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Brasil um país cujo projeto de vida é não ter projeto nenhum

Desde que a humanidade tomou consciência de si e constituiu sociedade que ela tem de lidar com os mais difíceis desafios da natureza. Construindo ferramental prático, técnico, teórico e científico para resistir e construir seus espaços de garantia de bem viver.

Impressiona como um país como o Brasil sucumbiu a um projeto de existência terminal, tornando-se incapaz de enfrentar quaisquer questões mais severas. Em mais de 500 anos de história de ocupação colonizadora, e milhares de anos de ocupação do território pela humanidade, nossa história é marcada pelo constante achatamento da produção científica e técnica e do conhecimento como um todo. Ensino de qualidade sempre foi um projeto excludente no país, as pouquíssimas tentativas de formação de educação de base com qualidade e democrática foram rapidamente arrasadas, tão logo tentava-se instituir. Esta construção de nação dá o tom da nossa sociedade, um país com projetos rasos e efêmeros, que pouco valoriza a capacidade técnica e que entrega a sorte e ao destino todos os seus.

A destruição de Petrópolis, uma das cidades símbolo da história deste país, se torna mais um capítulo desta tragédia chamada Brasil. Não há surpresa no acontecido, a real é que há negligência histórica em lidar com a necessidade de se planejar. A tragédia é o desfecho de uma lógica que atravessa todo o sistema do campo da construção deste país. Embora seja um dos campos de trabalho e mercado que são estratégicos para o giro da economia, ele sempre opera de forma leviana. Preferimos construir estádios a hospitais, preferimos construir megamuseus a sistemas de saneamento, preferimos entregar o valor da terra por aumento de gabarito a respeitar limites ambientais frágeis. Esta é a cara das obras e da gestão pública neste lugar.

A política educacional, nossa principal chave de mudança está também destruída. Escolas funcionam como depósitos de jovens sem perspectiva. O sistema de universidades se tornou mera ferramenta de arrecadação financeira para grandes corporações e formação de mão de obra pouco reflexiva, isso em um país que é incapaz de absorver sequer um terço desta mão de obra formada. São décadas em que o projeto é achatar a produção de conhecimento, um projeto que se dá com mudanças gradativas.

Para piorar o caso, quaisquer forças progressistas atualmente organizadas se tornaram meros agentes de reação a tudo que surge, sem que se construa alternativas de saída. Tudo se resume a marketing e estratégia furada, o que também é um reflexo claro de um povo que pouco lê, que pouco consegue estudar e trabalhar por si mesmo a crítica, a reflexão e a produção de ideias. Não basta ao país apenas consumir, andar de avião, ter geladeira, ter televisão, precisamos de um país que saiba construir isso tudo, que saiba produzir tecnologias de defesa, que saiba monitorar tecnicamente os riscos de tragédia, entre outros.

Vivemos no desespero, em uma espécie de deixa acontecer e vamos ficando aqui. O Brasil na real não vive mais, apenas segue existindo enquanto respira. Este desespero que produz o crescimento das mais diversas formas de fé, de crença, de busca messiânica e equivocada de uma saída ou uma fuga.

Consta que, para sairmos deste abismo nacional, precisaríamos de um trabalho de longos anos. Precisaríamos recuperar os esforços em um projeto de educação concreto que garanta a nós formação suficiente para lidar com o revés do mundo. E um primeiro passo precisa ser tomado, a construção de um desejo de Nação, de nos entendermos como um povo onde um são todos, onde um cidadão não é problema só de si mesmo, mas um problema da cidade. Em resumo, precisaremos reconstruir o sentido coletivo da vida, o sentido político dela.

Temos de enfrentar fortemente a inércia que a tábula rasa dos 4 anos eleitorais coloca. Precisamos consolidar um olhar científico e técnico integrado, romper com o viés corporativo e particionado do indivíduo em si mesmo, do profissional em si mesmo, do saber como uma caixa cartesiana. Precisamos recuperar a costura e o sentido da função social do nosso trabalho e explodir os sistemas de captura financeira da vida. Não dá mais para aceitar cidades definidas e geridas com base em especulação financeira da terra, não dá mais para pensar hospitais geridos por quem vende nossa saúde a preço de banana, não dá mais para pensar a produção alimentar com base no lucro que posso ter com a fome do povo. Sem um olhar integral da vida, não sairemos desta lógica de ser um país cujo único projeto parece ser o de se tornar uma fazenda para o mundo onde poucas famílias fazem fortuna às custas da miséria de todos.

Petrópolis, Brumadinho, Morro do Bumba, Chuvas de 86, a história do nosso fracasso social segue cíclica.

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Moise

É mais que notório e inegável que vivemos um país racista. O assassinato a sangue frio do jovem congolês que buscou no Brasil um caminho de esperança e como tantos periféricos caiu no ciclo de morar em uma favela dos subúrbios e trabalhar em um bairro da centralidade retrata a imensa fragilidade do que temos construído até aqui.

Simplesmente, independente das inúmeras tentativas, nenhuma política pensada neste país até hoje reduziu ou mitigou a guerra aos pobres e a guerra aos povos negros. Nenhuma organizou economicamente e socialmente o fim deste ciclo histórico do mundo que faz transbordar até hoje a mesma violência que assolou a diáspora dos povos africanos somada a violência que os segue assolando em dias contemporâneos.

O sistema miliciano que matou o jovem Moïse Kabagambe a sangue frio e com doses colossais de sociopatia, é da mesma lógica de controle social que hoje ocupa seu país em guerras étnicas sem fim. Mesmo que haja um abismo entre os tipos de conflitos, há pouca diferença no uso tático das forças do capital entre este modelo que gere (pelo poder da violência) os territórios no Brasil, dos modelos organizacionais de clãs que ainda hoje se disputam nos territórios africanos.

Há em ambos a face da violência material, exposta pela pobreza, pela desigualdade de oportunidades, pela fome, somados a violências simbólicas com a impregnação no imaginário de que o corpo negro é o outro, o não familiar (ainda que ocupe massivamente o território).

