Meu pai amava a praia de Sepetiba, enquanto eu a considerava sem graça. Preferia jogar bola no Recôncavo, andar de bicicleta com meus amigos, catar fruta no pé na Arealva, pular o rio, e soltar pipa.
Mas um dia, compreendi o amor de meu pai. Me dizia: “Não anda olhando para o chão, moleque, cabeça erguida”. E foi assim que diante da Baía de Sepetiba, levantei a cabeça e a paisagem renasceu. Ver a restinga da Marambaia ao fundo, riscando o horizonte, o pôr do sol, o barulho da marola e das aves, o aroma da maresia, nem lembrei do barro entre a areia e a água.
Nossa segunda praia era o Recreio, na época dos areais, acampando. Recreio é mar arredio, destes que querem ser livres, ou a gente respeita ou ele nos engole. Algumas vezes íamos às praias da Ilha do Governador. Mais velho, já arquiteto, aprendi a amar a Praia das Pedrinhas, mar de pescador, graças ao meu pai que lá atrás disse: “Olha para o horizonte”.
Privatizar praia é o sonho de quem para o 474 numa manhã de domingo e manda os garotos do Jacaré descerem; delírio que diz: “Nossa praia”. Praia é um ser livre, um ente de renovação. Quantos de nós não pulamos as ondas de um ano novo e renovamos nosso pacto com a vida? Aprisionar o mar em políticas privatistas é negar seu sentido libertário. O mar não cabe no bem privado, mal cabe no bem público. O mar é fluxo da vida, berço do imprevisível. Praia, pedacinho de terra que toca a imensidão das correntes, captamos seus valores e significados, a potência para além dos corpos.
Em um mundo que dá claros sinais de que nossa escolha limitante de transformar tudo em recurso cria danos irreversíveis, a lei da praia é fruto de uma visão estreita e obsoleta. Não enxerga a grandiosidade do mar, lança um olhar míope e mesquinho, que aprisiona a praia em cifras, reduzindo-a a um mero balanço financeiro para alguns poucos privilegiados, alheios à complexidade de vida que permeia nosso país.
foto autoral: povo na praia do Flamengo, reveillon
Se você perguntar a 40 pensadores sobre o significado do termo cidade, provavelmente receberá 40 respostas diferentes. E essa pluralidade importa muito quando elucubramos sobre este espaço onde a vida de muitos de nós se desenrola. A cidade é algo tão complexo que escapa às definições.
Um recorte que gosto especialmente vem de Mumford: a cidade é “um símbolo estético de unidade coletiva”. Exploremos a estética a partir de Espinosa, não reduzindo-o a uma categoria puramente formal, mas refletindo nele como uma experiência subjetiva capaz de nos afetar, tornando-nos mais potentes e desejantes. Podemos entender a experiência estética como uma manifestação da nossa potência de existir, uma busca incessante por liberdade.
A vivência da cidade, com sua capacidade de promover dor ou prazer, nos potencializa a agir. Pense em um bairro aprazível, onde a comunidade, fortalecida pelo prazer e alegria de morar ali, se movimenta para melhorar o ambiente, impedindo ações outras contrárias aos interesses coletivos. Por outro lado, quando um local é constantemente marcado pelo medo e imersa na falta de potência vital, torna-se muito difícil a organização para a ação comum dos moradores em mobilizar uma vida diferente.
Existe uma vontade de existir que nos transcende, nos faz amar um ícone arquitetônico, uma pintura, uma música, ou outras expressões que parecem nos mover para o eterno. De certa forma, é como se a experiência estética nos permitisse escapar da morte, como uma pintura rupestre que nos conecta diretamente com a mensagem de um de nós que há muito se foi.
Construir a cidade como um símbolo estético da unidade coletiva nos obriga a pensar a cidade pelo desejo de vida, de estarmos vivos e ativos enquanto coletividade. Essa coletividade se torna capaz de fazer a melhor política, aquela que não precisa passar pelas estruturas de controle. E aqui temos um desafio: como abandonar a cidade construída pelo medo da morte e substituí-la por uma cidade que seja um desejo de vida? Suspeito que os melhores indícios estão nas conversas de rua, nos encontros de bar, nas feiras, no futebol, resumindo: nos encontros dos diferentes.
No balanço do trem, vende água, vende biscoito, vende salame, vende queijo, vende sorvete, vende refri, vende cerveja, vende guaraná, vende fone, vende doce, vende bala, vende tudo. Vem de isopor, vem de break, vem de improviso, vem de pandeiro, vem de samba, vem de choro, vem de caixa de som. Vem devagar, chegando na estação, vem o trem.
