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O Congresso contra o Povo

O conservadorismo acolheu e organizou os mais pobres. Isso precisa ser sempre lembrado com alguma honestidade. Ele ocupou vazios, criou pertencimento, deu escuta e destino para gente que muitas vezes encontrou na esquerda apenas contradições e uma espécie de superioridade moral desgastada. Até aí não há tanta novidade. Desde pelo menos 2014, o país vive esse deslocamento, e fingir que ele não existe apenas aprofunda o nosso erro.

O ponto novo, porém, é que esse conservadorismo deixou de ser apenas sentimento social e passou a operar como poder. Quando toca o Congresso, quando define quais pautas avançam, quais travam, quais vidas merecem acesso ao orçamento público e quais podem seguir no improviso e na fome, ele revela o Brasil que deseja construir. E esse Brasil, muitas vezes, é duro com quem já não aguenta mais.

Se a esquerda tem o presidente, o conservadorismo tem o congresso e opera com ele para ter espaço de poder e gestão. Não amigos, não vivemos um governo de esquerda, mas sim o governo que sempre vivemos, esse parlamentarismo presidencialista esquisito onde as forças precisam manter sempre um grau de negociação para se manter no poder.

Em qualquer periferia de cidade grande e em muitos recantos de cidades médias e pequenas, existe um País à parte, onde a fome ainda organiza o cotidiano. Lugares onde viver com menos de um salário mínimo é regra, e ganhar um salário mínimo já parece vitória. Nesses territórios, o Bolsa Família não pode ser tratado como abstração eleitoral e cabresto, ele se torna a única estrutura real de sobrevivência. Organiza a compra da vida, a comida da criança, o remédio, o que dá pra organizar e ainda falta. E infelizmente, seguirá organizando a vida enquanto o Brasil não tiver um sistema produtivo capaz de absorver sua própria força de trabalho com dignidade e mínimo direito à mobilidade social.

A escala 6×1, que no fundo funciona como um 7×0 disfarçado, soma-se à miséria salarial, ao transporte exaustivo, ao aluguel impossível enquanto crescem alphavilles e studios e à ausência de horizonte palpável. O resultado é uma massa gigantesca de vulnerabilidade e sem esperança. Gente que trabalha muito, ganha pouco, descansa mal, adoece cedo e quase nunca consegue transformar esforço em prazer de vida. O país cobra disciplina de quem vive no limite, mas oferece muito pouco além da sobrevivência, na verdade nem a sobrevivência o País oferece.

Esse é o ciclo vicioso profundo. Não se levanta uma Nação condenando sua população a correr em círculo até morrer. Um trabalhador exausto não empreende sua liberdade. Uma mãe que passa três horas por dia no transporte não consegue “qualificar-se” por milagre. Um jovem que entra cedo demais no trabalho precário perde escola. O Brasil fala em produtividade, mas organiza a vida popular para desperdiçar inteligência humana. Maio é um mês significativo para os trabalhadores de um País cuja cultura foi forjada no escravagismo. 

A saída, a meu ver, passa por muitas lutas, porém quero deixar escrito alguns recortes. Um deles, ela exige tratar política social como infraestrutura de sustento da Nação. O SUS, apesar de todos os problemas, mostra uma coisa fundamental: quando o Estado chega de forma capilarizada, em rede, ocupando território, fomentando formação profissional, e garantindo continuidade política, ele muda a vida concreta. O mesmo princípio precisa orientar outras partes da estrutura social: renda, trabalho, cuidado, educação técnica, mobilidade e produção. Não basta distribuir benefício via política pública e deixar o restante da vida entregue ao mercado ruim, ao ônibus caro, ao aluguel predatório e ao subemprego moedor de gente. É preciso construir uma rede pública de política de sustentação da vida, integrada no território, capaz de enxergar família, bairro, escola, posto de saúde, transporte, cultura e emprego como partes do mesmo problema.

Isso passa por uma política nacional de trabalho honesta e decente, incapaz de se formar neste congresso de legisladores de causa própria, defensores de coisas espúrias. Como pensar política com estes seres abjetos incapazes de enxergar o país além da própria fazenda? O que dizer com palavras bonitas e sinceras? 

Há nesse Congresso uma venalidade profunda, uma mistura de pusilanimidade ética e arrogância oligárquica, gente que se ajoelha diante dos donos da terra (quando não são os próprios donos), da bala e do dinheiro e se vende barato para doleiros e cafetões de luxo, mas endurece a voz contra quem vive de salário, de benefício, do bico e com dívida. São capatazes legislativos de um país velho, cortesãos do atraso, defensores de pactos iníquos e projetos predatórios, enquanto chamam de responsabilidade aquilo que, no fundo, é apenas crueldade organizada. Essa é a gente que vai caminhar pelas ruas do seu bairro fingindo que gostam de comer pastel com caldo de cana. A cara de nojo que fazem quando mordem um pastel, não é pelo pastel, é pelo nojo que sentem ao estarem perto demais da gente. 

Tem pavor de pautas como: Redução progressiva da jornada, valorização real do salário mínimo, expansão da educação profissional ligada às cadeias produtivas locais, crédito orientado para pequenos produtores. Esse governo se torna tão ignorante que sequer enxerga que estas são pautas de caráter liberal.  Mas ainda cito mais possibilidades para construir: cooperativas, economia do cuidado, indústria verde, construção civil pública, saneamento, reabilitação de moradias e infraestrutura urbana nas periferias. 

O país precisa enfrentar essas criaturas sem receio. Criar um projeto que nos possibilite fortalecer a produção de vida, gerar trabalho e descanso para as pessoas reais, e não apenas empurrar corpos pobres para a vala da história, como empurraram para o Oceano de Sangue, Kalunga Grande (aprendi esse termo lendo o artigo da Vivian Carla Garcia Ferreira aqui).

Aqui também, a técnica pública institucional não pode ser resumida à burocracia de gabinete que atende a esses poderes de forma acrítica. Ela precisa medir tempo de deslocamento, renda disponível, acesso a creche, saúde mental, custo da alimentação, informalidade, produtividade territorial e capacidade real de permanência das famílias em seus bairros.

Um projeto sério para o Brasil começará quando a vida popular deixar de ser tratada como resíduo. O pobre precisa de tempo, renda, cidade, descanso, formação, crédito, saúde, cultura e poder sobre o seu próprio território. Enquanto isso não acontecer, seguiremos discutindo moralidade no alto, enquanto embaixo o país real tenta decidir se compra comida, paga passagem ou continua entregue a qualquer destino.

A boa política é aquela que transforma sobrevivência em caminho real de futuro. Esta política a meu ver, deve transpassar esse congresso e se possível desferir o máximo de danos a parte desta máquina público-privada usada a benefício próprio dessa gente estranha que ocupa as câmaras de poder.

