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Bolsonarismo: um peronismo de família

Quando o Sobrenome vira Partido

O bolsonarismo pode estar construindo, à sua maneira, uma espécie de peronismo brasileiro do século XXI. Não porque Bolsonaro seja Perón, nem porque seus projetos políticos sejam similares. Reflito sobre uma forma política construída na capacidade de perceber uma transformação da composição social, encontrar suas formas concretas de organização e produzir a partir delas identidade política. A analogia tem um limite, e é ele que interessa: o peronismo incorporou o trabalhador ao Estado; o bolsonarismo, até aqui, apenas o mobiliza.

O bolsonarismo encontrou uma classe trabalhadora que boa parte da política brasileira ainda procura. Gente que vive do próprio trabalho, mas que nem sempre se reconhece nos instrumentos consolidados a partir das políticas trabalhistas do século XX. O trabalhador industrial, organizado pelo sindicato e reconhecido politicamente a partir de sua condição de classe, não desapareceu, mas deixou de representar sozinho o mundo laboral. Ao lado dele existe uma massa de trabalhadores dos serviços, terceirizados, autônomos, MEIs, motoristas, entregadores, pequenos comerciantes e assalariados que transitam entre emprego, desemprego, bico e pequeno negócio. Em 2025, segundo IBGE/PNAD, o Brasil tinha 26,1 milhões de trabalhadores por conta própria e informalidade de 38,1%. Não é uma margem exótica do mercado de trabalho, mas parte central de sua configuração atual. Informal não é sinônimo de bolsonarista, e o lulismo também tem base expressiva nesse meio. O que parece que podemos afirmar, porém, é que o bolsonarismo disputa esse segmento com eficácia narrativa.

Parte da esquerda ainda olha para essa nova classe trabalhadora com categorias do século passado. A ironia do “pobre de direita”, do “CEO de MEI” ou a explicação pela simples ignorância política revelam mais que preconceito: revelam dificuldade de compreender uma estrutura social que mudou. O sujeito que abre um MEI, dirige aplicativo, vende comida ou alterna emprego formal e trabalho autônomo continua materialmente inserido na classe trabalhadora, mas organiza sua experiência por outras referências. Quando a esquerda ri da identidade que ele construiu, em vez de compreender como ela foi produzida, entrega a outros a tarefa de disputá-lo. Parte desse trabalhador foi formada pelas próprias políticas dos governos do PT e não encontrou nos partidos de esquerda espaços de organização capazes de acompanhar sua nova condição material e seus desejos subjetivos.

O peronismo encontrou o trabalhador produzido pela industrialização argentina. No Brasil, esse papel coube ao getulismo, que estruturou a política em torno do trabalhador urbano, com a CLT, o sindicato reconhecido pelo Estado e a carteira assinada como porta de entrada na cidadania. Dele derivaram o trabalhismo de Jango e Brizola e, por ruptura e continuidade, o novo sindicalismo e o lulismo. Toda essa linhagem organizou a política de esquerda em torno do trabalhador formal e de seus instrumentos. O bolsonarismo encontrou parcelas importantes do trabalhador que ficou fora dessa moldura ou foi expulso dela: o produzido pela desindustrialização, pela precarização e pelo capitalismo de serviços. A incorporação getulista sempre foi parcial e a informalidade sempre existiu ao lado dela; o que mudou é que o trabalhador formal deixou de ser a figura que organiza de forma hegemônica o conjunto.

No peronismo clássico, o trabalhador industrial encontrava no sindicato uma forma de organização, reconhecimento e pertencimento. A experiência concreta do trabalho era convertida em identidade coletiva e, a partir daí, incorporada ao Estado e ao próprio peronismo.

O bolsonarismo opera sobre outra configuração social. Seu trabalhador, mais espalhado nos serviços, na informalidade e no pequeno empreendedorismo, encontra outros instrumentos de mediação. Sua organização passa por igrejas, redes sociais, família, comércio local, grupos profissionais e redes territoriais. É nesses espaços que se produz a identidade de quem trabalha, sustenta os seus, enfrenta dificuldades e se vira.

As instituições são diferentes, mas com função política comparável. O sindicato ajudava a transformar a experiência social em consciência coletiva. Igrejas, redes digitais e circuitos locais cumprem parte dessa tarefa ao oferecer linguagem comum, comunitarismo e uma interpretação compartilhada da vida cotidiana.

Outro ponto de aproximação com o peronismo está no personalismo. O bolsonarismo já não se organiza apenas em torno de Jair Bolsonaro. O sobrenome virou uma marca política própria, superior a legendas partidárias.

A eleição de 2026 materializou esse poder familiar em posições estratégicas. Flávio disputa a Presidência; Michelle foi eleita senadora pelo Distrito Federal; Carlos, senador por Santa Catarina; Jair Renan, deputado federal pelo mesmo estado; e Renato Bolsonaro, deputado federal por São Paulo. Rogéria Bolsonaro, ex-mulher do ex-presidente, também disputou a eleição no Rio. A família se distribui entre o Executivo nacional, o Senado e a Câmara, em diferentes estados, o que revela uma capacidade eleitoral que não depende de implantação partidária territorial tradicional.

Isso ainda não é uma tradição política. Dinastias brasileiras se diluíram quando o fundador saiu de cena, mas pode vir a ser. Movimentos personalistas só sobrevivem ao líder quando conseguem transferir pertencimento e lealdade para o mesmo campo, e aí as redes digitais ajudam, ao ampliar a presença simbólica do líder e reproduzir sua identidade para além de sua atuação direta. O resultado de 2026 sugere que o nome Bolsonaro pode funcionar como portador de uma identidade transferível entre pessoas, cargos e territórios. É uma possibilidade; o teste será a capacidade de mobilizar sem o fundador.

O peronismo construiu ainda um repertório que marcaria a América Latina: grandes mobilizações, comunicação direta com as massas, símbolos facilmente reconhecíveis, antagonismos claros e uma narrativa que fez de Perón e Evita figuras quase míticas. Sua força não vinha só da estrutura sindical ou das políticas sociais, mas, principalmente da capacidade de produzir emoção, lealdade e ritual. O bolsonarismo tem seu equivalente: atos de massa, comunicação direta pelas redes, símbolos de fácil reconhecimento (as cores nacionais, o vocabulário de Deus, pátria e família), antagonismo permanente e a figura do “mito”. Aqui a semelhança é real.

É no que vem depois que ela acaba. O sindicato peronista era mais que identidade: tinha poder de barganha, estava incorporado ao Estado e produziu direitos concretos. O bolsonarismo preencheu o vazio da representação, mas não o da organização autônoma. Igrejas, redes e comunidades criam identidade, mas não formulam política de previdência, crédito ou proteção para quem trabalha por conta própria. 

O que se estruturou foi uma máquina capaz de reproduzir o poder familiar por meio de filhos, esposa, irmãos e sucessivas disputas eleitorais. Sem organização autônoma nem incorporação institucional, o que resta do paralelo é o personalismo e mobilização, o que descreveria igualmente Vargas, Collor ou Trump.

Esse limite carrega um risco concreto. Quando liderança, movimento e projeto ocupam o mesmo lugar, a crítica interna passa a ser tratada como deslealdade, a sucessão assume caráter familiar e as instituições são medidas pela relação que mantêm com o líder. No bolsonarismo, o alvo dessa lógica é o Supremo. Os grandes movimentos do campo, da deslegitimação do sistema eleitoral ao 8 de janeiro, convergem para o enfrentamento da corte que o contém, e o crescimento de uma bancada favorável no Senado indica que o ataque deixou de ser apenas retórico. É o Senado que julga ministros do STF e aprova suas indicações, e uma maioria alinhada transforma o conflito com o Judiciário em instrumento concreto de poder. 

Há ainda um segundo risco, interno ao próprio campo. Em movimentos com organização autônoma, a base pode cobrar, corrigir e eventualmente substituir o líder: o sindicato negocia, o partido delibera, a assembleia vota. Igrejas, redes e comunidades criam pertencimento, mas não foram feitas para isso, e a lealdade que produzem é dirigida à pessoa, não a um programa. Se o líder erra, rompe com aliados ou persegue interesses próprios, a base não dispõe de instrumentos políticos para contê-lo. Ela só tem duas opções, seguir ou sair, e a história de movimentos personalistas mostra que a maioria segue. Quando a mediação é um nome, o que limita o poder dele é o que ele mesmo decide respeitar. Reduz-se a política parlamentar, amplificando o poder de uma política familiar.

A vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia indica que isso não é só brasileiro. Circula pela América Latina uma mesma gramática política: segurança à Bukele, economia à Milei, alinhamento a Trump e lideranças personalistas sem projeto de país apresentadas como resposta à crise das instituições. Em todos os casos, partidos e organizações sociais perdem a mediação para plataformas, influenciadores e igrejas, estruturas que transformam medo e ordem em narrativas simples e de circulação rápida.