No balanço do trem, a vida tem ritmo. Surfista da Zona Norte, moda dos anos 80, dropava no teto, entre a vida e a morte. Ferro, brita, rede contínua. Deodoro, Santa Cruz, Paracambi, Belford Roxo, Saracuruna, Vila Inhomirim, Guapimirim. De Japeri à Central, não há nada igual.
Vago, vagão, vagabundo, cuidado com o vão entre a porta e a plataforma. A sirene toca, o povo embarca, o pregador anuncia sua fala. Pede atenção, desculpa, senhores passageiros, por atrapalhar sua viagem. O camelô traz uma oportunidade única de ter algo supérfluo e provavelmente desnecessário. A viagem segue, a vida segue. Do lado de fora, mais um espírito da luz caído, olhando para o alto. Quanta arte se apaga com a queda do poeta. Caminha pelos trilhos, pula o muro, abre o buraco, passa por baixo. Jogo no Maracanã, jogo no Engenhão.
No reflexo, vejo uma paisagem de segredos esquecidos. Rostos se misturam com muros, casinhas, vazios, o aço desliza no espaço e no tempo. No ventre do trem, o humano é posto à prova; tem uma beleza e uma artimanha fugaz. Em cada curva a realidade se desdobra enquanto o trem avança pensativo, rumo à Central do Brasil.
Poucas obras são tão engenhosas e belas como a Central do Brasil: seu vão livre, seus relógios, a cara de um Brasil que um dia sonhou ser industrial e desenvolvido. Relógios que expõem o paradoxo do atraso, a escolha do abandono à própria sorte. Deixados ao relento, reinventamos a vida no interior do trem, porque somos carne de pescoço, carne que também está à venda dentro e fora dos vagões. “Eu morri e nem sei mesmo qual foi aquele mês.” Somos só gente simples, trabalhando de sol a sol, chegando na estação. Mais uma jornada, logo mais retorno.
Pego o 350, do centro a irajá, no cair da noite, a viagem é mais vazia.
Das janelas do ônibus, a cidade passa como um filme em cores sépias, distorcido pelo embaçamento sujo dos vidros que balançam sem parar. Todo ônibus suburbano tem um ritmo percussivo de parafusos frouxos, vidros tremulando em ferro, portas rangendo. O ritmo é cortado por um grito: “Vai descer, piloto!”, substituindo o toque da campainha que não funciona. Do lado de fora, a vida passa. Benfica, Manguinhos, Bonsucesso, Olaria, Penha, Brás de Pina, Penha Circular, Vicente, Quitungo, Vila da Penha, a vida passa.
Garotos com suas caixas de som do tamanho de carrinhos de feira conversam, um senhor vende balas, bares abertos, igrejas cheias, jovens sem capacete em suas motos, corpos solitários, corpos conversativos, olhares perdidos. Se Wim Wenders fosse brasileiro, certamente Damiel e Cassiel experimentariam este pitoresco passeio.
Há uma angústia suave na viagem, cada passageiro singular com sua história, suas narrativas mentais, na expectativa ansiosa da chegada ao ponto onde vai descer. Cada rosto, uma história não contada, uma vida em suspense aos olhos de quem observa.
Quando sai da fábrica, o ônibus é apenas uma máquina, um símbolo da evolução capital, um marco de sucesso. Nas ruas, ganha nome, apelido. Há um evento chamado 350 quando inúmeros corpos adentram ele para tentar chegar a seus destinos. Cada viagem é um teatro de vidas passando pelas janelas, cenas de um filme contínuo e inacabado, projetado nas paredes sujas do ônibus.
O bater das janelas no ritmo desordenado da vida urbana, a curva fechada e o banco solto são um lembrete da nossa fragilidade enquanto seres humanos. Seu centro de gravidade parece feito pra carregar batatas no lugar de gente, é esse o presente para o trabalhador, pros idosos, cada degrau é um Everest. A vida passa lá fora, mas dentro do 350 o tempo parece suspenso, ainda que estejamos em movimento.
Cada parada, um novo cenário, um novo ato. Chego ao destino final, não o do ônibus, mas o meu, avenida Brás de Pina, esquina com a São Félix. O 350 ainda tem mais um pequeno chão pra andar, nada que eu não faria andando.
O programa de reindustrialização do Brasil esbarra em alguns empecilhos que podem ser lidos como imensos desafios. Entre eles cito alguns: a melhoria dos centros nacionais de pesquisa e desenvolvimento, bens e recursos, custos de transações internacionais como logística de transporte.
Se o Reuni e Prouni acertaram precisamente a garantia de acesso universitário às camadas mais populares, errou muito ao deixar entregue ao mercado boa parte do capital investido em educação. Uma fala troncha que o presidente lançou falando sobre ter advogado demais no país é um bom reflexo disso. Um programa com o teor do Prouni e reuni, sem uma política estruturante em um país onde a maior segurança financeira vem de concursos públicos somado a cultura do cotidiano que sempre viu como emprego seguro ser advogado, médico ou professor gerou isso. Mudar esse cenário é um imenso desafio que exigirá uma reforma da educação pela base.