Autoria própria
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filosofia de vida, política, trabalho

Quem é o conservadorismo que me lê?

Notei, com o tempo, que tenho amigos e leitores conservadores que gostam do que escrevo. Fico feliz por isso. Entendo como sinal de que ainda consigo me comunicar com as pessoas, embora eu mesmo tenha dificuldade de fazer isso na fala. Creio que há aí um gesto importante: se não sou capaz de me comunicar com quem pensa diferente de mim, então talvez eu não seja capaz de me comunicar de verdade. 

Mas quem seria esse brasileiro específico? Tenho algumas percepções sobre isso, e quero dar aqui uma pequena pincelada.

O brasileiro não é conservador por folclore, por essência moral, muito menos por algum desajuste cognitivo ou intelectual. Pensar assim é partir da arrogância para construir uma caricatura. Creio que o tempo o empurrou para isso pelo medo e pela sobrevivência. Medo de cair mais um degrau, medo de perder o pouco que tem, medo de ver o filho capturado pelo crime, medo de não conseguir pagar o gás, medo de adoecer e não ter atendimento, medo de envelhecer sem proteção.

O Brasil das últimas décadas produziu consumo, desejo rápido de ascensão e vitrines digitais de vencedores, mas não ofereceu a mesma firmeza em trabalho, tempo e horizonte de vida. Ao mesmo tempo em que prometia autonomia, foi desmontando proteções do trabalho. Naturalizou vínculos frágeis, pejotização, intermitência e plataformização. A precarização não caiu do céu, ela foi construída como projeto de poder. E qualquer olhar honesto para o mundo do trabalho hoje percebe o estrago que a reforma trabalhista de 2017 aprofundou, especialmente entre os mais jovens.

A ideia do sujeito como “CEO de si mesmo” não é só delírio neoliberal importado de palestra motivacional. Muitas vezes, ela funciona como remédio paliativo de existência. Quando o mundo do trabalho retira garantias, o imaginário tenta devolver alguma dignidade. O homem que sai cedo de casa, pega condução, vende bolo, roda de aplicativo, faz bico, sonha abrir um negócio, assiste vídeo de empreendedorismo entre uma correria e outra, não está necessariamente imitando o rico nem sonhando em virar milionário. Muitas vezes, está apenas tentando não desabar de vez. É uma forma de dizer a si mesmo que ainda conduz alguma coisa, mesmo quando quase tudo ao redor diz o contrário. Por que enfrentar um 6×1 para um patrão por um salário mínimo, se eu posso tentar encarar um 7×0 para mim mesmo? Por que entrar cedo numa CLT, se mal acredito que um dia vou me aposentar?

O problema é que esse imaginário, quando capturado, ilude. Troca os direitos pela performance, descanso pela culpa e senso de comunidade por competição aflorada. O trabalhador deixa de se entender como parte de um corpo social e passa a ser tratado como pequena empresa em guerra contra a exaustão. E isso piora num país de trabalho fortemente informal e desregrado. 

É nesse ponto que a extrema-direita entra com inteligência afetiva. Ela percebe uma coisa que parte do campo progressista seja a esquerda ou mais liberal esqueceu: ninguém vive só de argumento cientificamente correto. As pessoas querem ser vistas, ouvidas, nomeadas, acolhidas em sua dor e em sua luta. Querem sentir que alguém as escuta sem rir de sua fé, de sua vergonha, de seu desejo de subir na vida, de seu apego à família e de sua necessidade de alguma ordem no cotidiano.

O ultra-conservadorismo cresce porque oferece espaço de escuta e fala para esse sofrimento. Não oferece país, nem transformação de verdade, mas oferece disciplina, pertencimento, inimigo comum e explicação simples, independente da ciência. Em vez de enfrentar a precarização da vida, organiza o desamparo como linguagem moral, mas o principal: organiza o acolhimento. Acalme-se, algum dia sua bênção virá, estamos entre irmãos.

Porém, ele também cresce e muito, na incapacidade das forças progressistas retomarem pautas comuns e pétreas de bem estar do povo, por medo de conflitar com suas pautas de poder pelo poder, cargo pelo cargo. Se tornando uma força de molde moral para controlar os que estão sob seu  cercado.

Talvez o erro mais sério de muita gente progressista atual tenha sido olhar esse Brasil apenas como objeto de pedagogia, estudo e pesquisa, e não como sujeito portador de inteligência. Houve análise demais e escuta de menos. Houve articulação demais e imaginação de menos. Como se bastasse anunciar indicadores, políticas públicas e boa intenção para que um povo exausto voltasse a acreditar na vida coletiva. Oferecemos política sem reconstruir vínculo, pertencimento e horizonte.

Porém, o povo também quer viver o sensível. Quer sentir que a vida pode ter algum brilho para além da conta paga em atraso. O conservadorismo entendeu isso antes: ocupou o campo do desejo, mesmo que com uma promessa estreita e envelhecida de mundo. Vende uma resposta, embora na prática atue de outra forma, basta ver o Trump e os seus piores conflitos: as lutas internas norte-americanas.

A disputa econômica também é disputa de imaginário, de vida boa, de futuro bonito, de reconhecimento solidário. O próprio debate sobre a escala 6×1 mostra isso. Não se trata apenas de horas e produtividade, embora isso importe. Trata-se do direito elementar de não viver esmagado pelo trabalho. É erro achar que economizar é não gastar mais com trabalhador. 

Horas de trabalho excessivas e salário baixo demais também destrói produtividade, aumenta rotatividade e piora o próprio negócio. E antes que me chamem de comunistas, economistas liberais defendem esse conceito.

A saída, então, não está em zombar do Brasil profundo, nem em idealizá-lo, mas em reencontrar dentro dele o seu desejo legítimo de vida. Algo que só é possível na escuta singela, sem julgamentos e com interesse de aprendizado. Há uma potência cotidiana que segue viva no país real. Ela está no churrasco improvisado de fim de semana, no salão de beleza lotado, no campo de várzea, no piseiro ligado numa caixa de som colorida, na mãe que faz render o almoço, na vizinha que olha o filho da outra, na feira, na oficina, na calçada, no culto de domingo, no chá partilhado enquanto se pega sol à beira do rio, no barulho de gente simplesmente sendo gente apesar de tudo. 

Por isso a boniteza de Paulo Freire ainda importa, como recusa da feiura moral que foi sendo naturalizada entre nós. Uma vida boa não pode ser privilégio de condomínio, nem fantasia vendida em parcelas, nem heroísmo individual de quem aguenta a escala, o bico e a humilhação calado. Ela precisa reaparecer como direito de respirar, conviver, descansar, estudar, circular, festejar, criar filhos sem terror e envelhecer sem descarte. 

