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Inteligência Artificial e Arte

arte criada por IA, segundo a própria: inspirada em Romero Britto porém com um estilo IA de fazer.

Muito se debate hoje sobre o uso da Inteligência Artificial nas múltiplas esferas da arte. Em geral, esses debates caminham por dois prismas: de um lado, um medo quase ludita, comum diante de qualquer avanço tecnológico; de outro uma leitura corporativista que busca adequar a IA às lógicas atuais de mercado.

Mas há aspectos que também merecem atenção nesse debate: até onde vai o direito que as donas das ferramentas têm de coletar dados continuamente e utilizá-los por meio de mecanismos de aprendizado automatizados para expandir suas memórias.

As IAs, no entanto, possuem uma limitação: elas por si só não constroem pensamento próprio. Falta-lhes a complexidade de elaboração conceitual criativa. Elas apenas reorganizam e articulam conteúdos já produzidos, formando um material documental a partir disso. A arte de pensar ainda é, e talvez continue sendo por um tempo, uma prerrogativa nossa. Mal comparando, é como se as IA fossem um Google muito melhorado(é uma simplificação grosseira).

O eixo de debate que gostaria de destacar, porém, é a autoria. Curiosamente, os discursos anti-IA, sejam eles corporativos, luditas ou críticos do ponto de vista classista, parecem ter em comum um incômodo com o que vou chamar de “furto de autoria” pelas IAs. Talvez possamos simplificar o debate: considerar que uma obra feita por IA é de autoria da própria IA, ainda que limitada; ou considerá-la plágio, já que utiliza inúmeras referências sem qualquer citação; ou então assumir uma coautoria entre o ser humano que insere os comandos e o sistema que gera os resultados.

Mas vale a pena recuar um pouco na história da arte. Quando foi que deixamos de compreender a arte como expressão coletiva, representação de um território, de um povo, e passamos a tratá-la como expressão individual, com direito exclusivo à autoria? este sistema é muito funcional, pois, ao inserir a autoria individual e dar o peso de propriedade para a obra, podemos inseri-la no sistema de mercado. 

Vemos explodir uma série de IAs, ferramentas de tudo que é tipo, cada uma com uma função específica, úteis para atender um pedacinho específico do processo produtivo da arte. As IAs podem levar a indústria da arte a outro lugar. Ao automatizar inúmeros sistemas e, em alguns casos, ocupar o lugar do artista (leia-se, aquele que representa a face visível de um certo grupo empresarial). As ferramentas podem, sim, bagunçar um cenário. Porém, falamos aqui de um cenário que já é, por si só, bagunçado, superexplorado e ainda bastante aristocrático no seu modo de produção.

A verdade é essa, o mercado da arte hoje se sustenta sobre o sistema de autoria. Mas não falamos aqui do velho romantismo do artista genial isolado em seu ateliê. Autoria, nesse contexto, é um instrumento de valorização e comercialização.

Quantos seres humanos trabalharam com Michelangelo na Capela Sistina? Quantas pessoas são necessárias para que um show de arena da Anitta aconteça? Como já observava Marx, o trabalho humano é social por natureza. A criação artística, enquanto produto de trabalho, jamais é totalmente individual, ela é mediada por relações sociais, condições materiais e modos de produção. A noção de “gênio” isolado é um constructo moderno a serviço da mercantilização da arte, assim como a ideia de autoria é, muitas vezes, um dispositivo de propriedade que mascara as verdadeiras relações de produção.

A autoria, por si só, encobre um sistema produtivo que esmaga socialmente muitos, e poucos parecem perceber isso. Quem trabalha com arte, principalmente em uma escala independente, ainda acredita muito na quimera da visibilidade e mérito. E esta talvez seja a maior disputa. As IA são uma ferramenta com potencial capacidade de automatizar processos da indústria cultural, e parecem ser pensadas assim: como ferramentas para atender necessidades especificas de alguma indústria.

Nesse sentido, discutir autoria é também discutir propriedade privada e valor, e talvez o desconforto com a IA surja não porque ela “cria”, mas porque ela ameaça a lógica de escassez e fetichização que sustenta o mercado da arte contemporâneo. Um mercado que tornou-se tão subjetivo, que um dos maiores pesos no valor é a própria autoria, hoje ameaçada.

Quadro Heart Kids do Romero Britto
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Superposição do colapso – tarifas, algoritmos e alternativas do Sul

Hoje falamos muito em algoritmos, mas  lembro de quando tudo era quântico: palestras, filmes, conceitos, literatura. Saber física quântica parecia sinônimo de vida intelectual, mesmo que a gente entendesse pouco do que de fato estava falando, até hoje não sei se o gato de Schrödinger estava vivo ou morto, na verdade sequer sei escrever Schrödinger sem consultar o Google. Vivemos num mundo em que cada decisão parece conter todas as decisões possíveis, até que uma escolha se imponha ou um colapso ocorra. Aquilo que me soa como um labirinto borgeano, a física chamaria de superposição quântica. 

Se não fosse o algoritmo do Google, talvez eu nem soubesse que hoje é dia de celebrar esses conceitos. Na vida prática, chamamos isso de incerteza. Mas, ao contrário do mundo subatômico, nossos dilemas não colapsam por leis naturais, são empurrados por interesses, movidos por algoritmos e tensionados por forças geopolíticas.

A recente decisão de Donald Trump em retomar tarifas contra a China, a meu ver, não revela um equívoco ou protecionismo antiquado. Considero que se trata mais de uma ação de guerra de poder e medo. A guerra tarifária, por sua vez, é só um sintoma de algo mais profundo: a incapacidade dos antigos centros de poder de sustentar a ficção de crescimento contínuo num planeta exaurido, hiperconectado e radicalmente desigual. 

Trump, ao colocar em xeque a confiança no dólar, expõe o esgotamento de uma ordem que ainda se sustenta pela inércia. Enquanto a Casa Branca tenta manipular a bola do jogo a seu favor, Wall Street já precifica a estagnação e o capital global pressente a necessidade de reorganizar seu campo (ou as regras, ou a bola), talvez além do dólar.

Quando o sistema produtivo global ganha autonomia, o centro perde o comando da engrenagem. A China, com sua força produtiva e avanço tecnológico, representa uma ameaça real ao modelo ocidental, não só econômica, mas também política. Talvez por isso, os EUA imponham além de tarifas, barreiras diplomáticas, tecnológicas e militares. Além da China, outras referências surgem do Oriente. Uma explosão de subjetividades que deixou de ser exótica ou folclórica descentralizam a hegemonia do entretenimento americano. O BTS substituiu o N’SYNC; antes deles, o fenômeno Gangnam Style já sinalizava um entretenimento internacional com identidade própria. Nada disso foi acaso. Trata-se de um projeto nacional estratégico da Coreia do Sul.

Nesse ponto, a tentativa americana de restaurar seu domínio por meio de tarifas escancara uma certa impotência atual, quase como uma última cartada da vida. Tarifas não reconstroem cadeias produtivas, não requalificam trabalhadores, não recupera subjetividades e tampouco geram inovação orgânica. No máximo, adiam a implosão de um modelo insustentável. Ao fazer isso, alimentam tensões globais, inflamam nacionalismos econômicos e aprofundam desigualdades. Trump aposta alto, um lance que pode não ter volta.

