artigo, brasil, cultura, filosofia de vida, Inteligencia Artificial, onu, pensamento, política, rio de janeiro

Caminhos para Sobrevivência e a Urgência de uma Revolução Ambiental

Vivemos a intensidade de um novo mundo que se desenha entre tragédias. Este momento nos empurra para a borda de um novo modelo de vida, potencialmente transformador. Pela primeira vez, enfrentamos crises que atravessam a geografia desigual do planeta; o que antes parecia ficção, agora arrasta o coletivo.

A pandemia foi o primeiro grande alerta: um sinal de que as políticas públicas precisam superar fronteiras para alcançar essa nova esfera de interdependência. Em um passado recente, o pensamento progressista abandonou as disputas classistas e centrou-se na inclusão, na equidade, na justiça social, buscando a inserção democrática dentro do capitalismo. Hoje, porém, é inevitável incorporar à pauta uma dimensão ampliada que recupere o centro da discussão da produção e da desigualdade e inclua a crise ecológica – é na racionalidade sobre produção e consumo que repousa a sustentabilidade social, vital para a vida na Terra.

Sem essa dimensão, o sistema revela-se um organismo exausto. As enchentes em Valência são um retrato disso: a vasta extensão de terra tomada pelas águas grita uma realidade incontestável – não estamos prontos para os desastres naturais da era da superexploração. E no sul do Brasil, as chuvas caem sem distinguir no território, o recorte de classe. Desaba sobre todos, ainda que os mais ricos encontrem alguma proteção. Mas todos, sem exceção, sentem algum peso da tragédia.

Viver numa sociedade focada em mitigação e inclusão não resolveu o cerne da questão: o próprio modo de produção e reprodução do sistema está desalinhado com a capacidade de equilíbrio do planeta. A intensidade dos efeitos naturais sobre a vida humana exige uma ruptura, uma pausa que permita recomeçar – algo que soa utópico, até mesmo na literatura.

Contudo, é preciso lembrar: as tragédias globais apontam para a urgência de um modelo transformador. Crises são janelas para redesenhar o presente. A justiça climática poderia ser a base de um novo modelo, onde o poder econômico serve à sustentabilidade e à inclusão, rompendo o ciclo de exploração que multiplica as tragédias sociais e ambientais.

A pandemia nos deixou um eco profundo da fragilidade global e demonstrou a imensa necessidade da interdependência entre políticas públicas, saúde e sustentabilidade. O caminho aponta para a busca de sistemas de saúde integrados e políticas que criem uma “saúde planetária”, capaz de prever e mitigar futuras pandemias, reconhecendo o laço estreito entre degradação ambiental e zoonoses. Esse novo olhar sobre a vida – sistêmico, ecológico, preventivo – surge como urgência.

Asimov nos lançou um interessante paradoxo sobre tecnologia: “O fogo é perigoso a princípio, assim como a fala (…) mas os humanos não seriam humanos sem eles.” A tecnologia é parte do que nos define, ao mesmo tempo nos desafia. Em vez de apagá-la, devemos redirecioná-la, fazê-la pulsar por metas coletivas e planetárias, onde “techné” recupere seu sentido grego de habilidade útil, arte, equilibrada com a razão. Assim, não é a inovação tecnológica em si o problema, mas a ética que a rege.

Poderíamos então nos dedicar a outra ciência, uma ciência do ofício, do sensível e do toque ancestral. Em um mundo que se despedaça, recuperar o manejo sustentável da terra e dos biomas é inovador. A justiça ambiental emerge como uma expansão da luta por equidade, elevando o direito à vida para além da humanidade. A superexploração é um elemento a ser reescrito, com a diminuição das práticas extrativistas e a adoção de práticas regenerativas, ainda que isso traga rupturas profundas na organização global atual.

Adoramos a ciência moderna, que nos deu anos a mais de vida. Mas a imortalidade não é um parâmetro humano alcançável. Precisamos, talvez, de uma ciência que valorize a vida enquanto coletividade, que enxergue o humano demasiado humano enquanto um ser múltiplo, que deixe uma história viva após nossa passagem. Reconstruir escalas de valor, sem o romantismo de que a ação individual é o bastante. Um novo pacto passaria primordialmente pela articulação entre indivíduos, instituições e culturas. Formação de redes, encontro entre muitas vozes, ativismos locais, lideranças globais, são muitas as frentes que disseminam o caminho possível.

Há um desejo forte, de parte de lideranças globais, de estruturar uma governança para as grandes crises; mas essa iniciativa precisa das raízes locais, comunitárias. Precisamos atingir a microescala, aprender com a natureza a respiração de seus ciclos. Retomar o encontro do relógio maquínico com o tempo sagrado dos astros.

Alguns mitos e símbolos ancestrais nos ensinam sobre valores sustentáveis. Povos originários, em suas relações simbióticas com o sagrado da natureza, trazem outra ética. Em movimentos de direitos da natureza, como no Equador e Nova Zelândia, rios e florestas têm voz. Esse novo olhar ecológico, ao reintroduzir os mitos no debate ambiental, nos afasta da visão instrumental da natureza. Não falo sobre dogmas, verticalidades de pensamento, mas sobre o saber do sensível, da capacidade de religar-se com o que importa.

A urgência é, então, costurar a rede existente de forma que ela se entrelace com a governança global e local. Dar voz aos modelos de gestão e resistência que permitam decisões políticas concretas, enraizadas na realidade das micro escalas. Redes como o Navdanya, Pachamama.org, Rede Ambiental Indigena, Seed Freedom, Global Forest Coalition, Via Campesina, entre outros, nos permitem conhecer outros mundos possíveis. Mundos capazes de tentar frear o ciclo devastador e realinhar nosso modo de viver com as possibilidades reais do planeta.


Ultimo pedaço de terra livre

No alto dessa colina estamos reunidos sob o céu carregado. Somos camponeses, cientistas, poetas e anciãos de diversas etnias, unidos pelo propósito que nos sobrou. Transformar essa colina em um santuário de resistência e renascimento. Sem certeza de nada, apenas uma missão clara: desacelerar o tempo. Queriam, como quem retém a respiração, reconfigurar a existência.

Sentimos o peso da crise em cada camada da pele, mas ali, no silêncio coletivo, começamos a compreender o real significado do vínculo entre terra e vida. A humanidade, percebe atônita, não poderia sobreviver sem mudar o curso de seus passos.

Ali, plantamos as últimas sementes que nos alimentavam. A “ciência do toque”, técnica ancestral de cultivo e afeto com o ecossistema local. Ao lado do plantador, cientistas traduzem aquele saber em dados, replicáveis e espalháveis para outras comunidades. O que germinou em nós, espalhamos pelo mundo, como um fogo que arde em nome da cura. Será que há outros de nós por aí?

