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Bolsonarismo: um peronismo de família

Quando o Sobrenome vira Partido

O bolsonarismo pode estar construindo, à sua maneira, uma espécie de peronismo brasileiro do século XXI. Não porque Bolsonaro seja Perón, nem porque seus projetos políticos sejam similares. Reflito sobre uma forma política construída na capacidade de perceber uma transformação da composição social, encontrar suas formas concretas de organização e produzir a partir delas identidade política. A analogia tem um limite, e é ele que interessa: o peronismo incorporou o trabalhador ao Estado; o bolsonarismo, até aqui, apenas o mobiliza.

O bolsonarismo encontrou uma classe trabalhadora que boa parte da política brasileira ainda procura. Gente que vive do próprio trabalho, mas que nem sempre se reconhece nos instrumentos consolidados a partir das políticas trabalhistas do século XX. O trabalhador industrial, organizado pelo sindicato e reconhecido politicamente a partir de sua condição de classe, não desapareceu, mas deixou de representar sozinho o mundo laboral. Ao lado dele existe uma massa de trabalhadores dos serviços, terceirizados, autônomos, MEIs, motoristas, entregadores, pequenos comerciantes e assalariados que transitam entre emprego, desemprego, bico e pequeno negócio. Em 2025, segundo IBGE/PNAD, o Brasil tinha 26,1 milhões de trabalhadores por conta própria e informalidade de 38,1%. Não é uma margem exótica do mercado de trabalho, mas parte central de sua configuração atual. Informal não é sinônimo de bolsonarista, e o lulismo também tem base expressiva nesse meio. O que parece que podemos afirmar, porém, é que o bolsonarismo disputa esse segmento com eficácia narrativa.

Parte da esquerda ainda olha para essa nova classe trabalhadora com categorias do século passado. A ironia do “pobre de direita”, do “CEO de MEI” ou a explicação pela simples ignorância política revelam mais que preconceito: revelam dificuldade de compreender uma estrutura social que mudou. O sujeito que abre um MEI, dirige aplicativo, vende comida ou alterna emprego formal e trabalho autônomo continua materialmente inserido na classe trabalhadora, mas organiza sua experiência por outras referências. Quando a esquerda ri da identidade que ele construiu, em vez de compreender como ela foi produzida, entrega a outros a tarefa de disputá-lo. Parte desse trabalhador foi formada pelas próprias políticas dos governos do PT e não encontrou nos partidos de esquerda espaços de organização capazes de acompanhar sua nova condição material e seus desejos subjetivos.

O peronismo encontrou o trabalhador produzido pela industrialização argentina. No Brasil, esse papel coube ao getulismo, que estruturou a política em torno do trabalhador urbano, com a CLT, o sindicato reconhecido pelo Estado e a carteira assinada como porta de entrada na cidadania. Dele derivaram o trabalhismo de Jango e Brizola e, por ruptura e continuidade, o novo sindicalismo e o lulismo. Toda essa linhagem organizou a política de esquerda em torno do trabalhador formal e de seus instrumentos. O bolsonarismo encontrou parcelas importantes do trabalhador que ficou fora dessa moldura ou foi expulso dela: o produzido pela desindustrialização, pela precarização e pelo capitalismo de serviços. A incorporação getulista sempre foi parcial e a informalidade sempre existiu ao lado dela; o que mudou é que o trabalhador formal deixou de ser a figura que organiza de forma hegemônica o conjunto.

No peronismo clássico, o trabalhador industrial encontrava no sindicato uma forma de organização, reconhecimento e pertencimento. A experiência concreta do trabalho era convertida em identidade coletiva e, a partir daí, incorporada ao Estado e ao próprio peronismo.

O bolsonarismo opera sobre outra configuração social. Seu trabalhador, mais espalhado nos serviços, na informalidade e no pequeno empreendedorismo, encontra outros instrumentos de mediação. Sua organização passa por igrejas, redes sociais, família, comércio local, grupos profissionais e redes territoriais. É nesses espaços que se produz a identidade de quem trabalha, sustenta os seus, enfrenta dificuldades e se vira.

As instituições são diferentes, mas com função política comparável. O sindicato ajudava a transformar a experiência social em consciência coletiva. Igrejas, redes digitais e circuitos locais cumprem parte dessa tarefa ao oferecer linguagem comum, comunitarismo e uma interpretação compartilhada da vida cotidiana.

Outro ponto de aproximação com o peronismo está no personalismo. O bolsonarismo já não se organiza apenas em torno de Jair Bolsonaro. O sobrenome virou uma marca política própria, superior a legendas partidárias.

A eleição de 2026 materializou esse poder familiar em posições estratégicas. Flávio disputa a Presidência; Michelle foi eleita senadora pelo Distrito Federal; Carlos, senador por Santa Catarina; Jair Renan, deputado federal pelo mesmo estado; e Renato Bolsonaro, deputado federal por São Paulo. Rogéria Bolsonaro, ex-mulher do ex-presidente, também disputou a eleição no Rio. A família se distribui entre o Executivo nacional, o Senado e a Câmara, em diferentes estados, o que revela uma capacidade eleitoral que não depende de implantação partidária territorial tradicional.

Isso ainda não é uma tradição política. Dinastias brasileiras se diluíram quando o fundador saiu de cena, mas pode vir a ser. Movimentos personalistas só sobrevivem ao líder quando conseguem transferir pertencimento e lealdade para o mesmo campo, e aí as redes digitais ajudam, ao ampliar a presença simbólica do líder e reproduzir sua identidade para além de sua atuação direta. O resultado de 2026 sugere que o nome Bolsonaro pode funcionar como portador de uma identidade transferível entre pessoas, cargos e territórios. É uma possibilidade; o teste será a capacidade de mobilizar sem o fundador.

