Arquitetura e Urbanismo, artigo, economia, pensamento, territórios, trabalho

Indústria Território, um breve devaneio por um conceito.

Há um problema material na discussão sobre reindustrialização da América Latina. Desejamos politicamente ampliar novamente nossa capacidade produtiva, mas fazemos isso em países que ainda precisam construir parte importante da infraestrutura necessária para uma indústria contemporânea funcionar.

Esta não é uma questão nova para países pobres e historicamente colonizados, mas ganha outra dimensão quando os ciclos tecnológicos passam a ser muito mais acelerados que os ciclos de construção da infraestrutura. Uma indústria pode mudar algumas vezes enquanto a rede que a abastece continua no mesmo lugar.

Durante muito tempo organizamos parques industriais a partir de uma gramática relativamente reconhecível, baseada na implantação das unidades e na infraestrutura que organiza o conjunto. Grandes sites industriais, porém, foram adquirindo outra complexidade. Uma infraestrutura atende mais de uma unidade, redes atravessam o conjunto, áreas livres passam a ter valor justamente porque permanecem livres. O que ainda será construído começa a depender bastante do que decidimos tornar permanente agora.

Se antes pensávamos em territórios fabris, hoje podemos (perdão soar pretensioso o axioma) pensar em indústrias territórios. A literatura sobre ciclos de vida industriais mostra que edifícios, instalações e equipamentos se transformam em ritmos diferentes, produzindo sobreposições que o planejamento precisa absorver (DÉR et al., 2021).

Ao pensarmos o site industrial como território, deslocamos o Masterplan de um projeto definido de implantação das unidades para um projeto de relações entre sistemas com funções e tempos distintos. Infraestruturas, áreas livres e estruturas compartilhadas passam a participar da organização do conjunto.

A cidade oferece uma imagem interessante para esse deslocamento. A indústria já participou da formação de vilas operárias, núcleos fabris e cidades organizadas em torno da produção. Em certos complexos contemporâneos, essa relação pode ser invertida: o pensamento territorial passa a organizar o próprio site industrial.

As utopias do Archigram tocaram essa questão por outro caminho. Na Plug-In City, uma estrutura de maior permanência recebia partes com outros tempos de duração e substituição, imaginando uma cidade aberta à transformação. Aquilo que nos anos 1960 aparecia como formulação radical encontra hoje uma condição mais concreta em grandes sites industriais, onde estruturas duradouras convivem com ciclos produtivos cada vez mais curtos. 

Algumas experiências asiáticas ajudam a enxergar essa mudança por outro ângulo. Em Jurong Island, Singapura, o que chama atenção não é propriamente a presença de grandes indústrias, mas aquilo que existe entre elas. Corredores de serviço, redes de tubulações, logística e utilidades compartilhadas formam uma estrutura que antecede e ultrapassa cada unidade. As empresas continuam distintas, mas parte de sua capacidade produtiva passa a depender de um chão comum, de uma infraestrutura preparada para estabelecer relações. A própria JTC descreve Jurong como um ecossistema industrial simbiótico. 

Na China, essa relação aparece de forma menos acabada e talvez por isso ainda mais interessante. O estudo sobre o Yueyang Green Chemical Industry Park parte justamente da dificuldade de separar o planejamento industrial da organização espacial. Cadeias produtivas, infraestrutura e reservas de crescimento começam a ser pensadas juntas, como partes de uma estrutura que precisa continuar se reorganizando à medida que o parque se transforma (WANG et al., 2022). 

A noção de simbiose industrial ajuda a nomear parte do que aparece nessas experiências. Chertow utiliza o termo para relações materiais entre atividades distintas, envolvendo fluxos de energia, água, materiais e subprodutos, cuja viabilidade depende também de proximidade e possibilidade de conexão. Um levantamento recente de 71 parques ecoindustriais identificou 999 fluxos simbióticos e mostrou como essas relações tendem a se organizar em torno de setores capazes de estruturar outras conexões no parque (CHERTOW, 2007; LIPPI; EVOLA; VESCE, 2025). Interessa aqui justamente essa passagem: quando a infraestrutura comum começa a permitir relações entre unidades, ela deixa de responder apenas às necessidades particulares de cada fábrica e passa a participar da própria estrutura do site industrial. 

Jurong e Yueyang são experiências muito distintas, mas retornam à mesma questão que apareceu antes: em determinado momento, a infraestrutura deixa de ser apenas aquilo que atende uma fábrica e começa a organizar as possibilidades do conjunto. O site passa a carregar relações que não pertencem inteiramente a nenhuma de suas unidades.

A partir daí, o tempo deixa de aparecer apenas como cronograma de planejamento ou faseamento e passa a integrar a própria decisão de projeto. Se os sistemas que compõem o site possuem durações distintas, cada escolha espacial também carrega uma expectativa de permanência. Uma rede principal, difícil de deslocar, produz consequências diferentes de uma configuração produtiva pensada para ser substituída alguns anos depois.

Doreen Massey ajuda a dar espessura a essa questão ao pensar o espaço como coexistência de trajetórias, e não como uma superfície estática. No site industrial, essas trajetórias podem estar fisicamente próximas e, ainda assim, pertencer a tempos muito diferentes. O projeto passa a lidar não apenas com onde cada coisa está, mas com quanto tempo ela tende a permanecer e com aquilo que continuará condicionando enquanto permanecer (MASSEY, 2004). 

Isso nos permite organizar e projetar graus de permanência. Algumas estruturas precisam atravessar mais de um ciclo produtivo; outras precisam conservar capacidade de alteração. Até uma área ainda vazia pode ter uma função no projeto, quando sua indeterminação preserva possibilidades futuras que ainda não amadureceram.

O Masterplan ganha outra função quando o site é pensado nessa condição. Se os diferentes sistemas possuem ciclos próprios e o planejamento industrial precisa lidar com infraestrutura, produção e organização espacial de forma articulada, como aparece tanto nos estudos sobre ciclos de vida industriais quanto no caso de Yueyang, o plano deixa de representar apenas uma configuração futura do conjunto (DÉR et al., 2021; WANG et al., 2022). Passa a organizar relações que continuarão sendo alteradas ao longo do tempo.

Isso exige também distinguir o grau de definição das decisões. Premissas consolidadas, condicionantes técnicos, hipóteses de planejamento e questões ainda abertas não possuem o mesmo peso sobre o território. O Masterplan pode registrar essas diferenças sem transformá-las antecipadamente em forma permanente. Nesse aspecto, aproxima-se, guardadas as devidas proporções, da lógica de um plano diretor: organizar uma estrutura comum enquanto parte de suas ocupações e relações continua necessariamente abertas a constante transformação.

Considerações finais

Voltemos então para a América Latina. Em países onde os ciclos de investimento são mais lentos, descontínuos e dependentes de recursos escassos, coexistindo fragilidades institucionais, ambientais e incertezas econômicas, as decisões físicas tendem a permanecer por muito tempo. Uma infraestrutura mal posicionada, uma ocupação antecipada ou uma reserva perdida podem atravessar diferentes ciclos produtivos antes que exista oportunidade de corrigir aquilo que foi implantado.

Pensar o site industrial como território pode ser particularmente útil nesse contexto. A estrutura precisa conseguir receber investimentos realizados em tempos diferentes, incorporar novas unidades e tecnologias e preservar possibilidades que ainda não amadureceram. O planejamento deixa de depender de uma sucessão contínua de grandes reinvestimentos e passa a considerar com mais cuidado aquilo que precisa ser estruturante para permitir novas transformações.

Talvez essa seja uma contribuição possível para pensar a reindustrialização latino-americana desde o projeto arquitetônico. Em territórios onde infraestrutura, investimento e implantação avançam lentamente, organizar permanências, reservas, relações e incertezas pode ajudar a fazer com que decisões tomadas em momentos diferentes consigam continuar pertencendo a um mesmo projeto industrial. Pensar o Masterplan como estrutura territorial, passa a trabalhar justamente com esse tempo mais longo e irregular.

Talvez seja possível assumir o labirinto borgiano como modo de pensamento, e não como equívoco: um território onde diferentes tempos, decisões e caminhos coexistem sem a promessa de uma trajetória única. Pensar assim pode ajudar a construir outras saídas para a reindustrialização latino-americana e caribenha, menos dependentes da ideia de um desenvolvimento linear e mais capazes de operar sobre as condições que efetivamente temos.

plug in city – Archigram

Referências

CHERTOW, Marian R. “Uncovering” industrial symbiosis. Journal of Industrial Ecology, v. 11, n. 1, p. 11-30, 2007. DOI: 10.1162/jiec.2007.1110.

COOK, Peter. Plug-In City, project (Axonometric). 1964. New York: The Museum of Modern Art.

DÉR, Antal; HINGST, Lennart; KARL, Alexander; NYHUIS, Peter; HERRMANN, Christoph. Factory life cycle evaluation through integrated analysis of factory elements. Procedia CIRP, v. 98, p. 418-423, 2021. DOI: 10.1016/j.procir.2021.01.127.

