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Uma breve reflexão a partir do terremoto na Colômbia

A resposta do Estado colombiano ao terremoto dos últimos dias expõe uma questão política que ultrapassa a emergência imediata: que tipo de soberania e de capacidade estatal precisamos construir em um mundo atravessado por crises cada vez mais complexas, interdependentes e territorialmente desiguais.

O governo colombiano mobilizou estruturas nacionais de emergência, equipes de busca e salvamento, forças de segurança e mecanismos extraordinários de resposta. Ao mesmo tempo, produziu uma contradição importante. A resistência inicial à incorporação de equipes internacionais especializadas revelou uma concepção de gestão fortemente centralizada, orientada pela demonstração de autossuficiência e de controle nacional da resposta. Em um momento no qual cada hora pode significar vidas, retardar cooperação técnica externa é uma decisão política que precisa ser examinada para além da retórica ideológico-patriótica.

Soberania e capacidade de comando, diante de catástrofes de grande escala, exigem também humildade institucional, articulação e mobilização. Reconhecer rapidamente os próprios limites também é capacidade de Estado. Um governo forte amplia suas possibilidades de ação ao incorporar recursos externos dentro de uma estratégia própria, coordenando governos locais, universidades, forças de emergência, sociedade civil, organismos multilaterais e cooperação internacional sem perder direção política e sem se infantilizar diante do marketing ideológico que sustenta imagens de governo.

A distribuição territorial da resposta também importa. Quando o centro concentra decisões e determinados territórios permanecem dependentes de recursos improvisados ou capacidades locais frágeis, a centralização revela seus limites. Capacidade estatal se mede pela capilaridade concreta da ação.

É também nesse ponto que as bandeiras do marketing eleitoral começam a perder força. A mobilização da pátria, da bandeira e da unidade no campo do abstracionismo eleitoreiro pode produzir coesão social, levar candidatos ao poder, mas catástrofes não deveriam se transformar em palco de marketing ideológico. A pandemia já demonstrou isso no Brasil. Há momentos em que o discurso político precisa baixar o volume para que apareçam a técnica, a ciência, a logística, a engenharia, a saúde pública e a organização social e material dos territórios.

O terremoto colombiano possui origem geológica, mas ocorre em um mundo no qual crises ambientais, climáticas, sanitárias, energéticas e infraestruturais se tornam interdependentes. A crise climática é global em sua dinâmica e profundamente territorial e desigual em seus efeitos. Amplia eventos extremos, deslocamentos populacionais, pressões sobre sistemas urbanos e interrupções de cadeias logísticas. Já estamos neste mundo. Isso exige construções político-intelectuais menos inflamadas pelos recortes de comunicação e mais comprometidas com projetos de curto, médio e longo prazo.

No curto prazo, entram protocolos de emergência, cadeias de comando, equipamentos, informação e cooperação internacional. No médio prazo, sistemas de defesa civil, formação técnica, logística, infraestrutura, redes hospitalares, mapeamento de riscos e fortalecimento das capacidades municipais. No longo prazo, planejamento territorial, adaptação climática, autonomia tecnológica, política industrial, produção científica e integração regional.

Essas escalas precisam conversar. E para isso é preciso organizar uma mesa ampliada, mas minimamente objetiva: entender quem produz informação, quem decide, quem executa, quem possui capilaridade territorial, quem controla recursos e onde estão as capacidades que faltam. Municípios, universidades, governos nacionais, organizações sociais, setor produtivo e organismos internacionais não cumprem o mesmo papel, nem precisam cumprir. A articulação também não elimina os conflitos entre esses atores, seria ingênuo imaginar isso. Ela constrói convergências possíveis dentro dos dissensos. Não é uma mesa simples. Mas é uma mesa que precisa existir. Um projeto de nação exige essa capilaridade, capacidade de se articular, produzir continuidade e construir convergências.

