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Bolsonarismo: um peronismo de família

Quando o Sobrenome vira Partido

O bolsonarismo pode estar construindo, à sua maneira, uma espécie de peronismo brasileiro do século XXI. Não porque Bolsonaro seja Perón, nem porque seus projetos políticos sejam similares. Reflito sobre uma forma política construída na capacidade de perceber uma transformação da composição social, encontrar suas formas concretas de organização e produzir a partir delas identidade política. A analogia tem um limite, e é ele que interessa: o peronismo incorporou o trabalhador ao Estado; o bolsonarismo, até aqui, apenas o mobiliza.

O bolsonarismo encontrou uma classe trabalhadora que boa parte da política brasileira ainda procura. Gente que vive do próprio trabalho, mas que nem sempre se reconhece nos instrumentos consolidados a partir das políticas trabalhistas do século XX. O trabalhador industrial, organizado pelo sindicato e reconhecido politicamente a partir de sua condição de classe, não desapareceu, mas deixou de representar sozinho o mundo laboral. Ao lado dele existe uma massa de trabalhadores dos serviços, terceirizados, autônomos, MEIs, motoristas, entregadores, pequenos comerciantes e assalariados que transitam entre emprego, desemprego, bico e pequeno negócio. Em 2025, segundo IBGE/PNAD, o Brasil tinha 26,1 milhões de trabalhadores por conta própria e informalidade de 38,1%. Não é uma margem exótica do mercado de trabalho, mas parte central de sua configuração atual. Informal não é sinônimo de bolsonarista, e o lulismo também tem base expressiva nesse meio. O que parece que podemos afirmar, porém, é que o bolsonarismo disputa esse segmento com eficácia narrativa.

Parte da esquerda ainda olha para essa nova classe trabalhadora com categorias do século passado. A ironia do “pobre de direita”, do “CEO de MEI” ou a explicação pela simples ignorância política revelam mais que preconceito: revelam dificuldade de compreender uma estrutura social que mudou. O sujeito que abre um MEI, dirige aplicativo, vende comida ou alterna emprego formal e trabalho autônomo continua materialmente inserido na classe trabalhadora, mas organiza sua experiência por outras referências. Quando a esquerda ri da identidade que ele construiu, em vez de compreender como ela foi produzida, entrega a outros a tarefa de disputá-lo. Parte desse trabalhador foi formada pelas próprias políticas dos governos do PT e não encontrou nos partidos de esquerda espaços de organização capazes de acompanhar sua nova condição material e seus desejos subjetivos.

O peronismo encontrou o trabalhador produzido pela industrialização argentina. No Brasil, esse papel coube ao getulismo, que estruturou a política em torno do trabalhador urbano, com a CLT, o sindicato reconhecido pelo Estado e a carteira assinada como porta de entrada na cidadania. Dele derivaram o trabalhismo de Jango e Brizola e, por ruptura e continuidade, o novo sindicalismo e o lulismo. Toda essa linhagem organizou a política de esquerda em torno do trabalhador formal e de seus instrumentos. O bolsonarismo encontrou parcelas importantes do trabalhador que ficou fora dessa moldura ou foi expulso dela: o produzido pela desindustrialização, pela precarização e pelo capitalismo de serviços. A incorporação getulista sempre foi parcial e a informalidade sempre existiu ao lado dela; o que mudou é que o trabalhador formal deixou de ser a figura que organiza de forma hegemônica o conjunto.

No peronismo clássico, o trabalhador industrial encontrava no sindicato uma forma de organização, reconhecimento e pertencimento. A experiência concreta do trabalho era convertida em identidade coletiva e, a partir daí, incorporada ao Estado e ao próprio peronismo.

O bolsonarismo opera sobre outra configuração social. Seu trabalhador, mais espalhado nos serviços, na informalidade e no pequeno empreendedorismo, encontra outros instrumentos de mediação. Sua organização passa por igrejas, redes sociais, família, comércio local, grupos profissionais e redes territoriais. É nesses espaços que se produz a identidade de quem trabalha, sustenta os seus, enfrenta dificuldades e se vira.

As instituições são diferentes, mas com função política comparável. O sindicato ajudava a transformar a experiência social em consciência coletiva. Igrejas, redes digitais e circuitos locais cumprem parte dessa tarefa ao oferecer linguagem comum, comunitarismo e uma interpretação compartilhada da vida cotidiana.

Outro ponto de aproximação com o peronismo está no personalismo. O bolsonarismo já não se organiza apenas em torno de Jair Bolsonaro. O sobrenome virou uma marca política própria, superior a legendas partidárias.

A eleição de 2026 materializou esse poder familiar em posições estratégicas. Flávio disputa a Presidência; Michelle foi eleita senadora pelo Distrito Federal; Carlos, senador por Santa Catarina; Jair Renan, deputado federal pelo mesmo estado; e Renato Bolsonaro, deputado federal por São Paulo. Rogéria Bolsonaro, ex-mulher do ex-presidente, também disputou a eleição no Rio. A família se distribui entre o Executivo nacional, o Senado e a Câmara, em diferentes estados, o que revela uma capacidade eleitoral que não depende de implantação partidária territorial tradicional.

Isso ainda não é uma tradição política. Dinastias brasileiras se diluíram quando o fundador saiu de cena, mas pode vir a ser. Movimentos personalistas só sobrevivem ao líder quando conseguem transferir pertencimento e lealdade para o mesmo campo, e aí as redes digitais ajudam, ao ampliar a presença simbólica do líder e reproduzir sua identidade para além de sua atuação direta. O resultado de 2026 sugere que o nome Bolsonaro pode funcionar como portador de uma identidade transferível entre pessoas, cargos e territórios. É uma possibilidade; o teste será a capacidade de mobilizar sem o fundador.

O peronismo construiu ainda um repertório que marcaria a América Latina: grandes mobilizações, comunicação direta com as massas, símbolos facilmente reconhecíveis, antagonismos claros e uma narrativa que fez de Perón e Evita figuras quase míticas. Sua força não vinha só da estrutura sindical ou das políticas sociais, mas, principalmente da capacidade de produzir emoção, lealdade e ritual. O bolsonarismo tem seu equivalente: atos de massa, comunicação direta pelas redes, símbolos de fácil reconhecimento (as cores nacionais, o vocabulário de Deus, pátria e família), antagonismo permanente e a figura do “mito”. Aqui a semelhança é real.

É no que vem depois que ela acaba. O sindicato peronista era mais que identidade: tinha poder de barganha, estava incorporado ao Estado e produziu direitos concretos. O bolsonarismo preencheu o vazio da representação, mas não o da organização autônoma. Igrejas, redes e comunidades criam identidade, mas não formulam política de previdência, crédito ou proteção para quem trabalha por conta própria. 

O que se estruturou foi uma máquina capaz de reproduzir o poder familiar por meio de filhos, esposa, irmãos e sucessivas disputas eleitorais. Sem organização autônoma nem incorporação institucional, o que resta do paralelo é o personalismo e mobilização, o que descreveria igualmente Vargas, Collor ou Trump.

Esse limite carrega um risco concreto. Quando liderança, movimento e projeto ocupam o mesmo lugar, a crítica interna passa a ser tratada como deslealdade, a sucessão assume caráter familiar e as instituições são medidas pela relação que mantêm com o líder. No bolsonarismo, o alvo dessa lógica é o Supremo. Os grandes movimentos do campo, da deslegitimação do sistema eleitoral ao 8 de janeiro, convergem para o enfrentamento da corte que o contém, e o crescimento de uma bancada favorável no Senado indica que o ataque deixou de ser apenas retórico. É o Senado que julga ministros do STF e aprova suas indicações, e uma maioria alinhada transforma o conflito com o Judiciário em instrumento concreto de poder. 

Há ainda um segundo risco, interno ao próprio campo. Em movimentos com organização autônoma, a base pode cobrar, corrigir e eventualmente substituir o líder: o sindicato negocia, o partido delibera, a assembleia vota. Igrejas, redes e comunidades criam pertencimento, mas não foram feitas para isso, e a lealdade que produzem é dirigida à pessoa, não a um programa. Se o líder erra, rompe com aliados ou persegue interesses próprios, a base não dispõe de instrumentos políticos para contê-lo. Ela só tem duas opções, seguir ou sair, e a história de movimentos personalistas mostra que a maioria segue. Quando a mediação é um nome, o que limita o poder dele é o que ele mesmo decide respeitar. Reduz-se a política parlamentar, amplificando o poder de uma política familiar.

A vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia indica que isso não é só brasileiro. Circula pela América Latina uma mesma gramática política: segurança à Bukele, economia à Milei, alinhamento a Trump e lideranças personalistas sem projeto de país apresentadas como resposta à crise das instituições. Em todos os casos, partidos e organizações sociais perdem a mediação para plataformas, influenciadores e igrejas, estruturas que transformam medo e ordem em narrativas simples e de circulação rápida.

O bolsonarismo não criou o vazio que ocupa; encontrou-o. Milhões de pessoas vivem do próprio trabalho sem sindicato, sem carteira assinada e sem partido que as reconheça, e foi nesse espaço que as redes de lideranças personalistas se instalaram. Isso é sua força eleitoral e sua fraqueza política. 

A resposta não passa por desqualificar a identidade que esse trabalhador construiu ou tentar trazê-lo para uma liturgia trabalhista do século XX, mas por oferecer o que ela não dá: organização própria, direitos que alcancem quem trabalha por conta própria, proteção contra o risco e representação que não dependa de um sobrenome. Enquanto isso não existir, a disputa seguirá sendo entre nomes, e quem não tem organização para oferecer continuará perdendo para quem tem, pelo menos, um sobrenome.

Guardo comigo uma frase que ouvi de uma jovem família de pequenos empreendedores: “Para trabalhar 6×1 para os outros, é melhor trabalhar 7×0 para mim”. A frase expressa uma força desejante: a de construir um projeto próprio de vida, que não cabe no trabalho explorado por outro. Esse desejo tem raiz material. Nasce da experiência concreta da exploração, da escala que consome o tempo de vida em troca de salário, e é isso que a esquerda precisa levar a sério antes de qualquer liturgia. Mas o 7×0 não suprime a exploração. O patrão deixa de ser visível e o trabalhador passa a vender a si mesmo, sem férias, sem previdência, sem proteção contra o risco, extraindo de si o próprio excedente com a saúde. A tarefa da esquerda que quer enfrentar o bolsonarismo e esta nova colonização latino americana é dar a esse trabalhador a autonomia que ele busca e instrumentalizar direitos e organização coletiva, em vez de abandoná-lo à autoexploração e a lideranças que fazem dele base eleitoral.

foto original de https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/familia-bolsonaro-elege-michelle-carlos-jair-renan-e-irmao-de-jair-em-sc-sp-e-df.shtml

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Uma breve reflexão a partir do terremoto na Colômbia

A resposta do Estado colombiano ao terremoto dos últimos dias expõe uma questão política que ultrapassa a emergência imediata: que tipo de soberania e de capacidade estatal precisamos construir em um mundo atravessado por crises cada vez mais complexas, interdependentes e territorialmente desiguais.

O governo colombiano mobilizou estruturas nacionais de emergência, equipes de busca e salvamento, forças de segurança e mecanismos extraordinários de resposta. Ao mesmo tempo, produziu uma contradição importante. A resistência inicial à incorporação de equipes internacionais especializadas revelou uma concepção de gestão fortemente centralizada, orientada pela demonstração de autossuficiência e de controle nacional da resposta. Em um momento no qual cada hora pode significar vidas, retardar cooperação técnica externa é uma decisão política que precisa ser examinada para além da retórica ideológico-patriótica.

Soberania e capacidade de comando, diante de catástrofes de grande escala, exigem também humildade institucional, articulação e mobilização. Reconhecer rapidamente os próprios limites também é capacidade de Estado. Um governo forte amplia suas possibilidades de ação ao incorporar recursos externos dentro de uma estratégia própria, coordenando governos locais, universidades, forças de emergência, sociedade civil, organismos multilaterais e cooperação internacional sem perder direção política e sem se infantilizar diante do marketing ideológico que sustenta imagens de governo.

A distribuição territorial da resposta também importa. Quando o centro concentra decisões e determinados territórios permanecem dependentes de recursos improvisados ou capacidades locais frágeis, a centralização revela seus limites. Capacidade estatal se mede pela capilaridade concreta da ação.

É também nesse ponto que as bandeiras do marketing eleitoral começam a perder força. A mobilização da pátria, da bandeira e da unidade no campo do abstracionismo eleitoreiro pode produzir coesão social, levar candidatos ao poder, mas catástrofes não deveriam se transformar em palco de marketing ideológico. A pandemia já demonstrou isso no Brasil. Há momentos em que o discurso político precisa baixar o volume para que apareçam a técnica, a ciência, a logística, a engenharia, a saúde pública e a organização social e material dos territórios.

O terremoto colombiano possui origem geológica, mas ocorre em um mundo no qual crises ambientais, climáticas, sanitárias, energéticas e infraestruturais se tornam interdependentes. A crise climática é global em sua dinâmica e profundamente territorial e desigual em seus efeitos. Amplia eventos extremos, deslocamentos populacionais, pressões sobre sistemas urbanos e interrupções de cadeias logísticas. Já estamos neste mundo. Isso exige construções político-intelectuais menos inflamadas pelos recortes de comunicação e mais comprometidas com projetos de curto, médio e longo prazo.

No curto prazo, entram protocolos de emergência, cadeias de comando, equipamentos, informação e cooperação internacional. No médio prazo, sistemas de defesa civil, formação técnica, logística, infraestrutura, redes hospitalares, mapeamento de riscos e fortalecimento das capacidades municipais. No longo prazo, planejamento territorial, adaptação climática, autonomia tecnológica, política industrial, produção científica e integração regional.

Essas escalas precisam conversar. E para isso é preciso organizar uma mesa ampliada, mas minimamente objetiva: entender quem produz informação, quem decide, quem executa, quem possui capilaridade territorial, quem controla recursos e onde estão as capacidades que faltam. Municípios, universidades, governos nacionais, organizações sociais, setor produtivo e organismos internacionais não cumprem o mesmo papel, nem precisam cumprir. A articulação também não elimina os conflitos entre esses atores, seria ingênuo imaginar isso. Ela constrói convergências possíveis dentro dos dissensos. Não é uma mesa simples. Mas é uma mesa que precisa existir. Um projeto de nação exige essa capilaridade, capacidade de se articular, produzir continuidade e construir convergências.

É aí que a distinção entre nacionalismo abstrato propagandístico e projeto de nação ganha potência. O nacionalismo opera com símbolos de adesão imediata e simplificação dos conflitos; tudo pode acabar reduzido a soluções mágicas, uma cloroquina para se curar da dor. Problemas complexos pedem justamente o contrário da solução mágica: identificar escalas, reconhecer capacidades, distribuir responsabilidades e saber coordenar redes de conflitos.

A cooperação internacional também pode ser pensada como política permanente de soberania. Países podem construir acordos de reciprocidade, protocolos regionais de emergência, bancos compartilhados de equipamentos, redes científicas e equipes especializadas mobilizáveis entre fronteiras. Para a América Latina, essa poderia ser uma agenda concreta de integração, menos dependente de grandes declarações diplomáticas e mais vinculada à construção cotidiana de pautas comuns.

A Amazônia ajuda a compreender essa necessidade sem relativizar soberanias nacionais. O bioma, suas bacias hidrográficas, fluxos atmosféricos e sistemas ecológicos atravessam diferentes países, enquanto cada território permanece sob a soberania de seu respectivo Estado. Cooperar sobre fenômenos transfronteiriços não significa internacionalizar a gestão territorial. Significa reconhecer que a geografia não se encerra onde termina uma fronteira político-administrativa e que Estados fortes também precisam saber cooperar para proteger seus próprios povos e territórios.

Uma boa solução técnica ganha força quando encontra arquitetura política para sustentá-la. Articular significa reconhecer interesses, potencialidades, conflitos e construir convergências suficientes para transformar conhecimento em decisão. A política não substitui a técnica, e a técnica não governa sozinha. O difícil, e talvez o mais interessante, é construir as condições políticas para que boas soluções efetivamente aconteçam.

