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O Congresso contra o Povo

O conservadorismo acolheu e organizou os mais pobres. Isso precisa ser sempre lembrado com alguma honestidade. Ele ocupou vazios, criou pertencimento, deu escuta e destino para gente que muitas vezes encontrou na esquerda apenas contradições e uma espécie de superioridade moral desgastada. Até aí não há tanta novidade. Desde pelo menos 2014, o país vive esse deslocamento, e fingir que ele não existe apenas aprofunda o nosso erro.

O ponto novo, porém, é que esse conservadorismo deixou de ser apenas sentimento social e passou a operar como poder. Quando toca o Congresso, quando define quais pautas avançam, quais travam, quais vidas merecem acesso ao orçamento público e quais podem seguir no improviso e na fome, ele revela o Brasil que deseja construir. E esse Brasil, muitas vezes, é duro com quem já não aguenta mais.

Se a esquerda tem o presidente, o conservadorismo tem o congresso e opera com ele para ter espaço de poder e gestão. Não amigos, não vivemos um governo de esquerda, mas sim o governo que sempre vivemos, esse parlamentarismo presidencialista esquisito onde as forças precisam manter sempre um grau de negociação para se manter no poder.

Em qualquer periferia de cidade grande e em muitos recantos de cidades médias e pequenas, existe um País à parte, onde a fome ainda organiza o cotidiano. Lugares onde viver com menos de um salário mínimo é regra, e ganhar um salário mínimo já parece vitória. Nesses territórios, o Bolsa Família não pode ser tratado como abstração eleitoral e cabresto, ele se torna a única estrutura real de sobrevivência. Organiza a compra da vida, a comida da criança, o remédio, o que dá pra organizar e ainda falta. E infelizmente, seguirá organizando a vida enquanto o Brasil não tiver um sistema produtivo capaz de absorver sua própria força de trabalho com dignidade e mínimo direito à mobilidade social.

A escala 6×1, que no fundo funciona como um 7×0 disfarçado, soma-se à miséria salarial, ao transporte exaustivo, ao aluguel impossível enquanto crescem alphavilles e studios e à ausência de horizonte palpável. O resultado é uma massa gigantesca de vulnerabilidade e sem esperança. Gente que trabalha muito, ganha pouco, descansa mal, adoece cedo e quase nunca consegue transformar esforço em prazer de vida. O país cobra disciplina de quem vive no limite, mas oferece muito pouco além da sobrevivência, na verdade nem a sobrevivência o País oferece.

Esse é o ciclo vicioso profundo. Não se levanta uma Nação condenando sua população a correr em círculo até morrer. Um trabalhador exausto não empreende sua liberdade. Uma mãe que passa três horas por dia no transporte não consegue “qualificar-se” por milagre. Um jovem que entra cedo demais no trabalho precário perde escola. O Brasil fala em produtividade, mas organiza a vida popular para desperdiçar inteligência humana. Maio é um mês significativo para os trabalhadores de um País cuja cultura foi forjada no escravagismo. 

A saída, a meu ver, passa por muitas lutas, porém quero deixar escrito alguns recortes. Um deles, ela exige tratar política social como infraestrutura de sustento da Nação. O SUS, apesar de todos os problemas, mostra uma coisa fundamental: quando o Estado chega de forma capilarizada, em rede, ocupando território, fomentando formação profissional, e garantindo continuidade política, ele muda a vida concreta. O mesmo princípio precisa orientar outras partes da estrutura social: renda, trabalho, cuidado, educação técnica, mobilidade e produção. Não basta distribuir benefício via política pública e deixar o restante da vida entregue ao mercado ruim, ao ônibus caro, ao aluguel predatório e ao subemprego moedor de gente. É preciso construir uma rede pública de política de sustentação da vida, integrada no território, capaz de enxergar família, bairro, escola, posto de saúde, transporte, cultura e emprego como partes do mesmo problema.

Isso passa por uma política nacional de trabalho honesta e decente, incapaz de se formar neste congresso de legisladores de causa própria, defensores de coisas espúrias. Como pensar política com estes seres abjetos incapazes de enxergar o país além da própria fazenda? O que dizer com palavras bonitas e sinceras? 

Há nesse Congresso uma venalidade profunda, uma mistura de pusilanimidade ética e arrogância oligárquica, gente que se ajoelha diante dos donos da terra (quando não são os próprios donos), da bala e do dinheiro e se vende barato para doleiros e cafetões de luxo, mas endurece a voz contra quem vive de salário, de benefício, do bico e com dívida. São capatazes legislativos de um país velho, cortesãos do atraso, defensores de pactos iníquos e projetos predatórios, enquanto chamam de responsabilidade aquilo que, no fundo, é apenas crueldade organizada. Essa é a gente que vai caminhar pelas ruas do seu bairro fingindo que gostam de comer pastel com caldo de cana. A cara de nojo que fazem quando mordem um pastel, não é pelo pastel, é pelo nojo que sentem ao estarem perto demais da gente. 

Tem pavor de pautas como: Redução progressiva da jornada, valorização real do salário mínimo, expansão da educação profissional ligada às cadeias produtivas locais, crédito orientado para pequenos produtores. Esse governo se torna tão ignorante que sequer enxerga que estas são pautas de caráter liberal.  Mas ainda cito mais possibilidades para construir: cooperativas, economia do cuidado, indústria verde, construção civil pública, saneamento, reabilitação de moradias e infraestrutura urbana nas periferias. 

O país precisa enfrentar essas criaturas sem receio. Criar um projeto que nos possibilite fortalecer a produção de vida, gerar trabalho e descanso para as pessoas reais, e não apenas empurrar corpos pobres para a vala da história, como empurraram para o Oceano de Sangue, Kalunga Grande (aprendi esse termo lendo o artigo da Vivian Carla Garcia Ferreira aqui).

Aqui também, a técnica pública institucional não pode ser resumida à burocracia de gabinete que atende a esses poderes de forma acrítica. Ela precisa medir tempo de deslocamento, renda disponível, acesso a creche, saúde mental, custo da alimentação, informalidade, produtividade territorial e capacidade real de permanência das famílias em seus bairros.

Um projeto sério para o Brasil começará quando a vida popular deixar de ser tratada como resíduo. O pobre precisa de tempo, renda, cidade, descanso, formação, crédito, saúde, cultura e poder sobre o seu próprio território. Enquanto isso não acontecer, seguiremos discutindo moralidade no alto, enquanto embaixo o país real tenta decidir se compra comida, paga passagem ou continua entregue a qualquer destino.

A boa política é aquela que transforma sobrevivência em caminho real de futuro. Esta política a meu ver, deve transpassar esse congresso e se possível desferir o máximo de danos a parte desta máquina público-privada usada a benefício próprio dessa gente estranha que ocupa as câmaras de poder.

Autoria própria
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Quem é o conservadorismo que me lê?

Notei, com o tempo, que tenho amigos e leitores conservadores que gostam do que escrevo. Fico feliz por isso. Entendo como sinal de que ainda consigo me comunicar com as pessoas, embora eu mesmo tenha dificuldade de fazer isso na fala. Creio que há aí um gesto importante: se não sou capaz de me comunicar com quem pensa diferente de mim, então talvez eu não seja capaz de me comunicar de verdade. 

Mas quem seria esse brasileiro específico? Tenho algumas percepções sobre isso, e quero dar aqui uma pequena pincelada.

