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O Congresso contra o Povo

O conservadorismo acolheu e organizou os mais pobres. Isso precisa ser sempre lembrado com alguma honestidade. Ele ocupou vazios, criou pertencimento, deu escuta e destino para gente que muitas vezes encontrou na esquerda apenas contradições e uma espécie de superioridade moral desgastada. Até aí não há tanta novidade. Desde pelo menos 2014, o país vive esse deslocamento, e fingir que ele não existe apenas aprofunda o nosso erro.

O ponto novo, porém, é que esse conservadorismo deixou de ser apenas sentimento social e passou a operar como poder. Quando toca o Congresso, quando define quais pautas avançam, quais travam, quais vidas merecem acesso ao orçamento público e quais podem seguir no improviso e na fome, ele revela o Brasil que deseja construir. E esse Brasil, muitas vezes, é duro com quem já não aguenta mais.

Se a esquerda tem o presidente, o conservadorismo tem o congresso e opera com ele para ter espaço de poder e gestão. Não amigos, não vivemos um governo de esquerda, mas sim o governo que sempre vivemos, esse parlamentarismo presidencialista esquisito onde as forças precisam manter sempre um grau de negociação para se manter no poder.

Em qualquer periferia de cidade grande e em muitos recantos de cidades médias e pequenas, existe um País à parte, onde a fome ainda organiza o cotidiano. Lugares onde viver com menos de um salário mínimo é regra, e ganhar um salário mínimo já parece vitória. Nesses territórios, o Bolsa Família não pode ser tratado como abstração eleitoral e cabresto, ele se torna a única estrutura real de sobrevivência. Organiza a compra da vida, a comida da criança, o remédio, o que dá pra organizar e ainda falta. E infelizmente, seguirá organizando a vida enquanto o Brasil não tiver um sistema produtivo capaz de absorver sua própria força de trabalho com dignidade e mínimo direito à mobilidade social.

A escala 6×1, que no fundo funciona como um 7×0 disfarçado, soma-se à miséria salarial, ao transporte exaustivo, ao aluguel impossível enquanto crescem alphavilles e studios e à ausência de horizonte palpável. O resultado é uma massa gigantesca de vulnerabilidade e sem esperança. Gente que trabalha muito, ganha pouco, descansa mal, adoece cedo e quase nunca consegue transformar esforço em prazer de vida. O país cobra disciplina de quem vive no limite, mas oferece muito pouco além da sobrevivência, na verdade nem a sobrevivência o País oferece.

Esse é o ciclo vicioso profundo. Não se levanta uma Nação condenando sua população a correr em círculo até morrer. Um trabalhador exausto não empreende sua liberdade. Uma mãe que passa três horas por dia no transporte não consegue “qualificar-se” por milagre. Um jovem que entra cedo demais no trabalho precário perde escola. O Brasil fala em produtividade, mas organiza a vida popular para desperdiçar inteligência humana. Maio é um mês significativo para os trabalhadores de um País cuja cultura foi forjada no escravagismo. 

A saída, a meu ver, passa por muitas lutas, porém quero deixar escrito alguns recortes. Um deles, ela exige tratar política social como infraestrutura de sustento da Nação. O SUS, apesar de todos os problemas, mostra uma coisa fundamental: quando o Estado chega de forma capilarizada, em rede, ocupando território, fomentando formação profissional, e garantindo continuidade política, ele muda a vida concreta. O mesmo princípio precisa orientar outras partes da estrutura social: renda, trabalho, cuidado, educação técnica, mobilidade e produção. Não basta distribuir benefício via política pública e deixar o restante da vida entregue ao mercado ruim, ao ônibus caro, ao aluguel predatório e ao subemprego moedor de gente. É preciso construir uma rede pública de política de sustentação da vida, integrada no território, capaz de enxergar família, bairro, escola, posto de saúde, transporte, cultura e emprego como partes do mesmo problema.

Isso passa por uma política nacional de trabalho honesta e decente, incapaz de se formar neste congresso de legisladores de causa própria, defensores de coisas espúrias. Como pensar política com estes seres abjetos incapazes de enxergar o país além da própria fazenda? O que dizer com palavras bonitas e sinceras? 

Há nesse Congresso uma venalidade profunda, uma mistura de pusilanimidade ética e arrogância oligárquica, gente que se ajoelha diante dos donos da terra (quando não são os próprios donos), da bala e do dinheiro e se vende barato para doleiros e cafetões de luxo, mas endurece a voz contra quem vive de salário, de benefício, do bico e com dívida. São capatazes legislativos de um país velho, cortesãos do atraso, defensores de pactos iníquos e projetos predatórios, enquanto chamam de responsabilidade aquilo que, no fundo, é apenas crueldade organizada. Essa é a gente que vai caminhar pelas ruas do seu bairro fingindo que gostam de comer pastel com caldo de cana. A cara de nojo que fazem quando mordem um pastel, não é pelo pastel, é pelo nojo que sentem ao estarem perto demais da gente. 

Tem pavor de pautas como: Redução progressiva da jornada, valorização real do salário mínimo, expansão da educação profissional ligada às cadeias produtivas locais, crédito orientado para pequenos produtores. Esse governo se torna tão ignorante que sequer enxerga que estas são pautas de caráter liberal.  Mas ainda cito mais possibilidades para construir: cooperativas, economia do cuidado, indústria verde, construção civil pública, saneamento, reabilitação de moradias e infraestrutura urbana nas periferias. 

O país precisa enfrentar essas criaturas sem receio. Criar um projeto que nos possibilite fortalecer a produção de vida, gerar trabalho e descanso para as pessoas reais, e não apenas empurrar corpos pobres para a vala da história, como empurraram para o Oceano de Sangue, Kalunga Grande (aprendi esse termo lendo o artigo da Vivian Carla Garcia Ferreira aqui).

Aqui também, a técnica pública institucional não pode ser resumida à burocracia de gabinete que atende a esses poderes de forma acrítica. Ela precisa medir tempo de deslocamento, renda disponível, acesso a creche, saúde mental, custo da alimentação, informalidade, produtividade territorial e capacidade real de permanência das famílias em seus bairros.

Um projeto sério para o Brasil começará quando a vida popular deixar de ser tratada como resíduo. O pobre precisa de tempo, renda, cidade, descanso, formação, crédito, saúde, cultura e poder sobre o seu próprio território. Enquanto isso não acontecer, seguiremos discutindo moralidade no alto, enquanto embaixo o país real tenta decidir se compra comida, paga passagem ou continua entregue a qualquer destino.

A boa política é aquela que transforma sobrevivência em caminho real de futuro. Esta política a meu ver, deve transpassar esse congresso e se possível desferir o máximo de danos a parte desta máquina público-privada usada a benefício próprio dessa gente estranha que ocupa as câmaras de poder.

Autoria própria
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Quem é o conservadorismo que me lê?

Notei, com o tempo, que tenho amigos e leitores conservadores que gostam do que escrevo. Fico feliz por isso. Entendo como sinal de que ainda consigo me comunicar com as pessoas, embora eu mesmo tenha dificuldade de fazer isso na fala. Creio que há aí um gesto importante: se não sou capaz de me comunicar com quem pensa diferente de mim, então talvez eu não seja capaz de me comunicar de verdade. 

Mas quem seria esse brasileiro específico? Tenho algumas percepções sobre isso, e quero dar aqui uma pequena pincelada.

O brasileiro não é conservador por folclore, por essência moral, muito menos por algum desajuste cognitivo ou intelectual. Pensar assim é partir da arrogância para construir uma caricatura. Creio que o tempo o empurrou para isso pelo medo e pela sobrevivência. Medo de cair mais um degrau, medo de perder o pouco que tem, medo de ver o filho capturado pelo crime, medo de não conseguir pagar o gás, medo de adoecer e não ter atendimento, medo de envelhecer sem proteção.