O estado de guerra traçado permanece porque movimenta poder e dinheiro. Você consegue especular sobre terrenos, vender armas, vender a salvação eterna e divina aos que não tem muita esperança, criar lugares nas cidades mais valorizados (por haver lugares menos valorizados), consegue consolidar garimpos de extração de minérios em territórios controlados por um clã, entre muitos outros exemplos de como explorar estas relações de controle sócio-espacial.

Nkrumah fora a sua época inteligente ao notar que no seu território específico era necessário romper com elementos do conceito étnico para resistir a este outro que se utilizada destas disputas para manutenção da colônia. Para K. Nkrumah não era central uma linguagem ou cultura unificada, mas sim a construção de uma unidade em torno de uma construção comunitária da vida, a saída não partiria necessariamente pelos iguais cristalizados em seus laços étnicos e identidades imutáveis. A proposta passaria a ser uma nova composição, uma identidade que parte do desejo de libertação e emancipação dos povos africanos.

Moïse, congolês, fugido das guerras e da fome, negro, trabalhador, morador de Brás de Pina, foi assassinado ao tentar receber seu salário. Moïse foi morto em um país que usa de toda força e conhecimento dos povos negros na mesma medida em que os chacina diariamente em operações policiais sem fundamentação, afinal, o carro da PM passa diferente em Costa Barros e na Barra da Tijuca. Esta mesma PM onde corpos negros também são treinados pra matar e morrer a esmo em uma mesma Costa Barros onde corpos brancos também podem ser lidos como corpos negros diante do bico de um fuzil que passa apontado pra fora da Patamo.

Este é um crime que não pode ser silenciado, não pode ser abafado e nem resumido em uma bandeira ou símbolo de ato, é um crime que precisará ser devidamente punido. Assim também, é um crime que acende o alerta vermelho para esta cidade em que estamos! O Estado miliciano não se refere apenas as forças do poder armado que se organizam, junta-se a isso a cultura que se constrói em torno do punitivismo e justiçamento e sob o qual vamos nos habituando. Não vamos sair desta miséria de situação se não traçarmos urgentemente lutas que busquem verdadeiramente o desejo e o trabalho em torno da emancipação e libertação do povo mais pobre como um todo.

Congo, um país cujo PIB é de 10 bilhões de dólares, aproximadamente uns 5% da fortuna de Elon Musk perdeu no Brasil um dos seus filhos.

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856 Um Adeus ao Poeta

Muitos filmes do Subúrbio em Transe são marcantes para mim, porém hoje falarei de um que como tantos é especial para a compreensão de diversos conceitos de vida, espaço, lugar, etc. 856 A CASA DO POETA.

Falo hoje como uma homenagem póstuma a partida do poeta J. Cardias, que cedeu e abriu sua casa ao Subúrbio em Transe para realização de tal obra. O eixo do filme está na remoção da casa do poeta para a passagem do BRT, durante as obras olímpicas. O poeta e sua casa eram um elo comum, ali onde o Taco se tornou a memória, reminiscência de um lugar que não volta mais.

J. Cardias foi uma dessas almas brilhantes e anônimas dos Subúrbios, alguém que fazia de sua vida e seu quintal a sua poesia, sua passagem por esta terra esteve imbricada neste lugar, um terreno e uma casa no bairro de Vila Kosmos. Casa esta que na disputa econômica da passagem do BRT, perdeu para o imenso shopping. O que J. Cardias nos permitiu, foi conhecer uma outra esfera das remoções dos mais pobres, este modelo de operação urbana que sempre volta com uma maquiagem de progresso. O poeta nos mostrou a remoção de um lar, de um lugar, o apagamento em vida de histórias, memórias e referências.

O poeta hoje partiu, assim como um dia foi extirpado de sua vida o seu lugar. Porém nos deixa a história de sua vida como exemplo, nos deixa suas poesias como presente e nos deixa sua resistência como legado. Esse é nosso país, onde aos mais pobres só resta luta pela sobrevivência. Todos que passamos pela pobreza, em um determinado grau enfrentamos as mais deveras frustrações que a desigualdade nos traz e tentamos seguir em frente. Dessas contradições de dor, frustração e necessidade de seguir vivendo que tiramos o suspiro de expressar, sem saber se nossas músicas serão ouvidas por mais pessoas além de nossos amigos, se nossa poesia será lida e entoada em todas as escolas de formação, sem se importar se nossa pintura vai ser exposta em um museu de grande notoriedade. Seguimos vivendo e produzindo, mesmo que quase anônimos porque esta produção está aí pra afastar o peso da desgraça que a desigualdade nos coloca.

Ao poeta, e porque não vizinho (afinal são bairros coligados) fica nossa admiração e aos familiares fica nossa condolência.

Aos amigos, simplesmente recomendo que assistam ao filme 856- A Casa do Poeta. Todos que já passaram por uma perda violenta de seu lar vão se reconhecer e aos que nunca passaram vão sentir.

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Reflexão sobre o processo de refração dos coletivos e identidades

É possível pensarmos que as formas de organização coletivas que se tornaram um modelo padrão nas últimas décadas esteja chegando em um momento de refração.

Já é notável que, de alguns anos para cá este modelo foi perdendo sua autonomia como forma de resistência e sendo capturado pelo sistema do capital, seja pela ferramenta de fomentos financeiros, seja pela atração do trabalho para dentro do modelo de mercado, os coletivos foram ganhando cada vez mais um tom de pequenas e micro-empresas (mesmo sem ser). Esta queda, que acabou por criar relações de competição entre grupos, e afastamento de muitos que buscavam nestes uma linha de fuga, ajudou a desmobilizar possíveis redes com capilaridade e capacidade de produzir outras formas de vivência, de distribuição de força de trabalho, de fazer política.

Além deste, a organização em coletivos que se encontra capturada pelo sistema de poder, acaba por viver em si mesma, presa na necessidade da própria sobrevivência, como quaisquer brasileiros que não tem capital ou herança. Mas a questão dada é: o que fazer diante disso?

Se não se consegue mais retirar os coletivos e similares do sistema, pois os mesmos precisam dos parcos recursos fornecidos pelo sistema, e ao mesmo tempo não podemos mais contestar este sistema pelo risco de ser isolado do acesso aos parcos recursos, fica a questão: Como retomar caminhos de mobilização para além deste?

