Arquitetura e Urbanismo, brasil, economia, filosofia de vida, política, trabalho

Arquitetura é um colo de avó: pequenas reflexões para a prática nacional

A primeira lembrança que me atravessa quando se fala em interiores não é um catálogo de decoração, mas a casa da minha avó. Ali, a vida tinha escala de 1×1: o corpo inteiro cabia entre o bordado da capinha do gás, a máquina de costura que se transformava em carro de fórmula 1, o quintal que era ao mesmo tempo o mundo inteiro e  cantinho de acolhimento. É dessa escala íntima, olho no olho, que eu via nascer a arquitetura. A arquitetura é um colo de avó, um bolo de laranja quentinho na mesa, um sol que entra na fresta da janela.

No Brasil, a profissão foi arrastada para um dilema: somos vistos ora como luxo e supérfluo, ora como engrenagem de projetos estatais grandiosos e inacabados. No meio, fica o vazio: a vida cotidiana do povo.

Essa fratura não é apenas cultural; ela é estrutural, econômica. Em poucas décadas, deixamos de ocupar um lugar estratégico dentro do projeto nacional de desenvolvimento e passamos a ser percebidos como caros e substituíveis. A armadilha, a meu ver se aprofundou quando a profissão centralizou-se na lógica do luxo como um caminho único. E isso não é necessariamente uma crítica implacável à arquitetura de luxo, que tem seu espaço de direito na sociedade atual. 

O luxo funciona como dispositivo de status e exclusividade: molda o gosto, define o que é belo e desejável, mas apenas para uma fração ínfima da sociedade. A classe média, que em países industrializados sustenta tanto o consumo quanto a cultura material da sociedade, no Brasil nunca se consolidou plenamente. E os pobres, que são maioria, só nos enxergam quando o Estado entra em seus territórios com grandes obras, remoções ou empreendimentos de impacto praticamente autoritário. Fora disso, a figura do arquiteto desaparece de seu horizonte de vida, diferente do médico por exemplo.

Essa ausência tem consequências devastadoras. Quando o cotidiano das famílias não reconhece o arquiteto como parte de sua economia; alguém que resolve problemas espaciais urgentes, que age na escala doméstica, comunitária, de vizinhança, a profissão se isola. E quando uma categoria se isola, perde relevância social e política. É sintomático que, enquanto o país vivia a explosão de consumo de carros e imóveis nos anos 2000, embalado pela ascensão de milhões ao consumo básico, nós não conseguimos nos inserir como serviço acessível para essa massa. Continuamos restritos a dois pólos já citados: o do luxo exclusivo e o do planejamento estatal de megaprojetos. Ambos distantes da vida real.

É nesse ponto que precisamos recuperar uma lição das escalas. Há a escala da família: o sofá da avó, o banheiro que falta em tantas casas brasileiras, o quartinho inacabado do filho o espaço íntimo que define dignidade. Há a escala da comunidade: a rua onde se joga bola, a praça onde se organiza uma festa, a rede de solidariedade que sustenta bairros inteiros. E há a escala da multidão e do estatal: os fluxos da cidade, os planos que estruturam mobilidade, habitação e saúde coletiva. Claro, não são escalas fechadas, longe de mim querer atravessar a cidade por apenas três recortes possíveis, apenas simplifico para fins de dar algum inicio de pensamento sobre o tema. 

O arquiteto, ou o estudante de arquitetura precisa ser capaz de transitar entre essas dimensões, sem perder de vista que elas se conectam como sistema, como ensinavam os pensadores que viam o espaço não apenas como território físico, mas como campo de cidadania, de luta, de afetos.

Se a economia brasileira gira em torno de estratégias de mega exclusão e certa inclusão controlada para evitar grandes turbas disruptivas, a arquitetura não pode se reduzir ser apenas vitrine da exclusividade. A profissão precisa se reorganizar a partir da vida real, da urgência, daquele que não pode esperar seis meses por um projeto para então começar uma obra. Nosso trabalho tem de ser mais ágil, mais enraizado, mais próximo do cotidiano da maioria. Não se trata de reduzir a qualidade ou o rigor técnico, mas de reinventar formas de inserção econômica laboral: organizações coletivas, solidárias, mutirões, cooperativismos, abertas a novas economias de escala que vão do mutirão à assistência técnica, do microempreendimento comunitário às tecnologias sociais, da carreira de estado à arquitetura liberal de atendimento popular.

Sem uma estratégia econômica que inclua de fato o povo, não haverá campo de trabalho sustentável para a arquitetura. E sem arquitetos presentes no cotidiano popular, não haverá cidade justa. Entre o sofá da avó e os grandes planos da nação, existe uma vasta zona de vida que precisa ser ocupada, praticamente um universo de cores que se assemelha a um quadro de Pollock. É ali que a arquitetura pode recuperar sua relevância. Não como luxo, não como burocracia estatal distante, mas como prática social que desenha futuro a partir do olho no olho, da escala humana, daquilo que funda a dignidade de viver.

Para tal, temos uma missão: compreender, técnica e cientificamente, onde estamos e para onde podemos ir. Isso começa pelo gesto simples de olhar ao redor: o bairro, a rua, a casa do vizinho que precisa de um banheiro digno. Jovens arquitetos podem se organizar em coletivos, experimentar formatos de cooperativas, oferecer serviços acessíveis de assistência técnica, participar de mutirões de construção, articular-se com movimentos sociais e comunidades. Outros podem se dedicar ao setor público, disputando políticas urbanas e habitacionais de forma crítica. Há também espaço para a inovação: explorar tecnologias sociais, novos materiais e soluções sustentáveis de baixo custo.

O ponto é não esperar pela grande encomenda ou pelo concurso distante; é começar nos interstícios, nos entremeios, nos lugares que parecem pequenos, mas que são o coração da vida real. É ali que a arquitetura renasce como prática social. Não precisamos reinventar tudo de uma vez, nem sermos reféns de ferramentas. Afinal não é a ferramenta que define o arquiteto, é o arquiteto que define a ferramenta que vai utilizar. Basta iniciar os processos, criar redes e caminhar juntos. A relevância virá quando conseguirmos estar presentes na escala da família, da comunidade e da multidão, com a coragem de projetar os afetos dos mais pobres. Ou estamos presentes na escala da vida real, ou seremos apenas designers do privilégio.

