O Delírio da Biblioteca de Babel

Têm sido amplamente divulgadas as práticas de grandes empresas de tecnologia e inteligência artificial que compram acervos e bibliotecas inteiras, digitalizam suas obras e retêm essas informações como matéria-prima para o treinamento de seus sistemas. Em muitos casos, não se tratando apenas de acessar o conteúdo, mas de garantir exclusividade sobre ele.
Além do caráter socialmente questionável e dos riscos éticos envolvidos, essas empresas parecem desconsiderar uma dimensão primordial da informação: sua credibilidade não se estabelece apenas pela acumulação de dados, mas pela possibilidade de circulação, confronto, verificação, legitimação e reconhecimento coletivo.
Ao retirar uma obra de circulação, uma empresa de inteligência artificial não se torna necessariamente a única potencializadora do conhecimento nela contido. Corre, ao contrário, o risco de transformar esse conhecimento em algo perdido no limbo do algoritmo: disponível para o sistema, mas inacessível à sociedade que o produziu. A grande revolução humana provocada pela imprensa consistiu justamente na ruptura de um processo de centralização da informação. A reprodução e a disseminação das fontes primárias ampliaram o acesso de sociedades inteiras ao conhecimento e tiveram um papel decisivo na formação cultural, científica e política da humanidade.
Informação, vale lembrar, não é sinônimo de conhecimento. Reunir todas as informações do mundo não significa, necessariamente, ampliar a capacidade de relacioná-las, criticá-las, tensioná-las ou confrontá-las com a experiência cotidiana. Podemos pensar em um exemplo alegórico: ao falarmos da gravidade, lembramos de Newton e da maçã; ao falarmos de Einstein, surgem histórias sobre sua observação atenta de fenômenos aparentemente banais como as formigas. Verdadeiras ou não em todos os seus detalhes, essas narrativas expressam uma ideia importante: o conhecimento não nasce apenas da informação obtida, mas também das relações sutis que estabelecemos entre o aprendizado delas e os acontecimentos e experiências de relação com o mundo ao nosso redor.
Da mesma forma, são as trocas entre muitas pessoas que possibilitam a validação, a contestação e a transformação do conhecimento. Um livro apropriado exclusivamente por uma empresa de inteligência artificial, do qual não seja possível encontrar sequer um exemplar em uma biblioteca ou em um sebo, permanecerá sob suspeita: tratava-se de uma obra concreta, produzida e datada, ou de uma invenção posterior do próprio sistema?
O que faz de Notre-Dame de Paris uma obra de impacto? A existência de um primeiro fac-símile ou o fato de o livro ter circulado por inúmeros países, transformando uma arquitetura construída em personagem, inspirando filmes, animações, adaptações, narrativas infantis, interpretações críticas e incontáveis apropriações culturais?
O impacto de uma obra está, em grande parte, em sua capacidade de ser encontrada por múltiplas entradas: edições, citações, leituras, vozes comuns, traduções, formatos, adaptações e remixagens. Sua força não reside apenas em uma suposta origem preservada, mas nas redes de sentido que se formam ao seu redor. Foi exatamente assim que mantemos vivas obras fundantes da humanidade como a Bíblia, Ilíada ou Popol Vuh.
O caráter regressivo do sistema devorador criado pelas big techs está justamente na incompreensão de que a informação só adquire sentido dentro de fluxos e redes sociais complexas, e de que o conhecimento é sempre, em alguma medida, uma produção coletiva.
Ao ignorarem essa dimensão, essas empresas alimentam uma disputa alienada e eticamente problemática, cujo resultado pode não ser o aumento da capacidade cognitiva da sociedade nem a valorização real de seus sistemas. Pode ser, ao contrário, a perda da autonomia coletiva para processar, verificar e produzir conhecimento ou até mesmo a incapacidade de reconhecer como importante aquilo que desapareceu nos porões de um algoritmo.
As bigtechs tentam encontrar o Livro Total que conteria o compêndido perfeito de todos os demais. O mito borgiano, perseguido por muitos na infinita Biblioteca de Babel. A nós, respiremos os bons ácaros dos bons sebos e conversemos sobre o que lemos nas boas rodas de amigos.