A soberania do século XXI será, a meu ver,  cada vez mais medida por essa capacidade relacional e territorial: organizar recursos próprios, reconhecer limites, acionar parceiros sem subordinação e transformar a cooperação e troca de saberes em aumento de potência política, técnica e territorial. Talvez seja justamente no intervalo entre a emergência e o horizonte imponderável que teremos de aprender a conceber projetos de nação capazes de transformar crises em aprendizado institucional, articular sociedade e conhecimento e produzir respostas à altura da complexidade do mundo que já chegou.

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BigTechs e a centralização das informações

O Delírio da Biblioteca de Babel

Têm sido amplamente divulgadas as práticas de grandes empresas de tecnologia e inteligência artificial que compram acervos e bibliotecas inteiras, digitalizam suas obras e retêm essas informações como matéria-prima para o treinamento de seus sistemas. Em muitos casos, não se tratando apenas de acessar o conteúdo, mas de garantir exclusividade sobre ele.

Além do caráter socialmente questionável e dos riscos éticos envolvidos, essas empresas parecem desconsiderar uma dimensão primordial da informação: sua credibilidade não se estabelece apenas pela acumulação de dados, mas pela possibilidade de circulação, confronto, verificação, legitimação e reconhecimento coletivo.

Ao retirar uma obra de circulação, uma empresa de inteligência artificial não se torna necessariamente a única potencializadora do conhecimento nela contido. Corre, ao contrário, o risco de transformar esse conhecimento em algo perdido no limbo do algoritmo: disponível para o sistema, mas inacessível à sociedade que o produziu. A grande revolução humana provocada pela imprensa consistiu justamente na ruptura de um processo de centralização da informação. A reprodução e a disseminação das fontes primárias ampliaram o acesso de sociedades inteiras ao conhecimento e tiveram um papel decisivo na formação cultural, científica e política da humanidade.

Informação, vale lembrar, não é sinônimo de conhecimento. Reunir todas as informações do mundo não significa, necessariamente, ampliar a capacidade de relacioná-las, criticá-las, tensioná-las ou confrontá-las com a experiência cotidiana. Podemos pensar em um exemplo alegórico: ao falarmos da gravidade, lembramos de Newton e da maçã; ao falarmos de Einstein, surgem histórias sobre sua observação atenta de fenômenos aparentemente banais como as formigas. Verdadeiras ou não em todos os seus detalhes, essas narrativas expressam uma ideia importante: o conhecimento não nasce apenas da informação obtida, mas também das relações sutis que estabelecemos entre o aprendizado delas e os acontecimentos e experiências de relação com o mundo ao nosso redor.

Da mesma forma, são as trocas entre muitas pessoas que possibilitam a validação, a contestação e a transformação do conhecimento. Um livro apropriado exclusivamente por uma empresa de inteligência artificial, do qual não seja possível encontrar sequer um exemplar em uma biblioteca ou em um sebo, permanecerá sob suspeita: tratava-se de uma obra concreta, produzida e datada, ou de uma invenção posterior do próprio sistema?

O que faz de Notre-Dame de Paris uma obra de impacto? A existência de um primeiro fac-símile ou o fato de o livro ter circulado por inúmeros países, transformando uma arquitetura construída em personagem, inspirando filmes, animações, adaptações, narrativas infantis, interpretações críticas e incontáveis apropriações culturais?

O impacto de uma obra está, em grande parte, em sua capacidade de ser encontrada por múltiplas entradas: edições, citações, leituras, vozes comuns, traduções, formatos, adaptações e remixagens. Sua força não reside apenas em uma suposta origem preservada, mas nas redes de sentido que se formam ao seu redor. Foi exatamente assim que mantemos vivas obras fundantes da humanidade como a Bíblia, Ilíada ou Popol Vuh.

O caráter regressivo do sistema devorador criado pelas big techs está justamente na incompreensão de que a informação só adquire sentido dentro de fluxos e redes sociais complexas, e de que o conhecimento é sempre, em alguma medida, uma produção coletiva.

Ao ignorarem essa dimensão, essas empresas alimentam uma disputa alienada e eticamente problemática, cujo resultado pode não ser o aumento da capacidade cognitiva da sociedade nem a valorização real de seus sistemas. Pode ser, ao contrário, a perda da autonomia coletiva para processar, verificar e produzir conhecimento ou até mesmo a incapacidade de reconhecer como importante aquilo que desapareceu nos porões de um algoritmo.

As bigtechs tentam encontrar o Livro Total que conteria o compêndido perfeito de todos os demais. O mito borgiano, perseguido por muitos na infinita Biblioteca de Babel. A nós, respiremos os bons ácaros dos bons sebos e conversemos sobre o que lemos nas boas rodas de amigos. 

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Rentismo, Territórios e Crise Climática

Imagem de Nano Banana – extraída do Google Imagen

O financiamento internacional não circula de maneira neutra pelo mundo. Seus percursos acompanham alianças políticas, interesses comerciais, disputas militares e posições estratégicas. Em um cenário internacional reorganizado por guerras, pela corrida tecnológica e pela busca de segurança energética, dentro da lógica hiperprodutivista do capital contemporâneo, parte dos recursos antes destinados ao desenvolvimento econômico e social tende a ser absorvida pelas prioridades militares dos países centrais ou redirecionada aos territórios considerados decisivos para suas estratégias. Estamos em um mundo marcado por conglomerados transnacionais que concentram cadeias inteiras de produção, do televisor ao navio,ao mesmo tempo que a organização social se dissolve no hiperindividualismo. Neste cenário, como demonstraram Alesina e Dollar, a distribuição da ajuda internacional responde tanto às necessidades econômicas quanto às alianças e aos interesses geopolíticos dos países financiadores.

Para os países periféricos, esse movimento ocorre em um terreno historicamente marcado pela dependência financeira. Os capitais chegam vinculados a projetos, garantias, concessões e expectativas de rentabilidade. A questão, portanto, não se resume a uma suposta baixa capacidade burocrática desses Estados, como o senso comum costuma emanar com a alcunha do “Estado ineficiente”. Muitas vezes há conhecimento técnico, instituições, profissionais e instrumentos públicos capazes de realizar intervenções complexas. O problema está no modo como essa capacidade é politicamente orientada e comprometida com determinados projetos.

O Rio de Janeiro é um exemplo visível desse processo. Durante o ciclo dos grandes eventos, sua capacidade pública foi mobilizada em obras, operações urbanas e infraestruturas orientadas à construção civil, ao turismo e à valorização imobiliária. Esse território, produzido por decisões políticas e investimentos rentistas, passou a alimentar circuitos financeiros que incluem o mercado imobiliário e plataformas como o Airbnb, convertendo planejamento urbano, paisagem e habitação em fontes de renda concentrada.

Trata-se de um modelo rentista porque a riqueza passa a depender cada vez mais da posse e do controle de ativos. Terras, imóveis, concessões, plataformas, recursos naturais e infraestruturas tornam-se apenas fontes de extração contínua de renda. O dinheiro circula, mas permanece concentrado em circuitos seletos. Grandes projetos movimentam contratos e valorizam áreas específicas sem necessariamente ampliar as capacidades produtivas do território ou distribuir os benefícios gerados.

Essa lógica que aparece na infraestrutura da cidade, é a mesma em muitos territórios e cidades brasileiras. Rodovias, portos, ferrovias e redes de energia são frequentemente concebidos a partir de corredores particulares, ligados à exportação de mercadorias ou a empreendimentos isolados. A infraestrutura deixa de formar uma rede nacional articulada e passa a servir a uma sucessão de projetos desconectados. Assim, tenta-se produzir crescimento localizado, contratos e valorização fundiária sem consolidar uma base integrada entre pesquisa, tecnologia, cadeias de fornecedores e equidade sócio-ambiental.

A crise climática, no entanto, possui outra espacialidade. O capital rentista seleciona lugares, concentra ganhos e abandona territórios quando deixam de oferecer retorno. O clima atravessa massivamente o conjunto do espaço. Alcança bairros pobres e ricos, áreas urbanas e rurais, infraestruturas, rios, florestas, plantações, APAs e sistemas energéticos. Evidentemente, seus efeitos não serão socialmente iguais. Os grupos mais ricos possuem seguros, reservas financeiras, climatização, mobilidade e maior capacidade de reconstrução. Ainda assim, não estão fora do sistema natural que sustenta a vida coletiva.