Da mesma forma caminha a questão das lutas identitárias. Não é nas pautas que caminha o problema, mas na forma como muitos grupos acabaram caindo no controle deste mesmo capital, que por necessidade de recursos pra sobreviver, caíram no fluxo tradicional e não conseguem mais ter força para traçar um contrafluxo ou uma saída alternativa ao mesmo.

Cada vez mais entendo que devamos disputar a sociedade orgânica, aquela que não está organizada mas é capaz de construir sua sobrevivência apesar da escassez. Esta sociedade não precisa se entender por uma identidade necessariamente, mas muitas das vezes por uma enunciação coletiva. Num dado momento vizinhos que se odeiam podem construir um laço tático de saída de um confronto maior. Vizinhos que nunca se falam não precisam deixar um ao outro passar fome, essa é a questão.

Entendo que esta disputa também não se dará por círculos de coletivos organizados, mas por entendermos o modelo de funcionamento social dos mais pobres ao mesmo tempo em que estruturamos uma saída social e econômica de massa, um projeto amplo de emancipação nacional.

Hoje as alas mais progressistas seguem perdidas em si mesmas, transformou-se o Ser de Esquerda em uma identidade que representa tudo aquilo que é bom. Uma leitura essencialista que nem o Marx em sua fase filosófica (como um dos filósofos da suspeita) ou os existencialistas e percursores das teorias em torno das minorias e identidades pensariam. Possivelmente um Marx em 2022 estaria escrevendo altas críticas a este bloco e se dedicando a ler os principais pensadores sociais e econômicos dos mais diversos campos e lidas.

Precisamos antes de mais nada aceitar quem somos: um país complexo, com pouco estudo, cuja base política se funda a partir das forças militares e oligárquicas, de bases religiosas fortes e cujo progressismo e conservadorismo disputam intensamente uma classe média. Boa parte da nossa esquerda nunca leu Marx a fundo e boa parte da nossa direita também nunca leu seus autores de fundação e citação a fundo. O que temos em maior força parece sempre ser o senso comum. Enquanto isso os mais pobres lutam por sua sobrevivência e buscam o acalanto nas mais diversas formas de expressão e espaços que sobram (sejam igrejas, botequins, rodas de vizinho, etc).

Pensar este tipo de projeto no Brasil é um enfrentamento difícil e delicado, visto nossa política ser tradicionalmente um campo de projetos de curta distância e tábulas rasas sobre projetos passados. O Brasil, enquanto país das dimensões e complexidades que tem, não pode se dar ao luxo de viver rateado por meia dúzia de famílias e eminencias pardas do poder cuja linhagem pode ser traçada desde sua origem.

É por esta complexidade que precisamos pesar nosso caminho. Que projeto de Brasil queremos e precisamos? Não bastará dizer aos céus: Somos a Esquerda, somos o lado certo da história! Todos aqueles que no Rio de Janeiro por exemplo viram as remoções para as obras olímpicas e da copa das copas, todos que viram sua casa cair com a pichação SMH tocada pelo maior partido de esquerda do país a época, não considerarão este o lado bom da história. O teleférico parado do Alemão é uma obra dessa esquerda que está sempre no lado bom da história, e quem está fora da bolha sabe que boa parte da recessão do país vem daí.

O Brasil quer uma saída disso e nisso, é preciso entender que muitos dos que votaram em Bolsonaro em 2018 sabiam o que era o Bolsonaro e aceitaram o risco social. Foi uma escolha também do povo, este mesmo povo que só se ferra na história e que várias vezes é taxado por memes como culpado. Não foi culpa, foi desespero, desespero de inúmeras pessoas que aceitavam qualquer coisa por alguma mudança. A burrice desta esquerda que ama desesperadamente os espaços de poder é que, no auge de sua arrogância segue sendo a melhor das opções sem sequer sentar com este povo para traçar um caminho comum e popular, segue apregoada entre os seus na busca do caminho certo da história sem construir uma alternativa a si mesma que não seja o retorno ao passado.

Porém diante disso fica a pergunta de Nietsche: “Você viveria sua vida mais uma vez e outra, e assim eternamente?” ao qual, a maioria dos brasileiros, cansados e exaustos do peso da vida, do peso da pobreza e das dores nas articulações dificilmente responderiam um sim. Como seremos capazes de construir um país que nunca foi construído? com acesso a educação de base universal e de qualidade a todos os brasileiros, quando veremos um arranjo político capaz de produzir um planejamento viável de se executar para os próximos 10 ou 20 anos? sob quais ferramentas seremos capazes de reconstruir o Estado a ponto de dar os direitos básicos da existência da vida aos mais pobres?

Da mesma forma, quando vamos ser capazes de aprender com os mais pobres que as lutas da vida não cabem nas caixinhas pré-formuladas que tanto travaram os coletivos e muitos grupamentos que tentam lutar por um mundo melhor?

Cada vez mais creio que os novos caminhos passarão por isso: Um projeto nacional viável, somado a capacidade de compreender e estarmos junto nas redes mais orgânicas da sociedade. Só por aí seremos capazes de combater o niilismo político em que estamos e o cansaço na busca da construção de novos valores éticos que sejam capazes de repactuar nossa sociedade. Não é simples, e não há saída concreta seja pelo retorno ao passado onírico ou expectativa de um futuro que nunca vem. A saída estará na capacidade de trazermos resposta coerente para resolver este presente material em que estamos assentados.

criança de bicicleta em via expressa do BRT
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Eu tenho você não tem

Por que em meio a tanta miséria parte significativa do povo ainda enxerga com prazer a ostentação?  Copos da Stanley de centenas de reais, bezerros dourados na capital paulista, farras em apartamentos de luxo. Porém não é só nas estratificações mais ricas da sociedade que habita esta forma de pensar.

Se tem uma coisa que o capital soube explorar muito bem é o fetiche da mercadoria. Ele trabalha como desejo e o simbólico para transformar o tempo todo um produto em algo mais desejável. Com a artimanha da publicidade, qualquer coisa pode ser desfigurada do trabalho empreendido e remodelado para algo mais palatável ao nosso imaginário. Este é um bombardeamento que vemos todos os dias.

