florescem a autonomia, o empreendedorismo e, ao mesmo tempo, as desigualdades.

Além destes, vou retomar aqui o conceito de comum, trazido por Antonio Negri. O comum não seria nem estatal, nem público nos moldes tradicionais. Sua principal distinção está no fato de que ele emerge da própria colaboração social. Ele é um modo de organização mais horizontalizado por natureza. Conhecimentos compartilhados, redes de solidariedade, práticas coletivas que não dependem do Estado nem de interesses privados. O comum é um espaço de invenção social e resistência.

Há um modelo que deva ser hegemônico? A meu ver não, cada modelo responde a um conjunto específico de necessidades sociais e pode ser operado de forma estratégica a partir da complexidade. Talvez o maior erro da gestão global, desde a revolução industrial, tenha sido a tentativa de impor um modelo hegemônico e referência paradigmática.

Simplificando: nem a estatização de todo o sistema econômico, como pregado por algumas tradições políticas de esquerda e nem o enxugamento ou fim da máquina estatal como pregado por inúmeros discursos neoliberais e capitalistas, resolverão o sistema. No meu modo de pensar: Há bens, instituições e serviços que precisam de uma gestão pública, há os que precisam de uma gestão estatal, há os que funcionam melhor no sistema privado e ainda há aqueles que funcionam muito melhor na organização pelo comum.

As confusões realmente começam quando os limites entre esses conceitos se tornam turvos. Uma escola pública, estatal em estrutura, deveria servir ao interesse público, mas quantas vezes vemos interesses privados infiltrados em sua gestão? Quantas vezes o Estado administra mal o que é público, esvaziando o sentido coletivo do bem? Ao mesmo tempo, quantas vezes uma corporação privada se utiliza de recurso e privilégio público e estatal para conseguir lucro ou benefícios?

Fora outros espectros de sombreamento. Organizações sociais que prestam serviços de saúde com verbas públicas, mas operam com gestão privada; empresas estatais que agem como corporação privada no mercado internacional; espaços públicos privatizados sob concessão. O mercado tenta se apropriar dos privilégios e benefícios do que é público; o Estado tenta governar o que poderia ser comum; o comum se perde sendo cooptado pelo Estado ou pelo mercado.

Entender essas distinções é um ato político. Saber onde termina o interesse público e começa o interesse privado é fundamental para defender direitos, garantir justiça social e reinventar novas formas de vida. Um bom desafio para o nosso tempo seria justamente este: resgatar o comum como um campo vivo de liberdade coletiva e reorganizar o projeto de nação espacializando melhor o que deve ser gerido de forma estatal, de forma pública, de forma comum e o que pode ser mercado.

Standard
artigo, cultura, pensamento, Sem categoria

Inteligência Artificial e Arte

arte criada por IA, segundo a própria: inspirada em Romero Britto porém com um estilo IA de fazer.

Muito se debate hoje sobre o uso da Inteligência Artificial nas múltiplas esferas da arte. Em geral, esses debates caminham por dois prismas: de um lado, um medo quase ludita, comum diante de qualquer avanço tecnológico; de outro uma leitura corporativista que busca adequar a IA às lógicas atuais de mercado.

Mas há aspectos que também merecem atenção nesse debate: até onde vai o direito que as donas das ferramentas têm de coletar dados continuamente e utilizá-los por meio de mecanismos de aprendizado automatizados para expandir suas memórias.

As IAs, no entanto, possuem uma limitação: elas por si só não constroem pensamento próprio. Falta-lhes a complexidade de elaboração conceitual criativa. Elas apenas reorganizam e articulam conteúdos já produzidos, formando um material documental a partir disso. A arte de pensar ainda é, e talvez continue sendo por um tempo, uma prerrogativa nossa. Mal comparando, é como se as IA fossem um Google muito melhorado(é uma simplificação grosseira).

O eixo de debate que gostaria de destacar, porém, é a autoria. Curiosamente, os discursos anti-IA, sejam eles corporativos, luditas ou críticos do ponto de vista classista, parecem ter em comum um incômodo com o que vou chamar de “furto de autoria” pelas IAs. Talvez possamos simplificar o debate: considerar que uma obra feita por IA é de autoria da própria IA, ainda que limitada; ou considerá-la plágio, já que utiliza inúmeras referências sem qualquer citação; ou então assumir uma coautoria entre o ser humano que insere os comandos e o sistema que gera os resultados.

Mas vale a pena recuar um pouco na história da arte. Quando foi que deixamos de compreender a arte como expressão coletiva, representação de um território, de um povo, e passamos a tratá-la como expressão individual, com direito exclusivo à autoria? este sistema é muito funcional, pois, ao inserir a autoria individual e dar o peso de propriedade para a obra, podemos inseri-la no sistema de mercado. 

