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Bolsonarismo: um peronismo de família

Quando o Sobrenome vira Partido

O bolsonarismo pode estar construindo, à sua maneira, uma espécie de peronismo brasileiro do século XXI. Não porque Bolsonaro seja Perón, nem porque seus projetos políticos sejam similares. Reflito sobre uma forma política construída na capacidade de perceber uma transformação da composição social, encontrar suas formas concretas de organização e produzir a partir delas identidade política. A analogia tem um limite, e é ele que interessa: o peronismo incorporou o trabalhador ao Estado; o bolsonarismo, até aqui, apenas o mobiliza.

O bolsonarismo encontrou uma classe trabalhadora que boa parte da política brasileira ainda procura. Gente que vive do próprio trabalho, mas que nem sempre se reconhece nos instrumentos consolidados a partir das políticas trabalhistas do século XX. O trabalhador industrial, organizado pelo sindicato e reconhecido politicamente a partir de sua condição de classe, não desapareceu, mas deixou de representar sozinho o mundo laboral. Ao lado dele existe uma massa de trabalhadores dos serviços, terceirizados, autônomos, MEIs, motoristas, entregadores, pequenos comerciantes e assalariados que transitam entre emprego, desemprego, bico e pequeno negócio. Em 2025, segundo IBGE/PNAD, o Brasil tinha 26,1 milhões de trabalhadores por conta própria e informalidade de 38,1%. Não é uma margem exótica do mercado de trabalho, mas parte central de sua configuração atual. Informal não é sinônimo de bolsonarista, e o lulismo também tem base expressiva nesse meio. O que parece que podemos afirmar, porém, é que o bolsonarismo disputa esse segmento com eficácia narrativa.

Parte da esquerda ainda olha para essa nova classe trabalhadora com categorias do século passado. A ironia do “pobre de direita”, do “CEO de MEI” ou a explicação pela simples ignorância política revelam mais que preconceito: revelam dificuldade de compreender uma estrutura social que mudou. O sujeito que abre um MEI, dirige aplicativo, vende comida ou alterna emprego formal e trabalho autônomo continua materialmente inserido na classe trabalhadora, mas organiza sua experiência por outras referências. Quando a esquerda ri da identidade que ele construiu, em vez de compreender como ela foi produzida, entrega a outros a tarefa de disputá-lo. Parte desse trabalhador foi formada pelas próprias políticas dos governos do PT e não encontrou nos partidos de esquerda espaços de organização capazes de acompanhar sua nova condição material e seus desejos subjetivos.

O peronismo encontrou o trabalhador produzido pela industrialização argentina. No Brasil, esse papel coube ao getulismo, que estruturou a política em torno do trabalhador urbano, com a CLT, o sindicato reconhecido pelo Estado e a carteira assinada como porta de entrada na cidadania. Dele derivaram o trabalhismo de Jango e Brizola e, por ruptura e continuidade, o novo sindicalismo e o lulismo. Toda essa linhagem organizou a política de esquerda em torno do trabalhador formal e de seus instrumentos. O bolsonarismo encontrou parcelas importantes do trabalhador que ficou fora dessa moldura ou foi expulso dela: o produzido pela desindustrialização, pela precarização e pelo capitalismo de serviços. A incorporação getulista sempre foi parcial e a informalidade sempre existiu ao lado dela; o que mudou é que o trabalhador formal deixou de ser a figura que organiza de forma hegemônica o conjunto.

No peronismo clássico, o trabalhador industrial encontrava no sindicato uma forma de organização, reconhecimento e pertencimento. A experiência concreta do trabalho era convertida em identidade coletiva e, a partir daí, incorporada ao Estado e ao próprio peronismo.

O bolsonarismo opera sobre outra configuração social. Seu trabalhador, mais espalhado nos serviços, na informalidade e no pequeno empreendedorismo, encontra outros instrumentos de mediação. Sua organização passa por igrejas, redes sociais, família, comércio local, grupos profissionais e redes territoriais. É nesses espaços que se produz a identidade de quem trabalha, sustenta os seus, enfrenta dificuldades e se vira.

As instituições são diferentes, mas com função política comparável. O sindicato ajudava a transformar a experiência social em consciência coletiva. Igrejas, redes digitais e circuitos locais cumprem parte dessa tarefa ao oferecer linguagem comum, comunitarismo e uma interpretação compartilhada da vida cotidiana.

Outro ponto de aproximação com o peronismo está no personalismo. O bolsonarismo já não se organiza apenas em torno de Jair Bolsonaro. O sobrenome virou uma marca política própria, superior a legendas partidárias.

A eleição de 2026 materializou esse poder familiar em posições estratégicas. Flávio disputa a Presidência; Michelle foi eleita senadora pelo Distrito Federal; Carlos, senador por Santa Catarina; Jair Renan, deputado federal pelo mesmo estado; e Renato Bolsonaro, deputado federal por São Paulo. Rogéria Bolsonaro, ex-mulher do ex-presidente, também disputou a eleição no Rio. A família se distribui entre o Executivo nacional, o Senado e a Câmara, em diferentes estados, o que revela uma capacidade eleitoral que não depende de implantação partidária territorial tradicional.

Isso ainda não é uma tradição política. Dinastias brasileiras se diluíram quando o fundador saiu de cena, mas pode vir a ser. Movimentos personalistas só sobrevivem ao líder quando conseguem transferir pertencimento e lealdade para o mesmo campo, e aí as redes digitais ajudam, ao ampliar a presença simbólica do líder e reproduzir sua identidade para além de sua atuação direta. O resultado de 2026 sugere que o nome Bolsonaro pode funcionar como portador de uma identidade transferível entre pessoas, cargos e territórios. É uma possibilidade; o teste será a capacidade de mobilizar sem o fundador.

O peronismo construiu ainda um repertório que marcaria a América Latina: grandes mobilizações, comunicação direta com as massas, símbolos facilmente reconhecíveis, antagonismos claros e uma narrativa que fez de Perón e Evita figuras quase míticas. Sua força não vinha só da estrutura sindical ou das políticas sociais, mas, principalmente da capacidade de produzir emoção, lealdade e ritual. O bolsonarismo tem seu equivalente: atos de massa, comunicação direta pelas redes, símbolos de fácil reconhecimento (as cores nacionais, o vocabulário de Deus, pátria e família), antagonismo permanente e a figura do “mito”. Aqui a semelhança é real.

É no que vem depois que ela acaba. O sindicato peronista era mais que identidade: tinha poder de barganha, estava incorporado ao Estado e produziu direitos concretos. O bolsonarismo preencheu o vazio da representação, mas não o da organização autônoma. Igrejas, redes e comunidades criam identidade, mas não formulam política de previdência, crédito ou proteção para quem trabalha por conta própria. 

O que se estruturou foi uma máquina capaz de reproduzir o poder familiar por meio de filhos, esposa, irmãos e sucessivas disputas eleitorais. Sem organização autônoma nem incorporação institucional, o que resta do paralelo é o personalismo e mobilização, o que descreveria igualmente Vargas, Collor ou Trump.

Esse limite carrega um risco concreto. Quando liderança, movimento e projeto ocupam o mesmo lugar, a crítica interna passa a ser tratada como deslealdade, a sucessão assume caráter familiar e as instituições são medidas pela relação que mantêm com o líder. No bolsonarismo, o alvo dessa lógica é o Supremo. Os grandes movimentos do campo, da deslegitimação do sistema eleitoral ao 8 de janeiro, convergem para o enfrentamento da corte que o contém, e o crescimento de uma bancada favorável no Senado indica que o ataque deixou de ser apenas retórico. É o Senado que julga ministros do STF e aprova suas indicações, e uma maioria alinhada transforma o conflito com o Judiciário em instrumento concreto de poder. 

Há ainda um segundo risco, interno ao próprio campo. Em movimentos com organização autônoma, a base pode cobrar, corrigir e eventualmente substituir o líder: o sindicato negocia, o partido delibera, a assembleia vota. Igrejas, redes e comunidades criam pertencimento, mas não foram feitas para isso, e a lealdade que produzem é dirigida à pessoa, não a um programa. Se o líder erra, rompe com aliados ou persegue interesses próprios, a base não dispõe de instrumentos políticos para contê-lo. Ela só tem duas opções, seguir ou sair, e a história de movimentos personalistas mostra que a maioria segue. Quando a mediação é um nome, o que limita o poder dele é o que ele mesmo decide respeitar. Reduz-se a política parlamentar, amplificando o poder de uma política familiar.

A vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia indica que isso não é só brasileiro. Circula pela América Latina uma mesma gramática política: segurança à Bukele, economia à Milei, alinhamento a Trump e lideranças personalistas sem projeto de país apresentadas como resposta à crise das instituições. Em todos os casos, partidos e organizações sociais perdem a mediação para plataformas, influenciadores e igrejas, estruturas que transformam medo e ordem em narrativas simples e de circulação rápida.