E no murmurar da madrugada que já não ve estrelas, em torno da fogueira debatemos um futuro onde a economia serve à terra e não o oposto. No silêncio da urgência,  esta é uma revolução do sensível. Se um dia o futuro existir, começaria exatamente ali, sob o céu em murmúrio e o último solo fértil e livre. Ali respiramos o tempo calmo das sementes.

autoria própria: ultimo pedaço de terra livre

Standard
artigo, brasil, cultura, filosofia de vida, onu, política, trabalho

Policrise e desigualdade social: emergência de uma politica global complexa

Lendo o relatório “Global Economic Prospects – June 2024”. Ele revela os desafios econômicos globais e a crescente disparidade entre economias desenvolvidas e em desenvolvimento, destacando a necessidade urgente de uma abordagem coordenada e inclusiva para reduzir as desigualdades econômicas e sociais que se aprofundaram após a pandemia de COVID-19. O relatório aponta que o crescimento global projetado de 2,6% para 2024 demonstra um ritmo insuficiente para transformar significativamente as condições de vida em muitos países em desenvolvimento. Essa diferença acentua as dificuldades enfrentadas pelas economias pobres, que, apesar de abrigarem a maior parte da população mundial, encontram barreiras para atingir um desenvolvimento econômico sustentável, mantendo a desigualdade historicamente parametrizada.

A persistência das desigualdades é notável, com quase metade dos países em desenvolvimento sem perspectivas de reduzir a disparidade de renda em relação às economias avançadas até 2024. Essa situação reforça o constante ciclo de pobreza e dificulta investimentos em setores essenciais, como saúde, educação e infraestrutura, que são fundamentais para o desenvolvimento humano e a melhoria da qualidade de vida. Em meio a isso, é importante enfatizar o papel do investimento público como um motor de crescimento e inclusão econômica, especialmente em países pobres, onde a infraestrutura básica ainda é uma necessidade que precisa ser universalizada. No entanto, a eficácia desses investimentos esbarra na falta de uma gestão pública eficiente e transparente, algo comum nas economias mais vulneráveis, onde a má alocação de recursos, disputas ideológicas sem planejamento e a busca do poder pelo poder perpetuam o status de subdesenvolvimento.

Adicionalmente, vemos no mundo de hoje uma vulnerabilidade em redes de muitas entradas, desde pequenos estados e economias em conflito até povos que enfrentam desastres naturais cada vez mais frequentes, fruto das mudanças climáticas, além do surgimento de ciclos de pobreza e de crises endêmicas cada vez mais recorrentes.

O conceito de policrise surge como um destaque interessante, apontando que essas crises não devem mais ser lidas de forma isolada, mas, ao contrário, se entrelaçam, gerando efeitos multiplicadores que evidenciam e potencializam a vulnerabilidade dos sistemas globais. Esse entendimento sistêmico é essencial para lidar com crises que se reforçam mutuamente, como a pandemia, as guerras e as mudanças climáticas, que, ao interagirem, amplificam problemas como a inflação global, a insegurança alimentar e a instabilidade geopolítica.

Os mecanismos sistêmicos contemporâneos demonstram como uma crise pode desencadear outras em uma sequência que foge ao controle, criando ciclos de deterioração coletiva. Diante disso, as respostas tradicionais de política, focadas em problemas isolados e em uma visão especializada, são insuficientes para lidar com a profundidade e a complexidade das crises atuais.

Para piorar, cerca de 40% dos estados pobres estão sob elevado risco de crise de dívida, limitando suas capacidades de investir em áreas críticas. A situação desses países evidencia a necessidade de apoio internacional, tanto para garantir a estabilidade financeira quanto para fortalecer sua adaptação às mudanças enfrentadas pelo planeta. Nesse contexto, a cooperação internacional deveria assumir a responsabilidade de mitigar desigualdades, promover a transição para uma economia mais verde e digital e reforçar a segurança alimentar como um direito à dignidade humana e à vida. No entanto, as tensões geopolíticas e a fragmentação das políticas comerciais dificultam a implementação de uma agenda global colaborativa. Resumindo: diante de momentos de crise, uma parte gigante dos poderes globais age como: “se o peixe é pouco, meu pirão primeiro”. Um entendimento tolo que não percebe que o problema do outro também é um problema nosso.

Sugerimos a urgência de políticas de longo prazo que priorizem a inclusão social, a redução da pobreza e o desenvolvimento sustentável para alcançar um crescimento mais equitativo. Esse é um sonho de inúmeros intelectuais, políticos sérios e agentes diversos no planeta. Um diferencial diante disso é que as políticas precisam considerar a interconectividade das crises e buscar soluções integradas, abordando simultaneamente todas as vulnerabilidades dos sistemas globais. Isso significa, por exemplo, que a formulação de políticas climáticas, além de mitigar emissões, precisa ser capaz de enfrentar os impactos sociais e econômicos das mudanças climáticas. A insistência em soluções fragmentadas tende a perpetuar ciclos de crises mal resolvidas, levando à repetição de problemas em uma escala e intensidade cada vez maiores.

Quando pensamos nas políticas de redes complexas como uma possibilidade de resposta à crise, podemos considerar que essas políticas representam um caminho para lidar com os muitos problemas contemporâneos, propondo uma governança que considere as múltiplas camadas de desafios. Integrar diferentes frentes de ação e fomentar uma cooperação mais ampla entre nações pode ser uma chave para atenuar os impactos das crises e construir uma base de resposta global. Assim, a reflexão que surge é: como estruturar políticas de redes complexas que sejam efetivas em um cenário de incerteza e fragmentação global? A resposta a essa questão não parece simples, mas pode delinear o futuro das relações internacionais e do desenvolvimento econômico sustentável, buscando um equilíbrio entre progresso e inclusão social em um mundo cada vez mais interconectado.

Foto-montagem: Zeca Pagodinho discursando sobrea vida na ONU.
Standard
artigo, brasil, ciência, cultura, filosofia de vida, literatura, pensamento, política, Saúde, trabalho

Do Lamento da Ciência Solitária ao Êxtase do Abraço Coletivo

Tomo a liberdade de remixar um termo citado por Darcy Ribeiro em uma entrevista para refletir sobre a ciência e seu papel na sociedade. A ciência enfraquece quando se torna o território dos “cavalos de santo” da intelectualidade.

O campo acadêmico e científico é um dos pilares mais promissores da estrutura social contemporânea. Talvez o melhor investimento que a humanidade possa fazer esteja naqueles que se dedicam à experimentação, à pesquisa e ao desenvolvimento. Esses indivíduos arriscam-se no terreno das hipóteses, buscando inovações que transformam o mundo. Contudo, esse campo encontra-se hoje estruturado sob uma lógica de exploração e alienação, refletindo a organização de todo o sistema econômico. Se antes reverenciávamos a intelectualidade, como quem presta tributo a uma divindade, hoje nos deparamos com cientistas altamente precarizados, dedicando praticamente 24 horas por dia a seus projetos, enquanto enfrentam depressão, burnout e crises financeiras.

