Arquitetura e Urbanismo, economia, pensamento, territórios, trabalho

Indústria Território, um breve devaneio por um conceito.

Há um problema material na discussão sobre reindustrialização da América Latina. Desejamos politicamente ampliar novamente nossa capacidade produtiva, mas fazemos isso em países que ainda precisam construir parte importante da infraestrutura necessária para uma indústria contemporânea funcionar.

Esta não é uma questão nova para países pobres e historicamente colonizados, mas ganha outra dimensão quando os ciclos tecnológicos passam a ser muito mais acelerados que os ciclos de construção da infraestrutura. Uma indústria pode mudar algumas vezes enquanto a rede que a abastece continua no mesmo lugar.

Durante muito tempo organizamos parques industriais a partir de uma gramática relativamente reconhecível, baseada na implantação das unidades e na infraestrutura que organiza o conjunto. Grandes sites industriais, porém, foram adquirindo outra complexidade. Uma infraestrutura atende mais de uma unidade, redes atravessam o conjunto, áreas livres passam a ter valor justamente porque permanecem livres. O que ainda será construído começa a depender bastante do que decidimos tornar permanente agora.

Se antes pensávamos em territórios fabris, hoje podemos (perdão soar pretensioso o axioma) pensar em indústrias territórios. A literatura sobre ciclos de vida industriais mostra que edifícios, instalações e equipamentos se transformam em ritmos diferentes, produzindo sobreposições que o planejamento precisa absorver (DÉR et al., 2021).

Ao pensarmos o site industrial como território, deslocamos o Masterplan de um projeto definido de implantação das unidades para um projeto de relações entre sistemas com funções e tempos distintos. Infraestruturas, áreas livres e estruturas compartilhadas passam a participar da organização do conjunto.

A cidade oferece uma imagem interessante para esse deslocamento. A indústria já participou da formação de vilas operárias, núcleos fabris e cidades organizadas em torno da produção. Em certos complexos contemporâneos, essa relação pode ser invertida: o pensamento territorial passa a organizar o próprio site industrial.

As utopias do Archigram tocaram essa questão por outro caminho. Na Plug-In City, uma estrutura de maior permanência recebia partes com outros tempos de duração e substituição, imaginando uma cidade aberta à transformação. Aquilo que nos anos 1960 aparecia como formulação radical encontra hoje uma condição mais concreta em grandes sites industriais, onde estruturas duradouras convivem com ciclos produtivos cada vez mais curtos. 

Algumas experiências asiáticas ajudam a enxergar essa mudança por outro ângulo. Em Jurong Island, Singapura, o que chama atenção não é propriamente a presença de grandes indústrias, mas aquilo que existe entre elas. Corredores de serviço, redes de tubulações, logística e utilidades compartilhadas formam uma estrutura que antecede e ultrapassa cada unidade. As empresas continuam distintas, mas parte de sua capacidade produtiva passa a depender de um chão comum, de uma infraestrutura preparada para estabelecer relações. A própria JTC descreve Jurong como um ecossistema industrial simbiótico. 

Na China, essa relação aparece de forma menos acabada e talvez por isso ainda mais interessante. O estudo sobre o Yueyang Green Chemical Industry Park parte justamente da dificuldade de separar o planejamento industrial da organização espacial. Cadeias produtivas, infraestrutura e reservas de crescimento começam a ser pensadas juntas, como partes de uma estrutura que precisa continuar se reorganizando à medida que o parque se transforma (WANG et al., 2022). 

A noção de simbiose industrial ajuda a nomear parte do que aparece nessas experiências. Chertow utiliza o termo para relações materiais entre atividades distintas, envolvendo fluxos de energia, água, materiais e subprodutos, cuja viabilidade depende também de proximidade e possibilidade de conexão. Um levantamento recente de 71 parques ecoindustriais identificou 999 fluxos simbióticos e mostrou como essas relações tendem a se organizar em torno de setores capazes de estruturar outras conexões no parque (CHERTOW, 2007; LIPPI; EVOLA; VESCE, 2025). Interessa aqui justamente essa passagem: quando a infraestrutura comum começa a permitir relações entre unidades, ela deixa de responder apenas às necessidades particulares de cada fábrica e passa a participar da própria estrutura do site industrial. 

Jurong e Yueyang são experiências muito distintas, mas retornam à mesma questão que apareceu antes: em determinado momento, a infraestrutura deixa de ser apenas aquilo que atende uma fábrica e começa a organizar as possibilidades do conjunto. O site passa a carregar relações que não pertencem inteiramente a nenhuma de suas unidades.

A partir daí, o tempo deixa de aparecer apenas como cronograma de planejamento ou faseamento e passa a integrar a própria decisão de projeto. Se os sistemas que compõem o site possuem durações distintas, cada escolha espacial também carrega uma expectativa de permanência. Uma rede principal, difícil de deslocar, produz consequências diferentes de uma configuração produtiva pensada para ser substituída alguns anos depois.

