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LULA PARA ALÉM LULA

A reeleição de Lula, após a derrota no primeiro turno, produziu uma inflexão política cujo alcance ultrapassa as fronteiras brasileiras. Em três semanas, mobilizações estudantis ganharam as ruas e reorganizaram forças políticas e sociais até então dispersas. A defesa da educação, dos direitos sociais, da soberania nacional e da democracia recuperou a presença popular na disputa pelos rumos do país. Num cenário internacional marcado pelo avanço da extrema direita, a vitória de 25 de outubro demonstrou que a história permanece viva e em construção. Sustento aqui um pensamento, o mais importante dessa vitória não está no resultado das urnas, mas no que a tornou possível: a descoberta de que a organização popular pode usar as redes sem ser capturada por elas, e de que o passo seguinte é disputar as infraestruturas digitais que condicionam a nossa vida.

Essa experiência trouxe à superfície sujeitos políticos de classes, gerações, territórios e culturas distintos, cuja existência ultrapassa as estruturas partidárias e as identidades tradicionais da esquerda. A convergência eleitoral não dissolveu suas contradições nem estabeleceu um projeto comum de sociedade, mas mostrou articulações possíveis que permaneciam fragmentadas. Há aí uma potência que recoloca em discussão os limites da representação institucional e os instrumentos de disputa do poder numa sociedade profundamente transformada pela organização contemporânea do capital.

A concentração da riqueza, o enfraquecimento dos sindicatos e a subordinação das políticas econômicas aos interesses financeiros alteraram as condições das lutas. Parte da social-democracia europeia acompanhou esse processo: administrou os efeitos da desigualdade enquanto perdia a capacidade de enfrentar suas estruturas. Nesse terreno, a extrema direita encontrou espaço para mobilizar a insegurança social e converter conflitos distributivos em antagonismos culturais, nacionalistas e identitários. A experiência brasileira recoloca essa disputa em perspectiva num momento em que o poder econômico amplia seu controle sobre o trabalho, a comunicação e a reprodução da vida.

A vitória recolocou o conflito distributivo no centro da política. A tributação das grandes rendas, a recuperação do poder de compra dos trabalhadores e a ampliação dos instrumentos públicos de acesso à economia confrontam mecanismos históricos de concentração da riqueza. Mas o capital contemporâneo ampliou o alcance dessa disputa. O domínio econômico avançou sobre as infraestruturas que organizam o trabalho, os pagamentos e a circulação de informações. Grandes conglomerados tecnológicos extraem rendimentos da intermediação de atividades coletivas e convertem nossa produção de dados, conhecimentos e afetos em patrimônio privado. Disputar o poder passa, portanto, por disputar o controle dessas infraestruturas.

Yanis Varoufakis encontrou no Pix brasileiro um exemplo concreto de enfrentamento ao poder econômico pela construção de alternativas públicas, inclusive como referência para a Europa. Implantado pelo Banco Central em 2020, o sistema de pagamentos instantâneos reduziu a dependência de intermediários privados e de suas estruturas de cobrança, e ofereceu à população uma infraestrutura acessível e de uso amplo. O Pix mostra que a ação pública pode limitar a extração de renda e ampliar a autonomia econômica da sociedade. Se foi possível com os pagamentos, por que não pensar o mesmo para a comunicação, o crédito, a produção e a organização do trabalho?

A concentração desse poder transforma também a maneira como vivemos e nos relacionamos. A exigência permanente de desempenho, produtividade e exposição incorporou ao cotidiano a competição e a autovigilância, que dispensam a coerção direta. As plataformas organizam nossa visibilidade, influenciam desejos, condicionam encontros e fazem da sociabilidade uma fonte permanente de acumulação. Produzimos informação, conhecimento e afeto que alimentam essas macroestruturas, enquanto a busca individual por reconhecimento fragiliza a solidariedade. A política sente o efeito: o debate público passa a depender de sistemas que administram a visibilidade e estimulam a competição pela atenção, e a sucessão incessante de acontecimentos submete a participação à velocidade das reações e dificulta a formação de vínculos duradouros.

A infocracia, examinada por Byung-Chul Han, descreve esse mecanismo ao organizar a comunicação em torno da repetição do semelhante. Os algoritmos reforçam convicções, restringem o encontro com a diferença e transformam o outro, cuja presença é fundamental à construção do pensamento, em ameaça às certezas individuais. A democracia perde densidade nesse confinamento e fica refém de um mercado algorítmico que converte divergências em antagonismos. Han oferece um diagnóstico possível cuja mobilização brasileira pró Lula desafiou em parte, ao mostrar que esses circuitos podem ser atravessados.

Artistas gravaram vídeos, influenciadores abriram seus espaços de visibilidade à participação de pessoas comuns e comunidades de fãs de artistas internacionais colocaram suas redes a serviço da mobilização, assumindo inclusive o risco da exposição política em ambientes onde seguidores e alcance são capital econômico e simbólico. Tabata Amaral, Angélica, Alexandre Frota assim como Jones Manoel, Freixo e outras lideranças de tradições políticas distintas, participou dessa convergência. No dia da votação, cidadãos organizaram caronas solidárias para enfrentar as dificuldades de transporte: em Salvador, milhares de eleitores foram atendidos por redes de voluntários; em escala nacional, a Casa Marighella reuniu mais de oito mil motoristas cadastrados. Até Abelardo de la Espriella, presidente colombiano que apoiara Flávio Bolsonaro, afirmou que a vontade popular expressa nas urnas deveria ser respeitada. As ruas alimentaram as redes e as redes ampliaram as mobilizações territoriais, conectando públicos, gerações e experiências antes isoladas. Por um momento, a multidão tensionou a lógica da autoexploração e subverteu os limites que as plataformas impõem à ação coletiva.