A realidade é dura: sem desmerecer outras profissões, eu, Rodrigo, com meu diploma de técnico em elétrica, consigo um emprego com um salário superior ao de uma bolsa de doutorado, e de forma relativamente confortável.

No entanto, não pretendo me aprofundar aqui na crise material, pois ela caminha ao lado de outra, ainda mais complexa e subjetiva. Um paradoxo emerge: a ciência e a produção de conhecimento são, por natureza, processos coletivos, contínuos e sem fronteiras. Contudo, o exercício científico, quando organizado como um sistema de produção formal, tornou-se altamente competitivo, individualista e solitário.

As publicações científicas, hoje, perecem ao valorizar mais o rigor da formatação, a citação de autores consagrados e a quantidade de títulos acadêmicos do que os resultados verdadeiramente inovadores e de impacto social relevante. Esses artigos são revisados por pares, em processos lentos e custosos, que muitas vezes limitam o acesso aos próprios resultados da pesquisa. A ciência se perdeu naquilo que criticava: tornou-se hermética, o território de poucos iluminados. A quantidade vale mais que a qualidade, e o furto de trabalhos, ideias e dados é uma constante, um verdadeiro campo minado. A ciência, que deveria ser um empreendimento coletivo, compartilhado entre aqueles que se dedicam ao seu avanço, foi reduzida a uma luta solitária por financiamento e reconhecimento. Nesse contexto, muitas vezes falta a abertura para o diálogo e a colaboração entre pares, assim como a coragem para assumir riscos e explorar caminhos menos convencionais.

autoria própria: Stephen Hawking e o Pequeno Príncipe conversando sobre o universo

Produzir conhecimento, por sua vez, é algo que fazemos continuamente. O maior desafio do indivíduo é ter a coragem de se lançar ao risco, diante de um sistema que aprisiona e formata a vida científica. Para além das universidades e dos centros de pesquisa, há saberes que nascem nas comunidades tradicionais, nas práticas cotidianas, nas trocas entre trabalhadores e em movimentos sociais que enfrentam desafios locais com soluções criativas. Esses conhecimentos têm suas próprias metodologias e princípios, muitas vezes transmitidos oralmente ou por práticas de convivência, como é o caso do conhecimento de povos indígenas sobre o manejo sustentável da terra ou das experiências comunitárias de cooperativas urbanas.

A estrutura científica contemporânea alcança resultados, mas, para isso, limita a existência da vida ao não se permitir costurar a trama dos muitos estímulos sensoriais que ritualizam a experiência humana na Terra. Falta à ciência o toque fino na vida e no outro, algo comum aos poetas, aos esotéricos, às culturas mais tradicionais.

O reconhecimento acadêmico desses saberes ainda é limitado. Muitas vezes, o que não se adequa aos rigorosos critérios de validação científica acaba sendo subvalorizado ou considerado anedótico, mesmo quando essas práticas trazem respostas concretas para problemas ambientais, sociais e econômicos. Rezadeiras, cartomantes, yogues tântricos, praticantes de tai chi, meditação e herbalistas são desconsiderados como parte da formação do saber.

É justamente nesse ponto que surge a necessidade urgente de reimaginar a ciência como um espaço de liberdade intelectual, onde o risco e a colaboração estejam no centro. Reimaginar a ciência significa, também, resgatar a noção de que o conhecimento científico não é um fim em si mesmo, mas um meio para melhorar a vida das pessoas, construir soluções coletivas e responder às crises que atravessamos enquanto sociedade global. Significa criar espaços em que cientistas possam trabalhar sem a sombra constante da precarização e da pressão por métricas de impacto. A experiência da pandemia de COVID-19 mostrou o valor de esforços colaborativos, como as coalizões internacionais para desenvolvimento de vacinas, demonstrando que, diante de grandes desafios, a união de esforços e a abertura de dados podem gerar avanços rápidos e transformadores.

É fundamental também repensar os critérios de avaliação científica, valorizando a qualidade do impacto social dos projetos e o compromisso com questões urgentes da população mundial fragilizada. Importa menos os santos da ciência, e muito mais os dispositivos que eles trazem e as formas como os utilizamos.

O próximo salto está aí, a meu ver: construir uma ciência aberta ao diálogo, ao risco e ao compartilhamento de saberes, onde a criatividade possa florescer. Com esses passos, talvez possamos resgatar a esperança de que a ciência, em sua diversidade, possa novamente ser um território de construção de um mundo mais justo para todos. Fazemos ciência nas conversas de bar, nas trocas cotidianas e na observação dos momentos simples de prazer e boas risadas.

No encontro entre o saber acadêmico e os conhecimentos que emergem dos povos, há um toque sutil, como um fluxo que pulsa entre a racionalidade e a intuição, tal como a respiração que conecta os corpos ao espírito. A ciência, ao abrir-se para esse toque, transcende seus recalques e mergulha num campo onde cada descoberta se torna um ato libertário de entrega, de diálogo com o desconhecido.

Ali, dissolve-se o ego sofrido do pesquisador isolado, dando lugar ao movimento coletivo, onde o risco é uma forma de êxtase e a colaboração entrelaça razão e sentimento. Assim, a ciência pode se transformar num espaço relacional, onde cada troca expande os limites da compreensão, ecoando um desejo profundo de alcançar e tocar, mesmo que de leve, a pulsação da vida real.

viva o SUS!!

Standard
Arquitetura e Urbanismo, artigo, brasil, ciência, política, Sem categoria

10 de outubro – Saude mental, uma luta coletiva!

A cada vez que um morador de rua me para, eu pergunto o seu nome. É uma ação simples, mas poderosa. Um gesto que reconhece no outro uma humanidade que a sociedade muitas vezes ignora. Para o morador, ouvir seu nome é um sinal de pertencimento, de que ele ainda é visto e ouvido. Essa troca pode ser tão significativa quanto o dinheiro, às vezes até mais. E ali, no meio da rua, um pedaço de vida é compartilhado. Quem não gosta de um bom papo furado? Todos gostamos. E essa é uma verdade que esquecemos: somos feitos de encontros e histórias, uma mistura do singular com o coletivo.

Que este Dia Mundial da Saúde Mental -10 de outubro – seja um dia de enfrentamento! Precisamos romper com a visão ultrapassada de que saúde mental é apenas uma questão individual. Somos seres coletivos, conectados ao tecido social que nos envolve. Nossa saúde mental reflete, em grande parte, a qualidade desse tecido.

Imagine um jovem crescendo em uma casa sem janelas, sem saneamento básico, cercado por esgoto a céu aberto. Todos os dias, ele enfrenta a violência urbana, o medo constante, a falta de oportunidades. Esse jovem terá uma estrutura psíquica mais fragilizada em comparação com outro que cresce em um bairro com lazer, segurança e conforto. A desigualdade que permeia as ruas e os lares também afeta a psique.