No Brasil, isso se torna altamente nocivo a medida em que nossa concepção de sucesso se baseia muitas das vezes em um excerto de bens de consumo como símbolo de ascensão social.  Vou citar aqui um fragmento do camarada Diego Felipe, professor de filosofia, pensador suburbano e midiativista sobre o tema quando ele relembra de uma antiga propaganda de TV:

“É a posse de “coisas exclusivas” que permite a diferenciação entre os “estamentos da sociedade”. É um valor neoliberal que nos anos 90 foi bem materializado em uma propaganda de um produto escolar, uma tesoura do Mickey anunciada pelo jargão “eu tenho você não tem”. Esta “mentalidade psicológica infantil” que é reproduzida pela ideologia neoliberal vale para tudo hoje. De marcas de carro que são vendidas a preços surreais até os últimos modelos de videogames como o Playstation 5. Para a elite brasileira mais vale pagar caro e ter o que os outros não têm, do que pagar preços justos e não poder afirmar status diferenciados”.

Independente do trabalho empreendido, há um grau de exclusividade que é engendrado em certas marcas, onde é notório que tanto a técnica quanto as tecnologias envolvidas não são os elementos principais que definem o custo. Quantas não são as diferentes lojas de roupas cujas camisas vem de uma mesma fábrica chinesa? Produtos similares com etiquetas distintas se diferem em preço via capacidade que uma marca x ou y tem de capilarizar na sociedade o seu sentido de ser. É por conta disso que um mesmo tipo de camisa de malha pode variar de 30 a 300 reais.

O Brasil tem se habituado a estar nesta construção onde a aceitação social está diretamente ligada a capacidade de consumir os mais diversos produtos, tendo como principal fundamento mostrar que o indivíduo está em outra estratificação econômica. É com base nisso que uma pessoa que melhora minimamente sua condição financeira aceita endividar-se para ter o carro do ano, a roupa da marca mais cara, a decoração de interiores da tendência, o celular que poucos conseguem ter. Cabe a própria pessoa, após a compra, criar a justificativa que valide a qualidade de forma a aceitar o preço. Para algumas, isso precisa ser devidamente registrado nas redes sociais, a vitrine onde todos parecem agir como pessoas públicas. Enquanto somos tomados por esta onda de mercado, vamos sentido o esvaziamento do sentido de ser no mundo batendo a nossa porta.

O ciclo do fetiche ostentação nos coloca numa prisão sem muros, onde cada fluxo de pensamento direciona a vida em função do que os outros tendem a pensar sobre nossas posses. O que passamos a construir é um laço constante de servidão e uma tentativa de responder a grande crise existencial a partir de redes de ressentimento. No fim todos sofrem, o consumista ressentido que não consegue encontrar um sentido profundo no que faz e nos objetos que compra e consome e aqueles que não conseguem alcançar uma linha de consumo e acabam por ser segregados pelo primeiro grupo.

O ser humano que antes recorria ao transcendente como uma recusa a vida real ainda era capaz de enxergar um tempo estendido, um mundo póstumo, uma obra permanente fazia significado. Hoje, no aprisionamento do fetiche, esta forma de apaziguar seus demônios tem um grau de imediatismo extremamente alto. Tão alto que a relação entre o prazer da ostentação e a frustração com o objeto precisa ser constantemente renovada.

A trilha aberta não traz respostas e faz o ser humano estar frente a frente com a fraqueza. Talvez por ser incapaz de sobreviver a existência do que é viver sem saber ao certo quanto tempo temos, para que estamos vivos aqui e sem termos nenhuma garantia de redes de proteção. Assim, não escapa do bombardeamento social, deste imenso campo de disputa onde cada indivíduo tem o “dever” de mostrar que venceu na vida. Nisto, o que construímos é um sistema social e cultural de pirâmide cuja prova do sucesso vem do comparativo entre aqueles que conseguem ter com o que não tem (seja o que for, ainda que não seja útil).

Este sistema de – consumo, fetiche e ressentimento- não resolve a crise e a existência humana, antes disso ele aprofunda. Existir envolve a nossa capacidade de afetar, de agir no mundo, de produzir e criar e de, mesmo que de maneira inconsciente, operarmos pela preservação do coletivo. Somos seres fracos quando prostrados na lógica do consumo cuja exclusividade alimenta nosso ego pela depreciação do nosso semelhante. Por sua vez, somos mais fortes conforme somos lançados no oceano do acaso criando ciclos de produção coletiva da vida e do próprio sentido dela.

Precisamos repensar um novo caminho, onde seguir em frente passe pela força de suportar as agruras e dores que o acaso abre. Mais que isso, precisamos recuperar uma ética que nos trouxe e nos manteve vivos até aqui. Apesar dos pesares, o ser humano traz em si o desejo de viver e seguir vivo, por mais caótico e casuístico que seja a trilha.

Podemos ter um exemplo destes caminhos na dolorosa estrada do Samba, que como bem lembrava Nelson Sargento: foi duramente perseguido. Em meio ao massacre que tenta constantemente apagar da história a potência de muitos povos, alegria de Jovelina está em formar uma corrente com elos muito resistentes, daqueles que levam bom tempo para arrebentar só para incomodar muita gente que quer terminar com nossa cultura.

É um crime pagar 200 reais em uma camiseta de malha da Osklen que não tem nada de muito diferente de uma camisa de 50 reais da Hering? Não, mas deveria ser no mínimo ofensivo acharmos isso normal em um país que parte gigante de sua população passa fome. Esse é nosso bezerro de ouro da escala do cotidiano e é isso que precisamos desnaturalizar. E se é pra comprar roupa, por que não passarmos na feirinha da Pavuna primeiro?

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Sobre a complexidade dos Subúrbios segregados

Desde a mudança da organização administrativa da cidade do Rio que dividiu a cidade por Áreas de Planejamento e Regiões Administrativas e as legislações vigentes se deram rua a rua, o termo Subúrbio não cabe na lógica formal do planejamento e da administração pública. Ele porém segue pairando no ar como uma enunciação coletiva.