Retomando, os maiores ativos que uma indústria globalizada tem está em suas propriedades (patentes, intelectuais, físicas, patrimoniais etc.), localização e internacionalização. Dito isso, não há saída, a incapacidade que o país tem de desenvolver um campo decente e atrativo para pesquisadores nos coloca extremamente vulneráveis nas disputas internacionais. Creio que este é um investimento crucial para o plano dar certo, garantir que o maior bem que podemos ter é formar profissionais qualificados que se sintam interessados em permanecer vivendo e trabalhando no Brasil.
A fala troncha do Lula tem uma sinceridade intrínseca que aponta pra necessidade de o país formar este corpo intelectual e técnico de qualidade. Infelizmente, isso não se dará pela boa vontade dos grandes mercadores do sistema de educação que insistem em enxugar custos com cursos EAD e desvalorização completa de professores e de centros de pesquisa.
Construir uma política no Mercosul que de prioridade a uma saída de logística para o oceano pacífico, criando alternativa concreta ao canal do Panamá (globalmente falando) e alternativa de massa para alcançar parte significativa da América Latina. Há alguns projetos de ferrovia bioceânica, todos bem difíceis de realizar, porém que não deveríamos abandonar. Ainda mais em um momento em que a logística marítima sofre com a crise global. As tensões do mar vermelho devido às guerras no oriente médio e a seca do canal do Panamá tem gerado altas no preço do frete, o que torna propício quaisquer tentativas de negociar globalmente alternativas.
Ambas as saídas pedem do governo pulso e recursos altos, não são caminhos simples, mas são caminhos que precisam ser iniciados. Um plano de industrialização não nasce da noite para o dia e nem se finda em dois ou quatro anos, precisa de tempo e continuidade. Muito necessário ver isso quando vivemos uma era onde quaisquer intervenções globais, de grande porte de extração e mudança ambiental, pode afetar negativamente a capacidade do planeta existir.
Talvez o maior desafio de todos seja justamente convencer os corpos políticos que pensam o Brasil sob a tábula rasa do arrasa quarteirões a cada quatro anos de que precisamos construir um projeto que dure para mais gerações. Sem isso, ficaremos restritos a liberar apenas recursos primários como moeda de troca interessante para a indústria global, nos mantendo como eternos fornecedores de commodities.
Sobre o Plano de Ação da Neoindustrialização brasileira gostaria de comentar alguns pontos.
Primeiro, vejo com bons olhos o plano como uma alternativa de reaquecer o desenvolvimento nacional neste campo que segue esquecido. O programa vislumbra um sistema de reorganização nacional. Considero cedo para um grande ufanismo, mas considero uma boa caminhada para a saída da recessão e abertura de uma cadeia produtiva de trabalho que se mostra hiper necessária.
Sinto que, no Brasil real (e não no legal) as três primeiras missões estão o coração onde o governo vai focar o olhar: cadeias agroindustriais, complexo econômico industrial de saúde e infraestrutura voltada para integração produtiva. As outras seis missões pode ser que na prática caminhe meio a reboque.
No que compete a gente, pensar estrategicamente os clusters e cadeias industriais desse país pode movimentar todo o sistema. Historicamente a implementação de qualquer pólo fabril traz consigo uma série de modificações estruturantes pra atender, coisas como habitação pra trabalhadores, mobilidade logística pra translado de produtos, entre outros muitos fatores.
Outro ponto que afeta diretamente o nosso campo profissional está no olhar da construção como indústria. Isso pode viabilizar uma nova organização do nosso setor que encontra nos sistemas BIM as ferramentas primordiais para operar o setor de obras por outra lógica empresarial, reduzindo-se os pequenos e médios escritórios que não conseguiriam suportar os custos de manutenção e criando-se corporações mais robustas que abraçarão via CNPJ estes médios e pequenos operários. Ok, é apenas um futurismo pensar assim, mas é um futuro viável de ser deduzido.
O estímulo do capital estrangeiro poderá ser um motor de giro desse plano, porém isso não parece significar um compromisso real com o resultado social. E aí vejo alguns grandes enfrentamentos que o governo precisará ter disposição de fazer:
Transformar parte do resultado dos investimentos internacionais e projetos de desenvolvimento social para o país.
Ter muito cuidado para que a Política Nacional de Exportação e facilitação de relações com o comércio exterior pese positivamente para o país
Principal, cuidar para que a economia de mercado não faça um papel avassalador de retirada de todo e qualquer bem-produzido do país sem deixar benefícios para nós. Em especial o extrativismo territorial, degradação ambiental, entre outros.