É aí que a distinção entre nacionalismo abstrato propagandístico e projeto de nação ganha potência. O nacionalismo opera com símbolos de adesão imediata e simplificação dos conflitos; tudo pode acabar reduzido a soluções mágicas, uma cloroquina para se curar da dor. Problemas complexos pedem justamente o contrário da solução mágica: identificar escalas, reconhecer capacidades, distribuir responsabilidades e saber coordenar redes de conflitos.

A cooperação internacional também pode ser pensada como política permanente de soberania. Países podem construir acordos de reciprocidade, protocolos regionais de emergência, bancos compartilhados de equipamentos, redes científicas e equipes especializadas mobilizáveis entre fronteiras. Para a América Latina, essa poderia ser uma agenda concreta de integração, menos dependente de grandes declarações diplomáticas e mais vinculada à construção cotidiana de pautas comuns.

A Amazônia ajuda a compreender essa necessidade sem relativizar soberanias nacionais. O bioma, suas bacias hidrográficas, fluxos atmosféricos e sistemas ecológicos atravessam diferentes países, enquanto cada território permanece sob a soberania de seu respectivo Estado. Cooperar sobre fenômenos transfronteiriços não significa internacionalizar a gestão territorial. Significa reconhecer que a geografia não se encerra onde termina uma fronteira político-administrativa e que Estados fortes também precisam saber cooperar para proteger seus próprios povos e territórios.

Uma boa solução técnica ganha força quando encontra arquitetura política para sustentá-la. Articular significa reconhecer interesses, potencialidades, conflitos e construir convergências suficientes para transformar conhecimento em decisão. A política não substitui a técnica, e a técnica não governa sozinha. O difícil, e talvez o mais interessante, é construir as condições políticas para que boas soluções efetivamente aconteçam.

A soberania do século XXI será, a meu ver,  cada vez mais medida por essa capacidade relacional e territorial: organizar recursos próprios, reconhecer limites, acionar parceiros sem subordinação e transformar a cooperação e troca de saberes em aumento de potência política, técnica e territorial. Talvez seja justamente no intervalo entre a emergência e o horizonte imponderável que teremos de aprender a conceber projetos de nação capazes de transformar crises em aprendizado institucional, articular sociedade e conhecimento e produzir respostas à altura da complexidade do mundo que já chegou.

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Rentismo, Territórios e Crise Climática

Imagem de Nano Banana – extraída do Google Imagen

O financiamento internacional não circula de maneira neutra pelo mundo. Seus percursos acompanham alianças políticas, interesses comerciais, disputas militares e posições estratégicas. Em um cenário internacional reorganizado por guerras, pela corrida tecnológica e pela busca de segurança energética, dentro da lógica hiperprodutivista do capital contemporâneo, parte dos recursos antes destinados ao desenvolvimento econômico e social tende a ser absorvida pelas prioridades militares dos países centrais ou redirecionada aos territórios considerados decisivos para suas estratégias. Estamos em um mundo marcado por conglomerados transnacionais que concentram cadeias inteiras de produção, do televisor ao navio,ao mesmo tempo que a organização social se dissolve no hiperindividualismo. Neste cenário, como demonstraram Alesina e Dollar, a distribuição da ajuda internacional responde tanto às necessidades econômicas quanto às alianças e aos interesses geopolíticos dos países financiadores.

Para os países periféricos, esse movimento ocorre em um terreno historicamente marcado pela dependência financeira. Os capitais chegam vinculados a projetos, garantias, concessões e expectativas de rentabilidade. A questão, portanto, não se resume a uma suposta baixa capacidade burocrática desses Estados, como o senso comum costuma emanar com a alcunha do “Estado ineficiente”. Muitas vezes há conhecimento técnico, instituições, profissionais e instrumentos públicos capazes de realizar intervenções complexas. O problema está no modo como essa capacidade é politicamente orientada e comprometida com determinados projetos.

O Rio de Janeiro é um exemplo visível desse processo. Durante o ciclo dos grandes eventos, sua capacidade pública foi mobilizada em obras, operações urbanas e infraestruturas orientadas à construção civil, ao turismo e à valorização imobiliária. Esse território, produzido por decisões políticas e investimentos rentistas, passou a alimentar circuitos financeiros que incluem o mercado imobiliário e plataformas como o Airbnb, convertendo planejamento urbano, paisagem e habitação em fontes de renda concentrada.

