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Segurança Pública pela ótica da Teoria da Complexidade

Assustou-me saber que no Evento Rio Innovation Week havia um mega stand da PM apontando um caminho de parcerias privadas com esta instituição que é por natureza pública. A partir deste fato, trago a reflexão. Peço perdão se o texto ficou grande, mas creio que o tema pede por isso e peço uma certa paciência na leitura.

A complexidade da segurança pública no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, mostra uma desconexão entre o que se pensa e as políticas que são realmente inovadoras há anos. Falta uma visão mais ampla, que compreenda como diversos fatores sociais estão interligados, ou que tem perpetuado um ciclo vicioso de militarização, corrupção e falta de cooperação. Refletiremos aqui sobre os principais desafios do sistema de segurança pública do Rio de Janeiro e propomos possibilidades inspirada na teoria da complexidade e em exemplos internacionais que deram certo.

Os Limites da Militarização na Segurança Pública

No Brasil, e em particular no Rio de Janeiro, existe uma tradição de associar segurança pública à presença ostensiva de forças policiais. Essa visão simplista ignora as causas mais profundas da criminalidade e coloca na prática uma política de confronto com a própria população. A militarização da segurança, embora vista por muitos como uma solução rápida, e sugira ao povo uma sensação de proteção, resulta em confrontos violentos e um alto índice de mortes especialmente nas áreas mais pobres e periféricas da cidade. A presença ostensiva de uma polícia militarizada não só falha em reduzir a criminalidade, como também alimenta um ciclo de violência e desconfiança entre a população e as forças de segurança. Além de ser uma máquina de extermínio de pessoas pobres.

É preciso entendermos a complexidade: ser PM para o carioca pobre é um instrumento de estabilidade financeira, ascensão social e garantia de futuro. Por sua vez, se torna um concurso almejado. A maior parte dos praças da PM são jovens pobres tentando um futuro melhor, são estes que por salários que vão de 3 a 7 mil reais (bruto) salários de soldados a sargentos, que irão para o combate ostensivo em operações de guerra sem uma estratégia inteligente e integrada.

O Ostensivo é Midiático

Muitos, inclusive eu, ficaram surpresos ao ver os resultados de uma pesquisa que colocou o Rio de Janeiro em um modesto 168º lugar na lista das cidades mais violentas do país com mais de 100 mil habitantes. Esperávamos que estivéssemos no topo, ou pelo menos entre as três primeiras posições. Isso reflete como, no Rio, a violência se tornou mais um espetáculo midiático do que uma realidade quantitativa. O crime, aqui, é um grande negócio, mas a percepção de violência, amplificada pela mídia, é o que realmente domina o imaginário coletivo.

O modelo de segurança ostensivo que temos no Rio de Janeiro funciona de maneira cinematográfica para a mídia, alimentando um sistema de controle social que sustenta diversos tipos de negócios. Desde a valorização ou desvalorização de imóveis em certas partes da cidade até a regulamentação de serviços de segurança privada, lazeres em condomínios fechados e shopping centers, tudo parece girar em torno dessa percepção inflada de violência. Programas como Brasil Urgente e Balanço Geral vendem uma ideologia que associa violência ao punitivismo, desrespeitando princípios fundamentais do Brasil Democrático de Direito como a separação dos poderes, e promovem a imagem do “justiceiro”, aquele que, sozinho, define a lei, prende os “meliantes” e aplica a pena , muitas vezes de forma extrajudicial. Essa postura é abertamente aplaudida por apresentadores de TV, que ignoram a gravidade de tais atos.

É importante destacar que esse justiçamento é seletivo. Ele raramente se aplica a crimes de “colarinho branco”, como a sonegação de impostos por grandes milionários, grandes empresas envolvidas em corrupção público-privada ou a empresas que cometem assédio moral, racismo, entre outros. O que vemos é um espetáculo que mantém o foco em uma violência visível, palpável, enquanto outras formas de transgressão, muitas vezes mais danosas para a sociedade, passam despercebidas ou são tratadas com leniência. Assim, o ostensivo que se vê nas ruas é menos sobre segurança real e mais sobre alimentação um ciclo de medo e consumo que beneficia Pouco e penaliza muitos.

O filme Robocop e Robocop 2, por sua vez são interessantes exemplos críticos a respeito desse tema, desconectado de um pensamento sistêmico e com um viés mercadológico a OCP decide criar um segundo cyborg mais robusto, armado e violento que seria o sistema de segurança de Delta City, a cidade construída a partir da demolição de toda Detroit.