O peronismo construiu ainda um repertório que marcaria a América Latina: grandes mobilizações, comunicação direta com as massas, símbolos facilmente reconhecíveis, antagonismos claros e uma narrativa que fez de Perón e Evita figuras quase míticas. Sua força não vinha só da estrutura sindical ou das políticas sociais, mas, principalmente da capacidade de produzir emoção, lealdade e ritual. O bolsonarismo tem seu equivalente: atos de massa, comunicação direta pelas redes, símbolos de fácil reconhecimento (as cores nacionais, o vocabulário de Deus, pátria e família), antagonismo permanente e a figura do “mito”. Aqui a semelhança é real.

É no que vem depois que ela acaba. O sindicato peronista era mais que identidade: tinha poder de barganha, estava incorporado ao Estado e produziu direitos concretos. O bolsonarismo preencheu o vazio da representação, mas não o da organização autônoma. Igrejas, redes e comunidades criam identidade, mas não formulam política de previdência, crédito ou proteção para quem trabalha por conta própria. 

O que se estruturou foi uma máquina capaz de reproduzir o poder familiar por meio de filhos, esposa, irmãos e sucessivas disputas eleitorais. Sem organização autônoma nem incorporação institucional, o que resta do paralelo é o personalismo e mobilização, o que descreveria igualmente Vargas, Collor ou Trump.

Esse limite carrega um risco concreto. Quando liderança, movimento e projeto ocupam o mesmo lugar, a crítica interna passa a ser tratada como deslealdade, a sucessão assume caráter familiar e as instituições são medidas pela relação que mantêm com o líder. No bolsonarismo, o alvo dessa lógica é o Supremo. Os grandes movimentos do campo, da deslegitimação do sistema eleitoral ao 8 de janeiro, convergem para o enfrentamento da corte que o contém, e o crescimento de uma bancada favorável no Senado indica que o ataque deixou de ser apenas retórico. É o Senado que julga ministros do STF e aprova suas indicações, e uma maioria alinhada transforma o conflito com o Judiciário em instrumento concreto de poder. 

Há ainda um segundo risco, interno ao próprio campo. Em movimentos com organização autônoma, a base pode cobrar, corrigir e eventualmente substituir o líder: o sindicato negocia, o partido delibera, a assembleia vota. Igrejas, redes e comunidades criam pertencimento, mas não foram feitas para isso, e a lealdade que produzem é dirigida à pessoa, não a um programa. Se o líder erra, rompe com aliados ou persegue interesses próprios, a base não dispõe de instrumentos políticos para contê-lo. Ela só tem duas opções, seguir ou sair, e a história de movimentos personalistas mostra que a maioria segue. Quando a mediação é um nome, o que limita o poder dele é o que ele mesmo decide respeitar. Reduz-se a política parlamentar, amplificando o poder de uma política familiar.

A vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia indica que isso não é só brasileiro. Circula pela América Latina uma mesma gramática política: segurança à Bukele, economia à Milei, alinhamento a Trump e lideranças personalistas sem projeto de país apresentadas como resposta à crise das instituições. Em todos os casos, partidos e organizações sociais perdem a mediação para plataformas, influenciadores e igrejas, estruturas que transformam medo e ordem em narrativas simples e de circulação rápida.

O bolsonarismo não criou o vazio que ocupa; encontrou-o. Milhões de pessoas vivem do próprio trabalho sem sindicato, sem carteira assinada e sem partido que as reconheça, e foi nesse espaço que as redes de lideranças personalistas se instalaram. Isso é sua força eleitoral e sua fraqueza política. 

A resposta não passa por desqualificar a identidade que esse trabalhador construiu ou tentar trazê-lo para uma liturgia trabalhista do século XX, mas por oferecer o que ela não dá: organização própria, direitos que alcancem quem trabalha por conta própria, proteção contra o risco e representação que não dependa de um sobrenome. Enquanto isso não existir, a disputa seguirá sendo entre nomes, e quem não tem organização para oferecer continuará perdendo para quem tem, pelo menos, um sobrenome.

Guardo comigo uma frase que ouvi de uma jovem família de pequenos empreendedores: “Para trabalhar 6×1 para os outros, é melhor trabalhar 7×0 para mim”. A frase expressa uma força desejante: a de construir um projeto próprio de vida, que não cabe no trabalho explorado por outro. Esse desejo tem raiz material. Nasce da experiência concreta da exploração, da escala que consome o tempo de vida em troca de salário, e é isso que a esquerda precisa levar a sério antes de qualquer liturgia. Mas o 7×0 não suprime a exploração. O patrão deixa de ser visível e o trabalhador passa a vender a si mesmo, sem férias, sem previdência, sem proteção contra o risco, extraindo de si o próprio excedente com a saúde. A tarefa da esquerda que quer enfrentar o bolsonarismo e esta nova colonização latino americana é dar a esse trabalhador a autonomia que ele busca e instrumentalizar direitos e organização coletiva, em vez de abandoná-lo à autoexploração e a lideranças que fazem dele base eleitoral.

foto original de https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/familia-bolsonaro-elege-michelle-carlos-jair-renan-e-irmao-de-jair-em-sc-sp-e-df.shtml

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