O Brasil das últimas décadas produziu consumo, desejo rápido de ascensão e vitrines digitais de vencedores, mas não ofereceu a mesma firmeza em trabalho, tempo e horizonte de vida. Ao mesmo tempo em que prometia autonomia, foi desmontando proteções do trabalho. Naturalizou vínculos frágeis, pejotização, intermitência e plataformização. A precarização não caiu do céu, ela foi construída como projeto de poder. E qualquer olhar honesto para o mundo do trabalho hoje percebe o estrago que a reforma trabalhista de 2017 aprofundou, especialmente entre os mais jovens.

A ideia do sujeito como “CEO de si mesmo” não é só delírio neoliberal importado de palestra motivacional. Muitas vezes, ela funciona como remédio paliativo de existência. Quando o mundo do trabalho retira garantias, o imaginário tenta devolver alguma dignidade. O homem que sai cedo de casa, pega condução, vende bolo, roda de aplicativo, faz bico, sonha abrir um negócio, assiste vídeo de empreendedorismo entre uma correria e outra, não está necessariamente imitando o rico nem sonhando em virar milionário. Muitas vezes, está apenas tentando não desabar de vez. É uma forma de dizer a si mesmo que ainda conduz alguma coisa, mesmo quando quase tudo ao redor diz o contrário. Por que enfrentar um 6×1 para um patrão por um salário mínimo, se eu posso tentar encarar um 7×0 para mim mesmo? Por que entrar cedo numa CLT, se mal acredito que um dia vou me aposentar?

O problema é que esse imaginário, quando capturado, ilude. Troca os direitos pela performance, descanso pela culpa e senso de comunidade por competição aflorada. O trabalhador deixa de se entender como parte de um corpo social e passa a ser tratado como pequena empresa em guerra contra a exaustão. E isso piora num país de trabalho fortemente informal e desregrado. 

É nesse ponto que a extrema-direita entra com inteligência afetiva. Ela percebe uma coisa que parte do campo progressista seja a esquerda ou mais liberal esqueceu: ninguém vive só de argumento cientificamente correto. As pessoas querem ser vistas, ouvidas, nomeadas, acolhidas em sua dor e em sua luta. Querem sentir que alguém as escuta sem rir de sua fé, de sua vergonha, de seu desejo de subir na vida, de seu apego à família e de sua necessidade de alguma ordem no cotidiano.

O ultra-conservadorismo cresce porque oferece espaço de escuta e fala para esse sofrimento. Não oferece país, nem transformação de verdade, mas oferece disciplina, pertencimento, inimigo comum e explicação simples, independente da ciência. Em vez de enfrentar a precarização da vida, organiza o desamparo como linguagem moral, mas o principal: organiza o acolhimento. Acalme-se, algum dia sua bênção virá, estamos entre irmãos.

Porém, ele também cresce e muito, na incapacidade das forças progressistas retomarem pautas comuns e pétreas de bem estar do povo, por medo de conflitar com suas pautas de poder pelo poder, cargo pelo cargo. Se tornando uma força de molde moral para controlar os que estão sob seu  cercado.

Talvez o erro mais sério de muita gente progressista atual tenha sido olhar esse Brasil apenas como objeto de pedagogia, estudo e pesquisa, e não como sujeito portador de inteligência. Houve análise demais e escuta de menos. Houve articulação demais e imaginação de menos. Como se bastasse anunciar indicadores, políticas públicas e boa intenção para que um povo exausto voltasse a acreditar na vida coletiva. Oferecemos política sem reconstruir vínculo, pertencimento e horizonte.

Porém, o povo também quer viver o sensível. Quer sentir que a vida pode ter algum brilho para além da conta paga em atraso. O conservadorismo entendeu isso antes: ocupou o campo do desejo, mesmo que com uma promessa estreita e envelhecida de mundo. Vende uma resposta, embora na prática atue de outra forma, basta ver o Trump e os seus piores conflitos: as lutas internas norte-americanas.

A disputa econômica também é disputa de imaginário, de vida boa, de futuro bonito, de reconhecimento solidário. O próprio debate sobre a escala 6×1 mostra isso. Não se trata apenas de horas e produtividade, embora isso importe. Trata-se do direito elementar de não viver esmagado pelo trabalho. É erro achar que economizar é não gastar mais com trabalhador. 

Horas de trabalho excessivas e salário baixo demais também destrói produtividade, aumenta rotatividade e piora o próprio negócio. E antes que me chamem de comunistas, economistas liberais defendem esse conceito.

A saída, então, não está em zombar do Brasil profundo, nem em idealizá-lo, mas em reencontrar dentro dele o seu desejo legítimo de vida. Algo que só é possível na escuta singela, sem julgamentos e com interesse de aprendizado. Há uma potência cotidiana que segue viva no país real. Ela está no churrasco improvisado de fim de semana, no salão de beleza lotado, no campo de várzea, no piseiro ligado numa caixa de som colorida, na mãe que faz render o almoço, na vizinha que olha o filho da outra, na feira, na oficina, na calçada, no culto de domingo, no chá partilhado enquanto se pega sol à beira do rio, no barulho de gente simplesmente sendo gente apesar de tudo. 

Por isso a boniteza de Paulo Freire ainda importa, como recusa da feiura moral que foi sendo naturalizada entre nós. Uma vida boa não pode ser privilégio de condomínio, nem fantasia vendida em parcelas, nem heroísmo individual de quem aguenta a escala, o bico e a humilhação calado. Ela precisa reaparecer como direito de respirar, conviver, descansar, estudar, circular, festejar, criar filhos sem terror e envelhecer sem descarte. 

O Brasil não precisa ser salvo de si mesmo. Precisa voltar a se enxergar como povo super diverso, criativo, complexo e digno de mais do que mera sobrevivência. Quando esse povo se vê apenas como empresário precário da própria miséria, o país encolhe. Quando volta a se reconhecer como portador de memória, trabalho, inteligência, diversidade de pensamento e desejo de beleza, o país pode novamente começar a pensar o Brasil.

Neste sentido retorno ao início. Afinal, aprendo com as trocas honestas dos amigos conservadores que me lêem e não sentem medo ou vergonha de conversar comigo sobre temas diversos.

Desenho autoral 2026
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Arquitetura é um colo de avó: pequenas reflexões para a prática nacional

A primeira lembrança que me atravessa quando se fala em interiores não é um catálogo de decoração, mas a casa da minha avó. Ali, a vida tinha escala de 1×1: o corpo inteiro cabia entre o bordado da capinha do gás, a máquina de costura que se transformava em carro de fórmula 1, o quintal que era ao mesmo tempo o mundo inteiro e  cantinho de acolhimento. É dessa escala íntima, olho no olho, que eu via nascer a arquitetura. A arquitetura é um colo de avó, um bolo de laranja quentinho na mesa, um sol que entra na fresta da janela.

No Brasil, a profissão foi arrastada para um dilema: somos vistos ora como luxo e supérfluo, ora como engrenagem de projetos estatais grandiosos e inacabados. No meio, fica o vazio: a vida cotidiana do povo.

Essa fratura não é apenas cultural; ela é estrutural, econômica. Em poucas décadas, deixamos de ocupar um lugar estratégico dentro do projeto nacional de desenvolvimento e passamos a ser percebidos como caros e substituíveis. A armadilha, a meu ver se aprofundou quando a profissão centralizou-se na lógica do luxo como um caminho único. E isso não é necessariamente uma crítica implacável à arquitetura de luxo, que tem seu espaço de direito na sociedade atual. 

O luxo funciona como dispositivo de status e exclusividade: molda o gosto, define o que é belo e desejável, mas apenas para uma fração ínfima da sociedade. A classe média, que em países industrializados sustenta tanto o consumo quanto a cultura material da sociedade, no Brasil nunca se consolidou plenamente. E os pobres, que são maioria, só nos enxergam quando o Estado entra em seus territórios com grandes obras, remoções ou empreendimentos de impacto praticamente autoritário. Fora disso, a figura do arquiteto desaparece de seu horizonte de vida, diferente do médico por exemplo.

