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Fortuna

As encruzilhadas nos presenteiam com a vida. Era um sábado à tarde. Eu estava no bowl de Irajá, palco do skate antes mesmo do skate virar esporte. Foi ali que vi, pela primeira vez, um dos maiores artistas que conheci na vida.

Lembro que ele panfletava um show de death metal, no qual faria a abertura tocando Jorge Vercillo e Raul Seixas ao violão. Ali pensei: esse maluco é o cara mais rock and roll que eu conheço. O tempo, o subúrbio e a música foram nos aproximando aos poucos. Tempos depois, fizemos parte do mesmo coletivo cultural, o Consciência Criativa. Foram anos de suor, amizade e movimento sem verba, em uma época em que pouquíssimos faziam cultura nos subúrbios.

Fortuna se fez presente, carregava o destino no próprio nome. Onde muitos o viam como um pária social, preconceito comum imposto aos meninos periféricos, os mais próximos descobriam sua imensa inteligência. No rosto, um olhar digno dos guerrilheiros. Por dentro, a sensibilidade rara dos poetas. Anderson era capaz de articular Raul Seixas, Botafogo, Neruda, García Lorca, teatro, música e rua com uma naturalidade que pouca gente tem. Transitava com o mesmo fascínio entre a canção simples de um bar e a grandeza de um show dos Rolling Stones. Fortuna sabia o que era arte porque, para ele, ela nunca esteve separada da vida. Estava no feijão com arroz, na conversa da esquina, na canção improvisada, na feira de domingo.

Era um garoto de sonhos simples: tocar no espaço cultural do próprio bairro, ter uma banda, jogar bola. Mas carregava um universo que mal cabia na própria mente. Anos se passaram, e foi um privilégio quando conseguimos criar para ele um presente que, no fim, virou presente para todos nós. Organizamos uma Suburbagem em que, literalmente, criamos uma banda para Fortuna se apresentar. Chamei alguns dos melhores improvisadores com quem convivi. Não tinha outro jeito. Para tocar com Fortuna, era preciso ser capaz de explodir fora da curva. A banda deveria entrar no universo dele, e não o contrário.

E assim foi.

Fizemos alguns ensaios para tentar entender aquele universo e partimos para a apresentação. Vieram improvisos, canções de amor, de revolta, declamações poéticas, gestos teatrais, movimentos imprevisíveis. Éramos praticamente uma instalação disfarçada de banda.

Lembro quando Fortuna desceu do palco para assistir à própria banda, sem encenação, por puro prazer. Ficamos mais de dez minutos improvisando e pedindo, pelo amor de Deus, que ele retornasse ao palco para finalizarmos a música. Lembro também da minha cara estupefata na primeira vez que ouvi a letra de “Andarilho das Estrelas”. O destino prega essas peças. Anderson era uma espécie de Van Gogh perdido no seu tempo. Sua arte não cabia na caixa das pasteurizações.

Lá por 2010, eu sofria para terminar a graduação, atravessado por milhares de problemas. Lembro que, numa chuva de verão, daquelas que entravam pela minha casa através dos telhados quebrados, perdi meu rádio. Comentei de leve na roda da galera, quase sem importância. Por mim, tudo bem. O que era um rádio para quem já tinha perdido tanta coisa em tão pouco tempo? Mas, um dia, surgiram Fortuna e Labanca com um rádio na mão. Anderson repetia, meio incrédulo: “Não cara, você não pode ficar sem rádio, você é artista, precisa ouvir música”. Ali entendi o quanto vocês apostaram em mim. Quantas vezes eu quase larguei a FAU e uma conversa ou um gesto maluco desses vindo de vocês me fazia pensar: tenho que seguir em frente.

Você sempre me lembrou que, antes de eu ser gente, eu era músico rs. Quando criei a animação para a música “Vanessa”, do André Figueira, pensei em um roteiro baseado em um jovem deslocado descobrindo a metrópole, com suas inúmeras contradições. Pensei: quem melhor representaria o profeta que apontaria o caminho para esse jovem? Ninguém menos que o próprio Fortuna. Do jeito dele, ele exercia esse papel. Liderava pela arte. Quantos eventos não organizamos apenas para ter o prazer de criar um palco para Fortuna se apresentar, sem ele ter nos pedido isso?

Quem não se lembra de sua clássica indagação: Qual grande artista a Lona revelou?

Seu poema maior, “A Cidade, o Caos”, foi um soco no meu estômago. Viver essa cidade como nós vivemos, e depois ouvir essa poesia declamada como sangue que cruza a América Latina por dentro do Para Pedro, se chocava brutalmente com a minha formação de arquiteto. A cidade, o Caos é o meu espaço vivido, a arquitetura que aprendi na infância. 

Não à toa, antes da primeira linha do resumo da minha dissertação, você está citado lá. Um pequeno trecho seu que representa tudo que pesquisei para que outros arquitetos leiam e conheçam aquilo que nossa turma chama de Subúrbio Carioca. Uma aula de cidade em um poema.

Eu poderia dizer que esse poema, imenso, foi sua grande obra, mas seria injusto. Sua obra maior foi a própria vida experimentada integralmente em forma de arte, como pouquíssimos tiveram coragem de viver, com todo o gigantesco ônus e todo o raro bônus dessa escolha.

A vida foi dura para todos nós que andamos juntos pelas ruas de Irajá e Vista Alegre, e extremamente covarde com você. Uma série de destinos entrecruzados, de amigos se costurando e se ajudando na tragédia que é sobreviver sendo pobre e tentando ser feliz sendo artista.

Você se foi, meu camarada. 

Eu não estava preparado para isso. Honestamente, ainda não estou. Mas você segue presente em nós que dividimos contigo esse tablado chamado vida, nas músicas que escutamos, nos palcos que inventamos, nas duras ruas que atravessamos, nos gestos que ficaram e nessa geração de bairro que você ajudou a mover culturalmente sem nunca precisar pedir licença ao mundo.

Qual grande artista a lona revelou? Fortuna.Você!

Anderson Fortuna foi grande. Grande demais para o reconhecimento pequeno que este país costuma reservar aos seus artistas pobres. Grande demais, também, para caber no esquecimento.

Todos nós, atravessados de algum modo pela tua presença, tivemos o raro privilégio de dividir contigo o chão deste Subúrbio, as agruras da vida e essa arte que ainda insiste em nos manter vivos na Terra. Agora meu camarada andarilho errante que carregou todos os sentimentos do mundo dentro de ti, siga livre, caminhando dentro de todos nós.

Um último e triste feliz aniversário ao camarada,

Anderson Fortuna,

Poeta, músico, artista e acima de tudo um Amigo.

Desenho autoral.
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O Congresso contra o Povo

O conservadorismo acolheu e organizou os mais pobres. Isso precisa ser sempre lembrado com alguma honestidade. Ele ocupou vazios, criou pertencimento, deu escuta e destino para gente que muitas vezes encontrou na esquerda apenas contradições e uma espécie de superioridade moral desgastada. Até aí não há tanta novidade. Desde pelo menos 2014, o país vive esse deslocamento, e fingir que ele não existe apenas aprofunda o nosso erro.

O ponto novo, porém, é que esse conservadorismo deixou de ser apenas sentimento social e passou a operar como poder. Quando toca o Congresso, quando define quais pautas avançam, quais travam, quais vidas merecem acesso ao orçamento público e quais podem seguir no improviso e na fome, ele revela o Brasil que deseja construir. E esse Brasil, muitas vezes, é duro com quem já não aguenta mais.