Vemos explodir uma série de IAs, ferramentas de tudo que é tipo, cada uma com uma função específica, úteis para atender um pedacinho específico do processo produtivo da arte. As IAs podem levar a indústria da arte a outro lugar. Ao automatizar inúmeros sistemas e, em alguns casos, ocupar o lugar do artista (leia-se, aquele que representa a face visível de um certo grupo empresarial). As ferramentas podem, sim, bagunçar um cenário. Porém, falamos aqui de um cenário que já é, por si só, bagunçado, superexplorado e ainda bastante aristocrático no seu modo de produção.

A verdade é essa, o mercado da arte hoje se sustenta sobre o sistema de autoria. Mas não falamos aqui do velho romantismo do artista genial isolado em seu ateliê. Autoria, nesse contexto, é um instrumento de valorização e comercialização.

Quantos seres humanos trabalharam com Michelangelo na Capela Sistina? Quantas pessoas são necessárias para que um show de arena da Anitta aconteça? Como já observava Marx, o trabalho humano é social por natureza. A criação artística, enquanto produto de trabalho, jamais é totalmente individual, ela é mediada por relações sociais, condições materiais e modos de produção. A noção de “gênio” isolado é um constructo moderno a serviço da mercantilização da arte, assim como a ideia de autoria é, muitas vezes, um dispositivo de propriedade que mascara as verdadeiras relações de produção.

A autoria, por si só, encobre um sistema produtivo que esmaga socialmente muitos, e poucos parecem perceber isso. Quem trabalha com arte, principalmente em uma escala independente, ainda acredita muito na quimera da visibilidade e mérito. E esta talvez seja a maior disputa. As IA são uma ferramenta com potencial capacidade de automatizar processos da indústria cultural, e parecem ser pensadas assim: como ferramentas para atender necessidades especificas de alguma indústria.

Nesse sentido, discutir autoria é também discutir propriedade privada e valor, e talvez o desconforto com a IA surja não porque ela “cria”, mas porque ela ameaça a lógica de escassez e fetichização que sustenta o mercado da arte contemporâneo. Um mercado que tornou-se tão subjetivo, que um dos maiores pesos no valor é a própria autoria, hoje ameaçada.

Quadro Heart Kids do Romero Britto
Standard
artigo, cultura, filosofia de vida, literatura, pensamento, política

O Tempo Entre os Mundos


O tempo é um elemento estruturante da vida humana e da forma como organizamos a existência. Entre cronômetros e algoritmos, a sociedade moderna se desenvolveu sob a primazia de um tempo linear, homogêneo e quantitativo, uma abstração herdada do Iluminismo e potencializada pela Revolução Industrial. Entretanto, este modelo não esgota a compreensão sobre o tempo e suas possibilidades. Ao redor do mundo, epistemologias indígenas, cosmologias africanas e saberes populares oferecem alternativas à temporalidade hegemônica, propondo formas de viver que entrelaçam passado, presente e futuro de maneira mais orgânica e integrada.


O conceito de aceleração social, demonstra como a modernidade tardia impõe ritmos insustentáveis de trabalho e consumo, fragmentam a experiência da vida e comprometem a profundidade das relações humanas. Boaventura de Sousa Santos nos traz as epistemologias do Sul, aponta a necessidade de resgatar e articular saberes ancestrais que operam em temporalidades alternativas, não subordinadas à lógica produtivista.
Diferentes sociedades tradicionais estruturam o tempo de maneira não-linear.

Povos originários das Américas, como os Krenak, veem o tempo como um fluxo cíclico onde a relação entre humanos, natureza e cosmos não está sujeita à ditadura da urgência. Tradições iorubá remetem a flexibilidade do tempo,onde passados não estão encerrados e futuros são constantemente atualizados pelas ações no presente. Esses sistemas desafiam o tempo ocidental e apontam para modos de existir que valorizam a continuidade e a coexistência na Terra.


Para construir um futuro que equilibre os saberes tradicionais com a produção contemporânea da vida, precisaremos repensar os modelos de desenvolvimento. O paradigma da “desaceleração” tem ganhado força em movimentos como o decrescimento econômico, que propõe uma relação mais harmônica com os recursos naturais e com os ritmos da vida. Práticas como a agroecologia, organizadas nos calendários naturais dos povos campesinos, a arquitetura vernacular, que respeita os ciclos materiais dos territórios, são boas formas de viver, respeitam e dialogam com as diferentes temporalidades


A degustação do tempo não é um exercício romântico de retorno ao passado, mas sim um esforço de articulação entre as possibilidades que os avanços técnicos proporcionam e a sabedoria acumulada que por milênios nos capacitam. O futuro pode ser um espaço onde o tempo não seja um senhor impiedoso, cronos que tudo devora, mas um aliado na construção de um mundo mais habitável e justo.
Tomo um café com sabor de café, leio um livro, escrevo cartas a mão. Redesenho meu passeio pela teia do tempo dentro do cotidiano. Saboreio a fumaça que sai do copo e o desgaste do grafite no risco.

Lembro-me de Gana, onde o tempo do dia se iniciava com o bater da massa do Banku. Um som que ecoava por todo o país e dava um ritmo, o som do alimento de uma nação. O trabalho vivo de produção do próprio alimento dava o ritmo, o tom, demarcação do tempo.

Standard