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O fim da CLT está só começando

No início da noite de um domingo chuvoso no Rio de Janeiro, deparo-me com a seguinte matéria:“prefiro sair. Pedidos de demissão batem recorde e já são quase 38% do total de dispensas” link ; Ainda junto a esta, li “Crianças demonizam CLT’: carteira assinada vira ofensa entre os jovens” link . Precisamos refletir sobre. 

O Brasil enfrenta um fenômeno crescente de evasão de trabalhadores do regime CLT, demonstrando uma tendência de recusa à exploração laboral tradicional. Explicações psicológicas individualizadas têm sido propostas, mas não respondem à complexidade da realidade. É importante considerar fatores estruturais e coletivos que moldam o desmonte das relações trabalhistas.

Desde 2016, o Brasil passou por reformas que enfraqueceram as leis previdenciárias, trabalhistas e sindicais, desmantelando proteções históricas não apenas dos trabalhadores, mas também dos empregadores, afinal, o sindicato é um instrumento legal de negociação dos dissensos entre as partes. Esse processo resultou em uma reorganização do mercado de trabalho, onde o vínculo formal perde atratividade tanto para quem contrata quanto para quem busca emprego. As empresas, ao promoverem a flexibilização, agora enfrentam dificuldades em atrair trabalhadores para posições formais, evidenciando uma contradição em suas próprias estratégias de mercado.

Devemos acender aqui um sinal amarelo. Tracemos um paralelo com a experiência africana, que oferece elementos valiosos para reflexão. Em muitas nações da África Subsaariana, a economia informal predomina, empregando entre 60% e 80% da força de trabalho e contribuindo significativamente para o PIB. Embora forneça meios de subsistência, essa informalidade está associada à ausência de proteção social e à hiper vulnerabilidade econômica. Em Gana, por exemplo, a criação da Union of Informal Workers Associations, refletiu a época, a urgência de construir estruturas representativas para os trabalhadores invisíveis, que sobrevivem à margem da formalidade.

Sem uma economia organizada em torno de uma estratégia de nação, os governos têm enorme dificuldade de promover melhorias significativas. O resultado é um ambiente que beira a barbárie, com conflitos civis mal resolvidos e lutas desesperadas pela sobrevivência, que muitas vezes culminam no êxodo de jovens e famílias inteiras para países europeus, em busca de um sonho vendido pelo capital, que não passa de miragem.

Nesse contexto, a promoção do autoempreendedorismo como resposta ao desemprego cria uma corrida solitária pelo ouro perdido. Indivíduos competem em um mercado saturado, sem direitos, proteções e seguridades do trabalho formal. Essa dinâmica resulta em instabilidade econômica e social, dificultando inclusive a implementação de políticas públicas estruturantes e a atração de novos investimentos para o país.

Necessidade de Reestruturação Sindical e Proteção Social

Para evitar um ciclo de precarização irreversível e o colapso, é essencial que o Brasil promova uma reforma sindical robusta, que fortaleça a representação dos trabalhadores e estimule negociações coletivas efetivas. Políticas que incentivem a formalização do trabalho, a construção de um sistema de bem-estar social e o desenvolvimento humano são importantes para garantir a estabilidade econômica e social. A experiência africana nos mostra que, embora a informalidade possa funcionar como rede de sobrevivência, ela limita qualquer projeto de crescimento inclusivo e sustentável. O empreendedorismo nem sempre traz dinheiro fácil, na maioria das vezes ele seduz porque entrega algum dinheiro rápido, mas que, por ser escasso e volátil, se dissipa sem deixar raízes para o futuro. “Dinheiro na mão é vendaval”.

O sindicalismo, por sua vez, precisará reaprender a caminhar sobre o novo solo das lutas. A luta dos precários atravessa outros territórios, físicos e virtuais, e exige novas formas de mobilização, para além da clássica negociação entre patrões e empregados. Precisamos mapear a nova geografia do trabalho e ocupar, com coragem e estratégia, os territórios por onde caminha.

O Brasil está em um ponto crítico, onde decisões sobre políticas trabalhistas e sindicais terão impactos duradouros. Aprender com as experiências de outras nações e reconhecer a importância de estruturas de proteção coletiva será vital para construir um campo de trabalho equilibrado. Se os campos que estão mais sentindo como: construção civil, um dos motores da economia do Brasil, não se atentarem a estas reais necessidades, o que veremos é a degradação que pode não ter volta. 

O Brasil está em uma encruzilhada histórica. As decisões que tomarmos sobre as relações de trabalho e o papel dos sindicatos impactarão significativamente o futuro do país. Se setores estratégicos, como a construção civil, um dos motores da economia nacional, não se atentarem à gravidade do cenário, presenciaremos uma degradação profunda e, talvez, irreversível.

Assim, precisamos alinhar o debate na direção que ele precisa ser tratado: o das lutas coletivas e relações de trabalho, e não o psicológico-social que faz parecer que os jovens estão iludidos, quando na verdade eles estão simplesmente pesando o seu preço real no mercado de trabalho. se eles não precisam neste momento se submeter a salários defasados, falta de direitos, jornadas exorbitantes como as 6×1, assédio moral, entre outros, eles estão certos em não ir trabalhar. O erro dos jovens está em não conseguirem se organizar coletivamente para enfrentar o vilipêndio que foi a destruição do fraco sistema de bem estar social do Brasil e esta é uma luta a qual gostaria de convocar com este texto. 

É preciso alinhar o debate ao que realmente está em jogo: as lutas coletivas e as relações de trabalho. Não podemos mais aceitar apenas análise psicológica que retrata os jovens como mimados ou iludidos por não aceitarem trabalho CLT. Eles estão, na verdade, fazendo um cálculo objetivo e subjetivo, embebidos da subjetividade do autoempreendedorismo, avaliam o custo de se submeter a jornadas abusivas, salários aviltantes, assédio moral e ausência de direitos. E estão certos em não aceitar esse jogo, vão arriscar enquanto são jovens o outro caminho que lhes é aberto pelo capital, a corrida do ouro perdido. O erro, se é que se pode chamar assim, está na falta de organização coletiva para enfrentar o saque sistemático ao que restava do já frágil sistema de proteção social brasileiro. Esta é a luta à qual este texto deseja convocar.

Para o mercado que achou que o desmonte seria o fim dos sindicatos só esqueceu de uma coisa básica: não são os sindicatos que constroem as lutas, são as lutas que constroem os sindicatos. O desmonte criará um sindicalismo diferente que poderá ser mais visceral e combativo diante do massacre popular.  