O Brasil não precisa ser salvo de si mesmo. Precisa voltar a se enxergar como povo super diverso, criativo, complexo e digno de mais do que mera sobrevivência. Quando esse povo se vê apenas como empresário precário da própria miséria, o país encolhe. Quando volta a se reconhecer como portador de memória, trabalho, inteligência, diversidade de pensamento e desejo de beleza, o país pode novamente começar a pensar o Brasil.

Neste sentido retorno ao início. Afinal, aprendo com as trocas honestas dos amigos conservadores que me lêem e não sentem medo ou vergonha de conversar comigo sobre temas diversos.

Desenho autoral 2026
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Estranho Familiar

Ser um estranho familiar. Usam nosso sangue, nossas forças e nossa alegria. Usam nossa cultura, nosso marasmo, nossas dores. Me enterram em seus cemitérios, furtam meu pedaço de terra. Terra que só serve a quem não sabe plantar. Fora do corpo, todos os cães ladram, sou fugitivo dentro da terra, culpado pelo suor do meu trabalho.

Entre Teerã e Minneapolis há um mar repleto de distinções. Mas existe um elemento que se repete: a escala da rua. Quando o poder decide que a fronteira é flexivel, qual  é o limite? ao que tudo parece indicar, está na vizinhança. Este é o lugar onde nossentimos estrangeiros-familiares.

Em Minnesota, diante da escalada de ações federais de imigração e de uma presença ostensiva de agentes do U.S. ICE, moradores montaram redes de resposta rápida: buzinas e apitos que avisam a aproximação, mensagens em aplicativos, gente filmando, acompanhando, oferecendo carona, abrigo e apoio jurídico. Diante do medo da morte, Amar o seu vizinho vira desejo de vida. A rua ganha o espectro de um rádio. E quando esse rádio se amplia, ele bagunça a economia: o chamado ao walkout e ao blackout economico de 23 de janeiro é um recado tão bonito, quase infantil: ninguém deixa o vizinho pra trás.

No Irã, a mesma escala aparece como resistência a outra brutalidade. Em 2009, gritos noturnos nos telhados foram respondidos com batidas, invasões e espancamentos por milícias como a Basij, numa tentativa de calar o coro e impedir que a madrugada virasse notícia. Há uma guerra pelo som: quando a rua canta, ela se reconhece; e se reconhecendo, ela se organiza. Em 2019, a repressão matou centenas e o apagão da internet ajudou a invisibilizar a violência. Em 2022, após a morte de Mahsa Amini, a revolta se espalhou e o Estado respondeu com força letal. O método é comum aos totalitários: controlar a multidão pelo medo. Mas na escala do quarteirão: aviso, rotas de fuga, comida na porta, cuidado entre desconhecidos, nos diz que outro mundo é possível.

Comparamos o poder iraniano e o poder trumpista nos parentescos de método. Ambos dependem de uma política de pureza: inventar um ser perfeito, um corpo-padrão, e transformar a multidão de corpos em suspeitos. No Irã, a pureza é religiosa e estatal, e o dissenso vira blasfêmia, pecado, desordem moral. No Trumpismo, a pureza parece ser nacionalizada, rica e racializada: a cidade vira triagem de seres humanos, o corpo vira documento e o imigrante, caça. Em ambos, a pedagogia do terror se alimenta do território-espetáculo e da ruptura do cotidiano, tão absurda quanto Joseph K sendo detido no Processo.  Batida na porta, patrulha na esquina, confisco, prisão, narrativa oficial deturpada e silêncio dos bons. O objetivo, para além de prender  alguns; é encarcerar a vida, construir um comportamento coletivo passivo e limitante.

Aqui, Jane Jacobs segue contemporânea. Seus olhos da rua não são ferramenta política da insurgência: uma rede voluntária de atenção e padrões comuns que mantém a rua viva pelo carinho ao próximo. A diferença está em para onde esses olhos apontam. Quando o Estado captura a vizinhança, os olhos viram a delação. Quando a vizinhança se organiza por solidariedade, os olhos viram proteção. Minnesota e Irã são uma encruzilhada: a resistência começa no açúcar emprestado, no olho no olho, no corpo que decide ficar. Depois, o coro encontra a cidade inteira. Porque, no fim, a rua só vira fronteira para quem depende do medo para sustentar as máquinas de poder. Pra quem resiste, a rua é caminho, feita de corpos, olhos e voz.

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literatura, política, Sem categoria, territórios

Sob os olhos das ruas de Minnesota

Batem duas vezes. Abro, e um rosto familiar, sem precisar dizer nome, com pressa. Desta vez não são eles.

– Got sugar?

A pergunta é doméstica, quase imperceptível. É assim que a rua começa: pelo que falta no café. Pelo açúcar.

Do lado de fora, o frio diz a que veio. Crianças inventam um jogo qualquer: pulam linhas, erram e riem alto. Um carrinho de supermercado vira casa. Um homem passa com uma mochila, olha pros dois lados. Um ônibus freia. Os olhos da rua protegem.

– I’ll pay you back

– You’re good

You’re good é o tipo de coisa que sustenta um país construído por travessias. A pá encostada na parede já está pronta para limpar o gelo.

A rua fala por baixo. A rua fala por cima. Fala na janela. Fala na luz da cozinha que acende cedo demais. Fala no cachorro que late. Fala no som de uma porta de carro que bate. Fala no barulho do caminhão de lixo, enquanto os olhos observam.

Um tiro.

O açúcar cai pela última vez. E o mundo não é de ninguém: é do quarteirão. Ele é de uma língua que já misturou com outra, e agora fala a terceira. O sotaque não entrega a origem, entrega só o trabalho de quem acreditou na terra da liberdade. O rosto, em certos dias, vira invisível. Hoje é um desses dias em que o corpo estrangeiro cai, mesmo quando nasceu na esquina.

Do outro lado da rua, alguns olham pro céu. Tem um helicóptero longe. É estranho: de repente, o lugar dele tem alfândega e rede de caça. De repente, ele acordou estrangeiro dentro da própria casa.

As crianças cantam uma cantiga sem letra fixa. O refrão vem e volta, vem e volta. A rua aprende o refrão com elas. Hoje tem carro sem placa.

Frases voam. A rua é uma guerrilha de informação, passando de varanda em varanda, de portão em portão, até virar silêncio organizado.

O açúcar, caído, mas o pote permanece cheio de cotidiano. Quando a porta se fecha, a cidade sintoniza: um cuidado. Um rádio clandestino que só funciona porque ninguém tenta ser herói, só tenta não deixar nenhum vizinho sozinho.

A rua segue. E a notícia segue junto, grudada no ar, repetindo baixinho: hoje, olho aberto. Hoje, porta aberta.