Se a esquerda tem o presidente, o conservadorismo tem o congresso e opera com ele para ter espaço de poder e gestão. Não amigos, não vivemos um governo de esquerda, mas sim o governo que sempre vivemos, esse parlamentarismo presidencialista esquisito onde as forças precisam manter sempre um grau de negociação para se manter no poder.

Em qualquer periferia de cidade grande e em muitos recantos de cidades médias e pequenas, existe um País à parte, onde a fome ainda organiza o cotidiano. Lugares onde viver com menos de um salário mínimo é regra, e ganhar um salário mínimo já parece vitória. Nesses territórios, o Bolsa Família não pode ser tratado como abstração eleitoral e cabresto, ele se torna a única estrutura real de sobrevivência. Organiza a compra da vida, a comida da criança, o remédio, o que dá pra organizar e ainda falta. E infelizmente, seguirá organizando a vida enquanto o Brasil não tiver um sistema produtivo capaz de absorver sua própria força de trabalho com dignidade e mínimo direito à mobilidade social.

A escala 6×1, que no fundo funciona como um 7×0 disfarçado, soma-se à miséria salarial, ao transporte exaustivo, ao aluguel impossível enquanto crescem alphavilles e studios e à ausência de horizonte palpável. O resultado é uma massa gigantesca de vulnerabilidade e sem esperança. Gente que trabalha muito, ganha pouco, descansa mal, adoece cedo e quase nunca consegue transformar esforço em prazer de vida. O país cobra disciplina de quem vive no limite, mas oferece muito pouco além da sobrevivência, na verdade nem a sobrevivência o País oferece.

Esse é o ciclo vicioso profundo. Não se levanta uma Nação condenando sua população a correr em círculo até morrer. Um trabalhador exausto não empreende sua liberdade. Uma mãe que passa três horas por dia no transporte não consegue “qualificar-se” por milagre. Um jovem que entra cedo demais no trabalho precário perde escola. O Brasil fala em produtividade, mas organiza a vida popular para desperdiçar inteligência humana. Maio é um mês significativo para os trabalhadores de um País cuja cultura foi forjada no escravagismo. 

A saída, a meu ver, passa por muitas lutas, porém quero deixar escrito alguns recortes. Um deles, ela exige tratar política social como infraestrutura de sustento da Nação. O SUS, apesar de todos os problemas, mostra uma coisa fundamental: quando o Estado chega de forma capilarizada, em rede, ocupando território, fomentando formação profissional, e garantindo continuidade política, ele muda a vida concreta. O mesmo princípio precisa orientar outras partes da estrutura social: renda, trabalho, cuidado, educação técnica, mobilidade e produção. Não basta distribuir benefício via política pública e deixar o restante da vida entregue ao mercado ruim, ao ônibus caro, ao aluguel predatório e ao subemprego moedor de gente. É preciso construir uma rede pública de política de sustentação da vida, integrada no território, capaz de enxergar família, bairro, escola, posto de saúde, transporte, cultura e emprego como partes do mesmo problema.

Isso passa por uma política nacional de trabalho honesta e decente, incapaz de se formar neste congresso de legisladores de causa própria, defensores de coisas espúrias. Como pensar política com estes seres abjetos incapazes de enxergar o país além da própria fazenda? O que dizer com palavras bonitas e sinceras? 

Há nesse Congresso uma venalidade profunda, uma mistura de pusilanimidade ética e arrogância oligárquica, gente que se ajoelha diante dos donos da terra (quando não são os próprios donos), da bala e do dinheiro e se vende barato para doleiros e cafetões de luxo, mas endurece a voz contra quem vive de salário, de benefício, do bico e com dívida. São capatazes legislativos de um país velho, cortesãos do atraso, defensores de pactos iníquos e projetos predatórios, enquanto chamam de responsabilidade aquilo que, no fundo, é apenas crueldade organizada. Essa é a gente que vai caminhar pelas ruas do seu bairro fingindo que gostam de comer pastel com caldo de cana. A cara de nojo que fazem quando mordem um pastel, não é pelo pastel, é pelo nojo que sentem ao estarem perto demais da gente. 

Tem pavor de pautas como: Redução progressiva da jornada, valorização real do salário mínimo, expansão da educação profissional ligada às cadeias produtivas locais, crédito orientado para pequenos produtores. Esse governo se torna tão ignorante que sequer enxerga que estas são pautas de caráter liberal.  Mas ainda cito mais possibilidades para construir: cooperativas, economia do cuidado, indústria verde, construção civil pública, saneamento, reabilitação de moradias e infraestrutura urbana nas periferias. 

O país precisa enfrentar essas criaturas sem receio. Criar um projeto que nos possibilite fortalecer a produção de vida, gerar trabalho e descanso para as pessoas reais, e não apenas empurrar corpos pobres para a vala da história, como empurraram para o Oceano de Sangue, Kalunga Grande (aprendi esse termo lendo o artigo da Vivian Carla Garcia Ferreira aqui).

Aqui também, a técnica pública institucional não pode ser resumida à burocracia de gabinete que atende a esses poderes de forma acrítica. Ela precisa medir tempo de deslocamento, renda disponível, acesso a creche, saúde mental, custo da alimentação, informalidade, produtividade territorial e capacidade real de permanência das famílias em seus bairros.

Um projeto sério para o Brasil começará quando a vida popular deixar de ser tratada como resíduo. O pobre precisa de tempo, renda, cidade, descanso, formação, crédito, saúde, cultura e poder sobre o seu próprio território. Enquanto isso não acontecer, seguiremos discutindo moralidade no alto, enquanto embaixo o país real tenta decidir se compra comida, paga passagem ou continua entregue a qualquer destino.

A boa política é aquela que transforma sobrevivência em caminho real de futuro. Esta política a meu ver, deve transpassar esse congresso e se possível desferir o máximo de danos a parte desta máquina público-privada usada a benefício próprio dessa gente estranha que ocupa as câmaras de poder.

Autoria própria
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Reviver o Centro, assassinar o Lume.

A obra no Buraco do Lume é mais um exemplo da escolha do poder público de construir uma cidade de aparência.

A intervenção segue o mesmo roteiro: mexe-se no espaço, vende-se a ideia de renovação sobre um território tratado como vazio, produz-se stand e material de divulgação e se constrói com apagamento de memória, sem se importar com o impacto real sobre quem vive e circula ali. O problema também é o mesmo de sempre: tratar o espaço como peça de marketing, enquanto transforma o que é bem comum, social e público em ativo privado.

O Buraco do Lume não é um terreno neutro no centro do Rio. É um espaço consolidado na experiência urbana da região. Tem história, tem função, tem presença, tem política.

Qualquer intervenção ali exigiria, no mínimo, debate público sério, leitura mais profunda da área e alguma inteligência política sobre o que significa agir num ponto tão simbólico e conectado do Centro. Mas o que se vê é, mais uma vez, uma ação com pouca densidade e diálogo e, no fundo, mais uma operação subordinada à especulação imobiliária desta cidade.

Existe um vício administrativo no Rio: a crença de que intervir fisicamente já é, por si só, governar bem. Não é. Sem escuta, sem participação, sem relação com a vida concreta do lugar, obra pode ser só maquiagem urbana e movimento econômico para um nicho muito específico de ricos da cidade. Tudo isso com aval de uma prefeitura que licencia o que interessa a quem pode pagar.