Trata-se de um modelo rentista porque a riqueza passa a depender cada vez mais da posse e do controle de ativos. Terras, imóveis, concessões, plataformas, recursos naturais e infraestruturas tornam-se apenas fontes de extração contínua de renda. O dinheiro circula, mas permanece concentrado em circuitos seletos. Grandes projetos movimentam contratos e valorizam áreas específicas sem necessariamente ampliar as capacidades produtivas do território ou distribuir os benefícios gerados.

Essa lógica que aparece na infraestrutura da cidade, é a mesma em muitos territórios e cidades brasileiras. Rodovias, portos, ferrovias e redes de energia são frequentemente concebidos a partir de corredores particulares, ligados à exportação de mercadorias ou a empreendimentos isolados. A infraestrutura deixa de formar uma rede nacional articulada e passa a servir a uma sucessão de projetos desconectados. Assim, tenta-se produzir crescimento localizado, contratos e valorização fundiária sem consolidar uma base integrada entre pesquisa, tecnologia, cadeias de fornecedores e equidade sócio-ambiental.

A crise climática, no entanto, possui outra espacialidade. O capital rentista seleciona lugares, concentra ganhos e abandona territórios quando deixam de oferecer retorno. O clima atravessa massivamente o conjunto do espaço. Alcança bairros pobres e ricos, áreas urbanas e rurais, infraestruturas, rios, florestas, plantações, APAs e sistemas energéticos. Evidentemente, seus efeitos não serão socialmente iguais. Os grupos mais ricos possuem seguros, reservas financeiras, climatização, mobilidade e maior capacidade de reconstrução. Ainda assim, não estão fora do sistema natural que sustenta a vida coletiva.

Ao invés de um projeto estruturante, complexo mas que atenda a massa da humanidade e da natureza na Terra, nos é dado um conceito: “resiliência”, devidamente aplicado de forma pasteurizada. Em muitos discursos, ela é apresentada aos pobres como a habilidade praticamente individual de suportar indefinidamente enchentes, calor, deslizamentos, remoções e precariedade. A vulnerabilidade aparece como condição a ser administrada, e não como resultado de decisões políticas. MacKinnon e Derickson já apontavam esse limite: comunidades não precisam apenas adquirir capacidade para resistir, mas recursos e poder para transformar as estruturas que produzem sua eterna exposição ao risco.

A reindustrialização do Brasil precisa enfrentar essa mesma contradição: reconstruir sua capacidade produtiva sem destruir os sistemas naturais que sustentam cidades, agricultura, energia e infraestrutura. A deterioração dos biomas compromete as próprias bases territoriais de qualquer projeto nacional de desenvolvimento.

O vendaval extremo vivido ontem no Rio de Janeiro, assim como as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, não pode mais ser tratado como fato excepcional, desconectado das transformações climáticas em curso. Fenômenos como um El Niño forte ou muito forte interferem na circulação atmosférica e ampliam a possibilidade de chuvas, ventos e outros eventos extremos. O problema central, porém, está no território que esses fenômenos encontram.

 Desde pelo menos o ciclo de preparação para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, o Rio mobilizou enormes recursos públicos, capacidade técnica e instrumentos urbanísticos para grandes obras, valorização imobiliária e construção de uma cidade voltada aos eventos, ao turismo e à circulação de capitais. Ainda assim, permanece despreparado para proteger sua população, suas árvores, redes elétricas, transportes, encostas e demais infraestruturas diante de acontecimentos climáticos cada vez mais frequentes. 

O contraste revela que não faltaram investimentos ou capacidade estatal. Faltou orientar essa capacidade para um projeto urbano duradouro, capaz de cuidar do território e das formas de vida que o habitam. Adiar novamente o enfrentamento dos limites do rentismo significará assumir o custo permanente de destruir, reparar e reconstruir cidades depois de tragédias cada vez mais anunciadas.