A cidade segregada se deu durante anos por conta de expropriação de tributos de determinadas zonas da cidade e de uma escolha clara de como se daria a distribuição espacial deste território. Assim, as administrações vigentes atuaram de modo a privilegiar um lado específico que seria destinado aos mais ricos e grande parte da classe média. Expropriação esta, que por sua vez nunca foi corrigida por nenhum governo.

Hoje, a melhor expressão de Subúrbios é muito menos territorial e muito mais sob modos de fazer do povo. A construção de laços dos mais diversos. Parte da sociedade organizada em torno desta enunciação busca um caminho de costura e reconstrução do que seria esta identidade. A identidade por sua vez nunca dará conta da complexidade e das dinâmicas populares que giram em torno do sentido de ser ou não ser suburbano no Rio de Janeiro.

Boa parte da pujança e do imaginário se constituiu por algumas políticas de Estado. Escolas públicas, habitação de interesse social, eventos cívicos, o Varguismo teve um papel importante nesta construção. Soma-se a isso a enorme resistência dos povos negros, sempre preteridos e vilipendiados na sociedade, são eles que constroem em seus terreiros, aquilombamentos e barracões o mundo do samba, do funk, da soul music, dos encontros na escassez e da fé. Os Subúrbios são um amálgama disso tudo e muito mais.

Se a relação da cidade formal com a favela é de medo e terror, onde o que separa a favela da cidade formal é que é aceitável pelo sistema o direito do Estado matar na favela e de tratar seus moradores como não cidadãos, nos bairros dos subúrbios que não são considerados favela é dado a invisibilidade e a captura pelo exotismo. Assim, passa ano e sai ano, e cada administração pública usa de uma lógica específica para tentar capturar o discurso e amarrar em torno de uma identidade passível de ser controlada.

As décadas de 70, 80 e 90 levaram os moradores de regiões ditas suburbanas a migrar para uma emergente Barra da Tijuca onde os modos de vida e cultura deste novo modelo de cidade eram vendidos diariamente. Quem viveu estes anos se lembrará de como era matéria dos principais programas de estilo de vida as idas de jogadores e artistas a churrascarias e restaurantes, como era legal o jogador de futebol faltar o treino pra bater um futvolei na praia e muitas outras referências. Enquanto isso, no território onde muitas destes nasceram e se iniciaram, o que vingava eram os bailes. Dentre eles, um modelo ganhou força e ajudou ainda mais a segregar a cidade, os Bailes de Corredor. Os Bailes de Corredor mudaram muito a forma como o adolescente curtia a festa e vivia a própria cidade, pois alimentava um bairrismo combativo. Em pouco tempo, jovens passaram a frequentar festas de outros bairros apenas no intento da disputa.

A beira disso, também nestes anos, explodem o modelo evangélico neo-petencostal Macedos e Malafaias como grandes expoentes, mas este modelo não pode ter essa leitura simplista. O neopetencostalismo opera muito menos por meio do texto escrito, de uma liturgia organizada e centralizada, e muito mais pela experiência pessoal de transcendência. A forma de fé cresce por sua simplicidade organizativa, basta uma liderança capaz de produzir contato com o transcendente e ali poderia se fazer um círculo de oração, um ponto ou até mesmo uma igreja.

Ao definir o adversário a partir de qualquer um que não professe a fé, o petencostes por sua vez acaba que promove um movimento silencioso e silenciador. O fiel não deve se misturar ao mundo, deve produzir a si mesmo e estar junto com os seus (a igreja) num laço de santidade. Para o neopetencostal, o outro tende a ser um desagregado que leva a vida influenciada pelo adversário. A situação piora diante de outras crenças, em especial as crenças de matriz africana, onde aí sim quem as professa é visto como um profeta do adversário. Este tipo de signo constrói boa parte do campo de fé suburbano hoje em dia, de fortalecimento social e caminhos de coletividade. Dali levantam-se muitas lideranças, e outras muitas ainda se aproveitam para usar deste sistema como palanque. Mas ainda assim é preciso nos aprofundarmos nas relações e nos sombreamentos, pois uma profetiza neopetencostal em um círculo de oração está muito mais próxima dos modos de viver de uma benzedeira ou mãe de santo do que de um Silas Malafaia da vida.

Ainda assim, é curiosa a relação de conflitos que apesar de parecer maniqueísta, muitas das vezes passa por um relativismo. Quantas não são as famílias suburbanas que tem sentado na mesa um filho que trabalha para a polícia (uma das possibilidades de emprego e saída pra vida do pobre) e um filho que vive de dinheiro da contravenção? Mas nossas formas de entender certos signos sempre serão outras.

Quando a gente é pobre pra valer a gente vem forjado na violência, no palavrão, no papo reto, e na ação visceral. Quem tem fome precisa ser visceral pra sobreviver, mas também é solidário. A gente aprende a lidar com os signos de forma diferente, a lidar com o senso de justiça de forma diferente, pq a vida violenta a gente.

A vida violenta quando todos parecem amigos, mas uma mudança simples no recorte de classe deixa claro quem está num ciclo abaixo da pobreza, violenta quando as coisas e lugares que frequentamos são preteridos ou esquecidos na história. É violento quando alguém tem medo do seu lugar, da sua rua, do seu lote. É assim que a gente é criado, isso traz signos pra gente lidar com a vida.

O projeto de poder dos que conseguem gerir o sistema (mega empresas, governos, ricos, investidores, etc) envolve a manutenção de um modelo inspirado em uma certa classe média modelo. Não há um traço político concreto que seja realmente popular e massificado, capaz de interpretar os signos e criar uma política de estado em torno deles. O trabalho feito é capturar tudo que pode, gerenciar as vozes e interlocutores dissonantes por meio de inúmeros sistemas de controle social (como a lei da vadiagem por exemplo).