Ao invés de um projeto estruturante, complexo mas que atenda a massa da humanidade e da natureza na Terra, nos é dado um conceito: “resiliência”, devidamente aplicado de forma pasteurizada. Em muitos discursos, ela é apresentada aos pobres como a habilidade praticamente individual de suportar indefinidamente enchentes, calor, deslizamentos, remoções e precariedade. A vulnerabilidade aparece como condição a ser administrada, e não como resultado de decisões políticas. MacKinnon e Derickson já apontavam esse limite: comunidades não precisam apenas adquirir capacidade para resistir, mas recursos e poder para transformar as estruturas que produzem sua eterna exposição ao risco.

A reindustrialização do Brasil precisa enfrentar essa mesma contradição: reconstruir sua capacidade produtiva sem destruir os sistemas naturais que sustentam cidades, agricultura, energia e infraestrutura. A deterioração dos biomas compromete as próprias bases territoriais de qualquer projeto nacional de desenvolvimento.

O vendaval extremo vivido ontem no Rio de Janeiro, assim como as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, não pode mais ser tratado como fato excepcional, desconectado das transformações climáticas em curso. Fenômenos como um El Niño forte ou muito forte interferem na circulação atmosférica e ampliam a possibilidade de chuvas, ventos e outros eventos extremos. O problema central, porém, está no território que esses fenômenos encontram.

 Desde pelo menos o ciclo de preparação para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, o Rio mobilizou enormes recursos públicos, capacidade técnica e instrumentos urbanísticos para grandes obras, valorização imobiliária e construção de uma cidade voltada aos eventos, ao turismo e à circulação de capitais. Ainda assim, permanece despreparado para proteger sua população, suas árvores, redes elétricas, transportes, encostas e demais infraestruturas diante de acontecimentos climáticos cada vez mais frequentes. 

O contraste revela que não faltaram investimentos ou capacidade estatal. Faltou orientar essa capacidade para um projeto urbano duradouro, capaz de cuidar do território e das formas de vida que o habitam. Adiar novamente o enfrentamento dos limites do rentismo significará assumir o custo permanente de destruir, reparar e reconstruir cidades depois de tragédias cada vez mais anunciadas.

Cuidar do meio ambiente, nesse sentido, ultrapassa a ideia de proteção de uma natureza separada da sociedade, como era vista nos séculos passados. Significa mitigar os efeitos da crise climática, proteger infraestruturas, garantir água, preservar sistemas alimentares e assegurar as bases materiais da produção da vida coletiva. 

Uma política, seja ela de reindustrialização ou de qualquer meio de desenvolvimento econômico, precisará decidir se continuará financiando projetos pontuais que concentram renda e fragmentam o território ou se será capaz de construir redes públicas duradouras, complexas e distribuídas, comprometidas com as muitas formas de vida que existem nelas.

Referências interessantes para ler:

ALESINA, Alberto; DOLLAR, David. Who gives foreign aid to whom and why? Journal of Economic Growth, 2000.

CHRISTOPHERS, Brett. Class, assets and work in rentier capitalism. Historical Materialism, 2021.

MACKINNON, Danny; DERICKSON, Kate Driscoll. From resilience to resourcefulness: a critique of resilience policy and activism. Progress in Human Geography, 2013.

FLORES, Bernardo M. et al. Critical transitions in the Amazon forest system. Nature, 2024.

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Logística global, inteligência artificial e crise climática: novas geografias e disputas de poder

Como a reorganização das cadeias produtivas, a concentração das infraestruturas digitais e os riscos ambientais potencializam o desenho de territórios, dependências e estratégias nacionais.

Durante algumas décadas, a indústria mundial foi organizada em uma lógica razoavelmente simples: produzir onde fosse mais barato e conectar fábricas, fornecedores e consumidores através de uma grande rede logística planetária.

Essa rede continua operando e provavelmente continuará por muito tempo. Mas alguns critérios que orientam a localização industrial estão mudando. A pandemia, as guerras, as sanções econômicas e as disputas tecnológicas evidenciaram a fragilidade de cadeias produtivas muito extensas, concentradas em poucos fornecedores e dependentes de alguns corredores logísticos.

Gopinath et al. (2025), ao analisarem dados bilaterais de comércio e investimentos, identificaram um aumento da fragmentação econômica segundo proximidades geopolíticas. Os autores tomam o cuidado de não anunciar uma nova Guerra Fria ou o fim da globalização. O que aparece é uma reorganização gradual das relações produtivas, principalmente nos setores considerados estratégicos. Setores como semicondutores, energia, medicamentos e minerais críticos, governos e empresas começam a aceitar custos maiores em busca de fornecedores mais próximos ou confiáveis. A eficiência passa a conviver com preocupações sobre segurança, resiliência e controle tecnológico, embora esse movimento ainda seja seletivo e desigual.

Nesse contexto, termos como nearshoring, reshoring e friend-shoring passaram a aparecer com frequência. A distância, o alinhamento político, a segurança tecnológica e a capacidade de reagir a crises começam a pesar mais nas decisões industriais. Ainda assim, esse deslocamento ocorre de forma desigual. Ando et al. (2026), analisando as redes produtivas das Américas, da Ásia e da Europa entre 2015 e 2024, indicam que parte das empresas diversifica fornecedores e rotas sem necessariamente transferir toda sua produção. Um exemplo é a Apple, que passou a ampliar parte da produção na Índia e no Vietnã para reduzir sua dependência da China. Ainda assim, a maior parte de sua cadeia continua ligada ao território chinês, mostrando que muitas empresas preferem diversificar riscos aos poucos, em vez de transferir toda a produção de uma só vez.

A crise climática torna esse desenho ainda mais instável. Portos, ferrovias, redes elétricas, áreas industriais e sistemas de armazenamento foram planejados a partir de padrões ambientais que estão se modificando drasticamente nos últimos anos. Verschuur et al. (2023), ao analisarem 1.320 portos, estimaram que interrupções relacionadas ao clima colocam em risco, anualmente, cerca de 81 bilhões de dólares em comércio e pelo menos 122 bilhões de dólares em atividade econômica. Essas interrupções podem ainda produzir um efeito em cascata: o bloqueio de um porto pode comprometer o abastecimento industrial, pressionar preços, reduzir empregos e ampliar desigualdades, atingindo com maior intensidade os territórios menos desenvolvidos, mais dependentes de poucas infraestruturas logísticas.

Outro trabalho dos mesmos pesquisadores identificou 94 portos com importância crítica para as cadeias globais. Em alguns países, mais de 10% da produção industrial depende do fluxo realizado através de um único porto (VERSCHUUR et al., 2022). Uma enchente, uma seca prolongada ou um evento extremo localizado pode, portanto, atravessar continentes inteiros através da rede produtiva.

A inteligência artificial aparece nesse cenário como uma ferramenta potencial para prever gargalos, administrar estoques, simular riscos climáticos e reorganizar fluxos em tempo real. Mas existe aí uma questão que me parece especialmente interessante: a IA, muitas vezes imaginada como uma tecnologia quase imaterial, exige uma infraestrutura bastante concreta.

Diferente de redes abertas e distribuídas, como os sistemas peer-to-peer, a infraestrutura da inteligência artificial permanece concentrada em poucoa poderes do capital que controlam capacidade computacional, plataformas, modelos e grandes bases de dados. Essa concentração amplia o risco de dependência tecnológica, opacidade nos critérios de decisão e apropriação privada de informações produzidas coletivamente. Sem redes abertas de pesquisa, padrões interoperáveis e mecanismos internacionais de cooperação, a IA pode reforçar monopólios, aprofundar assimetrias entre países e limitar a autonomia de governos, empresas menores e instituições científicas.

Além disso, ela depende de centros de dados, redes elétricas, água para resfriamento, semicondutores e cadeias globais de equipamentos e minerais. Estudos recentes apontam que o crescimento da IA pode pressionar sistemas elétricos e ampliar o consumo de água associado aos centros de processamento. Ao mesmo tempo, a própria IA pode contribuir para aumentar a eficiência dessas redes. O resultado dependerá da forma como essa infraestrutura será implantada e governada.