O bolsonarismo não criou o vazio que ocupa; encontrou-o. Milhões de pessoas vivem do próprio trabalho sem sindicato, sem carteira assinada e sem partido que as reconheça, e foi nesse espaço que as redes de lideranças personalistas se instalaram. Isso é sua força eleitoral e sua fraqueza política. 

A resposta não passa por desqualificar a identidade que esse trabalhador construiu ou tentar trazê-lo para uma liturgia trabalhista do século XX, mas por oferecer o que ela não dá: organização própria, direitos que alcancem quem trabalha por conta própria, proteção contra o risco e representação que não dependa de um sobrenome. Enquanto isso não existir, a disputa seguirá sendo entre nomes, e quem não tem organização para oferecer continuará perdendo para quem tem, pelo menos, um sobrenome.

Guardo comigo uma frase que ouvi de uma jovem família de pequenos empreendedores: “Para trabalhar 6×1 para os outros, é melhor trabalhar 7×0 para mim”. A frase expressa uma força desejante: a de construir um projeto próprio de vida, que não cabe no trabalho explorado por outro. Esse desejo tem raiz material. Nasce da experiência concreta da exploração, da escala que consome o tempo de vida em troca de salário, e é isso que a esquerda precisa levar a sério antes de qualquer liturgia. Mas o 7×0 não suprime a exploração. O patrão deixa de ser visível e o trabalhador passa a vender a si mesmo, sem férias, sem previdência, sem proteção contra o risco, extraindo de si o próprio excedente com a saúde. A tarefa da esquerda que quer enfrentar o bolsonarismo e esta nova colonização latino americana é dar a esse trabalhador a autonomia que ele busca e instrumentalizar direitos e organização coletiva, em vez de abandoná-lo à autoexploração e a lideranças que fazem dele base eleitoral.

foto original de https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/familia-bolsonaro-elege-michelle-carlos-jair-renan-e-irmao-de-jair-em-sc-sp-e-df.shtml

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Uma breve reflexão a partir do terremoto na Colômbia

A resposta do Estado colombiano ao terremoto dos últimos dias expõe uma questão política que ultrapassa a emergência imediata: que tipo de soberania e de capacidade estatal precisamos construir em um mundo atravessado por crises cada vez mais complexas, interdependentes e territorialmente desiguais.

O governo colombiano mobilizou estruturas nacionais de emergência, equipes de busca e salvamento, forças de segurança e mecanismos extraordinários de resposta. Ao mesmo tempo, produziu uma contradição importante. A resistência inicial à incorporação de equipes internacionais especializadas revelou uma concepção de gestão fortemente centralizada, orientada pela demonstração de autossuficiência e de controle nacional da resposta. Em um momento no qual cada hora pode significar vidas, retardar cooperação técnica externa é uma decisão política que precisa ser examinada para além da retórica ideológico-patriótica.

Soberania e capacidade de comando, diante de catástrofes de grande escala, exigem também humildade institucional, articulação e mobilização. Reconhecer rapidamente os próprios limites também é capacidade de Estado. Um governo forte amplia suas possibilidades de ação ao incorporar recursos externos dentro de uma estratégia própria, coordenando governos locais, universidades, forças de emergência, sociedade civil, organismos multilaterais e cooperação internacional sem perder direção política e sem se infantilizar diante do marketing ideológico que sustenta imagens de governo.

A distribuição territorial da resposta também importa. Quando o centro concentra decisões e determinados territórios permanecem dependentes de recursos improvisados ou capacidades locais frágeis, a centralização revela seus limites. Capacidade estatal se mede pela capilaridade concreta da ação.

É também nesse ponto que as bandeiras do marketing eleitoral começam a perder força. A mobilização da pátria, da bandeira e da unidade no campo do abstracionismo eleitoreiro pode produzir coesão social, levar candidatos ao poder, mas catástrofes não deveriam se transformar em palco de marketing ideológico. A pandemia já demonstrou isso no Brasil. Há momentos em que o discurso político precisa baixar o volume para que apareçam a técnica, a ciência, a logística, a engenharia, a saúde pública e a organização social e material dos territórios.

O terremoto colombiano possui origem geológica, mas ocorre em um mundo no qual crises ambientais, climáticas, sanitárias, energéticas e infraestruturais se tornam interdependentes. A crise climática é global em sua dinâmica e profundamente territorial e desigual em seus efeitos. Amplia eventos extremos, deslocamentos populacionais, pressões sobre sistemas urbanos e interrupções de cadeias logísticas. Já estamos neste mundo. Isso exige construções político-intelectuais menos inflamadas pelos recortes de comunicação e mais comprometidas com projetos de curto, médio e longo prazo.

No curto prazo, entram protocolos de emergência, cadeias de comando, equipamentos, informação e cooperação internacional. No médio prazo, sistemas de defesa civil, formação técnica, logística, infraestrutura, redes hospitalares, mapeamento de riscos e fortalecimento das capacidades municipais. No longo prazo, planejamento territorial, adaptação climática, autonomia tecnológica, política industrial, produção científica e integração regional.

Essas escalas precisam conversar. E para isso é preciso organizar uma mesa ampliada, mas minimamente objetiva: entender quem produz informação, quem decide, quem executa, quem possui capilaridade territorial, quem controla recursos e onde estão as capacidades que faltam. Municípios, universidades, governos nacionais, organizações sociais, setor produtivo e organismos internacionais não cumprem o mesmo papel, nem precisam cumprir. A articulação também não elimina os conflitos entre esses atores, seria ingênuo imaginar isso. Ela constrói convergências possíveis dentro dos dissensos. Não é uma mesa simples. Mas é uma mesa que precisa existir. Um projeto de nação exige essa capilaridade, capacidade de se articular, produzir continuidade e construir convergências.

É aí que a distinção entre nacionalismo abstrato propagandístico e projeto de nação ganha potência. O nacionalismo opera com símbolos de adesão imediata e simplificação dos conflitos; tudo pode acabar reduzido a soluções mágicas, uma cloroquina para se curar da dor. Problemas complexos pedem justamente o contrário da solução mágica: identificar escalas, reconhecer capacidades, distribuir responsabilidades e saber coordenar redes de conflitos.

A cooperação internacional também pode ser pensada como política permanente de soberania. Países podem construir acordos de reciprocidade, protocolos regionais de emergência, bancos compartilhados de equipamentos, redes científicas e equipes especializadas mobilizáveis entre fronteiras. Para a América Latina, essa poderia ser uma agenda concreta de integração, menos dependente de grandes declarações diplomáticas e mais vinculada à construção cotidiana de pautas comuns.

A Amazônia ajuda a compreender essa necessidade sem relativizar soberanias nacionais. O bioma, suas bacias hidrográficas, fluxos atmosféricos e sistemas ecológicos atravessam diferentes países, enquanto cada território permanece sob a soberania de seu respectivo Estado. Cooperar sobre fenômenos transfronteiriços não significa internacionalizar a gestão territorial. Significa reconhecer que a geografia não se encerra onde termina uma fronteira político-administrativa e que Estados fortes também precisam saber cooperar para proteger seus próprios povos e territórios.

Uma boa solução técnica ganha força quando encontra arquitetura política para sustentá-la. Articular significa reconhecer interesses, potencialidades, conflitos e construir convergências suficientes para transformar conhecimento em decisão. A política não substitui a técnica, e a técnica não governa sozinha. O difícil, e talvez o mais interessante, é construir as condições políticas para que boas soluções efetivamente aconteçam.

A soberania do século XXI será, a meu ver,  cada vez mais medida por essa capacidade relacional e territorial: organizar recursos próprios, reconhecer limites, acionar parceiros sem subordinação e transformar a cooperação e troca de saberes em aumento de potência política, técnica e territorial. Talvez seja justamente no intervalo entre a emergência e o horizonte imponderável que teremos de aprender a conceber projetos de nação capazes de transformar crises em aprendizado institucional, articular sociedade e conhecimento e produzir respostas à altura da complexidade do mundo que já chegou.

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O Congresso contra o Povo

O conservadorismo acolheu e organizou os mais pobres. Isso precisa ser sempre lembrado com alguma honestidade. Ele ocupou vazios, criou pertencimento, deu escuta e destino para gente que muitas vezes encontrou na esquerda apenas contradições e uma espécie de superioridade moral desgastada. Até aí não há tanta novidade. Desde pelo menos 2014, o país vive esse deslocamento, e fingir que ele não existe apenas aprofunda o nosso erro.

O ponto novo, porém, é que esse conservadorismo deixou de ser apenas sentimento social e passou a operar como poder. Quando toca o Congresso, quando define quais pautas avançam, quais travam, quais vidas merecem acesso ao orçamento público e quais podem seguir no improviso e na fome, ele revela o Brasil que deseja construir. E esse Brasil, muitas vezes, é duro com quem já não aguenta mais.