Essa ausência tem consequências devastadoras. Quando o cotidiano das famílias não reconhece o arquiteto como parte de sua economia; alguém que resolve problemas espaciais urgentes, que age na escala doméstica, comunitária, de vizinhança, a profissão se isola. E quando uma categoria se isola, perde relevância social e política. É sintomático que, enquanto o país vivia a explosão de consumo de carros e imóveis nos anos 2000, embalado pela ascensão de milhões ao consumo básico, nós não conseguimos nos inserir como serviço acessível para essa massa. Continuamos restritos a dois pólos já citados: o do luxo exclusivo e o do planejamento estatal de megaprojetos. Ambos distantes da vida real.

É nesse ponto que precisamos recuperar uma lição das escalas. Há a escala da família: o sofá da avó, o banheiro que falta em tantas casas brasileiras, o quartinho inacabado do filho o espaço íntimo que define dignidade. Há a escala da comunidade: a rua onde se joga bola, a praça onde se organiza uma festa, a rede de solidariedade que sustenta bairros inteiros. E há a escala da multidão e do estatal: os fluxos da cidade, os planos que estruturam mobilidade, habitação e saúde coletiva. Claro, não são escalas fechadas, longe de mim querer atravessar a cidade por apenas três recortes possíveis, apenas simplifico para fins de dar algum inicio de pensamento sobre o tema. 

O arquiteto, ou o estudante de arquitetura precisa ser capaz de transitar entre essas dimensões, sem perder de vista que elas se conectam como sistema, como ensinavam os pensadores que viam o espaço não apenas como território físico, mas como campo de cidadania, de luta, de afetos.

Se a economia brasileira gira em torno de estratégias de mega exclusão e certa inclusão controlada para evitar grandes turbas disruptivas, a arquitetura não pode se reduzir ser apenas vitrine da exclusividade. A profissão precisa se reorganizar a partir da vida real, da urgência, daquele que não pode esperar seis meses por um projeto para então começar uma obra. Nosso trabalho tem de ser mais ágil, mais enraizado, mais próximo do cotidiano da maioria. Não se trata de reduzir a qualidade ou o rigor técnico, mas de reinventar formas de inserção econômica laboral: organizações coletivas, solidárias, mutirões, cooperativismos, abertas a novas economias de escala que vão do mutirão à assistência técnica, do microempreendimento comunitário às tecnologias sociais, da carreira de estado à arquitetura liberal de atendimento popular.

Sem uma estratégia econômica que inclua de fato o povo, não haverá campo de trabalho sustentável para a arquitetura. E sem arquitetos presentes no cotidiano popular, não haverá cidade justa. Entre o sofá da avó e os grandes planos da nação, existe uma vasta zona de vida que precisa ser ocupada, praticamente um universo de cores que se assemelha a um quadro de Pollock. É ali que a arquitetura pode recuperar sua relevância. Não como luxo, não como burocracia estatal distante, mas como prática social que desenha futuro a partir do olho no olho, da escala humana, daquilo que funda a dignidade de viver.

Para tal, temos uma missão: compreender, técnica e cientificamente, onde estamos e para onde podemos ir. Isso começa pelo gesto simples de olhar ao redor: o bairro, a rua, a casa do vizinho que precisa de um banheiro digno. Jovens arquitetos podem se organizar em coletivos, experimentar formatos de cooperativas, oferecer serviços acessíveis de assistência técnica, participar de mutirões de construção, articular-se com movimentos sociais e comunidades. Outros podem se dedicar ao setor público, disputando políticas urbanas e habitacionais de forma crítica. Há também espaço para a inovação: explorar tecnologias sociais, novos materiais e soluções sustentáveis de baixo custo.

O ponto é não esperar pela grande encomenda ou pelo concurso distante; é começar nos interstícios, nos entremeios, nos lugares que parecem pequenos, mas que são o coração da vida real. É ali que a arquitetura renasce como prática social. Não precisamos reinventar tudo de uma vez, nem sermos reféns de ferramentas. Afinal não é a ferramenta que define o arquiteto, é o arquiteto que define a ferramenta que vai utilizar. Basta iniciar os processos, criar redes e caminhar juntos. A relevância virá quando conseguirmos estar presentes na escala da família, da comunidade e da multidão, com a coragem de projetar os afetos dos mais pobres. Ou estamos presentes na escala da vida real, ou seremos apenas designers do privilégio.

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Trump e tarifaço: o dólar como arma de guerra

meme reproduzido das redes de internet

Donald Trump tem um projeto: recentralizar os Estados Unidos no jogo global e decide fazê-lo por meio do conflito. Assim como o jovem que, ao jogar War se vê perdendo e simplesmente bagunça o tabuleiro todo, lembrando para os amigos que as peças do  jogo são dele. Assume o comércio mundial como uma arena de disputa por poder real onde, para ele, os EUA estão perdendo, apesar de serem os emissores da moeda lastro. A crítica de Trump ao sistema é profunda e não creio que seus cálculos sejam infantis. O que ele sabe é: independente das regras do jogo, ele tem a bola, o dólar e quem tem a bola define se a brincadeira é futebol ou vôlei ou, o mais provável, alguma brincadeira com regras inventadas por ele.

Por mais que para muitos soe uma prática antiquada de protecionismo, não o é. Trump explode uma subjetividade que responde ao americano de classe média estagnado na economia que a mesma não é um elemento neutral e estável. Enquanto, historicamente, trabalhadores vêm perdendo empregos, fábricas saem do país migrando para países mais estratégicos do sistema internacional e a infraestrutura se degrada. Lembremos aqui de Detroit, que em julho de 2013 decretou falência, se tornando a maior cidade dos EUA a fazer isso.  Enquanto isso, países asiáticos e europeus acumulam reservas em dólar, compram dívida americana e exportam seus produtos para os EUA com vantagens cambiais que, segundo Trump, jamais seriam aceitas se fosse o inverso.

O dólar, pilar da ordem financeira internacional, é ao mesmo tempo fonte de prestígio e fraqueza. Sua hegemonia faz com que os EUA possam se endividar à vontade e manter um aparato militar gigantesco. Assim, cria uma máquina de poder extremamente forte no mundo. Seu principal conflito, me parece ser contra o sistema financeiro internacional que mantém artificializada o valor de sua moeda para a boa operação do sistema especulativo global em detrimento do sistema produtivo industrial das nações.

A resposta de Trump a esse cenário é a ruptura, lhe interessa o impacto, sua política tarifária instrumentaliza o desequilíbrio monetário e produtivo global, força a valorização das moedas estrangeiras, força o reestudo de logísticas de produtos e de mudanças de sites industriais. Trump força o mundo a aceitar um dólar mais fraco sem que os EUA percam o privilégio da hegemonia da moeda.

Trump aposta no limiar do colapso, como mesa de negociação com o mundo. É uma estratégia de alto risco, flerta com crises globais e instabilidades duradouras. Mas, para ele, é melhor provocar o terremoto do que continuar enterrado sob os escombros de um sistema que já não serve aos interesses americanos (na sua visão).

Ao tentar reconstruir o jogo do poder a partir do abalo sísmico. Trump joga as fichas porque acredita que todos voltarão à mesa? talvez. Mas, dessa vez, com novas cartas e novas regras feitas por ele. Esse projeto se sustentará? Tudo depende de como as nações afetadas irão se articular na reorganização de seus mercados.

E até nisso a operação foi interessantemente sofisticada. As bruscas diferenças de tarifas colocam o mundo em duas disputas concomitantes: Países como o Brasil se tornam atrativos como um canteiro industrial, enquanto China e outros são hipertaxados.  Trump não racha o mundo em um Todos contra Trump, ele racha em uma disputa onde redefine a ordem das desigualdades entre as nações. Algumas subitamente ganham oportunidades atraentes enquanto outras sofrerão as sanções.