Temos dificuldades de lidar com questões que envolvem investimento estrangeiro. Muito se dá por conta de a história deste país ter sido formada pela exploração estrangeira sobre seus recursos básicos e povo. Porém cabe a nós tentarmos tomar as rédeas de nossas diretrizes nas mãos.
Resumindo, como todo bom Plano, o que mostrará o sucesso é a capacidade de ser aplicado. A nós, neste momento, creio que neste momento cabe identificar as interfaces potentes e as possíveis lutas que serão necessárias de traçar.
Mais importante que ler minha opinião porém é, ler o documento final que se encontra neste link.
Em 2022, o ano em que celebramos os 30 anos da Eco 92 precisamos de mais avanços nas construções. A real é que, a pandemia que ainda nos assola colocou na cara do gol as limitações da organização do capital: a incapacidade de colocar a vida na centralidade das políticas.
Estima-se que a falta de políticas sérias por parte de diversos formuladores mundo a fora pode ter afetado os principais índices de levantamento. Atualmente já se pondera que o número total de vítimas mundo a fora seja três vezes maior do que o declarado, muito devido a subnotificação e falta de testes.
No Brasil, o Bolsonarismo representou a narrativa máxima da organização deste capital, declarações como “A economia não pode parar” não foi um eco solitário e estranho em meio a crise global, possivelmente tenha sido apenas a versão mais autêntica e radical do pensamento e modelo vigente. É preciso termos isso em mente: A economia do mundo como conhecemos não parou ou se reformulou. Ela seguiu os rumos e nadou na busca de manter firme as suas estratégias de acumulo de poder e capital.
Enquanto o Brasil passava a boiada quase sem enfrentamento popular, pois por uma escolha política da militância organizada o Bolsonarismo seria disputado nas urnas, países em conflito se mantinham reféns de suas guerras. Os sistemas de pesquisa de vacinas e fármacos alinhados aos modelos de pesquisa do capital, onde se disputam os direitos autorais e de copyright, mesmo tendo sido mais rápidos que outrora, se travavam em burocracias e disputas das mais diversas. Enquanto nosso povo morria o agronegócio (base estratégica da economia brasileira hoje devido a equivocada política) fazia fortunas em giro de dinheiro com artistas de sertanejo. Mesmo mobilizações globais em defesa da pandemia se tornavam ferramentas de captação de recursos para determinados grupos. O mercado de luxo seguiu faturando enquanto populações sofriam. A morte inclusive é um meio de se fazer dinheiro, se assim não fosse não teríamos tantas guerras. Ironicamente um Trump cai com seu utraconservadorismo ao mesmo tempo em que se orgulha de não ter iniciado novas guerras. Graças ao mundo que não parou mas fingiu parar, hoje tanto a economia quanto a vida definham.
Faltou ao mundo a coragem de parar a roda da fortuna, reorganizar o sentido da vida social e recomeçar. O resultado é que o projeto ruiu, não resistiu, primeiro, começou a cair o radicalismo da direita e agora seguem balançando quaisquer representações que tentem manter este modelo sem discutir com seriedade uma saída global a crise instituída.
Em meio a esta crise o povo segue em desespero diante da falta de perspectiva, nada mais assusta ou acalma. Sem projetos globais convincentes, sem rompermos com o modelo presente de exploração de pessoas, de vidas em geral e de recursos, não vamos avançar. Seguiremos cavando os torpes caminhos de nossa extinção em massa. Neste processo que inclusive expõe a própria injustiça global, visto que nem na extinção encontramos os caminhos de igualdade: os mais pobres seguirão sendo eliminados primeiro.
A desesperança e o atual niilismo se dá devido termos uma sociedade que busca ansiosamente uma saída disso tudo e não encontra. Muitos deram um voto de confiança a uma fuga pelo ultraconservadorismo e ainda estão perdidas ao perceber que este também é parte do mesmo stablishment que tanto criticam e nos faz mal. Construir um mundo novo ainda é possível, porém cada vez mais difícil pois ele não será traçado por dentro das estruturas que estão consolidadas, mas também não creio que sobrevivam apenas por fora destas estruturas.
Precisamos disputar a base do globo, construir novas ferramentas e formas de pensar coletivamente e criar as barreiras necessárias para não sermos sufocados. Essa é a encruzilhada atual, não será simples ou agradável passar por ela, pode significar um enfrentamento em que não vejamos a linha final, um corre em que estaremos solitários quase como loucos isolados escrevendo nas pilastras do viaduto sobre mensagens de amor.