O bolsonarismo não criou o vazio que ocupa; encontrou-o. Milhões de pessoas vivem do próprio trabalho sem sindicato, sem carteira assinada e sem partido que as reconheça, e foi nesse espaço que as redes de lideranças personalistas se instalaram. Isso é sua força eleitoral e sua fraqueza política. 

A resposta não passa por desqualificar a identidade que esse trabalhador construiu ou tentar trazê-lo para uma liturgia trabalhista do século XX, mas por oferecer o que ela não dá: organização própria, direitos que alcancem quem trabalha por conta própria, proteção contra o risco e representação que não dependa de um sobrenome. Enquanto isso não existir, a disputa seguirá sendo entre nomes, e quem não tem organização para oferecer continuará perdendo para quem tem, pelo menos, um sobrenome.

Guardo comigo uma frase que ouvi de uma jovem família de pequenos empreendedores: “Para trabalhar 6×1 para os outros, é melhor trabalhar 7×0 para mim”. A frase expressa uma força desejante: a de construir um projeto próprio de vida, que não cabe no trabalho explorado por outro. Esse desejo tem raiz material. Nasce da experiência concreta da exploração, da escala que consome o tempo de vida em troca de salário, e é isso que a esquerda precisa levar a sério antes de qualquer liturgia. Mas o 7×0 não suprime a exploração. O patrão deixa de ser visível e o trabalhador passa a vender a si mesmo, sem férias, sem previdência, sem proteção contra o risco, extraindo de si o próprio excedente com a saúde. A tarefa da esquerda que quer enfrentar o bolsonarismo e esta nova colonização latino americana é dar a esse trabalhador a autonomia que ele busca e instrumentalizar direitos e organização coletiva, em vez de abandoná-lo à autoexploração e a lideranças que fazem dele base eleitoral.

foto original de https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/familia-bolsonaro-elege-michelle-carlos-jair-renan-e-irmao-de-jair-em-sc-sp-e-df.shtml

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Industrializar o Brasil real

Governo, território e incertezas na política brasileira

A organização por missões tenta coordenar diferentes áreas do Estado em torno de objetivos comuns. O problema aparece na implementação. Entre a decisão de produzir e sua realização, entram instrumentos econômicos, regulatórios e administrativos distribuídos entre instituições e temporalidades distintas, que operam com elevada autonomia e baixa articulação entre si. Não é preciso que haja contradição entre elas para que a política encontre dificuldade; basta que precisem convergir sobre um mesmo objetivo.

Na retomada da política industrial dos anos 2000, a reconstrução de instrumentos veio acompanhada por problemas persistentes de comando e coordenação. Suzigan e Furtado (2006) já situavam a articulação entre agentes e instrumentos como condição da política industrial. Ao analisar PITCE, PDP e PBM entre 2004 e 2014, Abdal (2019) identifica uma governança excessivamente descentralizada, sem uma autoridade suficientemente forte para coordenar o conjunto, produzindo o que chama de “cacofonia decisória”. Queiroz-Stein e Gugliano (2022) mostram ainda que as capacidades de articulação construídas entre 2003 e 2007 se enfraqueceram progressivamente entre 2007 e 2014, acompanhadas pela perda de foco estratégico da política. Em uma análise do período 2007-2020, Giesteira, Caliari e Orsolin-Teixeira (2024) voltam a encontrar pouca coordenação entre os instrumentos utilizados.

Essa capacidade de coordenação não se resume ao momento pós constituinte de 85. A partir dos anos 1930, a industrialização brasileira avançou junto com a construção de instituições econômicas e de uma presença mais ativa do Estado, processo que ganhou maior articulação no Plano de Metas e, depois, no II PND. Entre 1932 e 1980, a economia brasileira cresceu em média 6,8% ao ano, apoiada numa transformação produtiva em que crédito, proteção, investimento público e infraestrutura participaram de uma mesma estratégia de industrialização (SUZIGAN, 1996; SUZIGAN; FURTADO, 2006). A crise da dívida dos anos 1980 interrompeu esse ciclo e atingiu também as instituições e coalizões que sustentavam o Estado desenvolvimentista; nos anos 1990, abertura comercial e financeira, privatizações e desregulamentação deslocaram parte importante da coordenação econômica do Estado para o mercado (DINIZ, 1991; JAYME JR.; RESENDE, 2009; CANO, 2017). Quando a política industrial retorna de forma mais explícita nos anos 2000, encontra, portanto, um Estado que preservava muitos de seus instrumentos, mas já não possuía a mesma capacidade de articulá-los em torno de uma estratégia comum. O problema, portanto, não parece estar apenas em formular políticas, mas em construir capacidade institucional para fazê-las operar como estratégia.

O Plano Mais Produção reúne instituições públicas de fomento, enquanto programas como o Mover e o Brasil Semicondutores combinam crédito, regulação, pesquisa e produção em cadeias estratégicas. A literatura recente lê esse arranjo como tentativa de construir uma política industrial mais sistêmica e articulada (PEREIRA; GIOVANINI; CARIO, 2026).

Essa estratégia também começa a produzir uma geografia própria. No Nordeste, novas chamadas de investimento articulam indústria, energia e infraestrutura; no Centro-Oeste, crédito e logística se aproximam de cadeias agroindustriais e de biocombustíveis; na Amazônia, bioeconomia e base produtiva regional ganham maior centralidade; Sul e Sudeste seguem ancorados em cadeias industriais mais consolidadas, agora atravessadas por digitalização, transição energética e novas tecnologias. A questão regional aparece, assim, como tentativa de conectar capacidades produtivas distintas dentro de uma mesma estratégia nacional onde a industrialização tem um papel motriz de desenvolvimento nacional a partir do desenvolvimento local.

Há um acerto político em não tratar a reindustrialização como simples recomposição do antigo eixo de concentração produtiva do Sudeste. A desconcentração iniciada nos anos 1970 alterou parcialmente essa geografia, embora sem romper sua estrutura: em 2015, cerca de dois terços do emprego e do valor adicionado das principais aglomerações industriais ainda estavam no Sul e Sudeste, enquanto as atividades de maior intensidade tecnológica permaneciam especialmente concentradas nessas regiões (MONTEIRO NETO; SILVA; SEVERIAN, 2020; ABDAL, 2017). A atual política industrial parte, portanto, de uma geografia profundamente desigual. Seu acerto está em tratar essa desigualdade como parte do problema a enfrentar. Porém, reconhecer a desigualdade territorial é uma coisa; fazer instrumentos nacionais, governos subnacionais e instituições autônomas convergirem sobre esses territórios é outra.

O território, como nos lembra Milton Santos, não é uma superfície homogênea, mas uma construção atravessada por técnicas, instituições, fluxos e desigualdades. A política industrial precisa, portanto, operar sobre capacidades muito distintas entre regiões e níveis do Estado. O desafio não é apenas distribuir investimentos, mas produzir coordenação em um território já desigual e institucionalmente fragmentado.

Esse Brasil se expressa no modo como o próprio Estado se organiza. Nunes (1997) identifica, na estrutura burocrática brasileira, a convivência entre formas universalistas e mediações particularistas, revelando as lógicas distintas de funcionamento das institucionalidades. Essa heterogeneidade não é apenas conjuntural administrativa, mas parte estrutural de uma formação social em que modernização capitalista, dependência e estruturas conservadoras de poder avançam de forma combinada (Fernandes, F. 1975). A dificuldade de coordenação, portanto, também nasce desse Brasil mais profundo que o aparato estatal carrega consigo.

A reconstrução ocorre em uma conjuntura internacional mais adversa, marcada por gastos militares recordes e maior interferência geopolítica nos fluxos de investimento (SIPRI, 2026; UNCTAD, 2026). Guerras, rearmamento e disputa por setores estratégicos passam, assim, a reorganizar a circulação de capital, tecnologia e comércio. Sustentar uma política industrial nesse ambiente será também um desafio para o próximo governo eleito.]

Se a instabilidade é parte das condições em que a política industrial, assim como as demais políticas brasileiras, precisam operar, a incerteza não pode aparecer apenas como desvio ou risco externo ao planejamento. Ela precisa ser incorporada como condição da própria estratégia. Isso exige menos confiança na permanência de um percurso previamente definido e maior capacidade de articulação entre instituições, territórios e instrumentos ao longo do tempo.

É nesse sentido que proponho distinguir um programa-caminho de um programa-rede. O primeiro organiza a política a partir de uma trajetória esperada; o segundo admite que essa trajetória pode mudar e procura preservar capacidade de coordenação diante dessas mudanças. Num país marcado por desigualdades territoriais, fragmentação institucional e descontinuidades políticas, a articulação deixa de ser apenas requisito de implementação e passa a constituir uma potência da própria política industrial.