O brasileiro não é conservador por folclore, por essência moral, muito menos por algum desajuste cognitivo ou intelectual. Pensar assim é partir da arrogância para construir uma caricatura. Creio que o tempo o empurrou para isso pelo medo e pela sobrevivência. Medo de cair mais um degrau, medo de perder o pouco que tem, medo de ver o filho capturado pelo crime, medo de não conseguir pagar o gás, medo de adoecer e não ter atendimento, medo de envelhecer sem proteção.

O Brasil das últimas décadas produziu consumo, desejo rápido de ascensão e vitrines digitais de vencedores, mas não ofereceu a mesma firmeza em trabalho, tempo e horizonte de vida. Ao mesmo tempo em que prometia autonomia, foi desmontando proteções do trabalho. Naturalizou vínculos frágeis, pejotização, intermitência e plataformização. A precarização não caiu do céu, ela foi construída como projeto de poder. E qualquer olhar honesto para o mundo do trabalho hoje percebe o estrago que a reforma trabalhista de 2017 aprofundou, especialmente entre os mais jovens.

A ideia do sujeito como “CEO de si mesmo” não é só delírio neoliberal importado de palestra motivacional. Muitas vezes, ela funciona como remédio paliativo de existência. Quando o mundo do trabalho retira garantias, o imaginário tenta devolver alguma dignidade. O homem que sai cedo de casa, pega condução, vende bolo, roda de aplicativo, faz bico, sonha abrir um negócio, assiste vídeo de empreendedorismo entre uma correria e outra, não está necessariamente imitando o rico nem sonhando em virar milionário. Muitas vezes, está apenas tentando não desabar de vez. É uma forma de dizer a si mesmo que ainda conduz alguma coisa, mesmo quando quase tudo ao redor diz o contrário. Por que enfrentar um 6×1 para um patrão por um salário mínimo, se eu posso tentar encarar um 7×0 para mim mesmo? Por que entrar cedo numa CLT, se mal acredito que um dia vou me aposentar?

O problema é que esse imaginário, quando capturado, ilude. Troca os direitos pela performance, descanso pela culpa e senso de comunidade por competição aflorada. O trabalhador deixa de se entender como parte de um corpo social e passa a ser tratado como pequena empresa em guerra contra a exaustão. E isso piora num país de trabalho fortemente informal e desregrado. 

É nesse ponto que a extrema-direita entra com inteligência afetiva. Ela percebe uma coisa que parte do campo progressista seja a esquerda ou mais liberal esqueceu: ninguém vive só de argumento cientificamente correto. As pessoas querem ser vistas, ouvidas, nomeadas, acolhidas em sua dor e em sua luta. Querem sentir que alguém as escuta sem rir de sua fé, de sua vergonha, de seu desejo de subir na vida, de seu apego à família e de sua necessidade de alguma ordem no cotidiano.

O ultra-conservadorismo cresce porque oferece espaço de escuta e fala para esse sofrimento. Não oferece país, nem transformação de verdade, mas oferece disciplina, pertencimento, inimigo comum e explicação simples, independente da ciência. Em vez de enfrentar a precarização da vida, organiza o desamparo como linguagem moral, mas o principal: organiza o acolhimento. Acalme-se, algum dia sua bênção virá, estamos entre irmãos.

Porém, ele também cresce e muito, na incapacidade das forças progressistas retomarem pautas comuns e pétreas de bem estar do povo, por medo de conflitar com suas pautas de poder pelo poder, cargo pelo cargo. Se tornando uma força de molde moral para controlar os que estão sob seu  cercado.

Talvez o erro mais sério de muita gente progressista atual tenha sido olhar esse Brasil apenas como objeto de pedagogia, estudo e pesquisa, e não como sujeito portador de inteligência. Houve análise demais e escuta de menos. Houve articulação demais e imaginação de menos. Como se bastasse anunciar indicadores, políticas públicas e boa intenção para que um povo exausto voltasse a acreditar na vida coletiva. Oferecemos política sem reconstruir vínculo, pertencimento e horizonte.

Porém, o povo também quer viver o sensível. Quer sentir que a vida pode ter algum brilho para além da conta paga em atraso. O conservadorismo entendeu isso antes: ocupou o campo do desejo, mesmo que com uma promessa estreita e envelhecida de mundo. Vende uma resposta, embora na prática atue de outra forma, basta ver o Trump e os seus piores conflitos: as lutas internas norte-americanas.

A disputa econômica também é disputa de imaginário, de vida boa, de futuro bonito, de reconhecimento solidário. O próprio debate sobre a escala 6×1 mostra isso. Não se trata apenas de horas e produtividade, embora isso importe. Trata-se do direito elementar de não viver esmagado pelo trabalho. É erro achar que economizar é não gastar mais com trabalhador. 

Horas de trabalho excessivas e salário baixo demais também destrói produtividade, aumenta rotatividade e piora o próprio negócio. E antes que me chamem de comunistas, economistas liberais defendem esse conceito.

A saída, então, não está em zombar do Brasil profundo, nem em idealizá-lo, mas em reencontrar dentro dele o seu desejo legítimo de vida. Algo que só é possível na escuta singela, sem julgamentos e com interesse de aprendizado. Há uma potência cotidiana que segue viva no país real. Ela está no churrasco improvisado de fim de semana, no salão de beleza lotado, no campo de várzea, no piseiro ligado numa caixa de som colorida, na mãe que faz render o almoço, na vizinha que olha o filho da outra, na feira, na oficina, na calçada, no culto de domingo, no chá partilhado enquanto se pega sol à beira do rio, no barulho de gente simplesmente sendo gente apesar de tudo. 

Por isso a boniteza de Paulo Freire ainda importa, como recusa da feiura moral que foi sendo naturalizada entre nós. Uma vida boa não pode ser privilégio de condomínio, nem fantasia vendida em parcelas, nem heroísmo individual de quem aguenta a escala, o bico e a humilhação calado. Ela precisa reaparecer como direito de respirar, conviver, descansar, estudar, circular, festejar, criar filhos sem terror e envelhecer sem descarte. 

O Brasil não precisa ser salvo de si mesmo. Precisa voltar a se enxergar como povo super diverso, criativo, complexo e digno de mais do que mera sobrevivência. Quando esse povo se vê apenas como empresário precário da própria miséria, o país encolhe. Quando volta a se reconhecer como portador de memória, trabalho, inteligência, diversidade de pensamento e desejo de beleza, o país pode novamente começar a pensar o Brasil.

Neste sentido retorno ao início. Afinal, aprendo com as trocas honestas dos amigos conservadores que me lêem e não sentem medo ou vergonha de conversar comigo sobre temas diversos.

Desenho autoral 2026
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Terra Rara e terras raras: pequeno texto sobre o impasse material do nosso tempo

Segue um pequeno texto sobre uma contradição pertinente do mundo contemporâneo. Falamos muito em inteligência artificial, transição energética, inovação, automação de futuro. Ao mesmo tempo, talvez tenhamos que  recordar o óbvio: não existe nuvem sem território físico, não existe inteligência artificial sem eletricidade, não existe transição energética sem mineração em larga escala, e não existe crescimento exponencial sustentado quando a base material do sistema opera no limite máximo. O século XXI promete leveza digital, mas se apoia sobre uma infraestrutura física brutalmente pesada.