Mas será no corre simples, nas conversas de rua, nas atividades comunitárias que organizamos, nos papos de organização e na organização propriamente dita. a saída vai exigir uma linha singela de construção permanente de novas redes de sociabilidade. O duro é que para dar certo precisaremos nós mesmos, nós por nós criar as válvulas de escape da economia, fugindo de todas as teias que podem nos aprisionar a um determinado poder limitante dentro do sistema.
Neste dia, apesar de ainda termos caminhos a avançar, já temos muito a celebrar. Embora vivamos em um país empobrecido e desigual, o nosso sistema de saúde consegue ser um exemplo robusto de que políticas de Estado destinadas ao povo podem ser realizadas. O que o SUS tem a nos ensinar em termos de organização política? Este texto será um pouco sobre isso.
O SUS modificou por completo a forma como tratamos a saúde, entendendo-a e assumindo-a como um direito universal do povo e como algo muito maior do que o simplismo de: tratar uma doença de um indivíduo. Alguns de nós hoje somos sequer incapazes de lembrar dos modos de funcionamento do sistema de saúde do país antes do SUS. Como conseguimos implementar uma política de Estado firme como essa em meio às muitas intempéries, revezes e crises de classe?
Primeiramente importa entendermos que nosso sistema atual é fruto de uma luta gradual e constante produzida por inúmeras mãos. A política de saúde só se torna possível de nascer em um país como o nosso devido o trabalho árduo de uma enormidade de cidadãos organizados nas redes de construção das mesmas. Falamos assim, de um trabalho que é acima de tudo coletivo, interdisciplinar e por que não dizer: militante.
Nada nasce da noite para o dia, se desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) o direito a saúde é vinculado ao direito à vida de todo ser humano, podemos dizer que, apenas na constituição de 1988 que o Brasil conseguiu inseri-lo como direito fundamental de todo cidadão. Tal direito é conquistado constitucionalmente a duras penas como resultado das imensas lutas do movimento da Reforma Sanitária que entendem que a saúde deva ser um Direito de todos e um Dever do Estado.
Desde a década de 70 até 88 o movimento se organiza no fortalecimento de encontros, simpósios, conferências, criação e fortalecimento de entidades profissionais dentre outros. Este trabalho, junto ao seio do povo foi de fundamental importância para a construção do novo conceito de saúde que viria a ser implementado no país. Se antes, saúde era algo destinado a alguns apenas, já nas décadas de 80 ela fora vista de forma abrangente e integradora da sociedade. Da porta do hospital ao saneamento de uma cidade, tudo era trabalhado na construção do sistema.
É esta multidão que constitui potência política suficiente para produzir no país um instrumento que garanta universalidade, equidade e integralidade de saúde a todos nós, ainda que muito precise ser feito para tal. Assim como todo projeto político, nada se completa ou termina em si mesmo, precisamos seguir a construção e as lutas a cada dia para garantir a consolidação e melhoria completa do mesmo. Entre as décadas de 70 e 90 (quando a lei é regulamentada) muitos passos foram dados nesta construção compartilhada.
Uma das maiores lições que a construção do nosso sistema de saúde nos traz é esta: não há saída por política que não envolva uma concepção popular para a mesma. O niilismo que enfrentamos hoje se dá por nossa atual incapacidade de organização coletiva focada em algo para além de um mero processo de espectador e torcida diante de disputas eleitorais de personalidades. A história por sua vez nos mostra que, o que menos importa na construção popular do nosso direito a saúde são os personagens, o mais importante mesmo está na rede de possibilidades que abrimos e que se mantém aberta para esta luta.
O SUS não é resultado da política de um homem ou de uma categoria apenas, sequer teria algum avanço significativo se assim o fosse. Ele é fruto do sonho de muitos que dedicaram e dedicam algum tempo em propor, em construir, em chegar junto nesta frente, do mais simples trabalho de base junto ao povo até os mais complexos trabalhos de gestão e planejamento nacional. É sob esse prisma que nossa Saúde é uma construção política! É um erro e porque não dizer uma antipolítica, quando reduzimos quaisquer construções a um viés pasteurizado e cristalizado de forma dentro das dinâmicas da vida social. Como as águas do rio de Heráclito as dinâmicas das lutas sociais acrescentaram bandeiras, formas, modelos, projetos, textos de lei ao grande corpo que se tornou o SUS. Ninguém precisou prender o pensamento a uma cor, um dogma ou um nome sequer.
Nosso direito a saúde aconteceu com o trabalho colaborativo produzido a cada dia, em cada esfera do cotidiano onde lutamos por uma qualidade de bem-estar. Sua luta é um modelo, seja na esfera individual, familiar, comunitária ou de estado, cabe a nós, enquanto cidadãos que tem interesse nas lutas comuns, seguir em frente, fugir das artimanhas dos laços menores e retomarmos as organizações para construção de um Brasil maior, com equidade, justiça social e direitos amplos e universais a todos os brasileiros.
