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Logística global, inteligência artificial e crise climática: novas geografias e disputas de poder

Como a reorganização das cadeias produtivas, a concentração das infraestruturas digitais e os riscos ambientais potencializam o desenho de territórios, dependências e estratégias nacionais.

Durante algumas décadas, a indústria mundial foi organizada em uma lógica razoavelmente simples: produzir onde fosse mais barato e conectar fábricas, fornecedores e consumidores através de uma grande rede logística planetária.

Essa rede continua operando e provavelmente continuará por muito tempo. Mas alguns critérios que orientam a localização industrial estão mudando. A pandemia, as guerras, as sanções econômicas e as disputas tecnológicas evidenciaram a fragilidade de cadeias produtivas muito extensas, concentradas em poucos fornecedores e dependentes de alguns corredores logísticos.

Gopinath et al. (2025), ao analisarem dados bilaterais de comércio e investimentos, identificaram um aumento da fragmentação econômica segundo proximidades geopolíticas. Os autores tomam o cuidado de não anunciar uma nova Guerra Fria ou o fim da globalização. O que aparece é uma reorganização gradual das relações produtivas, principalmente nos setores considerados estratégicos. Setores como semicondutores, energia, medicamentos e minerais críticos, governos e empresas começam a aceitar custos maiores em busca de fornecedores mais próximos ou confiáveis. A eficiência passa a conviver com preocupações sobre segurança, resiliência e controle tecnológico, embora esse movimento ainda seja seletivo e desigual.

Nesse contexto, termos como nearshoring, reshoring e friend-shoring passaram a aparecer com frequência. A distância, o alinhamento político, a segurança tecnológica e a capacidade de reagir a crises começam a pesar mais nas decisões industriais. Ainda assim, esse deslocamento ocorre de forma desigual. Ando et al. (2026), analisando as redes produtivas das Américas, da Ásia e da Europa entre 2015 e 2024, indicam que parte das empresas diversifica fornecedores e rotas sem necessariamente transferir toda sua produção. Um exemplo é a Apple, que passou a ampliar parte da produção na Índia e no Vietnã para reduzir sua dependência da China. Ainda assim, a maior parte de sua cadeia continua ligada ao território chinês, mostrando que muitas empresas preferem diversificar riscos aos poucos, em vez de transferir toda a produção de uma só vez.

A crise climática torna esse desenho ainda mais instável. Portos, ferrovias, redes elétricas, áreas industriais e sistemas de armazenamento foram planejados a partir de padrões ambientais que estão se modificando drasticamente nos últimos anos. Verschuur et al. (2023), ao analisarem 1.320 portos, estimaram que interrupções relacionadas ao clima colocam em risco, anualmente, cerca de 81 bilhões de dólares em comércio e pelo menos 122 bilhões de dólares em atividade econômica. Essas interrupções podem ainda produzir um efeito em cascata: o bloqueio de um porto pode comprometer o abastecimento industrial, pressionar preços, reduzir empregos e ampliar desigualdades, atingindo com maior intensidade os territórios menos desenvolvidos, mais dependentes de poucas infraestruturas logísticas.

Outro trabalho dos mesmos pesquisadores identificou 94 portos com importância crítica para as cadeias globais. Em alguns países, mais de 10% da produção industrial depende do fluxo realizado através de um único porto (VERSCHUUR et al., 2022). Uma enchente, uma seca prolongada ou um evento extremo localizado pode, portanto, atravessar continentes inteiros através da rede produtiva.

A inteligência artificial aparece nesse cenário como uma ferramenta potencial para prever gargalos, administrar estoques, simular riscos climáticos e reorganizar fluxos em tempo real. Mas existe aí uma questão que me parece especialmente interessante: a IA, muitas vezes imaginada como uma tecnologia quase imaterial, exige uma infraestrutura bastante concreta.

Diferente de redes abertas e distribuídas, como os sistemas peer-to-peer, a infraestrutura da inteligência artificial permanece concentrada em poucoa poderes do capital que controlam capacidade computacional, plataformas, modelos e grandes bases de dados. Essa concentração amplia o risco de dependência tecnológica, opacidade nos critérios de decisão e apropriação privada de informações produzidas coletivamente. Sem redes abertas de pesquisa, padrões interoperáveis e mecanismos internacionais de cooperação, a IA pode reforçar monopólios, aprofundar assimetrias entre países e limitar a autonomia de governos, empresas menores e instituições científicas.