O filme nos oferece uma crítica contundente ao modelo de segurança pública ostensiva alinhado à privatização das cidades e da segurança pública. O discurso do presidente da OCP destaca esse tema: “Nós vamos construir uma cidade nova em folha onde agora está Detroit, um exemplo para o mundo (…)privada e responsável.” A noção de substituir a governança democrática pelo controle corporativo é enfatizada pela sua afirmação de que “qualquer um pode comprar ações da OCP e ter um pedaço da cidade, não existe mais democracia do que isso”, questionando assim as verdadeiras implicações de tal privatização.

Corrupção e Conivência com o Crime Organizado

Vale constatar que, no caso do Rio de Janeiro, o modelo de privatização das cidades controlado pelo sistema de segurança é justamente o que rege os muitos poderes paralelos atuantes na região metropolitana. Territórios inteiros tem o seu controle político assumido por estas forças que permitem ou proíbem candidatos x ou y, entradas e saídas de veículos e pessoas, entre outros fatores. O negócio criminoso do Rio não são exatamente o tráfico, assaltos, ou outro tipo de violência, o principal negócio é o controle do território e por sua vez as relações econômicas que isso movimenta. Um sistema cujo elo entre o Rio legalizado e o Rio ilegal se dá por redes de corrupção.

Assim, destacamos o grave problema que é a corrupção dentro das forças de segurança, que muitas vezes está envolvida com o crime organizado. As milícias, grupos formados por policiais e ex-policiais, exercem controle violento sobre diversas comunidades do Rio de Janeiro, muitas vezes com a complacência ou apoio de setores do governo. Para além disso, a prática do arrego aos batalhões, pagamento realizado por grupos de poder armado paralelo aos batalhões que cuidam da segurança local é uma prática comum. Com o pagamento garantido, as operações ostensivas não acontecem gerando uma falsa sensação de segurança local. Essa conivência entre o Estado e o crime organizado cria um ambiente onde a segurança pública é refúgio de interesses privados, dificultando qualquer tentativa eficaz de melhoria.

Fragmentação e Falta de Coordenação

O sistema de segurança pública no Rio de Janeiro sofre de uma falta de integração que impede a implementação de políticas mais completas. A ausência de coordenação entre as diferentes forças policiais e entre as esferas federal, estadual e municipal resulta em esforços desconectados e ineficazes. Isso agrava a sensação de insegurança e torna difícil a criação de estratégias unificadas para enfrentar o crime de maneira eficaz. Impossível combater um sistema global de negócios que envolve uma rede internacional de comércio ilegal que gira por portos, rodovias e aeroportos sem integração das forças de combate.

Foco na Repressão em Detrimento da Prevenção

Tradicionalmente, as políticas de segurança no Rio de Janeiro têm priorizado a repressão ao crime, deixando de lado os investimentos em medidas preventivas. Isso é muito afetado pela forma simplista como é tratado a política de segurança. A ação ostensiva funciona como uma espécie de “mostrar serviço”. Ainda que não dê resultado prático, liberar helicópteros, tropas especiais, armamentos pesados para uma operação que gera alto risco para inúmeros trabalhadores e que muitas vezes o melhor resultado é a apreensão de uma porcentagem ínfima de armas e drogas é notoriamente antieconômico, ainda que midiático.  

Programas sociais que podem atuar sobre as causas da violência, como a pobreza e a exclusão social, são raros e mal organizados. Essa abordagem limitada perpetua um ciclo de violência que poderia ser reduzido com políticas mais abrangentes, externas para a prevenção e inclusão social.

Alternativas Globais que nos Servem de Exemplo

A experiência internacional oferece exemplos de como uma abordagem menos militarizada e mais integrada pode resultar em maior segurança e bem-estar social. No Japão, o modelo de policiamento comunitário baseia-se na proximidade. Pequenas delegacias de bairro são operadas por policiais que conhecem bem a população local, promovendo um ambiente de confiança mútua. Essa estratégia contrasta fortemente com a abordagem militarizada do Rio de Janeiro e servem de exemplo sobre como construir uma relação de cooperação entre cidadãos e forças de segurança.