Dentro disso, nós arquitetos, onde podemos nos posicionar? Um início é: garantir o direito fundamental a habitação, cidade e saneamento e fazer-se cumprir o artigo 6º da constituição. Se sonhamos em construir um dia neste país o SUS da Arquitetura, precisamos antes de mais nada, inserir constantemente a arquitetura nas pautas e formulações do SUS. Assim também, precisaremos enfrentar nosso olhar exclusivista e corporativista e aprender, como aqueles que construíram esta história nos ensinaram, de que as mudanças acontecem assim que nos abrirmos e ampliarmos a todos os ramos da sociedade que contribuem na boa formação do espaço vivido.
Que nossas lutas pela saúde universal sigam sem esmorecer e sigam sendo exemplo do que é a boa prática política. Só assim poderemos retomar os rumos, romper com a atual crise que este ciclo bianual de rinhas em torno de figurões messiânicos produzidos pelas grandes ferramentas de marketing eleitoral. Lembrando que, esta imensa conquista que é nosso sistema de saúde pública é fruto destas lutas.
Ela segue firme nas rondas da PM, no carro da linguiça, nas mãos que tem cheiro de morte. Segue a cada em cada silenciamento. Tem ruas onde andar as 22h se torna arriscado, ou você será vítima ou será confundido com um possível meliante. Meliante, sinônimo de vagabundo, termo que até algum tempo atrás tipificava um crime que hoje já não é mais. Porém o termo está aí, e com ele a tipificação das pessoas. Nos subúrbios e favelas a gente tem que andar com documentos sempre em mãos, quiçá um comprovante de residência, pois aqui ela nunca acabou.
Aqui tem que se tomar cuidado! Nos tempos onde as classes média e abastada progressistas do país conseguiam construir uma resistência a 64, apanhavam, morriam, eram torturadas, nasciam também os cavalos corredores, os matadores e a milícia. Ali se estruturou a cultura da morte e da chacina, o alvo apenas mudou, foi para um canto da cidade mais silencioso e invisível e se tornou mais palatável. Quantos Herzogs perdemos nas guerras das favelas, ainda jovens e adolescentes? Quantos corpos seguem desaparecidos pelas ruas da baixada? famílias que nunca mais viram seus parentes, muitos deles crianças cujo crime naquela rua seria o lazer de uma festa de bacana.
Na Copa das Copas, os porões da ditadura que estavam operando no Haiti também operaram nas favelas, estavam exército, polícia, milícia e certas igrejas construindo o mais duro cerceamento de ir e vir garantindo aos brasileiros e estrangeiros que podiam pagar a fortuna de ingresso da copa tivessem o sossego e tranquilidade de não ver nossa miséria humana. A regulamentação da Garantia de Lei e Ordem em 2013 e as mais de 30 operações militares subsequentes no país entre 2013 e 2018 também foram importantes máquinas de fortalecimento desta casta. Só como adendo, o período de 2014 a 2016 vivemos os mais altos índices de pessoas desaparecidas por violência dos últimos anos, com média de mais de seis mil por ano, imensa maioria da Baixada Fluminense, Subúrbios e Favelas.
A nós que somos do Rio, lembramos dos caveirões que saiam a noite pra matar na favela e viraram atração turística na porta do Maraca. Os poderes escolheram perdoar sem perdoar, premiaram os generais e coronéis dando-lhes legitimidade. E hoje é o que temos, a presidência das milícias.
Às vezes me perguntam o por quê dos mais pobres não se assustarem tanto com a lógica dessa gente? Não vejo uma resposta tão clara, mas talvez o indício principal passe por aí: Para os mais pobres, a ditadura nunca acabou, governo a governo ela está aí, a cada dia com uma máscara diferente, vislumbrando como manter a rede de negócios, acharco e chacinas. A ditadura virou nosso cotidiano, e sobrevivemos nas brechas e com base nas leis dela. Não há primeira instância para quem é pobre, não há STF, esse universo é longínquo e pertencente a outra casta social, o pobre tem na frente a lei do cão e a prece pelo milagre.
Vamos precisar de muito peito e coragem pra enfrentar definitivamente isso tudo. Enfrentar com projeto político, reconstruir um sistema de segurança pública cuja função seja a proteção, investigação e prevenção, retirando dele este modus operandi enviesado cuja base é a suspeita individual com viés racista, a operação espalhafatosa pra sair na mídia e a corrupção que mantém tudo girando, ninguém chamaria Tom Jobim de meliante.