Ao mercado que acreditou que o desmonte selaria o fim dos sindicatos, um recado: esqueceram do fundamento! Não são os sindicatos que constroem as lutas; são as lutas que constroem os sindicatos. E quando o povo voltar às ruas, às redes e às praças, não vai ser de paletó e crachá, virá selvagem. Virá com fome, com raiva e com uma clareza feroz de que ou este país se reconstrói a partir do trabalhador, ou arderá em sua própria injustiça, e esta será a cara do sindicalismo. Sua nova forma, ainda não sabemos.

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Lavanderias

Teia

Certa vez, eu inocente, joguei no Google a pergunta: como ganhar dinheiro com arte? Uma indagação banal que me conduziu a algo que eu já imaginava mas não fazia ideia de que fosse tão real. A lavagem de dinheiro com arte, em escala global. Quem diria que um quadro de gosto duvidoso poderia valer tão caro?

Lembrei de um amigo num papo de café que me disse algo do tipo: o dinheiro contabilizado no mundo é só a ponta do iceberg. O que está abaixo é um mundo oculto, habitado por cifras inimagináveis.  No Brasil, suspeito que esse iceberg finca raízes em setores tipo o agronegócio, o entretenimento, as igrejas e a cultura. Nada mal para quem busca transformar o ilegítimo em capa da Forbes.

Vamos criar uma narrativa hipotética, uma alegoria. Começaria pelo agro. O agronegócio, pop, paixão nacional, lucrativo, conectado aos mercados globais, com uma imagem púdica, gerada por comerciais que exaltam o poder do campo. Primeiro, compraremos terras com dinheiro de origem, digamos, desconhecida. Dê preferência por regiões remotas, onde o conceito de fiscalização é tão frágil quanto o sinal do celular.

Essas propriedades, mais tarde, serão vendidas a preços inflacionados, gerando lucros que magicamente se tornam renda agrícola. Se perdermos um pouco no processo, não tem problema. Afinal, o importante é que o dinheiro outrora oculto ganhe uma nova roupagem rural. Claro, para os mais ousados, há sempre as opções tradicionais de possuir terras: grilagem, especulação imobiliária, violência e destruição ambiental. Transformar o verde em reais.

Com o dinheiro limpo em mãos, partimos agora para o entretenimento. Por que não organizar shows e festivais? Afinal, bilheterias inflacionadas e patrocínios superfaturados são um interessante passaporte para a legitimidade financeira. Além do que, eventos culturais elevam nossa imagem. Nada como patrocinar um festival de música e aparecer como mecenas nas páginas sociais da sua cidade. A fiscalização é tão subjetiva quanto o gosto musical. Não estamos apenas espalhando alegria?

Apogeu

Mas o ápice dessa jornada para mim, é o mercado de arte. Aqui, meus amigos, alcançamos o nirvana do prestígio. Afinal, se é pra lavar dinheiro, que façamos com elegância e classe.

Compramos quadros ou esculturas, algumas tão duvidosas quanto o gosto de novos-ricos, mas que agora carregam importantes discursos de curadores e marchands. Com algumas aquisições bem escolhidas, nos tornamos filantropos da cultura, intelectuais. Estamos em outra escala da sociedade dos dinheiros duvidosos.

Ninguém pergunta muito sobre o dinheiro que pagou a última obra conceitual. A questão mais importante é se ela combina com a sala de estar de alto padrão ou se vamos doá-la para a próxima exposição. A subjetividade desse mercado é seu clímax. Como questionar o valor de algo que se mede em inspirações? Marchands e casas de leilão cuidam de criar narrativas, enquanto seguimos anônimos nas transações. Em algumas vernissages, sairemos nas fotos e a proteção legal faz o resto.

E assim, entre uma obra de arte e outra, acumulamos prestígio. Somos capa de revistas, frequentadores de leilões badalados, convidados para festas exclusivas. Tornamo-nos o exemplo perfeito de como transformar o que era suspeito em algo digno de aplausos. Há quem prefira os bets, jogadores de futebol, clubes de samba-funk, sertanejo universitário. Gente cafona, tem dinheiro mas não tem estilo. Honestamente, podemos lavar dinheiro com elegância.

Essa conexão entre agro, entretenimento e arte é minha obra prima, uma rede de lavagem que tem a estética de uma vida perdida entre Picasso e Romero Britto.  Ao misturar esse dinheiro oculto com setores socialmente aceitos, fecho um ciclo que, embora mantenha as desigualdades e mine a confiança global nas instituições, me permite boas conversas numa manhã de terça feira no Café Max, bem longe do Brasil. Ao fim, o que sobra é uma ironia: Estou na capa da Forbes, na ilha de Caras, nas festas do Morro da Urca. O trabalhador da base, com seu salário mínimo, admira nossas fotos na Suíça, enquanto está em pé num 804 voltando pra casa.

A moral da história? Desde quando precisamos encontrar alguma moral em alguma história? Entre leilões, festivais, igrejas e vastas plantações, já não sei se é a arte que imita a vida ou o dinheiro lavado que imita a arte.

Quem quer dinheiro?

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Descentralizar o saber técnico é um desafio estrutural no Brasil

A desigualdade regional no Brasil gera uma das maiores dificuldades de articulação para projetos nacionais. A disparidade de bens, serviços e qualidade de vida oferecidos entre as regiões intensifica a concentração de serviços qualificados no Sudeste e Sul. Entre os muitos reflexos desse modelo está a concentração do conhecimento técnico-científico, que cristalizou um padrão de desenvolvimento desigual.

O país precisa enfrentar um desafio: como modificar esse fenômeno? Como criar uma estrutura sistêmica que amplie as capacidades de adaptação e inovação em regiões onde a economia ainda é muito pobre? Programas foram implementados, mas esbarram em problemas estruturais e na descontinuidade.

A expansão de universidades no interior trouxe avanços, mas muitos campi enfrentam a ausência do básico: laboratórios, bibliotecas e internet. Soma-se a isso um desalinhamento entre os cursos oferecidos e as vocações econômicas locais, além da dificuldade de atrair e reter pesquisadores em cidades que não oferecem o mesmo magnetismo material e simbólico do Sudeste e Sul.