Na Espanha, a desmilitarização da polícia foi acompanhada de reformas que enfatizaram os direitos humanos e o policiamento comunitário. A formação contínua dos policiais, focada na mediação de conflitos e no trabalho em conjunto com outros serviços sociais, criou uma polícia mais próxima da população e mais eficaz na manutenção da ordem pública.

Portugal, por sua vez, introduziu uma política de descriminalização das drogas, tratando o uso de substâncias como uma questão de saúde pública. Essa abordagem reduziu significativamente a violência relacionada ao tráfico e à população carcerária, mostrando como políticas focadas na saúde e na prevenção podem ser eficazes.

Para quem considere que tais exemplos não se aplicam ao Rio por conta d qualidade educacional e do sistema de bem estar destes países citados. É justamente sobre isso que digo, estes são elementos fundamentais para reduzir o grau de criminalidade de um lugar. O que garante o funcionamento do patrulhamento comunitário, ou a boa lide com drogas legalizadas é justamente a capacidade de outras esferas do sistema integrarem um cuidado com o seu povo. Cuidado de saúde, urbanístico, econômico, um cuidado com o eu povo.

Devaneios para uma Reorganização da Segurança Pública no Rio de Janeiro

Vamos pensar um pouco como a teoria da complexidade pode contribuir para a reorganização da segurança pública no Rio de Janeiro. O primeiro ponto é compreender que temos um papel central de um projeto de segurança embasado em interconexão entre vários fatores sociais e na necessidade de uma abordagem sistêmica da vida. As UPPs tinham um nome péssimo, mas uma proposta inicial boa, um Sistema Integrado de Segurança Pública e Desenvolvimento Social, que conecte áreas como segurança, saúde, educação e desenvolvimento econômico e social. Recuperar estes princípios e ampliar na formação de rede colaborativa, envolvendo tanto órgãos governamentais quanto a sociedade civil, para enfrentar os desafios de segurança a partir de múltiplas perspectivas. Além disso, a implementação de um policiamento comunitário em rede, inspirado nos modelos japoneses e espanhóis (veja este pequeno documentário a respeito), seria crucial para aproximar a polícia da população e criar um ambiente de confiança mútua. A desmilitarização das forças de segurança e a formação contínua dos policiais, com ênfase em direitos humanos e mediação de conflitos, também são medidas essenciais para a transformação do sistema.

A legalização de drogas ilícitas é outro ponto importante. Entendo que o cidadão comum tema lidar com este problema, porém é crucial olharmos para as experiências bem-sucedidas a respeito de legalização de drogas. Drogas como o cigarro, açúcares, certos fármacos, álcool são muito mais bem controlados na sociedade por instrumentos de saúde pública e instrumentos econômicos. Este é o ponto.

Um dos temores que a população tem da legalização é que ela enxerga as drogas como um caminho para a morte, e tem um sentido em pensar assim dentro do sistema atual. A questão é que, podemos contar mais de 50 anos em que as disputas ostensivas matam gente e não resolvem os problemas.

Os programas focados na juventude, especialmente em áreas vulneráveis, e a criação de conselhos comunitários de segurança e desenvolvimento social são outras propostas que podem ajudar a construir uma sociedade mais justa e segura. Se o jovem tem alguma perspectiva que envolve educação e formação em um trabalho digno e uma perspectiva mínima de acesso a um sistema de saúde que funcione, a criminalidade reduzirá muito.

Conclusão

A transformação da segurança pública no Rio de Janeiro exige uma abordagem integrada e intersetorial, que vá além do simples combate ao crime. Ao adotar uma perspectiva mais ampla, baseada na teoria da complexidade e em exemplos internacionais que deram certo, é possível construir um ambiente de segurança mais humano e sustentável, onde diferentes esferas do governo e da sociedade civil trabalhem juntas para promover a paz social e o desenvolvimento humano.

É preciso entender que a máquina que move a violência é econômica e extremamente enlaçada nas muitas forças que gerem este Estado, forças essas que ocupam cargos legalizados e cargos ilegais. Infelizmente, não é tarefa simples lidar com isso ou desmontar estas estruturas das diversas formas de poder que atuam na cidade, mas uma coisa é certa é preciso começar de algum lugar.

Subjetivamente, precisamos confrontar e modificar o imaginário coletivo que sustenta a ideia de que a segurança se resolve com heróis solitários em uma batalha contra o crime ou inovações tecnológicas puramente armamentistas e ostensivas. O caminho simplista dos filmes hollywoodianos, onde policiais e “justiceiros” como Batman, Bradock ou Duro de Matar resolvem todos os problemas sozinhos, não se sustentam na realidade. Esses estereótipos podem funcionar bem como entretenimento, mas não como modelo de segurança pública.