É assim que por exemplo, não há nenhum projeto significativo de planejamento de recomposição da cidade formal que gere pólos de interesse pra classe média reocupar os subúrbios cariocas. Ao mesmo tempo, há interesse do poder imobiliário (entre outros) em movimentar parte de sua economia nestes territórios hoje bastante esvaziados reconfigurando-o como espaços do modelo padrão de consumo da classe média (a forma condominial apelidado de barra da tijucanização por exemplo).

Por outro viés, parte dos modos de fazer e cultura que tanto manteve o povo vivo em tempos de escassez e do esquecimento político é traduzido e adequado para ser digerido e palatável a parte da classe média que tensiona ou entende o peso da desigualdade. Porém tudo é escolha, exemplos: ao invés de por pra frente uma política de revitalização dos centros de bairro a partir de seus cinemas de rua, a política de cinema de rua escolhe um cinema de um bairro específico, revitaliza e considera este um pelo todo. Assim que tudo é feito, escolhem-se alguns bairros e trazem alguns melhoramentos estruturais coletivos nestes e fazem o um ser a representação do todo.

Não é simples trabalhar com o sentido dos Subúrbios no seu espectro mais complexo sem lermos sob a ótica de suas reais narrativas que são duras. A beleza dos subúrbios está nesse olhar total que passa inclusive pelo que nos parece assustador e gostaríamos de esconder, assim como o Clóvis que pode esconder por trás de sua máscara o mais engraçado ou o mais temido dos seus vizinhos.

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Já não basta sermos Latinos, já não nos bastam as identidades

É muito curioso pensar como as palavras tem um certo poder. Em nome de uma resistência ao imperialismo antiamericano, buscamos por muito tempo a construção de uma identidade latina. Esta identidade, que como qualquer outra se forja pela aglutinação e trabalho sobre alguns elementos comuns, resplandeceu na tentativa de consolidar uma força continental capaz de enfrentar o domínio dos EUA (país economicamente mais poderoso).

De certo porém, este postulado cria problemas e limitações. Entre elas, um problema notável é que a busca de uma identidade latina como resistência a uma identidade anglo-saxônica acaba por repetir a dicotomia do processo de expansão imperialista que vigorava desde as grandes navegações do mercantilismo até o processo industrial (dos primórdios ao mundo contemporâneo). Isto é, em nome de uma liberdade dos povos, acabamos por traçar uma disputa territorial ainda construída sobre signos de uma relação império-colônia, mantendo firmes todas as suas contradições.

Somos capazes hoje de determinar quantos povos compõem todas as relações sociais, econômicas e culturais do novo continente? Esta é uma pergunta importante de refletir. Há similaridades nos processos de apagamento histórico dos diversos povos que habitavam as terras antes das explorações, assim como dos povos que foram forçados a estar nestas terras como mão de obra escravizada, histórias que resistiram em meandros e relações moleculares, dentro das redes possíveis de serem traçadas. Redes estas que inclusive precisam considerar a construção hegemônica na sua formação cultural.

Com base nisto, entendo que meras disputas de resistência ou recortes que buscam negar o traço hegemônico como parte da concepção de visão de mundo, se tornarão tão enviesadas quanto aquelas que não tentam compreender as construções que estão nos interstícios ou subterrâneos das formações de saberes. De certa forma, uma leitura do Imperialismo que se mantém hoje, sem a leitura crítica das mudanças materiais do mundo, também reflete muito mais uma tentativa de manter uma identidade do que foi concebido com resistência progressista do que uma realidade a se enfrentar. Não precisamos mais entender o que é o Imperialismo, apenas seguir repetindo os mantras estabelecidos em décadas para aglutinar os nossos em torno da resistência.

Debater por exemplo, se o Halloween ser comemorado no Brasil é lícito ou se isso representa uma forma de aculturação e colonização, é deixar de lado que tal festa já é expressada de forma sincrética no México por exemplo e em outros inúmeros países do globo. Sem considerar que são parte de uma mesma visão de mundo que nos leva a celebrar o dia 2 de novembro como data de relembrar os nossos ancestrais. O que nos é mais interessante? Simplesmente negar a festividade ou buscarmos um aprofundamento da experiência, da história e da formação da mesma?

Outra referência interessante pra reflexão. Enquanto líderes globais discutem mais uma vez a urgência da crise climática, tentando encontrar caminhos quase impossíveis de saída, vale lembrarmos da experiência de Evo Morales com a Lei da Terra, que possibilita uma nova proposta de visão de mundo. A mesma só é possível de ser concebida se lermos dentro de uma costura capaz de interpretar o melhor dos encontros entre a origem indígena de Evo, um filho dos povos originários deste território continental, com a cultura latino-europeia que desenha o contrato social constitucional de nossos países.

Nós, enquanto humanidade, temos no história de nossa existência o desejo de conexão com a terra. Conexão esta que num dado momento abandonamos e cuja cultura do homem como um ente separado da terra vingou. Esta cultura precisa ser religada em todas as esferas possíveis. Pensar o Planeta como um ente completo, do qual somos parte, e projetar uma rede de partilha vai exigir muitas viradas de chave. A dificuldade maior será: como conciliar isso em um mundo onde a Terra é propriedade privada e peça fundamental para a manutenção do sistema de produção de riquezas? Vale lembrar que estas mesmas perguntas já foram feitas durante a pressão pela ruptura dos modelos escravagistas, onde homens, eram vistos exatamente assim: como propriedades privadas (objetos) e peça fundamental para a manutenção do sistema de produção de riquezas.

Neste mundo global, onde cada vez mais as discrepâncias entre as concentrações de renda e a miséria dos povos se dá. Os modelos de governo se encontram limitados e ineficazes diante das formas de organização supra territoriais, precisaremos construir e recuperar ferramentas que explodam estas relações, compreendendo que uma política isolada não resolverá. O atual contexto da crise global inclusive nos pede uma virada de chave mais radical (indo a raiz dos problemas) e de coragem de mudança do sistema em que estamos inseridos. A busca por uma identidade comum nos falha por também representar uma fronteira que enviesa as relações de exploração.