Se a esquerda tem o presidente, o conservadorismo tem o congresso e opera com ele para ter espaço de poder e gestão. Não amigos, não vivemos um governo de esquerda, mas sim o governo que sempre vivemos, esse parlamentarismo presidencialista esquisito onde as forças precisam manter sempre um grau de negociação para se manter no poder.

Em qualquer periferia de cidade grande e em muitos recantos de cidades médias e pequenas, existe um País à parte, onde a fome ainda organiza o cotidiano. Lugares onde viver com menos de um salário mínimo é regra, e ganhar um salário mínimo já parece vitória. Nesses territórios, o Bolsa Família não pode ser tratado como abstração eleitoral e cabresto, ele se torna a única estrutura real de sobrevivência. Organiza a compra da vida, a comida da criança, o remédio, o que dá pra organizar e ainda falta. E infelizmente, seguirá organizando a vida enquanto o Brasil não tiver um sistema produtivo capaz de absorver sua própria força de trabalho com dignidade e mínimo direito à mobilidade social.

A escala 6×1, que no fundo funciona como um 7×0 disfarçado, soma-se à miséria salarial, ao transporte exaustivo, ao aluguel impossível enquanto crescem alphavilles e studios e à ausência de horizonte palpável. O resultado é uma massa gigantesca de vulnerabilidade e sem esperança. Gente que trabalha muito, ganha pouco, descansa mal, adoece cedo e quase nunca consegue transformar esforço em prazer de vida. O país cobra disciplina de quem vive no limite, mas oferece muito pouco além da sobrevivência, na verdade nem a sobrevivência o País oferece.

Esse é o ciclo vicioso profundo. Não se levanta uma Nação condenando sua população a correr em círculo até morrer. Um trabalhador exausto não empreende sua liberdade. Uma mãe que passa três horas por dia no transporte não consegue “qualificar-se” por milagre. Um jovem que entra cedo demais no trabalho precário perde escola. O Brasil fala em produtividade, mas organiza a vida popular para desperdiçar inteligência humana. Maio é um mês significativo para os trabalhadores de um País cuja cultura foi forjada no escravagismo. 

A saída, a meu ver, passa por muitas lutas, porém quero deixar escrito alguns recortes. Um deles, ela exige tratar política social como infraestrutura de sustento da Nação. O SUS, apesar de todos os problemas, mostra uma coisa fundamental: quando o Estado chega de forma capilarizada, em rede, ocupando território, fomentando formação profissional, e garantindo continuidade política, ele muda a vida concreta. O mesmo princípio precisa orientar outras partes da estrutura social: renda, trabalho, cuidado, educação técnica, mobilidade e produção. Não basta distribuir benefício via política pública e deixar o restante da vida entregue ao mercado ruim, ao ônibus caro, ao aluguel predatório e ao subemprego moedor de gente. É preciso construir uma rede pública de política de sustentação da vida, integrada no território, capaz de enxergar família, bairro, escola, posto de saúde, transporte, cultura e emprego como partes do mesmo problema.

Isso passa por uma política nacional de trabalho honesta e decente, incapaz de se formar neste congresso de legisladores de causa própria, defensores de coisas espúrias. Como pensar política com estes seres abjetos incapazes de enxergar o país além da própria fazenda? O que dizer com palavras bonitas e sinceras? 

Há nesse Congresso uma venalidade profunda, uma mistura de pusilanimidade ética e arrogância oligárquica, gente que se ajoelha diante dos donos da terra (quando não são os próprios donos), da bala e do dinheiro e se vende barato para doleiros e cafetões de luxo, mas endurece a voz contra quem vive de salário, de benefício, do bico e com dívida. São capatazes legislativos de um país velho, cortesãos do atraso, defensores de pactos iníquos e projetos predatórios, enquanto chamam de responsabilidade aquilo que, no fundo, é apenas crueldade organizada. Essa é a gente que vai caminhar pelas ruas do seu bairro fingindo que gostam de comer pastel com caldo de cana. A cara de nojo que fazem quando mordem um pastel, não é pelo pastel, é pelo nojo que sentem ao estarem perto demais da gente. 

Tem pavor de pautas como: Redução progressiva da jornada, valorização real do salário mínimo, expansão da educação profissional ligada às cadeias produtivas locais, crédito orientado para pequenos produtores. Esse governo se torna tão ignorante que sequer enxerga que estas são pautas de caráter liberal.  Mas ainda cito mais possibilidades para construir: cooperativas, economia do cuidado, indústria verde, construção civil pública, saneamento, reabilitação de moradias e infraestrutura urbana nas periferias. 

O país precisa enfrentar essas criaturas sem receio. Criar um projeto que nos possibilite fortalecer a produção de vida, gerar trabalho e descanso para as pessoas reais, e não apenas empurrar corpos pobres para a vala da história, como empurraram para o Oceano de Sangue, Kalunga Grande (aprendi esse termo lendo o artigo da Vivian Carla Garcia Ferreira aqui).

Aqui também, a técnica pública institucional não pode ser resumida à burocracia de gabinete que atende a esses poderes de forma acrítica. Ela precisa medir tempo de deslocamento, renda disponível, acesso a creche, saúde mental, custo da alimentação, informalidade, produtividade territorial e capacidade real de permanência das famílias em seus bairros.

Um projeto sério para o Brasil começará quando a vida popular deixar de ser tratada como resíduo. O pobre precisa de tempo, renda, cidade, descanso, formação, crédito, saúde, cultura e poder sobre o seu próprio território. Enquanto isso não acontecer, seguiremos discutindo moralidade no alto, enquanto embaixo o país real tenta decidir se compra comida, paga passagem ou continua entregue a qualquer destino.

A boa política é aquela que transforma sobrevivência em caminho real de futuro. Esta política a meu ver, deve transpassar esse congresso e se possível desferir o máximo de danos a parte desta máquina público-privada usada a benefício próprio dessa gente estranha que ocupa as câmaras de poder.

Autoria própria
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Quem é o conservadorismo que me lê?

Notei, com o tempo, que tenho amigos e leitores conservadores que gostam do que escrevo. Fico feliz por isso. Entendo como sinal de que ainda consigo me comunicar com as pessoas, embora eu mesmo tenha dificuldade de fazer isso na fala. Creio que há aí um gesto importante: se não sou capaz de me comunicar com quem pensa diferente de mim, então talvez eu não seja capaz de me comunicar de verdade. 

Mas quem seria esse brasileiro específico? Tenho algumas percepções sobre isso, e quero dar aqui uma pequena pincelada.

O brasileiro não é conservador por folclore, por essência moral, muito menos por algum desajuste cognitivo ou intelectual. Pensar assim é partir da arrogância para construir uma caricatura. Creio que o tempo o empurrou para isso pelo medo e pela sobrevivência. Medo de cair mais um degrau, medo de perder o pouco que tem, medo de ver o filho capturado pelo crime, medo de não conseguir pagar o gás, medo de adoecer e não ter atendimento, medo de envelhecer sem proteção.

O Brasil das últimas décadas produziu consumo, desejo rápido de ascensão e vitrines digitais de vencedores, mas não ofereceu a mesma firmeza em trabalho, tempo e horizonte de vida. Ao mesmo tempo em que prometia autonomia, foi desmontando proteções do trabalho. Naturalizou vínculos frágeis, pejotização, intermitência e plataformização. A precarização não caiu do céu, ela foi construída como projeto de poder. E qualquer olhar honesto para o mundo do trabalho hoje percebe o estrago que a reforma trabalhista de 2017 aprofundou, especialmente entre os mais jovens.

A ideia do sujeito como “CEO de si mesmo” não é só delírio neoliberal importado de palestra motivacional. Muitas vezes, ela funciona como remédio paliativo de existência. Quando o mundo do trabalho retira garantias, o imaginário tenta devolver alguma dignidade. O homem que sai cedo de casa, pega condução, vende bolo, roda de aplicativo, faz bico, sonha abrir um negócio, assiste vídeo de empreendedorismo entre uma correria e outra, não está necessariamente imitando o rico nem sonhando em virar milionário. Muitas vezes, está apenas tentando não desabar de vez. É uma forma de dizer a si mesmo que ainda conduz alguma coisa, mesmo quando quase tudo ao redor diz o contrário. Por que enfrentar um 6×1 para um patrão por um salário mínimo, se eu posso tentar encarar um 7×0 para mim mesmo? Por que entrar cedo numa CLT, se mal acredito que um dia vou me aposentar?

O problema é que esse imaginário, quando capturado, ilude. Troca os direitos pela performance, descanso pela culpa e senso de comunidade por competição aflorada. O trabalhador deixa de se entender como parte de um corpo social e passa a ser tratado como pequena empresa em guerra contra a exaustão. E isso piora num país de trabalho fortemente informal e desregrado. 