Doreen Massey ajuda a dar espessura a essa questão ao pensar o espaço como coexistência de trajetórias, e não como uma superfície estática. No site industrial, essas trajetórias podem estar fisicamente próximas e, ainda assim, pertencer a tempos muito diferentes. O projeto passa a lidar não apenas com onde cada coisa está, mas com quanto tempo ela tende a permanecer e com aquilo que continuará condicionando enquanto permanecer (MASSEY, 2004). 

Isso nos permite organizar e projetar graus de permanência. Algumas estruturas precisam atravessar mais de um ciclo produtivo; outras precisam conservar capacidade de alteração. Até uma área ainda vazia pode ter uma função no projeto, quando sua indeterminação preserva possibilidades futuras que ainda não amadureceram.

O Masterplan ganha outra função quando o site é pensado nessa condição. Se os diferentes sistemas possuem ciclos próprios e o planejamento industrial precisa lidar com infraestrutura, produção e organização espacial de forma articulada, como aparece tanto nos estudos sobre ciclos de vida industriais quanto no caso de Yueyang, o plano deixa de representar apenas uma configuração futura do conjunto (DÉR et al., 2021; WANG et al., 2022). Passa a organizar relações que continuarão sendo alteradas ao longo do tempo.

Isso exige também distinguir o grau de definição das decisões. Premissas consolidadas, condicionantes técnicos, hipóteses de planejamento e questões ainda abertas não possuem o mesmo peso sobre o território. O Masterplan pode registrar essas diferenças sem transformá-las antecipadamente em forma permanente. Nesse aspecto, aproxima-se, guardadas as devidas proporções, da lógica de um plano diretor: organizar uma estrutura comum enquanto parte de suas ocupações e relações continua necessariamente abertas a constante transformação.

Considerações finais

Voltemos então para a América Latina. Em países onde os ciclos de investimento são mais lentos, descontínuos e dependentes de recursos escassos, coexistindo fragilidades institucionais, ambientais e incertezas econômicas, as decisões físicas tendem a permanecer por muito tempo. Uma infraestrutura mal posicionada, uma ocupação antecipada ou uma reserva perdida podem atravessar diferentes ciclos produtivos antes que exista oportunidade de corrigir aquilo que foi implantado.

Pensar o site industrial como território pode ser particularmente útil nesse contexto. A estrutura precisa conseguir receber investimentos realizados em tempos diferentes, incorporar novas unidades e tecnologias e preservar possibilidades que ainda não amadureceram. O planejamento deixa de depender de uma sucessão contínua de grandes reinvestimentos e passa a considerar com mais cuidado aquilo que precisa ser estruturante para permitir novas transformações.

Talvez essa seja uma contribuição possível para pensar a reindustrialização latino-americana desde o projeto arquitetônico. Em territórios onde infraestrutura, investimento e implantação avançam lentamente, organizar permanências, reservas, relações e incertezas pode ajudar a fazer com que decisões tomadas em momentos diferentes consigam continuar pertencendo a um mesmo projeto industrial. Pensar o Masterplan como estrutura territorial, passa a trabalhar justamente com esse tempo mais longo e irregular.

Talvez seja possível assumir o labirinto borgiano como modo de pensamento, e não como equívoco: um território onde diferentes tempos, decisões e caminhos coexistem sem a promessa de uma trajetória única. Pensar assim pode ajudar a construir outras saídas para a reindustrialização latino-americana e caribenha, menos dependentes da ideia de um desenvolvimento linear e mais capazes de operar sobre as condições que efetivamente temos.

plug in city – Archigram

Referências

CHERTOW, Marian R. “Uncovering” industrial symbiosis. Journal of Industrial Ecology, v. 11, n. 1, p. 11-30, 2007. DOI: 10.1162/jiec.2007.1110.

COOK, Peter. Plug-In City, project (Axonometric). 1964. New York: The Museum of Modern Art.

DÉR, Antal; HINGST, Lennart; KARL, Alexander; NYHUIS, Peter; HERRMANN, Christoph. Factory life cycle evaluation through integrated analysis of factory elements. Procedia CIRP, v. 98, p. 418-423, 2021. DOI: 10.1016/j.procir.2021.01.127.

JTC. How Jurong Island’s integrated ecosystem drives its sustainable transformation. Singapore, 20 jan. 2026.

LIPPI, Giulia; EVOLA, Rosalia Stella; VESCE, Enrica. Industrial symbiosis patterns in eco-industrial parks: a sectoral analysis based on global empirical data. Journal of Cleaner Production, v. 529, art. 146807, 2025. DOI: 10.1016/j.jclepro.2025.146807.

MASSEY, Doreen. The political challenge of relational space: introduction to the Vega Symposium. Geografiska Annaler: Series B, Human Geography, v. 86, n. 1, p. 3, 2004. DOI: 10.1111/j.0435-3684.2004.00149.

WANG, Min; YUAN, Xiaohan; YANG, Shuqi; ABUDU, Kahaer; QIN, Kongtao. Research on spatial planning of petrochemical industrial parks from the perspective of symbiosis: example of Yueyang Green Chemical Industry Park. Sustainability, v. 14, n. 8, art. 4580, 2022. DOI: 10.3390/su14084580.

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