Estudos da OMS e dados do PNUD mostram que os problemas de saúde mental afetam desproporcionalmente as populações de baixa renda, especialmente em países em desenvolvimento. Depressão, ansiedade e dependência química são comuns em contextos de pobreza, onde o acesso ao tratamento é escasso. Quem vive à margem está mais vulnerável à violência, à instabilidade social e à falta de assistência. Além disso, os serviços de saúde mental, quando existem, são frequentemente subfinanciados, perpetuando o ciclo de exclusão. Ciclo este que é global e estrutural!

O Índice de Pobreza Multidimensional de 2023 revela que mais de 1,1 bilhão de pessoas vivem em pobreza extrema, enfrentando privações em áreas fundamentais como saúde, educação e moradia. Esse cenário reflete a desigualdade socioeconômica que alimenta as disparidades de saúde. O pior paradoxo é que, mesmo quando o serviço de saúde mental está disponível, o estigma cultural em torno dos tratamentos impede muitos de buscar ajuda.

A saúde mental deve ser vista em sua totalidade. Ela é geográfica e relacional, conectada ao entorno do indivíduo. Assim, torna-se essencial construir políticas públicas que abordem a saúde mental de forma integrada e sistêmica. Precisamos consolidar  estratégias que considerem o cidadão como parte de um contexto maior, no qual as desigualdades sociais desempenham um papel central em sua psique.

Neste 10 de outubro, não discutamos apenas o tratamento clínico! Reforcemos a importância de intervenções socioeconômicas como parte dos processos de cura. Tratar a mente é também tratar o ambiente, a pobreza, a educação e garantir a proteção social. Arquitetos e urbanistas têm um papel importante nesta batalha: construir espaços que proporcionem bem-estar. Uma cidade que adoece seus habitantes nunca será uma cidade interessante e viva.

Que neste dia, a saúde mental seja assumida como um direito de todos e, para garantir esse direito, precisamos combater as raízes da desigualdade que deixam tantos para trás.

Standard
artigo, brasil, política, rio de janeiro, Sem categoria

Fechamento do Spaghettilândia: Revitalização ou o Fracasso do Reviver Centro?

O fechamento do Spaghettilândia, com mais de 70 anos de história na Cinelândia, foi anunciado como um marco positivo para o renascimento do Centro do Rio de Janeiro. O tom otimista do jornal que divulgou a notícia ressaltava a “intensa renovação comercial” da região. Contudo, essa narrativa de revitalização ignora uma realidade fundamental: como pode o fechamento de um estabelecimento tão tradicional, frequentado por figuras importantes da Cidade, da política e da intelectualidade, representar um avanço para o espaço urbano?

Esse episódio expõe uma faceta problemática do discurso que tenta inflar a imagem do Rio de Janeiro como um polo boêmio, cultural e gastronômico. É verdade que esses elementos ainda existem, mas desde 2014 sua vitalidade foi profundamente comprometida. O centro da cidade, outrora pulsante, definhou. Espaço de encontros e trabalho, hoje não conseguiu sequer consolidar-se como área de moradia, um fracasso diretamente relacionado ao projeto “Reviver Centro”, que falha ao entregar a solução apenas nas mãos do setor imobiliário.

O projeto “Reviver Centro” é emblemático de uma abordagem equivocada que prioriza interesses econômicos imediatos, mas negligencia as necessidades sociais e urbanas. Para o setor imobiliário, a prioridade não é criar espaços habitáveis e integrados à vida cotidiana. Em vez disso, apartamentos diminutos e inviáveis para uma família são a norma, sem qualquer incentivo para a criação de infraestrutura essencial, como mercados e padarias. O resultado é um centro desprovido de vitalidade comunitária e comercial que não atende à vida cotidiana.

Tentativas de revitalização têm se concentrado em impulsionar polos gastronômicos, que atraem um público homogêneo, de perfil alto e efêmero. Isso ignora a diversidade e as necessidades reais dos moradores potenciais. Afinal, quem pode se alimentar constantemente de “comida cara de boteco”? Esse modelo de revitalização elitista aliena a classe média e trabalhadora, tornando o centro uma área para consumo eventual, mas inviável para habitação e vida diária.

O fechamento do Spaghettilândia simboliza, na verdade, o fracasso do modelo de revitalização em curso. Mais do que um sinal de progresso, ele aponta para a decadência de um projeto urbano que, ao se submeter cegamente às forças do mercado, ignora as demandas fundamentais para que uma cidade verdadeiramente viva e respire.

A transformação de uma cidade requer mais do que renovação comercial; demanda um planejamento urbano cuidadoso, que equilibre interesses econômicos com as necessidades sociais e culturais de sua população. A solução não pode ser entregue unicamente aos poderes imobiliários, mas deve incluir uma visão integrada e participativa, voltada para o bem-estar de seus cidadãos. Ainda á possibilidades de salvação do projeto de reocupação do Centro da Cidade, para tal ele precisa ser ampliado a compreender a complexidade das dinâmicas da região, em especial de toda a área em seu entorno. Reviver Centro precisa assumir a história desta cidade, sua importância global, sua territorialidade negra e periférica, suas muitas camadas sociais. Podemos ter todas as áreas culturais globais mas é necessário ter a relação da escala comunitária junto, ninguém vive de turismo e o Rio não é Disney.

fachada do Spaghettilândia

Standard
artigo, brasil, política

Burocracia e Inovação: Os Desafios do Setor Público na contemporaneidade

A burocracia protege o Estado. Sei que essa frase assusta alguns. A burocracia, frequentemente criticada por sua lentidão e rigidez, é, paradoxalmente, uma das principais responsáveis pela proteção do Estado e pela implementação eficaz de políticas públicas. No entanto, o conceito de burocracia vai além da visão negativa implantada no seio do povo. Ele remete ao saber técnico e profissional das organizações públicas, baseando-se na racionalidade e no cumprimento de regras que garantem a estabilidade e continuidade das políticas, independentemente dos governos.

Embora as críticas à burocracia sejam, em grande parte, justificáveis, é necessário compreender a complexidade do seu papel no funcionamento do Estado. Primeiramente, é preciso assimilarmos algo: O Estado é um âmbito complexo e de disputa perene, não é um local passível de traçar um objetivo comum de forma simples, como uma empresa privada poderia fazer ao dizer: produzir e dar lucro aos acionistas. A tensão entre políticos (representantes das mais diversas forças econômicas e sociais do país), responsáveis por definir o rumo das políticas públicas, e os profissionais do setor público (taxados de burocratas), encarregados de sua implementação técnica, é uma característica intrínseca da administração pública. Com o aumento da atuação estatal em áreas mais complexas, como saúde, educação e mobilidade urbana, vemos a “burocratização da política” e a “politização da burocracia”, em que as esferas técnica e política se sobrepõem e estas disputas ganham camadas mais densas.