Enquanto continuarmos alimentando essa lógica, vamos apenas substituir a chance de enfrentar os sérios desafios do Estado por um espetáculo televisivo diário, cuja qualidade e efetividade são, no mínimo, questionáveis.

Robocop 2 – O policial do futuro matando alguém

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Último Trem para Central

autoria própria caneta e hidrocor – Central do Brasil

No cair da noite, o último trem partia, sentido Deodoro – Central do Brasil. Wesley, um jovem morador de Sulacap, corria desesperado pela plataforma. Em sua mente, ecoava a última discussão com seu pai: “Você nunca vai ser nada se continuar com essas coisas de poesia.” Coração triste, seu pai, mecânico morador na Avenida Maquinista José Santana, não compreendia por que seu filho matava as aulas do SENAI para passar o dia lendo Ondjaki.

Ao embarcar, Wesley percebeu uma figura no fundo do vagão. Parecia familiar, porém não conseguia discernir muito bem de onde a conhecia. Seu vagão estava praticamente vazio. No banco à frente, um pixo feito a caneta pilot: “Você encontrará seu destino no último trem.”

A noite escura lá fora parecia engolir a cidade. Wesley muda de vagão e avista outro pixo: “Hoje, você decide seu futuro.” Com uma mistura de medo e determinação, sussurra para si: “Eu quero ser livre.” Naquela noite, ele desceu na Central com o coração leve, pronto para começar uma nova vida. Caminhava pela plataforma no sentido da saída.

“Passa o celular, anda, passa!”

Um tiro seco e solitário ecoa na estação. “Tá lá o corpo estendido no chão, em vez de rosto uma foto de um gol.” Estava livre.

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Salve a malandragem

No último dia 7, o Rio celebrou a malandragem, essa arte de resistência social. Vivendo à margem das estruturas e redes privilegiadas, criamos ferramentas para navegar e subverter o desfavorável. A vida ensina a malandragem, não tem como fugir, mas ela também é aprendida na escola.

Malandragem não é marra! Há um estereótipo tolo andando pela cidade, como se ser malandro fosse meter bronca nos outros e arrumar treta. No fim viram um bando de mané.

Malandragem talvez seja simplesmente a capacidade que o mais fraco tem de sobreviver dentro das estruturas desiguais da vida, no balanço do trem, na amizade com o dono da bodega para pegar um fiado, na conversa fiada para espantar uma possível confusão. Malandragem é saber apreciar a noite, mas ser esperto para acordar cedo e não se estrepar no trabalho.

A malandragem tem sua potência de alegria acima de tudo, com a astúcia para “não dar mole pra Kojak”. É aceitar que há uma fluidez em certos discursos presos e que nem tudo pode ser 8 ou 80, nem tudo se bate de frente, mas também não é correr da raia dos princípios. Malandro que é malandro tem princípios!

Existe um equilíbrio curioso para se manter vivo, esse equilíbrio ocorre no cotidiano quando entendemos que não somos nós solitários, mas sim nós por nós. A malandragem, no melhor sentido da palavra, é uma arte política, uma arte marcial do diálogo.

Dito isso, não ligo para os estereótipos. O que faz o bom malandro não é a fantasia de malandro, o que faz o bom malandro é o balanço do trem, o descer da ladeira e o caminhar da vida, o drible que o craque aprendeu na várzea. Malandragem é uma arma ativa do pobre, a sagacidade do improviso diante do imprevisível.

Por isso, neste dia 7, o Rio não só celebrou a malandragem, mas também exaltou a astúcia dos que, na batalha do cotidiano, transformam as adversidades em momentos de aprendizado e resistência. A cidade, com sua encantaria malandra, continua a ensinar que a vida é uma grande roda de samba, nas ruas ou no fundo de quintal, improvisando, dançando, acima de tudo, vivendo.

autoral: caneta
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O mais velho

Férias, fui moleque de rua na Arealva. A rua de terra batida já me ensinava urbanismo: de um lado, casas com quintal; do outro, um sítio repleto de árvores das mais diversas espécies. Às três da tarde rolava a bola. Dois baixinhos eram nossos craques da rua: Marcinho e Luana. Às vezes, apostávamos um contra valendo dois litrão de coca.