Há um fetiche comum no debate público e corporativo. Falamos de tecnologia como se ela brotasse do nada, como se fosse resultado puro do engenho humano pairando acima da terra. Mas a história real é mais rude. Data centers exigem energia estável, água para resfriamento, linhas de transmissão, cabos, transformadores, terras baratas e capacidade de conexão. Painéis solares exigem prata. Turbinas eólicas, carros elétricos, sistemas militares e eletrônica de precisão exigem terras raras e outros minerais críticos. A dita economia do futuro nasce, portanto, de uma nova corrida sobre o solo. E como quase toda corrida por recursos em larga escala, ela rapidamente se converte em guerras geopolíticas.

O mercado da prata nos ajuda a entender um pouco isso. A prata ocupa um papel duplo, financeiro e industrial. Ao mesmo tempo em que é historicamente e segundo metal mais importante do mercado, embora mais raro e difícil de extrair que o ouro, também é muito importante em aplicações industriais, eletrônicas e fotovoltaicas. Isso significa que sua demanda já não pode ser lida dentro de um hibrido difícil de equilibrar: o especulativo do mercado financeiro e o necessário do consumo industrial. As terras raras, por sua vez, revelam um problema ainda mais pesado. Tanto pela existência geológica complexa desses elementos, quanto pela capacidade de processá-los, refiná-los e incorporá-los às cadeias industriais de maior valor agregado. A China percebeu isso antes de boa parte do Ocidente e consolidou posição dominante em etapas decisivas do refino. A disputa global perpassa a extração do minério. Ela é responsável pelos elos decisivos da transformação industrial.

O que está em curso é uma reorganização do poder mundial em torno destas novas cadeias produtivas estratégicas, semicondutores, minerais críticos, defesa e infraestrutura digital, isto é, os materiais do novo poder global. Em um cenário de crescimento global mais frágil, protecionismo seletivo e reindustrialização competitiva, cadeias de suprimento deixam de ser assunto secundário da globalização eficiente e passam a ser tratadas como matéria de soberania. Quem controla o refino, os chips, as baterias, controlará o ritmo da modernização dos outros.

A inteligência artificial radicaliza este quadro. Os debates principais sobre as IA costumam girar em torno de modelos, interfaces, produtividade e automação do trabalho intelectual. Tudo isso importa, mas há um subterrâneo raramente explicitado com a devida contundência. Por trás de toda rede de softwares há uma rede de hardwares. A expansão da IA depende de um salto gigantesco no consumo energético e de recursos. Isso nos obriga a encarar uma questão muito rude: a infraestrutura necessária para sustentar esse salto não cresce na mesma velocidade dos sistemas. Falta rede, falta transformador, faltam linhas de transmissão, faltam anos de investimento acumulado e, talvez o principal, faltam limites ecológicos que suportem essa voracidade. O discurso do crescimento exponencial esbarra no concreto do mundo, no aço, no cobre, no licenciamento, no território sacrificado e no tempo.


Este talvez seja o impasse mais decisivo do nosso tempo. O mundo quer eletrificar transportes, ampliar energias renováveis, sustentar a corrida dos data centers, expandir complexos industriais de alta tecnologia e ainda reforçar máquinas militares em meio a conflitos crescentes. Tudo ao mesmo tempo. Mas a infraestrutura de base não acompanha a voracidade. Redes elétricas envelhecidas, gargalos logísticos e dependência concentrada de poucos países indicam que o sistema quer operar num grau de complexidade superior ao que sua base material suporta.

É justamente aqui que outra leitura de mundo se faz necessária. Porque o discurso dominante tenta resolver esse impasse com a velha fórmula: abrir novas fronteiras extrativistas, flexibilizar regulações, converter territórios em zonas de sacrifício e acelerar a exploração em nome da inovação. A transição energética e digital corre o risco de repetir, em versão verde e algorítmica, a velha colonialidade do poder. 

Troca-se a fumaça velha do fóssil pelo garimpo limpo no selo institucional. Troca-se o petróleo pela mineração crítica. Troca-se o velho saque por um saque com selo ESG. E mais uma vez o Sul é convocado a fornecer o corpo, água, terra, trabalho e paisagem devastada para sustentar o padrão técnico dos centros de comando e dos bilionários do GAFAM.

A literatura crítica recente aponta isso: minerais críticos podem ser fundamentais para a descarbonização, mas sua extração, quando submetida à lógica convencional do capital global, tende a reproduzir conflito social, dano ambiental, concentração de valor e violência territorial similares ou piores que os modelos anteriores. A transição pode ser necessária e ainda assim operar de modo injusto. Uma coisa não anula a outra. É preciso perguntar quem extrai, quem processa, quem lucra, quem adoece, quem perde território e quem define a finalidade social dessa nova base técnica.

O Brasil entra nesse debate com potencialidade e risco. Potencialidade porque possui reservas importantes de minerais estratégicos para a transição energética, como grafita, níquel, manganês, terras raras e lítio, além de matriz elétrica relativamente favorável, base industrial ainda recuperável e capacidade científica instalada. Risco porque sua história socioeconômica mostra uma tendência persistente de ocupar o lugar de provedor de matéria-prima, deixando o refino, a tecnologia, a manufatura complexa e os ganhos estruturais para outros. O país pode ser peça relevante na cadeia global de minerais críticos, mas isso, por si só, não significa desenvolvimento nacional. Exportar o bruto enquanto importa a inteligência industrial do processo é continuar exercendo papel subalterno. O ponto decisivo é saber se o país será capaz de organizar política industrial, financiamento público, capacidade de refino, produção de componentes, domínio tecnológico e critérios socioambientais rigorosos para que essa riqueza se converta, de fato, em soberania material.

As guerras atravessam esse processo inteiro. Porque, além de destruírem sociedades, reordenam as cadeias produtivas, justificam emergências orçamentárias e ampliam a corrida por insumos estratégicos. Guerra produz espólio. Produz a oportunidade de redesenhar territórios inteiros a partir da ruína, reorganizando fluxos de vida e infra estruturas de mercado. 

Em escala global, o aumento do gasto militar mostra que recursos gigantescos estão sendo canalizados para destruição e contenção, enquanto a infraestrutura civil necessária à sustentação de uma transição justa segue em segundo plano. Há algo de irracional num sistema que responde à crise ecológica, energética e social com mais armamento e mais competição predatória, mas não parece ser pauta de quem manda no mundo.

Se prevalecer a lógica atual, veremos a ampliação de um modelo tecnicamente sofisticado e socialmente brutal: mais automação, mais consumo energético, mais extração, mais enclaves de riqueza, mais territórios sacrificados e mais guerra administrando os desesperos do próprio sistema. Uma espécie de futuro de alta tecnologia com estrutura moral arcaica. Muito bem retratado em filmes como Matrix e Exterminador do Futuro.

Mas outra direção ainda pode ser construída.

Uma direção em que transição energética não seja licença para devastar, em que inteligência artificial não seja pretexto para concentração radical de poder, em que soberania não se reduza à disputa bélica entre impérios e em que países como o Brasil recusem o lugar passivo no mundo. Isso exige mais do que política industrial ou regulação. Exige romper com a ideia moderna de desenvolvimento como simples aceleração da máquina, com a recusa dos conhecimentos tradicionais e com a crença de que toda tecnologia nova torna dispensável a memória longa da vida e da terra.

Talvez o nosso tempo peça algo mais profundo. Não só novas fontes de energia, mas nova inteligência histórica. Não só novos minerais, mas nova ética material. Não só inovação, mas capacidade de construir uma ordem menos exploratória, menos colonial e menos suicidária da existência terrena. Antes de reorganizar a economia, precisamos reorganizar a imagem que fazemos de nós mesmos: deixar de pensar o humano como centro soberano do mundo e voltar a nos perceber como parte frágil de uma trama muito maior do que nossa ambição técnica.