No entanto, a burocracia tradicional encontra desafios no mundo contemporâneo. Se já encontravam quando Kafka, de maneira brilhante, expunha em literatura suas críticas profundas, o que dirá agora, em um mundo marcado pela velocidade e pela hiper conectividade. As demandas da sociedade, que exigem respostas rápidas e flexíveis do poder público, muitas vezes entram em choque com o modelo hierárquico e rígido da burocracia weberiana. O excesso de informações e a necessidade de processar grandes volumes de dados, por exemplo, tornam a burocracia lenta e, em muitos casos, desatualizada diante das novas realidades tecnológicas.

O cenário contemporâneo exige novas formas de atuação. A descentralização do processo decisório possibilitaria maior autonomia aos gestores públicos, permitindo que problemas específicos sejam resolvidos de forma mais rápida e eficaz, sem a necessidade de intervenção constante das hierarquias superiores, favorecendo a impessoalidade da política implementada.

Laboratórios de Inovação: Um Caminho Promissor

A criação de laboratórios de inovação dentro do setor público tem se mostrado uma ferramenta poderosa para testar e ajustar políticas e processos em menor escala antes de sua implementação em larga escala. No Brasil, desde 2010, já existem iniciativas de laboratórios de inovação do setor público, como os pioneiros nas universidades federais do Espírito Santo e da UNB. Esses espaços oferecem maior flexibilidade, são mais tolerantes ao fracasso e permitem a experimentação de soluções para os desafios enfrentados pela administração pública.

Além disso, a coprodução de políticas públicas com redes colaborativas, envolvendo a sociedade civil na formulação e implementação de decisões, é uma estratégia defendida pela teoria da complexidade. Plataformas e fóruns participativos, que promovem a colaboração em tempo real entre governo e cidadãos, tornam-se essenciais para a construção de políticas mais inclusivas e adaptáveis às necessidades sociais.

Apesar das vantagens dos laboratórios de inovação, é importante reconhecer que esses espaços também são locais de disputa política. Assim como em qualquer âmbito público, correm o risco de serem direcionados para interesses privados ou de grupos específicos, desviando-se de sua função original de servir à coletividade. Portanto, é fundamental que essas estruturas garantam ampla participação do povo e que se construam com base em uma cultura de inovação que valorize o conhecimento popular e a criatividade coletiva. A inovação, ao contrário do que muitos pensam, não é restrita aos círculos acadêmicos; ela emerge das multidões e do cotidiano, seja nas relações sociais, seja nas tecnologias que desenvolvemos em nosso dia a dia. Toda grande descoberta ou invenção humana é uma construção coletiva.

O Futuro da Administração Pública

Integrar os modelos burocráticos tradicionais com novas abordagens tecnológicas e participativas requer uma transformação cultural dentro da máquina pública. A hierarquia rígida e a centralização das decisões precisam dar lugar a estruturas mais flexíveis e abertas à inovação. Ferramentas tecnológicas podem ser catalisadoras dessas mudanças, proporcionando um Estado mais ágil e alinhado às necessidades de um mundo cada vez mais rápido e interconectado.

Concluindo, a burocracia, com todas as suas falhas e virtudes, continua sendo um pilar fundamental na estrutura do Estado moderno. No entanto, sua evolução é necessária para que possa acompanhar a complexidade do mundo contemporâneo. Os laboratórios de inovação e a coprodução de políticas públicas com redes colaborativas populares mostram-se como caminhos promissores para essa transformação, permitindo uma administração pública mais eficaz, inclusiva, inovadora e socialmente referenciada.

Standard
Arquitetura e Urbanismo, artigo, brasil, filosofia de vida, política, trabalho

GESTÃO PÚBLICA E PRIVADA: Diferenças na Administração do Bem Comum

A gestão pública é um campo que exige um equilíbrio complexo entre conhecimento técnico, administrativo, jurídico e político. Enquanto a experiência puramente militante pode fornecer uma base de engajamento político e definir prioridades, a gestão pública demanda um enfoque técnico para que essas políticas se tornem realidade. Sem esse equilíbrio, há o risco de que as pautas definidas jamais se transformem em resultados concretos e mensuráveis. A prática da gestão pública é marcada pela necessidade de procedimentos formais, controle social e uma vasta rede de regulações que orientam o uso dos recursos e a prestação de serviços à coletividade.

Entro muitos fatores, destaco que: o desequilíbrio conceitual surge  dois. De um lado, há forças altamente qualificadas na produção política, mas que falham na execução burocrática. Do outro, estão aqueles que não compreendem as distinções entre o público e o privado, o que desvirtua a administração pública de suas funções principais. Como resultado, órgãos públicos não conseguem cumprir plenamente suas responsabilidades para com o povo.

Assim, destaco o seguinte recorte: a distinção entre o público e privado. Estes já começam na finalidade, no papel social. A administração pública tem como objetivo constitucional o atendimento ao interesse coletivo, que estabelece os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Em contraste, a gestão privada onde resultados financeiros, competitividade no mercado e lucro para os acionistas ou proprietários são foco.

Essa diferença fundamental reflete-se nas práticas, legislações e restrições que regulam cada área. No privado, o tripé mercado-trabalho-receita guia as máquinas de sua regulação. Já o gestor público está sujeito a um complexo sistema de controle externo, como tribunais de contas, controladoria geral, entidades fiscalizadoras, Lei de Responsabilidade Fiscal. Esse instrumental de segurança ao Erário impõe limites rigorosos, tornando a flexibilidade do setor privado um privilégio raro no setor público. A responsabilidade administrativa no setor público preza pela severidade e segurança.

Lidar com o bem comum é mais complexo do que com o privado. Isso torna a tomada de decisão da administração pública mais lenta. Seguem-se ritos que garantam ampla participação social, como processos licitatórios, consultas públicas e debates em câmaras. No setor privado, as decisões são mais ágeis, geralmente passando apenas pelos gestores ou, no máximo, por assembleias de acionistas.

A contratação de pessoal e a transparência são pontos cruciais. No setor privado, contratações e demissões são ajustes de mercado. No público, a admissão ocorre via concurso, garantindo impessoalidade, transparência e eficiência, promovendo igualdade de oportunidades e prevenindo favorecimentos. Além disso, a gestão pública exige maior transparência, com a divulgação de contratos, licitações e execuções orçamentárias, permitindo a fiscalização pela sociedade.

O orçamento é outra distinção. No setor privado, há mais liberdade para relocar recursos conforme o mercado, estratégias de gerencia e governança corporativa. No âmbito da gestão pública, por sua vez, o orçamento segue normas rígidas e protetivas, como a Lei Orçamentária Anual e o Plano Plurianual, limitando a capacidade de reação rápida a imprevistos.

Diferente do setor privado, onde a responsabilidade geralmente está vinculada ao cumprimento de contratos e à satisfação dos acionistas. Gestores públicos estão sujeitos à Lei de Improbidade Administrativa, que pode acarretar penalidades severas, incluindo a perda do mandato, em casos de má gestão ou corrupção.