Ali aprendi o que falei em 2015 – a várzea é uma célula-tronco do urbano – era na terra que a copa acontecia. Em uma das laterais havia um tronco que atuava de líbero para os dois times: bateu a bola nele, seguiu o jogo. Eu era zaga; a regra era clara: se a bola passar, a perna fica. No campo, eu (bom pereba) tinha duas missões: parar o adversário e entrar de voadora em quem batesse no Márcio ou Luana.

O juiz era o Mais Velho. Toda rua de subúrbio tem o Mais Velho. O Mais Velho é aquele cara que faz parte do bonde, mas não está na nossa faixa etária. Tem idade suficiente para ser respeitado como adulto, mas é jovem demais para ser da turma dos nossos pais. O Mais Velho tem um papel crucial na vida da molecada; ele é um modelo, é uma espécie de espelho futuro. Soa o apito, e ali, o Mais Velho nos ensinou um dos conceitos de Einstein: o tempo é relativo.

Nesse jogo, estávamos mal. Começamos perdendo e o relógio correndo. O Mais Velho, na sua função de juiz e com a legitimidade que a idade lhe dava, deixou o jogo seguir. Acho que foram os trinta minutos mais longos das nossas vidas. A tarde ia caindo e a bola rolava contra o relógio até que nossos craques desencantaram: um gol de placa atrás do outro e o jogo virou! Soa apito final. Troca de farpas e voadoras com o time adversário, pegamos o prêmio e fomos com o Mais Velho tomar os dois litrão de Coca pra comemorar.

Assim eram os dias de férias em Sepetiba, onde a rua de terra batida se transformava em terreno de aprendizados. Nós, nos aventurando em vários rolés, e o Mais Velho sempre por lá, como um guardião das nossas aventuras.

Nesses encantamentos que só o Brasil tem, sempre que via Romário ou Marta jogando, lembrava-me de Marcinho e Luana, da rua Arealva e dos meus dias de férias com a avó em Sepetiba. Fui privilegiado por jogar bola com eles.

caneta sobre papel: rua arealva, Sepetiba, pelos anos de 1992
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Amar a praia: uma lição do meu pai

Meu pai amava a praia de Sepetiba, enquanto eu a considerava sem graça. Preferia jogar bola no Recôncavo, andar de bicicleta com meus amigos, catar fruta no pé na Arealva, pular o rio, e soltar pipa.

Mas um dia, compreendi o amor de meu pai. Me dizia: “Não anda olhando para o chão, moleque, cabeça erguida”. E foi assim que diante da Baía de Sepetiba, levantei a cabeça e a paisagem renasceu. Ver a restinga da Marambaia ao fundo, riscando o horizonte, o pôr do sol, o barulho da marola e das aves, o aroma da maresia, nem lembrei do barro entre a areia e a água.

Nossa segunda praia era o Recreio, na época dos areais, acampando. Recreio é mar arredio, destes que querem ser livres, ou a gente respeita ou ele nos engole. Algumas vezes íamos às praias da Ilha do Governador. Mais velho, já arquiteto, aprendi a amar a Praia das Pedrinhas, mar de pescador, graças ao meu pai que lá atrás disse: “Olha para o horizonte”.

Privatizar praia é o sonho de quem para o 474 numa manhã de domingo e manda os garotos do Jacaré descerem; delírio que diz: “Nossa praia”. Praia é um ser livre, um ente de renovação. Quantos de nós não pulamos as ondas de um ano novo e renovamos nosso pacto com a vida? Aprisionar o mar em políticas privatistas é negar seu sentido libertário. O mar não cabe no bem privado, mal cabe no bem público. O mar é fluxo da vida, berço do imprevisível. Praia, pedacinho de terra que toca a imensidão das correntes, captamos seus valores e significados, a potência para além dos corpos.

Em um mundo que dá claros sinais de que nossa escolha limitante de transformar tudo em recurso cria danos irreversíveis, a lei da praia é fruto de uma visão estreita e obsoleta. Não enxerga a grandiosidade do mar, lança um olhar míope e mesquinho, que aprisiona a praia em cifras, reduzindo-a a um mero balanço financeiro para alguns poucos privilegiados, alheios à complexidade de vida que permeia nosso país.

foto autoral: povo na praia do Flamengo, reveillon
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Cidade: Unidade Estética e Desejo de Vida

Se você perguntar a 40 pensadores sobre o significado do termo cidade, provavelmente receberá 40 respostas diferentes. E essa pluralidade importa muito quando elucubramos sobre este espaço onde a vida de muitos de nós se desenrola. A cidade é algo tão complexo que escapa às definições.