Cuidar do meio ambiente, nesse sentido, ultrapassa a ideia de proteção de uma natureza separada da sociedade, como era vista nos séculos passados. Significa mitigar os efeitos da crise climática, proteger infraestruturas, garantir água, preservar sistemas alimentares e assegurar as bases materiais da produção da vida coletiva. 

Uma política, seja ela de reindustrialização ou de qualquer meio de desenvolvimento econômico, precisará decidir se continuará financiando projetos pontuais que concentram renda e fragmentam o território ou se será capaz de construir redes públicas duradouras, complexas e distribuídas, comprometidas com as muitas formas de vida que existem nelas.

Referências interessantes para ler:

ALESINA, Alberto; DOLLAR, David. Who gives foreign aid to whom and why? Journal of Economic Growth, 2000.

CHRISTOPHERS, Brett. Class, assets and work in rentier capitalism. Historical Materialism, 2021.

MACKINNON, Danny; DERICKSON, Kate Driscoll. From resilience to resourcefulness: a critique of resilience policy and activism. Progress in Human Geography, 2013.

FLORES, Bernardo M. et al. Critical transitions in the Amazon forest system. Nature, 2024.

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Reviver o Centro, assassinar o Lume.

A obra no Buraco do Lume é mais um exemplo da escolha do poder público de construir uma cidade de aparência.

A intervenção segue o mesmo roteiro: mexe-se no espaço, vende-se a ideia de renovação sobre um território tratado como vazio, produz-se stand e material de divulgação e se constrói com apagamento de memória, sem se importar com o impacto real sobre quem vive e circula ali. O problema também é o mesmo de sempre: tratar o espaço como peça de marketing, enquanto transforma o que é bem comum, social e público em ativo privado.

O Buraco do Lume não é um terreno neutro no centro do Rio. É um espaço consolidado na experiência urbana da região. Tem história, tem função, tem presença, tem política.

Qualquer intervenção ali exigiria, no mínimo, debate público sério, leitura mais profunda da área e alguma inteligência política sobre o que significa agir num ponto tão simbólico e conectado do Centro. Mas o que se vê é, mais uma vez, uma ação com pouca densidade e diálogo e, no fundo, mais uma operação subordinada à especulação imobiliária desta cidade.

Existe um vício administrativo no Rio: a crença de que intervir fisicamente já é, por si só, governar bem. Não é. Sem escuta, sem participação, sem relação com a vida concreta do lugar, obra pode ser só maquiagem urbana e movimento econômico para um nicho muito específico de ricos da cidade. Tudo isso com aval de uma prefeitura que licencia o que interessa a quem pode pagar.

O que incomoda não é apenas a intervenção em si, mas a lógica que ela expressa. Uma lógica que prefere controle à convivência, desenho à complexidade, mercado à política urbana.

O Buraco do Lume merecia mais. Merecia menos solução apressada e mais reflexão social. Realização de destombamento, aumento de gabarito, permissão de construção de imóveis pequenos é um triste fim para este remanescente do Morro do Castelo, pólo de grandes movimentos culturais e políticos da Cidade do Rio de Janeiro. E tudo isso feito com a conivência de prefeituras e suas secretarias garantindo todas as licenças necessárias para as construtoras.

Vamos jogar ao relento um espaço livre fundamental para as conexões entre pedestres, usuários do Centro e comerciantes. Mas o movimento da prefeitura, infelizmente, segue o padrão: substituir cidade, e tudo o que essa palavra significa, por cenografia urbana.

No fim, fica a impressão de sempre: o Rio continua tratando seus espaços importantes como palco de intervenção superficial e negócios econômicos dos patrocinadores do poder. O que falta é visão de cidade. Uma cidade que morre enquanto seus espaços livres cedem lugar a empreendimentos ultracompactos voltados à valorização imobiliária, quando o interesse público deveria estar voltado à produção de habitação social e à preservação da vida urbana real.

Revier Centro é Reviver o lucro de alguns enquanto noventa por cento da cidade está entregue à própria sorte. 