É nesse ponto que a extrema-direita entra com inteligência afetiva. Ela percebe uma coisa que parte do campo progressista seja a esquerda ou mais liberal esqueceu: ninguém vive só de argumento cientificamente correto. As pessoas querem ser vistas, ouvidas, nomeadas, acolhidas em sua dor e em sua luta. Querem sentir que alguém as escuta sem rir de sua fé, de sua vergonha, de seu desejo de subir na vida, de seu apego à família e de sua necessidade de alguma ordem no cotidiano.

O ultra-conservadorismo cresce porque oferece espaço de escuta e fala para esse sofrimento. Não oferece país, nem transformação de verdade, mas oferece disciplina, pertencimento, inimigo comum e explicação simples, independente da ciência. Em vez de enfrentar a precarização da vida, organiza o desamparo como linguagem moral, mas o principal: organiza o acolhimento. Acalme-se, algum dia sua bênção virá, estamos entre irmãos.

Porém, ele também cresce e muito, na incapacidade das forças progressistas retomarem pautas comuns e pétreas de bem estar do povo, por medo de conflitar com suas pautas de poder pelo poder, cargo pelo cargo. Se tornando uma força de molde moral para controlar os que estão sob seu  cercado.

Talvez o erro mais sério de muita gente progressista atual tenha sido olhar esse Brasil apenas como objeto de pedagogia, estudo e pesquisa, e não como sujeito portador de inteligência. Houve análise demais e escuta de menos. Houve articulação demais e imaginação de menos. Como se bastasse anunciar indicadores, políticas públicas e boa intenção para que um povo exausto voltasse a acreditar na vida coletiva. Oferecemos política sem reconstruir vínculo, pertencimento e horizonte.

Porém, o povo também quer viver o sensível. Quer sentir que a vida pode ter algum brilho para além da conta paga em atraso. O conservadorismo entendeu isso antes: ocupou o campo do desejo, mesmo que com uma promessa estreita e envelhecida de mundo. Vende uma resposta, embora na prática atue de outra forma, basta ver o Trump e os seus piores conflitos: as lutas internas norte-americanas.

A disputa econômica também é disputa de imaginário, de vida boa, de futuro bonito, de reconhecimento solidário. O próprio debate sobre a escala 6×1 mostra isso. Não se trata apenas de horas e produtividade, embora isso importe. Trata-se do direito elementar de não viver esmagado pelo trabalho. É erro achar que economizar é não gastar mais com trabalhador. 

Horas de trabalho excessivas e salário baixo demais também destrói produtividade, aumenta rotatividade e piora o próprio negócio. E antes que me chamem de comunistas, economistas liberais defendem esse conceito.

A saída, então, não está em zombar do Brasil profundo, nem em idealizá-lo, mas em reencontrar dentro dele o seu desejo legítimo de vida. Algo que só é possível na escuta singela, sem julgamentos e com interesse de aprendizado. Há uma potência cotidiana que segue viva no país real. Ela está no churrasco improvisado de fim de semana, no salão de beleza lotado, no campo de várzea, no piseiro ligado numa caixa de som colorida, na mãe que faz render o almoço, na vizinha que olha o filho da outra, na feira, na oficina, na calçada, no culto de domingo, no chá partilhado enquanto se pega sol à beira do rio, no barulho de gente simplesmente sendo gente apesar de tudo. 

Por isso a boniteza de Paulo Freire ainda importa, como recusa da feiura moral que foi sendo naturalizada entre nós. Uma vida boa não pode ser privilégio de condomínio, nem fantasia vendida em parcelas, nem heroísmo individual de quem aguenta a escala, o bico e a humilhação calado. Ela precisa reaparecer como direito de respirar, conviver, descansar, estudar, circular, festejar, criar filhos sem terror e envelhecer sem descarte. 

O Brasil não precisa ser salvo de si mesmo. Precisa voltar a se enxergar como povo super diverso, criativo, complexo e digno de mais do que mera sobrevivência. Quando esse povo se vê apenas como empresário precário da própria miséria, o país encolhe. Quando volta a se reconhecer como portador de memória, trabalho, inteligência, diversidade de pensamento e desejo de beleza, o país pode novamente começar a pensar o Brasil.

Neste sentido retorno ao início. Afinal, aprendo com as trocas honestas dos amigos conservadores que me lêem e não sentem medo ou vergonha de conversar comigo sobre temas diversos.

Desenho autoral 2026
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Terra Rara e terras raras: pequeno texto sobre o impasse material do nosso tempo

Segue um pequeno texto sobre uma contradição pertinente do mundo contemporâneo. Falamos muito em inteligência artificial, transição energética, inovação, automação de futuro. Ao mesmo tempo, talvez tenhamos que  recordar o óbvio: não existe nuvem sem território físico, não existe inteligência artificial sem eletricidade, não existe transição energética sem mineração em larga escala, e não existe crescimento exponencial sustentado quando a base material do sistema opera no limite máximo. O século XXI promete leveza digital, mas se apoia sobre uma infraestrutura física brutalmente pesada.

Há um fetiche comum no debate público e corporativo. Falamos de tecnologia como se ela brotasse do nada, como se fosse resultado puro do engenho humano pairando acima da terra. Mas a história real é mais rude. Data centers exigem energia estável, água para resfriamento, linhas de transmissão, cabos, transformadores, terras baratas e capacidade de conexão. Painéis solares exigem prata. Turbinas eólicas, carros elétricos, sistemas militares e eletrônica de precisão exigem terras raras e outros minerais críticos. A dita economia do futuro nasce, portanto, de uma nova corrida sobre o solo. E como quase toda corrida por recursos em larga escala, ela rapidamente se converte em guerras geopolíticas.

O mercado da prata nos ajuda a entender um pouco isso. A prata ocupa um papel duplo, financeiro e industrial. Ao mesmo tempo em que é historicamente e segundo metal mais importante do mercado, embora mais raro e difícil de extrair que o ouro, também é muito importante em aplicações industriais, eletrônicas e fotovoltaicas. Isso significa que sua demanda já não pode ser lida dentro de um hibrido difícil de equilibrar: o especulativo do mercado financeiro e o necessário do consumo industrial. As terras raras, por sua vez, revelam um problema ainda mais pesado. Tanto pela existência geológica complexa desses elementos, quanto pela capacidade de processá-los, refiná-los e incorporá-los às cadeias industriais de maior valor agregado. A China percebeu isso antes de boa parte do Ocidente e consolidou posição dominante em etapas decisivas do refino. A disputa global perpassa a extração do minério. Ela é responsável pelos elos decisivos da transformação industrial.

O que está em curso é uma reorganização do poder mundial em torno destas novas cadeias produtivas estratégicas, semicondutores, minerais críticos, defesa e infraestrutura digital, isto é, os materiais do novo poder global. Em um cenário de crescimento global mais frágil, protecionismo seletivo e reindustrialização competitiva, cadeias de suprimento deixam de ser assunto secundário da globalização eficiente e passam a ser tratadas como matéria de soberania. Quem controla o refino, os chips, as baterias, controlará o ritmo da modernização dos outros.

A inteligência artificial radicaliza este quadro. Os debates principais sobre as IA costumam girar em torno de modelos, interfaces, produtividade e automação do trabalho intelectual. Tudo isso importa, mas há um subterrâneo raramente explicitado com a devida contundência. Por trás de toda rede de softwares há uma rede de hardwares. A expansão da IA depende de um salto gigantesco no consumo energético e de recursos. Isso nos obriga a encarar uma questão muito rude: a infraestrutura necessária para sustentar esse salto não cresce na mesma velocidade dos sistemas. Falta rede, falta transformador, faltam linhas de transmissão, faltam anos de investimento acumulado e, talvez o principal, faltam limites ecológicos que suportem essa voracidade. O discurso do crescimento exponencial esbarra no concreto do mundo, no aço, no cobre, no licenciamento, no território sacrificado e no tempo.


Este talvez seja o impasse mais decisivo do nosso tempo. O mundo quer eletrificar transportes, ampliar energias renováveis, sustentar a corrida dos data centers, expandir complexos industriais de alta tecnologia e ainda reforçar máquinas militares em meio a conflitos crescentes. Tudo ao mesmo tempo. Mas a infraestrutura de base não acompanha a voracidade. Redes elétricas envelhecidas, gargalos logísticos e dependência concentrada de poucos países indicam que o sistema quer operar num grau de complexidade superior ao que sua base material suporta.

É justamente aqui que outra leitura de mundo se faz necessária. Porque o discurso dominante tenta resolver esse impasse com a velha fórmula: abrir novas fronteiras extrativistas, flexibilizar regulações, converter territórios em zonas de sacrifício e acelerar a exploração em nome da inovação. A transição energética e digital corre o risco de repetir, em versão verde e algorítmica, a velha colonialidade do poder. 