O que incomoda não é apenas a intervenção em si, mas a lógica que ela expressa. Uma lógica que prefere controle à convivência, desenho à complexidade, mercado à política urbana.

O Buraco do Lume merecia mais. Merecia menos solução apressada e mais reflexão social. Realização de destombamento, aumento de gabarito, permissão de construção de imóveis pequenos é um triste fim para este remanescente do Morro do Castelo, pólo de grandes movimentos culturais e políticos da Cidade do Rio de Janeiro. E tudo isso feito com a conivência de prefeituras e suas secretarias garantindo todas as licenças necessárias para as construtoras.

Vamos jogar ao relento um espaço livre fundamental para as conexões entre pedestres, usuários do Centro e comerciantes. Mas o movimento da prefeitura, infelizmente, segue o padrão: substituir cidade, e tudo o que essa palavra significa, por cenografia urbana.

No fim, fica a impressão de sempre: o Rio continua tratando seus espaços importantes como palco de intervenção superficial e negócios econômicos dos patrocinadores do poder. O que falta é visão de cidade. Uma cidade que morre enquanto seus espaços livres cedem lugar a empreendimentos ultracompactos voltados à valorização imobiliária, quando o interesse público deveria estar voltado à produção de habitação social e à preservação da vida urbana real.

Revier Centro é Reviver o lucro de alguns enquanto noventa por cento da cidade está entregue à própria sorte. 

Imagem ilustrativa: Bloco de Carnaval no Buraco do Lume:

Imagem retirada do artigo: projetocolabora.com.br/ods11/rioerua-o-buraco-do-lume-e-100-anos-de-cobica-no-centro/

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Terra Rara e terras raras: pequeno texto sobre o impasse material do nosso tempo

Segue um pequeno texto sobre uma contradição pertinente do mundo contemporâneo. Falamos muito em inteligência artificial, transição energética, inovação, automação de futuro. Ao mesmo tempo, talvez tenhamos que  recordar o óbvio: não existe nuvem sem território físico, não existe inteligência artificial sem eletricidade, não existe transição energética sem mineração em larga escala, e não existe crescimento exponencial sustentado quando a base material do sistema opera no limite máximo. O século XXI promete leveza digital, mas se apoia sobre uma infraestrutura física brutalmente pesada.

Há um fetiche comum no debate público e corporativo. Falamos de tecnologia como se ela brotasse do nada, como se fosse resultado puro do engenho humano pairando acima da terra. Mas a história real é mais rude. Data centers exigem energia estável, água para resfriamento, linhas de transmissão, cabos, transformadores, terras baratas e capacidade de conexão. Painéis solares exigem prata. Turbinas eólicas, carros elétricos, sistemas militares e eletrônica de precisão exigem terras raras e outros minerais críticos. A dita economia do futuro nasce, portanto, de uma nova corrida sobre o solo. E como quase toda corrida por recursos em larga escala, ela rapidamente se converte em guerras geopolíticas.

O mercado da prata nos ajuda a entender um pouco isso. A prata ocupa um papel duplo, financeiro e industrial. Ao mesmo tempo em que é historicamente e segundo metal mais importante do mercado, embora mais raro e difícil de extrair que o ouro, também é muito importante em aplicações industriais, eletrônicas e fotovoltaicas. Isso significa que sua demanda já não pode ser lida dentro de um hibrido difícil de equilibrar: o especulativo do mercado financeiro e o necessário do consumo industrial. As terras raras, por sua vez, revelam um problema ainda mais pesado. Tanto pela existência geológica complexa desses elementos, quanto pela capacidade de processá-los, refiná-los e incorporá-los às cadeias industriais de maior valor agregado. A China percebeu isso antes de boa parte do Ocidente e consolidou posição dominante em etapas decisivas do refino. A disputa global perpassa a extração do minério. Ela é responsável pelos elos decisivos da transformação industrial.

O que está em curso é uma reorganização do poder mundial em torno destas novas cadeias produtivas estratégicas, semicondutores, minerais críticos, defesa e infraestrutura digital, isto é, os materiais do novo poder global. Em um cenário de crescimento global mais frágil, protecionismo seletivo e reindustrialização competitiva, cadeias de suprimento deixam de ser assunto secundário da globalização eficiente e passam a ser tratadas como matéria de soberania. Quem controla o refino, os chips, as baterias, controlará o ritmo da modernização dos outros.

A inteligência artificial radicaliza este quadro. Os debates principais sobre as IA costumam girar em torno de modelos, interfaces, produtividade e automação do trabalho intelectual. Tudo isso importa, mas há um subterrâneo raramente explicitado com a devida contundência. Por trás de toda rede de softwares há uma rede de hardwares. A expansão da IA depende de um salto gigantesco no consumo energético e de recursos. Isso nos obriga a encarar uma questão muito rude: a infraestrutura necessária para sustentar esse salto não cresce na mesma velocidade dos sistemas. Falta rede, falta transformador, faltam linhas de transmissão, faltam anos de investimento acumulado e, talvez o principal, faltam limites ecológicos que suportem essa voracidade. O discurso do crescimento exponencial esbarra no concreto do mundo, no aço, no cobre, no licenciamento, no território sacrificado e no tempo.


Este talvez seja o impasse mais decisivo do nosso tempo. O mundo quer eletrificar transportes, ampliar energias renováveis, sustentar a corrida dos data centers, expandir complexos industriais de alta tecnologia e ainda reforçar máquinas militares em meio a conflitos crescentes. Tudo ao mesmo tempo. Mas a infraestrutura de base não acompanha a voracidade. Redes elétricas envelhecidas, gargalos logísticos e dependência concentrada de poucos países indicam que o sistema quer operar num grau de complexidade superior ao que sua base material suporta.

É justamente aqui que outra leitura de mundo se faz necessária. Porque o discurso dominante tenta resolver esse impasse com a velha fórmula: abrir novas fronteiras extrativistas, flexibilizar regulações, converter territórios em zonas de sacrifício e acelerar a exploração em nome da inovação. A transição energética e digital corre o risco de repetir, em versão verde e algorítmica, a velha colonialidade do poder. 

Troca-se a fumaça velha do fóssil pelo garimpo limpo no selo institucional. Troca-se o petróleo pela mineração crítica. Troca-se o velho saque por um saque com selo ESG. E mais uma vez o Sul é convocado a fornecer o corpo, água, terra, trabalho e paisagem devastada para sustentar o padrão técnico dos centros de comando e dos bilionários do GAFAM.

A literatura crítica recente aponta isso: minerais críticos podem ser fundamentais para a descarbonização, mas sua extração, quando submetida à lógica convencional do capital global, tende a reproduzir conflito social, dano ambiental, concentração de valor e violência territorial similares ou piores que os modelos anteriores. A transição pode ser necessária e ainda assim operar de modo injusto. Uma coisa não anula a outra. É preciso perguntar quem extrai, quem processa, quem lucra, quem adoece, quem perde território e quem define a finalidade social dessa nova base técnica.