Com base nisso, sabemos que não é fácil uma mudança de paradigma. Ainda hoje vemos que não é tão simples a abolição completa do racismo e da escravidão na sociedade. Da mesma forma, assim como os mais pobres ainda são lidos como seres passíveis de todo tipo de exploração, não será simples a humanidade abolir o sentido de que o Planeta é só um objeto passível de exploração e aceitá-la como um organismo vivo completo do qual fazemos parte. Podemos e devemos iniciar religando esta ética que se mantém nos povos mais originários e mais tradicionais do planeta, independente dos continentes que habitam. Em nossa visão de mundo paradigmaticamente ocidental, economia e ecologia tem um mesmo radical, óikos, nossa casa que também é nosso Planeta. Hoje, objetificamos a Terra, exploramos seus recursos e sequer somos capazes de utilizar isso para fins de manter viva a nossa espécie. Explora-se tudo que a mão alcança, para benefício de meia dúzia. Basta ver como países que movem parte significativa da economia pelo agronegócio são também bolsões de populações que passam pela fome.

Precisamos recuperar o olhar integral da humanidade pela Planeta. Isso não será simples ou harmônico, pois mexe diretamente com quem garante suas riquezas, poderes e seu bem-estar às custas da exploração de todos (sejam animais, vegetais ou minerais) os entes que formam este ser, mas precisaremos enfrentar. Precisamos aprender a retomar as conexões mais profundas dos que celebram suas colheitas, ou o equilíbrio, a ancestralidade e as mais diversas formas de contemplação da vida. Talvez um dos nossos erros hoje, é acreditarmos que esta saída será tranquila, pacífica, por ações individuais, não será, vai exigir enfrentamento, como qualquer luta de libertação humanitária sempre exigiu. Precisamos abolir o planeta do processo de escravidão em que ele foi colocado.

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Casas de vó e um design do cotidiano

O campo da arquitetura de interiores e design de interiores possui uma dinâmica acentuada no que diz respeito a tendências, modas, novidades tecnológicas entre outros. Em geral, seus postulados acabam por definir o que é elegante e o que está cafona, o que é belo e o que é feio em um determinado recorte de tempo e espaço. O que chega para as massas consumidoras, vindo de revistas e magazines especializados, blogs, propagandas e até programas de TV cujo eixo central é a reforma de uma casa ou compartimento, reflete este universo sob o qual gira o campo de trabalho de reforma de interiores, e por sua vez alimenta a rede social de desejos.

Quem não quer ter a casa bonita e aconchegante? Precisamos porém, lembrar que, a beleza tem história, e seus signos são construídos no tempo. Para tanto, é necessário desconstruirmos o sentido de beleza condicionada ao exclusivo, a itens de difícil acesso que por sua vez, acabam sendo um instrumento de poder.

Um exemplo: As tão desejadas casinhas brancas de Mykonos tem sua estética determinada pela mesma técnica de pintura que hoje em dia marca uma enormidade de casas mais populares do Brasil, a caiação. Aquele mesmo azul e branco que remete uma memória de rua de avó, de vizinho pintando calçada ou tronco de árvore (não faça isso).

Quintal de vó – por: Rafael Jardim – link: https://flic.kr/p/BNUfU

Aconchego é um termo que se associa a acolhimento, a afeto. É possível termos cantos de afeto e ao mesmo tempo belos? Entendo que sim, se formos capazes de desnaturalizar a noção de belo relacionado a elementos externos ao afeto, ao acolhimento. É por este prisma que gostaria de apresentar as casas suburbanas como uma possibilidade real de beleza, a beleza de uma decoração construída historicamente pelas condições de possibilidades e pelos afetos inseridos no habitar.

Entre as inúmeras coisas que casas de subúrbios e populares nos ensinam, uma delas é que cada peça de decoração pode ser escolhida e concebida por fatores dos mais distintos que vão desde a utilidade até o humor. Dos populares filtros de barro, hoje considerado um dos mais eficientes e ecológicos filtros, até as fotos de família na estante ou parede, cada detalhe reflete um pouco de história ou causo da vida dos que habitam aquele lugar. A harmonia da casa está na organicidade da relação objeto, espaço e tempo, muito mais do que no arranjo de formas, paletas de cores, estilos, materiais.

Você pode ter um aparador mais modernoso comprado em uma loja especializada em móveis com design, e por em cima as fotos de formatura do filho em uma moldura adquirida na Praça 2. Talvez isso não pareça caber nos cânones de quem escreve o “bom design de interiores” mas isso cabe na história de sua família que teve naquele filho o primeiro membro de gerações a ter um curso superior. Filho este cuja avó poderia ter sido uma escravizada que seguiu sobrevivendo semianalfabeta. A foto é uma conquista e o aparador uma mesa expositiva. Não tem quadro de milhões do Romero Britto ou Mondrian que faria mais sentido apoiado naquele aparador do que aquela foto.

Da mesma forma, esta possibilidade não cabe numa estética pastiche ou forçada. O item aparece lá sem imposição regrada, pois a regra não é o item, mas a capacidade deste acolher, simbolizar, representar um valor que seja para os que ali estão. Um pé de amendoeira que cresceu contigo, um pedaço de memória solidificado num ferro velho, uma ferramenta que pertenceu ao seu avô, ainda que hoje já não pareça ser eficiente, a mesa comprada a duras custas naquela loja de móveis do bairro que praticamente nem existe mais. Tem história no quadro decorativo de autoria anônima vendida na loja de conveniências, uma história que não saberemos de uma ou algumas mãos que produziram a peça, talvez em linha industrial, talvez manufaturada, tem a história de trabalhadores comuns que vivem seu cotidiano e que nunca saberão que sua costura ou sua pintura estarão expostos em uma parede em Olaria.

Outra questão importante de posicionarmos é o humor. Por que não falar de peças de decoração que se propõem interessantes pelo lúdico e diversão? uma luminária feita com algum pedaço inusitado de automóvel, abridor em forma de pênis ou cadeira que servirá para fazer uma pegadinha com algum parente no dia do churrasco. Itens que se enquadram nesta busca parecem um conjunto de inutilidades. Estes itens por sua vez buscam uma relação de sociabilidade própria, com base na diversão, no fazer graça com o próximo, muitos destes itens tem vida efêmera, outros permanecerão sempre a postos para gerar o riso de uma visita de primeira viagem.