JTC. How Jurong Island’s integrated ecosystem drives its sustainable transformation. Singapore, 20 jan. 2026.

LIPPI, Giulia; EVOLA, Rosalia Stella; VESCE, Enrica. Industrial symbiosis patterns in eco-industrial parks: a sectoral analysis based on global empirical data. Journal of Cleaner Production, v. 529, art. 146807, 2025. DOI: 10.1016/j.jclepro.2025.146807.

MASSEY, Doreen. The political challenge of relational space: introduction to the Vega Symposium. Geografiska Annaler: Series B, Human Geography, v. 86, n. 1, p. 3, 2004. DOI: 10.1111/j.0435-3684.2004.00149.

WANG, Min; YUAN, Xiaohan; YANG, Shuqi; ABUDU, Kahaer; QIN, Kongtao. Research on spatial planning of petrochemical industrial parks from the perspective of symbiosis: example of Yueyang Green Chemical Industry Park. Sustainability, v. 14, n. 8, art. 4580, 2022. DOI: 10.3390/su14084580.

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Rentismo, Territórios e Crise Climática

Imagem de Nano Banana – extraída do Google Imagen

O financiamento internacional não circula de maneira neutra pelo mundo. Seus percursos acompanham alianças políticas, interesses comerciais, disputas militares e posições estratégicas. Em um cenário internacional reorganizado por guerras, pela corrida tecnológica e pela busca de segurança energética, dentro da lógica hiperprodutivista do capital contemporâneo, parte dos recursos antes destinados ao desenvolvimento econômico e social tende a ser absorvida pelas prioridades militares dos países centrais ou redirecionada aos territórios considerados decisivos para suas estratégias. Estamos em um mundo marcado por conglomerados transnacionais que concentram cadeias inteiras de produção, do televisor ao navio,ao mesmo tempo que a organização social se dissolve no hiperindividualismo. Neste cenário, como demonstraram Alesina e Dollar, a distribuição da ajuda internacional responde tanto às necessidades econômicas quanto às alianças e aos interesses geopolíticos dos países financiadores.

Para os países periféricos, esse movimento ocorre em um terreno historicamente marcado pela dependência financeira. Os capitais chegam vinculados a projetos, garantias, concessões e expectativas de rentabilidade. A questão, portanto, não se resume a uma suposta baixa capacidade burocrática desses Estados, como o senso comum costuma emanar com a alcunha do “Estado ineficiente”. Muitas vezes há conhecimento técnico, instituições, profissionais e instrumentos públicos capazes de realizar intervenções complexas. O problema está no modo como essa capacidade é politicamente orientada e comprometida com determinados projetos.

O Rio de Janeiro é um exemplo visível desse processo. Durante o ciclo dos grandes eventos, sua capacidade pública foi mobilizada em obras, operações urbanas e infraestruturas orientadas à construção civil, ao turismo e à valorização imobiliária. Esse território, produzido por decisões políticas e investimentos rentistas, passou a alimentar circuitos financeiros que incluem o mercado imobiliário e plataformas como o Airbnb, convertendo planejamento urbano, paisagem e habitação em fontes de renda concentrada.

Trata-se de um modelo rentista porque a riqueza passa a depender cada vez mais da posse e do controle de ativos. Terras, imóveis, concessões, plataformas, recursos naturais e infraestruturas tornam-se apenas fontes de extração contínua de renda. O dinheiro circula, mas permanece concentrado em circuitos seletos. Grandes projetos movimentam contratos e valorizam áreas específicas sem necessariamente ampliar as capacidades produtivas do território ou distribuir os benefícios gerados.

Essa lógica que aparece na infraestrutura da cidade, é a mesma em muitos territórios e cidades brasileiras. Rodovias, portos, ferrovias e redes de energia são frequentemente concebidos a partir de corredores particulares, ligados à exportação de mercadorias ou a empreendimentos isolados. A infraestrutura deixa de formar uma rede nacional articulada e passa a servir a uma sucessão de projetos desconectados. Assim, tenta-se produzir crescimento localizado, contratos e valorização fundiária sem consolidar uma base integrada entre pesquisa, tecnologia, cadeias de fornecedores e equidade sócio-ambiental.

A crise climática, no entanto, possui outra espacialidade. O capital rentista seleciona lugares, concentra ganhos e abandona territórios quando deixam de oferecer retorno. O clima atravessa massivamente o conjunto do espaço. Alcança bairros pobres e ricos, áreas urbanas e rurais, infraestruturas, rios, florestas, plantações, APAs e sistemas energéticos. Evidentemente, seus efeitos não serão socialmente iguais. Os grupos mais ricos possuem seguros, reservas financeiras, climatização, mobilidade e maior capacidade de reconstrução. Ainda assim, não estão fora do sistema natural que sustenta a vida coletiva.

Ao invés de um projeto estruturante, complexo mas que atenda a massa da humanidade e da natureza na Terra, nos é dado um conceito: “resiliência”, devidamente aplicado de forma pasteurizada. Em muitos discursos, ela é apresentada aos pobres como a habilidade praticamente individual de suportar indefinidamente enchentes, calor, deslizamentos, remoções e precariedade. A vulnerabilidade aparece como condição a ser administrada, e não como resultado de decisões políticas. MacKinnon e Derickson já apontavam esse limite: comunidades não precisam apenas adquirir capacidade para resistir, mas recursos e poder para transformar as estruturas que produzem sua eterna exposição ao risco.

A reindustrialização do Brasil precisa enfrentar essa mesma contradição: reconstruir sua capacidade produtiva sem destruir os sistemas naturais que sustentam cidades, agricultura, energia e infraestrutura. A deterioração dos biomas compromete as próprias bases territoriais de qualquer projeto nacional de desenvolvimento.

O vendaval extremo vivido ontem no Rio de Janeiro, assim como as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, não pode mais ser tratado como fato excepcional, desconectado das transformações climáticas em curso. Fenômenos como um El Niño forte ou muito forte interferem na circulação atmosférica e ampliam a possibilidade de chuvas, ventos e outros eventos extremos. O problema central, porém, está no território que esses fenômenos encontram.

 Desde pelo menos o ciclo de preparação para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, o Rio mobilizou enormes recursos públicos, capacidade técnica e instrumentos urbanísticos para grandes obras, valorização imobiliária e construção de uma cidade voltada aos eventos, ao turismo e à circulação de capitais. Ainda assim, permanece despreparado para proteger sua população, suas árvores, redes elétricas, transportes, encostas e demais infraestruturas diante de acontecimentos climáticos cada vez mais frequentes. 

O contraste revela que não faltaram investimentos ou capacidade estatal. Faltou orientar essa capacidade para um projeto urbano duradouro, capaz de cuidar do território e das formas de vida que o habitam. Adiar novamente o enfrentamento dos limites do rentismo significará assumir o custo permanente de destruir, reparar e reconstruir cidades depois de tragédias cada vez mais anunciadas.

Cuidar do meio ambiente, nesse sentido, ultrapassa a ideia de proteção de uma natureza separada da sociedade, como era vista nos séculos passados. Significa mitigar os efeitos da crise climática, proteger infraestruturas, garantir água, preservar sistemas alimentares e assegurar as bases materiais da produção da vida coletiva. 

Uma política, seja ela de reindustrialização ou de qualquer meio de desenvolvimento econômico, precisará decidir se continuará financiando projetos pontuais que concentram renda e fragmentam o território ou se será capaz de construir redes públicas duradouras, complexas e distribuídas, comprometidas com as muitas formas de vida que existem nelas.

Referências interessantes para ler:

ALESINA, Alberto; DOLLAR, David. Who gives foreign aid to whom and why? Journal of Economic Growth, 2000.

CHRISTOPHERS, Brett. Class, assets and work in rentier capitalism. Historical Materialism, 2021.

MACKINNON, Danny; DERICKSON, Kate Driscoll. From resilience to resourcefulness: a critique of resilience policy and activism. Progress in Human Geography, 2013.

FLORES, Bernardo M. et al. Critical transitions in the Amazon forest system. Nature, 2024.

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Palestina livre, Irã livre

A Palestina é a fronteira ética do nosso tempo, mas também um labirinto para o pensamento de esquerda. Um dos erros mais comuns da política são as simplificações: quando o inimigo do meu inimigo vira meu amigo, o povo cai no esquecimento da pauta. Em nome da causa palestina, parte da esquerda global aceita, com silêncio, o autoritarismo do regime iraniano, como se a teocracia fosse elemento aceitável de resistência ao imperialismo ocidental. Essa visão transforma geopolítica em desculpa conveniente para acalmar o campo que não precisa lidar com a complexidade, ainda que deixe povos reais solitários em sua luta por liberdade e justiça social.