Diante dessa realidade, é imprescindível que o gestor público tenha um viés de função social. Ele deve entender que sua responsabilidade vai além da política ou da técnica: é necessário ser um exímio trabalhador, um cuidadoso articulador, capaz de unir conhecimento técnico, políticas sociais e a complexidade administrativa do espaço que gere. A capacidade de equilibrar as demandas da população com as exigências formais da administração pública é o que distingue de verdade um proeminente líder. Somente assim é possível transformar as políticas desejadas em resultados concretos que beneficiem a sociedade como um todo.

imagem original extraída de artigo do TCE de SP: https://www.tce.sp.gov.br/6524-estado-sao-paulo-tem-762-obras-paralisadas-ou-atrasadas

Standard
Arquitetura e Urbanismo, artigo, brasil, filosofia de vida, política, Saúde

Queimadas, a Terra do Fogo e o fim do Futuro

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Brasil registrou mais de 90 mil focos de incêndio apenas na Amazônia em 2023, um aumento alarmante em comparação aos anos anteriores. No Cerrado, os números também são preocupantes: cerca de 60 mil focos no mesmo período. Esses números expõem uma crise ambiental alimentada de maneira significativa pelo modelo atual de agronegócio, que favorece a expansão da fronteira agrícola em detrimento de florestas e matas nativas. Expansão está, muitas vezes, feita à base de arranjos políticos somados ao fato de que temos uma elite com sistemas cognitivos encurtados, pessoas que não conseguem compreender o mundo de maneira sistêmica e se satisfazem com o fetiche do luxo.

O agronegócio é o motor econômico brasileiro, impulsiona o PIB e muda a cara de cidades pequenas e médias Brasil afora. Mas o modelo em voga, ao manter a ênfase em monoculturas e pecuária extensiva, fomenta o desmatamento e as queimadas. A prática de “limpar” áreas com fogo para plantio ou pastagem ainda é recorrente e se agrava pela falta de fiscalização eficaz. Além disso, a flexibilização das leis ambientais e o enquadramento dos órgãos de fiscalização, como o IBAMA, permite que essas práticas predatórias avancem sem punições adequadas.

Para além dos danos ambientais, o que já é inaceitável para um País com os biomas estratégico para o Planeta como o nosso, essa relação direta afeta a saúde pública devido a emissão de substâncias poluentes, contribuindo para a mudança climática e prejudicando o comércio internacional, que se propõe cada vez mais sustentável.

Isto é, não precisamos sequer apelar à consciência dos fomentadores do agro, a própria economia mostra que o caminho que percorrem terá um desfecho péssimo. A competitividade do Brasil no mercado global se põe em risco, pois cada vez mais consumidores e investidores bloqueiam negócios com quem tem práticas como as que o Brasil mantém. Dentro desta conjuntura internacional, logo nosso modelo que produz: poluição, aquecimento global e alimentação ultra processada se tornará antiquado e indesejado deixando como resquício a imensa sobrecarga no sistema de saúde pública devido às inúmeras doenças que ele acarreta. 

É inviável reverter esse cenário sem um esforço nacional que vá além de medidas paliativas e emergenciais. Algumas sugestões:

  1. Revisão do Código Florestal : É crucial revisar e fortalecer o Código Florestal, garantindo que as áreas de preservação permanente e de reserva legal sejam efetivamente protegidas, inclusive ampliando estas demarcações para que recuperemos terras perdidas. Isso implica em maior rigor na fiscalização e na aplicação de multas para quem desmata ilegalmente.
  2. Incentivo à Agricultura Sustentável : Redirecionar políticas de subsídio e crédito para práticas agrícolas sustentáveis, como sistemas agroflorestais e integração laboral-pecuária-floresta (ILPF). Esse modelo promove a recuperação do solo e reduz a necessidade de abertura de novas áreas para a agricultura.
  3. Tecnologia e Inovação no Combate a Incêndios : Investir em tecnologias de monitoramento e combate a incêndios, incluindo satélites, drones e inteligência artificial, que permitem a detecção precoce e a resposta rápida aos focos de incêndio. Além disso, o treinamento e a capacitação das brigadas de combate ao fogo são essenciais.
  4. Valorização da Floresta em Pé : Criar mecanismos de valorização econômica da floresta em pé, como o pagamento por serviços ambientais e o mercado de créditos de carbono. Isso gera um incentivo econômico para o produtor preservar a vegetação nativa do que expandir a agricultura predatória.
  5. Educação Ambiental : Promover e ampliar programas de educação ambiental nas comunidades rurais e urbanas, conscientizando sobre os impactos das queimadas e a importância da preservação dos recursos naturais. A formação de uma consciência coletiva é essencial para mudar comportamentos a longo prazo. É preciso que o meio ambiente esteja de forma clara na grade curricular. 
  6. Saúde preventiva : Promover o monitoramento integral e sistêmico das relações entre doenças e o ramo de atividade econômica do agronegócio. Aumento de doenças causadas por problemas respiratórios, calor e doenças causadas pelos produtos lançados no mercado para consumo da população.

As queimadas são um desafio estrutural que envolve o futuro do nosso desenvolvimento econômico e social. Na atual esfera da emergência, somos obrigados a reavaliar o modelo e adotar políticas que assegurem um equilíbrio entre a produção agrícola, posse de terras e a preservação ambiental. Como já anunciavam os zapatistas, “nada é impossível para quem não tem nada a perder”; e estamos, agora, na iminência de perder tudo: nossa terra, nossa água, nosso ar. O Brasil está em uma encruzilhada, onde resistir já não é mais uma escolha, mas uma necessidade urgente. Só assim será possível garantir um futuro sustentável para as próximas gerações. Na verdade, só assim será possível garantir algum futuro — um onde a fumaça que cobre os céus sejam só uma triste memória e não o nosso destino.

Standard
Arquitetura e Urbanismo, artigo, brasil, política, rio de janeiro

Segurança Pública pela ótica da Teoria da Complexidade

Assustou-me saber que no Evento Rio Innovation Week havia um mega stand da PM apontando um caminho de parcerias privadas com esta instituição que é por natureza pública. A partir deste fato, trago a reflexão. Peço perdão se o texto ficou grande, mas creio que o tema pede por isso e peço uma certa paciência na leitura.

A complexidade da segurança pública no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, mostra uma desconexão entre o que se pensa e as políticas que são realmente inovadoras há anos. Falta uma visão mais ampla, que compreenda como diversos fatores sociais estão interligados, ou que tem perpetuado um ciclo vicioso de militarização, corrupção e falta de cooperação. Refletiremos aqui sobre os principais desafios do sistema de segurança pública do Rio de Janeiro e propomos possibilidades inspirada na teoria da complexidade e em exemplos internacionais que deram certo.