O colapso da superposição quântica está em curso. Tarifas, algoritmos  e acordos comerciais disputam quem vai conduzir o novo ciclo. Mas talvez o caminho não seja escolher uma trilha dominante. Talvez seja hora de aprendermos com as margens, com as economias informais, com a inteligência prática de quem sempre viveu fora da lógica centralizada. Até porque, mesmo em uma reestruturação do capital, ainda seremos margem. 

Em meio à guerra tarifária, precisamos desenhar uma racionalidade econômica que não dependa dos conflitos comerciais atuais, nem da volatilidade financeira. Uma economia que funcione mesmo sem PIBs exuberantes, porque se ancora em vínculos reais e não em promessas especulativas. Uma economia, onde o novo lastro possa ser gerado pela partilha, como num belo sistema P2P de compartilhamento de dados.

No Brasil, cooperativas agroecológicas enfrentam o agronegócio exportador. No Senegal, startups solares descentralizam o acesso à energia. Na Índia, o sistema público de saúde convive com inovação tecnológica. Essas experiências não prometem utopias, são tentativas práticas de uma nova forma de viver e produzir.

Assim, o Sul Global observa e age. Experimenta soluções locais, modelos híbridos de produção e redes descentralizadas de troca. A reorganização do capital que nos favorece não virá de Davos. O que parece hoje disperso e marginal pode se tornar central, num mundo em que as velhas engrenagens emperram. Centralidade que nasce das bordas, dos territórios sempre negligenciados que agora, aos poucos, cultivam autonomia.

Nosso desafio é abandonar o olhar exótico e reconhecer essas experiências como fundamentos de outra ordem econômica. Uma construção que redesenhe o sentido de valor: não mais centrado no dólar, mas ancorado em novos ativos, como a floresta em pé, a energia limpa, o saber tradicional, para além de  resistir, é hora de propor. De formar pactos sustentáveis entre os excluídos de ontem, para que sejam os arquitetos do amanhã.

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Trump e tarifaço: o dólar como arma de guerra

meme reproduzido das redes de internet

Donald Trump tem um projeto: recentralizar os Estados Unidos no jogo global e decide fazê-lo por meio do conflito. Assim como o jovem que, ao jogar War se vê perdendo e simplesmente bagunça o tabuleiro todo, lembrando para os amigos que as peças do  jogo são dele. Assume o comércio mundial como uma arena de disputa por poder real onde, para ele, os EUA estão perdendo, apesar de serem os emissores da moeda lastro. A crítica de Trump ao sistema é profunda e não creio que seus cálculos sejam infantis. O que ele sabe é: independente das regras do jogo, ele tem a bola, o dólar e quem tem a bola define se a brincadeira é futebol ou vôlei ou, o mais provável, alguma brincadeira com regras inventadas por ele.

Por mais que para muitos soe uma prática antiquada de protecionismo, não o é. Trump explode uma subjetividade que responde ao americano de classe média estagnado na economia que a mesma não é um elemento neutral e estável. Enquanto, historicamente, trabalhadores vêm perdendo empregos, fábricas saem do país migrando para países mais estratégicos do sistema internacional e a infraestrutura se degrada. Lembremos aqui de Detroit, que em julho de 2013 decretou falência, se tornando a maior cidade dos EUA a fazer isso.  Enquanto isso, países asiáticos e europeus acumulam reservas em dólar, compram dívida americana e exportam seus produtos para os EUA com vantagens cambiais que, segundo Trump, jamais seriam aceitas se fosse o inverso.

O dólar, pilar da ordem financeira internacional, é ao mesmo tempo fonte de prestígio e fraqueza. Sua hegemonia faz com que os EUA possam se endividar à vontade e manter um aparato militar gigantesco. Assim, cria uma máquina de poder extremamente forte no mundo. Seu principal conflito, me parece ser contra o sistema financeiro internacional que mantém artificializada o valor de sua moeda para a boa operação do sistema especulativo global em detrimento do sistema produtivo industrial das nações.

A resposta de Trump a esse cenário é a ruptura, lhe interessa o impacto, sua política tarifária instrumentaliza o desequilíbrio monetário e produtivo global, força a valorização das moedas estrangeiras, força o reestudo de logísticas de produtos e de mudanças de sites industriais. Trump força o mundo a aceitar um dólar mais fraco sem que os EUA percam o privilégio da hegemonia da moeda.

Trump aposta no limiar do colapso, como mesa de negociação com o mundo. É uma estratégia de alto risco, flerta com crises globais e instabilidades duradouras. Mas, para ele, é melhor provocar o terremoto do que continuar enterrado sob os escombros de um sistema que já não serve aos interesses americanos (na sua visão).

Ao tentar reconstruir o jogo do poder a partir do abalo sísmico. Trump joga as fichas porque acredita que todos voltarão à mesa? talvez. Mas, dessa vez, com novas cartas e novas regras feitas por ele. Esse projeto se sustentará? Tudo depende de como as nações afetadas irão se articular na reorganização de seus mercados.

E até nisso a operação foi interessantemente sofisticada. As bruscas diferenças de tarifas colocam o mundo em duas disputas concomitantes: Países como o Brasil se tornam atrativos como um canteiro industrial, enquanto China e outros são hipertaxados.  Trump não racha o mundo em um Todos contra Trump, ele racha em uma disputa onde redefine a ordem das desigualdades entre as nações. Algumas subitamente ganham oportunidades atraentes enquanto outras sofrerão as sanções.

Seu plano é mais político do que econômico. Envolve diplomacia direta, bilateral, baseada na força, e disputas constantes. Trump traz o mundo para uma negociação olho no olho, país a país.. Para uns, exigirá compra de armas; para outros, que migrem fábricas para solo americano. Quem não aceitar suas condições, enfrentará tarifas, retaliações e, em último caso, o uso do poder militar como elemento de pressão. Este é o recrudescimento de um Estado de Guerra que ainda tem seu dinheiro, leia-se confiança de mercado, como lastro da economia global. O que nos parece loucura é apenas uma guerra em curso.

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O fim da CLT está só começando

No início da noite de um domingo chuvoso no Rio de Janeiro, deparo-me com a seguinte matéria:“prefiro sair. Pedidos de demissão batem recorde e já são quase 38% do total de dispensas” link ; Ainda junto a esta, li “Crianças demonizam CLT’: carteira assinada vira ofensa entre os jovens” link . Precisamos refletir sobre. 

O Brasil enfrenta um fenômeno crescente de evasão de trabalhadores do regime CLT, demonstrando uma tendência de recusa à exploração laboral tradicional. Explicações psicológicas individualizadas têm sido propostas, mas não respondem à complexidade da realidade. É importante considerar fatores estruturais e coletivos que moldam o desmonte das relações trabalhistas.

Desde 2016, o Brasil passou por reformas que enfraqueceram as leis previdenciárias, trabalhistas e sindicais, desmantelando proteções históricas não apenas dos trabalhadores, mas também dos empregadores, afinal, o sindicato é um instrumento legal de negociação dos dissensos entre as partes. Esse processo resultou em uma reorganização do mercado de trabalho, onde o vínculo formal perde atratividade tanto para quem contrata quanto para quem busca emprego. As empresas, ao promoverem a flexibilização, agora enfrentam dificuldades em atrair trabalhadores para posições formais, evidenciando uma contradição em suas próprias estratégias de mercado.

