Categoria: Brasil

7 de abril: Dia Mundial da Saúde

Neste dia, apesar de ainda termos caminhos a avançar, já temos muito a celebrar. Embora vivamos em um país empobrecido e desigual, o nosso sistema de saúde consegue ser um exemplo robusto de que políticas de Estado destinadas ao povo podem ser realizadas. O que o SUS tem a nos ensinar em termos de organização política? Este texto será um pouco sobre isso.

O SUS modificou por completo a forma como tratamos a saúde, entendendo-a e assumindo-a como um direito universal do povo e como algo muito maior do que o simplismo de: tratar uma doença de um indivíduo. Alguns de nós hoje somos sequer incapazes de lembrar dos modos de funcionamento do sistema de saúde do país antes do SUS. Como conseguimos implementar uma política de Estado firme como essa em meio às muitas intempéries, revezes e crises de classe?

Primeiramente importa entendermos que nosso sistema atual é fruto de uma luta gradual e constante produzida por inúmeras mãos. A política de saúde só se torna possível de nascer em um país como o nosso devido o trabalho árduo de uma enormidade de cidadãos organizados nas redes de construção das mesmas. Falamos assim, de um trabalho que é acima de tudo coletivo, interdisciplinar e por que não dizer: militante.

Nada nasce da noite para o dia, se desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) o direito a saúde é vinculado ao direito à vida de todo ser humano, podemos dizer que, apenas na constituição de 1988 que o Brasil conseguiu inseri-lo como direito fundamental de todo cidadão.… Leia mais

Nos subúrbios a ditadura nunca acabou!

Ela segue firme nas rondas da PM, no carro da linguiça, nas mãos que tem cheiro de morte. Segue a cada em cada silenciamento. Tem ruas onde andar as 22h se torna arriscado, ou você será vítima ou será confundido com um possível meliante. Meliante, sinônimo de vagabundo, termo que até algum tempo atrás tipificava um crime que hoje já não é mais. Porém o termo está aí, e com ele a tipificação das pessoas. Nos subúrbios e favelas a gente tem que andar com documentos sempre em mãos, quiçá um comprovante de residência, pois aqui ela nunca acabou.

Aqui tem que se tomar cuidado! Nos tempos onde as classes média e abastada progressistas do país conseguiam construir uma resistência a 64, apanhavam, morriam, eram torturadas, nasciam também os cavalos corredores, os matadores e a milícia. Ali se estruturou a cultura da morte e da chacina, o alvo apenas mudou, foi para um canto da cidade mais silencioso e invisível e se tornou mais palatável. Quantos Herzogs perdemos nas guerras das favelas, ainda jovens e adolescentes? Quantos corpos seguem desaparecidos pelas ruas da baixada? famílias que nunca mais viram seus parentes, muitos deles crianças cujo crime naquela rua seria o lazer de uma festa de bacana.

Na Copa das Copas, os porões da ditadura que estavam operando no Haiti também operaram nas favelas, estavam exército, polícia, milícia e certas igrejas construindo o mais duro cerceamento de ir e vir garantindo aos brasileiros e estrangeiros que podiam pagar a fortuna de ingresso da copa tivessem o sossego e tranquilidade de não ver nossa miséria humana.… Leia mais

Atingimos o volume morto eleitoral

Iniciarei aqui usando um termo do camarada militante da cultura Pablo Meijueiro: “atingimos o volume morto” das estratégias de coligações. Dito isso, inicio este texto (que assim como muitos outros meus) tende a desagradar boa parte da militância ufanista. O jogo das peças políticas começou a desenhar um quadro muito curioso na polarização. Primeiro vamos elencar alguns movimentos:

  • A aproximação de Lula e Alckmin, que significa uma tentativa de aproximação de Lula com parte significativa da elite brasileira que não se sente confortável com o Bolsonarismo,
  • A aproximação de alguns partidos de esquerda como o PSOL ao projeto,
  • O movimento das mesmas peças em torno do fortalecimento da polarização eleitoral na disputa Bolsonaro vs Lula,
  • A ausência de otimismo popular em torno de quaisquer dos projetos eleitorais aqui apresentados,

Bom, um primeiro trabalho que começamos a notar é a dificuldade de se constituir uma campanha de marketing que consiga alinhavar tudo isso. Na cabeça popular, que acompanhou ano a ano um nome como o Alckmin/PSDB ser dilacerado pelas campanhas do PT, nunca soará fácil compreender tal aliança, ainda mais vinda com um política que almeja o poder presidencial. Todos aqueles que se colocam como um centro, um moderado, ou alguém que não se encontra à esquerda do espectro ideológico enxergará isso como algo puramente eleitoreiro e oportunista, talvez até como um desespero pela volta ao poder pelo poder.