Os Limites da Militarização na Segurança Pública

No Brasil, e em particular no Rio de Janeiro, existe uma tradição de associar segurança pública à presença ostensiva de forças policiais. Essa visão simplista ignora as causas mais profundas da criminalidade e coloca na prática uma política de confronto com a própria população. A militarização da segurança, embora vista por muitos como uma solução rápida, e sugira ao povo uma sensação de proteção, resulta em confrontos violentos e um alto índice de mortes especialmente nas áreas mais pobres e periféricas da cidade. A presença ostensiva de uma polícia militarizada não só falha em reduzir a criminalidade, como também alimenta um ciclo de violência e desconfiança entre a população e as forças de segurança. Além de ser uma máquina de extermínio de pessoas pobres.

É preciso entendermos a complexidade: ser PM para o carioca pobre é um instrumento de estabilidade financeira, ascensão social e garantia de futuro. Por sua vez, se torna um concurso almejado. A maior parte dos praças da PM são jovens pobres tentando um futuro melhor, são estes que por salários que vão de 3 a 7 mil reais (bruto) salários de soldados a sargentos, que irão para o combate ostensivo em operações de guerra sem uma estratégia inteligente e integrada.

O Ostensivo é Midiático

Muitos, inclusive eu, ficaram surpresos ao ver os resultados de uma pesquisa que colocou o Rio de Janeiro em um modesto 168º lugar na lista das cidades mais violentas do país com mais de 100 mil habitantes. Esperávamos que estivéssemos no topo, ou pelo menos entre as três primeiras posições. Isso reflete como, no Rio, a violência se tornou mais um espetáculo midiático do que uma realidade quantitativa. O crime, aqui, é um grande negócio, mas a percepção de violência, amplificada pela mídia, é o que realmente domina o imaginário coletivo.

O modelo de segurança ostensivo que temos no Rio de Janeiro funciona de maneira cinematográfica para a mídia, alimentando um sistema de controle social que sustenta diversos tipos de negócios. Desde a valorização ou desvalorização de imóveis em certas partes da cidade até a regulamentação de serviços de segurança privada, lazeres em condomínios fechados e shopping centers, tudo parece girar em torno dessa percepção inflada de violência. Programas como Brasil Urgente e Balanço Geral vendem uma ideologia que associa violência ao punitivismo, desrespeitando princípios fundamentais do Brasil Democrático de Direito como a separação dos poderes, e promovem a imagem do “justiceiro”, aquele que, sozinho, define a lei, prende os “meliantes” e aplica a pena , muitas vezes de forma extrajudicial. Essa postura é abertamente aplaudida por apresentadores de TV, que ignoram a gravidade de tais atos.

É importante destacar que esse justiçamento é seletivo. Ele raramente se aplica a crimes de “colarinho branco”, como a sonegação de impostos por grandes milionários, grandes empresas envolvidas em corrupção público-privada ou a empresas que cometem assédio moral, racismo, entre outros. O que vemos é um espetáculo que mantém o foco em uma violência visível, palpável, enquanto outras formas de transgressão, muitas vezes mais danosas para a sociedade, passam despercebidas ou são tratadas com leniência. Assim, o ostensivo que se vê nas ruas é menos sobre segurança real e mais sobre alimentação um ciclo de medo e consumo que beneficia Pouco e penaliza muitos.

O filme Robocop e Robocop 2, por sua vez são interessantes exemplos críticos a respeito desse tema, desconectado de um pensamento sistêmico e com um viés mercadológico a OCP decide criar um segundo cyborg mais robusto, armado e violento que seria o sistema de segurança de Delta City, a cidade construída a partir da demolição de toda Detroit.

O filme nos oferece uma crítica contundente ao modelo de segurança pública ostensiva alinhado à privatização das cidades e da segurança pública. O discurso do presidente da OCP destaca esse tema: “Nós vamos construir uma cidade nova em folha onde agora está Detroit, um exemplo para o mundo (…)privada e responsável.” A noção de substituir a governança democrática pelo controle corporativo é enfatizada pela sua afirmação de que “qualquer um pode comprar ações da OCP e ter um pedaço da cidade, não existe mais democracia do que isso”, questionando assim as verdadeiras implicações de tal privatização.

Corrupção e Conivência com o Crime Organizado

Vale constatar que, no caso do Rio de Janeiro, o modelo de privatização das cidades controlado pelo sistema de segurança é justamente o que rege os muitos poderes paralelos atuantes na região metropolitana. Territórios inteiros tem o seu controle político assumido por estas forças que permitem ou proíbem candidatos x ou y, entradas e saídas de veículos e pessoas, entre outros fatores. O negócio criminoso do Rio não são exatamente o tráfico, assaltos, ou outro tipo de violência, o principal negócio é o controle do território e por sua vez as relações econômicas que isso movimenta. Um sistema cujo elo entre o Rio legalizado e o Rio ilegal se dá por redes de corrupção.

Assim, destacamos o grave problema que é a corrupção dentro das forças de segurança, que muitas vezes está envolvida com o crime organizado. As milícias, grupos formados por policiais e ex-policiais, exercem controle violento sobre diversas comunidades do Rio de Janeiro, muitas vezes com a complacência ou apoio de setores do governo. Para além disso, a prática do arrego aos batalhões, pagamento realizado por grupos de poder armado paralelo aos batalhões que cuidam da segurança local é uma prática comum. Com o pagamento garantido, as operações ostensivas não acontecem gerando uma falsa sensação de segurança local. Essa conivência entre o Estado e o crime organizado cria um ambiente onde a segurança pública é refúgio de interesses privados, dificultando qualquer tentativa eficaz de melhoria.

Fragmentação e Falta de Coordenação

O sistema de segurança pública no Rio de Janeiro sofre de uma falta de integração que impede a implementação de políticas mais completas. A ausência de coordenação entre as diferentes forças policiais e entre as esferas federal, estadual e municipal resulta em esforços desconectados e ineficazes. Isso agrava a sensação de insegurança e torna difícil a criação de estratégias unificadas para enfrentar o crime de maneira eficaz. Impossível combater um sistema global de negócios que envolve uma rede internacional de comércio ilegal que gira por portos, rodovias e aeroportos sem integração das forças de combate.

Foco na Repressão em Detrimento da Prevenção

Tradicionalmente, as políticas de segurança no Rio de Janeiro têm priorizado a repressão ao crime, deixando de lado os investimentos em medidas preventivas. Isso é muito afetado pela forma simplista como é tratado a política de segurança. A ação ostensiva funciona como uma espécie de “mostrar serviço”. Ainda que não dê resultado prático, liberar helicópteros, tropas especiais, armamentos pesados para uma operação que gera alto risco para inúmeros trabalhadores e que muitas vezes o melhor resultado é a apreensão de uma porcentagem ínfima de armas e drogas é notoriamente antieconômico, ainda que midiático.  

Programas sociais que podem atuar sobre as causas da violência, como a pobreza e a exclusão social, são raros e mal organizados. Essa abordagem limitada perpetua um ciclo de violência que poderia ser reduzido com políticas mais abrangentes, externas para a prevenção e inclusão social.