Um programa-rede parte da premissa de que instituições, territórios e instrumentos são interdependentes, mas não respondem de forma linear, homogênea ou necessariamente consensual. Por isso, organiza objetivos comuns, pontos de articulação e margens de adaptação capazes de absorver mudanças sem interromper a estratégia. Sua função não é eliminar conflitos ou controlar todas as variáveis, mas manter coordenação suficiente para que o conjunto continue operando diante da incerteza. Nesse arranjo, compreender e operar os fluxos torna-se mais importante do que concentrar a estratégia na definição de nós ou centros fixos, porque a capacidade do sistema depende menos da estabilidade de cada parte do que das relações que conseguem permanecer ativas entre elas. Lembro-me de Capra (1996), “em sistemas não lineares, pequenas mudanças podem ter efeitos dramáticos”. Em uma política organizada como rede, isso significa reconhecer que alterações localizadas podem repercutir sobre relações muito mais amplas. Saber acompanhar os fluxos e suas mudanças passa, então, a ser mais importante do que concentrar a estratégia apenas na definição de nós ou centros estáveis.

O próximo governo não partirá do zero. A Nova Indústria Brasil, o Novo PAC, o Plano Mais Produção e o Plano de Transformação Ecológica já desenham uma tentativa de aproximar política produtiva, infraestrutura, financiamento e transição ambiental dentro de uma mesma estratégia de desenvolvimento. O PAC territorializa investimentos e articula União, estados e municípios; o financiamento público procura dar continuidade às missões industriais; e a transformação ecológica incorpora instrumentos fiscais, regulatórios e financeiros à mudança da base produtiva. O desafio seguinte é aprofundar a convergência e o pensamento em rede para que a política  deixe de depender apenas da coexistência entre programas e se transforme em capacidade permanente de coordenação diante das distintas e múltiplas interfaces do Brasil institucional e do Brasil real.

O próximo ciclo exigirá, portanto, mais do que continuidade administrativa. Será preciso combinar capacidade de coordenação interna com inserção internacional, ampliar alianças sem reduzir a política à homogeneidade e preservar a equidade social como critério fundamental de desenvolvimento nacional. Isso supõe um governo capaz de operar sobre diferenças territoriais, institucionais e políticas construindo convergências suficientes para sustentar decisões comuns. Num país como o Brasil, fazer política é produzir capacidade de governo diante do dissenso, da desigualdade e da incerteza.

Principais referências

FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

NUNES, Edson de Oliveira. A gramática política do Brasil: clientelismo e insulamento burocrático. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; Brasília: ENAP, 1997.

SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001.

SUZIGAN, Wilson; FURTADO, João. Política industrial e desenvolvimento. Revista de Economia Política, v. 26, n. 2, p. 163-185, 2006. DOI: 10.1590/S0101-31572006000200001.

STUMM, Michelli Gonçalves; NUNES, Wellington; PERISSINOTTO, Renato. Ideias, instituições e coalizões: as razões do fracasso da política industrial lulista. Revista de Economia Política, v. 39, n. 4, p. 736-754, 2019. DOI: 10.1590/0101-31572019-2978.

QUEIROZ-STEIN, Guilherme de; GUGLIANO, Alfredo Alejandro. Capacidades político-relacionais governamentais e perfil da política industrial: experiência brasileira no início do século XXI. Economia e Sociedade, v. 31, n. 3, p. 579-600, 2022.

MONTEIRO NETO, Aristides; SILVA, Raphael de Oliveira; SEVERIAN, Danilo. Região e indústria no Brasil: ainda a continuidade da “desconcentração concentrada”? Economia e Sociedade, v. 29, n. 2, p. 581-607, 2020. DOI: 10.1590/1982-3533.2020v29n2art09.

CAPRA, Fritjof. The Web of Life: A New Scientific Understanding of Living Systems. New York: Anchor Books, 1996.

STOCKHOLM INTERNATIONAL PEACE RESEARCH INSTITUTE – SIPRI. Trends in World Military Expenditure, 2025. Stockholm: SIPRI, 2026.

UNITED NATIONS CONFERENCE ON TRADE AND DEVELOPMENT – UNCTAD. World Investment Report 2026: International Investment in a Turbulent Era. Geneva: UNCTAD, 2026.

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Arquitetura e Urbanismo, artigo, economia, pensamento, territórios, trabalho

Indústria Território, um breve devaneio por um conceito.

Há um problema material na discussão sobre reindustrialização da América Latina. Desejamos politicamente ampliar novamente nossa capacidade produtiva, mas fazemos isso em países que ainda precisam construir parte importante da infraestrutura necessária para uma indústria contemporânea funcionar.

Esta não é uma questão nova para países pobres e historicamente colonizados, mas ganha outra dimensão quando os ciclos tecnológicos passam a ser muito mais acelerados que os ciclos de construção da infraestrutura. Uma indústria pode mudar algumas vezes enquanto a rede que a abastece continua no mesmo lugar.

Durante muito tempo organizamos parques industriais a partir de uma gramática relativamente reconhecível, baseada na implantação das unidades e na infraestrutura que organiza o conjunto. Grandes sites industriais, porém, foram adquirindo outra complexidade. Uma infraestrutura atende mais de uma unidade, redes atravessam o conjunto, áreas livres passam a ter valor justamente porque permanecem livres. O que ainda será construído começa a depender bastante do que decidimos tornar permanente agora.

Se antes pensávamos em territórios fabris, hoje podemos (perdão soar pretensioso o axioma) pensar em indústrias territórios. A literatura sobre ciclos de vida industriais mostra que edifícios, instalações e equipamentos se transformam em ritmos diferentes, produzindo sobreposições que o planejamento precisa absorver (DÉR et al., 2021).

Ao pensarmos o site industrial como território, deslocamos o Masterplan de um projeto definido de implantação das unidades para um projeto de relações entre sistemas com funções e tempos distintos. Infraestruturas, áreas livres e estruturas compartilhadas passam a participar da organização do conjunto.

A cidade oferece uma imagem interessante para esse deslocamento. A indústria já participou da formação de vilas operárias, núcleos fabris e cidades organizadas em torno da produção. Em certos complexos contemporâneos, essa relação pode ser invertida: o pensamento territorial passa a organizar o próprio site industrial.

As utopias do Archigram tocaram essa questão por outro caminho. Na Plug-In City, uma estrutura de maior permanência recebia partes com outros tempos de duração e substituição, imaginando uma cidade aberta à transformação. Aquilo que nos anos 1960 aparecia como formulação radical encontra hoje uma condição mais concreta em grandes sites industriais, onde estruturas duradouras convivem com ciclos produtivos cada vez mais curtos. 

Algumas experiências asiáticas ajudam a enxergar essa mudança por outro ângulo. Em Jurong Island, Singapura, o que chama atenção não é propriamente a presença de grandes indústrias, mas aquilo que existe entre elas. Corredores de serviço, redes de tubulações, logística e utilidades compartilhadas formam uma estrutura que antecede e ultrapassa cada unidade. As empresas continuam distintas, mas parte de sua capacidade produtiva passa a depender de um chão comum, de uma infraestrutura preparada para estabelecer relações. A própria JTC descreve Jurong como um ecossistema industrial simbiótico. 

Na China, essa relação aparece de forma menos acabada e talvez por isso ainda mais interessante. O estudo sobre o Yueyang Green Chemical Industry Park parte justamente da dificuldade de separar o planejamento industrial da organização espacial. Cadeias produtivas, infraestrutura e reservas de crescimento começam a ser pensadas juntas, como partes de uma estrutura que precisa continuar se reorganizando à medida que o parque se transforma (WANG et al., 2022). 

A noção de simbiose industrial ajuda a nomear parte do que aparece nessas experiências. Chertow utiliza o termo para relações materiais entre atividades distintas, envolvendo fluxos de energia, água, materiais e subprodutos, cuja viabilidade depende também de proximidade e possibilidade de conexão. Um levantamento recente de 71 parques ecoindustriais identificou 999 fluxos simbióticos e mostrou como essas relações tendem a se organizar em torno de setores capazes de estruturar outras conexões no parque (CHERTOW, 2007; LIPPI; EVOLA; VESCE, 2025). Interessa aqui justamente essa passagem: quando a infraestrutura comum começa a permitir relações entre unidades, ela deixa de responder apenas às necessidades particulares de cada fábrica e passa a participar da própria estrutura do site industrial. 

Jurong e Yueyang são experiências muito distintas, mas retornam à mesma questão que apareceu antes: em determinado momento, a infraestrutura deixa de ser apenas aquilo que atende uma fábrica e começa a organizar as possibilidades do conjunto. O site passa a carregar relações que não pertencem inteiramente a nenhuma de suas unidades.

A partir daí, o tempo deixa de aparecer apenas como cronograma de planejamento ou faseamento e passa a integrar a própria decisão de projeto. Se os sistemas que compõem o site possuem durações distintas, cada escolha espacial também carrega uma expectativa de permanência. Uma rede principal, difícil de deslocar, produz consequências diferentes de uma configuração produtiva pensada para ser substituída alguns anos depois.