O Brasil entra nesse debate com potencialidade e risco. Potencialidade porque possui reservas importantes de minerais estratégicos para a transição energética, como grafita, níquel, manganês, terras raras e lítio, além de matriz elétrica relativamente favorável, base industrial ainda recuperável e capacidade científica instalada. Risco porque sua história socioeconômica mostra uma tendência persistente de ocupar o lugar de provedor de matéria-prima, deixando o refino, a tecnologia, a manufatura complexa e os ganhos estruturais para outros. O país pode ser peça relevante na cadeia global de minerais críticos, mas isso, por si só, não significa desenvolvimento nacional. Exportar o bruto enquanto importa a inteligência industrial do processo é continuar exercendo papel subalterno. O ponto decisivo é saber se o país será capaz de organizar política industrial, financiamento público, capacidade de refino, produção de componentes, domínio tecnológico e critérios socioambientais rigorosos para que essa riqueza se converta, de fato, em soberania material.

As guerras atravessam esse processo inteiro. Porque, além de destruírem sociedades, reordenam as cadeias produtivas, justificam emergências orçamentárias e ampliam a corrida por insumos estratégicos. Guerra produz espólio. Produz a oportunidade de redesenhar territórios inteiros a partir da ruína, reorganizando fluxos de vida e infra estruturas de mercado. 

Em escala global, o aumento do gasto militar mostra que recursos gigantescos estão sendo canalizados para destruição e contenção, enquanto a infraestrutura civil necessária à sustentação de uma transição justa segue em segundo plano. Há algo de irracional num sistema que responde à crise ecológica, energética e social com mais armamento e mais competição predatória, mas não parece ser pauta de quem manda no mundo.

Se prevalecer a lógica atual, veremos a ampliação de um modelo tecnicamente sofisticado e socialmente brutal: mais automação, mais consumo energético, mais extração, mais enclaves de riqueza, mais territórios sacrificados e mais guerra administrando os desesperos do próprio sistema. Uma espécie de futuro de alta tecnologia com estrutura moral arcaica. Muito bem retratado em filmes como Matrix e Exterminador do Futuro.

Mas outra direção ainda pode ser construída.

Uma direção em que transição energética não seja licença para devastar, em que inteligência artificial não seja pretexto para concentração radical de poder, em que soberania não se reduza à disputa bélica entre impérios e em que países como o Brasil recusem o lugar passivo no mundo. Isso exige mais do que política industrial ou regulação. Exige romper com a ideia moderna de desenvolvimento como simples aceleração da máquina, com a recusa dos conhecimentos tradicionais e com a crença de que toda tecnologia nova torna dispensável a memória longa da vida e da terra.

Talvez o nosso tempo peça algo mais profundo. Não só novas fontes de energia, mas nova inteligência histórica. Não só novos minerais, mas nova ética material. Não só inovação, mas capacidade de construir uma ordem menos exploratória, menos colonial e menos suicidária da existência terrena. Antes de reorganizar a economia, precisamos reorganizar a imagem que fazemos de nós mesmos: deixar de pensar o humano como centro soberano do mundo e voltar a nos perceber como parte frágil de uma trama muito maior do que nossa ambição técnica.

No fundo somos apenas símios que refletem sobre si rodando em uma pedra rara no universo, assentados na periferia de uma galáxia cujo destino final é encontrar o grande atrator de Laniakea. E o mais irônico da vida é que talvez nem nossa galáxia alcance seu destino antes do colapso do universo. Em meio a isso continuamos a destruir nossa pedra rara mãe em nome de um progresso ilusório construído por um pensamento moderno que há muito já não responde a vida. Somos tão raros quanto pequenos, mas talvez nos falte entender que nossa pequenez e respeitar o universo para reescrever nossa visão de mundo, como um dia fizeram os polinésios em seus barquinhos navegando o oceano pacífico.

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Palestina livre, Irã livre

A Palestina é a fronteira ética do nosso tempo, mas também um labirinto para o pensamento de esquerda. Um dos erros mais comuns da política são as simplificações: quando o inimigo do meu inimigo vira meu amigo, o povo cai no esquecimento da pauta. Em nome da causa palestina, parte da esquerda global aceita, com silêncio, o autoritarismo do regime iraniano, como se a teocracia fosse elemento aceitável de resistência ao imperialismo ocidental. Essa visão transforma geopolítica em desculpa conveniente para acalmar o campo que não precisa lidar com a complexidade, ainda que deixe povos reais solitários em sua luta por liberdade e justiça social.

A pauta é uma: libertação não deve ser seletiva. Não existe solidariedade consistente com Gaza se ela nos exige fechar os olhos para prisões, torturas, censura e assassinatos ocorridos no Irã. A mesma ética que denuncia genocídio, apartheid, ocupação e massacre, principalmente desde 7 de outubro de 2023, precisa reconhecer que a República Islâmica também governa por coerção, medo e captura da cultura e do cotidiano. O inimigo do meu inimigo não vira automaticamente aliado. Vira apenas outro poder que deve ser questionado.

Aqui nos cabe recusar o “campismo”, essa tentação de escolher um bloco, tratá-lo como único e absolver tudo o que ele faz. Nessa linha, comecemos por um princípio básico: apoio às revoltas populares contra a brutalidade teocrática, sem aceitar sequestro por intervenções externas. Evitando assim a fraude da falsa simetria. Por que chamar a repressão iraniana de ordem por acreditar que ela combate o imperialismo trumpista? A esquerda não pode trocar o povo pela geopolítica. Assim como não podemos negligenciar a dor iraniana como pretexto para guerra e mudança de regime a serviço de interesses alheios.

O gesto mais potente vem de baixo. Ele aparece quando feministas e trabalhadoras iranianas transformam “Jin, Jiyan, Azadî” (Mulher, Vida, Liberdade) numa linguagem de mundo, principalmente a partir do levante de 2022. Ou quando sindicatos e organizações independentes enfrentam a polícia moral da sharia ao mesmo tempo em que se posicionam contra a guerra e contra o genocídio em Gaza. Essa linguagem toca verdadeiramente a luta palestina. Enquanto o conservadorismo comenta na TV pedindo e naturalizando a volta da monarquia iraniana como elemento de transição política, caberia à esquerda uma construção radical de solidariedade real, transversal: a liberdade do corpo em Teerã e a liberdade do corpo em Gaza pertencem ao mesmo campo ético de liberdade.

Quando essa ponte se constrói, ela deixa explícito o que o regime tenta esconder: o Estado iraniano não é a Palestina, na verdade ele é muito mais próximo de um Sionismo de moeda inversa do que supõe nossa liturgia. Assim como a Palestina não precisa da tutela de uma teocracia. E esse talvez tenha sido o maior temor de muitos poderes que envolvem as disputas do Oriente Médio a época de Arafat: o Fatah não defendia uma teocracia a priori, mas um Estado palestino laico.

Sobre o sindicalismo independente iraniano: em declarações recentes (por exemplo, ao longo de 2025), organizações de trabalhadores condenam o genocídio em Gaza e pedem o fim do armamento a Israel, ao mesmo tempo em que rejeitam guerra contra o Irã e denunciam o próprio regime. Isso desmonta o discurso que reduz a região a “governos falando com governos”. Existe, no meio disso, povo falando com povo, costurando redes de luta, resistência e sobrevivência que caminha no underground. Essa política que nasce na rua e não nos palácios é a que nos cabe dialogar, ajudar a construir e visibilizar.

Na diáspora, muita gente confunde “ser contra Israel” com “ser a favor do regime que diz ser contra Israel”. A militância vira pombo correio que defende um Estado que persegue mulheres por um fio de cabelo e prende estudantes por uma frase. Do outro lado, a direita ocidental usa a denúncia dos abusos morais do regime para justificar bombas e sanções que esmagam os pobres. Enquanto a propaganda dos poderes destrói o direito do povo à vida, não construímos pauta nem coletividade concreta para criar uma contra-proposta com pautas concretas e contemporâneas a tudo.