Seu plano é mais político do que econômico. Envolve diplomacia direta, bilateral, baseada na força, e disputas constantes. Trump traz o mundo para uma negociação olho no olho, país a país.. Para uns, exigirá compra de armas; para outros, que migrem fábricas para solo americano. Quem não aceitar suas condições, enfrentará tarifas, retaliações e, em último caso, o uso do poder militar como elemento de pressão. Este é o recrudescimento de um Estado de Guerra que ainda tem seu dinheiro, leia-se confiança de mercado, como lastro da economia global. O que nos parece loucura é apenas uma guerra em curso.

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O fim da CLT está só começando

No início da noite de um domingo chuvoso no Rio de Janeiro, deparo-me com a seguinte matéria:“prefiro sair. Pedidos de demissão batem recorde e já são quase 38% do total de dispensas” link ; Ainda junto a esta, li “Crianças demonizam CLT’: carteira assinada vira ofensa entre os jovens” link . Precisamos refletir sobre. 

O Brasil enfrenta um fenômeno crescente de evasão de trabalhadores do regime CLT, demonstrando uma tendência de recusa à exploração laboral tradicional. Explicações psicológicas individualizadas têm sido propostas, mas não respondem à complexidade da realidade. É importante considerar fatores estruturais e coletivos que moldam o desmonte das relações trabalhistas.

Desde 2016, o Brasil passou por reformas que enfraqueceram as leis previdenciárias, trabalhistas e sindicais, desmantelando proteções históricas não apenas dos trabalhadores, mas também dos empregadores, afinal, o sindicato é um instrumento legal de negociação dos dissensos entre as partes. Esse processo resultou em uma reorganização do mercado de trabalho, onde o vínculo formal perde atratividade tanto para quem contrata quanto para quem busca emprego. As empresas, ao promoverem a flexibilização, agora enfrentam dificuldades em atrair trabalhadores para posições formais, evidenciando uma contradição em suas próprias estratégias de mercado.

Devemos acender aqui um sinal amarelo. Tracemos um paralelo com a experiência africana, que oferece elementos valiosos para reflexão. Em muitas nações da África Subsaariana, a economia informal predomina, empregando entre 60% e 80% da força de trabalho e contribuindo significativamente para o PIB. Embora forneça meios de subsistência, essa informalidade está associada à ausência de proteção social e à hiper vulnerabilidade econômica. Em Gana, por exemplo, a criação da Union of Informal Workers Associations, refletiu a época, a urgência de construir estruturas representativas para os trabalhadores invisíveis, que sobrevivem à margem da formalidade.

Sem uma economia organizada em torno de uma estratégia de nação, os governos têm enorme dificuldade de promover melhorias significativas. O resultado é um ambiente que beira a barbárie, com conflitos civis mal resolvidos e lutas desesperadas pela sobrevivência, que muitas vezes culminam no êxodo de jovens e famílias inteiras para países europeus, em busca de um sonho vendido pelo capital, que não passa de miragem.

Nesse contexto, a promoção do autoempreendedorismo como resposta ao desemprego cria uma corrida solitária pelo ouro perdido. Indivíduos competem em um mercado saturado, sem direitos, proteções e seguridades do trabalho formal. Essa dinâmica resulta em instabilidade econômica e social, dificultando inclusive a implementação de políticas públicas estruturantes e a atração de novos investimentos para o país.

Necessidade de Reestruturação Sindical e Proteção Social

Para evitar um ciclo de precarização irreversível e o colapso, é essencial que o Brasil promova uma reforma sindical robusta, que fortaleça a representação dos trabalhadores e estimule negociações coletivas efetivas. Políticas que incentivem a formalização do trabalho, a construção de um sistema de bem-estar social e o desenvolvimento humano são importantes para garantir a estabilidade econômica e social. A experiência africana nos mostra que, embora a informalidade possa funcionar como rede de sobrevivência, ela limita qualquer projeto de crescimento inclusivo e sustentável. O empreendedorismo nem sempre traz dinheiro fácil, na maioria das vezes ele seduz porque entrega algum dinheiro rápido, mas que, por ser escasso e volátil, se dissipa sem deixar raízes para o futuro. “Dinheiro na mão é vendaval”.

O sindicalismo, por sua vez, precisará reaprender a caminhar sobre o novo solo das lutas. A luta dos precários atravessa outros territórios, físicos e virtuais, e exige novas formas de mobilização, para além da clássica negociação entre patrões e empregados. Precisamos mapear a nova geografia do trabalho e ocupar, com coragem e estratégia, os territórios por onde caminha.

O Brasil está em um ponto crítico, onde decisões sobre políticas trabalhistas e sindicais terão impactos duradouros. Aprender com as experiências de outras nações e reconhecer a importância de estruturas de proteção coletiva será vital para construir um campo de trabalho equilibrado. Se os campos que estão mais sentindo como: construção civil, um dos motores da economia do Brasil, não se atentarem a estas reais necessidades, o que veremos é a degradação que pode não ter volta. 

O Brasil está em uma encruzilhada histórica. As decisões que tomarmos sobre as relações de trabalho e o papel dos sindicatos impactarão significativamente o futuro do país. Se setores estratégicos, como a construção civil, um dos motores da economia nacional, não se atentarem à gravidade do cenário, presenciaremos uma degradação profunda e, talvez, irreversível.

Assim, precisamos alinhar o debate na direção que ele precisa ser tratado: o das lutas coletivas e relações de trabalho, e não o psicológico-social que faz parecer que os jovens estão iludidos, quando na verdade eles estão simplesmente pesando o seu preço real no mercado de trabalho. se eles não precisam neste momento se submeter a salários defasados, falta de direitos, jornadas exorbitantes como as 6×1, assédio moral, entre outros, eles estão certos em não ir trabalhar. O erro dos jovens está em não conseguirem se organizar coletivamente para enfrentar o vilipêndio que foi a destruição do fraco sistema de bem estar social do Brasil e esta é uma luta a qual gostaria de convocar com este texto. 

É preciso alinhar o debate ao que realmente está em jogo: as lutas coletivas e as relações de trabalho. Não podemos mais aceitar apenas análise psicológica que retrata os jovens como mimados ou iludidos por não aceitarem trabalho CLT. Eles estão, na verdade, fazendo um cálculo objetivo e subjetivo, embebidos da subjetividade do autoempreendedorismo, avaliam o custo de se submeter a jornadas abusivas, salários aviltantes, assédio moral e ausência de direitos. E estão certos em não aceitar esse jogo, vão arriscar enquanto são jovens o outro caminho que lhes é aberto pelo capital, a corrida do ouro perdido. O erro, se é que se pode chamar assim, está na falta de organização coletiva para enfrentar o saque sistemático ao que restava do já frágil sistema de proteção social brasileiro. Esta é a luta à qual este texto deseja convocar.

Para o mercado que achou que o desmonte seria o fim dos sindicatos só esqueceu de uma coisa básica: não são os sindicatos que constroem as lutas, são as lutas que constroem os sindicatos. O desmonte criará um sindicalismo diferente que poderá ser mais visceral e combativo diante do massacre popular.  

Ao mercado que acreditou que o desmonte selaria o fim dos sindicatos, um recado: esqueceram do fundamento! Não são os sindicatos que constroem as lutas; são as lutas que constroem os sindicatos. E quando o povo voltar às ruas, às redes e às praças, não vai ser de paletó e crachá, virá selvagem. Virá com fome, com raiva e com uma clareza feroz de que ou este país se reconstrói a partir do trabalhador, ou arderá em sua própria injustiça, e esta será a cara do sindicalismo. Sua nova forma, ainda não sabemos.