Além disso, ela depende de centros de dados, redes elétricas, água para resfriamento, semicondutores e cadeias globais de equipamentos e minerais. Estudos recentes apontam que o crescimento da IA pode pressionar sistemas elétricos e ampliar o consumo de água associado aos centros de processamento. Ao mesmo tempo, a própria IA pode contribuir para aumentar a eficiência dessas redes. O resultado dependerá da forma como essa infraestrutura será implantada e governada.

Talvez o imponderado do novo sistema logístico global esteja justamente nessa convergência. Criamos ferramentas cada vez mais capazes de antecipar gargalos e simular riscos, mas que dependem de infraestruturas concentradas, elevado consumo de energia e água, além de recursos naturais distribuídos de forma desigual pelo planeta. Estudos sobre inteligência artificial e economia de dados também apontam uma tendência de concentração da capacidade computacional, das plataformas e das bases proprietárias em poucos agentes econômicos, ampliando dependências e restringindo o acesso aos benefícios dessas tecnologias (DE PEDRAZA, 2023; HÖTTE et al., 2025). O risco está em incorporar ferramentas novas a uma racionalidade de gestão ainda orientada pela eficiência de curto prazo e pela redução de custos, pouco preparada para lidar com interdependências, efeitos em cascata e impactos socioambientais que atravessam territórios e cadeias produtivas inteiras (VERSCHUUR; KOKS; HALL, 2023). Um mundo que exigirá maior interdisciplinaridade e capacidade de lidar com a complexidade pode ficar obsoleto na incapacidade de lidar com os efeitos cascata da crise climática tentanto utilizar as mesmas ferramentas de controle economico e social que sustentaram os modelos pretéritos de mercado pós-revolução industrial.

Para o Brasil, essa reorganização produz disputas bastante concretas. A expansão da inteligência artificial e da transição energética aumenta a demanda por minerais críticos, energia, centros de dados e infraestrutura logística. Woodley et al. (2024) mostram que tecnologias como veículos elétricos exigem volumes muito maiores de lítio, níquel, grafite, cobre e terras raras. O país pode ganhar importância nessas cadeias, mas segue exposto ao risco de repetir uma inserção baseada na exportação de recursos com pouco domínio sobre o processamento, os equipamentos, o cuidado ambiental e as tecnologias finais.

A mesma contradição aparece nos centros de dados. A matriz elétrica relativamente renovável e a conexão com cabos submarinos tornam algumas regiões brasileiras atraentes, mas sediar servidores estrangeiros não significa controlar os dados, os modelos ou os serviços produzidos por eles. Estudos recentes também indicam que essas infraestruturas ampliam o consumo de energia e água, enquanto a concentração da capacidade computacional em poucas empresas aprofunda dependências tecnológicas e econômicas.

O lugar do Brasil nessa nova geografia dependerá das etapas que conseguir controlar. Extrair minerais, fornecer energia e receber centros de dados pode gerar investimentos importantes, mas a autonomia estará na capacidade de refinar materiais, fabricar componentes, desenvolver sistemas próprios, desenvolver tecnologia, manter bancos de dados de interesse público e adaptar portos e redes elétricas à crise climática. Caso contrário, continuaremos oferecendo o território, a energia e a matéria para uma inteligência produzida longe daqui, enquanto os custos ambientais, sociais e logísticos permanecerão inscritos como veias abertas sobre nossas paisagens.

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Referências

ANDO, M.; HAYAKAWA, K.; KIMURA, F.; MUKUNOKI, H. Friend-shoring, near-shoring, and reshoring in factories America, Asia, and Europe amid rising geopolitical tensions. European Journal of Political Economy, v. 93, art. 102804, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.ejpoleco.2025.102804

GOPINATH, G.; GOURINCHAS, P.-O.; PRESBITERO, A. F.; TOPALOVA, P. Changing global linkages: a new Cold War? Journal of International Economics, v. 153, art. 104042, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jinteco.2024.104042

VERSCHUUR, J.; KOKS, E. E.; HALL, J. W. Ports’ criticality in international trade and global supply-chains. Nature Communications, v. 13, art. 4351, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41467-022-32070-0

VERSCHUUR, J.; KOKS, E. E.; HALL, J. W. Systemic risks from climate-related disruptions at ports. Nature Climate Change, v. 13, p. 804–806, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41558-023-01754-w

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