Devemos olhar para a política na escala miúda e multifacetada: solidariedade autônoma, quando pessoas no Irã se reúnem “pela Palestina” fora dos roteiros oficiais. Organizar as lutas através da ética cotidiana: cuidado e proteção mútua. É nessa escala que a esquerda pode apoiar Gaza sem servir de biombo para a teocracia do Teerã, e enfrentar a Teocracia de Teerã sem servir de biombo para a “teocracia” de Washington.

Quando uma dissidente iraniana, perseguida e encarcerada, pede cessar-fogo e ajuda humanitária irrestrita para Gaza, ela mostra que a solidariedade pró-Palestina é radical justamente por não ser cúmplice de tirania teocrática. A voz não deve depender de passaporte estatal, divino ou monárquico estabelecido. O regime iraniano tenta capturar a causa palestina para limpar a própria ficha corrida, tentando vender como sionistas pró-EUA qualquer um que seja contra suas diretrizes. Deixa sem comunicação, mata por divergência religiosa, mata por diferenças de gênero, simplesmente mata. Ao invés de trazer o povo para si, isola-o enquanto aglutina as forças conservadoras ocidentais contra si.

É aqui que a crítica de esquerda precisa ser dura e clara: apoiar a Palestina não autoriza romantizar nenhum regime que reprime seus povos. A luta palestina é por autodeterminação e direito à vida. A luta iraniana, nas ruas e nas prisões, é pelo mesmo motivo. Quando a esquerda troca o povo pelo regime, ela se perde, sacrifica vidas concretas em nome de uma “necessidade histórica” e permite a naturalização de discursos conservadores como o retorno a uma monarquia em pleno século XXI. O futuro do Irã, demarcado pela força da guerra e por anos de repressão, é impossível de prever.

O caminho é complexo e passa por solidariedade popular organizada e fortalecer outra linha ética que não seja essa ética dos poderes constituídos (bem revelada nos Epstein files), com os pés no chão e a cabeça a frente. Cobrar cessar-fogo imediato e fim do massacre em Gaza, fim da ocupação e do apartheid, mas também dizer sem rodeio: não à guerra “sionista-americana” contra o Irã e não à teocracia iraniana. Não existe libertação a partir de mísseis, nem democracia entregue por troca de cadeiras.

A ação radical da esquerda, hoje, é tirar oxigênio político, narrativo e material dos poderes constituídos: pressionar por embargo de armas, boicote e desinvestimento do aparato de ocupação; construir, em sindicatos, movimentos de mulheres, movimentos culturais, universidades e territórios, redes de apoio direto a palestinos e às forças iranianas feministas e trabalhistas que enfrentam a repressão; financiar defesa jurídica, acolhimento, comunicação, tradução e cuidado mental ao povo que mais sofre com os danos da guerra, porque guerra atravessa o corpo e dura décadas.

Em vez de torcer por bombas como “atalho”, o retorno a monarquias caducas, ampliar as vozes das ruas, justamente aquelas que não tem espaço nas mídias ocidentais e que também estão silenciadas pelos poderes iranianos. Acolher e fortalecer as relações de vizinhança, greve, mutualismo, proteção mental. Sem propaganda, sem tutela, sem terceirizar a ética ou a solução para os grandes poderes globais, cujo principal foco não é o povo palestino ou iraniano.

Palestina livre. Irã livre. A esquerda precisa caber inteira nessa luta.

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Sob os olhos das ruas de Minnesota

Batem duas vezes. Abro, e um rosto familiar, sem precisar dizer nome, com pressa. Desta vez não são eles.

– Got sugar?

A pergunta é doméstica, quase imperceptível. É assim que a rua começa: pelo que falta no café. Pelo açúcar.

Do lado de fora, o frio diz a que veio. Crianças inventam um jogo qualquer: pulam linhas, erram e riem alto. Um carrinho de supermercado vira casa. Um homem passa com uma mochila, olha pros dois lados. Um ônibus freia. Os olhos da rua protegem.

– I’ll pay you back

– You’re good

You’re good é o tipo de coisa que sustenta um país construído por travessias. A pá encostada na parede já está pronta para limpar o gelo.

A rua fala por baixo. A rua fala por cima. Fala na janela. Fala na luz da cozinha que acende cedo demais. Fala no cachorro que late. Fala no som de uma porta de carro que bate. Fala no barulho do caminhão de lixo, enquanto os olhos observam.

Um tiro.

O açúcar cai pela última vez. E o mundo não é de ninguém: é do quarteirão. Ele é de uma língua que já misturou com outra, e agora fala a terceira. O sotaque não entrega a origem, entrega só o trabalho de quem acreditou na terra da liberdade. O rosto, em certos dias, vira invisível. Hoje é um desses dias em que o corpo estrangeiro cai, mesmo quando nasceu na esquina.

Do outro lado da rua, alguns olham pro céu. Tem um helicóptero longe. É estranho: de repente, o lugar dele tem alfândega e rede de caça. De repente, ele acordou estrangeiro dentro da própria casa.

As crianças cantam uma cantiga sem letra fixa. O refrão vem e volta, vem e volta. A rua aprende o refrão com elas. Hoje tem carro sem placa.

Frases voam. A rua é uma guerrilha de informação, passando de varanda em varanda, de portão em portão, até virar silêncio organizado.

O açúcar, caído, mas o pote permanece cheio de cotidiano. Quando a porta se fecha, a cidade sintoniza: um cuidado. Um rádio clandestino que só funciona porque ninguém tenta ser herói, só tenta não deixar nenhum vizinho sozinho.

A rua segue. E a notícia segue junto, grudada no ar, repetindo baixinho: hoje, olho aberto. Hoje, porta aberta.


Enquanto o mundo se foca na geopolítica dos grandes tabuleiros, há resistência na escala de vizinhança. A lógica do ICE parece transformar rua em fronteira, e vizinhança em zona de operação. Com aumento forte de ações federais de imigração na área de Minneapolis, e presença ostensiva de agentes, uma onda de protestos, paralisações e mobilizações que se espalharam para outras cidades dos EUA.

A anacronia dada é: como um país que se construiu pela imigração e pela promessa de liberdade passa a procurar um “ser essencial” que nunca existiu, como se pudesse purificar a própria origem em um norte-americano padrão?

O que se vê, então, é a fabricação do estrangeiro dentro do lar, o deslocamento íntimo imposto por política: como uma metamorfose kafkiana, você acorda estrangeiro na casa, mal quisto no país que usa sua força de trabalho. É por isso que o conflito em Minnesota não soa como tema local. quando a fronteira atravessa a cidade por dentro, o Estado deixa de ser caminho de diálogo, a resistência reorganiza a vida comum.

E é justamente aí que a escala de vizinhança rompe o feitiço: olho no olho, redes de solidariedade, cuidado, alerta. Em vez de esperar salvação institucional, gente comum organiza monitoramento, abrigo, transporte, apoio material, e chega ao limite tático de travar a economia, como no “blackout”/greve geral convocado para 23 de janeiro, com a palavra de ordem contra U.S. Immigration and Customs Enforcement ecoando em cartazes e cantos, ICE OUT.  