A pauta é uma: libertação não deve ser seletiva. Não existe solidariedade consistente com Gaza se ela nos exige fechar os olhos para prisões, torturas, censura e assassinatos ocorridos no Irã. A mesma ética que denuncia genocídio, apartheid, ocupação e massacre, principalmente desde 7 de outubro de 2023, precisa reconhecer que a República Islâmica também governa por coerção, medo e captura da cultura e do cotidiano. O inimigo do meu inimigo não vira automaticamente aliado. Vira apenas outro poder que deve ser questionado.

Aqui nos cabe recusar o “campismo”, essa tentação de escolher um bloco, tratá-lo como único e absolver tudo o que ele faz. Nessa linha, comecemos por um princípio básico: apoio às revoltas populares contra a brutalidade teocrática, sem aceitar sequestro por intervenções externas. Evitando assim a fraude da falsa simetria. Por que chamar a repressão iraniana de ordem por acreditar que ela combate o imperialismo trumpista? A esquerda não pode trocar o povo pela geopolítica. Assim como não podemos negligenciar a dor iraniana como pretexto para guerra e mudança de regime a serviço de interesses alheios.

O gesto mais potente vem de baixo. Ele aparece quando feministas e trabalhadoras iranianas transformam “Jin, Jiyan, Azadî” (Mulher, Vida, Liberdade) numa linguagem de mundo, principalmente a partir do levante de 2022. Ou quando sindicatos e organizações independentes enfrentam a polícia moral da sharia ao mesmo tempo em que se posicionam contra a guerra e contra o genocídio em Gaza. Essa linguagem toca verdadeiramente a luta palestina. Enquanto o conservadorismo comenta na TV pedindo e naturalizando a volta da monarquia iraniana como elemento de transição política, caberia à esquerda uma construção radical de solidariedade real, transversal: a liberdade do corpo em Teerã e a liberdade do corpo em Gaza pertencem ao mesmo campo ético de liberdade.

Quando essa ponte se constrói, ela deixa explícito o que o regime tenta esconder: o Estado iraniano não é a Palestina, na verdade ele é muito mais próximo de um Sionismo de moeda inversa do que supõe nossa liturgia. Assim como a Palestina não precisa da tutela de uma teocracia. E esse talvez tenha sido o maior temor de muitos poderes que envolvem as disputas do Oriente Médio a época de Arafat: o Fatah não defendia uma teocracia a priori, mas um Estado palestino laico.

Sobre o sindicalismo independente iraniano: em declarações recentes (por exemplo, ao longo de 2025), organizações de trabalhadores condenam o genocídio em Gaza e pedem o fim do armamento a Israel, ao mesmo tempo em que rejeitam guerra contra o Irã e denunciam o próprio regime. Isso desmonta o discurso que reduz a região a “governos falando com governos”. Existe, no meio disso, povo falando com povo, costurando redes de luta, resistência e sobrevivência que caminha no underground. Essa política que nasce na rua e não nos palácios é a que nos cabe dialogar, ajudar a construir e visibilizar.

Na diáspora, muita gente confunde “ser contra Israel” com “ser a favor do regime que diz ser contra Israel”. A militância vira pombo correio que defende um Estado que persegue mulheres por um fio de cabelo e prende estudantes por uma frase. Do outro lado, a direita ocidental usa a denúncia dos abusos morais do regime para justificar bombas e sanções que esmagam os pobres. Enquanto a propaganda dos poderes destrói o direito do povo à vida, não construímos pauta nem coletividade concreta para criar uma contra-proposta com pautas concretas e contemporâneas a tudo.

Devemos olhar para a política na escala miúda e multifacetada: solidariedade autônoma, quando pessoas no Irã se reúnem “pela Palestina” fora dos roteiros oficiais. Organizar as lutas através da ética cotidiana: cuidado e proteção mútua. É nessa escala que a esquerda pode apoiar Gaza sem servir de biombo para a teocracia do Teerã, e enfrentar a Teocracia de Teerã sem servir de biombo para a “teocracia” de Washington.

Quando uma dissidente iraniana, perseguida e encarcerada, pede cessar-fogo e ajuda humanitária irrestrita para Gaza, ela mostra que a solidariedade pró-Palestina é radical justamente por não ser cúmplice de tirania teocrática. A voz não deve depender de passaporte estatal, divino ou monárquico estabelecido. O regime iraniano tenta capturar a causa palestina para limpar a própria ficha corrida, tentando vender como sionistas pró-EUA qualquer um que seja contra suas diretrizes. Deixa sem comunicação, mata por divergência religiosa, mata por diferenças de gênero, simplesmente mata. Ao invés de trazer o povo para si, isola-o enquanto aglutina as forças conservadoras ocidentais contra si.

É aqui que a crítica de esquerda precisa ser dura e clara: apoiar a Palestina não autoriza romantizar nenhum regime que reprime seus povos. A luta palestina é por autodeterminação e direito à vida. A luta iraniana, nas ruas e nas prisões, é pelo mesmo motivo. Quando a esquerda troca o povo pelo regime, ela se perde, sacrifica vidas concretas em nome de uma “necessidade histórica” e permite a naturalização de discursos conservadores como o retorno a uma monarquia em pleno século XXI. O futuro do Irã, demarcado pela força da guerra e por anos de repressão, é impossível de prever.

O caminho é complexo e passa por solidariedade popular organizada e fortalecer outra linha ética que não seja essa ética dos poderes constituídos (bem revelada nos Epstein files), com os pés no chão e a cabeça a frente. Cobrar cessar-fogo imediato e fim do massacre em Gaza, fim da ocupação e do apartheid, mas também dizer sem rodeio: não à guerra “sionista-americana” contra o Irã e não à teocracia iraniana. Não existe libertação a partir de mísseis, nem democracia entregue por troca de cadeiras.

A ação radical da esquerda, hoje, é tirar oxigênio político, narrativo e material dos poderes constituídos: pressionar por embargo de armas, boicote e desinvestimento do aparato de ocupação; construir, em sindicatos, movimentos de mulheres, movimentos culturais, universidades e territórios, redes de apoio direto a palestinos e às forças iranianas feministas e trabalhistas que enfrentam a repressão; financiar defesa jurídica, acolhimento, comunicação, tradução e cuidado mental ao povo que mais sofre com os danos da guerra, porque guerra atravessa o corpo e dura décadas.

Em vez de torcer por bombas como “atalho”, o retorno a monarquias caducas, ampliar as vozes das ruas, justamente aquelas que não tem espaço nas mídias ocidentais e que também estão silenciadas pelos poderes iranianos. Acolher e fortalecer as relações de vizinhança, greve, mutualismo, proteção mental. Sem propaganda, sem tutela, sem terceirizar a ética ou a solução para os grandes poderes globais, cujo principal foco não é o povo palestino ou iraniano.

Palestina livre. Irã livre. A esquerda precisa caber inteira nessa luta.

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UE–Mercosul e o risco de esmagar a agricultura familiar

Quando o comércio corre mais rápido do que a justiça territorial, quem tropeça primeiro é quem pisa no barro.

Estrada

A enchente levou a estradinha de terra batida. No dia seguinte, o atravessador apareceu com o caminhão-baú e um papel na mão. “Sem esse documento, você não vende.” E, como diria Ana Castela, “acreditei que era herói, mas é bandido”.

No dia 9 de janeiro de 2026, o Conselho da União Europeia autorizou a assinatura do acordo UE–Mercosul. Para quem não acompanha: é um acordo de livre comércio que pretende reduzir tarifas e ampliar cotas entre os blocos, mexendo com o que cada lado vende e compra, principalmente agro e indústria. Visto do alto, parece diplomacia com elementos interessantes. No chão, porém, é disputa: preço, rota, contrato, e a terra rural voltando a ser peça do tabuleiro do capital.

Fresta


No Brasil, quem corre o risco de receber esse vendaval pela fresta é um ente imenso e pouco fotografado: a agricultura familiar. O Censo Agro de 2017 aponta mais de 10 milhões de pessoas ocupadas nisso e cerca de 23% do valor da produção vindo daí. Isso não é detalhe, é estrutura social de país. É renda circulando em cidade pequena e média, feira, caminhãozinho, escola rural, estrada de terra. É território respirando baixo, enquanto o agronegócio faz show com telão.

A primeira tensão nasce rápido. Se essa janela comercial aumentar o apetite por commodities, a terra encarece, o arrendamento endurece, a fronteira produtiva ganha força. O pequeno produtor, sem colchão financeiro, sentirá como água entrando pela soleira. A desigualdade no campo não chega com anúncio. Chega como “o preço do hectare”, “o vizinho vendeu”, “o atravessador apertou”. Chega como chuva que enlouqueceu, enchente onde era seca e, às vezes, sorrateira como tocaia de jagunço.

O Brasil traz uma notícia ambígua. Houve redução do desmatamento divulgada pelo PRODES. Respiro diante das tentativas de passar a boiada. Mas a economia que empurra o desmatamento é rede, e rede muda de humor com o mercado. Tem grilagem, licença duvidosa, legalidade convivendo e negociando com ilegalidade. E governança que evapora quando a renda da terra chama.