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Jovens Arquitetos e Futuro

Os jovens de hoje cresceram conectados. Acostumados com redes sociais, fóruns online, plataformas digitais e games em rede, pertencem a um mundo repleto de ferramentas que permitem organizar ações de forma rápida e articulações horizontalizadas. A arquitetura no entanto, ainda opera sob dinâmicas de mercado saturado , elitizado e atravessado por desigualdades estruturais. Recessão, machismo estrutural , desvalorização profissional e classismo são alguns dos enfrentamentos cotidianos de quem se forma no país.

Atualmente, o Brasil conta com mais de 200 mil arquitetos e urbanistas registrados no CAU/BR. Apesar desse crescimento, a falta de investimentos públicos e privados no setor da construção civil e a crise imobiliária, ausência de industrialização e de um plano nacional de habitação colocou a categoria e na verdade todo o campo da construção civil em um limbo. Cerca de 60% dos arquitetos brasileiros trabalham de forma autônoma , a maioria, enfrentando precarização e instabilidade. Para as mulheres, que representam a maioria entre os formados, a realidade é ainda mais árdua: desigualdade salarial , assédio e invisibilização profissional fazem parte do cotidiano. Em um mercado altamente elitizado, muitos desistem da carreira, migrando para áreas correlatas ou aceitando condições de trabalho precarizadas em qualquer área pra sobreviver.

Quando estudante, lembro-me de algumas táticas. Sem dinheiro para conhecer o mundo, desbravei-o nas bibliotecas da FAU. Lia em todos os meus tempos vagos, revistas, livros, artigos, teses. Porém não falarei sobre isso agora. Para este texto vou citar 3 documentos que me auxiliaram na auto-organização: o livro Manual do Arquiteto Descalço (aqui); o documento da FNA, na época da gestão Jeferson se não me engano, Manual de Defesa Pessoal do Jovem Arquiteto e Urbanista (aqui), e mais atualmente a Cartilha T.A.B.A. Trabalhadores Articulados em Benefício da Arquitetura (aqui).

A verdade dura é: minha geração já não via muito futuro na profissão, pois a forma estruturante dela é para poucos terem sucesso.

Apesar das enormes dificuldades deste porvir, os jovens de hoje têm à disposição ferramentas e práticas que podem revolucionar o campo da arquitetura, na verdade do trabalho. Redes sociais e plataformas digitais como Discord, Instagram e TikTok já estão sendo utilizadas para criar comunidades de troca e apoio . Diferentemente da minha geração, que utiliza essas ferramentas de forma mais expositiva, os mais jovens constroem nichos e espaços de diálogo muito próprios que desafiam a lógica tradicional. Para além do entretenimento, o que precisamos é otimizar estas ferramentas para articulação. 

Jovens Arquitetos podem utilizar esses espaços para compartilhar oportunidades de trabalho, oferecer ajuda técnica e podem divulgar projetos colaborativos em redes de interesse mútuo ou complementar. Um exemplo inspirador no Brasil é a rede Arquitetos pela Moradia , que conecta e articula profissionais e estudantes interessados ​​em Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS) . O grupo promove debates sobre políticas habitacionais, divulga editais e cursos, e fomenta projetos que impactam comunidades locais.

No âmbito internacional, iniciativas como o Open Architecture Collaborative (nascido do Architecture for Humanity), nos Estados Unidos, demonstram o poder do trabalho coletivo. Esse grupo cria projetos de impacto social em áreas vulneráveis, promovendo soluções de habitação e infraestrutura. Na Colômbia, o MU Micro Urbanismo em Bogotá realiza intervenções urbanas táticas em comunidades periféricas, promovendo a transformação de espaços públicos negligenciados.

Esses exemplos mostram que, em contextos de crise, a organização coletiva pode ser uma ferramenta poderosa de transformação econômica e social. No Brasil, movimentos autogeridos como mutirões, cooperativas, coletivos culturais e coletivos de assistência técnica e melhorias habitacionais, assim como coletivos de jovens arquitetos realizando diversas entradas de trabalho e experimentações podem propor um novo paradigma para a arquitetura.

Táticas de Ação: Como Começamos um Coletivo de Arquitetura?

  1. Forme o Grupo
    • Identifique colegas com interesses em comum. Um coletivo pequeno e bem alinhado é mais eficaz do que grupos dispersos. Não precisam ser necessariamente arquitetos.
  2. Organizar Grupos de Estudo
    • Utilize bibliotecas públicas, materiais online e promova rodas de debate. Estude além da sala de aula para entender como aplicar o conhecimento na realidade local.
  3. Crie uma Rede Digital
    • Use plataformas como Discord, telegram ou WhatsApp para organizar canais dedicados a oportunidades de trabalho, compartilhamento de materiais e discussões sobre temas de interesse global e local: justiça ambiental, urbanismo sustentável, crise climática e assistência técnica, por exemplo.
    • Um coletivo deve possuir uma agenda ativa de ações. Rodas de conversa, grupos de estudo, cineclubismo, oficinas de experimentação e projetos utópicos, estudos de estética, estudos políticos, entre outros.
  4. Mapeie Demandas Locais
    • Identificar espaços públicos ou habitacionais que necessitem de intervenção. Use ferramentas como o Google Earth para mapear condições e criar um portfólio. Conheça sua vizinhança, caminhe e identifique os problemas, produza documentos pessoais, compreenda a economia que gira em torno da construção de uma casa popular periférica.
  5. Busque Apoio e Financiamento
    • Articule-se para, quando apresentar o portfólio e a proposta de impacto social do coletivo, ter capacidade de pleitear recursos.
    • Auxiliar ONGs, Cooperativas, associações de moradores ou coletivos a realizar ações de melhorias. Disputar editais, organizar-se para acompanhar metodologicamente os instrumentos de fomento, assim como captar recursos via ferramentas de doação colaborativa. 
  6. Realize Projetos Colaborativos
    • Comece pequeno: revitalizar uma calçada, criar mobiliário urbano sustentável ou promover oficinas de educação ambiental, de estudo do lugar, de memórias afetivas.

A formação em arquitetura nos capacita com habilidades que vão além de projetos e obras. Cito alguns que considero interessantes. O olhar generalista e multidisciplinar, que comunga técnicas exatas, artes e ciências sociais aplicadas, nos dá flexibilidade para atuar em outros campos de trabalho. A capacidade de análise sistêmica é altamente valorizada em setores como gestão de projetos , consultoria estratégica e inovação tecnológica . A habilidade criativa nos conecta a áreas como design de serviços e publicidade, além de áreas que exigem soluções inovadoras para problemas. 

O equilíbrio entre conhecimentos técnicos e sociais também permite que arquitetos transitem por áreas como políticas públicas , consultoria ambiental e empreendedorismo social. Assim, apesar da recessão, um bom preparo pode nos levar a algumas possibilidades que ampliam o horizonte de atuação e mostram que a formação em arquitetura apesar de não ser o principal elemento, se torna um ativo importante.

Estudar é um Ato Político

Lembro-me de uma frase que se lia num banheiro público e que sempre ouvi nos tempos de FAU: “Não deixe a faculdade atrapalhar seus estudos”. Estudar, no sentido amplo, vai além das aulas e exige esforço ativo. Quando jovens arquitetos se reúnem para aprender juntos, estão resistindo a um modelo de educação que prioriza a competitividade em detrimento da colaboração. Círculos de estudo livres podem ser sementes de movimentos maiores, assim como os cafés modernistas ou os escritórios brutalistas um dia o foram. Teoria e prática não andam separadas.

Em uma economia de recessão, a utopia também é panfleto. Muitos movimentos da Arquitetura se organizaram a partir de projetos panfletos, de produção de ideias, narrativas, discursos utópicos, experimentações teóricas. Cidades futuristas do Archigram ou o Cenotáfio de Newton de Boullée, são exemplos interessantes de arquiteturas sem sombra. Curioso, usei o termo panfleto alguns dias após tê-lo criticado em dois textos anteriores sobre organização política. Mas aqui cabe.