Políticas de incentivos fiscais, como a Zona Franca de Manaus, também têm suas limitações. Embora atraiam indústrias, frequentemente resultam em enclaves econômicos desconectados das comunidades locais, sem transformar a base da economia regional. Da mesma forma, programas como o Mais Médicos mostraram que incentivos financeiros são insuficientes para fixar profissionais em áreas remotas. Sem uma estrutura de suporte, como moradia, segurança e acesso a serviços, a rotatividade desses trabalhadores segue alta, comprometendo a continuidade das ações.

Precisamos reconhecer que a maior parte do Brasil é formada por essas cidades e que criar estratégias de desenvolvimento regional para torná-las mais atrativas em qualidade de vida pode ajudar a reverter o processo de evasão da mão de obra qualificada que está hiper centralizado no eixo sul-sudeste.

A descentralização do saber técnico-científico , porém, exige mais do que boas intenções. É preciso articular infraestrutura educacional, incentivos econômicos, conectividade digital, redes de colaboração nacional e baratear a logística nacional, melhorando a capacidade de translado e conexão modal entre as inúmeras cidades deste País. Investir na formação de pólos de conhecimento alinhados às demandas locais e garantir a continuidade administrativa são passos fundamentais para superar a fragmentação que compromete a eficácia dessas políticas.

Este desafio é imenso. A governança brasileira, com sua complexidade federativa, exige alinhamento entre as esferas de poder, algo que frequentemente se perde em políticas descoordenadas e sobrepostas, além de inúmeras disputas de pequenos e grandes poderes. Isso nos obriga também a impessoalizar alguns processos administrativos e políticos estratégicos, visando mitigar a capacidade destes ficarem amarrados ao personalismo de lideranças.

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Interiorizar a Arquitetura: Uma possibilidade de reinventarmos a Profissão

A arquitetura, como era conhecida em tempos antigos, acabou. O que nos resta é a oportunidade e  dever de reinventar nossa capacidade de trabalho, utilizando nossas ferramentas para enfrentar as pautas urgentes que moldam nosso tempo. Entre elas, quero destacar algo que me incomoda: premente necessidade de descentralização do desenvolvimento econômico e social do Brasil.

O modelo atual concentra riqueza e impactos no eixo Sudeste, deixando vastas áreas do território nacional relegadas ao abandono ou à exploração predatória. É um ciclo que alimenta desigualdades regionais e ambientais. O arquiteto militante, consciente de sua responsabilidade social, deveria propor e implementar projetos que alavanquem o interior do Brasil. Penso que criar polos de inovação sustentável por exemplo, é um caminho para mitigar os efeitos da concentração de renda e da superexploração territorial.

Interiorizar a arquitetura não é apenas deslocar profissionais para regiões periféricas. É articular esferas distintas de poder, estatal, comunitário, acadêmico, movimentos sociais, para criar espaços de gestão compartilhada. Centros regionais de pesquisa, ensino e prática podem ser organizados com o objetivo de oferecer soluções em arquitetura bioclimática, agroecologia e infraestrutura de baixo impacto extrativista e alto desempenho social.

O Brasil, em sua vastidão e diversidade, exige soluções regionais, não cabem em um modelo único e genérico. Dito isso, precisamos dispor de um olhar não nostálgico para o vernacular e o cultural, mas como um ponto de partida para construir uma arquitetura que dialogue com os desafios e recursos locais.

Uma estratégia central para essa mudança é a mobilização de arquitetos para territórios desassistidos. Há cidades e regiões inteiras onde sequer há um profissional atuando. Um esforço político sério deve permitir a interiorização de profissionais, incentivando a criação de soluções que priorizem o baixo impacto ambiental e a alta capacidade de transformação social.

Urge também reformular o currículo das escolas de arquitetura. Devemos integrar o foco regionalizado que prepare os arquitetos para os desafios locais, desmistificando que a única linguagem certa é a gramática globalizada que muitas vezes ignora as especificidades do território brasileiro. Trata-se de uma educação que valorize o contexto, o lugar e a realidade concreta de cada comunidade.

Mobilização e Impacto Político

A mobilização para interiorizar a arquitetura pode e deve operar em escalas comunitárias e globais. Redes com movimentos sociais, universidades e lideranças locais devem ser construídas para fortalecer as propostas e ampliar a capacidade de intervenção.

Plataformas digitais também tem um papel fundamental nesse processo. Ajudam a conectar ideias, expondo projetos de sucesso e promovendo o diálogo entre atores diversos. Exemplos concretos de transformação territorial sustentável precisam ser divulgados e trabalhados como modelos a serem replicados e transformados em políticas públicas.

Interiorizar a arquitetura é, antes de tudo, um ato político. É reivindicar a profissão como uma ferramenta de justiça social e ambiental. É garantir que os povos historicamente silenciados tenham voz, que suas demandas sejam ouvidas, e que as soluções não lhes sejam impostas, mas construídas coletivamente. Sabemos que a arquitetura sempre foi uma ferramenta de legitimidade do Poder, o que devemos nos propor agora é: Que poder queremos legitimar e que povo gostaríamos de empoderar?

Este é um desafio e uma oportunidade viável para o renascimento da arquitetura contemporânea no Brasil. Não podemos nos limitar a projetar a centralidade do país. A profissão está diante de um ponto de inflexão, que a escolha seja clara: reconstruir a arquitetura a partir da periferia, do interior, com força de quem acredita na transformação coletiva. 

Quanto ao poder público, pode criar linhas de fomento e recurso para regiões pobres possam ser atendidas. Se isso nos soa algo inovador e talvez interessante de aplicar, o que digo é: basicamente este é o princípio pensado a décadas pelos ativistas da Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social. E suas ações diretas, soam quase quixotescas nestes muitos Brasis existentes que negligenciam a maior parte da população pobre. Tudo que precisamos é implementar o recurso, massificar a política e usar os bons exemplos como instrumentos de melhoria das políticas.

casas ribeirinhas – Tarsila do Amaral

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De onde surgiu Rick Azevedo? O drible do trabalhador no enfrentamento do 6×1

De onde surgiu Rick Azevedo? Essa pergunta tem ecoado entre certa parte dos pensadores da esquerda carioca. Confesso que também conheço pouco sobre ele, mas já o considero um nome promissor. A expressiva votação que o candidato do PSOL alcançou nos diz muito sobre a invisibilidade do trabalhador pobre diante do sistema político brasileiro.

