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Reviver o Centro, assassinar o Lume.

A obra no Buraco do Lume é mais um exemplo da escolha do poder público de construir uma cidade de aparência.

A intervenção segue o mesmo roteiro: mexe-se no espaço, vende-se a ideia de renovação sobre um território tratado como vazio, produz-se stand e material de divulgação e se constrói com apagamento de memória, sem se importar com o impacto real sobre quem vive e circula ali. O problema também é o mesmo de sempre: tratar o espaço como peça de marketing, enquanto transforma o que é bem comum, social e público em ativo privado.

O Buraco do Lume não é um terreno neutro no centro do Rio. É um espaço consolidado na experiência urbana da região. Tem história, tem função, tem presença, tem política.

Qualquer intervenção ali exigiria, no mínimo, debate público sério, leitura mais profunda da área e alguma inteligência política sobre o que significa agir num ponto tão simbólico e conectado do Centro. Mas o que se vê é, mais uma vez, uma ação com pouca densidade e diálogo e, no fundo, mais uma operação subordinada à especulação imobiliária desta cidade.

Existe um vício administrativo no Rio: a crença de que intervir fisicamente já é, por si só, governar bem. Não é. Sem escuta, sem participação, sem relação com a vida concreta do lugar, obra pode ser só maquiagem urbana e movimento econômico para um nicho muito específico de ricos da cidade. Tudo isso com aval de uma prefeitura que licencia o que interessa a quem pode pagar.

O que incomoda não é apenas a intervenção em si, mas a lógica que ela expressa. Uma lógica que prefere controle à convivência, desenho à complexidade, mercado à política urbana.

O Buraco do Lume merecia mais. Merecia menos solução apressada e mais reflexão social. Realização de destombamento, aumento de gabarito, permissão de construção de imóveis pequenos é um triste fim para este remanescente do Morro do Castelo, pólo de grandes movimentos culturais e políticos da Cidade do Rio de Janeiro. E tudo isso feito com a conivência de prefeituras e suas secretarias garantindo todas as licenças necessárias para as construtoras.

Vamos jogar ao relento um espaço livre fundamental para as conexões entre pedestres, usuários do Centro e comerciantes. Mas o movimento da prefeitura, infelizmente, segue o padrão: substituir cidade, e tudo o que essa palavra significa, por cenografia urbana.

No fim, fica a impressão de sempre: o Rio continua tratando seus espaços importantes como palco de intervenção superficial e negócios econômicos dos patrocinadores do poder. O que falta é visão de cidade. Uma cidade que morre enquanto seus espaços livres cedem lugar a empreendimentos ultracompactos voltados à valorização imobiliária, quando o interesse público deveria estar voltado à produção de habitação social e à preservação da vida urbana real.

Revier Centro é Reviver o lucro de alguns enquanto noventa por cento da cidade está entregue à própria sorte. 

Imagem ilustrativa: Bloco de Carnaval no Buraco do Lume:

Imagem retirada do artigo: projetocolabora.com.br/ods11/rioerua-o-buraco-do-lume-e-100-anos-de-cobica-no-centro/

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Falta d’água no Rio: Urge colocar a Água como centro da Política global!

A equidade sanitária é um desafio urgente para a nossa região metropolitana. A cidade do Rio está há dois dias sem acesso à água. Locais de trabalho e lazer fechados para garantir o racionamento. E mal começamos o verão.

Fui criança em um bairro que não recebia água regularmente. Na época, eu naturalizava, ainda não tinha conhecimento técnico sobre o problema real. Assim como eu, muitos cariocas são assim e por isso tendem a normalizar a crise. Ter uma cisterna grande (para quem podia), ligar a bomba e garantir a caixa cheia fazia parte do cotidiano. Sabíamos que, dia sim, dia não, ficaríamos à míngua. É surreal pensar que uma cidade com tantos recursos hídricos como a nossa, optou por um modelo de abastecimento centralizado em uma única fonte.

Mais surreal ainda é saber que, ano após ano, esse recurso sempre chega primeiro às regiões mais nobres, independentemente da distância. Para quem não conhece o Rio, o Guandu está mais próximo de bairros como Santa Cruz, Campo Grande, Sepetiba, Bangu e Realengo, todos na Zona Oeste ou Norte da cidade. Bairros que estão, literalmente, ao lado e ficam dias e dias sem água.

Nos últimos anos, tornou-se comum ver a cidade inteira parar por alguns dias devido à falta de água. São muitos os problemas, mas o principal é a ausência de uma política nacional que trata o recurso hídrico como prioridade estratégica e direito humano básico. Não há vida na Terra sem água. Se continuarmos com essa matriz centralizadora, que depende exclusivamente do Rio Guandu, sem investir na requalificação de outros rios ou aquíferos do Estado, corremos o risco de matar nossa cidade de sede.

A equidade sanitária, neste ponto, é fundamental. Garantir o acesso ao tratamento de esgoto e água para toda a população periférica não apenas reduz a pressão no sistema, mas também gera dados para um melhor planejamento e melhoria das condições reais para a engenharia sanitária produzir soluções técnicas viáveis de melhoria do abastecimento da cidade como um todo. Além disso, é fundamental controlar e fiscalizar desperdícios industriais e empresariais. Por exemplo, as jazidas de extração de areia, grandes consumidoras de água, operam hoje em um sistema de mercado, digamos assim, misto (legal e ilegal) que precisa ser regulamentado, fiscalizado e com as jazidas ilegais veementemente combatidas.

Colocar água no centro da pauta política, junto com alimento, saúde e educação, é indispensável para a construção de uma cidade verdadeiramente sustentável. Penso que a saída passa por um arranjo que envolve os princípios políticos de equidade social, a pressão popular e um saber técnico que compreenda o papel ético e a função social da engenharia e arquitetura na solução de problemas como os que estão dados. Sem isso, não vislumbro futuro possível.

Como creio em um futuro belo, segue uma imagem de um Rio de Janeiro possível, o Rio de todos os Rios que a Portela nos presenteou em 2017.
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