Talvez o imponderado do novo sistema logístico global esteja justamente nessa convergência. Criamos ferramentas cada vez mais capazes de antecipar gargalos e simular riscos, mas que dependem de infraestruturas concentradas, elevado consumo de energia e água, além de recursos naturais distribuídos de forma desigual pelo planeta. Estudos sobre inteligência artificial e economia de dados também apontam uma tendência de concentração da capacidade computacional, das plataformas e das bases proprietárias em poucos agentes econômicos, ampliando dependências e restringindo o acesso aos benefícios dessas tecnologias (DE PEDRAZA, 2023; HÖTTE et al., 2025). O risco está em incorporar ferramentas novas a uma racionalidade de gestão ainda orientada pela eficiência de curto prazo e pela redução de custos, pouco preparada para lidar com interdependências, efeitos em cascata e impactos socioambientais que atravessam territórios e cadeias produtivas inteiras (VERSCHUUR; KOKS; HALL, 2023). Um mundo que exigirá maior interdisciplinaridade e capacidade de lidar com a complexidade pode ficar obsoleto na incapacidade de lidar com os efeitos cascata da crise climática tentanto utilizar as mesmas ferramentas de controle economico e social que sustentaram os modelos pretéritos de mercado pós-revolução industrial.

Para o Brasil, essa reorganização produz disputas bastante concretas. A expansão da inteligência artificial e da transição energética aumenta a demanda por minerais críticos, energia, centros de dados e infraestrutura logística. Woodley et al. (2024) mostram que tecnologias como veículos elétricos exigem volumes muito maiores de lítio, níquel, grafite, cobre e terras raras. O país pode ganhar importância nessas cadeias, mas segue exposto ao risco de repetir uma inserção baseada na exportação de recursos com pouco domínio sobre o processamento, os equipamentos, o cuidado ambiental e as tecnologias finais.

A mesma contradição aparece nos centros de dados. A matriz elétrica relativamente renovável e a conexão com cabos submarinos tornam algumas regiões brasileiras atraentes, mas sediar servidores estrangeiros não significa controlar os dados, os modelos ou os serviços produzidos por eles. Estudos recentes também indicam que essas infraestruturas ampliam o consumo de energia e água, enquanto a concentração da capacidade computacional em poucas empresas aprofunda dependências tecnológicas e econômicas.

O lugar do Brasil nessa nova geografia dependerá das etapas que conseguir controlar. Extrair minerais, fornecer energia e receber centros de dados pode gerar investimentos importantes, mas a autonomia estará na capacidade de refinar materiais, fabricar componentes, desenvolver sistemas próprios, desenvolver tecnologia, manter bancos de dados de interesse público e adaptar portos e redes elétricas à crise climática. Caso contrário, continuaremos oferecendo o território, a energia e a matéria para uma inteligência produzida longe daqui, enquanto os custos ambientais, sociais e logísticos permanecerão inscritos como veias abertas sobre nossas paisagens.

Perspectiva Scala AI City em Eldorado do Sul-RS- Uma cidade Data Center projetada com 7 a 10km² – maior que 4 bairros do Leblon no Rio de Janeiro.

Referências

ANDO, M.; HAYAKAWA, K.; KIMURA, F.; MUKUNOKI, H. Friend-shoring, near-shoring, and reshoring in factories America, Asia, and Europe amid rising geopolitical tensions. European Journal of Political Economy, v. 93, art. 102804, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.ejpoleco.2025.102804

GOPINATH, G.; GOURINCHAS, P.-O.; PRESBITERO, A. F.; TOPALOVA, P. Changing global linkages: a new Cold War? Journal of International Economics, v. 153, art. 104042, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jinteco.2024.104042

VERSCHUUR, J.; KOKS, E. E.; HALL, J. W. Ports’ criticality in international trade and global supply-chains. Nature Communications, v. 13, art. 4351, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41467-022-32070-0

VERSCHUUR, J.; KOKS, E. E.; HALL, J. W. Systemic risks from climate-related disruptions at ports. Nature Climate Change, v. 13, p. 804–806, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41558-023-01754-w

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artigo, cultura, filosofia de vida, pensamento, política, rio de janeiro, Subúrbios, territórios

Fortuna

As encruzilhadas nos presenteiam com a vida. Era um sábado à tarde. Eu estava no bowl de Irajá, palco do skate antes mesmo do skate virar esporte. Foi ali que vi, pela primeira vez, um dos maiores artistas que conheci na vida.

Lembro que ele panfletava um show de death metal, no qual faria a abertura tocando Jorge Vercillo e Raul Seixas ao violão. Ali pensei: esse maluco é o cara mais rock and roll que eu conheço. O tempo, o subúrbio e a música foram nos aproximando aos poucos. Tempos depois, fizemos parte do mesmo coletivo cultural, o Consciência Criativa. Foram anos de suor, amizade e movimento sem verba, em uma época em que pouquíssimos faziam cultura nos subúrbios.

Fortuna se fez presente, carregava o destino no próprio nome. Onde muitos o viam como um pária social, preconceito comum imposto aos meninos periféricos, os mais próximos descobriam sua imensa inteligência. No rosto, um olhar digno dos guerrilheiros. Por dentro, a sensibilidade rara dos poetas. Anderson era capaz de articular Raul Seixas, Botafogo, Neruda, García Lorca, teatro, música e rua com uma naturalidade que pouca gente tem. Transitava com o mesmo fascínio entre a canção simples de um bar e a grandeza de um show dos Rolling Stones. Fortuna sabia o que era arte porque, para ele, ela nunca esteve separada da vida. Estava no feijão com arroz, na conversa da esquina, na canção improvisada, na feira de domingo.

Era um garoto de sonhos simples: tocar no espaço cultural do próprio bairro, ter uma banda, jogar bola. Mas carregava um universo que mal cabia na própria mente. Anos se passaram, e foi um privilégio quando conseguimos criar para ele um presente que, no fim, virou presente para todos nós. Organizamos uma Suburbagem em que, literalmente, criamos uma banda para Fortuna se apresentar. Chamei alguns dos melhores improvisadores com quem convivi. Não tinha outro jeito. Para tocar com Fortuna, era preciso ser capaz de explodir fora da curva. A banda deveria entrar no universo dele, e não o contrário.

E assim foi.

Fizemos alguns ensaios para tentar entender aquele universo e partimos para a apresentação. Vieram improvisos, canções de amor, de revolta, declamações poéticas, gestos teatrais, movimentos imprevisíveis. Éramos praticamente uma instalação disfarçada de banda.

Lembro quando Fortuna desceu do palco para assistir à própria banda, sem encenação, por puro prazer. Ficamos mais de dez minutos improvisando e pedindo, pelo amor de Deus, que ele retornasse ao palco para finalizarmos a música. Lembro também da minha cara estupefata na primeira vez que ouvi a letra de “Andarilho das Estrelas”. O destino prega essas peças. Anderson era uma espécie de Van Gogh perdido no seu tempo. Sua arte não cabia na caixa das pasteurizações.

Lá por 2010, eu sofria para terminar a graduação, atravessado por milhares de problemas. Lembro que, numa chuva de verão, daquelas que entravam pela minha casa através dos telhados quebrados, perdi meu rádio. Comentei de leve na roda da galera, quase sem importância. Por mim, tudo bem. O que era um rádio para quem já tinha perdido tanta coisa em tão pouco tempo? Mas, um dia, surgiram Fortuna e Labanca com um rádio na mão. Anderson repetia, meio incrédulo: “Não cara, você não pode ficar sem rádio, você é artista, precisa ouvir música”. Ali entendi o quanto vocês apostaram em mim. Quantas vezes eu quase larguei a FAU e uma conversa ou um gesto maluco desses vindo de vocês me fazia pensar: tenho que seguir em frente.

Você sempre me lembrou que, antes de eu ser gente, eu era músico rs. Quando criei a animação para a música “Vanessa”, do André Figueira, pensei em um roteiro baseado em um jovem deslocado descobrindo a metrópole, com suas inúmeras contradições. Pensei: quem melhor representaria o profeta que apontaria o caminho para esse jovem? Ninguém menos que o próprio Fortuna. Do jeito dele, ele exercia esse papel. Liderava pela arte. Quantos eventos não organizamos apenas para ter o prazer de criar um palco para Fortuna se apresentar, sem ele ter nos pedido isso?