Devemos acender aqui um sinal amarelo. Tracemos um paralelo com a experiência africana, que oferece elementos valiosos para reflexão. Em muitas nações da África Subsaariana, a economia informal predomina, empregando entre 60% e 80% da força de trabalho e contribuindo significativamente para o PIB. Embora forneça meios de subsistência, essa informalidade está associada à ausência de proteção social e à hiper vulnerabilidade econômica. Em Gana, por exemplo, a criação da Union of Informal Workers Associations, refletiu a época, a urgência de construir estruturas representativas para os trabalhadores invisíveis, que sobrevivem à margem da formalidade.

Sem uma economia organizada em torno de uma estratégia de nação, os governos têm enorme dificuldade de promover melhorias significativas. O resultado é um ambiente que beira a barbárie, com conflitos civis mal resolvidos e lutas desesperadas pela sobrevivência, que muitas vezes culminam no êxodo de jovens e famílias inteiras para países europeus, em busca de um sonho vendido pelo capital, que não passa de miragem.

Nesse contexto, a promoção do autoempreendedorismo como resposta ao desemprego cria uma corrida solitária pelo ouro perdido. Indivíduos competem em um mercado saturado, sem direitos, proteções e seguridades do trabalho formal. Essa dinâmica resulta em instabilidade econômica e social, dificultando inclusive a implementação de políticas públicas estruturantes e a atração de novos investimentos para o país.

Necessidade de Reestruturação Sindical e Proteção Social

Para evitar um ciclo de precarização irreversível e o colapso, é essencial que o Brasil promova uma reforma sindical robusta, que fortaleça a representação dos trabalhadores e estimule negociações coletivas efetivas. Políticas que incentivem a formalização do trabalho, a construção de um sistema de bem-estar social e o desenvolvimento humano são importantes para garantir a estabilidade econômica e social. A experiência africana nos mostra que, embora a informalidade possa funcionar como rede de sobrevivência, ela limita qualquer projeto de crescimento inclusivo e sustentável. O empreendedorismo nem sempre traz dinheiro fácil, na maioria das vezes ele seduz porque entrega algum dinheiro rápido, mas que, por ser escasso e volátil, se dissipa sem deixar raízes para o futuro. “Dinheiro na mão é vendaval”.

O sindicalismo, por sua vez, precisará reaprender a caminhar sobre o novo solo das lutas. A luta dos precários atravessa outros territórios, físicos e virtuais, e exige novas formas de mobilização, para além da clássica negociação entre patrões e empregados. Precisamos mapear a nova geografia do trabalho e ocupar, com coragem e estratégia, os territórios por onde caminha.

O Brasil está em um ponto crítico, onde decisões sobre políticas trabalhistas e sindicais terão impactos duradouros. Aprender com as experiências de outras nações e reconhecer a importância de estruturas de proteção coletiva será vital para construir um campo de trabalho equilibrado. Se os campos que estão mais sentindo como: construção civil, um dos motores da economia do Brasil, não se atentarem a estas reais necessidades, o que veremos é a degradação que pode não ter volta. 

O Brasil está em uma encruzilhada histórica. As decisões que tomarmos sobre as relações de trabalho e o papel dos sindicatos impactarão significativamente o futuro do país. Se setores estratégicos, como a construção civil, um dos motores da economia nacional, não se atentarem à gravidade do cenário, presenciaremos uma degradação profunda e, talvez, irreversível.

Assim, precisamos alinhar o debate na direção que ele precisa ser tratado: o das lutas coletivas e relações de trabalho, e não o psicológico-social que faz parecer que os jovens estão iludidos, quando na verdade eles estão simplesmente pesando o seu preço real no mercado de trabalho. se eles não precisam neste momento se submeter a salários defasados, falta de direitos, jornadas exorbitantes como as 6×1, assédio moral, entre outros, eles estão certos em não ir trabalhar. O erro dos jovens está em não conseguirem se organizar coletivamente para enfrentar o vilipêndio que foi a destruição do fraco sistema de bem estar social do Brasil e esta é uma luta a qual gostaria de convocar com este texto. 

É preciso alinhar o debate ao que realmente está em jogo: as lutas coletivas e as relações de trabalho. Não podemos mais aceitar apenas análise psicológica que retrata os jovens como mimados ou iludidos por não aceitarem trabalho CLT. Eles estão, na verdade, fazendo um cálculo objetivo e subjetivo, embebidos da subjetividade do autoempreendedorismo, avaliam o custo de se submeter a jornadas abusivas, salários aviltantes, assédio moral e ausência de direitos. E estão certos em não aceitar esse jogo, vão arriscar enquanto são jovens o outro caminho que lhes é aberto pelo capital, a corrida do ouro perdido. O erro, se é que se pode chamar assim, está na falta de organização coletiva para enfrentar o saque sistemático ao que restava do já frágil sistema de proteção social brasileiro. Esta é a luta à qual este texto deseja convocar.

Para o mercado que achou que o desmonte seria o fim dos sindicatos só esqueceu de uma coisa básica: não são os sindicatos que constroem as lutas, são as lutas que constroem os sindicatos. O desmonte criará um sindicalismo diferente que poderá ser mais visceral e combativo diante do massacre popular.  

Ao mercado que acreditou que o desmonte selaria o fim dos sindicatos, um recado: esqueceram do fundamento! Não são os sindicatos que constroem as lutas; são as lutas que constroem os sindicatos. E quando o povo voltar às ruas, às redes e às praças, não vai ser de paletó e crachá, virá selvagem. Virá com fome, com raiva e com uma clareza feroz de que ou este país se reconstrói a partir do trabalhador, ou arderá em sua própria injustiça, e esta será a cara do sindicalismo. Sua nova forma, ainda não sabemos.

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Entre Carnavais, Sindicatos e lutas antimanicomiais, celebremos Ivone Lara e Império Serrano

Em um carnaval conectado pela festa, pelas lutas e pelo 8M, falemos a respeito. Entre o samba, a saúde pública e o sindicalismo operário, nasce uma potência oculta nas periferias do Rio de Janeiro, mais precisamente em Madureira, muito além da passarela e dos desfiles, nasce uma profunda história de carnaval.

Gostaria de celebrar, ainda em tempos carnavalescos, apesar de já estarmos na quaresma, Dona Ivone Lara. Mulher que traz consigo história que atravessa os corredores do Instituto Psiquiátrico do Engenho de Dentro e ecoa pelas ruas da Serrinha.

Feita de luta, resistência e transformação social profunda, que às vezes fica esquecida pelas narrativas oficiais. Ivone Lara fala com o Brasil como uma das maiores vozes da nossa música, primeira mulher a assinar um samba-enredo, rompendo fronteiras antes dominadas por homens.

Menina órfã, criada entre cavaquinhos e quintais com Pixinguinha e Donga, tornou-se enfermeira e uma das primeiras assistentes sociais negras formadas no país. Ivone é vanguarda num tempo em que mulheres negras sequer tinham acesso às salas de aula para alfabetização. Sua chegada ao Instituto de Psiquiatria do Engenho de Dentro no Subúrbio Carioca, reduto da luta antimanicomial no país, trouxe uma revolução: a humanização da saúde mental pela música.