Há dois pontos essenciais que gostaria de destacar. Primeiro, Rick foi direto e incisivo em uma análise crucial: diante da precarização, não basta resiliência; é preciso disputar espaço. Esse é o recado do “6×1”, um sinal de uma luta popular real. Engana-se quem pensa que essa pauta é restrita a celetistas ou trabalhadores com contrato formal; ela representa todos aqueles que, frente à precarização de suas vidas, precisam estar disponíveis para o mercado, 24 horas por dia, sete dias por semana, para sobreviver.

O que quero dizer com empregabilidade? Quando falo em “empregabilidade”, refiro-me não apenas à exigência de estar sempre “pronto para uso” no mercado, sempre competitivo e adaptado às transformações econômicas, tecnológicas e sociais. É a pressão para ser “empregável” em qualquer situação, diferentemente de um emprego, que é uma ocupação formal e estável. Empregabilidade abrange o trabalho informal, o bico, o subemprego, e principalmente o desemprego, todos os sistemas onde o trabalhador vende sua força na esperança de um retorno que talvez nunca venha.

Assim, a jornada “6×1” vai muito além de um acordo para celetistas. É a rotina dos entregadores, motoristas de Uber, microempreendedores (MEIs) e todo tipo de trabalhador que não consegue, em 40 horas semanais, garantir o básico para viver. Enquanto a Europa experimenta e disputa jornadas reduzidas, como o modelo “4×3”, que permite mais equilíbrio entre trabalho e vida, o Brasil segue pelo caminho oposto, abraçando uma lógica de exploração que mantém a mão de obra barata e a pobreza crônica, favorecendo a hiperexploração. E essa realidade só se aplica à gigantesca massa de pobres, sem heranças ou privilégios, cujas vidas são devoradas por um mercado que exige sempre mais e oferece cada vez menos.

O segundo ponto essencial é a coerência das ações de Rick. Ele é o “desconhecido mais conhecido” que já vi, e sua trajetória expõe a crise de desconexão da esquerda carioca – e talvez nacional. Seu impacto eleitoral não se limita aos corredores da esquerda. Rick caminhou por onde muitos formuladores e líderes da esquerda já não passam: as filas de trens, os pontos de ônibus, as ruas da Baixada Fluminense, os subúrbios, o duro solo do trabalhador carioca e fluminense. Ele foi ao encontro do trabalhador, do desempregado, do pobre, aquele que ele efetivamente busca representar.

Rick faz uma crítica necessária e contundente ao sistema sindical, num momento em que o próprio governo federal, que deveria carregar as bandeiras do trabalhismo e sindicalismo, se curva diante da correlação desfavorável de forças e tem de negociar com um parlamento que empurra os trabalhadores para novas formas de exploração. E, ironicamente, é o mesmo governo que, ao optar por um ajuste fiscal, ameaça o Sistema Único de Saúde (SUS) em um contexto onde até a saúde privada se torna precária para o trabalhador médio.

Rick Azevedo se apresenta como uma força emergente, uma representação autêntica da luta contemporânea pelo trabalho no contexto carioca. Ele pode simbolizar uma esperança para a reconstrução do pensamento trabalhista e sindical e para o próprio PSOL. Que o ímpeto de suas pautas permaneça forte em sua atuação como parlamentar, este será seu novo desafio, manter-se firme às pautas que o levaram ao cargo no legislativo. Ver essa chama acesa no PSOL é inspirador. Essa bolha furada prova que ainda é possível lutar de verdade, basta ter coragem.

imagem de divulgação do próprio vereador
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Do Lamento da Ciência Solitária ao Êxtase do Abraço Coletivo

Tomo a liberdade de remixar um termo citado por Darcy Ribeiro em uma entrevista para refletir sobre a ciência e seu papel na sociedade. A ciência enfraquece quando se torna o território dos “cavalos de santo” da intelectualidade.

O campo acadêmico e científico é um dos pilares mais promissores da estrutura social contemporânea. Talvez o melhor investimento que a humanidade possa fazer esteja naqueles que se dedicam à experimentação, à pesquisa e ao desenvolvimento. Esses indivíduos arriscam-se no terreno das hipóteses, buscando inovações que transformam o mundo. Contudo, esse campo encontra-se hoje estruturado sob uma lógica de exploração e alienação, refletindo a organização de todo o sistema econômico. Se antes reverenciávamos a intelectualidade, como quem presta tributo a uma divindade, hoje nos deparamos com cientistas altamente precarizados, dedicando praticamente 24 horas por dia a seus projetos, enquanto enfrentam depressão, burnout e crises financeiras.

A realidade é dura: sem desmerecer outras profissões, eu, Rodrigo, com meu diploma de técnico em elétrica, consigo um emprego com um salário superior ao de uma bolsa de doutorado, e de forma relativamente confortável.

No entanto, não pretendo me aprofundar aqui na crise material, pois ela caminha ao lado de outra, ainda mais complexa e subjetiva. Um paradoxo emerge: a ciência e a produção de conhecimento são, por natureza, processos coletivos, contínuos e sem fronteiras. Contudo, o exercício científico, quando organizado como um sistema de produção formal, tornou-se altamente competitivo, individualista e solitário.

As publicações científicas, hoje, perecem ao valorizar mais o rigor da formatação, a citação de autores consagrados e a quantidade de títulos acadêmicos do que os resultados verdadeiramente inovadores e de impacto social relevante. Esses artigos são revisados por pares, em processos lentos e custosos, que muitas vezes limitam o acesso aos próprios resultados da pesquisa. A ciência se perdeu naquilo que criticava: tornou-se hermética, o território de poucos iluminados. A quantidade vale mais que a qualidade, e o furto de trabalhos, ideias e dados é uma constante, um verdadeiro campo minado. A ciência, que deveria ser um empreendimento coletivo, compartilhado entre aqueles que se dedicam ao seu avanço, foi reduzida a uma luta solitária por financiamento e reconhecimento. Nesse contexto, muitas vezes falta a abertura para o diálogo e a colaboração entre pares, assim como a coragem para assumir riscos e explorar caminhos menos convencionais.

autoria própria: Stephen Hawking e o Pequeno Príncipe conversando sobre o universo

Produzir conhecimento, por sua vez, é algo que fazemos continuamente. O maior desafio do indivíduo é ter a coragem de se lançar ao risco, diante de um sistema que aprisiona e formata a vida científica. Para além das universidades e dos centros de pesquisa, há saberes que nascem nas comunidades tradicionais, nas práticas cotidianas, nas trocas entre trabalhadores e em movimentos sociais que enfrentam desafios locais com soluções criativas. Esses conhecimentos têm suas próprias metodologias e princípios, muitas vezes transmitidos oralmente ou por práticas de convivência, como é o caso do conhecimento de povos indígenas sobre o manejo sustentável da terra ou das experiências comunitárias de cooperativas urbanas.