Quem não se lembra de sua clássica indagação: Qual grande artista a Lona revelou?

Seu poema maior, “A Cidade, o Caos”, foi um soco no meu estômago. Viver essa cidade como nós vivemos, e depois ouvir essa poesia declamada como sangue que cruza a América Latina por dentro do Para Pedro, se chocava brutalmente com a minha formação de arquiteto. A cidade, o Caos é o meu espaço vivido, a arquitetura que aprendi na infância. 

Não à toa, antes da primeira linha do resumo da minha dissertação, você está citado lá. Um pequeno trecho seu que representa tudo que pesquisei para que outros arquitetos leiam e conheçam aquilo que nossa turma chama de Subúrbio Carioca. Uma aula de cidade em um poema.

Eu poderia dizer que esse poema, imenso, foi sua grande obra, mas seria injusto. Sua obra maior foi a própria vida experimentada integralmente em forma de arte, como pouquíssimos tiveram coragem de viver, com todo o gigantesco ônus e todo o raro bônus dessa escolha.

A vida foi dura para todos nós que andamos juntos pelas ruas de Irajá e Vista Alegre, e extremamente covarde com você. Uma série de destinos entrecruzados, de amigos se costurando e se ajudando na tragédia que é sobreviver sendo pobre e tentando ser feliz sendo artista.

Você se foi, meu camarada. 

Eu não estava preparado para isso. Honestamente, ainda não estou. Mas você segue presente em nós que dividimos contigo esse tablado chamado vida, nas músicas que escutamos, nos palcos que inventamos, nas duras ruas que atravessamos, nos gestos que ficaram e nessa geração de bairro que você ajudou a mover culturalmente sem nunca precisar pedir licença ao mundo.

Qual grande artista a lona revelou? Fortuna.Você!

Anderson Fortuna foi grande. Grande demais para o reconhecimento pequeno que este país costuma reservar aos seus artistas pobres. Grande demais, também, para caber no esquecimento.

Todos nós, atravessados de algum modo pela tua presença, tivemos o raro privilégio de dividir contigo o chão deste Subúrbio, as agruras da vida e essa arte que ainda insiste em nos manter vivos na Terra. Agora meu camarada andarilho errante que carregou todos os sentimentos do mundo dentro de ti, siga livre, caminhando dentro de todos nós.

Um último e triste feliz aniversário ao camarada,

Anderson Fortuna,

Poeta, músico, artista e acima de tudo um Amigo.

Desenho autoral.
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artigo, brasil, política, Sem categoria, territórios, trabalho

O Congresso contra o Povo

O conservadorismo acolheu e organizou os mais pobres. Isso precisa ser sempre lembrado com alguma honestidade. Ele ocupou vazios, criou pertencimento, deu escuta e destino para gente que muitas vezes encontrou na esquerda apenas contradições e uma espécie de superioridade moral desgastada. Até aí não há tanta novidade. Desde pelo menos 2014, o país vive esse deslocamento, e fingir que ele não existe apenas aprofunda o nosso erro.

O ponto novo, porém, é que esse conservadorismo deixou de ser apenas sentimento social e passou a operar como poder. Quando toca o Congresso, quando define quais pautas avançam, quais travam, quais vidas merecem acesso ao orçamento público e quais podem seguir no improviso e na fome, ele revela o Brasil que deseja construir. E esse Brasil, muitas vezes, é duro com quem já não aguenta mais.

Se a esquerda tem o presidente, o conservadorismo tem o congresso e opera com ele para ter espaço de poder e gestão. Não amigos, não vivemos um governo de esquerda, mas sim o governo que sempre vivemos, esse parlamentarismo presidencialista esquisito onde as forças precisam manter sempre um grau de negociação para se manter no poder.

Em qualquer periferia de cidade grande e em muitos recantos de cidades médias e pequenas, existe um País à parte, onde a fome ainda organiza o cotidiano. Lugares onde viver com menos de um salário mínimo é regra, e ganhar um salário mínimo já parece vitória. Nesses territórios, o Bolsa Família não pode ser tratado como abstração eleitoral e cabresto, ele se torna a única estrutura real de sobrevivência. Organiza a compra da vida, a comida da criança, o remédio, o que dá pra organizar e ainda falta. E infelizmente, seguirá organizando a vida enquanto o Brasil não tiver um sistema produtivo capaz de absorver sua própria força de trabalho com dignidade e mínimo direito à mobilidade social.

A escala 6×1, que no fundo funciona como um 7×0 disfarçado, soma-se à miséria salarial, ao transporte exaustivo, ao aluguel impossível enquanto crescem alphavilles e studios e à ausência de horizonte palpável. O resultado é uma massa gigantesca de vulnerabilidade e sem esperança. Gente que trabalha muito, ganha pouco, descansa mal, adoece cedo e quase nunca consegue transformar esforço em prazer de vida. O país cobra disciplina de quem vive no limite, mas oferece muito pouco além da sobrevivência, na verdade nem a sobrevivência o País oferece.

Esse é o ciclo vicioso profundo. Não se levanta uma Nação condenando sua população a correr em círculo até morrer. Um trabalhador exausto não empreende sua liberdade. Uma mãe que passa três horas por dia no transporte não consegue “qualificar-se” por milagre. Um jovem que entra cedo demais no trabalho precário perde escola. O Brasil fala em produtividade, mas organiza a vida popular para desperdiçar inteligência humana. Maio é um mês significativo para os trabalhadores de um País cuja cultura foi forjada no escravagismo. 

A saída, a meu ver, passa por muitas lutas, porém quero deixar escrito alguns recortes. Um deles, ela exige tratar política social como infraestrutura de sustento da Nação. O SUS, apesar de todos os problemas, mostra uma coisa fundamental: quando o Estado chega de forma capilarizada, em rede, ocupando território, fomentando formação profissional, e garantindo continuidade política, ele muda a vida concreta. O mesmo princípio precisa orientar outras partes da estrutura social: renda, trabalho, cuidado, educação técnica, mobilidade e produção. Não basta distribuir benefício via política pública e deixar o restante da vida entregue ao mercado ruim, ao ônibus caro, ao aluguel predatório e ao subemprego moedor de gente. É preciso construir uma rede pública de política de sustentação da vida, integrada no território, capaz de enxergar família, bairro, escola, posto de saúde, transporte, cultura e emprego como partes do mesmo problema.

Isso passa por uma política nacional de trabalho honesta e decente, incapaz de se formar neste congresso de legisladores de causa própria, defensores de coisas espúrias. Como pensar política com estes seres abjetos incapazes de enxergar o país além da própria fazenda? O que dizer com palavras bonitas e sinceras? 

Há nesse Congresso uma venalidade profunda, uma mistura de pusilanimidade ética e arrogância oligárquica, gente que se ajoelha diante dos donos da terra (quando não são os próprios donos), da bala e do dinheiro e se vende barato para doleiros e cafetões de luxo, mas endurece a voz contra quem vive de salário, de benefício, do bico e com dívida. São capatazes legislativos de um país velho, cortesãos do atraso, defensores de pactos iníquos e projetos predatórios, enquanto chamam de responsabilidade aquilo que, no fundo, é apenas crueldade organizada. Essa é a gente que vai caminhar pelas ruas do seu bairro fingindo que gostam de comer pastel com caldo de cana. A cara de nojo que fazem quando mordem um pastel, não é pelo pastel, é pelo nojo que sentem ao estarem perto demais da gente. 

Tem pavor de pautas como: Redução progressiva da jornada, valorização real do salário mínimo, expansão da educação profissional ligada às cadeias produtivas locais, crédito orientado para pequenos produtores. Esse governo se torna tão ignorante que sequer enxerga que estas são pautas de caráter liberal.  Mas ainda cito mais possibilidades para construir: cooperativas, economia do cuidado, indústria verde, construção civil pública, saneamento, reabilitação de moradias e infraestrutura urbana nas periferias. 

O país precisa enfrentar essas criaturas sem receio. Criar um projeto que nos possibilite fortalecer a produção de vida, gerar trabalho e descanso para as pessoas reais, e não apenas empurrar corpos pobres para a vala da história, como empurraram para o Oceano de Sangue, Kalunga Grande (aprendi esse termo lendo o artigo da Vivian Carla Garcia Ferreira aqui).