Doreen Massey ajuda a dar espessura a essa questão ao pensar o espaço como coexistência de trajetórias, e não como uma superfície estática. No site industrial, essas trajetórias podem estar fisicamente próximas e, ainda assim, pertencer a tempos muito diferentes. O projeto passa a lidar não apenas com onde cada coisa está, mas com quanto tempo ela tende a permanecer e com aquilo que continuará condicionando enquanto permanecer (MASSEY, 2004). 

Isso nos permite organizar e projetar graus de permanência. Algumas estruturas precisam atravessar mais de um ciclo produtivo; outras precisam conservar capacidade de alteração. Até uma área ainda vazia pode ter uma função no projeto, quando sua indeterminação preserva possibilidades futuras que ainda não amadureceram.

O Masterplan ganha outra função quando o site é pensado nessa condição. Se os diferentes sistemas possuem ciclos próprios e o planejamento industrial precisa lidar com infraestrutura, produção e organização espacial de forma articulada, como aparece tanto nos estudos sobre ciclos de vida industriais quanto no caso de Yueyang, o plano deixa de representar apenas uma configuração futura do conjunto (DÉR et al., 2021; WANG et al., 2022). Passa a organizar relações que continuarão sendo alteradas ao longo do tempo.

Isso exige também distinguir o grau de definição das decisões. Premissas consolidadas, condicionantes técnicos, hipóteses de planejamento e questões ainda abertas não possuem o mesmo peso sobre o território. O Masterplan pode registrar essas diferenças sem transformá-las antecipadamente em forma permanente. Nesse aspecto, aproxima-se, guardadas as devidas proporções, da lógica de um plano diretor: organizar uma estrutura comum enquanto parte de suas ocupações e relações continua necessariamente abertas a constante transformação.

Considerações finais

Voltemos então para a América Latina. Em países onde os ciclos de investimento são mais lentos, descontínuos e dependentes de recursos escassos, coexistindo fragilidades institucionais, ambientais e incertezas econômicas, as decisões físicas tendem a permanecer por muito tempo. Uma infraestrutura mal posicionada, uma ocupação antecipada ou uma reserva perdida podem atravessar diferentes ciclos produtivos antes que exista oportunidade de corrigir aquilo que foi implantado.

Pensar o site industrial como território pode ser particularmente útil nesse contexto. A estrutura precisa conseguir receber investimentos realizados em tempos diferentes, incorporar novas unidades e tecnologias e preservar possibilidades que ainda não amadureceram. O planejamento deixa de depender de uma sucessão contínua de grandes reinvestimentos e passa a considerar com mais cuidado aquilo que precisa ser estruturante para permitir novas transformações.

Talvez essa seja uma contribuição possível para pensar a reindustrialização latino-americana desde o projeto arquitetônico. Em territórios onde infraestrutura, investimento e implantação avançam lentamente, organizar permanências, reservas, relações e incertezas pode ajudar a fazer com que decisões tomadas em momentos diferentes consigam continuar pertencendo a um mesmo projeto industrial. Pensar o Masterplan como estrutura territorial, passa a trabalhar justamente com esse tempo mais longo e irregular.

Talvez seja possível assumir o labirinto borgiano como modo de pensamento, e não como equívoco: um território onde diferentes tempos, decisões e caminhos coexistem sem a promessa de uma trajetória única. Pensar assim pode ajudar a construir outras saídas para a reindustrialização latino-americana e caribenha, menos dependentes da ideia de um desenvolvimento linear e mais capazes de operar sobre as condições que efetivamente temos.

plug in city – Archigram

Referências

CHERTOW, Marian R. “Uncovering” industrial symbiosis. Journal of Industrial Ecology, v. 11, n. 1, p. 11-30, 2007. DOI: 10.1162/jiec.2007.1110.

COOK, Peter. Plug-In City, project (Axonometric). 1964. New York: The Museum of Modern Art.

DÉR, Antal; HINGST, Lennart; KARL, Alexander; NYHUIS, Peter; HERRMANN, Christoph. Factory life cycle evaluation through integrated analysis of factory elements. Procedia CIRP, v. 98, p. 418-423, 2021. DOI: 10.1016/j.procir.2021.01.127.

JTC. How Jurong Island’s integrated ecosystem drives its sustainable transformation. Singapore, 20 jan. 2026.

LIPPI, Giulia; EVOLA, Rosalia Stella; VESCE, Enrica. Industrial symbiosis patterns in eco-industrial parks: a sectoral analysis based on global empirical data. Journal of Cleaner Production, v. 529, art. 146807, 2025. DOI: 10.1016/j.jclepro.2025.146807.

MASSEY, Doreen. The political challenge of relational space: introduction to the Vega Symposium. Geografiska Annaler: Series B, Human Geography, v. 86, n. 1, p. 3, 2004. DOI: 10.1111/j.0435-3684.2004.00149.

WANG, Min; YUAN, Xiaohan; YANG, Shuqi; ABUDU, Kahaer; QIN, Kongtao. Research on spatial planning of petrochemical industrial parks from the perspective of symbiosis: example of Yueyang Green Chemical Industry Park. Sustainability, v. 14, n. 8, art. 4580, 2022. DOI: 10.3390/su14084580.

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Uma breve reflexão a partir do terremoto na Colômbia

A resposta do Estado colombiano ao terremoto dos últimos dias expõe uma questão política que ultrapassa a emergência imediata: que tipo de soberania e de capacidade estatal precisamos construir em um mundo atravessado por crises cada vez mais complexas, interdependentes e territorialmente desiguais.

O governo colombiano mobilizou estruturas nacionais de emergência, equipes de busca e salvamento, forças de segurança e mecanismos extraordinários de resposta. Ao mesmo tempo, produziu uma contradição importante. A resistência inicial à incorporação de equipes internacionais especializadas revelou uma concepção de gestão fortemente centralizada, orientada pela demonstração de autossuficiência e de controle nacional da resposta. Em um momento no qual cada hora pode significar vidas, retardar cooperação técnica externa é uma decisão política que precisa ser examinada para além da retórica ideológico-patriótica.

Soberania e capacidade de comando, diante de catástrofes de grande escala, exigem também humildade institucional, articulação e mobilização. Reconhecer rapidamente os próprios limites também é capacidade de Estado. Um governo forte amplia suas possibilidades de ação ao incorporar recursos externos dentro de uma estratégia própria, coordenando governos locais, universidades, forças de emergência, sociedade civil, organismos multilaterais e cooperação internacional sem perder direção política e sem se infantilizar diante do marketing ideológico que sustenta imagens de governo.

A distribuição territorial da resposta também importa. Quando o centro concentra decisões e determinados territórios permanecem dependentes de recursos improvisados ou capacidades locais frágeis, a centralização revela seus limites. Capacidade estatal se mede pela capilaridade concreta da ação.

É também nesse ponto que as bandeiras do marketing eleitoral começam a perder força. A mobilização da pátria, da bandeira e da unidade no campo do abstracionismo eleitoreiro pode produzir coesão social, levar candidatos ao poder, mas catástrofes não deveriam se transformar em palco de marketing ideológico. A pandemia já demonstrou isso no Brasil. Há momentos em que o discurso político precisa baixar o volume para que apareçam a técnica, a ciência, a logística, a engenharia, a saúde pública e a organização social e material dos territórios.

O terremoto colombiano possui origem geológica, mas ocorre em um mundo no qual crises ambientais, climáticas, sanitárias, energéticas e infraestruturais se tornam interdependentes. A crise climática é global em sua dinâmica e profundamente territorial e desigual em seus efeitos. Amplia eventos extremos, deslocamentos populacionais, pressões sobre sistemas urbanos e interrupções de cadeias logísticas. Já estamos neste mundo. Isso exige construções político-intelectuais menos inflamadas pelos recortes de comunicação e mais comprometidas com projetos de curto, médio e longo prazo.

No curto prazo, entram protocolos de emergência, cadeias de comando, equipamentos, informação e cooperação internacional. No médio prazo, sistemas de defesa civil, formação técnica, logística, infraestrutura, redes hospitalares, mapeamento de riscos e fortalecimento das capacidades municipais. No longo prazo, planejamento territorial, adaptação climática, autonomia tecnológica, política industrial, produção científica e integração regional.

Essas escalas precisam conversar. E para isso é preciso organizar uma mesa ampliada, mas minimamente objetiva: entender quem produz informação, quem decide, quem executa, quem possui capilaridade territorial, quem controla recursos e onde estão as capacidades que faltam. Municípios, universidades, governos nacionais, organizações sociais, setor produtivo e organismos internacionais não cumprem o mesmo papel, nem precisam cumprir. A articulação também não elimina os conflitos entre esses atores, seria ingênuo imaginar isso. Ela constrói convergências possíveis dentro dos dissensos. Não é uma mesa simples. Mas é uma mesa que precisa existir. Um projeto de nação exige essa capilaridade, capacidade de se articular, produzir continuidade e construir convergências.