É política territorial no sentido mais profundo: os olhos da rua protegendo os seus, enquanto o poder tenta caçar pessoas como ratos. Fievel chegando a Nova York fugindo de pogrom, Ligeirinho correndo na beira da fronteira, Splinter ensinando sobrevivência nos esgotos de Manhattan, Stuart Little tentando caber numa família. O Mickey é só mais um. O sonho americano não é Disney.

desenho de autoria propria – 2018
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UE–Mercosul e o risco de esmagar a agricultura familiar

Quando o comércio corre mais rápido do que a justiça territorial, quem tropeça primeiro é quem pisa no barro.

Estrada

A enchente levou a estradinha de terra batida. No dia seguinte, o atravessador apareceu com o caminhão-baú e um papel na mão. “Sem esse documento, você não vende.” E, como diria Ana Castela, “acreditei que era herói, mas é bandido”.

No dia 9 de janeiro de 2026, o Conselho da União Europeia autorizou a assinatura do acordo UE–Mercosul. Para quem não acompanha: é um acordo de livre comércio que pretende reduzir tarifas e ampliar cotas entre os blocos, mexendo com o que cada lado vende e compra, principalmente agro e indústria. Visto do alto, parece diplomacia com elementos interessantes. No chão, porém, é disputa: preço, rota, contrato, e a terra rural voltando a ser peça do tabuleiro do capital.

Fresta


No Brasil, quem corre o risco de receber esse vendaval pela fresta é um ente imenso e pouco fotografado: a agricultura familiar. O Censo Agro de 2017 aponta mais de 10 milhões de pessoas ocupadas nisso e cerca de 23% do valor da produção vindo daí. Isso não é detalhe, é estrutura social de país. É renda circulando em cidade pequena e média, feira, caminhãozinho, escola rural, estrada de terra. É território respirando baixo, enquanto o agronegócio faz show com telão.

A primeira tensão nasce rápido. Se essa janela comercial aumentar o apetite por commodities, a terra encarece, o arrendamento endurece, a fronteira produtiva ganha força. O pequeno produtor, sem colchão financeiro, sentirá como água entrando pela soleira. A desigualdade no campo não chega com anúncio. Chega como “o preço do hectare”, “o vizinho vendeu”, “o atravessador apertou”. Chega como chuva que enlouqueceu, enchente onde era seca e, às vezes, sorrateira como tocaia de jagunço.

O Brasil traz uma notícia ambígua. Houve redução do desmatamento divulgada pelo PRODES. Respiro diante das tentativas de passar a boiada. Mas a economia que empurra o desmatamento é rede, e rede muda de humor com o mercado. Tem grilagem, licença duvidosa, legalidade convivendo e negociando com ilegalidade. E governança que evapora quando a renda da terra chama.

A Europa tenta colocar freio na própria fome de importação. A regra antidesmatamento exige diligência e rastreabilidade: produto “desmatamento zero”, legal, rastreável até a área de produção. Só que a própria UE vem adiando e revisando prazos porque sabe o peso operacional disso tudo. Agora imagine essa exigência aterrissando na América do Sul, onde o Estado muitas vezes chega tarde, e o atravessador chega cedo.

ESG não enche o prato

E aqui aparece a segunda tensão, silenciosa e cruel. Como fazer justiça ambiental num país que nunca pagou a dívida da reforma agrária? Rastreabilidade é necessária, sim. Eu não romantizo cadeia produtiva submersa, desenhada em Brasília nos gabinetes do agro. O problema é o Brasil real. O grande ajusta a exploração por compliance, como quem vive passeando de ponte aérea. O pequeno paga seu labor como quem compra botijão no desespero, no fim do mês. E quando não consegue, some da cadeia formal: vira refém de intermediário, vende mais barato, trabalha mais para sobrar menos. Quando vira marketing, “verde” vira barreira de entrada. O selo verde brilha, mas o prato do povo continua vazio.

Daí o paradoxo: a floresta em pé aparece como narrativa, mas quem entra decisivo no mercado global é quem já tinha estrutura, advogado, crédito barato e uma geografia montada a seu favor. Leia-se: latifúndio, lastro e poder.

Uma imagem simples, quase como se Jane Jacobs tivesse crescido no interior do Maranhão. Um satélite olha a Amazônia enquanto um homem olha a própria cerca. O satélite mede quilômetros quadrados. O homem mede dias de chuva, preço do adubo, a dívida do mês. Quando a política internacional só enxerga o satélite, atropela a escala da vida. Quando só enxerga a cerca, fere a escala da Mãe Terra. Falta olhar de chão, de dentro do território, e talvez principalmente de quem não tem nem satélite nem cerca.

Aqui já não cabe o maniqueísmo de vitrine que virou a política eleitoreira. Livre comércio versus protecionismo. Ambientalismo versus produção. O problema é a velocidade voraz do capital sobre a terra. O comércio corre, a governança territorial anda, e o pequeno produtor tenta pegar um trem que já saiu, carregando documento, nota fiscal e a esperança básica de não passar fome.

Contrapartida

Se a gente quiser falar sério de Sul Global, sem romantizar pobreza e sem engolir propaganda de “modernização” que sempre chega junto do capital, o papo é reto: como impedir que esse acordo vire motor de concentração territorial? Como evitar que o campo pobre e a floresta voltem a ser zona de sacrifício, agora com etiqueta reciclável e selo ESG?

A resposta, a meu ver, não é instagramável. É infraestrutura pública. Rastreabilidade precisa ser serviço público, cooperativo e territorializado: cadastro georreferenciado acessível, assistência técnica forte, cooperativas, consórcios municipais, plataformas de governança simples que virem prática campesina, não burocracia. Se o mundo exige geolocalização e diligência, o Estado precisa entregar ferramentas ao povo para isso não virar exclusão.

E aqui entra o urbanismo, no sentido mais político da palavra. A cidade consome sem ver a origem, especula a terra e terceiriza o custo social do alimento. A gente pega a carne no freezer e não vê o sangue vertido. Se a agricultura familiar é base social, ela não pode virar refém do humor do mercado externo ou de chantagem logística. CEASAs, mercados municipais, cozinhas públicas, logística curta. PNAE e PAA como programa de país, não apenas de governo. Escola pública e hospital público como compradores regulares de cooperativas e agricultores familiares, com contrato estável e rota planejada são alguns caminhos.

O UE–Mercosul é uma operação territorial transcontinental: gera valor, especulação e espalha impacto. E uma operação territorial deste porte exige contrapartida política. Uma contrapartida concreta possível para o Sul é criarmos um programa público que priorize a agricultura familiar, articulado a uma política urbana de alimentação do povo pobre. Sem contrapartida realmente popular, o acordo corre o risco de virar atalho para a riqueza passar correndo na sua lógica de extração, enquanto o pobre do campo fica no acostamento, vendo a vida se desfazer no pó da estradinha de terra batida.

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Praça Onze Maravilha: entre o fetiche e a captura

Dia da Consciência Negra. No palco de um evento tradicional do Estácio, a prefeitura escolheu um estranho roteiro simbólico: usar uma celebração da memória negra para lançar mais uma operação urbana. Batizada de “Praça Onze Maravilha”. O nome tenta acenar para a história; o conteúdo, porém, repete a velha fórmula da cidade-negócio.