Um recorte que gosto especialmente vem de Mumford: a cidade é “um símbolo estético de unidade coletiva”. Exploremos a estética a partir de Espinosa, não reduzindo-o a uma categoria puramente formal, mas refletindo nele como uma experiência subjetiva capaz de nos afetar, tornando-nos mais potentes e desejantes. Podemos entender a experiência estética como uma manifestação da nossa potência de existir, uma busca incessante por liberdade.

A vivência da cidade, com sua capacidade de promover dor ou prazer, nos potencializa a agir. Pense em um bairro aprazível, onde a comunidade, fortalecida pelo prazer e alegria de morar ali, se movimenta para melhorar o ambiente, impedindo ações outras contrárias aos interesses coletivos. Por outro lado, quando um local é constantemente marcado pelo medo e imersa na falta de potência vital, torna-se muito difícil a organização para a ação comum dos moradores em mobilizar uma vida diferente.

Existe uma vontade de existir que nos transcende, nos faz amar um ícone arquitetônico, uma pintura, uma música, ou outras expressões que parecem nos mover para o eterno. De certa forma, é como se a experiência estética nos permitisse escapar da morte, como uma pintura rupestre que nos conecta diretamente com a mensagem de um de nós que há muito se foi.

Construir a cidade como um símbolo estético da unidade coletiva nos obriga a pensar a cidade pelo desejo de vida, de estarmos vivos e ativos enquanto coletividade. Essa coletividade se torna capaz de fazer a melhor política, aquela que não precisa passar pelas estruturas de controle. E aqui temos um desafio: como abandonar a cidade construída pelo medo da morte e substituí-la por uma cidade que seja um desejo de vida? Suspeito que os melhores indícios estão nas conversas de rua, nos encontros de bar, nas feiras, no futebol, resumindo: nos encontros dos diferentes.

autoral: lapis e hidrocor
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No balanço do trem

No balanço do trem, vende água, vende biscoito, vende salame, vende queijo, vende sorvete, vende refri, vende cerveja, vende guaraná, vende fone, vende doce, vende bala, vende tudo. Vem de isopor, vem de break, vem de improviso, vem de pandeiro, vem de samba, vem de choro, vem de caixa de som. Vem devagar, chegando na estação, vem o trem.

No balanço do trem, a vida tem ritmo. Surfista da Zona Norte, moda dos anos 80, dropava no teto, entre a vida e a morte. Ferro, brita, rede contínua. Deodoro, Santa Cruz, Paracambi, Belford Roxo, Saracuruna, Vila Inhomirim, Guapimirim. De Japeri à Central, não há nada igual.

Vago, vagão, vagabundo, cuidado com o vão entre a porta e a plataforma. A sirene toca, o povo embarca, o pregador anuncia sua fala. Pede atenção, desculpa, senhores passageiros, por atrapalhar sua viagem. O camelô traz uma oportunidade única de ter algo supérfluo e provavelmente desnecessário. A viagem segue, a vida segue. Do lado de fora, mais um espírito da luz caído, olhando para o alto. Quanta arte se apaga com a queda do poeta. Caminha pelos trilhos, pula o muro, abre o buraco, passa por baixo. Jogo no Maracanã, jogo no Engenhão.

No reflexo, vejo uma paisagem de segredos esquecidos. Rostos se misturam com muros, casinhas, vazios, o aço desliza no espaço e no tempo. No ventre do trem, o humano é posto à prova; tem uma beleza e uma artimanha fugaz. Em cada curva a realidade se desdobra enquanto o trem avança pensativo, rumo à Central do Brasil.

Poucas obras são tão engenhosas e belas como a Central do Brasil: seu vão livre, seus relógios, a cara de um Brasil que um dia sonhou ser industrial e desenvolvido. Relógios que expõem o paradoxo do atraso, a escolha do abandono à própria sorte. Deixados ao relento, reinventamos a vida no interior do trem, porque somos carne de pescoço, carne que também está à venda dentro e fora dos vagões. “Eu morri e nem sei mesmo qual foi aquele mês.” Somos só gente simples, trabalhando de sol a sol, chegando na estação. Mais uma jornada, logo mais retorno.

autoral: caneta e lapis sobre papel: trem

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Da janela do ônibus

Pego o 350, do centro a irajá, no cair da noite, a viagem é mais vazia.