Conclusão

A arquitetura nunca foi apenas sobre construir prédios. Os desafios do mercado brasileiro são reais, mas as oportunidades para transformar a profissão também. A recessão constante e a desvalorização nos mostram que o modelo está muito equivocado. Nosso esforço atual precisa caminhar para a transformação do campo de trabalho, é um esforço que exigirá a emancipação da profissão e o realinhamento dela com as necessidades do Brasil Real.  Ao organizar-se, estudar juntos, criar redes, elos e cooperativismos e agir coletivamente, jovens arquitetos podem criar algo novo, redefinindo o papel da arquitetura na sociedade. Fica como um pequeno convite à ação. 

archigram cities: veja aqui

@rodrigobertame

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Contradições, Delírios e Utopias. A Política Precisa Escutar as Margens

“Sou negra, lésbica, toco na noite e não vou votar no candidato de vocês. Quero que me expliquem o porquê.” Uma jovem abruptamente pegou um panfleto das nossas mãos e lançou esta frase. Lembro-me até hoje da campanha eleitoral. Distribuíamos panfletos para uma eleição onde Marcelo Freixo (candidato pelo PSOL) disputava a prefeitura contra Crivella (representante da Igreja Universal), no pólo gastronômico de Vista Alegre.

Parece estonteante, à primeira vista. A militância, embebida em suas certezas e métodos, não está habituada a lidar com contradições tão explícitas. No lugar de argumentos automáticos, optamos por simplesmente sentar e ouvir. “Me explique você o porquê”, dissemos.

A jovem, negra, lésbica e música da noite, frequentava ativamente uma igreja batista onde encontrou acolhimento e pertencimento. Para ela, a fé, diferente do que muitos imaginam, nunca foi fonte de intolerância ou desrespeito. Pelo contrário, foi ali que encontrou segurança e aceitação. Quem conhece o cristianismo evangélico sabe de suas múltiplas expressões, das mais acolhedoras às mais excludentes e intolerantes.

Escutar a jovem, genuinamente e sem julgamentos, foi nosso maior ato revolucionário naquele momento.

Ao final, ela compreendeu que Crivella, representante de um modelo institucional da Universal, não representava os valores da Igreja Batista que a acolhia. Nós, por outro lado,compreendemos que há mais profundidade diante das relações singulares do que supõe os cânones vermelhos.

Identidades e Fluxos: contradições no caminho das militâncias

Essa contradição não é um caso isolado. Nas periferias, onde as múltiplas crises da vida se entrelaçam, identidades rígidas não sustentam a complexidade da existência. Recentemente, li um texto de blog do Emilio Bazan Sanchez (link aqui) que questionava: Estamos limitando o potencial humano ao dividir a vida em caixas organizadas? Ele sugeria que uma visão mais fluida das identidades pode abrir possibilidades de crescimento individual e social.

Pensadores já vislumbravam essa fluidez. Beauvoir, ao dizer “não se nasce mulher, torna-se”, indicava a mutabilidade de quem somos e a forma como as definições são construídas socialmente. Deleuze, numa alegoria que gosto, agenciava um cavalo de carroça ao boi de carga, distanciando-o do cavalo de corrida. O que importa para a turma de 68, é o processo contínuo, o devir e não um estado fixo, essência divina, casta.

Contudo, no mundo real, essa fluidez encontra resistência. O ser humano busca conforto nas caixinhas organizativas. Políticas públicas, por exemplo, precisam categorizar e padronizar para alcançar resultados concretos. Estruturamos nossa vida social a partir destes limites. Porém, ao cristalizar identidades, excluímos uma enormidade de pessoas que não se enquadram na escritura de significados da identidade. Na vida real, transitamos simultaneamente por diversos papeis: colegas, pais, amigos, vizinhos, trabalhadores, para cada papel há um jeito de perceber e vivenciar nossa identidade. Somos fluxos, redes em constante mutação. Como acolher as contradições sem perder o sentido de coletividade? Como agenciar as singularidades em identidades e complexidades ao mesmo tempo?

Para superar as crises do nosso tempo, precisamos encarar as contradições de frente, quiçá mergulhar nelas. Como integrar os desencaixados de nossos “sonhos tão mesquinhos” de revolução? Afinal, é utópico pensar em justiça para as minorias enquanto não conseguimos escutar sequer as demandas de uma jovem negra, lésbica e evangélica.

A militância de esquerda, historicamente centrada em organizações, categorias e bandeiras, precisa reconhecer que antigas estratégias já não dialogam com a complexidade contemporânea. Urge construir ações que acolham contradições e singularidades. Isso exige escuta ativa, valorização da pluralidade, integração com o divergente e, acima de tudo, ações práticas.

Reconhecer que expressões culturais, mesmo aparentemente contrárias às nossas crenças, têm valor social intrínseco e podem ser pontos de conexão entre os explorados. Devemos permitir que os povos periféricos articulem suas demandas sem o paternalismo de quem dita as pautas, inclusive as nossas pautas. É essencial construir alianças verdadeiras, abertas e ampliadas, mesmo que não caibam em categorias pré-definidas.

Ressignificar o Acolhimento: um novo caminho para a revolução

O reacionarismo sabe usar o conceito de “pátria” como uma quimera de unidade popular, vendendo um passado irreal como futuro paraíso perdido. A esquerda, muitas vezes, cai na mesma armadilha, trocando apenas a cor da moeda. Ressignificar o acolhimento, a meu ver, é nosso desafio. Não se trata de apenas reagir ao conservadorismo, mas de inspirar esperança concreta, conectando sonhos coletivos às condições reais de quem vive às margens. Criar um novo desejo não é simples, eu sei, mas precisamos dar o primeiro risco no papel.

Um devaneio: um jovem ambientalista evangélico que mora em uma casa ribeirinha. Ele está mais próximo da realidade sofrida dos povos originários do que de uma liderança rica de uma mercoigreja. Sua identidade coletiva, para a esquerda, pode ser a de um ribeirinho. Mas, para ele, talvez seja mais importante ser um profeta de Deus em sua rua. Ignorar essa contradição e esse jovem é cair num dualismo que nos isola.

Entre Martin Luther King e Silas Malafaia, há um abismo ético. Há uma contradição histórica entre Abdias do Nascimento e o Integralismo. São nesses espaços tensionados que a complexidade humana se revela, e desde algum tempo, são nestes espaços de tensões que prefiro caminhar politicamente. Entendo que a militância precisa agir nessas margens, navegando as crises lendo as letras miúdas que ninguém quer ler.

Como ensinou Zaratustra: “Por variados caminhos e de várias maneiras cheguei à minha verdade.” O futuro exige que atravessemos as identidades como fluxos, redes e elos. Não importa tanto quem somos, mas quem podemos ser com as ferramentas que temos disponíveis.

Navegar bem na crise não é apenas sobreviver. É criar, acolher e construir um lugar mais humano, onde as contradições se tornem pontes. Esse lugar não estará pré-definido em nossas bandeiras nem será o resultado de sonhos fixos em um passado quimérico. Creio que este lugar será construído por um mosaico de vidas que ousaram não temer o outro, o diferente, o divergente, o desajustado. Vidas pobres, e pensem, ainda assim não é simples compreender a pobreza, afinal temos muitas gradações e escalas de pobres, cada qual com um universo girando em suas singularidades enquanto são explorados pelas máquinas de moer corpos. Porém, se não fazemos parte dos 1% que controlam o mundo, somos todos parte de uma ralé que precisa encontrar novas formas de sonhar e novos mundos para construir dentro deste mesmo mundo.