Aqui também, a técnica pública institucional não pode ser resumida à burocracia de gabinete que atende a esses poderes de forma acrítica. Ela precisa medir tempo de deslocamento, renda disponível, acesso a creche, saúde mental, custo da alimentação, informalidade, produtividade territorial e capacidade real de permanência das famílias em seus bairros.

Um projeto sério para o Brasil começará quando a vida popular deixar de ser tratada como resíduo. O pobre precisa de tempo, renda, cidade, descanso, formação, crédito, saúde, cultura e poder sobre o seu próprio território. Enquanto isso não acontecer, seguiremos discutindo moralidade no alto, enquanto embaixo o país real tenta decidir se compra comida, paga passagem ou continua entregue a qualquer destino.

A boa política é aquela que transforma sobrevivência em caminho real de futuro. Esta política a meu ver, deve transpassar esse congresso e se possível desferir o máximo de danos a parte desta máquina público-privada usada a benefício próprio dessa gente estranha que ocupa as câmaras de poder.

Autoria própria
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filosofia de vida, política, trabalho

Quem é o conservadorismo que me lê?

Notei, com o tempo, que tenho amigos e leitores conservadores que gostam do que escrevo. Fico feliz por isso. Entendo como sinal de que ainda consigo me comunicar com as pessoas, embora eu mesmo tenha dificuldade de fazer isso na fala. Creio que há aí um gesto importante: se não sou capaz de me comunicar com quem pensa diferente de mim, então talvez eu não seja capaz de me comunicar de verdade. 

Mas quem seria esse brasileiro específico? Tenho algumas percepções sobre isso, e quero dar aqui uma pequena pincelada.

O brasileiro não é conservador por folclore, por essência moral, muito menos por algum desajuste cognitivo ou intelectual. Pensar assim é partir da arrogância para construir uma caricatura. Creio que o tempo o empurrou para isso pelo medo e pela sobrevivência. Medo de cair mais um degrau, medo de perder o pouco que tem, medo de ver o filho capturado pelo crime, medo de não conseguir pagar o gás, medo de adoecer e não ter atendimento, medo de envelhecer sem proteção.

O Brasil das últimas décadas produziu consumo, desejo rápido de ascensão e vitrines digitais de vencedores, mas não ofereceu a mesma firmeza em trabalho, tempo e horizonte de vida. Ao mesmo tempo em que prometia autonomia, foi desmontando proteções do trabalho. Naturalizou vínculos frágeis, pejotização, intermitência e plataformização. A precarização não caiu do céu, ela foi construída como projeto de poder. E qualquer olhar honesto para o mundo do trabalho hoje percebe o estrago que a reforma trabalhista de 2017 aprofundou, especialmente entre os mais jovens.

A ideia do sujeito como “CEO de si mesmo” não é só delírio neoliberal importado de palestra motivacional. Muitas vezes, ela funciona como remédio paliativo de existência. Quando o mundo do trabalho retira garantias, o imaginário tenta devolver alguma dignidade. O homem que sai cedo de casa, pega condução, vende bolo, roda de aplicativo, faz bico, sonha abrir um negócio, assiste vídeo de empreendedorismo entre uma correria e outra, não está necessariamente imitando o rico nem sonhando em virar milionário. Muitas vezes, está apenas tentando não desabar de vez. É uma forma de dizer a si mesmo que ainda conduz alguma coisa, mesmo quando quase tudo ao redor diz o contrário. Por que enfrentar um 6×1 para um patrão por um salário mínimo, se eu posso tentar encarar um 7×0 para mim mesmo? Por que entrar cedo numa CLT, se mal acredito que um dia vou me aposentar?

O problema é que esse imaginário, quando capturado, ilude. Troca os direitos pela performance, descanso pela culpa e senso de comunidade por competição aflorada. O trabalhador deixa de se entender como parte de um corpo social e passa a ser tratado como pequena empresa em guerra contra a exaustão. E isso piora num país de trabalho fortemente informal e desregrado. 

É nesse ponto que a extrema-direita entra com inteligência afetiva. Ela percebe uma coisa que parte do campo progressista seja a esquerda ou mais liberal esqueceu: ninguém vive só de argumento cientificamente correto. As pessoas querem ser vistas, ouvidas, nomeadas, acolhidas em sua dor e em sua luta. Querem sentir que alguém as escuta sem rir de sua fé, de sua vergonha, de seu desejo de subir na vida, de seu apego à família e de sua necessidade de alguma ordem no cotidiano.

O ultra-conservadorismo cresce porque oferece espaço de escuta e fala para esse sofrimento. Não oferece país, nem transformação de verdade, mas oferece disciplina, pertencimento, inimigo comum e explicação simples, independente da ciência. Em vez de enfrentar a precarização da vida, organiza o desamparo como linguagem moral, mas o principal: organiza o acolhimento. Acalme-se, algum dia sua bênção virá, estamos entre irmãos.

Porém, ele também cresce e muito, na incapacidade das forças progressistas retomarem pautas comuns e pétreas de bem estar do povo, por medo de conflitar com suas pautas de poder pelo poder, cargo pelo cargo. Se tornando uma força de molde moral para controlar os que estão sob seu  cercado.

Talvez o erro mais sério de muita gente progressista atual tenha sido olhar esse Brasil apenas como objeto de pedagogia, estudo e pesquisa, e não como sujeito portador de inteligência. Houve análise demais e escuta de menos. Houve articulação demais e imaginação de menos. Como se bastasse anunciar indicadores, políticas públicas e boa intenção para que um povo exausto voltasse a acreditar na vida coletiva. Oferecemos política sem reconstruir vínculo, pertencimento e horizonte.

Porém, o povo também quer viver o sensível. Quer sentir que a vida pode ter algum brilho para além da conta paga em atraso. O conservadorismo entendeu isso antes: ocupou o campo do desejo, mesmo que com uma promessa estreita e envelhecida de mundo. Vende uma resposta, embora na prática atue de outra forma, basta ver o Trump e os seus piores conflitos: as lutas internas norte-americanas.

A disputa econômica também é disputa de imaginário, de vida boa, de futuro bonito, de reconhecimento solidário. O próprio debate sobre a escala 6×1 mostra isso. Não se trata apenas de horas e produtividade, embora isso importe. Trata-se do direito elementar de não viver esmagado pelo trabalho. É erro achar que economizar é não gastar mais com trabalhador. 

Horas de trabalho excessivas e salário baixo demais também destrói produtividade, aumenta rotatividade e piora o próprio negócio. E antes que me chamem de comunistas, economistas liberais defendem esse conceito.

A saída, então, não está em zombar do Brasil profundo, nem em idealizá-lo, mas em reencontrar dentro dele o seu desejo legítimo de vida. Algo que só é possível na escuta singela, sem julgamentos e com interesse de aprendizado. Há uma potência cotidiana que segue viva no país real. Ela está no churrasco improvisado de fim de semana, no salão de beleza lotado, no campo de várzea, no piseiro ligado numa caixa de som colorida, na mãe que faz render o almoço, na vizinha que olha o filho da outra, na feira, na oficina, na calçada, no culto de domingo, no chá partilhado enquanto se pega sol à beira do rio, no barulho de gente simplesmente sendo gente apesar de tudo. 

Por isso a boniteza de Paulo Freire ainda importa, como recusa da feiura moral que foi sendo naturalizada entre nós. Uma vida boa não pode ser privilégio de condomínio, nem fantasia vendida em parcelas, nem heroísmo individual de quem aguenta a escala, o bico e a humilhação calado. Ela precisa reaparecer como direito de respirar, conviver, descansar, estudar, circular, festejar, criar filhos sem terror e envelhecer sem descarte. 

O Brasil não precisa ser salvo de si mesmo. Precisa voltar a se enxergar como povo super diverso, criativo, complexo e digno de mais do que mera sobrevivência. Quando esse povo se vê apenas como empresário precário da própria miséria, o país encolhe. Quando volta a se reconhecer como portador de memória, trabalho, inteligência, diversidade de pensamento e desejo de beleza, o país pode novamente começar a pensar o Brasil.