Ao lado da psiquiatra Nise da Silveira, Ivone foi essencial ao romper com a lógica do isolamento manicomial, que encarcera e desumaniza pacientes com sofrimento mental. Enquanto Nise enfrentava diagnósticos ultrapassados com a arte plástica, Ivone levou o samba para dentro dos muros, rompendo a barreira invisível que separava pacientes da sociedade. O samba, do corpo negro, periférico, trabalhador, era terapia e dignidade, era reintegração social e vida.

Paralelamente, em 1947, trabalhadores negros da estiva, associados à Sociedade da Resistência dos Homens Pretos, reinventaram o modo de organização de uma escola de samba. Aqui falamos do Império Serrano. O sindicato, que desde 1905 protegia direitos e cultivava a resistência negra no porto do Rio, ampliou sua luta do trabalho para o lazer, provando que o sindicalismo vai muito além do imaginário convencional de reuniões, burocracias e panfletos: é sobre classe, identidade, solidariedade, cultura e organização social, política e territorial.

Foi no solo sagrado da Serrinha que Ivone Lara tornou-se pioneira. Primeira mulher a entrar na ala de compositores de uma escola de Samba, abriu caminhos num universo onde o machismo ainda estruturava fortemente o modus operandi e deu voz e protagonismo à resistência das mulheres negras nas periferias. 

Com sua música, fortalecia sua agremiação, promovia encontros familiares, resgatava pacientes do isolamento e levava às famílias a importância do acolhimento. Esse ato, aparentemente simples, é profundamente político e subversivo num país que mantinha escondidas suas dores psíquicas e sociais. Um país que utilizava esses centros de depósito humano para aprisionar, sob a alcunha de loucos, as mais diversas figuras sociais: pobres, órfãos, homossexuais, todo tipo de ser humano que não se enquadrava nos padrões vigentes.

O Império Serrano de Ivone, Hélio e Fuleiro foi um terreiro-sindicato. A memória dos trabalhadores portuários, a luta de Ivone Lara, a luta sindical, a luta negra e a luta antimanicomial encontraram nesse espaço um elo próprio de partilha e troca, uma encruzilhada do comum. “Se o caminho é meu, deixa eu caminhar”, ela trilhou e o caminho se abriu.

As famílias operárias financiavam a escola com o suor dos seus próprios salários, afirmando seu direito à cultura e à festa como parte da dignidade humana. O samba, o trabalho e a luta por saúde formam um só canto de resistência. Nesse cenário, a presença feminina de Ivone Lara é duplamente revolucionária: numa ala de compositores dominada por homens, em uma agremiação forjada pela força da organização do trabalhador e numa instituição de saúde em plena transformação. 

Assim, podemos assumir que o sindicalismo teve um papel importantíssimo na consolidação do carnaval como um espaço de reivindicação e empoderamento para as populações negras e periféricas do Rio de Janeiro. Através da fundação de escolas de samba e outras associações carnavalescas, trabalhadores negros buscaram estratégias de reconhecimento social e político, em um Brasil onde fazer samba era considerado crime de vadiagem.

A influência sindical no carnaval também se manifestou na forma como os trabalhadores utilizavam os desfiles para expressar suas demandas sociais. Durante a década de 1930 e 1940, muitas das escolas de samba estavam ativamente envolvidas na organização de concursos como o Cidadão Samba, que serviam para fortalecer o protagonismo das agremiações no carnaval carioca. Além disso, o associativismo negro, fortemente vinculado às sociedades de resistência, ajudou a moldar a estrutura administrativa dessas escolas, tornando-as verdadeiros espaços de luta por cidadania e justiça social. Essas organizações servem até hoje como instrumentos para promoção de assistência social, educação e apoio jurídico, além de serem espaços de fortalecimento da identidade negra diante do racismo estrutural.

Dona Ivone Lara, uma das maiores compositoras da música brasileira, fora profundamente influenciada por este ambiente sindical e associativo que permeava o mundo do samba. Criada em meio a forte participação comunitária e cultural, ela vivenciou a estrutura organizada das escolas de samba para desenvolver sua carreira.

Dona Ivone Lara fortalece o samba a partir deste terreiro-sindicato, e contribui para transformar esse espaço em um ambiente mais inclusivo para as mulheres. Sua trajetória reflete a luta de inúmeras sambistas que, apesar dos desafios impostos pelo machismo e pelo racismo, conseguiram consolidar seu lugar no cenário cultural brasileiro. 

Como destaca Alessandra Tavares de Souza Pessanha Barbosa em sua bela pesquisa que pode ser lida aqui (e recomendo), o carnaval e suas agremiações foram fundamentais para que trabalhadores e trabalhadoras negras pudessem reivindicar cidadania e conquistar espaços de protagonismo na sociedade brasileira.

A vida de Ivone Lara revela como samba e saúde mental têm mais em comum do que aparentam: são espaços de liberdade e reconhecimento do outro em sua total humanidade. Assim como a luta antimanicomial busca restabelecer a dignidade dos pacientes, o samba, nascido das camadas populares, expressa a vida que resiste às diversas formas de exclusão.

Recontar essa história é sempre imprescindível, especialmente no Brasil, onde as lutas sociais se diluem nas memórias rasas das comemorações. Ivone Lara não é só a dama do samba. É a enfermeira, a assistente social, intelectual e a cria de sindicalista que compreendeu cedo que a luta por saúde mental é uma luta coletiva e política, uma luta da periferia, e que a alegria pode ser um instrumento poderoso contra qualquer forma de opressão. Ivone e Nise seguem no encantamento carnavalesco de Engenho de Dentro, a cada cortejo do Loucura Suburbana, um belo fruto das sementes que plantaram, a cada desfile do Império Serrano e em cada roda de samba desta cidade.

O carnaval é sobre a liberdade dos corpos, das lutas e das dores. Quem pensaria que esse encontro tão complexo envolvendo universidade, sindicalismo, feminismo, classismo e luta racial construiria um símbolo incontestável do Rio de Janeiro e do Brasil para o mundo? Em um belo feriado, o carnaval carioca representa uma força única.

Mas sempre é bom lembrar, enquanto o sistema tratava esse povo como vadio, o povo pobre construía, com a força dos instrumentos sociais e organizativos que tinham acesso. Deliberaram novas formas de viver, ter espaço e voz.

Dona Ivone Lara – desenho de autoria própria
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A praça de Grève, reflexões urbanas com Victor Hugo


Pensamentos da leitura de Notre Dame de Paris.

Victor Hugo tem um papel imprescindível no debate sobre memória e espaço. Em Notre Dame de Paris, o autor realiza uma verdadeira ode ao caráter gótico da cidade, utilizando a narrativa para revelar as camadas de história presentes em seus espaços urbanos. Recentemente, durante uma viagem de ônibus rumo ao trabalho, me deparei com o capítulo “Praça de Grève” e fiquei tentado a refletir sobre como o urbanismo dialoga com a preservação dos vestígios históricos e a memória coletiva.