Imagem ilustrativa: Bloco de Carnaval no Buraco do Lume:

Imagem retirada do artigo: projetocolabora.com.br/ods11/rioerua-o-buraco-do-lume-e-100-anos-de-cobica-no-centro/

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UE–Mercosul e o risco de esmagar a agricultura familiar

Quando o comércio corre mais rápido do que a justiça territorial, quem tropeça primeiro é quem pisa no barro.

Estrada

A enchente levou a estradinha de terra batida. No dia seguinte, o atravessador apareceu com o caminhão-baú e um papel na mão. “Sem esse documento, você não vende.” E, como diria Ana Castela, “acreditei que era herói, mas é bandido”.

No dia 9 de janeiro de 2026, o Conselho da União Europeia autorizou a assinatura do acordo UE–Mercosul. Para quem não acompanha: é um acordo de livre comércio que pretende reduzir tarifas e ampliar cotas entre os blocos, mexendo com o que cada lado vende e compra, principalmente agro e indústria. Visto do alto, parece diplomacia com elementos interessantes. No chão, porém, é disputa: preço, rota, contrato, e a terra rural voltando a ser peça do tabuleiro do capital.

Fresta


No Brasil, quem corre o risco de receber esse vendaval pela fresta é um ente imenso e pouco fotografado: a agricultura familiar. O Censo Agro de 2017 aponta mais de 10 milhões de pessoas ocupadas nisso e cerca de 23% do valor da produção vindo daí. Isso não é detalhe, é estrutura social de país. É renda circulando em cidade pequena e média, feira, caminhãozinho, escola rural, estrada de terra. É território respirando baixo, enquanto o agronegócio faz show com telão.

A primeira tensão nasce rápido. Se essa janela comercial aumentar o apetite por commodities, a terra encarece, o arrendamento endurece, a fronteira produtiva ganha força. O pequeno produtor, sem colchão financeiro, sentirá como água entrando pela soleira. A desigualdade no campo não chega com anúncio. Chega como “o preço do hectare”, “o vizinho vendeu”, “o atravessador apertou”. Chega como chuva que enlouqueceu, enchente onde era seca e, às vezes, sorrateira como tocaia de jagunço.

O Brasil traz uma notícia ambígua. Houve redução do desmatamento divulgada pelo PRODES. Respiro diante das tentativas de passar a boiada. Mas a economia que empurra o desmatamento é rede, e rede muda de humor com o mercado. Tem grilagem, licença duvidosa, legalidade convivendo e negociando com ilegalidade. E governança que evapora quando a renda da terra chama.

A Europa tenta colocar freio na própria fome de importação. A regra antidesmatamento exige diligência e rastreabilidade: produto “desmatamento zero”, legal, rastreável até a área de produção. Só que a própria UE vem adiando e revisando prazos porque sabe o peso operacional disso tudo. Agora imagine essa exigência aterrissando na América do Sul, onde o Estado muitas vezes chega tarde, e o atravessador chega cedo.

ESG não enche o prato

E aqui aparece a segunda tensão, silenciosa e cruel. Como fazer justiça ambiental num país que nunca pagou a dívida da reforma agrária? Rastreabilidade é necessária, sim. Eu não romantizo cadeia produtiva submersa, desenhada em Brasília nos gabinetes do agro. O problema é o Brasil real. O grande ajusta a exploração por compliance, como quem vive passeando de ponte aérea. O pequeno paga seu labor como quem compra botijão no desespero, no fim do mês. E quando não consegue, some da cadeia formal: vira refém de intermediário, vende mais barato, trabalha mais para sobrar menos. Quando vira marketing, “verde” vira barreira de entrada. O selo verde brilha, mas o prato do povo continua vazio.

Daí o paradoxo: a floresta em pé aparece como narrativa, mas quem entra decisivo no mercado global é quem já tinha estrutura, advogado, crédito barato e uma geografia montada a seu favor. Leia-se: latifúndio, lastro e poder.