Neste sentido retorno ao início. Afinal, aprendo com as trocas honestas dos amigos conservadores que me lêem e não sentem medo ou vergonha de conversar comigo sobre temas diversos.

Desenho autoral 2026
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onu, política, Sem categoria

Estranho Familiar

Ser um estranho familiar. Usam nosso sangue, nossas forças e nossa alegria. Usam nossa cultura, nosso marasmo, nossas dores. Me enterram em seus cemitérios, furtam meu pedaço de terra. Terra que só serve a quem não sabe plantar. Fora do corpo, todos os cães ladram, sou fugitivo dentro da terra, culpado pelo suor do meu trabalho.

Entre Teerã e Minneapolis há um mar repleto de distinções. Mas existe um elemento que se repete: a escala da rua. Quando o poder decide que a fronteira é flexivel, qual  é o limite? ao que tudo parece indicar, está na vizinhança. Este é o lugar onde nossentimos estrangeiros-familiares.

Em Minnesota, diante da escalada de ações federais de imigração e de uma presença ostensiva de agentes do U.S. ICE, moradores montaram redes de resposta rápida: buzinas e apitos que avisam a aproximação, mensagens em aplicativos, gente filmando, acompanhando, oferecendo carona, abrigo e apoio jurídico. Diante do medo da morte, Amar o seu vizinho vira desejo de vida. A rua ganha o espectro de um rádio. E quando esse rádio se amplia, ele bagunça a economia: o chamado ao walkout e ao blackout economico de 23 de janeiro é um recado tão bonito, quase infantil: ninguém deixa o vizinho pra trás.

No Irã, a mesma escala aparece como resistência a outra brutalidade. Em 2009, gritos noturnos nos telhados foram respondidos com batidas, invasões e espancamentos por milícias como a Basij, numa tentativa de calar o coro e impedir que a madrugada virasse notícia. Há uma guerra pelo som: quando a rua canta, ela se reconhece; e se reconhecendo, ela se organiza. Em 2019, a repressão matou centenas e o apagão da internet ajudou a invisibilizar a violência. Em 2022, após a morte de Mahsa Amini, a revolta se espalhou e o Estado respondeu com força letal. O método é comum aos totalitários: controlar a multidão pelo medo. Mas na escala do quarteirão: aviso, rotas de fuga, comida na porta, cuidado entre desconhecidos, nos diz que outro mundo é possível.

Comparamos o poder iraniano e o poder trumpista nos parentescos de método. Ambos dependem de uma política de pureza: inventar um ser perfeito, um corpo-padrão, e transformar a multidão de corpos em suspeitos. No Irã, a pureza é religiosa e estatal, e o dissenso vira blasfêmia, pecado, desordem moral. No Trumpismo, a pureza parece ser nacionalizada, rica e racializada: a cidade vira triagem de seres humanos, o corpo vira documento e o imigrante, caça. Em ambos, a pedagogia do terror se alimenta do território-espetáculo e da ruptura do cotidiano, tão absurda quanto Joseph K sendo detido no Processo.  Batida na porta, patrulha na esquina, confisco, prisão, narrativa oficial deturpada e silêncio dos bons. O objetivo, para além de prender  alguns; é encarcerar a vida, construir um comportamento coletivo passivo e limitante.

Aqui, Jane Jacobs segue contemporânea. Seus olhos da rua não são ferramenta política da insurgência: uma rede voluntária de atenção e padrões comuns que mantém a rua viva pelo carinho ao próximo. A diferença está em para onde esses olhos apontam. Quando o Estado captura a vizinhança, os olhos viram a delação. Quando a vizinhança se organiza por solidariedade, os olhos viram proteção. Minnesota e Irã são uma encruzilhada: a resistência começa no açúcar emprestado, no olho no olho, no corpo que decide ficar. Depois, o coro encontra a cidade inteira. Porque, no fim, a rua só vira fronteira para quem depende do medo para sustentar as máquinas de poder. Pra quem resiste, a rua é caminho, feita de corpos, olhos e voz.

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literatura, política, Sem categoria, territórios

Sob os olhos das ruas de Minnesota

Batem duas vezes. Abro, e um rosto familiar, sem precisar dizer nome, com pressa. Desta vez não são eles.

– Got sugar?

A pergunta é doméstica, quase imperceptível. É assim que a rua começa: pelo que falta no café. Pelo açúcar.

Do lado de fora, o frio diz a que veio. Crianças inventam um jogo qualquer: pulam linhas, erram e riem alto. Um carrinho de supermercado vira casa. Um homem passa com uma mochila, olha pros dois lados. Um ônibus freia. Os olhos da rua protegem.

– I’ll pay you back

– You’re good

You’re good é o tipo de coisa que sustenta um país construído por travessias. A pá encostada na parede já está pronta para limpar o gelo.

A rua fala por baixo. A rua fala por cima. Fala na janela. Fala na luz da cozinha que acende cedo demais. Fala no cachorro que late. Fala no som de uma porta de carro que bate. Fala no barulho do caminhão de lixo, enquanto os olhos observam.

Um tiro.

O açúcar cai pela última vez. E o mundo não é de ninguém: é do quarteirão. Ele é de uma língua que já misturou com outra, e agora fala a terceira. O sotaque não entrega a origem, entrega só o trabalho de quem acreditou na terra da liberdade. O rosto, em certos dias, vira invisível. Hoje é um desses dias em que o corpo estrangeiro cai, mesmo quando nasceu na esquina.

Do outro lado da rua, alguns olham pro céu. Tem um helicóptero longe. É estranho: de repente, o lugar dele tem alfândega e rede de caça. De repente, ele acordou estrangeiro dentro da própria casa.

As crianças cantam uma cantiga sem letra fixa. O refrão vem e volta, vem e volta. A rua aprende o refrão com elas. Hoje tem carro sem placa.

Frases voam. A rua é uma guerrilha de informação, passando de varanda em varanda, de portão em portão, até virar silêncio organizado.

O açúcar, caído, mas o pote permanece cheio de cotidiano. Quando a porta se fecha, a cidade sintoniza: um cuidado. Um rádio clandestino que só funciona porque ninguém tenta ser herói, só tenta não deixar nenhum vizinho sozinho.

A rua segue. E a notícia segue junto, grudada no ar, repetindo baixinho: hoje, olho aberto. Hoje, porta aberta.


Enquanto o mundo se foca na geopolítica dos grandes tabuleiros, há resistência na escala de vizinhança. A lógica do ICE parece transformar rua em fronteira, e vizinhança em zona de operação. Com aumento forte de ações federais de imigração na área de Minneapolis, e presença ostensiva de agentes, uma onda de protestos, paralisações e mobilizações que se espalharam para outras cidades dos EUA.

A anacronia dada é: como um país que se construiu pela imigração e pela promessa de liberdade passa a procurar um “ser essencial” que nunca existiu, como se pudesse purificar a própria origem em um norte-americano padrão?

O que se vê, então, é a fabricação do estrangeiro dentro do lar, o deslocamento íntimo imposto por política: como uma metamorfose kafkiana, você acorda estrangeiro na casa, mal quisto no país que usa sua força de trabalho. É por isso que o conflito em Minnesota não soa como tema local. quando a fronteira atravessa a cidade por dentro, o Estado deixa de ser caminho de diálogo, a resistência reorganiza a vida comum.

E é justamente aí que a escala de vizinhança rompe o feitiço: olho no olho, redes de solidariedade, cuidado, alerta. Em vez de esperar salvação institucional, gente comum organiza monitoramento, abrigo, transporte, apoio material, e chega ao limite tático de travar a economia, como no “blackout”/greve geral convocado para 23 de janeiro, com a palavra de ordem contra U.S. Immigration and Customs Enforcement ecoando em cartazes e cantos, ICE OUT.  

É política territorial no sentido mais profundo: os olhos da rua protegendo os seus, enquanto o poder tenta caçar pessoas como ratos. Fievel chegando a Nova York fugindo de pogrom, Ligeirinho correndo na beira da fronteira, Splinter ensinando sobrevivência nos esgotos de Manhattan, Stuart Little tentando caber numa família. O Mickey é só mais um. O sonho americano não é Disney.

desenho de autoria propria – 2018
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