Das janelas do ônibus, a cidade passa como um filme em cores sépias, distorcido pelo embaçamento sujo dos vidros que balançam sem parar. Todo ônibus suburbano tem um ritmo percussivo de parafusos frouxos, vidros tremulando em ferro, portas rangendo. O ritmo é cortado por um grito: “Vai descer, piloto!”, substituindo o toque da campainha que não funciona. Do lado de fora, a vida passa. Benfica, Manguinhos, Bonsucesso, Olaria, Penha, Brás de Pina, Penha Circular, Vicente, Quitungo, Vila da Penha, a vida passa.

Garotos com suas caixas de som do tamanho de carrinhos de feira conversam, um senhor vende balas, bares abertos, igrejas cheias, jovens sem capacete em suas motos, corpos solitários, corpos conversativos, olhares perdidos. Se Wim Wenders fosse brasileiro, certamente Damiel e Cassiel experimentariam este pitoresco passeio.

Há uma angústia suave na viagem, cada passageiro singular com sua história, suas narrativas mentais, na expectativa ansiosa da chegada ao ponto onde vai descer. Cada rosto, uma história não contada, uma vida em suspense aos olhos de quem observa.

Quando sai da fábrica, o ônibus é apenas uma máquina, um símbolo da evolução capital, um marco de sucesso. Nas ruas, ganha nome, apelido.
Há um evento chamado 350 quando inúmeros corpos adentram ele para tentar chegar a seus destinos. Cada viagem é um teatro de vidas passando pelas janelas, cenas de um filme contínuo e inacabado, projetado nas paredes sujas do ônibus.

O bater das janelas no ritmo desordenado da vida urbana, a curva fechada e o banco solto são um lembrete da nossa fragilidade enquanto seres humanos. Seu centro de gravidade parece feito pra carregar batatas no lugar de gente, é esse o presente para o trabalhador, pros idosos, cada degrau é um Everest. A vida passa lá fora, mas dentro do 350 o tempo parece suspenso, ainda que estejamos em movimento.

Cada parada, um novo cenário, um novo ato. Chego ao destino final, não o do ônibus, mas o meu, avenida Brás de Pina, esquina com a São Félix. O 350 ainda tem mais um pequeno chão pra andar, nada que eu não faria andando.

autoral: passageiro no ônibus

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Alguns desafios do plano Nova industrialização Brasil

O programa de reindustrialização do Brasil esbarra em alguns empecilhos que podem ser lidos como imensos desafios. Entre eles cito alguns: a melhoria dos centros nacionais de pesquisa e desenvolvimento, bens e recursos, custos de transações internacionais como logística de transporte.

Se o Reuni e Prouni acertaram precisamente a garantia de acesso universitário às camadas mais populares, errou muito ao deixar entregue ao mercado boa parte do capital investido em educação. Uma fala troncha que o presidente lançou falando sobre ter advogado demais no país é um bom reflexo disso. Um programa com o teor do Prouni e reuni, sem uma política estruturante em um país onde a maior segurança financeira vem de concursos públicos somado a cultura do cotidiano que sempre viu como emprego seguro ser advogado, médico ou professor gerou isso. Mudar esse cenário é um imenso desafio que exigirá uma reforma da educação pela base.

Retomando, os maiores ativos que uma indústria globalizada tem está em suas propriedades (patentes, intelectuais, físicas, patrimoniais etc.), localização e internacionalização. Dito isso, não há saída, a incapacidade que o país tem de desenvolver um campo decente e atrativo para pesquisadores nos coloca extremamente vulneráveis nas disputas internacionais. Creio que este é um investimento crucial para o plano dar certo, garantir que o maior bem que podemos ter é formar profissionais qualificados que se sintam interessados em permanecer vivendo e trabalhando no Brasil.

A fala troncha do Lula tem uma sinceridade intrínseca que aponta pra necessidade de o país formar este corpo intelectual e técnico de qualidade. Infelizmente, isso não se dará pela boa vontade dos grandes mercadores do sistema de educação que insistem em enxugar custos com cursos EAD e desvalorização completa de professores e de centros de pesquisa.