Uma imagem simples, quase como se Jane Jacobs tivesse crescido no interior do Maranhão. Um satélite olha a Amazônia enquanto um homem olha a própria cerca. O satélite mede quilômetros quadrados. O homem mede dias de chuva, preço do adubo, a dívida do mês. Quando a política internacional só enxerga o satélite, atropela a escala da vida. Quando só enxerga a cerca, fere a escala da Mãe Terra. Falta olhar de chão, de dentro do território, e talvez principalmente de quem não tem nem satélite nem cerca.

Aqui já não cabe o maniqueísmo de vitrine que virou a política eleitoreira. Livre comércio versus protecionismo. Ambientalismo versus produção. O problema é a velocidade voraz do capital sobre a terra. O comércio corre, a governança territorial anda, e o pequeno produtor tenta pegar um trem que já saiu, carregando documento, nota fiscal e a esperança básica de não passar fome.

Contrapartida

Se a gente quiser falar sério de Sul Global, sem romantizar pobreza e sem engolir propaganda de “modernização” que sempre chega junto do capital, o papo é reto: como impedir que esse acordo vire motor de concentração territorial? Como evitar que o campo pobre e a floresta voltem a ser zona de sacrifício, agora com etiqueta reciclável e selo ESG?

A resposta, a meu ver, não é instagramável. É infraestrutura pública. Rastreabilidade precisa ser serviço público, cooperativo e territorializado: cadastro georreferenciado acessível, assistência técnica forte, cooperativas, consórcios municipais, plataformas de governança simples que virem prática campesina, não burocracia. Se o mundo exige geolocalização e diligência, o Estado precisa entregar ferramentas ao povo para isso não virar exclusão.

E aqui entra o urbanismo, no sentido mais político da palavra. A cidade consome sem ver a origem, especula a terra e terceiriza o custo social do alimento. A gente pega a carne no freezer e não vê o sangue vertido. Se a agricultura familiar é base social, ela não pode virar refém do humor do mercado externo ou de chantagem logística. CEASAs, mercados municipais, cozinhas públicas, logística curta. PNAE e PAA como programa de país, não apenas de governo. Escola pública e hospital público como compradores regulares de cooperativas e agricultores familiares, com contrato estável e rota planejada são alguns caminhos.

O UE–Mercosul é uma operação territorial transcontinental: gera valor, especulação e espalha impacto. E uma operação territorial deste porte exige contrapartida política. Uma contrapartida concreta possível para o Sul é criarmos um programa público que priorize a agricultura familiar, articulado a uma política urbana de alimentação do povo pobre. Sem contrapartida realmente popular, o acordo corre o risco de virar atalho para a riqueza passar correndo na sua lógica de extração, enquanto o pobre do campo fica no acostamento, vendo a vida se desfazer no pó da estradinha de terra batida.

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Brasil em Contradição: O Desenvolvimento que não quer pedir licença.

Brasil de fato: https://www.brasildefato.com.br/2025/05/24/lider-em-desmatamento-maranhao-acumula-conflitos-agrarios/

O Brasil vive momentos de aparente ascensão estratégica. A retomada de relações com blocos globais, especialmente a aproximação com a China, abre novas trilhas para a industrialização do Norte e Nordeste, regiões historicamente à margem do modelo de desenvolvimento nacional. Essa reorientação poderia sinalizar uma guinada justa, com mais equilíbrio territorial, autonomia energética e cooperação tecnológica Sul-Sul.

Sob a cortina de fumaça gerada pela prisão domiciliar de Bolsonaro, o Congresso avança no desmonte do licenciamento ambiental. Ironias à parte, trata-se de uma pauta essencialmente bolsonarista, quem não se lembra de Ricardo Salles mandando “passar a boiada”? O mais alarmante, no entanto, é que a flexibilização vem sendo aprovada com apoio expressivo de partidos da própria base ministerial do governo. A boiada agora atravessa novamente o plenário com selo de governabilidade.