Para as forças a esquerda, todo este quadro do volume morto representa algo pior.… Leia mais

Reflexão sobre o processo de refração dos coletivos e identidades

É possível pensarmos que as formas de organização coletivas que se tornaram um modelo padrão nas últimas décadas esteja chegando em um momento de refração.

Já é notável que, de alguns anos para cá este modelo foi perdendo sua autonomia como forma de resistência e sendo capturado pelo sistema do capital, seja pela ferramenta de fomentos financeiros, seja pela atração do trabalho para dentro do modelo de mercado, os coletivos foram ganhando cada vez mais um tom de pequenas e micro-empresas (mesmo sem ser). Esta queda, que acabou por criar relações de competição entre grupos, e afastamento de muitos que buscavam nestes uma linha de fuga, ajudou a desmobilizar possíveis redes com capilaridade e capacidade de produzir outras formas de vivência, de distribuição de força de trabalho, de fazer política.

Além deste, a organização em coletivos que se encontra capturada pelo sistema de poder, acaba por viver em si mesma, presa na necessidade da própria sobrevivência, como quaisquer brasileiros que não tem capital ou herança. Mas a questão dada é: o que fazer diante disso?

Se não se consegue mais retirar os coletivos e similares do sistema, pois os mesmos precisam dos parcos recursos fornecidos pelo sistema, e ao mesmo tempo não podemos mais contestar este sistema pelo risco de ser isolado do acesso aos parcos recursos, fica a questão: Como retomar caminhos de mobilização para além deste?

Da mesma forma caminha a questão das lutas identitárias.… Leia mais

Já não basta sermos Latinos, já não nos bastam as identidades

É muito curioso pensar como as palavras tem um certo poder. Em nome de uma resistência ao imperialismo antiamericano, buscamos por muito tempo a construção de uma identidade latina. Esta identidade, que como qualquer outra se forja pela aglutinação e trabalho sobre alguns elementos comuns, resplandeceu na tentativa de consolidar uma força continental capaz de enfrentar o domínio dos EUA (país economicamente mais poderoso).

De certo porém, este postulado cria problemas e limitações. Entre elas, um problema notável é que a busca de uma identidade latina como resistência a uma identidade anglo-saxônica acaba por repetir a dicotomia do processo de expansão imperialista que vigorava desde as grandes navegações do mercantilismo até o processo industrial (dos primórdios ao mundo contemporâneo). Isto é, em nome de uma liberdade dos povos, acabamos por traçar uma disputa territorial ainda construída sobre signos de uma relação império-colônia, mantendo firmes todas as suas contradições.

Somos capazes hoje de determinar quantos povos compõem todas as relações sociais, econômicas e culturais do novo continente? Esta é uma pergunta importante de refletir. Há similaridades nos processos de apagamento histórico dos diversos povos que habitavam as terras antes das explorações, assim como dos povos que foram forçados a estar nestas terras como mão de obra escravizada, histórias que resistiram em meandros e relações moleculares, dentro das redes possíveis de serem traçadas. Redes estas que inclusive precisam considerar a construção hegemônica na sua formação cultural.… Leia mais

Casas de vó e um design do cotidiano

O campo da arquitetura de interiores e design de interiores possui uma dinâmica acentuada no que diz respeito a tendências, modas, novidades tecnológicas entre outros. Em geral, seus postulados acabam por definir o que é elegante e o que está cafona, o que é belo e o que é feio em um determinado recorte de tempo e espaço. O que chega para as massas consumidoras, vindo de revistas e magazines especializados, blogs, propagandas e até programas de TV cujo eixo central é a reforma de uma casa ou compartimento, reflete este universo sob o qual gira o campo de trabalho de reforma de interiores, e por sua vez alimenta a rede social de desejos.

Quem não quer ter a casa bonita e aconchegante? Precisamos porém, lembrar que, a beleza tem história, e seus signos são construídos no tempo. Para tanto, é necessário desconstruirmos o sentido de beleza condicionada ao exclusivo, a itens de difícil acesso que por sua vez, acabam sendo um instrumento de poder.

Um exemplo: As tão desejadas casinhas brancas de Mykonos tem sua estética determinada pela mesma técnica de pintura que hoje em dia marca uma enormidade de casas mais populares do Brasil, a caiação. Aquele mesmo azul e branco que remete uma memória de rua de avó, de vizinho pintando calçada ou tronco de árvore (não faça isso).