Parte 1: A Praça como Símbolo do Espaço Urbano Histórico


No capítulo, Victor Hugo vai além da mera descrição de um espaço público. Ele apresenta a Praça de Grève (atual Place de l’Hôtel de Ville), situada às margens do Rio Sena, como um cenário carregado de simbolismo e nostalgia. Historicamente palco de execuções e eventos marcantes, a praça surge como um verdadeiro repositório de histórias e emoções. Ao transitar entre o passado e o presente, o autor nos convida a enxergar cada elemento físico da cidade como parte de uma narrativa viva, na qual os conflitos sociais e as transformações históricas se entrelaçam.


A dualidade presente na narrativa, a sobreposição de um espaço marcado tanto por momentos de horror e violência quanto por mobilizações sociais, reforça a ideia de que praças e outros espaços urbanos são pontos de convergência para a transformação social.victor Hugo, ao descrever esses ambientes, enfatiza a necessidade de preservá-los e revitalizá-los, pois são verdadeiros símbolos da cultura e e da memória de uma cidade.


Parte 2: O Legado na Valorização do Patrimônio e do Gótico


A beleza da obra de Victor Hugo reside na sua contribuição para a conscientização sobre a preservação do patrimônio histórico. Em Notre Dame de Paris, Hugo celebra a arquitetura gótica como elemento central da identidade cultural de Paris. Ao descrever a catedral e seus arredores, o autor destaca a grandiosidade e a complexidade desse legado arquitetônico, transformando-o em personagem dentro da narrativa.


A estética gótica, com suas altas arcadas, vitrais coloridos e imponentes contrafortes, é apresentada como um verdadeiro repositório de memória e experiências coletivas. Essa valorização não só encantou gerações, mas também inspirou movimentos de restauração e conservação, como o realizado por Eugène Viollet-le-Duc na reabilitação de Notre Dame.


Hugo utiliza o cenário urbano para enfatizar a importância de preservar a história e os espaços que a abrigam. Ao resgatar elementos que definem a identidade de Paris – desde monumentos imponentes até praças repletas de eventos históricos – o autor propõe uma reflexão profunda sobre o valor intrínseco do patrimônio. Para o urbanismo contemporâneo, essa abordagem ressalta que cada espaço preservado contribui para a construção da memória coletiva e da identidade cultural de uma cidade.


A influência de Notre Dame de Paris ultrapassa os limites da literatura, impactando políticas de preservação e o olhar crítico sobre a arquitetura histórica. Victor Hugo não apenas enriqueceu a narrativa literária, mas também transformou a forma como entendemos e valorizamos os espaços urbanos, pavimentando o caminho para uma abordagem que integra análise crítica, preservação e valorização cultural.


Considerações Finais

Victor Hugo nos oferece uma visão multifacetada do espaço, apresentando-o como um elemento vivo e repleto de significados. Sua narrativa não só enriquece a literatura, mas também dialoga de forma profunda com os princípios do urbanismo e da preservação do patrimônio. Ao valorizar o gótico e cuidar da memória, Victor Hugo estabeleceu um precedente que continua a influenciar tanto as políticas urbanas quanto a percepção cultural dos espaços históricos. Ele revelou que a memória está em constante disputa, mostrando que cuidar do passado é essencial para a construção de um futuro que respeite a vida coletiva das cidades.


Como blog gosta de lista, segue uma pequena lista:


1 Amplie seu repertório cultural: Estude literatura, música e história para enriquecer sua visão e inspirar projetos com referências profundas e diversas.


2 Busque a interdisciplinaridade: Integre conceitos de diferentes áreas do conhecimento, assim como Victor Hugo uniu a arte literária à história e à cultura, para criar obras com significado e originalidade.


3 Valorize as narrativas históricas: Entenda que a história e a cultura, presentes em livros e músicas, oferecem lições valiosas para a construção de espaços que dialoguem com o passado e o presente.


4 Inspire-se em outras artes: Assim como a estética gótica foi resgatada por Victor Hugo, encontre na música, na literatura e em outras manifestações artísticas elementos que possam transformar e enriquecer seus projetos.


5 Crie pontes entre disciplinas: Use o conhecimento adquirido em diferentes frentes para desenvolver soluções inovadoras e contextualizadas, contribuindo para a preservação e valorização do patrimônio cultural urbano.

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Jovens Arquitetos e Futuro

Os jovens de hoje cresceram conectados. Acostumados com redes sociais, fóruns online, plataformas digitais e games em rede, pertencem a um mundo repleto de ferramentas que permitem organizar ações de forma rápida e articulações horizontalizadas. A arquitetura no entanto, ainda opera sob dinâmicas de mercado saturado , elitizado e atravessado por desigualdades estruturais. Recessão, machismo estrutural , desvalorização profissional e classismo são alguns dos enfrentamentos cotidianos de quem se forma no país.

Atualmente, o Brasil conta com mais de 200 mil arquitetos e urbanistas registrados no CAU/BR. Apesar desse crescimento, a falta de investimentos públicos e privados no setor da construção civil e a crise imobiliária, ausência de industrialização e de um plano nacional de habitação colocou a categoria e na verdade todo o campo da construção civil em um limbo. Cerca de 60% dos arquitetos brasileiros trabalham de forma autônoma , a maioria, enfrentando precarização e instabilidade. Para as mulheres, que representam a maioria entre os formados, a realidade é ainda mais árdua: desigualdade salarial , assédio e invisibilização profissional fazem parte do cotidiano. Em um mercado altamente elitizado, muitos desistem da carreira, migrando para áreas correlatas ou aceitando condições de trabalho precarizadas em qualquer área pra sobreviver.

Quando estudante, lembro-me de algumas táticas. Sem dinheiro para conhecer o mundo, desbravei-o nas bibliotecas da FAU. Lia em todos os meus tempos vagos, revistas, livros, artigos, teses. Porém não falarei sobre isso agora. Para este texto vou citar 3 documentos que me auxiliaram na auto-organização: o livro Manual do Arquiteto Descalço (aqui); o documento da FNA, na época da gestão Jeferson se não me engano, Manual de Defesa Pessoal do Jovem Arquiteto e Urbanista (aqui), e mais atualmente a Cartilha T.A.B.A. Trabalhadores Articulados em Benefício da Arquitetura (aqui).

A verdade dura é: minha geração já não via muito futuro na profissão, pois a forma estruturante dela é para poucos terem sucesso.

Apesar das enormes dificuldades deste porvir, os jovens de hoje têm à disposição ferramentas e práticas que podem revolucionar o campo da arquitetura, na verdade do trabalho. Redes sociais e plataformas digitais como Discord, Instagram e TikTok já estão sendo utilizadas para criar comunidades de troca e apoio . Diferentemente da minha geração, que utiliza essas ferramentas de forma mais expositiva, os mais jovens constroem nichos e espaços de diálogo muito próprios que desafiam a lógica tradicional. Para além do entretenimento, o que precisamos é otimizar estas ferramentas para articulação. 

Jovens Arquitetos podem utilizar esses espaços para compartilhar oportunidades de trabalho, oferecer ajuda técnica e podem divulgar projetos colaborativos em redes de interesse mútuo ou complementar. Um exemplo inspirador no Brasil é a rede Arquitetos pela Moradia , que conecta e articula profissionais e estudantes interessados ​​em Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS) . O grupo promove debates sobre políticas habitacionais, divulga editais e cursos, e fomenta projetos que impactam comunidades locais.