No fundo somos apenas símios que refletem sobre si rodando em uma pedra rara no universo, assentados na periferia de uma galáxia cujo destino final é encontrar o grande atrator de Laniakea. E o mais irônico da vida é que talvez nem nossa galáxia alcance seu destino antes do colapso do universo. Em meio a isso continuamos a destruir nossa pedra rara mãe em nome de um progresso ilusório construído por um pensamento moderno que há muito já não responde a vida. Somos tão raros quanto pequenos, mas talvez nos falte entender que nossa pequenez e respeitar o universo para reescrever nossa visão de mundo, como um dia fizeram os polinésios em seus barquinhos navegando o oceano pacífico.

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UE–Mercosul e o risco de esmagar a agricultura familiar

Quando o comércio corre mais rápido do que a justiça territorial, quem tropeça primeiro é quem pisa no barro.

Estrada

A enchente levou a estradinha de terra batida. No dia seguinte, o atravessador apareceu com o caminhão-baú e um papel na mão. “Sem esse documento, você não vende.” E, como diria Ana Castela, “acreditei que era herói, mas é bandido”.

No dia 9 de janeiro de 2026, o Conselho da União Europeia autorizou a assinatura do acordo UE–Mercosul. Para quem não acompanha: é um acordo de livre comércio que pretende reduzir tarifas e ampliar cotas entre os blocos, mexendo com o que cada lado vende e compra, principalmente agro e indústria. Visto do alto, parece diplomacia com elementos interessantes. No chão, porém, é disputa: preço, rota, contrato, e a terra rural voltando a ser peça do tabuleiro do capital.

Fresta


No Brasil, quem corre o risco de receber esse vendaval pela fresta é um ente imenso e pouco fotografado: a agricultura familiar. O Censo Agro de 2017 aponta mais de 10 milhões de pessoas ocupadas nisso e cerca de 23% do valor da produção vindo daí. Isso não é detalhe, é estrutura social de país. É renda circulando em cidade pequena e média, feira, caminhãozinho, escola rural, estrada de terra. É território respirando baixo, enquanto o agronegócio faz show com telão.

A primeira tensão nasce rápido. Se essa janela comercial aumentar o apetite por commodities, a terra encarece, o arrendamento endurece, a fronteira produtiva ganha força. O pequeno produtor, sem colchão financeiro, sentirá como água entrando pela soleira. A desigualdade no campo não chega com anúncio. Chega como “o preço do hectare”, “o vizinho vendeu”, “o atravessador apertou”. Chega como chuva que enlouqueceu, enchente onde era seca e, às vezes, sorrateira como tocaia de jagunço.

O Brasil traz uma notícia ambígua. Houve redução do desmatamento divulgada pelo PRODES. Respiro diante das tentativas de passar a boiada. Mas a economia que empurra o desmatamento é rede, e rede muda de humor com o mercado. Tem grilagem, licença duvidosa, legalidade convivendo e negociando com ilegalidade. E governança que evapora quando a renda da terra chama.

A Europa tenta colocar freio na própria fome de importação. A regra antidesmatamento exige diligência e rastreabilidade: produto “desmatamento zero”, legal, rastreável até a área de produção. Só que a própria UE vem adiando e revisando prazos porque sabe o peso operacional disso tudo. Agora imagine essa exigência aterrissando na América do Sul, onde o Estado muitas vezes chega tarde, e o atravessador chega cedo.

ESG não enche o prato

E aqui aparece a segunda tensão, silenciosa e cruel. Como fazer justiça ambiental num país que nunca pagou a dívida da reforma agrária? Rastreabilidade é necessária, sim. Eu não romantizo cadeia produtiva submersa, desenhada em Brasília nos gabinetes do agro. O problema é o Brasil real. O grande ajusta a exploração por compliance, como quem vive passeando de ponte aérea. O pequeno paga seu labor como quem compra botijão no desespero, no fim do mês. E quando não consegue, some da cadeia formal: vira refém de intermediário, vende mais barato, trabalha mais para sobrar menos. Quando vira marketing, “verde” vira barreira de entrada. O selo verde brilha, mas o prato do povo continua vazio.

Daí o paradoxo: a floresta em pé aparece como narrativa, mas quem entra decisivo no mercado global é quem já tinha estrutura, advogado, crédito barato e uma geografia montada a seu favor. Leia-se: latifúndio, lastro e poder.

Uma imagem simples, quase como se Jane Jacobs tivesse crescido no interior do Maranhão. Um satélite olha a Amazônia enquanto um homem olha a própria cerca. O satélite mede quilômetros quadrados. O homem mede dias de chuva, preço do adubo, a dívida do mês. Quando a política internacional só enxerga o satélite, atropela a escala da vida. Quando só enxerga a cerca, fere a escala da Mãe Terra. Falta olhar de chão, de dentro do território, e talvez principalmente de quem não tem nem satélite nem cerca.

Aqui já não cabe o maniqueísmo de vitrine que virou a política eleitoreira. Livre comércio versus protecionismo. Ambientalismo versus produção. O problema é a velocidade voraz do capital sobre a terra. O comércio corre, a governança territorial anda, e o pequeno produtor tenta pegar um trem que já saiu, carregando documento, nota fiscal e a esperança básica de não passar fome.

Contrapartida

Se a gente quiser falar sério de Sul Global, sem romantizar pobreza e sem engolir propaganda de “modernização” que sempre chega junto do capital, o papo é reto: como impedir que esse acordo vire motor de concentração territorial? Como evitar que o campo pobre e a floresta voltem a ser zona de sacrifício, agora com etiqueta reciclável e selo ESG?

A resposta, a meu ver, não é instagramável. É infraestrutura pública. Rastreabilidade precisa ser serviço público, cooperativo e territorializado: cadastro georreferenciado acessível, assistência técnica forte, cooperativas, consórcios municipais, plataformas de governança simples que virem prática campesina, não burocracia. Se o mundo exige geolocalização e diligência, o Estado precisa entregar ferramentas ao povo para isso não virar exclusão.

E aqui entra o urbanismo, no sentido mais político da palavra. A cidade consome sem ver a origem, especula a terra e terceiriza o custo social do alimento. A gente pega a carne no freezer e não vê o sangue vertido. Se a agricultura familiar é base social, ela não pode virar refém do humor do mercado externo ou de chantagem logística. CEASAs, mercados municipais, cozinhas públicas, logística curta. PNAE e PAA como programa de país, não apenas de governo. Escola pública e hospital público como compradores regulares de cooperativas e agricultores familiares, com contrato estável e rota planejada são alguns caminhos.

O UE–Mercosul é uma operação territorial transcontinental: gera valor, especulação e espalha impacto. E uma operação territorial deste porte exige contrapartida política. Uma contrapartida concreta possível para o Sul é criarmos um programa público que priorize a agricultura familiar, articulado a uma política urbana de alimentação do povo pobre. Sem contrapartida realmente popular, o acordo corre o risco de virar atalho para a riqueza passar correndo na sua lógica de extração, enquanto o pobre do campo fica no acostamento, vendo a vida se desfazer no pó da estradinha de terra batida.

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Brasil em Contradição: O Desenvolvimento que não quer pedir licença.