Foto: Solen Mourlon/MSF – original: https://www.msf.org.br/noticias/por-que-a-crise-climatica-e-tambem-uma-crise-humanitaria-e-de-saude/

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De onde surgiu Rick Azevedo? O drible do trabalhador no enfrentamento do 6×1

De onde surgiu Rick Azevedo? Essa pergunta tem ecoado entre certa parte dos pensadores da esquerda carioca. Confesso que também conheço pouco sobre ele, mas já o considero um nome promissor. A expressiva votação que o candidato do PSOL alcançou nos diz muito sobre a invisibilidade do trabalhador pobre diante do sistema político brasileiro.

Há dois pontos essenciais que gostaria de destacar. Primeiro, Rick foi direto e incisivo em uma análise crucial: diante da precarização, não basta resiliência; é preciso disputar espaço. Esse é o recado do “6×1”, um sinal de uma luta popular real. Engana-se quem pensa que essa pauta é restrita a celetistas ou trabalhadores com contrato formal; ela representa todos aqueles que, frente à precarização de suas vidas, precisam estar disponíveis para o mercado, 24 horas por dia, sete dias por semana, para sobreviver.

O que quero dizer com empregabilidade? Quando falo em “empregabilidade”, refiro-me não apenas à exigência de estar sempre “pronto para uso” no mercado, sempre competitivo e adaptado às transformações econômicas, tecnológicas e sociais. É a pressão para ser “empregável” em qualquer situação, diferentemente de um emprego, que é uma ocupação formal e estável. Empregabilidade abrange o trabalho informal, o bico, o subemprego, e principalmente o desemprego, todos os sistemas onde o trabalhador vende sua força na esperança de um retorno que talvez nunca venha.

Assim, a jornada “6×1” vai muito além de um acordo para celetistas. É a rotina dos entregadores, motoristas de Uber, microempreendedores (MEIs) e todo tipo de trabalhador que não consegue, em 40 horas semanais, garantir o básico para viver. Enquanto a Europa experimenta e disputa jornadas reduzidas, como o modelo “4×3”, que permite mais equilíbrio entre trabalho e vida, o Brasil segue pelo caminho oposto, abraçando uma lógica de exploração que mantém a mão de obra barata e a pobreza crônica, favorecendo a hiperexploração. E essa realidade só se aplica à gigantesca massa de pobres, sem heranças ou privilégios, cujas vidas são devoradas por um mercado que exige sempre mais e oferece cada vez menos.

O segundo ponto essencial é a coerência das ações de Rick. Ele é o “desconhecido mais conhecido” que já vi, e sua trajetória expõe a crise de desconexão da esquerda carioca – e talvez nacional. Seu impacto eleitoral não se limita aos corredores da esquerda. Rick caminhou por onde muitos formuladores e líderes da esquerda já não passam: as filas de trens, os pontos de ônibus, as ruas da Baixada Fluminense, os subúrbios, o duro solo do trabalhador carioca e fluminense. Ele foi ao encontro do trabalhador, do desempregado, do pobre, aquele que ele efetivamente busca representar.

Rick faz uma crítica necessária e contundente ao sistema sindical, num momento em que o próprio governo federal, que deveria carregar as bandeiras do trabalhismo e sindicalismo, se curva diante da correlação desfavorável de forças e tem de negociar com um parlamento que empurra os trabalhadores para novas formas de exploração. E, ironicamente, é o mesmo governo que, ao optar por um ajuste fiscal, ameaça o Sistema Único de Saúde (SUS) em um contexto onde até a saúde privada se torna precária para o trabalhador médio.

Rick Azevedo se apresenta como uma força emergente, uma representação autêntica da luta contemporânea pelo trabalho no contexto carioca. Ele pode simbolizar uma esperança para a reconstrução do pensamento trabalhista e sindical e para o próprio PSOL. Que o ímpeto de suas pautas permaneça forte em sua atuação como parlamentar, este será seu novo desafio, manter-se firme às pautas que o levaram ao cargo no legislativo. Ver essa chama acesa no PSOL é inspirador. Essa bolha furada prova que ainda é possível lutar de verdade, basta ter coragem.

imagem de divulgação do próprio vereador
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Policrise e desigualdade social: emergência de uma politica global complexa

Lendo o relatório “Global Economic Prospects – June 2024”. Ele revela os desafios econômicos globais e a crescente disparidade entre economias desenvolvidas e em desenvolvimento, destacando a necessidade urgente de uma abordagem coordenada e inclusiva para reduzir as desigualdades econômicas e sociais que se aprofundaram após a pandemia de COVID-19. O relatório aponta que o crescimento global projetado de 2,6% para 2024 demonstra um ritmo insuficiente para transformar significativamente as condições de vida em muitos países em desenvolvimento. Essa diferença acentua as dificuldades enfrentadas pelas economias pobres, que, apesar de abrigarem a maior parte da população mundial, encontram barreiras para atingir um desenvolvimento econômico sustentável, mantendo a desigualdade historicamente parametrizada.

A persistência das desigualdades é notável, com quase metade dos países em desenvolvimento sem perspectivas de reduzir a disparidade de renda em relação às economias avançadas até 2024. Essa situação reforça o constante ciclo de pobreza e dificulta investimentos em setores essenciais, como saúde, educação e infraestrutura, que são fundamentais para o desenvolvimento humano e a melhoria da qualidade de vida. Em meio a isso, é importante enfatizar o papel do investimento público como um motor de crescimento e inclusão econômica, especialmente em países pobres, onde a infraestrutura básica ainda é uma necessidade que precisa ser universalizada. No entanto, a eficácia desses investimentos esbarra na falta de uma gestão pública eficiente e transparente, algo comum nas economias mais vulneráveis, onde a má alocação de recursos, disputas ideológicas sem planejamento e a busca do poder pelo poder perpetuam o status de subdesenvolvimento.

Adicionalmente, vemos no mundo de hoje uma vulnerabilidade em redes de muitas entradas, desde pequenos estados e economias em conflito até povos que enfrentam desastres naturais cada vez mais frequentes, fruto das mudanças climáticas, além do surgimento de ciclos de pobreza e de crises endêmicas cada vez mais recorrentes.

O conceito de policrise surge como um destaque interessante, apontando que essas crises não devem mais ser lidas de forma isolada, mas, ao contrário, se entrelaçam, gerando efeitos multiplicadores que evidenciam e potencializam a vulnerabilidade dos sistemas globais. Esse entendimento sistêmico é essencial para lidar com crises que se reforçam mutuamente, como a pandemia, as guerras e as mudanças climáticas, que, ao interagirem, amplificam problemas como a inflação global, a insegurança alimentar e a instabilidade geopolítica.

Os mecanismos sistêmicos contemporâneos demonstram como uma crise pode desencadear outras em uma sequência que foge ao controle, criando ciclos de deterioração coletiva. Diante disso, as respostas tradicionais de política, focadas em problemas isolados e em uma visão especializada, são insuficientes para lidar com a profundidade e a complexidade das crises atuais.

Para piorar, cerca de 40% dos estados pobres estão sob elevado risco de crise de dívida, limitando suas capacidades de investir em áreas críticas. A situação desses países evidencia a necessidade de apoio internacional, tanto para garantir a estabilidade financeira quanto para fortalecer sua adaptação às mudanças enfrentadas pelo planeta. Nesse contexto, a cooperação internacional deveria assumir a responsabilidade de mitigar desigualdades, promover a transição para uma economia mais verde e digital e reforçar a segurança alimentar como um direito à dignidade humana e à vida. No entanto, as tensões geopolíticas e a fragmentação das políticas comerciais dificultam a implementação de uma agenda global colaborativa. Resumindo: diante de momentos de crise, uma parte gigante dos poderes globais age como: “se o peixe é pouco, meu pirão primeiro”. Um entendimento tolo que não percebe que o problema do outro também é um problema nosso.