No âmbito internacional, iniciativas como o Open Architecture Collaborative (nascido do Architecture for Humanity), nos Estados Unidos, demonstram o poder do trabalho coletivo. Esse grupo cria projetos de impacto social em áreas vulneráveis, promovendo soluções de habitação e infraestrutura. Na Colômbia, o MU Micro Urbanismo em Bogotá realiza intervenções urbanas táticas em comunidades periféricas, promovendo a transformação de espaços públicos negligenciados.

Esses exemplos mostram que, em contextos de crise, a organização coletiva pode ser uma ferramenta poderosa de transformação econômica e social. No Brasil, movimentos autogeridos como mutirões, cooperativas, coletivos culturais e coletivos de assistência técnica e melhorias habitacionais, assim como coletivos de jovens arquitetos realizando diversas entradas de trabalho e experimentações podem propor um novo paradigma para a arquitetura.

Táticas de Ação: Como Começamos um Coletivo de Arquitetura?

  1. Forme o Grupo
    • Identifique colegas com interesses em comum. Um coletivo pequeno e bem alinhado é mais eficaz do que grupos dispersos. Não precisam ser necessariamente arquitetos.
  2. Organizar Grupos de Estudo
    • Utilize bibliotecas públicas, materiais online e promova rodas de debate. Estude além da sala de aula para entender como aplicar o conhecimento na realidade local.
  3. Crie uma Rede Digital
    • Use plataformas como Discord, telegram ou WhatsApp para organizar canais dedicados a oportunidades de trabalho, compartilhamento de materiais e discussões sobre temas de interesse global e local: justiça ambiental, urbanismo sustentável, crise climática e assistência técnica, por exemplo.
    • Um coletivo deve possuir uma agenda ativa de ações. Rodas de conversa, grupos de estudo, cineclubismo, oficinas de experimentação e projetos utópicos, estudos de estética, estudos políticos, entre outros.
  4. Mapeie Demandas Locais
    • Identificar espaços públicos ou habitacionais que necessitem de intervenção. Use ferramentas como o Google Earth para mapear condições e criar um portfólio. Conheça sua vizinhança, caminhe e identifique os problemas, produza documentos pessoais, compreenda a economia que gira em torno da construção de uma casa popular periférica.
  5. Busque Apoio e Financiamento
    • Articule-se para, quando apresentar o portfólio e a proposta de impacto social do coletivo, ter capacidade de pleitear recursos.
    • Auxiliar ONGs, Cooperativas, associações de moradores ou coletivos a realizar ações de melhorias. Disputar editais, organizar-se para acompanhar metodologicamente os instrumentos de fomento, assim como captar recursos via ferramentas de doação colaborativa. 
  6. Realize Projetos Colaborativos
    • Comece pequeno: revitalizar uma calçada, criar mobiliário urbano sustentável ou promover oficinas de educação ambiental, de estudo do lugar, de memórias afetivas.

A formação em arquitetura nos capacita com habilidades que vão além de projetos e obras. Cito alguns que considero interessantes. O olhar generalista e multidisciplinar, que comunga técnicas exatas, artes e ciências sociais aplicadas, nos dá flexibilidade para atuar em outros campos de trabalho. A capacidade de análise sistêmica é altamente valorizada em setores como gestão de projetos , consultoria estratégica e inovação tecnológica . A habilidade criativa nos conecta a áreas como design de serviços e publicidade, além de áreas que exigem soluções inovadoras para problemas. 

O equilíbrio entre conhecimentos técnicos e sociais também permite que arquitetos transitem por áreas como políticas públicas , consultoria ambiental e empreendedorismo social. Assim, apesar da recessão, um bom preparo pode nos levar a algumas possibilidades que ampliam o horizonte de atuação e mostram que a formação em arquitetura apesar de não ser o principal elemento, se torna um ativo importante.

Estudar é um Ato Político

Lembro-me de uma frase que se lia num banheiro público e que sempre ouvi nos tempos de FAU: “Não deixe a faculdade atrapalhar seus estudos”. Estudar, no sentido amplo, vai além das aulas e exige esforço ativo. Quando jovens arquitetos se reúnem para aprender juntos, estão resistindo a um modelo de educação que prioriza a competitividade em detrimento da colaboração. Círculos de estudo livres podem ser sementes de movimentos maiores, assim como os cafés modernistas ou os escritórios brutalistas um dia o foram. Teoria e prática não andam separadas.

Em uma economia de recessão, a utopia também é panfleto. Muitos movimentos da Arquitetura se organizaram a partir de projetos panfletos, de produção de ideias, narrativas, discursos utópicos, experimentações teóricas. Cidades futuristas do Archigram ou o Cenotáfio de Newton de Boullée, são exemplos interessantes de arquiteturas sem sombra. Curioso, usei o termo panfleto alguns dias após tê-lo criticado em dois textos anteriores sobre organização política. Mas aqui cabe.

Conclusão

A arquitetura nunca foi apenas sobre construir prédios. Os desafios do mercado brasileiro são reais, mas as oportunidades para transformar a profissão também. A recessão constante e a desvalorização nos mostram que o modelo está muito equivocado. Nosso esforço atual precisa caminhar para a transformação do campo de trabalho, é um esforço que exigirá a emancipação da profissão e o realinhamento dela com as necessidades do Brasil Real.  Ao organizar-se, estudar juntos, criar redes, elos e cooperativismos e agir coletivamente, jovens arquitetos podem criar algo novo, redefinindo o papel da arquitetura na sociedade. Fica como um pequeno convite à ação. 

archigram cities: veja aqui

@rodrigobertame

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Contradições, Delírios e Utopias. A Política Precisa Escutar as Margens

“Sou negra, lésbica, toco na noite e não vou votar no candidato de vocês. Quero que me expliquem o porquê.” Uma jovem abruptamente pegou um panfleto das nossas mãos e lançou esta frase. Lembro-me até hoje da campanha eleitoral. Distribuíamos panfletos para uma eleição onde Marcelo Freixo (candidato pelo PSOL) disputava a prefeitura contra Crivella (representante da Igreja Universal), no pólo gastronômico de Vista Alegre.

Parece estonteante, à primeira vista. A militância, embebida em suas certezas e métodos, não está habituada a lidar com contradições tão explícitas. No lugar de argumentos automáticos, optamos por simplesmente sentar e ouvir. “Me explique você o porquê”, dissemos.

A jovem, negra, lésbica e música da noite, frequentava ativamente uma igreja batista onde encontrou acolhimento e pertencimento. Para ela, a fé, diferente do que muitos imaginam, nunca foi fonte de intolerância ou desrespeito. Pelo contrário, foi ali que encontrou segurança e aceitação. Quem conhece o cristianismo evangélico sabe de suas múltiplas expressões, das mais acolhedoras às mais excludentes e intolerantes.

Escutar a jovem, genuinamente e sem julgamentos, foi nosso maior ato revolucionário naquele momento.

Ao final, ela compreendeu que Crivella, representante de um modelo institucional da Universal, não representava os valores da Igreja Batista que a acolhia. Nós, por outro lado,compreendemos que há mais profundidade diante das relações singulares do que supõe os cânones vermelhos.