Brasil de fato: https://www.brasildefato.com.br/2025/05/24/lider-em-desmatamento-maranhao-acumula-conflitos-agrarios/

O Brasil vive momentos de aparente ascensão estratégica. A retomada de relações com blocos globais, especialmente a aproximação com a China, abre novas trilhas para a industrialização do Norte e Nordeste, regiões historicamente à margem do modelo de desenvolvimento nacional. Essa reorientação poderia sinalizar uma guinada justa, com mais equilíbrio territorial, autonomia energética e cooperação tecnológica Sul-Sul.

Sob a cortina de fumaça gerada pela prisão domiciliar de Bolsonaro, o Congresso avança no desmonte do licenciamento ambiental. Ironias à parte, trata-se de uma pauta essencialmente bolsonarista, quem não se lembra de Ricardo Salles mandando “passar a boiada”? O mais alarmante, no entanto, é que a flexibilização vem sendo aprovada com apoio expressivo de partidos da própria base ministerial do governo. A boiada agora atravessa novamente o plenário com selo de governabilidade.

Há nisso um problema profundo, recorrente e perigoso: o Brasil tenta construir um novo futuro, sempre com os mesmos vícios técnicos e políticos do passado. A tentativa de flexibilizar o licenciamento ambiental; vendida como “destravar o progresso”; ameaça corroer não só os ecossistemas, mas também a credibilidade internacional do país.

A erosão das salvaguardas ambientais expõe o Brasil a riscos estratégicos. Parcerias internacionais que se pautam por critérios ESG, por soberania alimentar e por transições verdes justas, começarão a desconfiar da validade de investir no País. Não se assina acordo com um País que desmonta seus mecanismos de controle ambiental enquanto a grilagem, jagunçagem e todo tipo de violencia territorial avançam sobre terras indígenas, áreas de proteção ambiental, biomas frageis e raros, reservas e zonas de recarga aquífera. O arco que se estende do Centro-Oeste à Amazônia Legal tornou-se um laboratório de guerra e destruição que ameaça travar qualquer agenda diplomática climática. Isso, em pleno ano de COP30!

Há, portanto, uma dicotomia gritante: de um lado, a construção de polos tecnológicos e produtivos no Nordeste, com apoio de infraestrutura ferroviária, energia limpa e intercâmbio científico. Que ajudaria o país a criar um desenvolvimento moderno que nunca teve. De outro, a legalização do desmatamento por omissão e a reprodução de velhos pactos extrativistas no coração do território nacional.

A crítica aqui não é à industrialização, nem à aproximação com potências não ocidentais. O erro está em imaginar que o mundo de 2025 permitirá um projeto de desenvolvimento que ignore os limites ecológicos do planeta. Defender este projeto é assumir que queremos como parceiros exploradores insensatos, milícias, grileiros, e tudo de pior que existe aqui e suas versões mundo a fora.

O trator do desenvolvimento não pode passar pelas florestas sem licença. O tempo da expansão predatória acabou. Países que insistem nisso tornar-se-ão párias comerciais e diplomáticos.

O que está em jogo é mais do que proteção de florestas, é a reinvenção do Brasil como parte de um ecossistema global de justiça, autonomia e regeneração. Um Brasil que tem toda condição de se tornar modelo global para um novo paradigma de nosso ser-estar no mundo. Um país que queira liderar o novo século não pode ser cúmplice de sua própria ruína.

Leituras complementares:

1 Correntão é vendido na internet como dicas para evitar fiscalização – aqui

2 Brazil’s congress passes bill to overhaul environmental regulations: – aqui

3 El Congreso de Brasil desmonta el pilar de la legislación ambiental del país y asesta otra derrota a Lula. – aqui

4 Brazil passes ‘devastation bill’ that drastically weakens environmental law: – aqui

5 Opponents Urge Lula to Veto Brazilian Lawmakers’ ‘Devastation Bill’ – aqui

6 Novo licenciamento ambiental opõe conservacionistas e indústria (Poder360) – aqui

7 Licenciamento ambiental à deriva- aqui

8 Brazil lawmakers gut environmental permitting ahead of COP30 summit (Reuters) – aqui

9 Crime and no punishment: Impunity shrouds killings of Indigenous Amazonian defenders- aqui

10 Esquema de ouro ilegal Yanomami envolve empresas milionárias acusadas de lavagem de recursos no Pará- aqui

11 Brazil: Illegal gold miners fatally shot in Indigenous territory – aqui

12 PF investiga morte de três yanomami por garimpeiros em Roraima- aqui

13 In Brazil, an Indigenous land defender’s unsolved killing is the deadly norm- aqui

14 Genocídio indígena: garimpo ilegal está matando crianças Yanomami- aqui

15 Inside the fight against illegal mining in the Amazon (Greenpeace)- aqui

16 Terra Yanomami é palco de “tragédia humanitária”- aqui

17 Brazil police bring formal charges in murder of environmental activists (JURIST)- aqui

18 Crime organizado avança e muda dinâmica no garimpo ilegal – aqui

19 Notícia do assassinato de três pessoas no garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami- aqui

20 Garimpo ilegal cresce 400% em terras indígenas em uma década, mostra estudo – aqui

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O Nordeste Brasileiro no tabuleiro da Estratégia Chinesa

A transformação da presença chinesa na América Latina nas últimas duas décadas é contundente: o que antes era um ator periférico virou potência econômica, diplomática e geopolítica, hoje rivalizando com Estados Unidos e União Europeia. No Brasil, e, em especial, no Nordeste, esse fenômeno eclode como marco estratégico. Após décadas de centralidade econômica no Sul e Sudeste, a região nordestina desponta como um pólo decisivo para os investimentos chineses, com potencial real de impulsionar a economia local e intenção de reverter parte da desindustrialização nacional.

A China é, desde 2025, o principal parceiro comercial da América do Sul e, no conjunto da LAC, ocupa a segunda colocação. Seu interesse está centrado em matérias-primas críticas como o lítio, cobre, níquel e terras raras, essenciais à transição energética global. A construção do megaporto de Chancay, no Peru, financiado por capitais chineses, é peça-chave dessa nova logística: uma mega engenharia que posiciona o eixo Ásia–América Latina diretamente pelo Pacífico, reduzindo custos e tempo de transporte. O projeto: integrar o Nordeste brasileiro a essa rede, seja por meio de uma ferrovia ligando Ilhéus a Chancay, criando uma alternativa inclusive ao Canal do Panamá.

Na área energética, o engajamento chinês no Nordeste é evidente. Empresas como State Grid, CGN, Three Gorges Group e Goldwind mantêm presença ativa, especialmente em parques eólicos no Piauí e na Bahia. A chegada da BYD, instalada em Camaçari, assumindo a estrutura industrial antes ocupada pela Ford, simboliza a reconfiguração da indústria automotiva: o futuro elétrico chegou, e a China o lidera. Soma-se a isso o interesse de gigantes tecnológicos como a ByteDance por data centers na região, atraídos pela energia renovável e pela posição geográfica estratégica.

É inegável que tais investimentos trazem esperança de crescimento e diversificação econômica para as regiões historicamente negligenciadas. Mas, sem políticas públicas bem estruturadas, os riscos são grandes. Casos como o de operários chineses submetidos a trabalho análogo à escravidão, cisternas rompidas, aerogeradores implantados sem consulta prévia e o controle estrangeiro sobre jazidas estratégicas como a mina de Serrote, em Alagoas, acendem alertas.