A Europa tenta colocar freio na própria fome de importação. A regra antidesmatamento exige diligência e rastreabilidade: produto “desmatamento zero”, legal, rastreável até a área de produção. Só que a própria UE vem adiando e revisando prazos porque sabe o peso operacional disso tudo. Agora imagine essa exigência aterrissando na América do Sul, onde o Estado muitas vezes chega tarde, e o atravessador chega cedo.

ESG não enche o prato

E aqui aparece a segunda tensão, silenciosa e cruel. Como fazer justiça ambiental num país que nunca pagou a dívida da reforma agrária? Rastreabilidade é necessária, sim. Eu não romantizo cadeia produtiva submersa, desenhada em Brasília nos gabinetes do agro. O problema é o Brasil real. O grande ajusta a exploração por compliance, como quem vive passeando de ponte aérea. O pequeno paga seu labor como quem compra botijão no desespero, no fim do mês. E quando não consegue, some da cadeia formal: vira refém de intermediário, vende mais barato, trabalha mais para sobrar menos. Quando vira marketing, “verde” vira barreira de entrada. O selo verde brilha, mas o prato do povo continua vazio.

Daí o paradoxo: a floresta em pé aparece como narrativa, mas quem entra decisivo no mercado global é quem já tinha estrutura, advogado, crédito barato e uma geografia montada a seu favor. Leia-se: latifúndio, lastro e poder.

Uma imagem simples, quase como se Jane Jacobs tivesse crescido no interior do Maranhão. Um satélite olha a Amazônia enquanto um homem olha a própria cerca. O satélite mede quilômetros quadrados. O homem mede dias de chuva, preço do adubo, a dívida do mês. Quando a política internacional só enxerga o satélite, atropela a escala da vida. Quando só enxerga a cerca, fere a escala da Mãe Terra. Falta olhar de chão, de dentro do território, e talvez principalmente de quem não tem nem satélite nem cerca.

Aqui já não cabe o maniqueísmo de vitrine que virou a política eleitoreira. Livre comércio versus protecionismo. Ambientalismo versus produção. O problema é a velocidade voraz do capital sobre a terra. O comércio corre, a governança territorial anda, e o pequeno produtor tenta pegar um trem que já saiu, carregando documento, nota fiscal e a esperança básica de não passar fome.

Contrapartida

Se a gente quiser falar sério de Sul Global, sem romantizar pobreza e sem engolir propaganda de “modernização” que sempre chega junto do capital, o papo é reto: como impedir que esse acordo vire motor de concentração territorial? Como evitar que o campo pobre e a floresta voltem a ser zona de sacrifício, agora com etiqueta reciclável e selo ESG?

A resposta, a meu ver, não é instagramável. É infraestrutura pública. Rastreabilidade precisa ser serviço público, cooperativo e territorializado: cadastro georreferenciado acessível, assistência técnica forte, cooperativas, consórcios municipais, plataformas de governança simples que virem prática campesina, não burocracia. Se o mundo exige geolocalização e diligência, o Estado precisa entregar ferramentas ao povo para isso não virar exclusão.

E aqui entra o urbanismo, no sentido mais político da palavra. A cidade consome sem ver a origem, especula a terra e terceiriza o custo social do alimento. A gente pega a carne no freezer e não vê o sangue vertido. Se a agricultura familiar é base social, ela não pode virar refém do humor do mercado externo ou de chantagem logística. CEASAs, mercados municipais, cozinhas públicas, logística curta. PNAE e PAA como programa de país, não apenas de governo. Escola pública e hospital público como compradores regulares de cooperativas e agricultores familiares, com contrato estável e rota planejada são alguns caminhos.

O UE–Mercosul é uma operação territorial transcontinental: gera valor, especulação e espalha impacto. E uma operação territorial deste porte exige contrapartida política. Uma contrapartida concreta possível para o Sul é criarmos um programa público que priorize a agricultura familiar, articulado a uma política urbana de alimentação do povo pobre. Sem contrapartida realmente popular, o acordo corre o risco de virar atalho para a riqueza passar correndo na sua lógica de extração, enquanto o pobre do campo fica no acostamento, vendo a vida se desfazer no pó da estradinha de terra batida.

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O Sequestro de Maduro e o Retorno do Quintal

O ano começa cinematográfico: Nicolás Maduro sequestrado por forças dos EUA. Numa crua ambiguidade conceitual, Washington chama de “operação de aplicação da lei”, enquanto Trump fala em administrar a Venezuela até uma transição. A lógica é de exceção e retomada do controle do quintal: a potência veste farda de polícia e de tutela, reorganiza o tabuleiro e debocha do direito internacional. Não nos enganemos, o direito só vale até a linha do interesse. A democracia representativa reaparece como mito pacificador: acalma consciências, enquanto convive com o submundo da política crua dos impérios.

No subsolo econômico, a Venezuela é petróleo e infraestrutura em ruínas. A Casa Branca acena a investimentos de empresas “interessadas” para “reconstruir” o setor. Enquanto isso, o povo venezuelano sente a vida no preço. A geopolítica  de Trump tem estilo de capitão de obra emergencial: chega de solavanco, troca o comando do canteiro e abre concorrência pelos contratos.

E Putin, deixou Maduro isolado? Moscou condena, mas evita personalizar; chegou a alertar seus cidadãos a não viajarem ao país. É o pragmatismo frio, comum a todos os líderes aqui citados, mas na Rússia ele parece método nacional: no inverno da geopolítica, aliados são ativos, não parentes. Maduro era um aliado simbólico no quintal americano; a prioridade russa segue sendo a Ucrânia, e o episódio vira laboratório caro.

Trump, num primeiro momento, reage com choque à alegação de que a Ucrânia teria tentado atingir uma residência de Putin e entra no diálogo. Depois, recua: diz não acreditar que Kiev tenha mirado a residência. O padrão que confunde ideólogos é menos lealdade e mais transação comercial: cúpulas, negociação e garantias para Rússia e Ucrânia. Zelensky pede garantias longas porque conhece o preço de promessas vagas do amigo norte-americano; Putin testa limites; Trump tenta produzir uma saída negociada na reorganização dos blocos de influência.

A China entra nisso como em quase tudo: sem muito espetáculo. Para ela, Venezuela parece ser menos aliança ideológica e mais energia, dívida e posição estratégica. Condena a violação de soberania porque o precedente lhe interessa, inclusive no léxico sobre Taiwan, mas joga o pragmatismo: negociar com quem controlar o canteiro amanhã para preservar petróleo, contratos e recebíveis.

E o chavismo: cai junto? Sequestrar um líder não desmonta o ecossistema, e nem parece ser esse o objetivo. Delcy Rodríguez como interina sugere continuidade ainda que com possível disputa interna, não colapso automático. A base burocrático-militar pode soar fragilizada ou desleal pela facilidade e velocidade com o qual o presidente da nação foi raptado. Assim, parece muito aberto, o chavismo pode rachar; mas pode também se fortalecer na defesa da soberania diante da invasão do inimigo comum.

Aqui faço parêntese e saio da arquibancada acrítica da vida: nenhuma das lideranças citadas está pensando primeiro no povo pobre. Não é essa a pauta. Maduro, que também debocha do direito internacional, sai de cena justamente quando a Venezuela ensaiava uma melhora insípida e desigual: riqueza circulando em bolsões dolarizados, enquanto o país segue com salário pulverizado, serviço público em ruína, pobreza massiva e migração como destino. O país parece preso entre limites internos do chavismo e do Estado rentista e a pressão geopolítica das sanções, que estrangulam receita, crédito e a operação petroleira.

Os erros estruturais são conhecidos: incapacidade de focar e diversificar os caminhos de produção de riqueza, aprofundamento do rentismo; câmbio prolongado se transformando em máquina de arbítrio e corrupção; Estado aparelhado por amiguismo. Um projeto político que finda (querendo ou não) por misturar austeridade e welfarismo: benefícios pontuais como sustentação política enquanto a austeridade recai sobre salário derretido, investimento público e capacidade técnica estatal. O caminho misto do Chavismo mantém as elites, organizadas em duas redes sobrepostas: empresarial tradicional e burocrata-militar, que disputam o próprio Estado como “meio de produção” decisivo para manutenção de seus interesses corporativos, enquanto o povo fica ao relento da própria sorte.

O Brasil, vizinho estrutural da Venezuela e fronteira ativa, corretamente condena os bombardeios e o sequestro do então presidente Maduro enquanto tenta manter canal com Caracas, sem abrir mão de diálogo com os EUA e da postura de mediador de conflitos.

Os riscos principais, entre muitos, cito três:

  • humanitário-fronteiriço: pressão migratória e acolhimento dos irmãos latinos diante do aumento da instabilidade,
  • geopolítico-comercial: preservar canais com Washington sem aceitar o precedente arbitrário como padrão e
  • político-interno: nos prendermos em caricaturas de “defender ditadura” x “entreguismo yankee” em um ano eleitoral.