Enquanto o mundo se foca na geopolítica dos grandes tabuleiros, há resistência na escala de vizinhança. A lógica do ICE parece transformar rua em fronteira, e vizinhança em zona de operação. Com aumento forte de ações federais de imigração na área de Minneapolis, e presença ostensiva de agentes, uma onda de protestos, paralisações e mobilizações que se espalharam para outras cidades dos EUA.

A anacronia dada é: como um país que se construiu pela imigração e pela promessa de liberdade passa a procurar um “ser essencial” que nunca existiu, como se pudesse purificar a própria origem em um norte-americano padrão?

O que se vê, então, é a fabricação do estrangeiro dentro do lar, o deslocamento íntimo imposto por política: como uma metamorfose kafkiana, você acorda estrangeiro na casa, mal quisto no país que usa sua força de trabalho. É por isso que o conflito em Minnesota não soa como tema local. quando a fronteira atravessa a cidade por dentro, o Estado deixa de ser caminho de diálogo, a resistência reorganiza a vida comum.

E é justamente aí que a escala de vizinhança rompe o feitiço: olho no olho, redes de solidariedade, cuidado, alerta. Em vez de esperar salvação institucional, gente comum organiza monitoramento, abrigo, transporte, apoio material, e chega ao limite tático de travar a economia, como no “blackout”/greve geral convocado para 23 de janeiro, com a palavra de ordem contra U.S. Immigration and Customs Enforcement ecoando em cartazes e cantos, ICE OUT.  

É política territorial no sentido mais profundo: os olhos da rua protegendo os seus, enquanto o poder tenta caçar pessoas como ratos. Fievel chegando a Nova York fugindo de pogrom, Ligeirinho correndo na beira da fronteira, Splinter ensinando sobrevivência nos esgotos de Manhattan, Stuart Little tentando caber numa família. O Mickey é só mais um. O sonho americano não é Disney.

desenho de autoria propria – 2018
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Arquitetura é um colo de avó: pequenas reflexões para a prática nacional

A primeira lembrança que me atravessa quando se fala em interiores não é um catálogo de decoração, mas a casa da minha avó. Ali, a vida tinha escala de 1×1: o corpo inteiro cabia entre o bordado da capinha do gás, a máquina de costura que se transformava em carro de fórmula 1, o quintal que era ao mesmo tempo o mundo inteiro e  cantinho de acolhimento. É dessa escala íntima, olho no olho, que eu via nascer a arquitetura. A arquitetura é um colo de avó, um bolo de laranja quentinho na mesa, um sol que entra na fresta da janela.

No Brasil, a profissão foi arrastada para um dilema: somos vistos ora como luxo e supérfluo, ora como engrenagem de projetos estatais grandiosos e inacabados. No meio, fica o vazio: a vida cotidiana do povo.

Essa fratura não é apenas cultural; ela é estrutural, econômica. Em poucas décadas, deixamos de ocupar um lugar estratégico dentro do projeto nacional de desenvolvimento e passamos a ser percebidos como caros e substituíveis. A armadilha, a meu ver se aprofundou quando a profissão centralizou-se na lógica do luxo como um caminho único. E isso não é necessariamente uma crítica implacável à arquitetura de luxo, que tem seu espaço de direito na sociedade atual. 

O luxo funciona como dispositivo de status e exclusividade: molda o gosto, define o que é belo e desejável, mas apenas para uma fração ínfima da sociedade. A classe média, que em países industrializados sustenta tanto o consumo quanto a cultura material da sociedade, no Brasil nunca se consolidou plenamente. E os pobres, que são maioria, só nos enxergam quando o Estado entra em seus territórios com grandes obras, remoções ou empreendimentos de impacto praticamente autoritário. Fora disso, a figura do arquiteto desaparece de seu horizonte de vida, diferente do médico por exemplo.

Essa ausência tem consequências devastadoras. Quando o cotidiano das famílias não reconhece o arquiteto como parte de sua economia; alguém que resolve problemas espaciais urgentes, que age na escala doméstica, comunitária, de vizinhança, a profissão se isola. E quando uma categoria se isola, perde relevância social e política. É sintomático que, enquanto o país vivia a explosão de consumo de carros e imóveis nos anos 2000, embalado pela ascensão de milhões ao consumo básico, nós não conseguimos nos inserir como serviço acessível para essa massa. Continuamos restritos a dois pólos já citados: o do luxo exclusivo e o do planejamento estatal de megaprojetos. Ambos distantes da vida real.

É nesse ponto que precisamos recuperar uma lição das escalas. Há a escala da família: o sofá da avó, o banheiro que falta em tantas casas brasileiras, o quartinho inacabado do filho o espaço íntimo que define dignidade. Há a escala da comunidade: a rua onde se joga bola, a praça onde se organiza uma festa, a rede de solidariedade que sustenta bairros inteiros. E há a escala da multidão e do estatal: os fluxos da cidade, os planos que estruturam mobilidade, habitação e saúde coletiva. Claro, não são escalas fechadas, longe de mim querer atravessar a cidade por apenas três recortes possíveis, apenas simplifico para fins de dar algum inicio de pensamento sobre o tema. 

O arquiteto, ou o estudante de arquitetura precisa ser capaz de transitar entre essas dimensões, sem perder de vista que elas se conectam como sistema, como ensinavam os pensadores que viam o espaço não apenas como território físico, mas como campo de cidadania, de luta, de afetos.

Se a economia brasileira gira em torno de estratégias de mega exclusão e certa inclusão controlada para evitar grandes turbas disruptivas, a arquitetura não pode se reduzir ser apenas vitrine da exclusividade. A profissão precisa se reorganizar a partir da vida real, da urgência, daquele que não pode esperar seis meses por um projeto para então começar uma obra. Nosso trabalho tem de ser mais ágil, mais enraizado, mais próximo do cotidiano da maioria. Não se trata de reduzir a qualidade ou o rigor técnico, mas de reinventar formas de inserção econômica laboral: organizações coletivas, solidárias, mutirões, cooperativismos, abertas a novas economias de escala que vão do mutirão à assistência técnica, do microempreendimento comunitário às tecnologias sociais, da carreira de estado à arquitetura liberal de atendimento popular.

Sem uma estratégia econômica que inclua de fato o povo, não haverá campo de trabalho sustentável para a arquitetura. E sem arquitetos presentes no cotidiano popular, não haverá cidade justa. Entre o sofá da avó e os grandes planos da nação, existe uma vasta zona de vida que precisa ser ocupada, praticamente um universo de cores que se assemelha a um quadro de Pollock. É ali que a arquitetura pode recuperar sua relevância. Não como luxo, não como burocracia estatal distante, mas como prática social que desenha futuro a partir do olho no olho, da escala humana, daquilo que funda a dignidade de viver.