Esses riscos ganham relevo num cenário geopolítico de disputas entre China, EUA e UE. Sob a presidência brasileira, o BRICS tenta articular uma nova ordem global mais inclusiva. O New Development Bank, com seu fundo de garantias, e iniciativas como o BRICS Pay apontam para uma tentativa de descentralização financeira. Recentemente, Xi Jinping anunciou US$ 9,2 bilhões em crédito para a América Latina, fortalecendo os laços Sul–Sul. Contudo, a ausência do líder chinês na cúpula do BRICS no Rio acentua dúvidas sobre a real capacidade de coesão do bloco.

Se o Brasil deseja transformar essa conjuntura em um projeto de desenvolvimento nacional genuíno, será preciso mais que otimismo. É necessário investimento em infraestrutura, educação técnica, pesquisa aplicada, soberania digital e, sobretudo, regulação ambiental rigorosa. A preservação do semiárido e da caatinga e floresta amazônica, biomas únicos e frágeis, precisa ser pensada junto aos modelos de produção, energia e mobilidade. A política nacional precisa ser firme: sem mecanismos de compensação ambiental, fiscalização e retorno social, corremos o risco de transformar a riqueza natural em mais uma tragédia socioambiental.

A negligência de parceiros tradicionais, como EUA e UE, abriu espaço para o avanço chinês. Mas isso não pode significar submissão a uma nova forma de colonialismo, como já se observa em partes da África. Precisamos garantir que os investimentos estrangeiros venham acompanhados de troca de saberes e tecnologia, empregos qualificados, inovação local e respeito aos povos e territórios.

O Brasil opera sua política internacional hoje muito sob a diretriz do “não alinhamento ativo”, posição delicada, mas que tem sua potência. Ela exige articulação diplomática séria para garantir ações de mediação continua, porém mais ainda, um projeto de país muito claro, que enfrente a desigualdade com estratégia, soberania e visão ecológica de futuro para que não nos tornemos mediadores indecisos, o que nos levaria a perder credibilidade.

O Norte e o Nordeste podem ser os motores de uma nova etapa do Brasil. Mas é fundamental que isso aconteça com transparência, regras bem definidas, valor agregado e benefícios reais à população. Estamos falando do território mais fragilizado do país, onde convivem índices alarmantes de pobreza com uma biodiversidade preciosa e ameaçada. A entrada cega de um modelo econômico puramente extrativista, ou de um desenvolvimentismo sem planejamento ambiental, ou um novo parceiro econômico sem definir os limites do jogo (mesmo um tabuleiro de go tem seu limite padrão definido em 19×19), pode nos colocar no pior cenário possível: crescer se destruindo.

A história exige vigilância e a política exige ação. A janela está aberta. O bonde passa agora. E é hora de decidirmos como queremos conduzir.

Lantera Chinesa (Abutilon striatum): Nativa da América do Sul.
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Estatal, Público, Privado e Comum

Falemos um pouco sobre os conceitos de estatal, público, privado e comum. Muitas vezes soam embaralhados no debate político e no circuito popular. É muito corriqueiro pensarmos o sistema estatal e o sistema público por exemplo como a mesma coisa, coisa de governo. Esse tipo de confusão acaba por esconder disputas de poder e visões diferentes, principalmente, sobre quem deve gerir o que é de todos e como deve ser gerido.

Estatal é tudo aquilo que pertence diretamente ao Estado. São bens e instituições geridas pelo poder público, com autoridade centralizada. Público, em sentido mais amplo, é aquilo que existe para uso e benefício de todos, independentemente de ser estatal ou não. Aqui está um sombreamento corriqueiro. Muitas vezes entendemos um bem estatal como um bem público. Ainda que seu produto final seja deste caráter específico, sua gestão não necessariamente é. Decisões de gestão da Petrobrás, por exemplo, não precisam de audiência pública aberta a todos os cidadãos brasileiros para acontecer.

O privado por sua vez, é mais simples de entender: aquilo que é de propriedade de indivíduos ou empresas, voltado para interesses particulares, ainda que sob regulação pública. É no campo privado que florescem a autonomia, o empreendedorismo e, ao mesmo tempo, as desigualdades.

Além destes, vou retomar aqui o conceito de comum, trazido por Antonio Negri. O comum não seria nem estatal, nem público nos moldes tradicionais. Sua principal distinção está no fato de que ele emerge da própria colaboração social. Ele é um modo de organização mais horizontalizado por natureza. Conhecimentos compartilhados, redes de solidariedade, práticas coletivas que não dependem do Estado nem de interesses privados. O comum é um espaço de invenção social e resistência.

Há um modelo que deva ser hegemônico? A meu ver não, cada modelo responde a um conjunto específico de necessidades sociais e pode ser operado de forma estratégica a partir da complexidade. Talvez o maior erro da gestão global, desde a revolução industrial, tenha sido a tentativa de impor um modelo hegemônico e referência paradigmática.

Simplificando: nem a estatização de todo o sistema econômico, como pregado por algumas tradições políticas de esquerda e nem o enxugamento ou fim da máquina estatal como pregado por inúmeros discursos neoliberais e capitalistas, resolverão o sistema. No meu modo de pensar: Há bens, instituições e serviços que precisam de uma gestão pública, há os que precisam de uma gestão estatal, há os que funcionam melhor no sistema privado e ainda há aqueles que funcionam muito melhor na organização pelo comum.

As confusões realmente começam quando os limites entre esses conceitos se tornam turvos. Uma escola pública, estatal em estrutura, deveria servir ao interesse público, mas quantas vezes vemos interesses privados infiltrados em sua gestão? Quantas vezes o Estado administra mal o que é público, esvaziando o sentido coletivo do bem? Ao mesmo tempo, quantas vezes uma corporação privada se utiliza de recurso e privilégio público e estatal para conseguir lucro ou benefícios?

Fora outros espectros de sombreamento. Organizações sociais que prestam serviços de saúde com verbas públicas, mas operam com gestão privada; empresas estatais que agem como corporação privada no mercado internacional; espaços públicos privatizados sob concessão. O mercado tenta se apropriar dos privilégios e benefícios do que é público; o Estado tenta governar o que poderia ser comum; o comum se perde sendo cooptado pelo Estado ou pelo mercado.

Entender essas distinções é um ato político. Saber onde termina o interesse público e começa o interesse privado é fundamental para defender direitos, garantir justiça social e reinventar novas formas de vida. Um bom desafio para o nosso tempo seria justamente este: resgatar o comum como um campo vivo de liberdade coletiva e reorganizar o projeto de nação espacializando melhor o que deve ser gerido de forma estatal, de forma pública, de forma comum e o que pode ser mercado.

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Superposição do colapso – tarifas, algoritmos e alternativas do Sul

Hoje falamos muito em algoritmos, mas  lembro de quando tudo era quântico: palestras, filmes, conceitos, literatura. Saber física quântica parecia sinônimo de vida intelectual, mesmo que a gente entendesse pouco do que de fato estava falando, até hoje não sei se o gato de Schrödinger estava vivo ou morto, na verdade sequer sei escrever Schrödinger sem consultar o Google. Vivemos num mundo em que cada decisão parece conter todas as decisões possíveis, até que uma escolha se imponha ou um colapso ocorra. Aquilo que me soa como um labirinto borgeano, a física chamaria de superposição quântica. 

Se não fosse o algoritmo do Google, talvez eu nem soubesse que hoje é dia de celebrar esses conceitos. Na vida prática, chamamos isso de incerteza. Mas, ao contrário do mundo subatômico, nossos dilemas não colapsam por leis naturais, são empurrados por interesses, movidos por algoritmos e tensionados por forças geopolíticas.