Sim, ela, a doce corrupção, a nota de cinquenta caminha pela cidade. Papel moeda que vira canudo pra PM cheirar pó depois de matar o garoto que lhe vendeu, vira oferta na igreja que é usada pra lavar dinheiro para o sistema vira o troco da carteira do filho do juíz que vai fumar seu baseado enquanto bate palma pro por do sol da cidade maravilhosa. Ali, onde o Rio é cidade maravilhosa, não passa o carro da linguiça, ninguém precisa provar que trabalha, ninguém precisa andar com nota fiscal da bicicleta no bolso, ali se é livre e ninguém morre assassinado porque acendeu um baseado na praia do arpoador, ao contrário vira hype.
É isso, quando os porões da ditadura sucumbiram de atacar a classe média que lutava por liberdade, os seus assassinos foram também anistiados e ganharam um espaço pra chamar de seu, pra ser os novos porões. Com base nos batalhões da Policia Militar, saíram a praticar todo o seu conceito e este novo porão chamamos de Subúrbios, de Favelas, de Baixada Fluminense. É ali, onde os mais pobres moram, não tem voz e nem liberdade de ser quem são, como são e andarem por onde quiserem, sem viver de perto o cotidiano da violência endêmica deste Estado.
1964 nunca acabou e isso precisamos ter na mente e no coração da gente.
Iniciarei aqui usando um termo do camarada militante da cultura Pablo Meijueiro: “atingimos o volume morto” das estratégias de coligações. Dito isso, inicio este texto (que assim como muitos outros meus) tende a desagradar boa parte da militância ufanista. O jogo das peças políticas começou a desenhar um quadro muito curioso na polarização. Primeiro vamos elencar alguns movimentos:
A aproximação de Lula e Alckmin, que significa uma tentativa de aproximação de Lula com parte significativa da elite brasileira que não se sente confortável com o Bolsonarismo,
A aproximação de alguns partidos de esquerda como o PSOL ao projeto,
O movimento das mesmas peças em torno do fortalecimento da polarização eleitoral na disputa Bolsonaro vs Lula,
A ausência de otimismo popular em torno de quaisquer dos projetos eleitorais aqui apresentados,
Bom, um primeiro trabalho que começamos a notar é a dificuldade de se constituir uma campanha de marketing que consiga alinhavar tudo isso. Na cabeça popular, que acompanhou ano a ano um nome como o Alckmin/PSDB ser dilacerado pelas campanhas do PT, nunca soará fácil compreender tal aliança, ainda mais vinda com um política que almeja o poder presidencial. Todos aqueles que se colocam como um centro, um moderado, ou alguém que não se encontra à esquerda do espectro ideológico enxergará isso como algo puramente eleitoreiro e oportunista, talvez até como um desespero pela volta ao poder pelo poder.
Para as forças a esquerda, todo este quadro do volume morto representa algo pior. Partidos que se constituíram como uma alternativa de renascimento da esquerda, simplesmente definharam ao aceitar tal projeto posto. Podem assim, cair no isolamento completo, não serão reconhecidos como uma possibilidade de mudança por parte da população que almeja isso e também não serão aceitos pela parte mais centro direita. A estes, só restarão as migalhas do poder que cairá da mesa (caso o projeto vença o pleito).
É realmente triste ver a decadência deste projeto, ver que o povo mesmo, este de onde a esquerda deveria nascer e para o qual deveria construir, está fora da contabilidade dos marketeiros da política. As alianças primordiais do Lula são com o Pato da FIESP, o mesmo que foi acusado do golpe e é com este que a esquerda hegemônica vai caminhar. Quem não abraçar isso será taxado de bolsonarista, jogo da direita, sectário, e qualquer outra patifaria de argumento ad hominen possível de ser gralhado nas redes sociais organizadas para o cancelamento.
Lula e Boulos são quadros de momentos históricos únicos. Assim como Lula nasce politicamente do seio das lutas trabalhistas, potentes para mobilizar parte significativa do povo, Boulos nasce do seio das novas lutas contra a precarização, a luta pelo direito a cidade, habitação, mobilidade, para os mais pobres. As escolhas porém deste segundo parecem frear a potencia desta história, fica para trás a força popular que o emanou em nome de um projeto maior que é a unidade liberal. Aceita-se recuar na disputa do Executivo do Estado ou do Federal em nome de apoiar um projeto de poder que inclui aquelas forças que pactuam com os principais adversários de classe de sua base (especuladores imobiliários, grandes empresários, entre outros).