Para tal, temos uma missão: compreender, técnica e cientificamente, onde estamos e para onde podemos ir. Isso começa pelo gesto simples de olhar ao redor: o bairro, a rua, a casa do vizinho que precisa de um banheiro digno. Jovens arquitetos podem se organizar em coletivos, experimentar formatos de cooperativas, oferecer serviços acessíveis de assistência técnica, participar de mutirões de construção, articular-se com movimentos sociais e comunidades. Outros podem se dedicar ao setor público, disputando políticas urbanas e habitacionais de forma crítica. Há também espaço para a inovação: explorar tecnologias sociais, novos materiais e soluções sustentáveis de baixo custo.

O ponto é não esperar pela grande encomenda ou pelo concurso distante; é começar nos interstícios, nos entremeios, nos lugares que parecem pequenos, mas que são o coração da vida real. É ali que a arquitetura renasce como prática social. Não precisamos reinventar tudo de uma vez, nem sermos reféns de ferramentas. Afinal não é a ferramenta que define o arquiteto, é o arquiteto que define a ferramenta que vai utilizar. Basta iniciar os processos, criar redes e caminhar juntos. A relevância virá quando conseguirmos estar presentes na escala da família, da comunidade e da multidão, com a coragem de projetar os afetos dos mais pobres. Ou estamos presentes na escala da vida real, ou seremos apenas designers do privilégio.

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Brasil em Contradição: O Desenvolvimento que não quer pedir licença.

Brasil de fato: https://www.brasildefato.com.br/2025/05/24/lider-em-desmatamento-maranhao-acumula-conflitos-agrarios/

O Brasil vive momentos de aparente ascensão estratégica. A retomada de relações com blocos globais, especialmente a aproximação com a China, abre novas trilhas para a industrialização do Norte e Nordeste, regiões historicamente à margem do modelo de desenvolvimento nacional. Essa reorientação poderia sinalizar uma guinada justa, com mais equilíbrio territorial, autonomia energética e cooperação tecnológica Sul-Sul.

Sob a cortina de fumaça gerada pela prisão domiciliar de Bolsonaro, o Congresso avança no desmonte do licenciamento ambiental. Ironias à parte, trata-se de uma pauta essencialmente bolsonarista, quem não se lembra de Ricardo Salles mandando “passar a boiada”? O mais alarmante, no entanto, é que a flexibilização vem sendo aprovada com apoio expressivo de partidos da própria base ministerial do governo. A boiada agora atravessa novamente o plenário com selo de governabilidade.

Há nisso um problema profundo, recorrente e perigoso: o Brasil tenta construir um novo futuro, sempre com os mesmos vícios técnicos e políticos do passado. A tentativa de flexibilizar o licenciamento ambiental; vendida como “destravar o progresso”; ameaça corroer não só os ecossistemas, mas também a credibilidade internacional do país.

A erosão das salvaguardas ambientais expõe o Brasil a riscos estratégicos. Parcerias internacionais que se pautam por critérios ESG, por soberania alimentar e por transições verdes justas, começarão a desconfiar da validade de investir no País. Não se assina acordo com um País que desmonta seus mecanismos de controle ambiental enquanto a grilagem, jagunçagem e todo tipo de violencia territorial avançam sobre terras indígenas, áreas de proteção ambiental, biomas frageis e raros, reservas e zonas de recarga aquífera. O arco que se estende do Centro-Oeste à Amazônia Legal tornou-se um laboratório de guerra e destruição que ameaça travar qualquer agenda diplomática climática. Isso, em pleno ano de COP30!

Há, portanto, uma dicotomia gritante: de um lado, a construção de polos tecnológicos e produtivos no Nordeste, com apoio de infraestrutura ferroviária, energia limpa e intercâmbio científico. Que ajudaria o país a criar um desenvolvimento moderno que nunca teve. De outro, a legalização do desmatamento por omissão e a reprodução de velhos pactos extrativistas no coração do território nacional.

A crítica aqui não é à industrialização, nem à aproximação com potências não ocidentais. O erro está em imaginar que o mundo de 2025 permitirá um projeto de desenvolvimento que ignore os limites ecológicos do planeta. Defender este projeto é assumir que queremos como parceiros exploradores insensatos, milícias, grileiros, e tudo de pior que existe aqui e suas versões mundo a fora.

O trator do desenvolvimento não pode passar pelas florestas sem licença. O tempo da expansão predatória acabou. Países que insistem nisso tornar-se-ão párias comerciais e diplomáticos.

O que está em jogo é mais do que proteção de florestas, é a reinvenção do Brasil como parte de um ecossistema global de justiça, autonomia e regeneração. Um Brasil que tem toda condição de se tornar modelo global para um novo paradigma de nosso ser-estar no mundo. Um país que queira liderar o novo século não pode ser cúmplice de sua própria ruína.

Leituras complementares:

1 Correntão é vendido na internet como dicas para evitar fiscalização – aqui

2 Brazil’s congress passes bill to overhaul environmental regulations: – aqui

3 El Congreso de Brasil desmonta el pilar de la legislación ambiental del país y asesta otra derrota a Lula. – aqui

4 Brazil passes ‘devastation bill’ that drastically weakens environmental law: – aqui

5 Opponents Urge Lula to Veto Brazilian Lawmakers’ ‘Devastation Bill’ – aqui

6 Novo licenciamento ambiental opõe conservacionistas e indústria (Poder360) – aqui

7 Licenciamento ambiental à deriva- aqui

8 Brazil lawmakers gut environmental permitting ahead of COP30 summit (Reuters) – aqui

9 Crime and no punishment: Impunity shrouds killings of Indigenous Amazonian defenders- aqui

10 Esquema de ouro ilegal Yanomami envolve empresas milionárias acusadas de lavagem de recursos no Pará- aqui

11 Brazil: Illegal gold miners fatally shot in Indigenous territory – aqui

12 PF investiga morte de três yanomami por garimpeiros em Roraima- aqui

13 In Brazil, an Indigenous land defender’s unsolved killing is the deadly norm- aqui

14 Genocídio indígena: garimpo ilegal está matando crianças Yanomami- aqui

15 Inside the fight against illegal mining in the Amazon (Greenpeace)- aqui

16 Terra Yanomami é palco de “tragédia humanitária”- aqui

17 Brazil police bring formal charges in murder of environmental activists (JURIST)- aqui

18 Crime organizado avança e muda dinâmica no garimpo ilegal – aqui

19 Notícia do assassinato de três pessoas no garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami- aqui

20 Garimpo ilegal cresce 400% em terras indígenas em uma década, mostra estudo – aqui

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Inteligência Artificial e Arte

arte criada por IA, segundo a própria: inspirada em Romero Britto porém com um estilo IA de fazer.