A estrutura científica contemporânea alcança resultados, mas, para isso, limita a existência da vida ao não se permitir costurar a trama dos muitos estímulos sensoriais que ritualizam a experiência humana na Terra. Falta à ciência o toque fino na vida e no outro, algo comum aos poetas, aos esotéricos, às culturas mais tradicionais.

O reconhecimento acadêmico desses saberes ainda é limitado. Muitas vezes, o que não se adequa aos rigorosos critérios de validação científica acaba sendo subvalorizado ou considerado anedótico, mesmo quando essas práticas trazem respostas concretas para problemas ambientais, sociais e econômicos. Rezadeiras, cartomantes, yogues tântricos, praticantes de tai chi, meditação e herbalistas são desconsiderados como parte da formação do saber.

É justamente nesse ponto que surge a necessidade urgente de reimaginar a ciência como um espaço de liberdade intelectual, onde o risco e a colaboração estejam no centro. Reimaginar a ciência significa, também, resgatar a noção de que o conhecimento científico não é um fim em si mesmo, mas um meio para melhorar a vida das pessoas, construir soluções coletivas e responder às crises que atravessamos enquanto sociedade global. Significa criar espaços em que cientistas possam trabalhar sem a sombra constante da precarização e da pressão por métricas de impacto. A experiência da pandemia de COVID-19 mostrou o valor de esforços colaborativos, como as coalizões internacionais para desenvolvimento de vacinas, demonstrando que, diante de grandes desafios, a união de esforços e a abertura de dados podem gerar avanços rápidos e transformadores.

É fundamental também repensar os critérios de avaliação científica, valorizando a qualidade do impacto social dos projetos e o compromisso com questões urgentes da população mundial fragilizada. Importa menos os santos da ciência, e muito mais os dispositivos que eles trazem e as formas como os utilizamos.

O próximo salto está aí, a meu ver: construir uma ciência aberta ao diálogo, ao risco e ao compartilhamento de saberes, onde a criatividade possa florescer. Com esses passos, talvez possamos resgatar a esperança de que a ciência, em sua diversidade, possa novamente ser um território de construção de um mundo mais justo para todos. Fazemos ciência nas conversas de bar, nas trocas cotidianas e na observação dos momentos simples de prazer e boas risadas.

No encontro entre o saber acadêmico e os conhecimentos que emergem dos povos, há um toque sutil, como um fluxo que pulsa entre a racionalidade e a intuição, tal como a respiração que conecta os corpos ao espírito. A ciência, ao abrir-se para esse toque, transcende seus recalques e mergulha num campo onde cada descoberta se torna um ato libertário de entrega, de diálogo com o desconhecido.

Ali, dissolve-se o ego sofrido do pesquisador isolado, dando lugar ao movimento coletivo, onde o risco é uma forma de êxtase e a colaboração entrelaça razão e sentimento. Assim, a ciência pode se transformar num espaço relacional, onde cada troca expande os limites da compreensão, ecoando um desejo profundo de alcançar e tocar, mesmo que de leve, a pulsação da vida real.

viva o SUS!!

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Política em Rede: do Esgotamento das Estruturas Tradicionais ao nascimento prematuro das Estruturas Algoritmo

Isaac Asimov, um pioneiro em robótica e algoritmos, nos apresentou uma visão importante da sociedade: a possibilidade de uma estrutura regida por regras claras e universais, capaz de coordenar nossas ações e interações. Hoje, enfrentamos um desafio semelhante, mas em um contexto muito mais complexo. Como construir uma política que dê conta da diversidade e interconectividade de uma sociedade em rede, onde as antigas formas de organização coletiva estão esgotadas?

Estamos em um momento de ruptura social: as grandes estruturas de organização coletiva, que por muito tempo sustentaram partidos, ordens religiosas, movimentos sociais e ajudaram a produzir as políticas públicas, hoje não falam de forma completa à nossa realidade. A lógica de massas parecem ultrapassar limites que não são mais suficientes para abarcar a complexidade das relações contemporâneas. Se as bandeiras unitárias não oferecem mais nós mobilizadores, é porque a realidade das redes expõe um novo modo de organização e de interesse social – mais fluido, interconectado e diversificado.

A lógica de identidade, apesar de ainda ser útil na construção de políticas públicas, atinge um limite ao deixar de fora uma vasta gama de indivíduos que não se enquadram nos padrões necessários para serem atendidos. Assim, indivíduos encontram em redes contemporâneas respostas para inquietações e problemas que lhe parecem prioritários. Um jovem favelado gay criado na igreja batista que não se sente oprimido por questões de gênero no seu ciclo cotidiano, mas que tem a geladeira vazia vai encontrar como prioridade uma luta material por sobrevivência (dinheiro e comida) do que uma luta por gênero por exemplo. Um garoto branco morador de favela que fica em segundo plano na lida de uma ONG que combate o racismo pode sentir-se preterido em uma luta periférica e tentar encontrar seus caminhos em outras esferas.

Em tempos anteriores, estes exemplos eram poucos ou, ainda havia uma capacidade de aglutinar casos diversos sob uma bandeira. Porém, os dias atuais, a singularidade e diversidade se tornam o elemento de desejo e interesse.  O dilema que enfrentamos está justamente aí: construir uma política que exige mobilização em massa – seja ela um Estado, um grande grupo social, ou uma coalizão- em um mundo cada vez mais diverso de representação e encaixe. A sociedade em rede evidencia cada vez mais as singularidades, seus fluxos e interconexões. O detalhe que te diferencia é tão ou importante quanto o que te iguala no sistema. Se o que me diferencia é mais desejante do que aquilo que me une, como consigo construir uma política de massa, visto que esta precisa se balizar por uma média da maioria?

Estamos habituados a padrões organizacionais modernos, pós-industriais, que buscam algum tipo de elo de segurança: uma ordem, uma liderança central, ou um corpo de controle administrativo, gestor. Contudo, a realidade atual escapa a esse modelo. É simplista e até ludita acreditar que o controle das redes sociais, por exemplo, é movido apenas pelo desejo de um “grande irmão capital”. Acreditar que, ao identificar um driver central, resolveremos os problemas das redes ignoramos o fato de que vivemos em um sistema cada vez mais descentralizado.