A recente decisão de Donald Trump em retomar tarifas contra a China, a meu ver, não revela um equívoco ou protecionismo antiquado. Considero que se trata mais de uma ação de guerra de poder e medo. A guerra tarifária, por sua vez, é só um sintoma de algo mais profundo: a incapacidade dos antigos centros de poder de sustentar a ficção de crescimento contínuo num planeta exaurido, hiperconectado e radicalmente desigual. 

Trump, ao colocar em xeque a confiança no dólar, expõe o esgotamento de uma ordem que ainda se sustenta pela inércia. Enquanto a Casa Branca tenta manipular a bola do jogo a seu favor, Wall Street já precifica a estagnação e o capital global pressente a necessidade de reorganizar seu campo (ou as regras, ou a bola), talvez além do dólar.

Quando o sistema produtivo global ganha autonomia, o centro perde o comando da engrenagem. A China, com sua força produtiva e avanço tecnológico, representa uma ameaça real ao modelo ocidental, não só econômica, mas também política. Talvez por isso, os EUA imponham além de tarifas, barreiras diplomáticas, tecnológicas e militares. Além da China, outras referências surgem do Oriente. Uma explosão de subjetividades que deixou de ser exótica ou folclórica descentralizam a hegemonia do entretenimento americano. O BTS substituiu o N’SYNC; antes deles, o fenômeno Gangnam Style já sinalizava um entretenimento internacional com identidade própria. Nada disso foi acaso. Trata-se de um projeto nacional estratégico da Coreia do Sul.

Nesse ponto, a tentativa americana de restaurar seu domínio por meio de tarifas escancara uma certa impotência atual, quase como uma última cartada da vida. Tarifas não reconstroem cadeias produtivas, não requalificam trabalhadores, não recupera subjetividades e tampouco geram inovação orgânica. No máximo, adiam a implosão de um modelo insustentável. Ao fazer isso, alimentam tensões globais, inflamam nacionalismos econômicos e aprofundam desigualdades. Trump aposta alto, um lance que pode não ter volta.

O colapso da superposição quântica está em curso. Tarifas, algoritmos  e acordos comerciais disputam quem vai conduzir o novo ciclo. Mas talvez o caminho não seja escolher uma trilha dominante. Talvez seja hora de aprendermos com as margens, com as economias informais, com a inteligência prática de quem sempre viveu fora da lógica centralizada. Até porque, mesmo em uma reestruturação do capital, ainda seremos margem. 

Em meio à guerra tarifária, precisamos desenhar uma racionalidade econômica que não dependa dos conflitos comerciais atuais, nem da volatilidade financeira. Uma economia que funcione mesmo sem PIBs exuberantes, porque se ancora em vínculos reais e não em promessas especulativas. Uma economia, onde o novo lastro possa ser gerado pela partilha, como num belo sistema P2P de compartilhamento de dados.

No Brasil, cooperativas agroecológicas enfrentam o agronegócio exportador. No Senegal, startups solares descentralizam o acesso à energia. Na Índia, o sistema público de saúde convive com inovação tecnológica. Essas experiências não prometem utopias, são tentativas práticas de uma nova forma de viver e produzir.

Assim, o Sul Global observa e age. Experimenta soluções locais, modelos híbridos de produção e redes descentralizadas de troca. A reorganização do capital que nos favorece não virá de Davos. O que parece hoje disperso e marginal pode se tornar central, num mundo em que as velhas engrenagens emperram. Centralidade que nasce das bordas, dos territórios sempre negligenciados que agora, aos poucos, cultivam autonomia.

Nosso desafio é abandonar o olhar exótico e reconhecer essas experiências como fundamentos de outra ordem econômica. Uma construção que redesenhe o sentido de valor: não mais centrado no dólar, mas ancorado em novos ativos, como a floresta em pé, a energia limpa, o saber tradicional, para além de  resistir, é hora de propor. De formar pactos sustentáveis entre os excluídos de ontem, para que sejam os arquitetos do amanhã.

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Trump e tarifaço: o dólar como arma de guerra

meme reproduzido das redes de internet

Donald Trump tem um projeto: recentralizar os Estados Unidos no jogo global e decide fazê-lo por meio do conflito. Assim como o jovem que, ao jogar War se vê perdendo e simplesmente bagunça o tabuleiro todo, lembrando para os amigos que as peças do  jogo são dele. Assume o comércio mundial como uma arena de disputa por poder real onde, para ele, os EUA estão perdendo, apesar de serem os emissores da moeda lastro. A crítica de Trump ao sistema é profunda e não creio que seus cálculos sejam infantis. O que ele sabe é: independente das regras do jogo, ele tem a bola, o dólar e quem tem a bola define se a brincadeira é futebol ou vôlei ou, o mais provável, alguma brincadeira com regras inventadas por ele.

Por mais que para muitos soe uma prática antiquada de protecionismo, não o é. Trump explode uma subjetividade que responde ao americano de classe média estagnado na economia que a mesma não é um elemento neutral e estável. Enquanto, historicamente, trabalhadores vêm perdendo empregos, fábricas saem do país migrando para países mais estratégicos do sistema internacional e a infraestrutura se degrada. Lembremos aqui de Detroit, que em julho de 2013 decretou falência, se tornando a maior cidade dos EUA a fazer isso.  Enquanto isso, países asiáticos e europeus acumulam reservas em dólar, compram dívida americana e exportam seus produtos para os EUA com vantagens cambiais que, segundo Trump, jamais seriam aceitas se fosse o inverso.

O dólar, pilar da ordem financeira internacional, é ao mesmo tempo fonte de prestígio e fraqueza. Sua hegemonia faz com que os EUA possam se endividar à vontade e manter um aparato militar gigantesco. Assim, cria uma máquina de poder extremamente forte no mundo. Seu principal conflito, me parece ser contra o sistema financeiro internacional que mantém artificializada o valor de sua moeda para a boa operação do sistema especulativo global em detrimento do sistema produtivo industrial das nações.

A resposta de Trump a esse cenário é a ruptura, lhe interessa o impacto, sua política tarifária instrumentaliza o desequilíbrio monetário e produtivo global, força a valorização das moedas estrangeiras, força o reestudo de logísticas de produtos e de mudanças de sites industriais. Trump força o mundo a aceitar um dólar mais fraco sem que os EUA percam o privilégio da hegemonia da moeda.

Trump aposta no limiar do colapso, como mesa de negociação com o mundo. É uma estratégia de alto risco, flerta com crises globais e instabilidades duradouras. Mas, para ele, é melhor provocar o terremoto do que continuar enterrado sob os escombros de um sistema que já não serve aos interesses americanos (na sua visão).

Ao tentar reconstruir o jogo do poder a partir do abalo sísmico. Trump joga as fichas porque acredita que todos voltarão à mesa? talvez. Mas, dessa vez, com novas cartas e novas regras feitas por ele. Esse projeto se sustentará? Tudo depende de como as nações afetadas irão se articular na reorganização de seus mercados.

E até nisso a operação foi interessantemente sofisticada. As bruscas diferenças de tarifas colocam o mundo em duas disputas concomitantes: Países como o Brasil se tornam atrativos como um canteiro industrial, enquanto China e outros são hipertaxados.  Trump não racha o mundo em um Todos contra Trump, ele racha em uma disputa onde redefine a ordem das desigualdades entre as nações. Algumas subitamente ganham oportunidades atraentes enquanto outras sofrerão as sanções.