Muito se debate hoje sobre o uso da Inteligência Artificial nas múltiplas esferas da arte. Em geral, esses debates caminham por dois prismas: de um lado, um medo quase ludita, comum diante de qualquer avanço tecnológico; de outro uma leitura corporativista que busca adequar a IA às lógicas atuais de mercado.

Mas há aspectos que também merecem atenção nesse debate: até onde vai o direito que as donas das ferramentas têm de coletar dados continuamente e utilizá-los por meio de mecanismos de aprendizado automatizados para expandir suas memórias.

As IAs, no entanto, possuem uma limitação: elas por si só não constroem pensamento próprio. Falta-lhes a complexidade de elaboração conceitual criativa. Elas apenas reorganizam e articulam conteúdos já produzidos, formando um material documental a partir disso. A arte de pensar ainda é, e talvez continue sendo por um tempo, uma prerrogativa nossa. Mal comparando, é como se as IA fossem um Google muito melhorado(é uma simplificação grosseira).

O eixo de debate que gostaria de destacar, porém, é a autoria. Curiosamente, os discursos anti-IA, sejam eles corporativos, luditas ou críticos do ponto de vista classista, parecem ter em comum um incômodo com o que vou chamar de “furto de autoria” pelas IAs. Talvez possamos simplificar o debate: considerar que uma obra feita por IA é de autoria da própria IA, ainda que limitada; ou considerá-la plágio, já que utiliza inúmeras referências sem qualquer citação; ou então assumir uma coautoria entre o ser humano que insere os comandos e o sistema que gera os resultados.

Mas vale a pena recuar um pouco na história da arte. Quando foi que deixamos de compreender a arte como expressão coletiva, representação de um território, de um povo, e passamos a tratá-la como expressão individual, com direito exclusivo à autoria? este sistema é muito funcional, pois, ao inserir a autoria individual e dar o peso de propriedade para a obra, podemos inseri-la no sistema de mercado. 

Vemos explodir uma série de IAs, ferramentas de tudo que é tipo, cada uma com uma função específica, úteis para atender um pedacinho específico do processo produtivo da arte. As IAs podem levar a indústria da arte a outro lugar. Ao automatizar inúmeros sistemas e, em alguns casos, ocupar o lugar do artista (leia-se, aquele que representa a face visível de um certo grupo empresarial). As ferramentas podem, sim, bagunçar um cenário. Porém, falamos aqui de um cenário que já é, por si só, bagunçado, superexplorado e ainda bastante aristocrático no seu modo de produção.

A verdade é essa, o mercado da arte hoje se sustenta sobre o sistema de autoria. Mas não falamos aqui do velho romantismo do artista genial isolado em seu ateliê. Autoria, nesse contexto, é um instrumento de valorização e comercialização.

Quantos seres humanos trabalharam com Michelangelo na Capela Sistina? Quantas pessoas são necessárias para que um show de arena da Anitta aconteça? Como já observava Marx, o trabalho humano é social por natureza. A criação artística, enquanto produto de trabalho, jamais é totalmente individual, ela é mediada por relações sociais, condições materiais e modos de produção. A noção de “gênio” isolado é um constructo moderno a serviço da mercantilização da arte, assim como a ideia de autoria é, muitas vezes, um dispositivo de propriedade que mascara as verdadeiras relações de produção.

A autoria, por si só, encobre um sistema produtivo que esmaga socialmente muitos, e poucos parecem perceber isso. Quem trabalha com arte, principalmente em uma escala independente, ainda acredita muito na quimera da visibilidade e mérito. E esta talvez seja a maior disputa. As IA são uma ferramenta com potencial capacidade de automatizar processos da indústria cultural, e parecem ser pensadas assim: como ferramentas para atender necessidades especificas de alguma indústria.

Nesse sentido, discutir autoria é também discutir propriedade privada e valor, e talvez o desconforto com a IA surja não porque ela “cria”, mas porque ela ameaça a lógica de escassez e fetichização que sustenta o mercado da arte contemporâneo. Um mercado que tornou-se tão subjetivo, que um dos maiores pesos no valor é a própria autoria, hoje ameaçada.

Quadro Heart Kids do Romero Britto
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Superposição do colapso – tarifas, algoritmos e alternativas do Sul

Hoje falamos muito em algoritmos, mas  lembro de quando tudo era quântico: palestras, filmes, conceitos, literatura. Saber física quântica parecia sinônimo de vida intelectual, mesmo que a gente entendesse pouco do que de fato estava falando, até hoje não sei se o gato de Schrödinger estava vivo ou morto, na verdade sequer sei escrever Schrödinger sem consultar o Google. Vivemos num mundo em que cada decisão parece conter todas as decisões possíveis, até que uma escolha se imponha ou um colapso ocorra. Aquilo que me soa como um labirinto borgeano, a física chamaria de superposição quântica. 

Se não fosse o algoritmo do Google, talvez eu nem soubesse que hoje é dia de celebrar esses conceitos. Na vida prática, chamamos isso de incerteza. Mas, ao contrário do mundo subatômico, nossos dilemas não colapsam por leis naturais, são empurrados por interesses, movidos por algoritmos e tensionados por forças geopolíticas.

A recente decisão de Donald Trump em retomar tarifas contra a China, a meu ver, não revela um equívoco ou protecionismo antiquado. Considero que se trata mais de uma ação de guerra de poder e medo. A guerra tarifária, por sua vez, é só um sintoma de algo mais profundo: a incapacidade dos antigos centros de poder de sustentar a ficção de crescimento contínuo num planeta exaurido, hiperconectado e radicalmente desigual. 

Trump, ao colocar em xeque a confiança no dólar, expõe o esgotamento de uma ordem que ainda se sustenta pela inércia. Enquanto a Casa Branca tenta manipular a bola do jogo a seu favor, Wall Street já precifica a estagnação e o capital global pressente a necessidade de reorganizar seu campo (ou as regras, ou a bola), talvez além do dólar.

Quando o sistema produtivo global ganha autonomia, o centro perde o comando da engrenagem. A China, com sua força produtiva e avanço tecnológico, representa uma ameaça real ao modelo ocidental, não só econômica, mas também política. Talvez por isso, os EUA imponham além de tarifas, barreiras diplomáticas, tecnológicas e militares. Além da China, outras referências surgem do Oriente. Uma explosão de subjetividades que deixou de ser exótica ou folclórica descentralizam a hegemonia do entretenimento americano. O BTS substituiu o N’SYNC; antes deles, o fenômeno Gangnam Style já sinalizava um entretenimento internacional com identidade própria. Nada disso foi acaso. Trata-se de um projeto nacional estratégico da Coreia do Sul.