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Entre o 7 de setembro e o 2 de outubro – este título não te atrai, não dá IBOPE e não da like

No dia 02 e outubro último fechou-se o ciclo de atos pós sete de setembro. Desta vez puxado por forças, movimentos e partidos organizados da esquerda. Apesar de terem sido atos com expressão (não maiores que o ciclo de atos pré dia 07 de setembro), não escaparam dos ciclos organizados da militância. Pelo lado do governo atual, uma continuidade do Bolsonarismo foi fomentar suas redes ampliadas de telegram. Após fechamento deste ciclo, seguimos na incógnita. Aparentemente, todas as forças militantes (pró e anti-governo) não tem conseguido mobilizar mais gente que suas bases de afinidade.

Em um dos grupos, com aproximadamente mais de 900mil seguidores, o governo segue sua técnica de comunicação com suas bases, a respeito das ações que tem implementado. Chamadas como: Veto a aquisição de bens de consumo de luxo por parte da administração pública, e reformas de aeroportos e outros sistemas de infraestrutura são alguns dos exemplos de informações divulgados.

A vida cotidiana por sua vez, começa a voltar ao normal por meio de decreto. No Rio, o carnaval já ativa boa parte da sociedade que se mobiliza em torno dele, bairros de subúrbios seguem a vida como se a pandemia não existisse, cuidados sanitários são só um crachá protocolar, muitas das vezes tratado como teatro. Os tempos atípicos que a pandemia abriu estão em refluxo. A massa do povo, que não atua politicamente de forma militante, parece ter ficado anestesiada diante de tudo, ou simplesmente não está nem aí.… Leia mais

12 de outubro – Nossa Senhora da Conceição Aparecida, uma reflexão sobre o espaço.

O Brasil profundo se encontra e se reconhece em Aparecida. Na basílica onde multidões buscam um milagre, um sinal, uma recompensa ou uma simples esperança do cotidiano. Hoje também é dia do Cristo Redentor (o filho) e arquitetura/escultura símbolo da cidade do Rio. Dia 12 de outubro o país conecta sua religiosidade, sua espacialidade, seus territórios e seu cotidiano.

É comum gastarmos esforços e discussões sobre a produção do espaço pelos mais diversos parâmetros econômicos e materiais. Estudamos a viabilidade, mobilidade, eficiência, capacidade de produção e de investimentos. Pode ser, mas o habitar é uma teia complexa, que passa pelo material mas não só por ele.

As múltiplas Nossas Senhoras que existem no mundo, são referência a uma mesma santidade católica, Maria mãe de Jesus, cujos nomes diversos expressam um momento ou um lugar especial. De certa forma, Maria, que para o catolicismo tem o papel intercessor entre o Cristo e a humanidade, também constrói socialmente esta imbricada relação de pertencimento social do ser humano com o lugar. O espaço ganha importância e sentido a medida em que nele se firma a aparição, seguido do primeiro milagre, do burburinho social e da peregrinação capaz de transformar o espaço ermo em lugar de encontro.

Este é um indicie importante para pensarmos nossa capacidade de ocupação dos espaços: onde estão nossas conexões de importância com ele? Seja Nossa Senhora Aparecida conectando o Brasil ao Paraíba do Sul, seja o Cristo Filho e Redentor conectando a Mata Atlântica com a vida cosmopolita de uma cidade metrópole.… Leia mais

7 DE SETEMBRO DE UM BRASIL EM QUESTÃO

Findados os atos e manifestações populares pró e anti Bolsonaro vai um balanço. Foram três movimentos bem demarcados, uma manifestação de 7 de setembro de apoio ao presidente, no mesmo dia o tradicional grito dos excluídos puxados pelos movimentos socials e partidos da esquerda tradicional, este ano em protesto ao presidente, e hoje dia 12 um ato pró-impeachment do Bolsonaro puxado pelo MBL e partidos de centro, de direita e de esquerda.

Primeiro em termos de massa, é notório que o apoio ao presidente ainda vigora no povo, com um ato mais plural, o Bolsonaro mostrou que ainda tem força e apoio popular em sua sustentação. Ainda que não tenha sido forte o suficiente para assumir o golpe em curso, o foi pra garantir uma rearticulação no poder. Quanto ao grito dos excluídos, mostrou alguma massa, mas não extrapolou o recorte dos movimentos, Um pouco se deu por parte dos próprios movimentos e partidos não terem apoiado a ida massiva às ruas por medo de um pretenso conflito. O ato puxado pelo MBL e partidos de centro, de direita e de esquerda também se mostraram esvaziados no dia 12 de setembro.

Parte do esvaziamento se deu pela carta de armistício entre o presidente e os demais poderes, parte pelo próprio esmagamento da militância tradicional em esvaziar, e parte pelo esvaziamento próprio da construção. No fim, o balanço principal que pode ser feito parece apontar um ganho político para o Bolsonaro e o bolsonarismo, que consegue se afastar das cordas e repactuar com o congresso e com o STF.… Leia mais