Enquanto Porto Maravilha ainda patina com edifícios vazios, terrenos cercados e pouca vida cotidiana real, a prefeitura apresenta mais um experimento com o mesmo DNA: criar valor construtivo para operações imobiliárias, embrulhado em discurso de “revitalização” e “cultura”. A lógica é conhecida desde o Estatuto da Cidade: produz-se solo criado, vende-se potencial construtivo, atrai-se capital financeiro, promete-se urbanidade, mas esta nunca vem. Na prática, entrega-se um pacote de adensamento, edifícios inexpressivos e usos sazonais, desconectados da vida de quem sustenta aquele território, outrora esquecido, no dia a dia.

É importante lembrar onde estamos pisando. A área da antiga Praça Onze, berço do samba, território de negros, pobres, ciganos, imigrantes, já foi estraçalhada várias vezes em nome da “modernização” global do Rio. A Avenida Presidente Vargas demoliu casas e modos de vida inteiros. O viaduto 31 de Março aprofundou o rasgo social e urbano. O que antes era território de compartilhamento, festa, trabalho e moradia virou corredor de passagem rápida, cheio de vazios e cicatrizes. Agora, o projeto chega mais sofisticado: menos demolição direta, mais captura simbólica. Usa a cultura negra como cenário de fundo para abrir caminho a uma nova rodada de valorização fundiária voltada para os de cultura branca.

Dentro desse pacote, surgem dois equipamentos que, vistos isoladamente, me parecem potentes: a Biblioteca dos Saberes e o Centro Cultural Rio-Áfricas. São ideias que, em outros arranjos urbanísticos, podem fortalecer um verdadeiro direito à cidade, à memória e à produção de conhecimento a partir das periferias negras. Aqui, porém, surgem como âncoras de um tabuleiro imobiliário vazio de lógica inclusiva. Servem para dar verniz “afro” a um modelo que já conhecemos bem no Porto Maravilha: torres adensadas, arquiteturas genéricas, usos voltados para turismo, escritórios e moradia temporária, com pouco enraizamento comunitário. O projeto peca não apenas no processo econômico que o viabiliza, a própria lógica do projeto parece não compreender bem a dinâmica daquela região, sequer no seu apogeu funcional: o Carnaval.

À primeira vista, pode parecer que funciona. É uma região atravessada por megaeventos sazonais, shows, carnaval e desfiles na Sapucaí. O problema é justamente esse: a cidade-espetáculo encobre a cidade real da mesma forma que os camarotes não veem o que acontece embaixo do Balança mas não cai. A operação urbana não se pergunta o que acontece no Catumbi numa terça-feira chuvosa de março, quando não há bloco, não há show, não há turista, assim como o Viaduto 31 de Março também não perguntou. Não enfrenta as condições de moradia precária nos arredores, a informalidade do trabalho, o transporte caro e ineficiente, a dificuldade de acesso a serviços públicos básicos. Repete-se o que já aconteceu no Porto: milhões investidos no cenário, pouca transformação estrutural na vida de quem mora e trabalha por perto. E que loucura, com quilometros de praça criada ao longo do cais, resolvem inventar um parque em uma ilha artificial com uma entrada só. Saudades do velho Niemeyer que pensou ao menos que as estruturas do sambódromo abrigariam escolas públicas nos demais dias do ano.

A dinâmica social de formação do Rio segue exibindo suas feridas abertas. A cidade insiste em tratar seu espaço como ativo financeiro, não como infraestrutura de vida cidadã. Em vez de assumir a urbanidade: rua, praça, transporte, moradia digna, equipamentos públicos robustos como base concreta para reconstruir vínculos, a prefeitura aposta em mais uma operação que empilha metros quadrados vendáveis para uso de airbnb. A memória negra, a cultura popular e a história da Praça Onze aparecem como logomarca, não como sujeito político de decisão.

Criticar um projeto como o “Praça Onze Maravilha” não é ser contra cultura, nem contra novos equipamentos urbanos e arquitetonicos. É exigir que não se repita o ciclo em que a cidade negra é usada como palco, mas segue excluída da plateia e dos lucros. A Cury os lucros, aos povos negros a bala de fuzil, triste corolário desta cidade.

Pergunto-me honestamente: alguém debateu abertamente este projeto com os moradores da Rocinha, do Alemão, da Maré? descendentes diretos dos processos de exclusão e massacre desta cidade. Se a intenção fosse realmente construir um outro modelo, o ponto de partida seria ouvir e integrar quem já está ali e sua ancestralidade: blocos, terreiros, escolas de samba, moradores, trabalhadoras e trabalhadores que, há décadas, seguram o cotidiano que não sai na foto oficial.

Foi um evento bonito, fico grato pelo convite recebido, mas, em um evento onde a Arquitetura assumiu centralidade no debate de luta contra o massacre negro desde tempos escravagistas, é necessário que eu enquanto arquiteto tenha responsabilidade sobre o fazer e teça a crítica necessária para que o massacre não se repita no material e subjetivo. Ainda há tempo de fazer uma ação mais coerente e inclusiva, tendo como protagonista a necessidade real do nosso povo. Arquitetura e Urbanismo é escolha política, esta frase foi falada inclusive pelo vice-prefeito! E sobre isso complemento: escolha política têm cor, classe e território.

Tenhamos cuidado ou a Praça Onze seguirá como metáfora cruel: o lugar onde a cidade celebra a negritude no discurso e no fetiche, enquanto reorganiza o espaço para expulsá-la, mais uma vez, na prática material.

Masterplan da Praça Onze Maravilha

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Terra Arrasada: o espólio imobiliário das guerras

As duas frentes de conflitos armados do nosso tempo: Rússia vs Ucrânia e Israel vs Palestina, partilham uma engrenagem comum: a guerra converte solo habitado em tábula rasa, criando a oportunidade perfeita para que o capital entre, mapeie, loteie e venda. A assimetria de força militar é flagrante, A capacidade de resistir ucraniana sempre parece apontar para um momento impossível de segurar o contra-ataque, enquanto Palestina e Israel já pode ser assumido como um caso de genocídio disfarçado de narrativa de autodefesa. Mas há outra assimetria em vigor, a do espólio de guerra. Esta é a que mais interessa aos investidores: quem controla a ruína controla também o redesenho urbano do território. Em ambos os casos, o campo de batalha é precursor do canteiro de obras — e, muitas vezes, da corretora de imóveis. 

Na Ucrânia, a recente ofensiva de drones que incendiou parte da frota estratégica russa mostrou que a tecnologia barata pode ferir um gigante, porém, isso não muda o desnível estrutural de poder nem evita que os escombros do combate virem um ativo financeiro. Já se calcula um plano de reconstrução de US$ 524 bilhões, acompanhado de um sistema de capital sedento por rentabilidade e de consultorias que apresentam Kiev como mercado dinâmico. Paralelamente, mantém-se o debate sobre abrir o mercado de terras a estrangeiros, enquanto moradores de cidades ocupadas precisam adotar passaportes russos para não perder a moradia. Enquanto a guerra devasta; o mercado imobiliário global agradece.

Em Gaza e na Cisjordânia, o roteiro é similar. A devastação de bairros inteiros alimenta projetos que sonham erguer um Balneário Camboriu do Oriente Médio ou um Dubai neofuturista: Gaza 2035, construído acima de um vazio demográfico, um apagamento histórico que se traduz em anúncios nas redes que vendem casas sobre ruínas vivas. O custo estimado para reconstruir Gaza passa de US$ 50 bilhões, cifra que desperta tanto fundos soberanos quanto incorporadoras privadas, todos prontos para transformar luto em metro quadrado. Aqui, a tábula rasa é literal: degola a história para assentar resorts, data-centers para os GAFAM e empreendimentos verdes.