Nesse ponto, a tentativa americana de restaurar seu domínio por meio de tarifas escancara uma certa impotência atual, quase como uma última cartada da vida. Tarifas não reconstroem cadeias produtivas, não requalificam trabalhadores, não recupera subjetividades e tampouco geram inovação orgânica. No máximo, adiam a implosão de um modelo insustentável. Ao fazer isso, alimentam tensões globais, inflamam nacionalismos econômicos e aprofundam desigualdades. Trump aposta alto, um lance que pode não ter volta.

O colapso da superposição quântica está em curso. Tarifas, algoritmos  e acordos comerciais disputam quem vai conduzir o novo ciclo. Mas talvez o caminho não seja escolher uma trilha dominante. Talvez seja hora de aprendermos com as margens, com as economias informais, com a inteligência prática de quem sempre viveu fora da lógica centralizada. Até porque, mesmo em uma reestruturação do capital, ainda seremos margem. 

Em meio à guerra tarifária, precisamos desenhar uma racionalidade econômica que não dependa dos conflitos comerciais atuais, nem da volatilidade financeira. Uma economia que funcione mesmo sem PIBs exuberantes, porque se ancora em vínculos reais e não em promessas especulativas. Uma economia, onde o novo lastro possa ser gerado pela partilha, como num belo sistema P2P de compartilhamento de dados.

No Brasil, cooperativas agroecológicas enfrentam o agronegócio exportador. No Senegal, startups solares descentralizam o acesso à energia. Na Índia, o sistema público de saúde convive com inovação tecnológica. Essas experiências não prometem utopias, são tentativas práticas de uma nova forma de viver e produzir.

Assim, o Sul Global observa e age. Experimenta soluções locais, modelos híbridos de produção e redes descentralizadas de troca. A reorganização do capital que nos favorece não virá de Davos. O que parece hoje disperso e marginal pode se tornar central, num mundo em que as velhas engrenagens emperram. Centralidade que nasce das bordas, dos territórios sempre negligenciados que agora, aos poucos, cultivam autonomia.

Nosso desafio é abandonar o olhar exótico e reconhecer essas experiências como fundamentos de outra ordem econômica. Uma construção que redesenhe o sentido de valor: não mais centrado no dólar, mas ancorado em novos ativos, como a floresta em pé, a energia limpa, o saber tradicional, para além de  resistir, é hora de propor. De formar pactos sustentáveis entre os excluídos de ontem, para que sejam os arquitetos do amanhã.

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Trump e tarifaço: o dólar como arma de guerra

meme reproduzido das redes de internet

Donald Trump tem um projeto: recentralizar os Estados Unidos no jogo global e decide fazê-lo por meio do conflito. Assim como o jovem que, ao jogar War se vê perdendo e simplesmente bagunça o tabuleiro todo, lembrando para os amigos que as peças do  jogo são dele. Assume o comércio mundial como uma arena de disputa por poder real onde, para ele, os EUA estão perdendo, apesar de serem os emissores da moeda lastro. A crítica de Trump ao sistema é profunda e não creio que seus cálculos sejam infantis. O que ele sabe é: independente das regras do jogo, ele tem a bola, o dólar e quem tem a bola define se a brincadeira é futebol ou vôlei ou, o mais provável, alguma brincadeira com regras inventadas por ele.

Por mais que para muitos soe uma prática antiquada de protecionismo, não o é. Trump explode uma subjetividade que responde ao americano de classe média estagnado na economia que a mesma não é um elemento neutral e estável. Enquanto, historicamente, trabalhadores vêm perdendo empregos, fábricas saem do país migrando para países mais estratégicos do sistema internacional e a infraestrutura se degrada. Lembremos aqui de Detroit, que em julho de 2013 decretou falência, se tornando a maior cidade dos EUA a fazer isso.  Enquanto isso, países asiáticos e europeus acumulam reservas em dólar, compram dívida americana e exportam seus produtos para os EUA com vantagens cambiais que, segundo Trump, jamais seriam aceitas se fosse o inverso.

O dólar, pilar da ordem financeira internacional, é ao mesmo tempo fonte de prestígio e fraqueza. Sua hegemonia faz com que os EUA possam se endividar à vontade e manter um aparato militar gigantesco. Assim, cria uma máquina de poder extremamente forte no mundo. Seu principal conflito, me parece ser contra o sistema financeiro internacional que mantém artificializada o valor de sua moeda para a boa operação do sistema especulativo global em detrimento do sistema produtivo industrial das nações.

A resposta de Trump a esse cenário é a ruptura, lhe interessa o impacto, sua política tarifária instrumentaliza o desequilíbrio monetário e produtivo global, força a valorização das moedas estrangeiras, força o reestudo de logísticas de produtos e de mudanças de sites industriais. Trump força o mundo a aceitar um dólar mais fraco sem que os EUA percam o privilégio da hegemonia da moeda.

Trump aposta no limiar do colapso, como mesa de negociação com o mundo. É uma estratégia de alto risco, flerta com crises globais e instabilidades duradouras. Mas, para ele, é melhor provocar o terremoto do que continuar enterrado sob os escombros de um sistema que já não serve aos interesses americanos (na sua visão).

Ao tentar reconstruir o jogo do poder a partir do abalo sísmico. Trump joga as fichas porque acredita que todos voltarão à mesa? talvez. Mas, dessa vez, com novas cartas e novas regras feitas por ele. Esse projeto se sustentará? Tudo depende de como as nações afetadas irão se articular na reorganização de seus mercados.

E até nisso a operação foi interessantemente sofisticada. As bruscas diferenças de tarifas colocam o mundo em duas disputas concomitantes: Países como o Brasil se tornam atrativos como um canteiro industrial, enquanto China e outros são hipertaxados.  Trump não racha o mundo em um Todos contra Trump, ele racha em uma disputa onde redefine a ordem das desigualdades entre as nações. Algumas subitamente ganham oportunidades atraentes enquanto outras sofrerão as sanções.

Seu plano é mais político do que econômico. Envolve diplomacia direta, bilateral, baseada na força, e disputas constantes. Trump traz o mundo para uma negociação olho no olho, país a país.. Para uns, exigirá compra de armas; para outros, que migrem fábricas para solo americano. Quem não aceitar suas condições, enfrentará tarifas, retaliações e, em último caso, o uso do poder militar como elemento de pressão. Este é o recrudescimento de um Estado de Guerra que ainda tem seu dinheiro, leia-se confiança de mercado, como lastro da economia global. O que nos parece loucura é apenas uma guerra em curso.

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O fim da CLT está só começando

No início da noite de um domingo chuvoso no Rio de Janeiro, deparo-me com a seguinte matéria:“prefiro sair. Pedidos de demissão batem recorde e já são quase 38% do total de dispensas” link ; Ainda junto a esta, li “Crianças demonizam CLT’: carteira assinada vira ofensa entre os jovens” link . Precisamos refletir sobre. 