A verdade do mundo é velha: a riqueza é produzida coletivamente e privatizada pelos que têm poder para fazer isso. E aqui a esquerda falhou de um jeito especifico, foi elegante e engenhosa em distribuir renda, mas tímida em reorganizar os caminhos da produção e universalizar a riqueza. Como diria minha avó, perdeu o fio da meada. Enfraqueceu-se ao não fazer os enfrentamentos estruturantes da sociedade. Agora, diante da austeridade e do colapso de expectativas, parte da esquerda latino-americana se refugiou na liturgia militante: slogan, panfleto, guerra imagética, e manutenção do poder pelo poder, deixando o campo livre para forças que capturam a indignação popular ou a domesticam com retórica e medo.

Lembro-me de uma conversa com um venezuelano que era repositor de mercado em Buenos Aires, um dos dez venezuelanos que conheci na vida. Embora sofresse preconceito, tivesse um emprego pobre, morasse em uma periferia de Buenos Aires, estava se sentindo melhor ali. Sua fuga não fora ideológica, apenas material, uma frase me dele marcou, era algo como: “Chaves é um Bolsonaro de bandeira trocada”. Com todos que conversei aprendi o quão complexo é o problema do país deles, e que nós, brasileiros não sabemos xongas do que acontece na América Latina.

Mediante isso, uma coisa é certa: responsabilidade não se fabrica por intervenção unilateral, narrativa panfletária ou verticalização burocrática; o precedente piora o mundo. A crítica ao Trump é simples: não é santificar o Chavismo-Madurismo, é não normalizar a soberania como detalhe e a instabilidade como padrão político. Amanhã a exceção escolherá outro alvo, e nunca há motivo nobre, e o alvo, direto ou indireto será a vida do pobre. No fim, todos tratam “democracia” como gramática útil para legitimar violência, negociação, força e propriedade.

Se a esquerda latino-americana quiser virar o jogo, precisa parar de tratar produção como palavra inimiga e empreendedorismo como culpa, mérito como crime, entre muitas outras pautas contemporâneas. É preciso começar a falar de produção popular organizada, com regra, técnica e escala, sem precarizar a vida.

Diversificar não é palavra solta, é criar milhares de pequenas indústrias do cotidiano: alimento, reforma, saneamento, manutenção urbana, reciclagem, energia solar de bairro, logística leve, carpintaria, metal, costura, software simples, conectadas por cooperativas, consórcios comunitários e redes multi-escalares de serviços. O motor não precisa ser só o Estado, embora ele deva ter participação ativa: pode ser fundo rotativo de bairro (crédito barato gerido localmente e alimentado por imposto sobre grandes fortunas), compras ancoradas por médias e grandes empresas via metas de consumo local e cadeias curtas, cooperativas de plataformas (o app pertencendo a quem trabalha, não a um rentista), e direitos para o trabalhador por conta própria que se enquadre em microempreendedor individual (bolsa auxilio, previdência, seguro, descanso, proteção à doença), pra que autonomia não vire abandono.

Substituir a disputa etérea e moral por uma arquitetura de vida: desenho institucional simples, replicável, que faça o pobre produzir com dignidade, e não apenas sobreviver no intervalo entre um benefício e outro. É recolocar o fio da meada na agulha. Sem isso, a exceção seguirá escolhendo seus alvos, e, como sempre, o alvo final será a vida do pobre, enquanto os bilionários aproveitam o mundo como parque de diversões.

Desenho de autoria pessoal: viagem a Buenos Aires em 2019: Roda de conversa – Venezuelanos terminando seu dia de trabalho enquanto muitos da cidade estavam começando o dia de trabalho.
os temas: América Latina, Chaves, Bolsonaro, Conca jogava muita bola.
— em Caballito.
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Arquitetura é um colo de avó: pequenas reflexões para a prática nacional

A primeira lembrança que me atravessa quando se fala em interiores não é um catálogo de decoração, mas a casa da minha avó. Ali, a vida tinha escala de 1×1: o corpo inteiro cabia entre o bordado da capinha do gás, a máquina de costura que se transformava em carro de fórmula 1, o quintal que era ao mesmo tempo o mundo inteiro e  cantinho de acolhimento. É dessa escala íntima, olho no olho, que eu via nascer a arquitetura. A arquitetura é um colo de avó, um bolo de laranja quentinho na mesa, um sol que entra na fresta da janela.

No Brasil, a profissão foi arrastada para um dilema: somos vistos ora como luxo e supérfluo, ora como engrenagem de projetos estatais grandiosos e inacabados. No meio, fica o vazio: a vida cotidiana do povo.

Essa fratura não é apenas cultural; ela é estrutural, econômica. Em poucas décadas, deixamos de ocupar um lugar estratégico dentro do projeto nacional de desenvolvimento e passamos a ser percebidos como caros e substituíveis. A armadilha, a meu ver se aprofundou quando a profissão centralizou-se na lógica do luxo como um caminho único. E isso não é necessariamente uma crítica implacável à arquitetura de luxo, que tem seu espaço de direito na sociedade atual. 

O luxo funciona como dispositivo de status e exclusividade: molda o gosto, define o que é belo e desejável, mas apenas para uma fração ínfima da sociedade. A classe média, que em países industrializados sustenta tanto o consumo quanto a cultura material da sociedade, no Brasil nunca se consolidou plenamente. E os pobres, que são maioria, só nos enxergam quando o Estado entra em seus territórios com grandes obras, remoções ou empreendimentos de impacto praticamente autoritário. Fora disso, a figura do arquiteto desaparece de seu horizonte de vida, diferente do médico por exemplo.

Essa ausência tem consequências devastadoras. Quando o cotidiano das famílias não reconhece o arquiteto como parte de sua economia; alguém que resolve problemas espaciais urgentes, que age na escala doméstica, comunitária, de vizinhança, a profissão se isola. E quando uma categoria se isola, perde relevância social e política. É sintomático que, enquanto o país vivia a explosão de consumo de carros e imóveis nos anos 2000, embalado pela ascensão de milhões ao consumo básico, nós não conseguimos nos inserir como serviço acessível para essa massa. Continuamos restritos a dois pólos já citados: o do luxo exclusivo e o do planejamento estatal de megaprojetos. Ambos distantes da vida real.

É nesse ponto que precisamos recuperar uma lição das escalas. Há a escala da família: o sofá da avó, o banheiro que falta em tantas casas brasileiras, o quartinho inacabado do filho o espaço íntimo que define dignidade. Há a escala da comunidade: a rua onde se joga bola, a praça onde se organiza uma festa, a rede de solidariedade que sustenta bairros inteiros. E há a escala da multidão e do estatal: os fluxos da cidade, os planos que estruturam mobilidade, habitação e saúde coletiva. Claro, não são escalas fechadas, longe de mim querer atravessar a cidade por apenas três recortes possíveis, apenas simplifico para fins de dar algum inicio de pensamento sobre o tema. 

O arquiteto, ou o estudante de arquitetura precisa ser capaz de transitar entre essas dimensões, sem perder de vista que elas se conectam como sistema, como ensinavam os pensadores que viam o espaço não apenas como território físico, mas como campo de cidadania, de luta, de afetos.

Se a economia brasileira gira em torno de estratégias de mega exclusão e certa inclusão controlada para evitar grandes turbas disruptivas, a arquitetura não pode se reduzir ser apenas vitrine da exclusividade. A profissão precisa se reorganizar a partir da vida real, da urgência, daquele que não pode esperar seis meses por um projeto para então começar uma obra. Nosso trabalho tem de ser mais ágil, mais enraizado, mais próximo do cotidiano da maioria. Não se trata de reduzir a qualidade ou o rigor técnico, mas de reinventar formas de inserção econômica laboral: organizações coletivas, solidárias, mutirões, cooperativismos, abertas a novas economias de escala que vão do mutirão à assistência técnica, do microempreendimento comunitário às tecnologias sociais, da carreira de estado à arquitetura liberal de atendimento popular.

Sem uma estratégia econômica que inclua de fato o povo, não haverá campo de trabalho sustentável para a arquitetura. E sem arquitetos presentes no cotidiano popular, não haverá cidade justa. Entre o sofá da avó e os grandes planos da nação, existe uma vasta zona de vida que precisa ser ocupada, praticamente um universo de cores que se assemelha a um quadro de Pollock. É ali que a arquitetura pode recuperar sua relevância. Não como luxo, não como burocracia estatal distante, mas como prática social que desenha futuro a partir do olho no olho, da escala humana, daquilo que funda a dignidade de viver.