O bolsonarismo já havia demonstrado a capacidade de articular uma multidão heterogênea por meio de vínculos digitais, religiosos e econômicos, constituindo um pertencimento político que atravessa o cotidiano e guarda afinidades com certas experiências populistas latino-americanas. Escrevi no dia sete deste mês: “O bolsonarismo preencheu o vazio da representação, mas não o da organização autônoma.” É aí que ele esbarra: não conseguiu converter capilaridade em instrumentos coletivos capazes de sustentar interesses comuns para além da identificação com uma liderança. A virada eleitoral de Lula acrescentou o que faltava: a circulação das redes encontrou a experiência acumulada de sindicatos, movimentos estudantise movimentos sociais, e novas linguagens de mobilização se conectaram a estruturas capazes de sustentar a ação para além do acontecimento imediato.

A experiência latino-americana acumulou um repertório de enfrentamento à concentração do poder que ganha nova atualidade diante das grandes plataformas. O zapatismo, as formas indígenas de autogoverno, as organizações quilombolas e os movimentos populares desenvolveram práticas de autonomia territorial, produção compartilhada e resistência às hierarquias coloniais que ainda organizam a distribuição da riqueza e do conhecimento. Esse repertório oferece elementos para enfrentar tanto a concentração tecnológica das GAFAM quanto o poder político articulado em torno do MAGA: comunidades que produzem seus próprios territórios, instituições e instrumentos de existência. O desafio é levar essa tradição ao universo digital.

Daí a ideia de ciberassentamentos e cibersindicalismo.

Assim como o assentamento rural organiza em torno da terra a propriedade coletiva, a gestão comum e a partilha do que se produz, o ciberassentamento seria o território digital em que as comunidades são donas da infraestrutura que usam: as plataformas, os dados e os resultados econômicos. O cibersindicalismo seria a organização dos trabalhadores que hoje vivem sob gestão algorítmica, como motoristas, entregadores e produtores de conteúdo, não apenas para negociar com as plataformas, mas para gerir coletivamente os meios de que dependem. Imagine uma plataforma de transporte pertencente aos próprios motoristas, que decidem as tarifas e dividem o excedente, em vez de entregá-lo a uma empresa distante. Não é um exemplo consumado; é um horizonte. Mas há pontos de partida: o Pix mostra que é possível construir infraestrutura de escala nacional a serviço do público, e os oito mil motoristas da Casa Marighella mostram que a coordenação em rede de pessoas com um ofício em comum já existe.

Há limites que convém reconhecer. As plataformas lucram com qualquer mobilização que circule por elas, inclusive esta; usá-las não equivale a escapar delas. Convergências eleitorais costumam se dissipar quando a eleição termina, e uma multidão sem organização própria volta às suas bolhas. O bolsonarismo segue com suas redes, e o campo que venceu reúne interesses que nem sempre coincidem. Construir infraestruturas coletivas exige recursos, conhecimento técnico e tempo, e enfrenta poderes dispostos a defender seus mercados.

A vitória não resolve nada disso; apenas cria condições para começar. No exército de Lula, fomos muitos Neos, enfrentando a Matrix e acreditando que bastava derrotar seus agentes. Mas a disputa política de longo prazo exigirá que sejamos mais coelhos brancos: capazes de despertar a curiosidade, provocar dúvidas nas certezas estabelecidas e conduzir outras pessoas e nós mesmos para além da realidade fabricada pelos algoritmos. A vitória eleitoral enfrenta o sistema; a transformação política exige disputar a maneira como enxergamos o mundo.

Sim, animemo-nos na celebração! Mas a vitória também abre espaço para refletirmos sobre as transformações da sociedade e os limites das nossas formas de organização. As mudanças no trabalho, na comunicação e na vida cotidiana exigem uma esquerda capaz de renovar seus métodos, ampliar suas interlocuções e responder aos problemas materiais da população. Precisamos combinar sobriedade institucional com experimentação política e cultural, reconhecendo que construir um mundo radicalmente mais interessante exige também curiosidade, leveza e disposição para aprender com o diferente.

Essas condições chegam a uma América Latina que conhece os mecanismos de dominação e as possibilidades de subvertê-los. Nossa história atravessa séculos de colonialismo, concentração da riqueza e exploração do trabalho. Quando a derrota parecia inevitável, a mobilização popular contrariou as expectativas e expôs os limites de uma máquina econômica, política e comunicacional que se apresentava como incontornável. A força que se mostrou ultrapassa o governo, o partido e a própria liderança de Lula: pertence à multidão que se organizou e às gerações que herdaram e transformaram instrumentos de luta. Somos muitas Américas e muitas latinidades, feitas de histórias indígenas, africanas, europeias, mestiças, migrantes, camponesas, suburbanas e urbanas. Carregamos conflitos e contradições que nenhuma doutrina universal consegue encerrar. E tem beleza nisso, em fazer de um processo, ainda que imperfeito, algo potente. Há muitos mundos em construção nesta América, e temos história, inteligência e força coletiva para lhes dar existência.

coelho branco desenho autoral

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