Identidades e Fluxos: contradições no caminho das militâncias

Essa contradição não é um caso isolado. Nas periferias, onde as múltiplas crises da vida se entrelaçam, identidades rígidas não sustentam a complexidade da existência. Recentemente, li um texto de blog do Emilio Bazan Sanchez (link aqui) que questionava: Estamos limitando o potencial humano ao dividir a vida em caixas organizadas? Ele sugeria que uma visão mais fluida das identidades pode abrir possibilidades de crescimento individual e social.

Pensadores já vislumbravam essa fluidez. Beauvoir, ao dizer “não se nasce mulher, torna-se”, indicava a mutabilidade de quem somos e a forma como as definições são construídas socialmente. Deleuze, numa alegoria que gosto, agenciava um cavalo de carroça ao boi de carga, distanciando-o do cavalo de corrida. O que importa para a turma de 68, é o processo contínuo, o devir e não um estado fixo, essência divina, casta.

Contudo, no mundo real, essa fluidez encontra resistência. O ser humano busca conforto nas caixinhas organizativas. Políticas públicas, por exemplo, precisam categorizar e padronizar para alcançar resultados concretos. Estruturamos nossa vida social a partir destes limites. Porém, ao cristalizar identidades, excluímos uma enormidade de pessoas que não se enquadram na escritura de significados da identidade. Na vida real, transitamos simultaneamente por diversos papeis: colegas, pais, amigos, vizinhos, trabalhadores, para cada papel há um jeito de perceber e vivenciar nossa identidade. Somos fluxos, redes em constante mutação. Como acolher as contradições sem perder o sentido de coletividade? Como agenciar as singularidades em identidades e complexidades ao mesmo tempo?

Para superar as crises do nosso tempo, precisamos encarar as contradições de frente, quiçá mergulhar nelas. Como integrar os desencaixados de nossos “sonhos tão mesquinhos” de revolução? Afinal, é utópico pensar em justiça para as minorias enquanto não conseguimos escutar sequer as demandas de uma jovem negra, lésbica e evangélica.

A militância de esquerda, historicamente centrada em organizações, categorias e bandeiras, precisa reconhecer que antigas estratégias já não dialogam com a complexidade contemporânea. Urge construir ações que acolham contradições e singularidades. Isso exige escuta ativa, valorização da pluralidade, integração com o divergente e, acima de tudo, ações práticas.

Reconhecer que expressões culturais, mesmo aparentemente contrárias às nossas crenças, têm valor social intrínseco e podem ser pontos de conexão entre os explorados. Devemos permitir que os povos periféricos articulem suas demandas sem o paternalismo de quem dita as pautas, inclusive as nossas pautas. É essencial construir alianças verdadeiras, abertas e ampliadas, mesmo que não caibam em categorias pré-definidas.

Ressignificar o Acolhimento: um novo caminho para a revolução

O reacionarismo sabe usar o conceito de “pátria” como uma quimera de unidade popular, vendendo um passado irreal como futuro paraíso perdido. A esquerda, muitas vezes, cai na mesma armadilha, trocando apenas a cor da moeda. Ressignificar o acolhimento, a meu ver, é nosso desafio. Não se trata de apenas reagir ao conservadorismo, mas de inspirar esperança concreta, conectando sonhos coletivos às condições reais de quem vive às margens. Criar um novo desejo não é simples, eu sei, mas precisamos dar o primeiro risco no papel.

Um devaneio: um jovem ambientalista evangélico que mora em uma casa ribeirinha. Ele está mais próximo da realidade sofrida dos povos originários do que de uma liderança rica de uma mercoigreja. Sua identidade coletiva, para a esquerda, pode ser a de um ribeirinho. Mas, para ele, talvez seja mais importante ser um profeta de Deus em sua rua. Ignorar essa contradição e esse jovem é cair num dualismo que nos isola.

Entre Martin Luther King e Silas Malafaia, há um abismo ético. Há uma contradição histórica entre Abdias do Nascimento e o Integralismo. São nesses espaços tensionados que a complexidade humana se revela, e desde algum tempo, são nestes espaços de tensões que prefiro caminhar politicamente. Entendo que a militância precisa agir nessas margens, navegando as crises lendo as letras miúdas que ninguém quer ler.

Como ensinou Zaratustra: “Por variados caminhos e de várias maneiras cheguei à minha verdade.” O futuro exige que atravessemos as identidades como fluxos, redes e elos. Não importa tanto quem somos, mas quem podemos ser com as ferramentas que temos disponíveis.

Navegar bem na crise não é apenas sobreviver. É criar, acolher e construir um lugar mais humano, onde as contradições se tornem pontes. Esse lugar não estará pré-definido em nossas bandeiras nem será o resultado de sonhos fixos em um passado quimérico. Creio que este lugar será construído por um mosaico de vidas que ousaram não temer o outro, o diferente, o divergente, o desajustado. Vidas pobres, e pensem, ainda assim não é simples compreender a pobreza, afinal temos muitas gradações e escalas de pobres, cada qual com um universo girando em suas singularidades enquanto são explorados pelas máquinas de moer corpos. Porém, se não fazemos parte dos 1% que controlam o mundo, somos todos parte de uma ralé que precisa encontrar novas formas de sonhar e novos mundos para construir dentro deste mesmo mundo.

Foto: Solen Mourlon/MSF – original: https://www.msf.org.br/noticias/por-que-a-crise-climatica-e-tambem-uma-crise-humanitaria-e-de-saude/

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De onde surgiu Rick Azevedo? O drible do trabalhador no enfrentamento do 6×1

De onde surgiu Rick Azevedo? Essa pergunta tem ecoado entre certa parte dos pensadores da esquerda carioca. Confesso que também conheço pouco sobre ele, mas já o considero um nome promissor. A expressiva votação que o candidato do PSOL alcançou nos diz muito sobre a invisibilidade do trabalhador pobre diante do sistema político brasileiro.

Há dois pontos essenciais que gostaria de destacar. Primeiro, Rick foi direto e incisivo em uma análise crucial: diante da precarização, não basta resiliência; é preciso disputar espaço. Esse é o recado do “6×1”, um sinal de uma luta popular real. Engana-se quem pensa que essa pauta é restrita a celetistas ou trabalhadores com contrato formal; ela representa todos aqueles que, frente à precarização de suas vidas, precisam estar disponíveis para o mercado, 24 horas por dia, sete dias por semana, para sobreviver.

O que quero dizer com empregabilidade? Quando falo em “empregabilidade”, refiro-me não apenas à exigência de estar sempre “pronto para uso” no mercado, sempre competitivo e adaptado às transformações econômicas, tecnológicas e sociais. É a pressão para ser “empregável” em qualquer situação, diferentemente de um emprego, que é uma ocupação formal e estável. Empregabilidade abrange o trabalho informal, o bico, o subemprego, e principalmente o desemprego, todos os sistemas onde o trabalhador vende sua força na esperança de um retorno que talvez nunca venha.

Assim, a jornada “6×1” vai muito além de um acordo para celetistas. É a rotina dos entregadores, motoristas de Uber, microempreendedores (MEIs) e todo tipo de trabalhador que não consegue, em 40 horas semanais, garantir o básico para viver. Enquanto a Europa experimenta e disputa jornadas reduzidas, como o modelo “4×3”, que permite mais equilíbrio entre trabalho e vida, o Brasil segue pelo caminho oposto, abraçando uma lógica de exploração que mantém a mão de obra barata e a pobreza crônica, favorecendo a hiperexploração. E essa realidade só se aplica à gigantesca massa de pobres, sem heranças ou privilégios, cujas vidas são devoradas por um mercado que exige sempre mais e oferece cada vez menos.