É trágico ver que a história busca ciclos e que a tática da esquerda segue cristalizada. O governo Lula e Alckmin representará a continuidade do governo liberal que a esquerda tanto diz combater, e este governo será assumido socialmente pela tinta vermelha desta mesma esquerda. O ônus deste governo para o povo recairá sobre a esquerda. Chega a ofender quando vemos Pinheirinho ser usado de palanque eleitoral em um projeto que tem a tiracolo elevar a vice as forças econômicas que, na condição de governo de São Paulo, produziram um massacre repleto de abusos policiais que chegou a ser denunciado na ONU. A operação em Pinheirinho tem todos os adornos historicamente construídos como método policial e miliciano. Nada neste fato difere da base material e simbólica que deu o poder ao Bolsonarismo. Portanto, nada neste palanque se torna alternativa concreta de mudança social para este povo.
A escolha de Boulos não foi revolucionária ou potente. Pôs no freio das possibilidades reais de produzir mudança e assumir o conforto eleitoral do cargo legislativo, onde pode manter-se por anos sendo eleito com seu nicho de votos. Tudo ocorre em nome desta contagem de votos e partilha eleitoral que não chega e não toca mais o anseio do povo.
Junto a isso, vemos uma campanha massiva de tentativa de convencimento dos jovens a tirar o título de eleitor e votar. Sim, pois votar passivamente se tornou o único papel político do povo que realmente importa para esta projeto. Vemos uma campanha que beira o assédio moral aos mais jovens, público que nasceu ali por volta de 2005 e 2006 e que começou a entender um pouco de seu lugar no País por volta de 2014, isso é, já na crise e terra arrasada dos pós megaeventos (copa e olimpíadas). É de um otimismo muito grande esperar que estes jovens que não enxergam mais representatividade em nada do que está posto, assumam o papel de protagonistas da vitória eleitoral desta estratégia. É capaz de muitos destes jovens ainda votarem em um Bolsonaro na vida e serem xingados pela máquina militante das esquerdas.
Partimos do pressuposto que por ser jovem ele deve votar na esquerda (é um cânone divino estar do lado certo da história). Esta mesma esquerda que ele não vê atuando em absolutamente nada além de pequenos nichos com discursos pré-prontos e que muitas das vezes beira um certo cinismo. Há de pensar: Estes jovens, assim como boa parte do povo enxerga com clareza que, em meio a pandemia, quando explodiu uma possibilidade real de Fora Bolsonaro devido o mesmo estar literalmente forçando a morte da população, as organizações de esquerda esfriaram quaisquer manifestações antes que tomasse vultos incontroláveis. Enxergam com clareza que o fascista de ontem virou o amigo e vice de hoje, que o roubo do MEC não gera uma manifestação organizada ou greve, e que interessou a estas forças progressistas que o Bolsonaro permanecesse presidente até a eleição.
Veja que, a base bolsonarista das igrejas neopetencostais que se tornaram máquinas de poder e lavagem de dinheiro (uma ofensa a fé do povo), suga dinheiro do sistema de educação do Brasil e isso não virou uma manifestação de massa no dia seguinte. A esquerda parece não ter coragem de assumir a corrupção política como pauta para si, uma pauta que capitaneia a indignação do povo não é trabalhada por nenhum grupo político organizado.
Me perdoem se usei a expressão -projeto de poder-, não cabe projeto no que está dado, o que temos é uma estratégia de troca de personagens no jogo político, projeto exigiria outra construção. A polarização reflete o nosso fracasso em qualquer tentativa de alternativa a tudo que está dado, aceitamos ou fomos entubados pelo jogo político onde o fim disso tudo pode ser trágico. A esquerda como conhecemos seguirá morta, morrerá vença quem vencer, mas talvez ela precise morrer para renascer. A estratégia Lulista de garantir-se na política do establishment e usar o Bolsonaro como escada eleitoral, minguando toda e qualquer força que seja autônoma ou possibilidade a isso tudo pode dar com os burros n’água, pois querendo ou não, mesmo que vença, não será simples garantir o engajamento popular para a manutenção do poder.
O que mais me incomoda nisso tudo não é o pragmatismo do jogo político eleitoral. O povo toparia o pragmatismo pelo pragmatismo, votar num nome como se este fosse o mais do mesmo, quantos não são eleitos assim? O que incomoda mesmo é o cinismo de pintar, o tempo todo, as artimanhas e movimentos das peças e do dinheiro envolvido nisso como um jogo do bem e do mal e como se os fins justificassem os meios de uma revolução lá na frente que nunca virá.
Aqueles que não aceitam a chantagem e o assédio moral eleitoral serão vistos como inimigos, e falas e textos como esse serão vendidos como mais incômodos do que um jantar com o Alckmin, cujo prato pagaria a cesta básica de famílias inteiras que estão passando fome nesse Brasil. E o desespero que começa a bater está justamente aí, os mapeamentos estão mostrando que ano a ano, a chantagem e o assédio funcionam cada vez menos e o povo se torna cada vez mais descrente das organizações coletivas que deveriam promover mudanças e engajamento de base e nas bases, mas são minadas ou aparelhadas por este jogo.