Para tal, temos uma missão: compreender, técnica e cientificamente, onde estamos e para onde podemos ir. Isso começa pelo gesto simples de olhar ao redor: o bairro, a rua, a casa do vizinho que precisa de um banheiro digno. Jovens arquitetos podem se organizar em coletivos, experimentar formatos de cooperativas, oferecer serviços acessíveis de assistência técnica, participar de mutirões de construção, articular-se com movimentos sociais e comunidades. Outros podem se dedicar ao setor público, disputando políticas urbanas e habitacionais de forma crítica. Há também espaço para a inovação: explorar tecnologias sociais, novos materiais e soluções sustentáveis de baixo custo.

O ponto é não esperar pela grande encomenda ou pelo concurso distante; é começar nos interstícios, nos entremeios, nos lugares que parecem pequenos, mas que são o coração da vida real. É ali que a arquitetura renasce como prática social. Não precisamos reinventar tudo de uma vez, nem sermos reféns de ferramentas. Afinal não é a ferramenta que define o arquiteto, é o arquiteto que define a ferramenta que vai utilizar. Basta iniciar os processos, criar redes e caminhar juntos. A relevância virá quando conseguirmos estar presentes na escala da família, da comunidade e da multidão, com a coragem de projetar os afetos dos mais pobres. Ou estamos presentes na escala da vida real, ou seremos apenas designers do privilégio.

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Sob os Véus de Gaza

Alaa com Nimah menos de 24 horas após seu nascimento – Cortesia de Alaa al-Nimer foto original: Aljazeera

Na madrugada de 21 de junho de 2025, o mundo acordou mais tenso. Os Estados Unidos bombardearam instalações nucleares no Irã com bombas de penetração massiva. Os alvos principais foram as estruturas de enriquecimento de urânio. Compondo uma nova encruzilhada geopolítica que ameaça empurrar o planeta para mais um ciclo de violência.

A justificativa oficial é a contenção. Impedir que o Irã desenvolva armas nucleares que, segundo os aliados israelenses, poderiam ameaçar a paz de Israel. É a lógica do ataque preventivo. Muitos israelenses, inclusive críticos de Netanyahu, apoiam essa narrativa, chamando-a de “guerra existencial”. Uma guerra, dizem, por sobrevivência.

O conflito entre Israel e Irã, e de forma mais ampla entre Israel e Palestina, revela um espelho humano desconfortável. Ali se projetam séculos de colonialismo, intervenções ocidentais mal resolvidas e narrativas cuidadosamente moldadas para justificar o injustificável. O Ocidente precisa reconhecer seu papel neste processo de limpeza étnica, ao se omitir diante das estruturas territoriais que ajudou a consolidar.

Não vejo, no horizonte próximo, uma saída nítida. Com o fim da era do petróleo e a busca global por novas fontes energéticas, o Irã precisará apostar na energia nuclear como estratégia de soberania. Por sua vez, a desconfiança do bloco formado por Israel, EUA e Europa torna impossível qualquer avanço sem tensão entre as partes. A ascensão de poderes ultraconservadores, sejam teocráticos como no Irã, parlamentares ultra-nacionalistas como em Israel ou militantes como no Hamas, transforma a guerra em condição permanente no território. Vamos explorar alguns pontos.

O argumento sionista da “guerra existencial” perde força diante da desigualdade bélica. Não é possível comparar de forma equânime os arsenais de Israel e Palestina, nem justificar como defesa, a recusa de ajuda humanitária à população de Gaza. Aqui precisamos assumir um princípio pétreo: o Ocidente se cala diante das ações de Israel, rotulando qualquer crítica como antissemitismo.  Em nome de práticas e acordos econômicos historicamente firmados, não praticam uma boa política de resolução de conflitos. Poucas nações tiveram a coragem da África do Sul em denunciar Israel na Corte Internacional por prática de genocídio. Enquanto isso, seguimos exigindo que os palestinos se comportem como bons colonizados. Se resistem, são terroristas. Se protestam, são ignorados. Se morrem, viram estatística. E pedimos uma paz etérea, sem ação.

O ataque ao Irã, mais que mera resposta a ameaças nucleares, é uma exibição de força, um recado sobre quem deseja comandar o tabuleiro. Mais uma vez, os civis pagam o preço. Em Teerã, Gaza, Tel Aviv ou Beirute, pessoas comuns só querem viver, trabalhar, criar filhos e cuidar dos seus. Mas veem seus sonhos destruídos por discursos belicistas disfarçados de patriotismo, autodefesa, ou religião e bombas que transformam suas vidas e cidades em terra arrasada.

As potências se movem com a frieza clássica das Nações. A Rússia torce pelo caos, desviando atenções da Ucrânia enquanto negocia com quem lhe interessa. A China observa, pragmática, enquanto seu fornecedor de petróleo entra em colapso. A Europa vacila. Quer paz, mas teme confrontar Washington. Quer direitos humanos, mas evita encarar seus próprios telhados de vidro.

O mundo, por sua vez, se perde num jogo maniqueísta. Uns defendem o Irã ou o Hamas, como resistência pura, outros o Ocidente Judaico Cristão, Israel e sua “necessidade” de guerra. Esquecemos que nenhum desses garante os direitos humanos nem para seus próprios povos. Precisamos romper esse ciclo. Boicotes e sanções precisam ser aplicados não apenas a Palestina ou a Israel, mas principalmente ao Hamas, Irã, EUA, Rússia, China e todos que alimentam e fazem girar uma parte da economia pela lógica da destruição.

O caminho mais difícil, porém necessário, é o reconhecimento de que nenhum povo liberta a si mesmo destruindo o outro. Assim foi no passado, antes do delírio sionista que nem todos os judeus aceitam. A vida pós-Holocausto não pode existir à custa de um novo Holocausto, seja ele palestino, curdo ou iraniano.

Para piorar, a guerra também se alimenta de discursos religiosos dogmáticos. A ideia de uma Terra Santa, o retorno do profeta, a reconstrução do templo sagrado, criam terreno fértil para o circuito global de ódio. No Brasil, líderes evangélicos como André Valadão justificam o genocídio com base em profecias. A guerra seria inevitável, parte do fim dos tempos e necessária para a volta do Messias. Como se Cristo, o mesmo pregou o amor ao próximo, precisasse do extermínio de um povo inteiro para retornar. Assim, a distopia e o apocalipse substituem a política.

Essas estruturas de poder no Oriente Médio, marcadas por patriarcado, religião e geopolítica, atingem com força especial as mulheres. A guerra, em todas as suas camadas, reforça o domínio masculino sobre o território, o poder e os corpos. Não à toa, os maiores índices de vítimas são mulheres e crianças. No Irã, avanços conquistados antes da Revolução de 1979 foram revertidos tão logo o Regime se implantou. A moral religiosa restringiu direitos, reduziu a presença feminina no mercado de trabalho e impôs submissão legal. Vale lembrar que não faz nem três anos que Mahsa Amini, uma jovem curda-iraniana foi assassinada por forças policiais tendo como crime: seu hijab não atendia aos padrões obrigatórios do governo.

Na Palestina, a condição das mulheres,  especialmente em Gaza e Cisjordânia, é ainda mais agravada pela colonização israelense e pelas práticas ideológicas conservadoras tanto do Sionismo quanto do próprio Hamas. Elas enfrentam uma dupla opressão: a violência e o controle de Israel, que restringe seus direitos básicos e perpetua práticas de apartheid, e as leis discriminatórias impostas pelo Hamas. A contradição e violência institucionalizam a desigualdade e limitam a presença das mulheres na esfera pública, embora mantenham taticamente ativas suas mobilizações de resistência. Além da baixa participação política, mulheres palestinas lidam com restrições legais à herança, ao trabalho, à mobilidade e ao próprio corpo. A falta de leis contra a violência doméstica, aliada a um sistema jurídico que marginaliza a palavra feminina, consolida um cenário de violação sistemática dos direitos humanos.

A situação em Israel também revela contradições profundas. O feminismo é incompatível com o sionismo, uma vez que este se estrutura na colonização e dominação de outro povo. A ocupação e a negação de direitos aos palestinos e a sistemática ação de limpeza étnica por meio do extermínio, inclusive realizada por mulheres soldados, evidencia um tipo de feminismo seletivo, que se mostra insustentável frente às lutas por igualdade universal.

A luta da mulher palestina se torna múltipla: ao mesmo tempo enfrenta todas as contradições internas de um sistema conservador do qual faz parte, enquanto combate e resiste diante do processo de criminalização e desumanização traçado pelo ocidente. Ao mesmo tempo, também tem de lidar com a lógica colonizadora do ocidentalismo de ajudar a suas lutas, que muitas vezes atrapalham mais que apóiam.

Porém, mesmo diante da repressão, os movimentos feministas islâmicos resistem. No Irã, por meio da educação, do ativismo jurídico e da reinterpretação do Corão. Na Palestina, mulheres atuam nas linhas de frente da resistência (ainda que não estejam nas direções políticas do Hamas), atuam em espaços comunitários, questionam normas religiosas machistas e organizam redes de solidariedade. Sob regimes autoritários, sua força continua sendo central para a transformação política e cultural no Oriente Médio.