Há nisso um problema profundo, recorrente e perigoso: o Brasil tenta construir um novo futuro, sempre com os mesmos vícios técnicos e políticos do passado. A tentativa de flexibilizar o licenciamento ambiental; vendida como “destravar o progresso”; ameaça corroer não só os ecossistemas, mas também a credibilidade internacional do país.

A erosão das salvaguardas ambientais expõe o Brasil a riscos estratégicos. Parcerias internacionais que se pautam por critérios ESG, por soberania alimentar e por transições verdes justas, começarão a desconfiar da validade de investir no País. Não se assina acordo com um País que desmonta seus mecanismos de controle ambiental enquanto a grilagem, jagunçagem e todo tipo de violencia territorial avançam sobre terras indígenas, áreas de proteção ambiental, biomas frageis e raros, reservas e zonas de recarga aquífera. O arco que se estende do Centro-Oeste à Amazônia Legal tornou-se um laboratório de guerra e destruição que ameaça travar qualquer agenda diplomática climática. Isso, em pleno ano de COP30!

Há, portanto, uma dicotomia gritante: de um lado, a construção de polos tecnológicos e produtivos no Nordeste, com apoio de infraestrutura ferroviária, energia limpa e intercâmbio científico. Que ajudaria o país a criar um desenvolvimento moderno que nunca teve. De outro, a legalização do desmatamento por omissão e a reprodução de velhos pactos extrativistas no coração do território nacional.

A crítica aqui não é à industrialização, nem à aproximação com potências não ocidentais. O erro está em imaginar que o mundo de 2025 permitirá um projeto de desenvolvimento que ignore os limites ecológicos do planeta. Defender este projeto é assumir que queremos como parceiros exploradores insensatos, milícias, grileiros, e tudo de pior que existe aqui e suas versões mundo a fora.

O trator do desenvolvimento não pode passar pelas florestas sem licença. O tempo da expansão predatória acabou. Países que insistem nisso tornar-se-ão párias comerciais e diplomáticos.

O que está em jogo é mais do que proteção de florestas, é a reinvenção do Brasil como parte de um ecossistema global de justiça, autonomia e regeneração. Um Brasil que tem toda condição de se tornar modelo global para um novo paradigma de nosso ser-estar no mundo. Um país que queira liderar o novo século não pode ser cúmplice de sua própria ruína.

Leituras complementares:

1 Correntão é vendido na internet como dicas para evitar fiscalização – aqui

2 Brazil’s congress passes bill to overhaul environmental regulations: – aqui

3 El Congreso de Brasil desmonta el pilar de la legislación ambiental del país y asesta otra derrota a Lula. – aqui

4 Brazil passes ‘devastation bill’ that drastically weakens environmental law: – aqui

5 Opponents Urge Lula to Veto Brazilian Lawmakers’ ‘Devastation Bill’ – aqui

6 Novo licenciamento ambiental opõe conservacionistas e indústria (Poder360) – aqui

7 Licenciamento ambiental à deriva- aqui

8 Brazil lawmakers gut environmental permitting ahead of COP30 summit (Reuters) – aqui

9 Crime and no punishment: Impunity shrouds killings of Indigenous Amazonian defenders- aqui

10 Esquema de ouro ilegal Yanomami envolve empresas milionárias acusadas de lavagem de recursos no Pará- aqui

11 Brazil: Illegal gold miners fatally shot in Indigenous territory – aqui

12 PF investiga morte de três yanomami por garimpeiros em Roraima- aqui

13 In Brazil, an Indigenous land defender’s unsolved killing is the deadly norm- aqui

14 Genocídio indígena: garimpo ilegal está matando crianças Yanomami- aqui

15 Inside the fight against illegal mining in the Amazon (Greenpeace)- aqui

16 Terra Yanomami é palco de “tragédia humanitária”- aqui

17 Brazil police bring formal charges in murder of environmental activists (JURIST)- aqui

18 Crime organizado avança e muda dinâmica no garimpo ilegal – aqui

19 Notícia do assassinato de três pessoas no garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami- aqui

20 Garimpo ilegal cresce 400% em terras indígenas em uma década, mostra estudo – aqui

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