Troca-se a fumaça velha do fóssil pelo garimpo limpo no selo institucional. Troca-se o petróleo pela mineração crítica. Troca-se o velho saque por um saque com selo ESG. E mais uma vez o Sul é convocado a fornecer o corpo, água, terra, trabalho e paisagem devastada para sustentar o padrão técnico dos centros de comando e dos bilionários do GAFAM.

A literatura crítica recente aponta isso: minerais críticos podem ser fundamentais para a descarbonização, mas sua extração, quando submetida à lógica convencional do capital global, tende a reproduzir conflito social, dano ambiental, concentração de valor e violência territorial similares ou piores que os modelos anteriores. A transição pode ser necessária e ainda assim operar de modo injusto. Uma coisa não anula a outra. É preciso perguntar quem extrai, quem processa, quem lucra, quem adoece, quem perde território e quem define a finalidade social dessa nova base técnica.

O Brasil entra nesse debate com potencialidade e risco. Potencialidade porque possui reservas importantes de minerais estratégicos para a transição energética, como grafita, níquel, manganês, terras raras e lítio, além de matriz elétrica relativamente favorável, base industrial ainda recuperável e capacidade científica instalada. Risco porque sua história socioeconômica mostra uma tendência persistente de ocupar o lugar de provedor de matéria-prima, deixando o refino, a tecnologia, a manufatura complexa e os ganhos estruturais para outros. O país pode ser peça relevante na cadeia global de minerais críticos, mas isso, por si só, não significa desenvolvimento nacional. Exportar o bruto enquanto importa a inteligência industrial do processo é continuar exercendo papel subalterno. O ponto decisivo é saber se o país será capaz de organizar política industrial, financiamento público, capacidade de refino, produção de componentes, domínio tecnológico e critérios socioambientais rigorosos para que essa riqueza se converta, de fato, em soberania material.

As guerras atravessam esse processo inteiro. Porque, além de destruírem sociedades, reordenam as cadeias produtivas, justificam emergências orçamentárias e ampliam a corrida por insumos estratégicos. Guerra produz espólio. Produz a oportunidade de redesenhar territórios inteiros a partir da ruína, reorganizando fluxos de vida e infra estruturas de mercado. 

Em escala global, o aumento do gasto militar mostra que recursos gigantescos estão sendo canalizados para destruição e contenção, enquanto a infraestrutura civil necessária à sustentação de uma transição justa segue em segundo plano. Há algo de irracional num sistema que responde à crise ecológica, energética e social com mais armamento e mais competição predatória, mas não parece ser pauta de quem manda no mundo.

Se prevalecer a lógica atual, veremos a ampliação de um modelo tecnicamente sofisticado e socialmente brutal: mais automação, mais consumo energético, mais extração, mais enclaves de riqueza, mais territórios sacrificados e mais guerra administrando os desesperos do próprio sistema. Uma espécie de futuro de alta tecnologia com estrutura moral arcaica. Muito bem retratado em filmes como Matrix e Exterminador do Futuro.

Mas outra direção ainda pode ser construída.

Uma direção em que transição energética não seja licença para devastar, em que inteligência artificial não seja pretexto para concentração radical de poder, em que soberania não se reduza à disputa bélica entre impérios e em que países como o Brasil recusem o lugar passivo no mundo. Isso exige mais do que política industrial ou regulação. Exige romper com a ideia moderna de desenvolvimento como simples aceleração da máquina, com a recusa dos conhecimentos tradicionais e com a crença de que toda tecnologia nova torna dispensável a memória longa da vida e da terra.

Talvez o nosso tempo peça algo mais profundo. Não só novas fontes de energia, mas nova inteligência histórica. Não só novos minerais, mas nova ética material. Não só inovação, mas capacidade de construir uma ordem menos exploratória, menos colonial e menos suicidária da existência terrena. Antes de reorganizar a economia, precisamos reorganizar a imagem que fazemos de nós mesmos: deixar de pensar o humano como centro soberano do mundo e voltar a nos perceber como parte frágil de uma trama muito maior do que nossa ambição técnica.

No fundo somos apenas símios que refletem sobre si rodando em uma pedra rara no universo, assentados na periferia de uma galáxia cujo destino final é encontrar o grande atrator de Laniakea. E o mais irônico da vida é que talvez nem nossa galáxia alcance seu destino antes do colapso do universo. Em meio a isso continuamos a destruir nossa pedra rara mãe em nome de um progresso ilusório construído por um pensamento moderno que há muito já não responde a vida. Somos tão raros quanto pequenos, mas talvez nos falte entender que nossa pequenez e respeitar o universo para reescrever nossa visão de mundo, como um dia fizeram os polinésios em seus barquinhos navegando o oceano pacífico.

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Palestina livre, Irã livre

A Palestina é a fronteira ética do nosso tempo, mas também um labirinto para o pensamento de esquerda. Um dos erros mais comuns da política são as simplificações: quando o inimigo do meu inimigo vira meu amigo, o povo cai no esquecimento da pauta. Em nome da causa palestina, parte da esquerda global aceita, com silêncio, o autoritarismo do regime iraniano, como se a teocracia fosse elemento aceitável de resistência ao imperialismo ocidental. Essa visão transforma geopolítica em desculpa conveniente para acalmar o campo que não precisa lidar com a complexidade, ainda que deixe povos reais solitários em sua luta por liberdade e justiça social.

A pauta é uma: libertação não deve ser seletiva. Não existe solidariedade consistente com Gaza se ela nos exige fechar os olhos para prisões, torturas, censura e assassinatos ocorridos no Irã. A mesma ética que denuncia genocídio, apartheid, ocupação e massacre, principalmente desde 7 de outubro de 2023, precisa reconhecer que a República Islâmica também governa por coerção, medo e captura da cultura e do cotidiano. O inimigo do meu inimigo não vira automaticamente aliado. Vira apenas outro poder que deve ser questionado.

Aqui nos cabe recusar o “campismo”, essa tentação de escolher um bloco, tratá-lo como único e absolver tudo o que ele faz. Nessa linha, comecemos por um princípio básico: apoio às revoltas populares contra a brutalidade teocrática, sem aceitar sequestro por intervenções externas. Evitando assim a fraude da falsa simetria. Por que chamar a repressão iraniana de ordem por acreditar que ela combate o imperialismo trumpista? A esquerda não pode trocar o povo pela geopolítica. Assim como não podemos negligenciar a dor iraniana como pretexto para guerra e mudança de regime a serviço de interesses alheios.

O gesto mais potente vem de baixo. Ele aparece quando feministas e trabalhadoras iranianas transformam “Jin, Jiyan, Azadî” (Mulher, Vida, Liberdade) numa linguagem de mundo, principalmente a partir do levante de 2022. Ou quando sindicatos e organizações independentes enfrentam a polícia moral da sharia ao mesmo tempo em que se posicionam contra a guerra e contra o genocídio em Gaza. Essa linguagem toca verdadeiramente a luta palestina. Enquanto o conservadorismo comenta na TV pedindo e naturalizando a volta da monarquia iraniana como elemento de transição política, caberia à esquerda uma construção radical de solidariedade real, transversal: a liberdade do corpo em Teerã e a liberdade do corpo em Gaza pertencem ao mesmo campo ético de liberdade.

Quando essa ponte se constrói, ela deixa explícito o que o regime tenta esconder: o Estado iraniano não é a Palestina, na verdade ele é muito mais próximo de um Sionismo de moeda inversa do que supõe nossa liturgia. Assim como a Palestina não precisa da tutela de uma teocracia. E esse talvez tenha sido o maior temor de muitos poderes que envolvem as disputas do Oriente Médio a época de Arafat: o Fatah não defendia uma teocracia a priori, mas um Estado palestino laico.

Sobre o sindicalismo independente iraniano: em declarações recentes (por exemplo, ao longo de 2025), organizações de trabalhadores condenam o genocídio em Gaza e pedem o fim do armamento a Israel, ao mesmo tempo em que rejeitam guerra contra o Irã e denunciam o próprio regime. Isso desmonta o discurso que reduz a região a “governos falando com governos”. Existe, no meio disso, povo falando com povo, costurando redes de luta, resistência e sobrevivência que caminha no underground. Essa política que nasce na rua e não nos palácios é a que nos cabe dialogar, ajudar a construir e visibilizar.

Na diáspora, muita gente confunde “ser contra Israel” com “ser a favor do regime que diz ser contra Israel”. A militância vira pombo correio que defende um Estado que persegue mulheres por um fio de cabelo e prende estudantes por uma frase. Do outro lado, a direita ocidental usa a denúncia dos abusos morais do regime para justificar bombas e sanções que esmagam os pobres. Enquanto a propaganda dos poderes destrói o direito do povo à vida, não construímos pauta nem coletividade concreta para criar uma contra-proposta com pautas concretas e contemporâneas a tudo.