É aí que a distinção entre nacionalismo abstrato propagandístico e projeto de nação ganha potência. O nacionalismo opera com símbolos de adesão imediata e simplificação dos conflitos; tudo pode acabar reduzido a soluções mágicas, uma cloroquina para se curar da dor. Problemas complexos pedem justamente o contrário da solução mágica: identificar escalas, reconhecer capacidades, distribuir responsabilidades e saber coordenar redes de conflitos.

A cooperação internacional também pode ser pensada como política permanente de soberania. Países podem construir acordos de reciprocidade, protocolos regionais de emergência, bancos compartilhados de equipamentos, redes científicas e equipes especializadas mobilizáveis entre fronteiras. Para a América Latina, essa poderia ser uma agenda concreta de integração, menos dependente de grandes declarações diplomáticas e mais vinculada à construção cotidiana de pautas comuns.

A Amazônia ajuda a compreender essa necessidade sem relativizar soberanias nacionais. O bioma, suas bacias hidrográficas, fluxos atmosféricos e sistemas ecológicos atravessam diferentes países, enquanto cada território permanece sob a soberania de seu respectivo Estado. Cooperar sobre fenômenos transfronteiriços não significa internacionalizar a gestão territorial. Significa reconhecer que a geografia não se encerra onde termina uma fronteira político-administrativa e que Estados fortes também precisam saber cooperar para proteger seus próprios povos e territórios.

Uma boa solução técnica ganha força quando encontra arquitetura política para sustentá-la. Articular significa reconhecer interesses, potencialidades, conflitos e construir convergências suficientes para transformar conhecimento em decisão. A política não substitui a técnica, e a técnica não governa sozinha. O difícil, e talvez o mais interessante, é construir as condições políticas para que boas soluções efetivamente aconteçam.

A soberania do século XXI será, a meu ver,  cada vez mais medida por essa capacidade relacional e territorial: organizar recursos próprios, reconhecer limites, acionar parceiros sem subordinação e transformar a cooperação e troca de saberes em aumento de potência política, técnica e territorial. Talvez seja justamente no intervalo entre a emergência e o horizonte imponderável que teremos de aprender a conceber projetos de nação capazes de transformar crises em aprendizado institucional, articular sociedade e conhecimento e produzir respostas à altura da complexidade do mundo que já chegou.

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O Congresso contra o Povo

O conservadorismo acolheu e organizou os mais pobres. Isso precisa ser sempre lembrado com alguma honestidade. Ele ocupou vazios, criou pertencimento, deu escuta e destino para gente que muitas vezes encontrou na esquerda apenas contradições e uma espécie de superioridade moral desgastada. Até aí não há tanta novidade. Desde pelo menos 2014, o país vive esse deslocamento, e fingir que ele não existe apenas aprofunda o nosso erro.

O ponto novo, porém, é que esse conservadorismo deixou de ser apenas sentimento social e passou a operar como poder. Quando toca o Congresso, quando define quais pautas avançam, quais travam, quais vidas merecem acesso ao orçamento público e quais podem seguir no improviso e na fome, ele revela o Brasil que deseja construir. E esse Brasil, muitas vezes, é duro com quem já não aguenta mais.

Se a esquerda tem o presidente, o conservadorismo tem o congresso e opera com ele para ter espaço de poder e gestão. Não amigos, não vivemos um governo de esquerda, mas sim o governo que sempre vivemos, esse parlamentarismo presidencialista esquisito onde as forças precisam manter sempre um grau de negociação para se manter no poder.

Em qualquer periferia de cidade grande e em muitos recantos de cidades médias e pequenas, existe um País à parte, onde a fome ainda organiza o cotidiano. Lugares onde viver com menos de um salário mínimo é regra, e ganhar um salário mínimo já parece vitória. Nesses territórios, o Bolsa Família não pode ser tratado como abstração eleitoral e cabresto, ele se torna a única estrutura real de sobrevivência. Organiza a compra da vida, a comida da criança, o remédio, o que dá pra organizar e ainda falta. E infelizmente, seguirá organizando a vida enquanto o Brasil não tiver um sistema produtivo capaz de absorver sua própria força de trabalho com dignidade e mínimo direito à mobilidade social.

A escala 6×1, que no fundo funciona como um 7×0 disfarçado, soma-se à miséria salarial, ao transporte exaustivo, ao aluguel impossível enquanto crescem alphavilles e studios e à ausência de horizonte palpável. O resultado é uma massa gigantesca de vulnerabilidade e sem esperança. Gente que trabalha muito, ganha pouco, descansa mal, adoece cedo e quase nunca consegue transformar esforço em prazer de vida. O país cobra disciplina de quem vive no limite, mas oferece muito pouco além da sobrevivência, na verdade nem a sobrevivência o País oferece.

Esse é o ciclo vicioso profundo. Não se levanta uma Nação condenando sua população a correr em círculo até morrer. Um trabalhador exausto não empreende sua liberdade. Uma mãe que passa três horas por dia no transporte não consegue “qualificar-se” por milagre. Um jovem que entra cedo demais no trabalho precário perde escola. O Brasil fala em produtividade, mas organiza a vida popular para desperdiçar inteligência humana. Maio é um mês significativo para os trabalhadores de um País cuja cultura foi forjada no escravagismo. 

A saída, a meu ver, passa por muitas lutas, porém quero deixar escrito alguns recortes. Um deles, ela exige tratar política social como infraestrutura de sustento da Nação. O SUS, apesar de todos os problemas, mostra uma coisa fundamental: quando o Estado chega de forma capilarizada, em rede, ocupando território, fomentando formação profissional, e garantindo continuidade política, ele muda a vida concreta. O mesmo princípio precisa orientar outras partes da estrutura social: renda, trabalho, cuidado, educação técnica, mobilidade e produção. Não basta distribuir benefício via política pública e deixar o restante da vida entregue ao mercado ruim, ao ônibus caro, ao aluguel predatório e ao subemprego moedor de gente. É preciso construir uma rede pública de política de sustentação da vida, integrada no território, capaz de enxergar família, bairro, escola, posto de saúde, transporte, cultura e emprego como partes do mesmo problema.

Isso passa por uma política nacional de trabalho honesta e decente, incapaz de se formar neste congresso de legisladores de causa própria, defensores de coisas espúrias. Como pensar política com estes seres abjetos incapazes de enxergar o país além da própria fazenda? O que dizer com palavras bonitas e sinceras? 

Há nesse Congresso uma venalidade profunda, uma mistura de pusilanimidade ética e arrogância oligárquica, gente que se ajoelha diante dos donos da terra (quando não são os próprios donos), da bala e do dinheiro e se vende barato para doleiros e cafetões de luxo, mas endurece a voz contra quem vive de salário, de benefício, do bico e com dívida. São capatazes legislativos de um país velho, cortesãos do atraso, defensores de pactos iníquos e projetos predatórios, enquanto chamam de responsabilidade aquilo que, no fundo, é apenas crueldade organizada. Essa é a gente que vai caminhar pelas ruas do seu bairro fingindo que gostam de comer pastel com caldo de cana. A cara de nojo que fazem quando mordem um pastel, não é pelo pastel, é pelo nojo que sentem ao estarem perto demais da gente. 

Tem pavor de pautas como: Redução progressiva da jornada, valorização real do salário mínimo, expansão da educação profissional ligada às cadeias produtivas locais, crédito orientado para pequenos produtores. Esse governo se torna tão ignorante que sequer enxerga que estas são pautas de caráter liberal.  Mas ainda cito mais possibilidades para construir: cooperativas, economia do cuidado, indústria verde, construção civil pública, saneamento, reabilitação de moradias e infraestrutura urbana nas periferias. 

O país precisa enfrentar essas criaturas sem receio. Criar um projeto que nos possibilite fortalecer a produção de vida, gerar trabalho e descanso para as pessoas reais, e não apenas empurrar corpos pobres para a vala da história, como empurraram para o Oceano de Sangue, Kalunga Grande (aprendi esse termo lendo o artigo da Vivian Carla Garcia Ferreira aqui).

Aqui também, a técnica pública institucional não pode ser resumida à burocracia de gabinete que atende a esses poderes de forma acrítica. Ela precisa medir tempo de deslocamento, renda disponível, acesso a creche, saúde mental, custo da alimentação, informalidade, produtividade territorial e capacidade real de permanência das famílias em seus bairros.

Um projeto sério para o Brasil começará quando a vida popular deixar de ser tratada como resíduo. O pobre precisa de tempo, renda, cidade, descanso, formação, crédito, saúde, cultura e poder sobre o seu próprio território. Enquanto isso não acontecer, seguiremos discutindo moralidade no alto, enquanto embaixo o país real tenta decidir se compra comida, paga passagem ou continua entregue a qualquer destino.

A boa política é aquela que transforma sobrevivência em caminho real de futuro. Esta política a meu ver, deve transpassar esse congresso e se possível desferir o máximo de danos a parte desta máquina público-privada usada a benefício próprio dessa gente estranha que ocupa as câmaras de poder.

