As encruzilhadas nos presenteiam com a vida. Era um sábado à tarde. Eu estava no bowl de Irajá, palco do skate antes mesmo do skate virar esporte. Foi ali que vi, pela primeira vez, um dos maiores artistas que conheci na vida.
Lembro que ele panfletava um show de death metal, no qual faria a abertura tocando Jorge Vercillo e Raul Seixas ao violão. Ali pensei: esse maluco é o cara mais rock and roll que eu conheço. O tempo, o subúrbio e a música foram nos aproximando aos poucos. Tempos depois, fizemos parte do mesmo coletivo cultural, o Consciência Criativa. Foram anos de suor, amizade e movimento sem verba, em uma época em que pouquíssimos faziam cultura nos subúrbios.
Fortuna se fez presente, carregava o destino no próprio nome. Onde muitos o viam como um pária social, preconceito comum imposto aos meninos periféricos, os mais próximos descobriam sua imensa inteligência. No rosto, um olhar digno dos guerrilheiros. Por dentro, a sensibilidade rara dos poetas. Anderson era capaz de articular Raul Seixas, Botafogo, Neruda, García Lorca, teatro, música e rua com uma naturalidade que pouca gente tem. Transitava com o mesmo fascínio entre a canção simples de um bar e a grandeza de um show dos Rolling Stones. Fortuna sabia o que era arte porque, para ele, ela nunca esteve separada da vida. Estava no feijão com arroz, na conversa da esquina, na canção improvisada, na feira de domingo.
Era um garoto de sonhos simples: tocar no espaço cultural do próprio bairro, ter uma banda, jogar bola. Mas carregava um universo que mal cabia na própria mente. Anos se passaram, e foi um privilégio quando conseguimos criar para ele um presente que, no fim, virou presente para todos nós. Organizamos uma Suburbagem em que, literalmente, criamos uma banda para Fortuna se apresentar. Chamei alguns dos melhores improvisadores com quem convivi. Não tinha outro jeito. Para tocar com Fortuna, era preciso ser capaz de explodir fora da curva. A banda deveria entrar no universo dele, e não o contrário.
E assim foi.
Fizemos alguns ensaios para tentar entender aquele universo e partimos para a apresentação. Vieram improvisos, canções de amor, de revolta, declamações poéticas, gestos teatrais, movimentos imprevisíveis. Éramos praticamente uma instalação disfarçada de banda.
Lembro quando Fortuna desceu do palco para assistir à própria banda, sem encenação, por puro prazer. Ficamos mais de dez minutos improvisando e pedindo, pelo amor de Deus, que ele retornasse ao palco para finalizarmos a música. Lembro também da minha cara estupefata na primeira vez que ouvi a letra de “Andarilho das Estrelas”. O destino prega essas peças. Anderson era uma espécie de Van Gogh perdido no seu tempo. Sua arte não cabia na caixa das pasteurizações.
Lá por 2010, eu sofria para terminar a graduação, atravessado por milhares de problemas. Lembro que, numa chuva de verão, daquelas que entravam pela minha casa através dos telhados quebrados, perdi meu rádio. Comentei de leve na roda da galera, quase sem importância. Por mim, tudo bem. O que era um rádio para quem já tinha perdido tanta coisa em tão pouco tempo? Mas, um dia, surgiram Fortuna e Labanca com um rádio na mão. Anderson repetia, meio incrédulo: “Não cara, você não pode ficar sem rádio, você é artista, precisa ouvir música”. Ali entendi o quanto vocês apostaram em mim. Quantas vezes eu quase larguei a FAU e uma conversa ou um gesto maluco desses vindo de vocês me fazia pensar: tenho que seguir em frente.
Você sempre me lembrou que, antes de eu ser gente, eu era músico rs. Quando criei a animação para a música “Vanessa”, do André Figueira, pensei em um roteiro baseado em um jovem deslocado descobrindo a metrópole, com suas inúmeras contradições. Pensei: quem melhor representaria o profeta que apontaria o caminho para esse jovem? Ninguém menos que o próprio Fortuna. Do jeito dele, ele exercia esse papel. Liderava pela arte. Quantos eventos não organizamos apenas para ter o prazer de criar um palco para Fortuna se apresentar, sem ele ter nos pedido isso?
Quem não se lembra de sua clássica indagação: Qual grande artista a Lona revelou?
Seu poema maior, “A Cidade, o Caos”, foi um soco no meu estômago. Viver essa cidade como nós vivemos, e depois ouvir essa poesia declamada como sangue que cruza a América Latina por dentro do Para Pedro, se chocava brutalmente com a minha formação de arquiteto. A cidade, o Caos é o meu espaço vivido, a arquitetura que aprendi na infância.
Não à toa, antes da primeira linha do resumo da minha dissertação, você está citado lá. Um pequeno trecho seu que representa tudo que pesquisei para que outros arquitetos leiam e conheçam aquilo que nossa turma chama de Subúrbio Carioca. Uma aula de cidade em um poema.
Eu poderia dizer que esse poema, imenso, foi sua grande obra, mas seria injusto. Sua obra maior foi a própria vida experimentada integralmente em forma de arte, como pouquíssimos tiveram coragem de viver, com todo o gigantesco ônus e todo o raro bônus dessa escolha.
A vida foi dura para todos nós que andamos juntos pelas ruas de Irajá e Vista Alegre, e extremamente covarde com você. Uma série de destinos entrecruzados, de amigos se costurando e se ajudando na tragédia que é sobreviver sendo pobre e tentando ser feliz sendo artista.
Você se foi, meu camarada.
Eu não estava preparado para isso. Honestamente, ainda não estou. Mas você segue presente em nós que dividimos contigo esse tablado chamado vida, nas músicas que escutamos, nos palcos que inventamos, nas duras ruas que atravessamos, nos gestos que ficaram e nessa geração de bairro que você ajudou a mover culturalmente sem nunca precisar pedir licença ao mundo.
Qual grande artista a lona revelou? Fortuna.Você!
Anderson Fortuna foi grande. Grande demais para o reconhecimento pequeno que este país costuma reservar aos seus artistas pobres. Grande demais, também, para caber no esquecimento.
Todos nós, atravessados de algum modo pela tua presença, tivemos o raro privilégio de dividir contigo o chão deste Subúrbio, as agruras da vida e essa arte que ainda insiste em nos manter vivos na Terra. Agora meu camarada andarilho errante que carregou todos os sentimentos do mundo dentro de ti, siga livre, caminhando dentro de todos nós.
Um último e triste feliz aniversário ao camarada,
Anderson Fortuna,
Poeta, músico, artista e acima de tudo um Amigo.