Devemos olhar para a política na escala miúda e multifacetada: solidariedade autônoma, quando pessoas no Irã se reúnem “pela Palestina” fora dos roteiros oficiais. Organizar as lutas através da ética cotidiana: cuidado e proteção mútua. É nessa escala que a esquerda pode apoiar Gaza sem servir de biombo para a teocracia do Teerã, e enfrentar a Teocracia de Teerã sem servir de biombo para a “teocracia” de Washington.

Quando uma dissidente iraniana, perseguida e encarcerada, pede cessar-fogo e ajuda humanitária irrestrita para Gaza, ela mostra que a solidariedade pró-Palestina é radical justamente por não ser cúmplice de tirania teocrática. A voz não deve depender de passaporte estatal, divino ou monárquico estabelecido. O regime iraniano tenta capturar a causa palestina para limpar a própria ficha corrida, tentando vender como sionistas pró-EUA qualquer um que seja contra suas diretrizes. Deixa sem comunicação, mata por divergência religiosa, mata por diferenças de gênero, simplesmente mata. Ao invés de trazer o povo para si, isola-o enquanto aglutina as forças conservadoras ocidentais contra si.

É aqui que a crítica de esquerda precisa ser dura e clara: apoiar a Palestina não autoriza romantizar nenhum regime que reprime seus povos. A luta palestina é por autodeterminação e direito à vida. A luta iraniana, nas ruas e nas prisões, é pelo mesmo motivo. Quando a esquerda troca o povo pelo regime, ela se perde, sacrifica vidas concretas em nome de uma “necessidade histórica” e permite a naturalização de discursos conservadores como o retorno a uma monarquia em pleno século XXI. O futuro do Irã, demarcado pela força da guerra e por anos de repressão, é impossível de prever.

O caminho é complexo e passa por solidariedade popular organizada e fortalecer outra linha ética que não seja essa ética dos poderes constituídos (bem revelada nos Epstein files), com os pés no chão e a cabeça a frente. Cobrar cessar-fogo imediato e fim do massacre em Gaza, fim da ocupação e do apartheid, mas também dizer sem rodeio: não à guerra “sionista-americana” contra o Irã e não à teocracia iraniana. Não existe libertação a partir de mísseis, nem democracia entregue por troca de cadeiras.

A ação radical da esquerda, hoje, é tirar oxigênio político, narrativo e material dos poderes constituídos: pressionar por embargo de armas, boicote e desinvestimento do aparato de ocupação; construir, em sindicatos, movimentos de mulheres, movimentos culturais, universidades e territórios, redes de apoio direto a palestinos e às forças iranianas feministas e trabalhistas que enfrentam a repressão; financiar defesa jurídica, acolhimento, comunicação, tradução e cuidado mental ao povo que mais sofre com os danos da guerra, porque guerra atravessa o corpo e dura décadas.

Em vez de torcer por bombas como “atalho”, o retorno a monarquias caducas, ampliar as vozes das ruas, justamente aquelas que não tem espaço nas mídias ocidentais e que também estão silenciadas pelos poderes iranianos. Acolher e fortalecer as relações de vizinhança, greve, mutualismo, proteção mental. Sem propaganda, sem tutela, sem terceirizar a ética ou a solução para os grandes poderes globais, cujo principal foco não é o povo palestino ou iraniano.

Palestina livre. Irã livre. A esquerda precisa caber inteira nessa luta.

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Estranho Familiar

Ser um estranho familiar. Usam nosso sangue, nossas forças e nossa alegria. Usam nossa cultura, nosso marasmo, nossas dores. Me enterram em seus cemitérios, furtam meu pedaço de terra. Terra que só serve a quem não sabe plantar. Fora do corpo, todos os cães ladram, sou fugitivo dentro da terra, culpado pelo suor do meu trabalho.

Entre Teerã e Minneapolis há um mar repleto de distinções. Mas existe um elemento que se repete: a escala da rua. Quando o poder decide que a fronteira é flexivel, qual  é o limite? ao que tudo parece indicar, está na vizinhança. Este é o lugar onde nossentimos estrangeiros-familiares.

Em Minnesota, diante da escalada de ações federais de imigração e de uma presença ostensiva de agentes do U.S. ICE, moradores montaram redes de resposta rápida: buzinas e apitos que avisam a aproximação, mensagens em aplicativos, gente filmando, acompanhando, oferecendo carona, abrigo e apoio jurídico. Diante do medo da morte, Amar o seu vizinho vira desejo de vida. A rua ganha o espectro de um rádio. E quando esse rádio se amplia, ele bagunça a economia: o chamado ao walkout e ao blackout economico de 23 de janeiro é um recado tão bonito, quase infantil: ninguém deixa o vizinho pra trás.

No Irã, a mesma escala aparece como resistência a outra brutalidade. Em 2009, gritos noturnos nos telhados foram respondidos com batidas, invasões e espancamentos por milícias como a Basij, numa tentativa de calar o coro e impedir que a madrugada virasse notícia. Há uma guerra pelo som: quando a rua canta, ela se reconhece; e se reconhecendo, ela se organiza. Em 2019, a repressão matou centenas e o apagão da internet ajudou a invisibilizar a violência. Em 2022, após a morte de Mahsa Amini, a revolta se espalhou e o Estado respondeu com força letal. O método é comum aos totalitários: controlar a multidão pelo medo. Mas na escala do quarteirão: aviso, rotas de fuga, comida na porta, cuidado entre desconhecidos, nos diz que outro mundo é possível.

Comparamos o poder iraniano e o poder trumpista nos parentescos de método. Ambos dependem de uma política de pureza: inventar um ser perfeito, um corpo-padrão, e transformar a multidão de corpos em suspeitos. No Irã, a pureza é religiosa e estatal, e o dissenso vira blasfêmia, pecado, desordem moral. No Trumpismo, a pureza parece ser nacionalizada, rica e racializada: a cidade vira triagem de seres humanos, o corpo vira documento e o imigrante, caça. Em ambos, a pedagogia do terror se alimenta do território-espetáculo e da ruptura do cotidiano, tão absurda quanto Joseph K sendo detido no Processo.  Batida na porta, patrulha na esquina, confisco, prisão, narrativa oficial deturpada e silêncio dos bons. O objetivo, para além de prender  alguns; é encarcerar a vida, construir um comportamento coletivo passivo e limitante.

Aqui, Jane Jacobs segue contemporânea. Seus olhos da rua não são ferramenta política da insurgência: uma rede voluntária de atenção e padrões comuns que mantém a rua viva pelo carinho ao próximo. A diferença está em para onde esses olhos apontam. Quando o Estado captura a vizinhança, os olhos viram a delação. Quando a vizinhança se organiza por solidariedade, os olhos viram proteção. Minnesota e Irã são uma encruzilhada: a resistência começa no açúcar emprestado, no olho no olho, no corpo que decide ficar. Depois, o coro encontra a cidade inteira. Porque, no fim, a rua só vira fronteira para quem depende do medo para sustentar as máquinas de poder. Pra quem resiste, a rua é caminho, feita de corpos, olhos e voz.

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literatura, política, Sem categoria, territórios

Sob os olhos das ruas de Minnesota

Batem duas vezes. Abro, e um rosto familiar, sem precisar dizer nome, com pressa. Desta vez não são eles.

– Got sugar?

A pergunta é doméstica, quase imperceptível. É assim que a rua começa: pelo que falta no café. Pelo açúcar.

Do lado de fora, o frio diz a que veio. Crianças inventam um jogo qualquer: pulam linhas, erram e riem alto. Um carrinho de supermercado vira casa. Um homem passa com uma mochila, olha pros dois lados. Um ônibus freia. Os olhos da rua protegem.

– I’ll pay you back

– You’re good

You’re good é o tipo de coisa que sustenta um país construído por travessias. A pá encostada na parede já está pronta para limpar o gelo.

A rua fala por baixo. A rua fala por cima. Fala na janela. Fala na luz da cozinha que acende cedo demais. Fala no cachorro que late. Fala no som de uma porta de carro que bate. Fala no barulho do caminhão de lixo, enquanto os olhos observam.

Um tiro.

O açúcar cai pela última vez. E o mundo não é de ninguém: é do quarteirão. Ele é de uma língua que já misturou com outra, e agora fala a terceira. O sotaque não entrega a origem, entrega só o trabalho de quem acreditou na terra da liberdade. O rosto, em certos dias, vira invisível. Hoje é um desses dias em que o corpo estrangeiro cai, mesmo quando nasceu na esquina.

Do outro lado da rua, alguns olham pro céu. Tem um helicóptero longe. É estranho: de repente, o lugar dele tem alfândega e rede de caça. De repente, ele acordou estrangeiro dentro da própria casa.