Autoria própria
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filosofia de vida, política, trabalho

Quem é o conservadorismo que me lê?

Notei, com o tempo, que tenho amigos e leitores conservadores que gostam do que escrevo. Fico feliz por isso. Entendo como sinal de que ainda consigo me comunicar com as pessoas, embora eu mesmo tenha dificuldade de fazer isso na fala. Creio que há aí um gesto importante: se não sou capaz de me comunicar com quem pensa diferente de mim, então talvez eu não seja capaz de me comunicar de verdade. 

Mas quem seria esse brasileiro específico? Tenho algumas percepções sobre isso, e quero dar aqui uma pequena pincelada.

O brasileiro não é conservador por folclore, por essência moral, muito menos por algum desajuste cognitivo ou intelectual. Pensar assim é partir da arrogância para construir uma caricatura. Creio que o tempo o empurrou para isso pelo medo e pela sobrevivência. Medo de cair mais um degrau, medo de perder o pouco que tem, medo de ver o filho capturado pelo crime, medo de não conseguir pagar o gás, medo de adoecer e não ter atendimento, medo de envelhecer sem proteção.

O Brasil das últimas décadas produziu consumo, desejo rápido de ascensão e vitrines digitais de vencedores, mas não ofereceu a mesma firmeza em trabalho, tempo e horizonte de vida. Ao mesmo tempo em que prometia autonomia, foi desmontando proteções do trabalho. Naturalizou vínculos frágeis, pejotização, intermitência e plataformização. A precarização não caiu do céu, ela foi construída como projeto de poder. E qualquer olhar honesto para o mundo do trabalho hoje percebe o estrago que a reforma trabalhista de 2017 aprofundou, especialmente entre os mais jovens.

A ideia do sujeito como “CEO de si mesmo” não é só delírio neoliberal importado de palestra motivacional. Muitas vezes, ela funciona como remédio paliativo de existência. Quando o mundo do trabalho retira garantias, o imaginário tenta devolver alguma dignidade. O homem que sai cedo de casa, pega condução, vende bolo, roda de aplicativo, faz bico, sonha abrir um negócio, assiste vídeo de empreendedorismo entre uma correria e outra, não está necessariamente imitando o rico nem sonhando em virar milionário. Muitas vezes, está apenas tentando não desabar de vez. É uma forma de dizer a si mesmo que ainda conduz alguma coisa, mesmo quando quase tudo ao redor diz o contrário. Por que enfrentar um 6×1 para um patrão por um salário mínimo, se eu posso tentar encarar um 7×0 para mim mesmo? Por que entrar cedo numa CLT, se mal acredito que um dia vou me aposentar?

O problema é que esse imaginário, quando capturado, ilude. Troca os direitos pela performance, descanso pela culpa e senso de comunidade por competição aflorada. O trabalhador deixa de se entender como parte de um corpo social e passa a ser tratado como pequena empresa em guerra contra a exaustão. E isso piora num país de trabalho fortemente informal e desregrado. 

É nesse ponto que a extrema-direita entra com inteligência afetiva. Ela percebe uma coisa que parte do campo progressista seja a esquerda ou mais liberal esqueceu: ninguém vive só de argumento cientificamente correto. As pessoas querem ser vistas, ouvidas, nomeadas, acolhidas em sua dor e em sua luta. Querem sentir que alguém as escuta sem rir de sua fé, de sua vergonha, de seu desejo de subir na vida, de seu apego à família e de sua necessidade de alguma ordem no cotidiano.

O ultra-conservadorismo cresce porque oferece espaço de escuta e fala para esse sofrimento. Não oferece país, nem transformação de verdade, mas oferece disciplina, pertencimento, inimigo comum e explicação simples, independente da ciência. Em vez de enfrentar a precarização da vida, organiza o desamparo como linguagem moral, mas o principal: organiza o acolhimento. Acalme-se, algum dia sua bênção virá, estamos entre irmãos.

Porém, ele também cresce e muito, na incapacidade das forças progressistas retomarem pautas comuns e pétreas de bem estar do povo, por medo de conflitar com suas pautas de poder pelo poder, cargo pelo cargo. Se tornando uma força de molde moral para controlar os que estão sob seu  cercado.

Talvez o erro mais sério de muita gente progressista atual tenha sido olhar esse Brasil apenas como objeto de pedagogia, estudo e pesquisa, e não como sujeito portador de inteligência. Houve análise demais e escuta de menos. Houve articulação demais e imaginação de menos. Como se bastasse anunciar indicadores, políticas públicas e boa intenção para que um povo exausto voltasse a acreditar na vida coletiva. Oferecemos política sem reconstruir vínculo, pertencimento e horizonte.

Porém, o povo também quer viver o sensível. Quer sentir que a vida pode ter algum brilho para além da conta paga em atraso. O conservadorismo entendeu isso antes: ocupou o campo do desejo, mesmo que com uma promessa estreita e envelhecida de mundo. Vende uma resposta, embora na prática atue de outra forma, basta ver o Trump e os seus piores conflitos: as lutas internas norte-americanas.

A disputa econômica também é disputa de imaginário, de vida boa, de futuro bonito, de reconhecimento solidário. O próprio debate sobre a escala 6×1 mostra isso. Não se trata apenas de horas e produtividade, embora isso importe. Trata-se do direito elementar de não viver esmagado pelo trabalho. É erro achar que economizar é não gastar mais com trabalhador. 

Horas de trabalho excessivas e salário baixo demais também destrói produtividade, aumenta rotatividade e piora o próprio negócio. E antes que me chamem de comunistas, economistas liberais defendem esse conceito.

A saída, então, não está em zombar do Brasil profundo, nem em idealizá-lo, mas em reencontrar dentro dele o seu desejo legítimo de vida. Algo que só é possível na escuta singela, sem julgamentos e com interesse de aprendizado. Há uma potência cotidiana que segue viva no país real. Ela está no churrasco improvisado de fim de semana, no salão de beleza lotado, no campo de várzea, no piseiro ligado numa caixa de som colorida, na mãe que faz render o almoço, na vizinha que olha o filho da outra, na feira, na oficina, na calçada, no culto de domingo, no chá partilhado enquanto se pega sol à beira do rio, no barulho de gente simplesmente sendo gente apesar de tudo. 

Por isso a boniteza de Paulo Freire ainda importa, como recusa da feiura moral que foi sendo naturalizada entre nós. Uma vida boa não pode ser privilégio de condomínio, nem fantasia vendida em parcelas, nem heroísmo individual de quem aguenta a escala, o bico e a humilhação calado. Ela precisa reaparecer como direito de respirar, conviver, descansar, estudar, circular, festejar, criar filhos sem terror e envelhecer sem descarte. 

O Brasil não precisa ser salvo de si mesmo. Precisa voltar a se enxergar como povo super diverso, criativo, complexo e digno de mais do que mera sobrevivência. Quando esse povo se vê apenas como empresário precário da própria miséria, o país encolhe. Quando volta a se reconhecer como portador de memória, trabalho, inteligência, diversidade de pensamento e desejo de beleza, o país pode novamente começar a pensar o Brasil.

Neste sentido retorno ao início. Afinal, aprendo com as trocas honestas dos amigos conservadores que me lêem e não sentem medo ou vergonha de conversar comigo sobre temas diversos.

Desenho autoral 2026
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Estranho Familiar

Ser um estranho familiar. Usam nosso sangue, nossas forças e nossa alegria. Usam nossa cultura, nosso marasmo, nossas dores. Me enterram em seus cemitérios, furtam meu pedaço de terra. Terra que só serve a quem não sabe plantar. Fora do corpo, todos os cães ladram, sou fugitivo dentro da terra, culpado pelo suor do meu trabalho.

Entre Teerã e Minneapolis há um mar repleto de distinções. Mas existe um elemento que se repete: a escala da rua. Quando o poder decide que a fronteira é flexivel, qual  é o limite? ao que tudo parece indicar, está na vizinhança. Este é o lugar onde nossentimos estrangeiros-familiares.

Em Minnesota, diante da escalada de ações federais de imigração e de uma presença ostensiva de agentes do U.S. ICE, moradores montaram redes de resposta rápida: buzinas e apitos que avisam a aproximação, mensagens em aplicativos, gente filmando, acompanhando, oferecendo carona, abrigo e apoio jurídico. Diante do medo da morte, Amar o seu vizinho vira desejo de vida. A rua ganha o espectro de um rádio. E quando esse rádio se amplia, ele bagunça a economia: o chamado ao walkout e ao blackout economico de 23 de janeiro é um recado tão bonito, quase infantil: ninguém deixa o vizinho pra trás.