Talvez seja hora de mudar a pergunta. Em vez de discutir que nação está certa nessa guerra, precisamos pensar no que estamos dispostos a fazer para que a guerra acabe. A vida não é sobre lados. É sobre recusar uma lógica que transforma sofrimento humano, racismo, machismo, xenofobia em ferramenta de controle de poder.

Se viver no Rio de Janeiro nos ensinou algo, foi que mais armas nunca trarão paz. Bombardear sem diálogo não desfaz o ódio. Ocupações e bloqueios não garantem segurança. É preciso inventar outro caminho. E ele só começa quando reconhecemos o valor da vida como centro de qualquer política e damos voz a quem está sendo massacrado. Parafraseando o Rappa: Paz sem voz, não é Paz, é medo, e o medo não deve ser instrumento do fazer político.

Lista de Referências interessantes:

GIL, Rafaela Herrmann. A mulher palestina e sua representatividade nos espaços de poder. 2019. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Relações Internacionais) – Universidade de Brasília, Brasília, 2019. Disponível em: https://bdm.unb.br/bitstream/10483/24494/1/2019_RafaelaHerrmannGil_tcc.pdf. Acesso em: 25 jun. 2025.

AUTOR DESCONHECIDO. Conflito entre Israel e Irã reacende debate evangélico sobre fim dos tempos. UOL, São Paulo, 25 jun. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2025/06/25/conflito-entre-israel-e-ira-reacende-debate-evangelico-sobre-fim-dos-tempos.htm. Acesso em: 25 jun. 2025.

U.S. CAMPAIGN FOR PALESTINIAN RIGHTS. Palestine is a feminist issue. [S.l.]: USCPR, s.d. Disponível em: https://uscpr.org/activist-resource/grassroots-advocacy-toolkit/palestine-is-a-feminist-issue/. Acesso em: 25 jun. 2025.

POLLITT, Katha. No, you can’t be a feminist and a Zionist. Forward, [S.l.], 31 out. 2017. Disponível em: https://forward.com/opinion/387675/no-you-cant-be-a-feminist-and-a-zionist/. Acesso em: 25 jun. 2025.

ISRAEL DEFENSE FORCES. The status of women in Gaza. [S.l.]: IDF, s.d. Disponível em: https://www.idf.il/en/mini-sites/the-hamas-terrorist-organization/the-status-of-women-in-gaza/. Acesso em: 25 jun. 2025.

COMMON DREAMS. UN: ‘Hell on Earth’ for Gaza’s children and women. [S.l.]: Common Dreams, 6 nov. 2023. Disponível em: https://www.commondreams.org/news/united-nations-gaza. Acesso em: 25 jun. 2025.

PETIT, Jérémie. L’autonomie féminine en islam chiite contemporain : l’exemple de l’Iran. Revue des mondes musulmans et de la Méditerranée, n. 143, 2018. Disponível em: https://journals.openedition.org/remmm/6971. Acesso em: 25 jun. 2025.

NORTHEASTERN UNIVERSITY. Why are women’s rights groups silent after Hamas sexual violence against women? Political leanings are to blame, experts say. CSSH News, 16 nov. 2023. Disponível em: https://cssh.northeastern.edu/why-are-womens-rights-groups-silent-after-hamas-sexual-violence-against-women-political-leanings-are-to-blame-experts-say/. Acesso em: 25 jun. 2025.

AL ARABIYA ENGLISH. Iranian woman beaten by police for not wearing hijab dies after coma. Al Arabiya, 16 set. 2022. Disponível em: https://english.alarabiya.net/News/middle-east/2022/09/16/Iranian-woman-beaten-by-police-for-not-wearing-hijab-dies-after-coma. Acesso em: 25 jun. 2025.

AL JAZEERA. Muslim women in the West in the crosshairs of Zionists, white feminists. Al Jazeera, 31 out. 2023. Disponível em: https://www.aljazeera.com/opinions/2023/10/31/muslim-women-in-the-west-in-the-crosshairs-of-zionists-white-feminists. Acesso em: 25 jun. 2025.

AL JAZEERA. Feminists need to oppose hijab bans as much as hijab mandates. Al Jazeera, 21 mar. 2023. Disponível em: https://www.aljazeera.com/opinions/2023/3/21/feminists-need-to-oppose-hijab-bans-as-much-as-hijab-mandates. Acesso em: 25 jun. 2025.

SILVA, Renata Corrêa da. A morte de mulheres palestinas e o silêncio das feministas e da academia. Jornal da USP, 29 nov. 2023. Disponível em: https://jornal.usp.br/artigos/a-morte-de-mulheres-palestinas-e-o-silencio-das-feministas-e-da-academia/. Acesso em: 25 jun. 2025.

Referências de instagram:

Irã

  1. Faravaz Farvardin – artista e cantora – @faravazmusic
  2. Masih Alinejad – jornalista e ativista exilada – @masih.alinejad
  3. Reihane Taravati – fotógrafa e videomaker – @reihanetstudio
  4. Nesa Azadikhah – DJ e produtora musical – @nesaazadikhah
  5. Farnaz Abdoli – estilista e designer de moda – @farnazabdoli
  6. Shirin Heidari – modelo e ativista – @shirinshirinak
  7. Elaine Chaya – influenciadora iraniano-americana – @elainechaya

Israel

  1. Hagit Ofran – ativista do Peace Now – @hagitofran (X/Twitter)
  2. Yael Mellul – advogada e ativista feminista – @mellul_yael
  3. +972 Magazine – coletivo jornalístico crítico à ocupação – @972mag

Palestina

  1. Palestinian Feminist Collective – coletivo feminista da diáspora palestina – @palestinianfeministcollective
  2. Bisan Owda – jornalista e ativista em Gaza – @wizard_bisan1
  3. Renad Attallah – influenciadora juvenil de Gaza – @renadfromgaza
  4. Malak Mattar – artista visual de Gaza – @malakmattarart
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O mundo precisa reaprender a dialogar

Vivemos tempos estranhos. Enquanto as redes sociais gritam, os mercados oscilam e as potências se encaram, parece faltar algo básico na política: a capacidade de ouvir, entender e negociar. A era Trump, com sua retórica agressiva e decisões impulsivas, expõe uma fragilidade maior; a de um mundo que paulatinamente tem perdido seus mecanismos de mediação.

A Europa, nesse cenário, parece ter ficado sem rumo. Diante das pressões americanas e do avanço econômico da China, suas reações foram, muitas vezes, descoordenadas e marcadas por políticas internas que mais enclausuram e desunem do que somam. O economista Yanis Varoufakis aponta isso com lucidez: a Europa está se tornando um apêndice hesitante de um império em declínio. E o pior é que faz isso sem um plano próprio, sem coragem de assumir um papel autônomo na discussão global.

Mas o que significaria, hoje, retomar um projeto coletivo? Talvez não seja tão complexo quanto parece. Não se trata de criar novas alianças para enfrentar inimigos, mas de reinventar os modos de convivência globais. Abandonar tarifas que não servem a ninguém. Investir conjuntamente em tecnologia e sustentabilidade. Fortalecer laços com países que também buscam um lugar mais justo na engrenagem global. E, acima de tudo, recuperar a capacidade da mediação e da negociação. Essa arte, que em tempos de polaridades exacerbadas e guerras, parece tão esquecida, de construir acordos a partir de interesses compartilhados.

Quando diferentes interesses são colocados à mesa, a mediação busca justamente aquilo que, à primeira vista, parece impossível: transformar conflito em oportunidade. Para isso, é preciso mais do que diplomacia formal. É necessário método, é isso que separa a mediação do romantismo. Reconhecer os próprios limites, abrir mão de posições rígidas e aceitar que o outro também tem razões legítimas. Essa é uma arte rara, especialmente em tempos de egos inflados, disputas sangrentas de poder e nacionalismos exacerbados.

Em vez de disputas baseadas em força ou prestígio, os acordos bem-sucedidos tendem a se apoiar em algo mais sutil: o reconhecimento de que há um ganho possível para todos, ainda que não seja o ganho pleno. Parcerias econômicas, intercâmbios tecnológicos, cooperação climática, tudo isso exige uma mudança de postura, em que algum grau de interesse comum se sobreponha à vaidade  da disputa distópica da geopolítica. A Europa, por exemplo, poderia negociar diretamente com a China em torno de tecnologias verdes, não como quem desafia os EUA, mas como quem constroi pontes a partir de necessidades mútuas.

Essas negociações não se constroem em conferências relâmpago, mas em processos contínuos de escuta e operação conjunta. Elas exigem paciência, linguagem precisa e disposição para lidar com desacordos sem transformar tudo em guerra. É aí que a mediação se revela mais do que uma técnica: torna-se um modo de estar no mundo. Um modo de afirmar que, apesar das diferenças, ainda podemos e devemos construir futuros compartilhados.