Pensemos em nossa rede atual como um sistema que se organiza por múltiplos nós interligados. No entanto, não nos coloquemos como esses nós, mas sim como as pulsões que trafegam por eles: somos entes de força ativa. De forma autônoma, porém organizada por uma série de protocolos e regras (como as três leis da robótica de Asimov), podemos navegar por espaços que são tão reais quanto virtuais. Um bom exemplo são os motoristas de Uber, que discutem política durante suas viagens, demonstrando como fluxos de informação se formam e se dispersam em redes complexas independente de serem sistemas virtuais.

Cada um de nós pode ter seu próprio foco, suas próprias lutas e papeis, constituídos ou constituintes. E nossas ações, por sua vez, são coordenadas por mecanismos distribuídos, como blockchain, sistemas peer-to-peer, ou redes neurais profundas, que possibilitam a comunicação sem a necessidade de uma estrutura centralizada. Esse modelo se reflete nos movimentos sociais contemporâneos, como os trabalhadores de aplicativos, que constroem solidariedade e trocam informações sem depender de uma hierarquia formal.

Assim, o controle do sistema não é o que inserimos, surge mais da interdependência e do fluxo de informações que de uma autoridade central. A dinâmica do poder torna-se difusa, surgindo de inúmeras interações que operam em sinergia, muito além das visões modernas de controle total por corporações ou governos.

Diante dessa realidade, nos vemos obrigados a compensar as formas de construir uma política global que seja capaz de coordenar esses fluxos, respeitando a singularidade de cada nó, ao mesmo tempo, articulando uma ação coletiva. E isso é algo extremamente desafiador, pois nosso primeiro enfrentamento é romper com dogmas e paradigmas industriais e pós industriais.

Não é tarefa simples repensar o planeta dentro destes novos modelos, não acontecerá pelos sistemas constituídos e consolidados. Talvez, como todas as grandes mudanças da humanidade, acontecerá de forma periférica, meio alternativa, até que as estruturas estejam prontas. A questão é que talvez não tenhamos tempo na Terra para tal reorganização social. Se Asimov nos ensinou algo, é que o desafio não está apenas em criar novas regras, mas, principalmente, em como nos relacionamos com elas. Detesto terminar texto com perguntas, porém este será assim. Estamos prontos para pensar a política a partir da perspectiva de redes complexas e algoritmos?

Por pura diversão, pedi ao DALL-E para criar três imagens a partir de três narrativas:

1 – uma visão a partir do pensamento do senso comum sobre as redes a partir do controle do capitalismo

2- uma visão a partir do pensamento do senso comum sobre as redes com uma vitória do sistema soviético

3-uma visão a partir das reflexões postas aqui e da articulação das teorias das redes complexas.

Deixo aqui para alegoria e apreciação.

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GESTÃO PÚBLICA E PRIVADA: Diferenças na Administração do Bem Comum

A gestão pública é um campo que exige um equilíbrio complexo entre conhecimento técnico, administrativo, jurídico e político. Enquanto a experiência puramente militante pode fornecer uma base de engajamento político e definir prioridades, a gestão pública demanda um enfoque técnico para que essas políticas se tornem realidade. Sem esse equilíbrio, há o risco de que as pautas definidas jamais se transformem em resultados concretos e mensuráveis. A prática da gestão pública é marcada pela necessidade de procedimentos formais, controle social e uma vasta rede de regulações que orientam o uso dos recursos e a prestação de serviços à coletividade.

Entro muitos fatores, destaco que: o desequilíbrio conceitual surge  dois. De um lado, há forças altamente qualificadas na produção política, mas que falham na execução burocrática. Do outro, estão aqueles que não compreendem as distinções entre o público e o privado, o que desvirtua a administração pública de suas funções principais. Como resultado, órgãos públicos não conseguem cumprir plenamente suas responsabilidades para com o povo.

Assim, destaco o seguinte recorte: a distinção entre o público e privado. Estes já começam na finalidade, no papel social. A administração pública tem como objetivo constitucional o atendimento ao interesse coletivo, que estabelece os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Em contraste, a gestão privada onde resultados financeiros, competitividade no mercado e lucro para os acionistas ou proprietários são foco.

Essa diferença fundamental reflete-se nas práticas, legislações e restrições que regulam cada área. No privado, o tripé mercado-trabalho-receita guia as máquinas de sua regulação. Já o gestor público está sujeito a um complexo sistema de controle externo, como tribunais de contas, controladoria geral, entidades fiscalizadoras, Lei de Responsabilidade Fiscal. Esse instrumental de segurança ao Erário impõe limites rigorosos, tornando a flexibilidade do setor privado um privilégio raro no setor público. A responsabilidade administrativa no setor público preza pela severidade e segurança.

Lidar com o bem comum é mais complexo do que com o privado. Isso torna a tomada de decisão da administração pública mais lenta. Seguem-se ritos que garantam ampla participação social, como processos licitatórios, consultas públicas e debates em câmaras. No setor privado, as decisões são mais ágeis, geralmente passando apenas pelos gestores ou, no máximo, por assembleias de acionistas.

A contratação de pessoal e a transparência são pontos cruciais. No setor privado, contratações e demissões são ajustes de mercado. No público, a admissão ocorre via concurso, garantindo impessoalidade, transparência e eficiência, promovendo igualdade de oportunidades e prevenindo favorecimentos. Além disso, a gestão pública exige maior transparência, com a divulgação de contratos, licitações e execuções orçamentárias, permitindo a fiscalização pela sociedade.

O orçamento é outra distinção. No setor privado, há mais liberdade para relocar recursos conforme o mercado, estratégias de gerencia e governança corporativa. No âmbito da gestão pública, por sua vez, o orçamento segue normas rígidas e protetivas, como a Lei Orçamentária Anual e o Plano Plurianual, limitando a capacidade de reação rápida a imprevistos.

Diferente do setor privado, onde a responsabilidade geralmente está vinculada ao cumprimento de contratos e à satisfação dos acionistas. Gestores públicos estão sujeitos à Lei de Improbidade Administrativa, que pode acarretar penalidades severas, incluindo a perda do mandato, em casos de má gestão ou corrupção.