Construir uma política no Mercosul que de prioridade a uma saída de logística para o oceano pacífico, criando alternativa concreta ao canal do Panamá (globalmente falando) e alternativa de massa para alcançar parte significativa da América Latina. Há alguns projetos de ferrovia bioceânica, todos bem difíceis de realizar, porém que não deveríamos abandonar. Ainda mais em um momento em que a logística marítima sofre com a crise global. As tensões do mar vermelho devido às guerras no oriente médio e a seca do canal do Panamá tem gerado altas no preço do frete, o que torna propício quaisquer tentativas de negociar globalmente alternativas.

Ambas as saídas pedem do governo pulso e recursos altos, não são caminhos simples, mas são caminhos que precisam ser iniciados. Um plano de industrialização não nasce da noite para o dia e nem se finda em dois ou quatro anos, precisa de tempo e continuidade. Muito necessário ver isso quando vivemos uma era onde quaisquer intervenções globais, de grande porte de extração e mudança ambiental, pode afetar negativamente a capacidade do planeta existir.

Talvez o maior desafio de todos seja justamente convencer os corpos políticos que pensam o Brasil sob a tábula rasa do arrasa quarteirões a cada quatro anos de que precisamos construir um projeto que dure para mais gerações. Sem isso, ficaremos restritos a liberar apenas recursos primários como moeda de troca interessante para a indústria global, nos mantendo como eternos fornecedores de commodities.

Mapa da ferrocarril santiago-mendonza
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Reindustrializar o Brasil

Sobre o Plano de Ação da Neoindustrialização brasileira gostaria de comentar alguns pontos.

Primeiro, vejo com bons olhos o plano como uma alternativa de reaquecer o desenvolvimento nacional neste campo que segue esquecido. O programa vislumbra um sistema de reorganização nacional. Considero cedo para um grande ufanismo, mas considero uma boa caminhada para a saída da recessão e abertura de uma cadeia produtiva de trabalho que se mostra hiper necessária.

Sinto que, no Brasil real (e não no legal) as três primeiras missões estão o coração onde o governo vai focar o olhar: cadeias agroindustriais, complexo econômico industrial de saúde e infraestrutura voltada para integração produtiva. As outras seis missões pode ser que na prática caminhe meio a reboque.

No que compete a gente, pensar estrategicamente os clusters e cadeias industriais desse país pode movimentar todo o sistema. Historicamente a implementação de qualquer pólo fabril traz consigo uma série de modificações estruturantes pra atender, coisas como habitação pra trabalhadores, mobilidade logística pra translado de produtos, entre outros muitos fatores.

Outro ponto que afeta diretamente o nosso campo profissional está no olhar da construção como indústria. Isso pode viabilizar uma nova organização do nosso setor que encontra nos sistemas BIM as ferramentas primordiais para operar o setor de obras por outra lógica empresarial, reduzindo-se os pequenos e médios escritórios que não conseguiriam suportar os custos de manutenção e criando-se corporações mais robustas que abraçarão via CNPJ estes médios e pequenos operários. Ok, é apenas um futurismo pensar assim, mas é um futuro viável de ser deduzido.

O estímulo do capital estrangeiro poderá ser um motor de giro desse plano, porém isso não parece significar um compromisso real com o resultado social. E aí vejo alguns grandes enfrentamentos que o governo precisará ter disposição de fazer:

  1. Transformar parte do resultado dos investimentos internacionais e projetos de desenvolvimento social para o país.
  2. Ter muito cuidado para que a Política Nacional de Exportação e facilitação de relações com o comércio exterior pese positivamente para o país
  3. Principal, cuidar para que a economia de mercado não faça um papel avassalador de retirada de todo e qualquer bem-produzido do país sem deixar benefícios para nós. Em especial o extrativismo territorial, degradação ambiental, entre outros.

Temos dificuldades de lidar com questões que envolvem investimento estrangeiro. Muito se dá por conta de a história deste país ter sido formada pela exploração estrangeira sobre seus recursos básicos e povo. Porém cabe a nós tentarmos tomar as rédeas de nossas diretrizes nas mãos.

Resumindo, como todo bom Plano, o que mostrará o sucesso é a capacidade de ser aplicado. A nós, neste momento, creio que neste momento cabe identificar as interfaces potentes e as possíveis lutas que serão necessárias de traçar.

Mais importante que ler minha opinião porém é, ler o documento final que se encontra neste link.

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