O Brasil enfrenta um fenômeno crescente de evasão de trabalhadores do regime CLT, demonstrando uma tendência de recusa à exploração laboral tradicional. Explicações psicológicas individualizadas têm sido propostas, mas não respondem à complexidade da realidade. É importante considerar fatores estruturais e coletivos que moldam o desmonte das relações trabalhistas.

Desde 2016, o Brasil passou por reformas que enfraqueceram as leis previdenciárias, trabalhistas e sindicais, desmantelando proteções históricas não apenas dos trabalhadores, mas também dos empregadores, afinal, o sindicato é um instrumento legal de negociação dos dissensos entre as partes. Esse processo resultou em uma reorganização do mercado de trabalho, onde o vínculo formal perde atratividade tanto para quem contrata quanto para quem busca emprego. As empresas, ao promoverem a flexibilização, agora enfrentam dificuldades em atrair trabalhadores para posições formais, evidenciando uma contradição em suas próprias estratégias de mercado.

Devemos acender aqui um sinal amarelo. Tracemos um paralelo com a experiência africana, que oferece elementos valiosos para reflexão. Em muitas nações da África Subsaariana, a economia informal predomina, empregando entre 60% e 80% da força de trabalho e contribuindo significativamente para o PIB. Embora forneça meios de subsistência, essa informalidade está associada à ausência de proteção social e à hiper vulnerabilidade econômica. Em Gana, por exemplo, a criação da Union of Informal Workers Associations, refletiu a época, a urgência de construir estruturas representativas para os trabalhadores invisíveis, que sobrevivem à margem da formalidade.

Sem uma economia organizada em torno de uma estratégia de nação, os governos têm enorme dificuldade de promover melhorias significativas. O resultado é um ambiente que beira a barbárie, com conflitos civis mal resolvidos e lutas desesperadas pela sobrevivência, que muitas vezes culminam no êxodo de jovens e famílias inteiras para países europeus, em busca de um sonho vendido pelo capital, que não passa de miragem.

Nesse contexto, a promoção do autoempreendedorismo como resposta ao desemprego cria uma corrida solitária pelo ouro perdido. Indivíduos competem em um mercado saturado, sem direitos, proteções e seguridades do trabalho formal. Essa dinâmica resulta em instabilidade econômica e social, dificultando inclusive a implementação de políticas públicas estruturantes e a atração de novos investimentos para o país.

Necessidade de Reestruturação Sindical e Proteção Social

Para evitar um ciclo de precarização irreversível e o colapso, é essencial que o Brasil promova uma reforma sindical robusta, que fortaleça a representação dos trabalhadores e estimule negociações coletivas efetivas. Políticas que incentivem a formalização do trabalho, a construção de um sistema de bem-estar social e o desenvolvimento humano são importantes para garantir a estabilidade econômica e social. A experiência africana nos mostra que, embora a informalidade possa funcionar como rede de sobrevivência, ela limita qualquer projeto de crescimento inclusivo e sustentável. O empreendedorismo nem sempre traz dinheiro fácil, na maioria das vezes ele seduz porque entrega algum dinheiro rápido, mas que, por ser escasso e volátil, se dissipa sem deixar raízes para o futuro. “Dinheiro na mão é vendaval”.

O sindicalismo, por sua vez, precisará reaprender a caminhar sobre o novo solo das lutas. A luta dos precários atravessa outros territórios, físicos e virtuais, e exige novas formas de mobilização, para além da clássica negociação entre patrões e empregados. Precisamos mapear a nova geografia do trabalho e ocupar, com coragem e estratégia, os territórios por onde caminha.

O Brasil está em um ponto crítico, onde decisões sobre políticas trabalhistas e sindicais terão impactos duradouros. Aprender com as experiências de outras nações e reconhecer a importância de estruturas de proteção coletiva será vital para construir um campo de trabalho equilibrado. Se os campos que estão mais sentindo como: construção civil, um dos motores da economia do Brasil, não se atentarem a estas reais necessidades, o que veremos é a degradação que pode não ter volta. 

O Brasil está em uma encruzilhada histórica. As decisões que tomarmos sobre as relações de trabalho e o papel dos sindicatos impactarão significativamente o futuro do país. Se setores estratégicos, como a construção civil, um dos motores da economia nacional, não se atentarem à gravidade do cenário, presenciaremos uma degradação profunda e, talvez, irreversível.

Assim, precisamos alinhar o debate na direção que ele precisa ser tratado: o das lutas coletivas e relações de trabalho, e não o psicológico-social que faz parecer que os jovens estão iludidos, quando na verdade eles estão simplesmente pesando o seu preço real no mercado de trabalho. se eles não precisam neste momento se submeter a salários defasados, falta de direitos, jornadas exorbitantes como as 6×1, assédio moral, entre outros, eles estão certos em não ir trabalhar. O erro dos jovens está em não conseguirem se organizar coletivamente para enfrentar o vilipêndio que foi a destruição do fraco sistema de bem estar social do Brasil e esta é uma luta a qual gostaria de convocar com este texto. 

É preciso alinhar o debate ao que realmente está em jogo: as lutas coletivas e as relações de trabalho. Não podemos mais aceitar apenas análise psicológica que retrata os jovens como mimados ou iludidos por não aceitarem trabalho CLT. Eles estão, na verdade, fazendo um cálculo objetivo e subjetivo, embebidos da subjetividade do autoempreendedorismo, avaliam o custo de se submeter a jornadas abusivas, salários aviltantes, assédio moral e ausência de direitos. E estão certos em não aceitar esse jogo, vão arriscar enquanto são jovens o outro caminho que lhes é aberto pelo capital, a corrida do ouro perdido. O erro, se é que se pode chamar assim, está na falta de organização coletiva para enfrentar o saque sistemático ao que restava do já frágil sistema de proteção social brasileiro. Esta é a luta à qual este texto deseja convocar.

Para o mercado que achou que o desmonte seria o fim dos sindicatos só esqueceu de uma coisa básica: não são os sindicatos que constroem as lutas, são as lutas que constroem os sindicatos. O desmonte criará um sindicalismo diferente que poderá ser mais visceral e combativo diante do massacre popular.  

Ao mercado que acreditou que o desmonte selaria o fim dos sindicatos, um recado: esqueceram do fundamento! Não são os sindicatos que constroem as lutas; são as lutas que constroem os sindicatos. E quando o povo voltar às ruas, às redes e às praças, não vai ser de paletó e crachá, virá selvagem. Virá com fome, com raiva e com uma clareza feroz de que ou este país se reconstrói a partir do trabalhador, ou arderá em sua própria injustiça, e esta será a cara do sindicalismo. Sua nova forma, ainda não sabemos.

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