Alternativas Globais que nos Servem de Exemplo

A experiência internacional oferece exemplos de como uma abordagem menos militarizada e mais integrada pode resultar em maior segurança e bem-estar social. No Japão, o modelo de policiamento comunitário baseia-se na proximidade. Pequenas delegacias de bairro são operadas por policiais que conhecem bem a população local, promovendo um ambiente de confiança mútua. Essa estratégia contrasta fortemente com a abordagem militarizada do Rio de Janeiro e servem de exemplo sobre como construir uma relação de cooperação entre cidadãos e forças de segurança.

Na Espanha, a desmilitarização da polícia foi acompanhada de reformas que enfatizaram os direitos humanos e o policiamento comunitário. A formação contínua dos policiais, focada na mediação de conflitos e no trabalho em conjunto com outros serviços sociais, criou uma polícia mais próxima da população e mais eficaz na manutenção da ordem pública.

Portugal, por sua vez, introduziu uma política de descriminalização das drogas, tratando o uso de substâncias como uma questão de saúde pública. Essa abordagem reduziu significativamente a violência relacionada ao tráfico e à população carcerária, mostrando como políticas focadas na saúde e na prevenção podem ser eficazes.

Para quem considere que tais exemplos não se aplicam ao Rio por conta d qualidade educacional e do sistema de bem estar destes países citados. É justamente sobre isso que digo, estes são elementos fundamentais para reduzir o grau de criminalidade de um lugar. O que garante o funcionamento do patrulhamento comunitário, ou a boa lide com drogas legalizadas é justamente a capacidade de outras esferas do sistema integrarem um cuidado com o seu povo. Cuidado de saúde, urbanístico, econômico, um cuidado com o eu povo.

Devaneios para uma Reorganização da Segurança Pública no Rio de Janeiro

Vamos pensar um pouco como a teoria da complexidade pode contribuir para a reorganização da segurança pública no Rio de Janeiro. O primeiro ponto é compreender que temos um papel central de um projeto de segurança embasado em interconexão entre vários fatores sociais e na necessidade de uma abordagem sistêmica da vida. As UPPs tinham um nome péssimo, mas uma proposta inicial boa, um Sistema Integrado de Segurança Pública e Desenvolvimento Social, que conecte áreas como segurança, saúde, educação e desenvolvimento econômico e social. Recuperar estes princípios e ampliar na formação de rede colaborativa, envolvendo tanto órgãos governamentais quanto a sociedade civil, para enfrentar os desafios de segurança a partir de múltiplas perspectivas. Além disso, a implementação de um policiamento comunitário em rede, inspirado nos modelos japoneses e espanhóis (veja este pequeno documentário a respeito), seria crucial para aproximar a polícia da população e criar um ambiente de confiança mútua. A desmilitarização das forças de segurança e a formação contínua dos policiais, com ênfase em direitos humanos e mediação de conflitos, também são medidas essenciais para a transformação do sistema.

A legalização de drogas ilícitas é outro ponto importante. Entendo que o cidadão comum tema lidar com este problema, porém é crucial olharmos para as experiências bem-sucedidas a respeito de legalização de drogas. Drogas como o cigarro, açúcares, certos fármacos, álcool são muito mais bem controlados na sociedade por instrumentos de saúde pública e instrumentos econômicos. Este é o ponto.

Um dos temores que a população tem da legalização é que ela enxerga as drogas como um caminho para a morte, e tem um sentido em pensar assim dentro do sistema atual. A questão é que, podemos contar mais de 50 anos em que as disputas ostensivas matam gente e não resolvem os problemas.

Os programas focados na juventude, especialmente em áreas vulneráveis, e a criação de conselhos comunitários de segurança e desenvolvimento social são outras propostas que podem ajudar a construir uma sociedade mais justa e segura. Se o jovem tem alguma perspectiva que envolve educação e formação em um trabalho digno e uma perspectiva mínima de acesso a um sistema de saúde que funcione, a criminalidade reduzirá muito.

Conclusão

A transformação da segurança pública no Rio de Janeiro exige uma abordagem integrada e intersetorial, que vá além do simples combate ao crime. Ao adotar uma perspectiva mais ampla, baseada na teoria da complexidade e em exemplos internacionais que deram certo, é possível construir um ambiente de segurança mais humano e sustentável, onde diferentes esferas do governo e da sociedade civil trabalhem juntas para promover a paz social e o desenvolvimento humano.

É preciso entender que a máquina que move a violência é econômica e extremamente enlaçada nas muitas forças que gerem este Estado, forças essas que ocupam cargos legalizados e cargos ilegais. Infelizmente, não é tarefa simples lidar com isso ou desmontar estas estruturas das diversas formas de poder que atuam na cidade, mas uma coisa é certa é preciso começar de algum lugar.

Subjetivamente, precisamos confrontar e modificar o imaginário coletivo que sustenta a ideia de que a segurança se resolve com heróis solitários em uma batalha contra o crime ou inovações tecnológicas puramente armamentistas e ostensivas. O caminho simplista dos filmes hollywoodianos, onde policiais e “justiceiros” como Batman, Bradock ou Duro de Matar resolvem todos os problemas sozinhos, não se sustentam na realidade. Esses estereótipos podem funcionar bem como entretenimento, mas não como modelo de segurança pública.

Enquanto continuarmos alimentando essa lógica, vamos apenas substituir a chance de enfrentar os sérios desafios do Estado por um espetáculo televisivo diário, cuja qualidade e efetividade são, no mínimo, questionáveis.

Robocop 2 – O policial do futuro matando alguém

Standard
Arquitetura e Urbanismo, artigo, brasil, cultura, literatura, Subúrbios

Último Trem para Central

autoria própria caneta e hidrocor – Central do Brasil

No cair da noite, o último trem partia, sentido Deodoro – Central do Brasil. Wesley, um jovem morador de Sulacap, corria desesperado pela plataforma. Em sua mente, ecoava a última discussão com seu pai: “Você nunca vai ser nada se continuar com essas coisas de poesia.” Coração triste, seu pai, mecânico morador na Avenida Maquinista José Santana, não compreendia por que seu filho matava as aulas do SENAI para passar o dia lendo Ondjaki.

Ao embarcar, Wesley percebeu uma figura no fundo do vagão. Parecia familiar, porém não conseguia discernir muito bem de onde a conhecia. Seu vagão estava praticamente vazio. No banco à frente, um pixo feito a caneta pilot: “Você encontrará seu destino no último trem.”

A noite escura lá fora parecia engolir a cidade. Wesley muda de vagão e avista outro pixo: “Hoje, você decide seu futuro.” Com uma mistura de medo e determinação, sussurra para si: “Eu quero ser livre.” Naquela noite, ele desceu na Central com o coração leve, pronto para começar uma nova vida. Caminhava pela plataforma no sentido da saída.

“Passa o celular, anda, passa!”

Um tiro seco e solitário ecoa na estação. “Tá lá o corpo estendido no chão, em vez de rosto uma foto de um gol.” Estava livre.

Standard