É possível imaginar um mundo menos polarizado, se houver disposição para cooperar em vez de competir o tempo todo. A mediação, quando levada a sério, não é fraqueza: é maturidade política. É reconhecer que ninguém sobrevive sozinho em tempos de transição climática, crise econômica e tensões geopolíticas. Para a Europa, o convite está feito: em vez de seguir reagindo, pode escolher atuar. Não com gritos, mas com inteligência.

Talvez o que esteja em jogo não seja apenas uma disputa entre potências, mas a chance real de redesenhar as bases do sistema. As teorias da complexidade nos mostram que sistemas vivos, inclusive os sociais e econômicos, não operam bem sob controle centralizado e previsões lineares. Eles evoluem a partir da interação de múltiplos agentes, da cooperação descentralizada e de adaptação constante. Nesse sentido, o futuro não precisa repetir os impérios do passado: pode emergir como uma constelação de economias interdependentes, plurais, distribuídas, sem centros fixos, sem moedas únicas que arrastem nações inteiras para ciclos de dependência.

Uma economia global pensada a partir dessa lógica complexa não precisaria se apoiar em um único lastro, como o dólar, nem aceitar como naturais as atuais hierarquias de valor e poder. Poderia, ao contrário, reconhecer a diversidade de soluções locais, fomentar moedas complementares, redes de trocas descentralizadas, circuitos cooperativos de produção e alianças tecnológicas orientadas pelo bem comum. Em vez de mercados auto-regulados à moda antiga, teríamos ecossistemas econômicos interligados por princípios de equidade, sustentabilidade e solidariedade. A mediação, nesse novo mundo, deixa de ser um mero instrumento de conciliação entre velhos blocos, para se tornar um modo de cultivar a inteligência coletiva capaz de sustentar essa ordem viva e interdependente.

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Terra Arrasada: o espólio imobiliário das guerras

As duas frentes de conflitos armados do nosso tempo: Rússia vs Ucrânia e Israel vs Palestina, partilham uma engrenagem comum: a guerra converte solo habitado em tábula rasa, criando a oportunidade perfeita para que o capital entre, mapeie, loteie e venda. A assimetria de força militar é flagrante, A capacidade de resistir ucraniana sempre parece apontar para um momento impossível de segurar o contra-ataque, enquanto Palestina e Israel já pode ser assumido como um caso de genocídio disfarçado de narrativa de autodefesa. Mas há outra assimetria em vigor, a do espólio de guerra. Esta é a que mais interessa aos investidores: quem controla a ruína controla também o redesenho urbano do território. Em ambos os casos, o campo de batalha é precursor do canteiro de obras — e, muitas vezes, da corretora de imóveis. 

Na Ucrânia, a recente ofensiva de drones que incendiou parte da frota estratégica russa mostrou que a tecnologia barata pode ferir um gigante, porém, isso não muda o desnível estrutural de poder nem evita que os escombros do combate virem um ativo financeiro. Já se calcula um plano de reconstrução de US$ 524 bilhões, acompanhado de um sistema de capital sedento por rentabilidade e de consultorias que apresentam Kiev como mercado dinâmico. Paralelamente, mantém-se o debate sobre abrir o mercado de terras a estrangeiros, enquanto moradores de cidades ocupadas precisam adotar passaportes russos para não perder a moradia. Enquanto a guerra devasta; o mercado imobiliário global agradece.

Em Gaza e na Cisjordânia, o roteiro é similar. A devastação de bairros inteiros alimenta projetos que sonham erguer um Balneário Camboriu do Oriente Médio ou um Dubai neofuturista: Gaza 2035, construído acima de um vazio demográfico, um apagamento histórico que se traduz em anúncios nas redes que vendem casas sobre ruínas vivas. O custo estimado para reconstruir Gaza passa de US$ 50 bilhões, cifra que desperta tanto fundos soberanos quanto incorporadoras privadas, todos prontos para transformar luto em metro quadrado. Aqui, a tábula rasa é literal: degola a história para assentar resorts, data-centers para os GAFAM e empreendimentos verdes.

O padrão é nítido: onde o míssil abre crateras, o mercado financeiro abre terrenos férteis de rendimento. A terra arrasada vira contabilidade no sistema, a dor e morte se converte em lucros e dividendos, e o mapa se refaz sem aqueles que habitavam a terra. 

Assim, são pelo menos dois os níveis do massacre: o primeiro a limpeza étnica, territorial, comunitária e o segundo a transformação do solo criado em dinheiro para o vencedor. Este é o mesmo enfrentamento que acontece em escala local no tocando de uma ocupação sem teto. A ruptura desta engrenagem é dificílima, exige a retomada dos territórios pelos povos sobreviventes, a retomada do direito à memória e o não apagamento de seus modos de vida. 

É possível construir um modelo de habitação ou de engenharia que não precise passar pelo instrumento da guerra? Sim, é totalmente possível, já temos inúmeros exemplos construídos e estudos de caso. A relação entre guerras e construção não é condicional. Não precisamos de guerras para construir, mas a guerra sempre gerará como espólio o território conquistado e o direito a reescrever a história e geografia de um povo inteiro.

foto Zain JAAFAR / AFP, publicado no O GLOBO.

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Estatal, Público, Privado e Comum

Falemos um pouco sobre os conceitos de estatal, público, privado e comum. Muitas vezes soam embaralhados no debate político e no circuito popular. É muito corriqueiro pensarmos o sistema estatal e o sistema público por exemplo como a mesma coisa, coisa de governo. Esse tipo de confusão acaba por esconder disputas de poder e visões diferentes, principalmente, sobre quem deve gerir o que é de todos e como deve ser gerido.

Estatal é tudo aquilo que pertence diretamente ao Estado. São bens e instituições geridas pelo poder público, com autoridade centralizada. Público, em sentido mais amplo, é aquilo que existe para uso e benefício de todos, independentemente de ser estatal ou não. Aqui está um sombreamento corriqueiro. Muitas vezes entendemos um bem estatal como um bem público. Ainda que seu produto final seja deste caráter específico, sua gestão não necessariamente é. Decisões de gestão da Petrobrás, por exemplo, não precisam de audiência pública aberta a todos os cidadãos brasileiros para acontecer.

O privado por sua vez, é mais simples de entender: aquilo que é de propriedade de indivíduos ou empresas, voltado para interesses particulares, ainda que sob regulação pública. É no campo privado que florescem a autonomia, o empreendedorismo e, ao mesmo tempo, as desigualdades.

Além destes, vou retomar aqui o conceito de comum, trazido por Antonio Negri. O comum não seria nem estatal, nem público nos moldes tradicionais. Sua principal distinção está no fato de que ele emerge da própria colaboração social. Ele é um modo de organização mais horizontalizado por natureza. Conhecimentos compartilhados, redes de solidariedade, práticas coletivas que não dependem do Estado nem de interesses privados. O comum é um espaço de invenção social e resistência.

Há um modelo que deva ser hegemônico? A meu ver não, cada modelo responde a um conjunto específico de necessidades sociais e pode ser operado de forma estratégica a partir da complexidade. Talvez o maior erro da gestão global, desde a revolução industrial, tenha sido a tentativa de impor um modelo hegemônico e referência paradigmática.

Simplificando: nem a estatização de todo o sistema econômico, como pregado por algumas tradições políticas de esquerda e nem o enxugamento ou fim da máquina estatal como pregado por inúmeros discursos neoliberais e capitalistas, resolverão o sistema. No meu modo de pensar: Há bens, instituições e serviços que precisam de uma gestão pública, há os que precisam de uma gestão estatal, há os que funcionam melhor no sistema privado e ainda há aqueles que funcionam muito melhor na organização pelo comum.

As confusões realmente começam quando os limites entre esses conceitos se tornam turvos. Uma escola pública, estatal em estrutura, deveria servir ao interesse público, mas quantas vezes vemos interesses privados infiltrados em sua gestão? Quantas vezes o Estado administra mal o que é público, esvaziando o sentido coletivo do bem? Ao mesmo tempo, quantas vezes uma corporação privada se utiliza de recurso e privilégio público e estatal para conseguir lucro ou benefícios?

Fora outros espectros de sombreamento. Organizações sociais que prestam serviços de saúde com verbas públicas, mas operam com gestão privada; empresas estatais que agem como corporação privada no mercado internacional; espaços públicos privatizados sob concessão. O mercado tenta se apropriar dos privilégios e benefícios do que é público; o Estado tenta governar o que poderia ser comum; o comum se perde sendo cooptado pelo Estado ou pelo mercado.

Entender essas distinções é um ato político. Saber onde termina o interesse público e começa o interesse privado é fundamental para defender direitos, garantir justiça social e reinventar novas formas de vida. Um bom desafio para o nosso tempo seria justamente este: resgatar o comum como um campo vivo de liberdade coletiva e reorganizar o projeto de nação espacializando melhor o que deve ser gerido de forma estatal, de forma pública, de forma comum e o que pode ser mercado.

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