O segundo ponto essencial é a coerência das ações de Rick. Ele é o “desconhecido mais conhecido” que já vi, e sua trajetória expõe a crise de desconexão da esquerda carioca – e talvez nacional. Seu impacto eleitoral não se limita aos corredores da esquerda. Rick caminhou por onde muitos formuladores e líderes da esquerda já não passam: as filas de trens, os pontos de ônibus, as ruas da Baixada Fluminense, os subúrbios, o duro solo do trabalhador carioca e fluminense. Ele foi ao encontro do trabalhador, do desempregado, do pobre, aquele que ele efetivamente busca representar.

Rick faz uma crítica necessária e contundente ao sistema sindical, num momento em que o próprio governo federal, que deveria carregar as bandeiras do trabalhismo e sindicalismo, se curva diante da correlação desfavorável de forças e tem de negociar com um parlamento que empurra os trabalhadores para novas formas de exploração. E, ironicamente, é o mesmo governo que, ao optar por um ajuste fiscal, ameaça o Sistema Único de Saúde (SUS) em um contexto onde até a saúde privada se torna precária para o trabalhador médio.

Rick Azevedo se apresenta como uma força emergente, uma representação autêntica da luta contemporânea pelo trabalho no contexto carioca. Ele pode simbolizar uma esperança para a reconstrução do pensamento trabalhista e sindical e para o próprio PSOL. Que o ímpeto de suas pautas permaneça forte em sua atuação como parlamentar, este será seu novo desafio, manter-se firme às pautas que o levaram ao cargo no legislativo. Ver essa chama acesa no PSOL é inspirador. Essa bolha furada prova que ainda é possível lutar de verdade, basta ter coragem.

imagem de divulgação do próprio vereador
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Policrise e desigualdade social: emergência de uma politica global complexa

Lendo o relatório “Global Economic Prospects – June 2024”. Ele revela os desafios econômicos globais e a crescente disparidade entre economias desenvolvidas e em desenvolvimento, destacando a necessidade urgente de uma abordagem coordenada e inclusiva para reduzir as desigualdades econômicas e sociais que se aprofundaram após a pandemia de COVID-19. O relatório aponta que o crescimento global projetado de 2,6% para 2024 demonstra um ritmo insuficiente para transformar significativamente as condições de vida em muitos países em desenvolvimento. Essa diferença acentua as dificuldades enfrentadas pelas economias pobres, que, apesar de abrigarem a maior parte da população mundial, encontram barreiras para atingir um desenvolvimento econômico sustentável, mantendo a desigualdade historicamente parametrizada.

A persistência das desigualdades é notável, com quase metade dos países em desenvolvimento sem perspectivas de reduzir a disparidade de renda em relação às economias avançadas até 2024. Essa situação reforça o constante ciclo de pobreza e dificulta investimentos em setores essenciais, como saúde, educação e infraestrutura, que são fundamentais para o desenvolvimento humano e a melhoria da qualidade de vida. Em meio a isso, é importante enfatizar o papel do investimento público como um motor de crescimento e inclusão econômica, especialmente em países pobres, onde a infraestrutura básica ainda é uma necessidade que precisa ser universalizada. No entanto, a eficácia desses investimentos esbarra na falta de uma gestão pública eficiente e transparente, algo comum nas economias mais vulneráveis, onde a má alocação de recursos, disputas ideológicas sem planejamento e a busca do poder pelo poder perpetuam o status de subdesenvolvimento.

Adicionalmente, vemos no mundo de hoje uma vulnerabilidade em redes de muitas entradas, desde pequenos estados e economias em conflito até povos que enfrentam desastres naturais cada vez mais frequentes, fruto das mudanças climáticas, além do surgimento de ciclos de pobreza e de crises endêmicas cada vez mais recorrentes.

O conceito de policrise surge como um destaque interessante, apontando que essas crises não devem mais ser lidas de forma isolada, mas, ao contrário, se entrelaçam, gerando efeitos multiplicadores que evidenciam e potencializam a vulnerabilidade dos sistemas globais. Esse entendimento sistêmico é essencial para lidar com crises que se reforçam mutuamente, como a pandemia, as guerras e as mudanças climáticas, que, ao interagirem, amplificam problemas como a inflação global, a insegurança alimentar e a instabilidade geopolítica.

Os mecanismos sistêmicos contemporâneos demonstram como uma crise pode desencadear outras em uma sequência que foge ao controle, criando ciclos de deterioração coletiva. Diante disso, as respostas tradicionais de política, focadas em problemas isolados e em uma visão especializada, são insuficientes para lidar com a profundidade e a complexidade das crises atuais.

Para piorar, cerca de 40% dos estados pobres estão sob elevado risco de crise de dívida, limitando suas capacidades de investir em áreas críticas. A situação desses países evidencia a necessidade de apoio internacional, tanto para garantir a estabilidade financeira quanto para fortalecer sua adaptação às mudanças enfrentadas pelo planeta. Nesse contexto, a cooperação internacional deveria assumir a responsabilidade de mitigar desigualdades, promover a transição para uma economia mais verde e digital e reforçar a segurança alimentar como um direito à dignidade humana e à vida. No entanto, as tensões geopolíticas e a fragmentação das políticas comerciais dificultam a implementação de uma agenda global colaborativa. Resumindo: diante de momentos de crise, uma parte gigante dos poderes globais age como: “se o peixe é pouco, meu pirão primeiro”. Um entendimento tolo que não percebe que o problema do outro também é um problema nosso.

Sugerimos a urgência de políticas de longo prazo que priorizem a inclusão social, a redução da pobreza e o desenvolvimento sustentável para alcançar um crescimento mais equitativo. Esse é um sonho de inúmeros intelectuais, políticos sérios e agentes diversos no planeta. Um diferencial diante disso é que as políticas precisam considerar a interconectividade das crises e buscar soluções integradas, abordando simultaneamente todas as vulnerabilidades dos sistemas globais. Isso significa, por exemplo, que a formulação de políticas climáticas, além de mitigar emissões, precisa ser capaz de enfrentar os impactos sociais e econômicos das mudanças climáticas. A insistência em soluções fragmentadas tende a perpetuar ciclos de crises mal resolvidas, levando à repetição de problemas em uma escala e intensidade cada vez maiores.

Quando pensamos nas políticas de redes complexas como uma possibilidade de resposta à crise, podemos considerar que essas políticas representam um caminho para lidar com os muitos problemas contemporâneos, propondo uma governança que considere as múltiplas camadas de desafios. Integrar diferentes frentes de ação e fomentar uma cooperação mais ampla entre nações pode ser uma chave para atenuar os impactos das crises e construir uma base de resposta global. Assim, a reflexão que surge é: como estruturar políticas de redes complexas que sejam efetivas em um cenário de incerteza e fragmentação global? A resposta a essa questão não parece simples, mas pode delinear o futuro das relações internacionais e do desenvolvimento econômico sustentável, buscando um equilíbrio entre progresso e inclusão social em um mundo cada vez mais interconectado.

Foto-montagem: Zeca Pagodinho discursando sobrea vida na ONU.
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