Sugerimos a urgência de políticas de longo prazo que priorizem a inclusão social, a redução da pobreza e o desenvolvimento sustentável para alcançar um crescimento mais equitativo. Esse é um sonho de inúmeros intelectuais, políticos sérios e agentes diversos no planeta. Um diferencial diante disso é que as políticas precisam considerar a interconectividade das crises e buscar soluções integradas, abordando simultaneamente todas as vulnerabilidades dos sistemas globais. Isso significa, por exemplo, que a formulação de políticas climáticas, além de mitigar emissões, precisa ser capaz de enfrentar os impactos sociais e econômicos das mudanças climáticas. A insistência em soluções fragmentadas tende a perpetuar ciclos de crises mal resolvidas, levando à repetição de problemas em uma escala e intensidade cada vez maiores.

Quando pensamos nas políticas de redes complexas como uma possibilidade de resposta à crise, podemos considerar que essas políticas representam um caminho para lidar com os muitos problemas contemporâneos, propondo uma governança que considere as múltiplas camadas de desafios. Integrar diferentes frentes de ação e fomentar uma cooperação mais ampla entre nações pode ser uma chave para atenuar os impactos das crises e construir uma base de resposta global. Assim, a reflexão que surge é: como estruturar políticas de redes complexas que sejam efetivas em um cenário de incerteza e fragmentação global? A resposta a essa questão não parece simples, mas pode delinear o futuro das relações internacionais e do desenvolvimento econômico sustentável, buscando um equilíbrio entre progresso e inclusão social em um mundo cada vez mais interconectado.

Foto-montagem: Zeca Pagodinho discursando sobrea vida na ONU.
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Do Lamento da Ciência Solitária ao Êxtase do Abraço Coletivo

Tomo a liberdade de remixar um termo citado por Darcy Ribeiro em uma entrevista para refletir sobre a ciência e seu papel na sociedade. A ciência enfraquece quando se torna o território dos “cavalos de santo” da intelectualidade.

O campo acadêmico e científico é um dos pilares mais promissores da estrutura social contemporânea. Talvez o melhor investimento que a humanidade possa fazer esteja naqueles que se dedicam à experimentação, à pesquisa e ao desenvolvimento. Esses indivíduos arriscam-se no terreno das hipóteses, buscando inovações que transformam o mundo. Contudo, esse campo encontra-se hoje estruturado sob uma lógica de exploração e alienação, refletindo a organização de todo o sistema econômico. Se antes reverenciávamos a intelectualidade, como quem presta tributo a uma divindade, hoje nos deparamos com cientistas altamente precarizados, dedicando praticamente 24 horas por dia a seus projetos, enquanto enfrentam depressão, burnout e crises financeiras.

A realidade é dura: sem desmerecer outras profissões, eu, Rodrigo, com meu diploma de técnico em elétrica, consigo um emprego com um salário superior ao de uma bolsa de doutorado, e de forma relativamente confortável.

No entanto, não pretendo me aprofundar aqui na crise material, pois ela caminha ao lado de outra, ainda mais complexa e subjetiva. Um paradoxo emerge: a ciência e a produção de conhecimento são, por natureza, processos coletivos, contínuos e sem fronteiras. Contudo, o exercício científico, quando organizado como um sistema de produção formal, tornou-se altamente competitivo, individualista e solitário.

As publicações científicas, hoje, perecem ao valorizar mais o rigor da formatação, a citação de autores consagrados e a quantidade de títulos acadêmicos do que os resultados verdadeiramente inovadores e de impacto social relevante. Esses artigos são revisados por pares, em processos lentos e custosos, que muitas vezes limitam o acesso aos próprios resultados da pesquisa. A ciência se perdeu naquilo que criticava: tornou-se hermética, o território de poucos iluminados. A quantidade vale mais que a qualidade, e o furto de trabalhos, ideias e dados é uma constante, um verdadeiro campo minado. A ciência, que deveria ser um empreendimento coletivo, compartilhado entre aqueles que se dedicam ao seu avanço, foi reduzida a uma luta solitária por financiamento e reconhecimento. Nesse contexto, muitas vezes falta a abertura para o diálogo e a colaboração entre pares, assim como a coragem para assumir riscos e explorar caminhos menos convencionais.

autoria própria: Stephen Hawking e o Pequeno Príncipe conversando sobre o universo

Produzir conhecimento, por sua vez, é algo que fazemos continuamente. O maior desafio do indivíduo é ter a coragem de se lançar ao risco, diante de um sistema que aprisiona e formata a vida científica. Para além das universidades e dos centros de pesquisa, há saberes que nascem nas comunidades tradicionais, nas práticas cotidianas, nas trocas entre trabalhadores e em movimentos sociais que enfrentam desafios locais com soluções criativas. Esses conhecimentos têm suas próprias metodologias e princípios, muitas vezes transmitidos oralmente ou por práticas de convivência, como é o caso do conhecimento de povos indígenas sobre o manejo sustentável da terra ou das experiências comunitárias de cooperativas urbanas.

A estrutura científica contemporânea alcança resultados, mas, para isso, limita a existência da vida ao não se permitir costurar a trama dos muitos estímulos sensoriais que ritualizam a experiência humana na Terra. Falta à ciência o toque fino na vida e no outro, algo comum aos poetas, aos esotéricos, às culturas mais tradicionais.

O reconhecimento acadêmico desses saberes ainda é limitado. Muitas vezes, o que não se adequa aos rigorosos critérios de validação científica acaba sendo subvalorizado ou considerado anedótico, mesmo quando essas práticas trazem respostas concretas para problemas ambientais, sociais e econômicos. Rezadeiras, cartomantes, yogues tântricos, praticantes de tai chi, meditação e herbalistas são desconsiderados como parte da formação do saber.

É justamente nesse ponto que surge a necessidade urgente de reimaginar a ciência como um espaço de liberdade intelectual, onde o risco e a colaboração estejam no centro. Reimaginar a ciência significa, também, resgatar a noção de que o conhecimento científico não é um fim em si mesmo, mas um meio para melhorar a vida das pessoas, construir soluções coletivas e responder às crises que atravessamos enquanto sociedade global. Significa criar espaços em que cientistas possam trabalhar sem a sombra constante da precarização e da pressão por métricas de impacto. A experiência da pandemia de COVID-19 mostrou o valor de esforços colaborativos, como as coalizões internacionais para desenvolvimento de vacinas, demonstrando que, diante de grandes desafios, a união de esforços e a abertura de dados podem gerar avanços rápidos e transformadores.

É fundamental também repensar os critérios de avaliação científica, valorizando a qualidade do impacto social dos projetos e o compromisso com questões urgentes da população mundial fragilizada. Importa menos os santos da ciência, e muito mais os dispositivos que eles trazem e as formas como os utilizamos.

O próximo salto está aí, a meu ver: construir uma ciência aberta ao diálogo, ao risco e ao compartilhamento de saberes, onde a criatividade possa florescer. Com esses passos, talvez possamos resgatar a esperança de que a ciência, em sua diversidade, possa novamente ser um território de construção de um mundo mais justo para todos. Fazemos ciência nas conversas de bar, nas trocas cotidianas e na observação dos momentos simples de prazer e boas risadas.

No encontro entre o saber acadêmico e os conhecimentos que emergem dos povos, há um toque sutil, como um fluxo que pulsa entre a racionalidade e a intuição, tal como a respiração que conecta os corpos ao espírito. A ciência, ao abrir-se para esse toque, transcende seus recalques e mergulha num campo onde cada descoberta se torna um ato libertário de entrega, de diálogo com o desconhecido.

Ali, dissolve-se o ego sofrido do pesquisador isolado, dando lugar ao movimento coletivo, onde o risco é uma forma de êxtase e a colaboração entrelaça razão e sentimento. Assim, a ciência pode se transformar num espaço relacional, onde cada troca expande os limites da compreensão, ecoando um desejo profundo de alcançar e tocar, mesmo que de leve, a pulsação da vida real.

viva o SUS!!

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