Diante dessa realidade, é imprescindível que o gestor público tenha um viés de função social. Ele deve entender que sua responsabilidade vai além da política ou da técnica: é necessário ser um exímio trabalhador, um cuidadoso articulador, capaz de unir conhecimento técnico, políticas sociais e a complexidade administrativa do espaço que gere. A capacidade de equilibrar as demandas da população com as exigências formais da administração pública é o que distingue de verdade um proeminente líder. Somente assim é possível transformar as políticas desejadas em resultados concretos que beneficiem a sociedade como um todo.

imagem original extraída de artigo do TCE de SP: https://www.tce.sp.gov.br/6524-estado-sao-paulo-tem-762-obras-paralisadas-ou-atrasadas

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Saúde Coletiva e Emergência Climática: O Desafio de uma Governança Global a Partir dos Mundos Menores

A crise climática e os desafios de saúde coletiva revelam um panorama que vai além das fronteiras nacionais, exigindo uma resposta coordenada e efetiva em escala global. No entanto, para que essa resposta seja genuína, precisamos de um novo paradigma de governança que não apenas integre o tripé político, técnico e econômico, mas que também valorize e empodere o que chamamos aqui “mundos menores” (uma paráfrase deleuziana) — pequenas comunidades, cidades periféricas, povos tradicionais e regiões historicamente marginalizadas que muitas vezes possuem soluções interessantes e inovadoras.

O Paradigma dos Mundos Menores: Uma Governança de Baixo para Cima

Historicamente, a governança global tem sido centralizada em grandes metrópoles e centros de poder econômico, que ditam as diretrizes políticas e tecnológicas, frequentemente ignorando as realidades e conhecimentos dos mundos menores.

Esse modelo centralizado não apenas perpetua desigualdades, mas também limita a capacidade de resposta a crises complexas, como a emergência climática e os desafios de saúde coletiva, que requerem soluções adaptadas às especificidades locais.

Os mundos menores, entretanto, têm mostrado uma potência que as grandes estruturas de governança global frequentemente falham em replicar.

Pequenas cidades, comunidades rurais e povos tradicionais operam com uma lógica de proximidade com a natureza e um senso comunitário que possibilitam respostas rápidas e eficazes a desastres.

Exemplos como o manejo do fogo pelos aborígenes australianos ou as respostas dos Moken aos tsunamis mostram que, muitas vezes, a sabedoria ancestral e local é mais eficaz do que as tecnologias impostas de cima para baixo.

Integração Política: Descentralizando o Poder e Empoderando as Comunidades Locais.

O primeiro passo para um novo paradigma de governança global é a descentralização do poder político. É necessário que a tomada de decisões seja compartilhada, incorporando as vozes e conhecimentos das comunidades locais como parte ativa dos fóruns globais. Essa integração não deve ser meramente simbólica, mas estrutural, garantindo que as prioridades das minorias e das regiões periféricas sejam colocadas no centro das políticas climáticas e de saúde.

Devemos fomentar os conselhos globais de governança de maneira que incluam representantes das comunidades locais, pequenos municípios e minorias. Esses conselhos teriam poder de deliberação e influência sobre as políticas internacionais, promovendo uma troca constante de saberes e experiências entre o global e o local. A governança deixaria de ser um monólogo das grandes potências para se tornar um diálogo genuíno e multidirecional.

A Força Técnica dos Mundos Menores: Redes Locais e Conhecimentos Ancestrais

Em termos técnicos, os mundos menores trazem uma riqueza de conhecimentos que pode revolucionar a forma como enfrentamos as crises climáticas e de saúde coletiva. A integração de saberes tradicionais com tecnologias contemporâneas cria soluções adaptáveis, acessíveis e sustentáveis. Esse modelo híbrido de ação técnica valoriza o que é tradicional, sem ignorar os avanços tecnológicos globais, promovendo inovações que realmente atendam às necessidades das comunidades.

Faz-se necessário implementar uma rede aberta e descentralizada de cooperação técnica que conecte cidades pequenas, comunidades rurais e povos tradicionais com centros de pesquisa e inovação, facilitando a troca de dados, práticas e tecnologias. Plataformas colaborativas de acesso aberto permitiriam que soluções locais fossem amplamente disseminadas, oferecendo modelos replicáveis de resiliência e adaptação.

Por exemplo, mediante um território propício a tsunamis, podemos elaborar a implementação de sistemas de alerta que utilizem tanto tecnologias de ponta quanto sinais naturais reconhecidos por comunidades locais, como alterações no comportamento animal ou mudanças climáticas perceptíveis, criando um sistema de alerta antecipado que é ao mesmo tempo preciso e culturalmente relevante.

Economia Inclusiva

O financiamento de ações climáticas e de saúde coletiva precisa ser reimaginado sob uma perspectiva de justiça econômica que reconheça a importância dos mundos menores. Os atuais mecanismos financeiros internacionais frequentemente favorecem grandes projetos que beneficiam principalmente centros urbanos e países desenvolvidos, deixando as comunidades mais vulneráveis à margem.

Sugiro estabelecermos fundos descentralizados e de fácil acesso para financiar iniciativas locais de adaptação climática e saúde coletiva. Esses fundos seriam geridos por conselhos comunitários, garantindo que os recursos sejam direcionados para as necessidades reais das populações. A criação de parcerias público-comunitárias, em que empresas privadas se comprometem não apenas com o financiamento, mas também com a cocriação de soluções junto às comunidades, fortaleceria a economia local e incentivaria a inovação.

Projetos de microfinanciamento que apoiem a adaptação climática em pequenas comunidades, como sistemas de captação de água de baixo custo, hortas comunitárias para segurança alimentar, e clínicas de saúde integradas que combinam medicina tradicional e moderna.

Governança Global a Partir dos Mundos Menores

Os desafios da emergência climática e da saúde coletiva não serão superados com mais do mesmo. É necessário romper com o modelo centralizado de governança que privilegia as metrópoles e adotar um novo paradigma, onde os mundos menores são reconhecidos não como beneficiários, mas como protagonistas das soluções globais. Descentralizar o poder político, integrar conhecimentos técnicos locais e criar uma economia inclusiva são passos fundamentais para construir uma governança que seja verdadeiramente global e que responda às complexidades do nosso tempo.

Ao valorizar as comunidades locais e empoderar as minorias, podemos criar um sistema de governança que não apenas enfrente as crises climáticas e de saúde coletiva, mas que também promova justiça, resiliência e inclusão. Esse é o caminho para um futuro sustentável, onde as soluções emergem de baixo para cima, refletindo a diversidade e a riqueza dos mundos menores que formam o nosso planeta.

desenho: autoria própria

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