
O financiamento internacional não circula de maneira neutra pelo mundo. Seus percursos acompanham alianças políticas, interesses comerciais, disputas militares e posições estratégicas. Em um cenário internacional reorganizado por guerras, pela corrida tecnológica e pela busca de segurança energética, dentro da lógica hiperprodutivista do capital contemporâneo, parte dos recursos antes destinados ao desenvolvimento econômico e social tende a ser absorvida pelas prioridades militares dos países centrais ou redirecionada aos territórios considerados decisivos para suas estratégias. Estamos em um mundo marcado por conglomerados transnacionais que concentram cadeias inteiras de produção, do televisor ao navio,ao mesmo tempo que a organização social se dissolve no hiperindividualismo. Neste cenário, como demonstraram Alesina e Dollar, a distribuição da ajuda internacional responde tanto às necessidades econômicas quanto às alianças e aos interesses geopolíticos dos países financiadores.
Para os países periféricos, esse movimento ocorre em um terreno historicamente marcado pela dependência financeira. Os capitais chegam vinculados a projetos, garantias, concessões e expectativas de rentabilidade. A questão, portanto, não se resume a uma suposta baixa capacidade burocrática desses Estados, como o senso comum costuma emanar com a alcunha do “Estado ineficiente”. Muitas vezes há conhecimento técnico, instituições, profissionais e instrumentos públicos capazes de realizar intervenções complexas. O problema está no modo como essa capacidade é politicamente orientada e comprometida com determinados projetos.
O Rio de Janeiro é um exemplo visível desse processo. Durante o ciclo dos grandes eventos, sua capacidade pública foi mobilizada em obras, operações urbanas e infraestruturas orientadas à construção civil, ao turismo e à valorização imobiliária. Esse território, produzido por decisões políticas e investimentos rentistas, passou a alimentar circuitos financeiros que incluem o mercado imobiliário e plataformas como o Airbnb, convertendo planejamento urbano, paisagem e habitação em fontes de renda concentrada.
Trata-se de um modelo rentista porque a riqueza passa a depender cada vez mais da posse e do controle de ativos. Terras, imóveis, concessões, plataformas, recursos naturais e infraestruturas tornam-se apenas fontes de extração contínua de renda. O dinheiro circula, mas permanece concentrado em circuitos seletos. Grandes projetos movimentam contratos e valorizam áreas específicas sem necessariamente ampliar as capacidades produtivas do território ou distribuir os benefícios gerados.
Essa lógica que aparece na infraestrutura da cidade, é a mesma em muitos territórios e cidades brasileiras. Rodovias, portos, ferrovias e redes de energia são frequentemente concebidos a partir de corredores particulares, ligados à exportação de mercadorias ou a empreendimentos isolados. A infraestrutura deixa de formar uma rede nacional articulada e passa a servir a uma sucessão de projetos desconectados. Assim, tenta-se produzir crescimento localizado, contratos e valorização fundiária sem consolidar uma base integrada entre pesquisa, tecnologia, cadeias de fornecedores e equidade sócio-ambiental.
A crise climática, no entanto, possui outra espacialidade. O capital rentista seleciona lugares, concentra ganhos e abandona territórios quando deixam de oferecer retorno. O clima atravessa massivamente o conjunto do espaço. Alcança bairros pobres e ricos, áreas urbanas e rurais, infraestruturas, rios, florestas, plantações, APAs e sistemas energéticos. Evidentemente, seus efeitos não serão socialmente iguais. Os grupos mais ricos possuem seguros, reservas financeiras, climatização, mobilidade e maior capacidade de reconstrução. Ainda assim, não estão fora do sistema natural que sustenta a vida coletiva.
Ao invés de um projeto estruturante, complexo mas que atenda a massa da humanidade e da natureza na Terra, nos é dado um conceito: “resiliência”, devidamente aplicado de forma pasteurizada. Em muitos discursos, ela é apresentada aos pobres como a habilidade praticamente individual de suportar indefinidamente enchentes, calor, deslizamentos, remoções e precariedade. A vulnerabilidade aparece como condição a ser administrada, e não como resultado de decisões políticas. MacKinnon e Derickson já apontavam esse limite: comunidades não precisam apenas adquirir capacidade para resistir, mas recursos e poder para transformar as estruturas que produzem sua eterna exposição ao risco.
A reindustrialização do Brasil precisa enfrentar essa mesma contradição: reconstruir sua capacidade produtiva sem destruir os sistemas naturais que sustentam cidades, agricultura, energia e infraestrutura. A deterioração dos biomas compromete as próprias bases territoriais de qualquer projeto nacional de desenvolvimento.
O vendaval extremo vivido ontem no Rio de Janeiro, assim como as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, não pode mais ser tratado como fato excepcional, desconectado das transformações climáticas em curso. Fenômenos como um El Niño forte ou muito forte interferem na circulação atmosférica e ampliam a possibilidade de chuvas, ventos e outros eventos extremos. O problema central, porém, está no território que esses fenômenos encontram.
Desde pelo menos o ciclo de preparação para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, o Rio mobilizou enormes recursos públicos, capacidade técnica e instrumentos urbanísticos para grandes obras, valorização imobiliária e construção de uma cidade voltada aos eventos, ao turismo e à circulação de capitais. Ainda assim, permanece despreparado para proteger sua população, suas árvores, redes elétricas, transportes, encostas e demais infraestruturas diante de acontecimentos climáticos cada vez mais frequentes.
O contraste revela que não faltaram investimentos ou capacidade estatal. Faltou orientar essa capacidade para um projeto urbano duradouro, capaz de cuidar do território e das formas de vida que o habitam. Adiar novamente o enfrentamento dos limites do rentismo significará assumir o custo permanente de destruir, reparar e reconstruir cidades depois de tragédias cada vez mais anunciadas.
Cuidar do meio ambiente, nesse sentido, ultrapassa a ideia de proteção de uma natureza separada da sociedade, como era vista nos séculos passados. Significa mitigar os efeitos da crise climática, proteger infraestruturas, garantir água, preservar sistemas alimentares e assegurar as bases materiais da produção da vida coletiva.
Uma política, seja ela de reindustrialização ou de qualquer meio de desenvolvimento econômico, precisará decidir se continuará financiando projetos pontuais que concentram renda e fragmentam o território ou se será capaz de construir redes públicas duradouras, complexas e distribuídas, comprometidas com as muitas formas de vida que existem nelas.
Referências interessantes para ler:
ALESINA, Alberto; DOLLAR, David. Who gives foreign aid to whom and why? Journal of Economic Growth, 2000.
CHRISTOPHERS, Brett. Class, assets and work in rentier capitalism. Historical Materialism, 2021.
MACKINNON, Danny; DERICKSON, Kate Driscoll. From resilience to resourcefulness: a critique of resilience policy and activism. Progress in Human Geography, 2013.
FLORES, Bernardo M. et al. Critical transitions in the Amazon forest system. Nature, 2024.