As crianças cantam uma cantiga sem letra fixa. O refrão vem e volta, vem e volta. A rua aprende o refrão com elas. Hoje tem carro sem placa.

Frases voam. A rua é uma guerrilha de informação, passando de varanda em varanda, de portão em portão, até virar silêncio organizado.

O açúcar, caído, mas o pote permanece cheio de cotidiano. Quando a porta se fecha, a cidade sintoniza: um cuidado. Um rádio clandestino que só funciona porque ninguém tenta ser herói, só tenta não deixar nenhum vizinho sozinho.

A rua segue. E a notícia segue junto, grudada no ar, repetindo baixinho: hoje, olho aberto. Hoje, porta aberta.


Enquanto o mundo se foca na geopolítica dos grandes tabuleiros, há resistência na escala de vizinhança. A lógica do ICE parece transformar rua em fronteira, e vizinhança em zona de operação. Com aumento forte de ações federais de imigração na área de Minneapolis, e presença ostensiva de agentes, uma onda de protestos, paralisações e mobilizações que se espalharam para outras cidades dos EUA.

A anacronia dada é: como um país que se construiu pela imigração e pela promessa de liberdade passa a procurar um “ser essencial” que nunca existiu, como se pudesse purificar a própria origem em um norte-americano padrão?

O que se vê, então, é a fabricação do estrangeiro dentro do lar, o deslocamento íntimo imposto por política: como uma metamorfose kafkiana, você acorda estrangeiro na casa, mal quisto no país que usa sua força de trabalho. É por isso que o conflito em Minnesota não soa como tema local. quando a fronteira atravessa a cidade por dentro, o Estado deixa de ser caminho de diálogo, a resistência reorganiza a vida comum.

E é justamente aí que a escala de vizinhança rompe o feitiço: olho no olho, redes de solidariedade, cuidado, alerta. Em vez de esperar salvação institucional, gente comum organiza monitoramento, abrigo, transporte, apoio material, e chega ao limite tático de travar a economia, como no “blackout”/greve geral convocado para 23 de janeiro, com a palavra de ordem contra U.S. Immigration and Customs Enforcement ecoando em cartazes e cantos, ICE OUT.  

É política territorial no sentido mais profundo: os olhos da rua protegendo os seus, enquanto o poder tenta caçar pessoas como ratos. Fievel chegando a Nova York fugindo de pogrom, Ligeirinho correndo na beira da fronteira, Splinter ensinando sobrevivência nos esgotos de Manhattan, Stuart Little tentando caber numa família. O Mickey é só mais um. O sonho americano não é Disney.

desenho de autoria propria – 2018
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UE–Mercosul e o risco de esmagar a agricultura familiar

Quando o comércio corre mais rápido do que a justiça territorial, quem tropeça primeiro é quem pisa no barro.

Estrada

A enchente levou a estradinha de terra batida. No dia seguinte, o atravessador apareceu com o caminhão-baú e um papel na mão. “Sem esse documento, você não vende.” E, como diria Ana Castela, “acreditei que era herói, mas é bandido”.

No dia 9 de janeiro de 2026, o Conselho da União Europeia autorizou a assinatura do acordo UE–Mercosul. Para quem não acompanha: é um acordo de livre comércio que pretende reduzir tarifas e ampliar cotas entre os blocos, mexendo com o que cada lado vende e compra, principalmente agro e indústria. Visto do alto, parece diplomacia com elementos interessantes. No chão, porém, é disputa: preço, rota, contrato, e a terra rural voltando a ser peça do tabuleiro do capital.

Fresta


No Brasil, quem corre o risco de receber esse vendaval pela fresta é um ente imenso e pouco fotografado: a agricultura familiar. O Censo Agro de 2017 aponta mais de 10 milhões de pessoas ocupadas nisso e cerca de 23% do valor da produção vindo daí. Isso não é detalhe, é estrutura social de país. É renda circulando em cidade pequena e média, feira, caminhãozinho, escola rural, estrada de terra. É território respirando baixo, enquanto o agronegócio faz show com telão.

A primeira tensão nasce rápido. Se essa janela comercial aumentar o apetite por commodities, a terra encarece, o arrendamento endurece, a fronteira produtiva ganha força. O pequeno produtor, sem colchão financeiro, sentirá como água entrando pela soleira. A desigualdade no campo não chega com anúncio. Chega como “o preço do hectare”, “o vizinho vendeu”, “o atravessador apertou”. Chega como chuva que enlouqueceu, enchente onde era seca e, às vezes, sorrateira como tocaia de jagunço.

O Brasil traz uma notícia ambígua. Houve redução do desmatamento divulgada pelo PRODES. Respiro diante das tentativas de passar a boiada. Mas a economia que empurra o desmatamento é rede, e rede muda de humor com o mercado. Tem grilagem, licença duvidosa, legalidade convivendo e negociando com ilegalidade. E governança que evapora quando a renda da terra chama.

A Europa tenta colocar freio na própria fome de importação. A regra antidesmatamento exige diligência e rastreabilidade: produto “desmatamento zero”, legal, rastreável até a área de produção. Só que a própria UE vem adiando e revisando prazos porque sabe o peso operacional disso tudo. Agora imagine essa exigência aterrissando na América do Sul, onde o Estado muitas vezes chega tarde, e o atravessador chega cedo.

ESG não enche o prato

E aqui aparece a segunda tensão, silenciosa e cruel. Como fazer justiça ambiental num país que nunca pagou a dívida da reforma agrária? Rastreabilidade é necessária, sim. Eu não romantizo cadeia produtiva submersa, desenhada em Brasília nos gabinetes do agro. O problema é o Brasil real. O grande ajusta a exploração por compliance, como quem vive passeando de ponte aérea. O pequeno paga seu labor como quem compra botijão no desespero, no fim do mês. E quando não consegue, some da cadeia formal: vira refém de intermediário, vende mais barato, trabalha mais para sobrar menos. Quando vira marketing, “verde” vira barreira de entrada. O selo verde brilha, mas o prato do povo continua vazio.

Daí o paradoxo: a floresta em pé aparece como narrativa, mas quem entra decisivo no mercado global é quem já tinha estrutura, advogado, crédito barato e uma geografia montada a seu favor. Leia-se: latifúndio, lastro e poder.

Uma imagem simples, quase como se Jane Jacobs tivesse crescido no interior do Maranhão. Um satélite olha a Amazônia enquanto um homem olha a própria cerca. O satélite mede quilômetros quadrados. O homem mede dias de chuva, preço do adubo, a dívida do mês. Quando a política internacional só enxerga o satélite, atropela a escala da vida. Quando só enxerga a cerca, fere a escala da Mãe Terra. Falta olhar de chão, de dentro do território, e talvez principalmente de quem não tem nem satélite nem cerca.

Aqui já não cabe o maniqueísmo de vitrine que virou a política eleitoreira. Livre comércio versus protecionismo. Ambientalismo versus produção. O problema é a velocidade voraz do capital sobre a terra. O comércio corre, a governança territorial anda, e o pequeno produtor tenta pegar um trem que já saiu, carregando documento, nota fiscal e a esperança básica de não passar fome.

Contrapartida

Se a gente quiser falar sério de Sul Global, sem romantizar pobreza e sem engolir propaganda de “modernização” que sempre chega junto do capital, o papo é reto: como impedir que esse acordo vire motor de concentração territorial? Como evitar que o campo pobre e a floresta voltem a ser zona de sacrifício, agora com etiqueta reciclável e selo ESG?

A resposta, a meu ver, não é instagramável. É infraestrutura pública. Rastreabilidade precisa ser serviço público, cooperativo e territorializado: cadastro georreferenciado acessível, assistência técnica forte, cooperativas, consórcios municipais, plataformas de governança simples que virem prática campesina, não burocracia. Se o mundo exige geolocalização e diligência, o Estado precisa entregar ferramentas ao povo para isso não virar exclusão.

E aqui entra o urbanismo, no sentido mais político da palavra. A cidade consome sem ver a origem, especula a terra e terceiriza o custo social do alimento. A gente pega a carne no freezer e não vê o sangue vertido. Se a agricultura familiar é base social, ela não pode virar refém do humor do mercado externo ou de chantagem logística. CEASAs, mercados municipais, cozinhas públicas, logística curta. PNAE e PAA como programa de país, não apenas de governo. Escola pública e hospital público como compradores regulares de cooperativas e agricultores familiares, com contrato estável e rota planejada são alguns caminhos.

O UE–Mercosul é uma operação territorial transcontinental: gera valor, especulação e espalha impacto. E uma operação territorial deste porte exige contrapartida política. Uma contrapartida concreta possível para o Sul é criarmos um programa público que priorize a agricultura familiar, articulado a uma política urbana de alimentação do povo pobre. Sem contrapartida realmente popular, o acordo corre o risco de virar atalho para a riqueza passar correndo na sua lógica de extração, enquanto o pobre do campo fica no acostamento, vendo a vida se desfazer no pó da estradinha de terra batida.