O padrão é nítido: onde o míssil abre crateras, o mercado financeiro abre terrenos férteis de rendimento. A terra arrasada vira contabilidade no sistema, a dor e morte se converte em lucros e dividendos, e o mapa se refaz sem aqueles que habitavam a terra. 

Assim, são pelo menos dois os níveis do massacre: o primeiro a limpeza étnica, territorial, comunitária e o segundo a transformação do solo criado em dinheiro para o vencedor. Este é o mesmo enfrentamento que acontece em escala local no tocando de uma ocupação sem teto. A ruptura desta engrenagem é dificílima, exige a retomada dos territórios pelos povos sobreviventes, a retomada do direito à memória e o não apagamento de seus modos de vida. 

É possível construir um modelo de habitação ou de engenharia que não precise passar pelo instrumento da guerra? Sim, é totalmente possível, já temos inúmeros exemplos construídos e estudos de caso. A relação entre guerras e construção não é condicional. Não precisamos de guerras para construir, mas a guerra sempre gerará como espólio o território conquistado e o direito a reescrever a história e geografia de um povo inteiro.

foto Zain JAAFAR / AFP, publicado no O GLOBO.

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Governança em Metrópoles: O Rio de Janeiro e uma Transição Possível para Redes Distribuídas

Este texto propõe uma pequena análise ensaística ou de opinião sobre a crise institucional enfrentada por metrópoles contemporâneas, com especial atenção ao caso do Rio de Janeiro. A partir das discussões em aula realizada no curso A inteligência do espaço-tempo e o stress global e da teoria desenvolvida por Robin Dunbar que fora citada, sugere-se aqui uma pequena reflexão acerca dos limites cognitivos e organizacionais que moldam a governança urbana. Ainda que não se trate de um modelo absoluto, a teoria de Dunbar oferece um ponto de partida relevante para pensarmos os desafios atuais de gestão em cidades de grande porte.

Robin Dunbar, antropólogo britânico, propôs que existe um número máximo de relações sociais estáveis que um indivíduo é capaz de manter é de aproximadamente 150 pessoas. Conhecido como “número de Dunbar”, esse limite marca o ponto em que formas de organização social baseadas apenas em vínculos informais e confiança direta tornam-se inviáveis. A partir desse ponto, a complexidade social crescente demandaria a construção de instituições formais para manter a coesão e a funcionalidade do grupo. Mesmo que não tomemos esse número como exato, ele nos permite levantar uma questão fundamental: todo sistema organizacional possui um limiar a partir do qual precisa se tornar mais sofisticado para manter sua capacidade de governança.

Assim, podemos sugerir que tais instituições formais atualmente conhecidas por nós também enfrentam limites operacionais. Diversos estudiosos apontam que, em populações acima de 1 a 10 milhões de habitantes, os custos de manutenção institucional tendem a superar os benefícios, gerando ineficiência, sobrecarga burocrática e vulnerabilidades estruturais. Nesse ponto, os sistemas entram em risco de disfunção, colapso ou rupturas sistêmicas.

Essa problemática se torna plausível no contexto do Rio de Janeiro. Com uma região metropolitana que ultrapassa os 13 milhões de habitantes, a cidade opera em um grau de complexidade que supera a capacidade adaptativa de suas instituições centralizadas, construídas sob lógicas administrativas do século XX. A excessiva centralização do poder decisório, aliada à fragmentação territorial, à assimetria de informações e à lentidão das respostas institucionais, compromete a eficácia das políticas públicas e alimenta uma crise permanente de governança.

Nas periferias urbanas, como favelas e comunidades autogeridas, observa-se a formação de sistemas sociais quase autônomos, ou dominados por outras estruturas de poder, muitas vezes desconectados ou mesmo em confronto com os canais formais de poder consituído. Esses territórios, diante da ausência do Estado ou de sua atuação precária, tornam-se espaços disputados por múltiplos atores, legais ou não, que passam a exercer formas locais de governança mais ágeis e eficientes em seu escopo limitado. A perda gradual de controle institucional sobre o território fluminense reflete, assim, tanto a falência administrativa, como um descompasso entre o desenho das instituições e a complexidade do tecido social contemporâneo.

Redes distribuídas como alternativa estrutural

A ciência dos sistemas complexos nos oferece uma alternativa teórica e prática a esse modelo centralizado. Inspirada em estruturas biológicas e tecnológicas informacionais, ela propõe a reorganização da governança em redes distribuídas, sistemas com múltiplos centros de decisão, autônomos, interconectados por fluxos contínuos de informação e orientados por protocolos colaborativos.

Essa proposta poderia ser sintetizada em três linhas (a princípio):

  1. Descentralização inteligente: por meio da criação de núcleos decisórios com autonomia territorial, como subprefeituras, associações locais e redes comunitárias. Esses núcleos seriam capazes de deliberar sobre questões específicas de seu território, comunicando suas decisões ao sistema mais amplo, sem a necessidade de submissão hierárquica. A descentralização, neste modelo, não implicaria a atual fragmentação vigente, mas uma reconfiguração organizativa a partir das redes.
  2. Inteligência coletiva: com o uso de plataformas digitais participativas para elaboração, monitoramento e fiscalização de políticas públicas. Esses espaços virtuais podem funcionar como canais de escuta contínua e construção colaborativa, onde a população contribui de maneira orgânica e descentralizada. A tecnologia atual já nos permite sistematizar essas contribuições de forma eficiente, acelerando os processos pré-deliberativos e fortalecendo a legitimidade popular das decisões.
  3. Adaptação em tempo real: a partir da incorporação de dados urbanos, sensores, algoritmos e inteligência artificial, é possível monitorar dinâmicas territoriais e redistribuir recursos públicos de forma responsiva e eficaz, acompanhando as variações reais da demanda nos diferentes bairros e regiões da metrópole. Um exemplo simples: uma mesma linha de ônibus poderia traçar uma rota diferente em determinados períodos como: dia e madrugada, em função do levantamento de demanda.

No caso do Rio de Janeiro, a adoção de um modelo de rede distribuída implicaria na reconversão de suas instituições executivas: elas deixariam de ser instâncias de comando centralizado tradicionais e passariam a funcionar como plataformas de articulação entre diferentes territórios. A administração pública atuaria como orquestradora de uma malha de redes locais, reconhecendo, fortalecendo e conectando as capacidades já existentes nas bases comunitárias. Iniciativas que hoje são tratadas como exceções ou soluções paliativas ou vozes retificadoras das políticas pensadas pelos poderes constituídos, como associações de moradores, mutirões urbanos e coletivos culturais, passariam a integrar a estrutura legítima de governança metropolitana como verdadeiras construtoras das políticas estruturantes da cidade.

O Rio de Janeiro encontra-se em um ponto crítico de inflexão. A insistência em modelos centralizados diante da complexidade crescente da metrópole não apenas limita a eficácia administrativa, como também representa uma ameaça à própria coesão urbana, cada vez mais frágil e tensionada pelos inúmeros poderes paralelos que conformam nosso território. A transição para uma governança distribuída, orientada pelos princípios da ciência dos sistemas complexos pode ser uma boa alternativa de saída. Ela oferece uma oportunidade para ressignificar o papel do Estado, potencializar o protagonismo cidadão e construir uma cidade mais adaptativa e democrática.

Pollock
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