Seu plano é mais político do que econômico. Envolve diplomacia direta, bilateral, baseada na força, e disputas constantes. Trump traz o mundo para uma negociação olho no olho, país a país.. Para uns, exigirá compra de armas; para outros, que migrem fábricas para solo americano. Quem não aceitar suas condições, enfrentará tarifas, retaliações e, em último caso, o uso do poder militar como elemento de pressão. Este é o recrudescimento de um Estado de Guerra que ainda tem seu dinheiro, leia-se confiança de mercado, como lastro da economia global. O que nos parece loucura é apenas uma guerra em curso.

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O fim da CLT está só começando

No início da noite de um domingo chuvoso no Rio de Janeiro, deparo-me com a seguinte matéria:“prefiro sair. Pedidos de demissão batem recorde e já são quase 38% do total de dispensas” link ; Ainda junto a esta, li “Crianças demonizam CLT’: carteira assinada vira ofensa entre os jovens” link . Precisamos refletir sobre. 

O Brasil enfrenta um fenômeno crescente de evasão de trabalhadores do regime CLT, demonstrando uma tendência de recusa à exploração laboral tradicional. Explicações psicológicas individualizadas têm sido propostas, mas não respondem à complexidade da realidade. É importante considerar fatores estruturais e coletivos que moldam o desmonte das relações trabalhistas.

Desde 2016, o Brasil passou por reformas que enfraqueceram as leis previdenciárias, trabalhistas e sindicais, desmantelando proteções históricas não apenas dos trabalhadores, mas também dos empregadores, afinal, o sindicato é um instrumento legal de negociação dos dissensos entre as partes. Esse processo resultou em uma reorganização do mercado de trabalho, onde o vínculo formal perde atratividade tanto para quem contrata quanto para quem busca emprego. As empresas, ao promoverem a flexibilização, agora enfrentam dificuldades em atrair trabalhadores para posições formais, evidenciando uma contradição em suas próprias estratégias de mercado.

Devemos acender aqui um sinal amarelo. Tracemos um paralelo com a experiência africana, que oferece elementos valiosos para reflexão. Em muitas nações da África Subsaariana, a economia informal predomina, empregando entre 60% e 80% da força de trabalho e contribuindo significativamente para o PIB. Embora forneça meios de subsistência, essa informalidade está associada à ausência de proteção social e à hiper vulnerabilidade econômica. Em Gana, por exemplo, a criação da Union of Informal Workers Associations, refletiu a época, a urgência de construir estruturas representativas para os trabalhadores invisíveis, que sobrevivem à margem da formalidade.

Sem uma economia organizada em torno de uma estratégia de nação, os governos têm enorme dificuldade de promover melhorias significativas. O resultado é um ambiente que beira a barbárie, com conflitos civis mal resolvidos e lutas desesperadas pela sobrevivência, que muitas vezes culminam no êxodo de jovens e famílias inteiras para países europeus, em busca de um sonho vendido pelo capital, que não passa de miragem.

Nesse contexto, a promoção do autoempreendedorismo como resposta ao desemprego cria uma corrida solitária pelo ouro perdido. Indivíduos competem em um mercado saturado, sem direitos, proteções e seguridades do trabalho formal. Essa dinâmica resulta em instabilidade econômica e social, dificultando inclusive a implementação de políticas públicas estruturantes e a atração de novos investimentos para o país.

Necessidade de Reestruturação Sindical e Proteção Social

Para evitar um ciclo de precarização irreversível e o colapso, é essencial que o Brasil promova uma reforma sindical robusta, que fortaleça a representação dos trabalhadores e estimule negociações coletivas efetivas. Políticas que incentivem a formalização do trabalho, a construção de um sistema de bem-estar social e o desenvolvimento humano são importantes para garantir a estabilidade econômica e social. A experiência africana nos mostra que, embora a informalidade possa funcionar como rede de sobrevivência, ela limita qualquer projeto de crescimento inclusivo e sustentável. O empreendedorismo nem sempre traz dinheiro fácil, na maioria das vezes ele seduz porque entrega algum dinheiro rápido, mas que, por ser escasso e volátil, se dissipa sem deixar raízes para o futuro. “Dinheiro na mão é vendaval”.

O sindicalismo, por sua vez, precisará reaprender a caminhar sobre o novo solo das lutas. A luta dos precários atravessa outros territórios, físicos e virtuais, e exige novas formas de mobilização, para além da clássica negociação entre patrões e empregados. Precisamos mapear a nova geografia do trabalho e ocupar, com coragem e estratégia, os territórios por onde caminha.

O Brasil está em um ponto crítico, onde decisões sobre políticas trabalhistas e sindicais terão impactos duradouros. Aprender com as experiências de outras nações e reconhecer a importância de estruturas de proteção coletiva será vital para construir um campo de trabalho equilibrado. Se os campos que estão mais sentindo como: construção civil, um dos motores da economia do Brasil, não se atentarem a estas reais necessidades, o que veremos é a degradação que pode não ter volta. 

O Brasil está em uma encruzilhada histórica. As decisões que tomarmos sobre as relações de trabalho e o papel dos sindicatos impactarão significativamente o futuro do país. Se setores estratégicos, como a construção civil, um dos motores da economia nacional, não se atentarem à gravidade do cenário, presenciaremos uma degradação profunda e, talvez, irreversível.

Assim, precisamos alinhar o debate na direção que ele precisa ser tratado: o das lutas coletivas e relações de trabalho, e não o psicológico-social que faz parecer que os jovens estão iludidos, quando na verdade eles estão simplesmente pesando o seu preço real no mercado de trabalho. se eles não precisam neste momento se submeter a salários defasados, falta de direitos, jornadas exorbitantes como as 6×1, assédio moral, entre outros, eles estão certos em não ir trabalhar. O erro dos jovens está em não conseguirem se organizar coletivamente para enfrentar o vilipêndio que foi a destruição do fraco sistema de bem estar social do Brasil e esta é uma luta a qual gostaria de convocar com este texto. 

É preciso alinhar o debate ao que realmente está em jogo: as lutas coletivas e as relações de trabalho. Não podemos mais aceitar apenas análise psicológica que retrata os jovens como mimados ou iludidos por não aceitarem trabalho CLT. Eles estão, na verdade, fazendo um cálculo objetivo e subjetivo, embebidos da subjetividade do autoempreendedorismo, avaliam o custo de se submeter a jornadas abusivas, salários aviltantes, assédio moral e ausência de direitos. E estão certos em não aceitar esse jogo, vão arriscar enquanto são jovens o outro caminho que lhes é aberto pelo capital, a corrida do ouro perdido. O erro, se é que se pode chamar assim, está na falta de organização coletiva para enfrentar o saque sistemático ao que restava do já frágil sistema de proteção social brasileiro. Esta é a luta à qual este texto deseja convocar.

Para o mercado que achou que o desmonte seria o fim dos sindicatos só esqueceu de uma coisa básica: não são os sindicatos que constroem as lutas, são as lutas que constroem os sindicatos. O desmonte criará um sindicalismo diferente que poderá ser mais visceral e combativo diante do massacre popular.  

Ao mercado que acreditou que o desmonte selaria o fim dos sindicatos, um recado: esqueceram do fundamento! Não são os sindicatos que constroem as lutas; são as lutas que constroem os sindicatos. E quando o povo voltar às ruas, às redes e às praças, não vai ser de paletó e crachá, virá selvagem. Virá com fome, com raiva e com uma clareza feroz de que ou este país se reconstrói a partir do trabalhador, ou arderá em sua própria injustiça, e esta será a cara do sindicalismo. Sua nova forma, ainda não sabemos.

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