No Irã, a mesma escala aparece como resistência a outra brutalidade. Em 2009, gritos noturnos nos telhados foram respondidos com batidas, invasões e espancamentos por milícias como a Basij, numa tentativa de calar o coro e impedir que a madrugada virasse notícia. Há uma guerra pelo som: quando a rua canta, ela se reconhece; e se reconhecendo, ela se organiza. Em 2019, a repressão matou centenas e o apagão da internet ajudou a invisibilizar a violência. Em 2022, após a morte de Mahsa Amini, a revolta se espalhou e o Estado respondeu com força letal. O método é comum aos totalitários: controlar a multidão pelo medo. Mas na escala do quarteirão: aviso, rotas de fuga, comida na porta, cuidado entre desconhecidos, nos diz que outro mundo é possível.

Comparamos o poder iraniano e o poder trumpista nos parentescos de método. Ambos dependem de uma política de pureza: inventar um ser perfeito, um corpo-padrão, e transformar a multidão de corpos em suspeitos. No Irã, a pureza é religiosa e estatal, e o dissenso vira blasfêmia, pecado, desordem moral. No Trumpismo, a pureza parece ser nacionalizada, rica e racializada: a cidade vira triagem de seres humanos, o corpo vira documento e o imigrante, caça. Em ambos, a pedagogia do terror se alimenta do território-espetáculo e da ruptura do cotidiano, tão absurda quanto Joseph K sendo detido no Processo.  Batida na porta, patrulha na esquina, confisco, prisão, narrativa oficial deturpada e silêncio dos bons. O objetivo, para além de prender  alguns; é encarcerar a vida, construir um comportamento coletivo passivo e limitante.

Aqui, Jane Jacobs segue contemporânea. Seus olhos da rua não são ferramenta política da insurgência: uma rede voluntária de atenção e padrões comuns que mantém a rua viva pelo carinho ao próximo. A diferença está em para onde esses olhos apontam. Quando o Estado captura a vizinhança, os olhos viram a delação. Quando a vizinhança se organiza por solidariedade, os olhos viram proteção. Minnesota e Irã são uma encruzilhada: a resistência começa no açúcar emprestado, no olho no olho, no corpo que decide ficar. Depois, o coro encontra a cidade inteira. Porque, no fim, a rua só vira fronteira para quem depende do medo para sustentar as máquinas de poder. Pra quem resiste, a rua é caminho, feita de corpos, olhos e voz.

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literatura, política, Sem categoria, territórios

Sob os olhos das ruas de Minnesota

Batem duas vezes. Abro, e um rosto familiar, sem precisar dizer nome, com pressa. Desta vez não são eles.

– Got sugar?

A pergunta é doméstica, quase imperceptível. É assim que a rua começa: pelo que falta no café. Pelo açúcar.

Do lado de fora, o frio diz a que veio. Crianças inventam um jogo qualquer: pulam linhas, erram e riem alto. Um carrinho de supermercado vira casa. Um homem passa com uma mochila, olha pros dois lados. Um ônibus freia. Os olhos da rua protegem.

– I’ll pay you back

– You’re good

You’re good é o tipo de coisa que sustenta um país construído por travessias. A pá encostada na parede já está pronta para limpar o gelo.

A rua fala por baixo. A rua fala por cima. Fala na janela. Fala na luz da cozinha que acende cedo demais. Fala no cachorro que late. Fala no som de uma porta de carro que bate. Fala no barulho do caminhão de lixo, enquanto os olhos observam.

Um tiro.

O açúcar cai pela última vez. E o mundo não é de ninguém: é do quarteirão. Ele é de uma língua que já misturou com outra, e agora fala a terceira. O sotaque não entrega a origem, entrega só o trabalho de quem acreditou na terra da liberdade. O rosto, em certos dias, vira invisível. Hoje é um desses dias em que o corpo estrangeiro cai, mesmo quando nasceu na esquina.

Do outro lado da rua, alguns olham pro céu. Tem um helicóptero longe. É estranho: de repente, o lugar dele tem alfândega e rede de caça. De repente, ele acordou estrangeiro dentro da própria casa.

As crianças cantam uma cantiga sem letra fixa. O refrão vem e volta, vem e volta. A rua aprende o refrão com elas. Hoje tem carro sem placa.

Frases voam. A rua é uma guerrilha de informação, passando de varanda em varanda, de portão em portão, até virar silêncio organizado.

O açúcar, caído, mas o pote permanece cheio de cotidiano. Quando a porta se fecha, a cidade sintoniza: um cuidado. Um rádio clandestino que só funciona porque ninguém tenta ser herói, só tenta não deixar nenhum vizinho sozinho.

A rua segue. E a notícia segue junto, grudada no ar, repetindo baixinho: hoje, olho aberto. Hoje, porta aberta.


Enquanto o mundo se foca na geopolítica dos grandes tabuleiros, há resistência na escala de vizinhança. A lógica do ICE parece transformar rua em fronteira, e vizinhança em zona de operação. Com aumento forte de ações federais de imigração na área de Minneapolis, e presença ostensiva de agentes, uma onda de protestos, paralisações e mobilizações que se espalharam para outras cidades dos EUA.

A anacronia dada é: como um país que se construiu pela imigração e pela promessa de liberdade passa a procurar um “ser essencial” que nunca existiu, como se pudesse purificar a própria origem em um norte-americano padrão?

O que se vê, então, é a fabricação do estrangeiro dentro do lar, o deslocamento íntimo imposto por política: como uma metamorfose kafkiana, você acorda estrangeiro na casa, mal quisto no país que usa sua força de trabalho. É por isso que o conflito em Minnesota não soa como tema local. quando a fronteira atravessa a cidade por dentro, o Estado deixa de ser caminho de diálogo, a resistência reorganiza a vida comum.

E é justamente aí que a escala de vizinhança rompe o feitiço: olho no olho, redes de solidariedade, cuidado, alerta. Em vez de esperar salvação institucional, gente comum organiza monitoramento, abrigo, transporte, apoio material, e chega ao limite tático de travar a economia, como no “blackout”/greve geral convocado para 23 de janeiro, com a palavra de ordem contra U.S. Immigration and Customs Enforcement ecoando em cartazes e cantos, ICE OUT.  

É política territorial no sentido mais profundo: os olhos da rua protegendo os seus, enquanto o poder tenta caçar pessoas como ratos. Fievel chegando a Nova York fugindo de pogrom, Ligeirinho correndo na beira da fronteira, Splinter ensinando sobrevivência nos esgotos de Manhattan, Stuart Little tentando caber numa família. O Mickey é só mais um. O sonho americano não é Disney.

desenho de autoria propria – 2018
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Arquitetura é um colo de avó: pequenas reflexões para a prática nacional

A primeira lembrança que me atravessa quando se fala em interiores não é um catálogo de decoração, mas a casa da minha avó. Ali, a vida tinha escala de 1×1: o corpo inteiro cabia entre o bordado da capinha do gás, a máquina de costura que se transformava em carro de fórmula 1, o quintal que era ao mesmo tempo o mundo inteiro e  cantinho de acolhimento. É dessa escala íntima, olho no olho, que eu via nascer a arquitetura. A arquitetura é um colo de avó, um bolo de laranja quentinho na mesa, um sol que entra na fresta da janela.

No Brasil, a profissão foi arrastada para um dilema: somos vistos ora como luxo e supérfluo, ora como engrenagem de projetos estatais grandiosos e inacabados. No meio, fica o vazio: a vida cotidiana do povo.

Essa fratura não é apenas cultural; ela é estrutural, econômica. Em poucas décadas, deixamos de ocupar um lugar estratégico dentro do projeto nacional de desenvolvimento e passamos a ser percebidos como caros e substituíveis. A armadilha, a meu ver se aprofundou quando a profissão centralizou-se na lógica do luxo como um caminho único. E isso não é necessariamente uma crítica implacável à arquitetura de luxo, que tem seu espaço de direito na sociedade atual. 

O luxo funciona como dispositivo de status e exclusividade: molda o gosto, define o que é belo e desejável, mas apenas para uma fração ínfima da sociedade. A classe média, que em países industrializados sustenta tanto o consumo quanto a cultura material da sociedade, no Brasil nunca se consolidou plenamente. E os pobres, que são maioria, só nos enxergam quando o Estado entra em seus territórios com grandes obras, remoções ou empreendimentos de impacto praticamente autoritário. Fora disso, a figura do arquiteto desaparece de seu horizonte de vida, diferente do médico por exemplo.

Essa ausência tem consequências devastadoras. Quando o cotidiano das famílias não reconhece o arquiteto como parte de sua economia; alguém que resolve problemas espaciais urgentes, que age na escala doméstica, comunitária, de vizinhança, a profissão se isola. E quando uma categoria se isola, perde relevância social e política. É sintomático que, enquanto o país vivia a explosão de consumo de carros e imóveis nos anos 2000, embalado pela ascensão de milhões ao consumo básico, nós não conseguimos nos inserir como serviço acessível para essa massa. Continuamos restritos a dois pólos já citados: o do luxo exclusivo e o do planejamento estatal de megaprojetos. Ambos distantes da vida real.