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Arquitetura e Urbanismo, artigo, brasil, economia, onu, política

O Sequestro de Maduro e o Retorno do Quintal

O ano começa cinematográfico: Nicolás Maduro sequestrado por forças dos EUA. Numa crua ambiguidade conceitual, Washington chama de “operação de aplicação da lei”, enquanto Trump fala em administrar a Venezuela até uma transição. A lógica é de exceção e retomada do controle do quintal: a potência veste farda de polícia e de tutela, reorganiza o tabuleiro e debocha do direito internacional. Não nos enganemos, o direito só vale até a linha do interesse. A democracia representativa reaparece como mito pacificador: acalma consciências, enquanto convive com o submundo da política crua dos impérios.

No subsolo econômico, a Venezuela é petróleo e infraestrutura em ruínas. A Casa Branca acena a investimentos de empresas “interessadas” para “reconstruir” o setor. Enquanto isso, o povo venezuelano sente a vida no preço. A geopolítica  de Trump tem estilo de capitão de obra emergencial: chega de solavanco, troca o comando do canteiro e abre concorrência pelos contratos.

E Putin, deixou Maduro isolado? Moscou condena, mas evita personalizar; chegou a alertar seus cidadãos a não viajarem ao país. É o pragmatismo frio, comum a todos os líderes aqui citados, mas na Rússia ele parece método nacional: no inverno da geopolítica, aliados são ativos, não parentes. Maduro era um aliado simbólico no quintal americano; a prioridade russa segue sendo a Ucrânia, e o episódio vira laboratório caro.

Trump, num primeiro momento, reage com choque à alegação de que a Ucrânia teria tentado atingir uma residência de Putin e entra no diálogo. Depois, recua: diz não acreditar que Kiev tenha mirado a residência. O padrão que confunde ideólogos é menos lealdade e mais transação comercial: cúpulas, negociação e garantias para Rússia e Ucrânia. Zelensky pede garantias longas porque conhece o preço de promessas vagas do amigo norte-americano; Putin testa limites; Trump tenta produzir uma saída negociada na reorganização dos blocos de influência.

A China entra nisso como em quase tudo: sem muito espetáculo. Para ela, Venezuela parece ser menos aliança ideológica e mais energia, dívida e posição estratégica. Condena a violação de soberania porque o precedente lhe interessa, inclusive no léxico sobre Taiwan, mas joga o pragmatismo: negociar com quem controlar o canteiro amanhã para preservar petróleo, contratos e recebíveis.

E o chavismo: cai junto? Sequestrar um líder não desmonta o ecossistema, e nem parece ser esse o objetivo. Delcy Rodríguez como interina sugere continuidade ainda que com possível disputa interna, não colapso automático. A base burocrático-militar pode soar fragilizada ou desleal pela facilidade e velocidade com o qual o presidente da nação foi raptado. Assim, parece muito aberto, o chavismo pode rachar; mas pode também se fortalecer na defesa da soberania diante da invasão do inimigo comum.

Aqui faço parêntese e saio da arquibancada acrítica da vida: nenhuma das lideranças citadas está pensando primeiro no povo pobre. Não é essa a pauta. Maduro, que também debocha do direito internacional, sai de cena justamente quando a Venezuela ensaiava uma melhora insípida e desigual: riqueza circulando em bolsões dolarizados, enquanto o país segue com salário pulverizado, serviço público em ruína, pobreza massiva e migração como destino. O país parece preso entre limites internos do chavismo e do Estado rentista e a pressão geopolítica das sanções, que estrangulam receita, crédito e a operação petroleira.

Os erros estruturais são conhecidos: incapacidade de focar e diversificar os caminhos de produção de riqueza, aprofundamento do rentismo; câmbio prolongado se transformando em máquina de arbítrio e corrupção; Estado aparelhado por amiguismo. Um projeto político que finda (querendo ou não) por misturar austeridade e welfarismo: benefícios pontuais como sustentação política enquanto a austeridade recai sobre salário derretido, investimento público e capacidade técnica estatal. O caminho misto do Chavismo mantém as elites, organizadas em duas redes sobrepostas: empresarial tradicional e burocrata-militar, que disputam o próprio Estado como “meio de produção” decisivo para manutenção de seus interesses corporativos, enquanto o povo fica ao relento da própria sorte.

O Brasil, vizinho estrutural da Venezuela e fronteira ativa, corretamente condena os bombardeios e o sequestro do então presidente Maduro enquanto tenta manter canal com Caracas, sem abrir mão de diálogo com os EUA e da postura de mediador de conflitos.

Os riscos principais, entre muitos, cito três:

  • humanitário-fronteiriço: pressão migratória e acolhimento dos irmãos latinos diante do aumento da instabilidade,
  • geopolítico-comercial: preservar canais com Washington sem aceitar o precedente arbitrário como padrão e
  • político-interno: nos prendermos em caricaturas de “defender ditadura” x “entreguismo yankee” em um ano eleitoral.

A verdade do mundo é velha: a riqueza é produzida coletivamente e privatizada pelos que têm poder para fazer isso. E aqui a esquerda falhou de um jeito especifico, foi elegante e engenhosa em distribuir renda, mas tímida em reorganizar os caminhos da produção e universalizar a riqueza. Como diria minha avó, perdeu o fio da meada. Enfraqueceu-se ao não fazer os enfrentamentos estruturantes da sociedade. Agora, diante da austeridade e do colapso de expectativas, parte da esquerda latino-americana se refugiou na liturgia militante: slogan, panfleto, guerra imagética, e manutenção do poder pelo poder, deixando o campo livre para forças que capturam a indignação popular ou a domesticam com retórica e medo.

Lembro-me de uma conversa com um venezuelano que era repositor de mercado em Buenos Aires, um dos dez venezuelanos que conheci na vida. Embora sofresse preconceito, tivesse um emprego pobre, morasse em uma periferia de Buenos Aires, estava se sentindo melhor ali. Sua fuga não fora ideológica, apenas material, uma frase me dele marcou, era algo como: “Chaves é um Bolsonaro de bandeira trocada”. Com todos que conversei aprendi o quão complexo é o problema do país deles, e que nós, brasileiros não sabemos xongas do que acontece na América Latina.

Mediante isso, uma coisa é certa: responsabilidade não se fabrica por intervenção unilateral, narrativa panfletária ou verticalização burocrática; o precedente piora o mundo. A crítica ao Trump é simples: não é santificar o Chavismo-Madurismo, é não normalizar a soberania como detalhe e a instabilidade como padrão político. Amanhã a exceção escolherá outro alvo, e nunca há motivo nobre, e o alvo, direto ou indireto será a vida do pobre. No fim, todos tratam “democracia” como gramática útil para legitimar violência, negociação, força e propriedade.

Se a esquerda latino-americana quiser virar o jogo, precisa parar de tratar produção como palavra inimiga e empreendedorismo como culpa, mérito como crime, entre muitas outras pautas contemporâneas. É preciso começar a falar de produção popular organizada, com regra, técnica e escala, sem precarizar a vida.

Diversificar não é palavra solta, é criar milhares de pequenas indústrias do cotidiano: alimento, reforma, saneamento, manutenção urbana, reciclagem, energia solar de bairro, logística leve, carpintaria, metal, costura, software simples, conectadas por cooperativas, consórcios comunitários e redes multi-escalares de serviços. O motor não precisa ser só o Estado, embora ele deva ter participação ativa: pode ser fundo rotativo de bairro (crédito barato gerido localmente e alimentado por imposto sobre grandes fortunas), compras ancoradas por médias e grandes empresas via metas de consumo local e cadeias curtas, cooperativas de plataformas (o app pertencendo a quem trabalha, não a um rentista), e direitos para o trabalhador por conta própria que se enquadre em microempreendedor individual (bolsa auxilio, previdência, seguro, descanso, proteção à doença), pra que autonomia não vire abandono.

Substituir a disputa etérea e moral por uma arquitetura de vida: desenho institucional simples, replicável, que faça o pobre produzir com dignidade, e não apenas sobreviver no intervalo entre um benefício e outro. É recolocar o fio da meada na agulha. Sem isso, a exceção seguirá escolhendo seus alvos, e, como sempre, o alvo final será a vida do pobre, enquanto os bilionários aproveitam o mundo como parque de diversões.

Desenho de autoria pessoal: viagem a Buenos Aires em 2019: Roda de conversa – Venezuelanos terminando seu dia de trabalho enquanto muitos da cidade estavam começando o dia de trabalho.
os temas: América Latina, Chaves, Bolsonaro, Conca jogava muita bola.
— em Caballito.
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