É nesse ponto que precisamos recuperar uma lição das escalas. Há a escala da família: o sofá da avó, o banheiro que falta em tantas casas brasileiras, o quartinho inacabado do filho o espaço íntimo que define dignidade. Há a escala da comunidade: a rua onde se joga bola, a praça onde se organiza uma festa, a rede de solidariedade que sustenta bairros inteiros. E há a escala da multidão e do estatal: os fluxos da cidade, os planos que estruturam mobilidade, habitação e saúde coletiva. Claro, não são escalas fechadas, longe de mim querer atravessar a cidade por apenas três recortes possíveis, apenas simplifico para fins de dar algum inicio de pensamento sobre o tema. 

O arquiteto, ou o estudante de arquitetura precisa ser capaz de transitar entre essas dimensões, sem perder de vista que elas se conectam como sistema, como ensinavam os pensadores que viam o espaço não apenas como território físico, mas como campo de cidadania, de luta, de afetos.

Se a economia brasileira gira em torno de estratégias de mega exclusão e certa inclusão controlada para evitar grandes turbas disruptivas, a arquitetura não pode se reduzir ser apenas vitrine da exclusividade. A profissão precisa se reorganizar a partir da vida real, da urgência, daquele que não pode esperar seis meses por um projeto para então começar uma obra. Nosso trabalho tem de ser mais ágil, mais enraizado, mais próximo do cotidiano da maioria. Não se trata de reduzir a qualidade ou o rigor técnico, mas de reinventar formas de inserção econômica laboral: organizações coletivas, solidárias, mutirões, cooperativismos, abertas a novas economias de escala que vão do mutirão à assistência técnica, do microempreendimento comunitário às tecnologias sociais, da carreira de estado à arquitetura liberal de atendimento popular.

Sem uma estratégia econômica que inclua de fato o povo, não haverá campo de trabalho sustentável para a arquitetura. E sem arquitetos presentes no cotidiano popular, não haverá cidade justa. Entre o sofá da avó e os grandes planos da nação, existe uma vasta zona de vida que precisa ser ocupada, praticamente um universo de cores que se assemelha a um quadro de Pollock. É ali que a arquitetura pode recuperar sua relevância. Não como luxo, não como burocracia estatal distante, mas como prática social que desenha futuro a partir do olho no olho, da escala humana, daquilo que funda a dignidade de viver.

Para tal, temos uma missão: compreender, técnica e cientificamente, onde estamos e para onde podemos ir. Isso começa pelo gesto simples de olhar ao redor: o bairro, a rua, a casa do vizinho que precisa de um banheiro digno. Jovens arquitetos podem se organizar em coletivos, experimentar formatos de cooperativas, oferecer serviços acessíveis de assistência técnica, participar de mutirões de construção, articular-se com movimentos sociais e comunidades. Outros podem se dedicar ao setor público, disputando políticas urbanas e habitacionais de forma crítica. Há também espaço para a inovação: explorar tecnologias sociais, novos materiais e soluções sustentáveis de baixo custo.

O ponto é não esperar pela grande encomenda ou pelo concurso distante; é começar nos interstícios, nos entremeios, nos lugares que parecem pequenos, mas que são o coração da vida real. É ali que a arquitetura renasce como prática social. Não precisamos reinventar tudo de uma vez, nem sermos reféns de ferramentas. Afinal não é a ferramenta que define o arquiteto, é o arquiteto que define a ferramenta que vai utilizar. Basta iniciar os processos, criar redes e caminhar juntos. A relevância virá quando conseguirmos estar presentes na escala da família, da comunidade e da multidão, com a coragem de projetar os afetos dos mais pobres. Ou estamos presentes na escala da vida real, ou seremos apenas designers do privilégio.

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Brasil em Contradição: O Desenvolvimento que não quer pedir licença.

Brasil de fato: https://www.brasildefato.com.br/2025/05/24/lider-em-desmatamento-maranhao-acumula-conflitos-agrarios/

O Brasil vive momentos de aparente ascensão estratégica. A retomada de relações com blocos globais, especialmente a aproximação com a China, abre novas trilhas para a industrialização do Norte e Nordeste, regiões historicamente à margem do modelo de desenvolvimento nacional. Essa reorientação poderia sinalizar uma guinada justa, com mais equilíbrio territorial, autonomia energética e cooperação tecnológica Sul-Sul.

Sob a cortina de fumaça gerada pela prisão domiciliar de Bolsonaro, o Congresso avança no desmonte do licenciamento ambiental. Ironias à parte, trata-se de uma pauta essencialmente bolsonarista, quem não se lembra de Ricardo Salles mandando “passar a boiada”? O mais alarmante, no entanto, é que a flexibilização vem sendo aprovada com apoio expressivo de partidos da própria base ministerial do governo. A boiada agora atravessa novamente o plenário com selo de governabilidade.

Há nisso um problema profundo, recorrente e perigoso: o Brasil tenta construir um novo futuro, sempre com os mesmos vícios técnicos e políticos do passado. A tentativa de flexibilizar o licenciamento ambiental; vendida como “destravar o progresso”; ameaça corroer não só os ecossistemas, mas também a credibilidade internacional do país.

A erosão das salvaguardas ambientais expõe o Brasil a riscos estratégicos. Parcerias internacionais que se pautam por critérios ESG, por soberania alimentar e por transições verdes justas, começarão a desconfiar da validade de investir no País. Não se assina acordo com um País que desmonta seus mecanismos de controle ambiental enquanto a grilagem, jagunçagem e todo tipo de violencia territorial avançam sobre terras indígenas, áreas de proteção ambiental, biomas frageis e raros, reservas e zonas de recarga aquífera. O arco que se estende do Centro-Oeste à Amazônia Legal tornou-se um laboratório de guerra e destruição que ameaça travar qualquer agenda diplomática climática. Isso, em pleno ano de COP30!

Há, portanto, uma dicotomia gritante: de um lado, a construção de polos tecnológicos e produtivos no Nordeste, com apoio de infraestrutura ferroviária, energia limpa e intercâmbio científico. Que ajudaria o país a criar um desenvolvimento moderno que nunca teve. De outro, a legalização do desmatamento por omissão e a reprodução de velhos pactos extrativistas no coração do território nacional.

A crítica aqui não é à industrialização, nem à aproximação com potências não ocidentais. O erro está em imaginar que o mundo de 2025 permitirá um projeto de desenvolvimento que ignore os limites ecológicos do planeta. Defender este projeto é assumir que queremos como parceiros exploradores insensatos, milícias, grileiros, e tudo de pior que existe aqui e suas versões mundo a fora.

O trator do desenvolvimento não pode passar pelas florestas sem licença. O tempo da expansão predatória acabou. Países que insistem nisso tornar-se-ão párias comerciais e diplomáticos.

O que está em jogo é mais do que proteção de florestas, é a reinvenção do Brasil como parte de um ecossistema global de justiça, autonomia e regeneração. Um Brasil que tem toda condição de se tornar modelo global para um novo paradigma de nosso ser-estar no mundo. Um país que queira liderar o novo século não pode ser cúmplice de sua própria ruína.

Leituras complementares:

1 Correntão é vendido na internet como dicas para evitar fiscalização – aqui

2 Brazil’s congress passes bill to overhaul environmental regulations: – aqui

3 El Congreso de Brasil desmonta el pilar de la legislación ambiental del país y asesta otra derrota a Lula. – aqui

4 Brazil passes ‘devastation bill’ that drastically weakens environmental law: – aqui

5 Opponents Urge Lula to Veto Brazilian Lawmakers’ ‘Devastation Bill’ – aqui

6 Novo licenciamento ambiental opõe conservacionistas e indústria (Poder360) – aqui

7 Licenciamento ambiental à deriva- aqui

8 Brazil lawmakers gut environmental permitting ahead of COP30 summit (Reuters) – aqui

9 Crime and no punishment: Impunity shrouds killings of Indigenous Amazonian defenders- aqui

10 Esquema de ouro ilegal Yanomami envolve empresas milionárias acusadas de lavagem de recursos no Pará- aqui

11 Brazil: Illegal gold miners fatally shot in Indigenous territory – aqui

12 PF investiga morte de três yanomami por garimpeiros em Roraima- aqui

13 In Brazil, an Indigenous land defender’s unsolved killing is the deadly norm- aqui

14 Genocídio indígena: garimpo ilegal está matando crianças Yanomami- aqui

15 Inside the fight against illegal mining in the Amazon (Greenpeace)- aqui

16 Terra Yanomami é palco de “tragédia humanitária”- aqui

17 Brazil police bring formal charges in murder of environmental activists (JURIST)- aqui

18 Crime organizado avança e muda dinâmica no garimpo ilegal – aqui

19 Notícia do assassinato de três pessoas no garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami- aqui

20 Garimpo ilegal cresce 400% em terras indígenas em uma década, mostra estudo – aqui

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