As casas tem destas coisas, um misto de casa com oficina, onde a mesa de estudos da criança é uma mesa velha de botequim que fica armada na varanda e que seus avós bebem a tarde contando causos à sombra da mangueira. Onde o pote de sorvete ou a lata de tinta servem como apoio para o labor do plantio das mudas que logo virarão belas árvores no quintal, onde pelo menos um dos quartos quase nunca fica arrumado e nada parece combinar com nada, mas no dia a dia tudo parece ter um sentido.

Assim como há uma espacialidade e arquitetura do cotidiano, podemos dizer que há um design do cotidiano já consolidado cujos elementos merecem e devem ser valorizados. Saber observar os itens, enxergar seu sentido histórico para aquele ambiente, e saber compor com ele muitas das vezes nos permitirá criar resultados tão belos quanto quaisquer desenhos de interiores produzidos usando peças de marcas tradicionais do ramo.

Casas de vó são casas repletas de afetos e reminiscências que habitam num cantinho especial em nossa mente, muitas das lembranças sequer refletem o que era a casa real, e muito do que amamos em nossas lembranças podem representar a peça mais efêmera que existia. Peças que talvez, no desejo de nossas avós, elas sonhavam em trocar todo dia por uma da moda mas não conseguiam porque não tinham dinheiro.

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Entre o 7 de setembro e o 2 de outubro – este título não te atrai, não dá IBOPE e não da like

No dia 02 e outubro último fechou-se o ciclo de atos pós sete de setembro. Desta vez puxado por forças, movimentos e partidos organizados da esquerda. Apesar de terem sido atos com expressão (não maiores que o ciclo de atos pré dia 07 de setembro), não escaparam dos ciclos organizados da militância. Pelo lado do governo atual, uma continuidade do Bolsonarismo foi fomentar suas redes ampliadas de telegram. Após fechamento deste ciclo, seguimos na incógnita. Aparentemente, todas as forças militantes (pró e anti-governo) não tem conseguido mobilizar mais gente que suas bases de afinidade.

Em um dos grupos, com aproximadamente mais de 900mil seguidores, o governo segue sua técnica de comunicação com suas bases, a respeito das ações que tem implementado. Chamadas como: Veto a aquisição de bens de consumo de luxo por parte da administração pública, e reformas de aeroportos e outros sistemas de infraestrutura são alguns dos exemplos de informações divulgados.

A vida cotidiana por sua vez, começa a voltar ao normal por meio de decreto. No Rio, o carnaval já ativa boa parte da sociedade que se mobiliza em torno dele, bairros de subúrbios seguem a vida como se a pandemia não existisse, cuidados sanitários são só um crachá protocolar, muitas das vezes tratado como teatro. Os tempos atípicos que a pandemia abriu estão em refluxo. A massa do povo, que não atua politicamente de forma militante, parece ter ficado anestesiada diante de tudo, ou simplesmente não está nem aí.

As militâncias mostram suas forças, suas lideranças demonstram a capacidade de agitação de suas bases, mas nada disso transborda para aqueles que neste momento estão passando fome e que estão contando moeda pra comprar itens básicos de sobrevivência, o que impera no povo é a descrença. E a partir da descrença, o foco do povo passa a ser em cuidar de si e dos seus, viver e sobreviver no dia a dia, da maneira que dá.

Assim, a vida vai voltando a uma certa normalidade forçada, um grau aceitável de ação da doença, com cidades abrindo e retomando suas festividades e seus movimentos de aglomeração. A crise econômica exorbitante aumenta o senso de desanimo e apatia social, onde as pequenas alegrias para os cidadãos encontram-se nos momentos de lazer, mesmo que estes envolvam riscos sanitários.

2022 poderá seguir nesta incógnita e sem solução. Não conseguimos promover até o momento um projeto de Brasil real para esta pós pandemia, capaz de aglutinar as massas populares, não temos resposta ainda em escala nacional para tal crise. O projeto Bolsonarista está dado e em franca expansão, mesmo que o excesso de sectarismo o enfraqueça: segue movimentando a economia em torno de uma pequena elite e deixando o povo entregue a miséria e a fome, mas amplia os canais de seguidores.

As notícias sobre offshores, ou os movimentos de interesse dos grandes senhores do agronegócio, construtoras, bancos, empresas aéreas e afins evidenciam que nem todos estão afundando. O que o Brasil vive é o aprofundamento da crise para geração de lucros em uma hiperconcentração dos privilégios e da renda.

A dificuldade de implementar tal caminho de construção está justamente na necessidade marqueteira de ganhar as redes. Por este desespero, foca-se na fofoca, no efêmero, no barraco, pois são os melhores caminhos para angariar mais likes, views e compartilhamentos.

Em meio a isso, as forças de oposição e alternativa eleitoral ao bolsonarismo insistem em campanhas estéreis de propostas e repletas de bobagens. Disputas de tamanho de pênis (enquanto o povo come osso, quando tem o que comer), misoginias, palavrões, santificações, trocas de ofensas e ataques gratuitos, campanhas nas redes sociais que buscam o engajamento pelo sensacionalismo barato que as mobiliza no melhor estilo barracos de BBB, enquanto caminham na busca incessante pelos acordos e conciliação com os mesmos velhos poderes que nunca saíram de cena.

Precisamos de proposta real de fomento aos inúmeros setores produtivos em suas múltiplas escalas, precisamos de um caminho que não deixe nossos produtos básicos de consumo e necessários a vida, se tornarem refém do espírito das bolsas de valores. Ficamos a mercê do estrago que a má gestão da crise sanitária nos colocou e seguimos em um país com índices altos de corrupção, privilégios para poucos e mandos e desmandos por parte de alguns. Além de uma estrutura cujos sistemas são altamente alienados dos problemas cotidianos do povo.

As possibilidades de saída, a meu ver, passarão por um viés distinto destas disputas de poder que são concentradas em exposição de personagens e no caminho eleitoral. Todas as candidaturas ainda estão frágeis neste processo de 2022, provavelmente nenhuma delas responderá bem às massas. As bases mais conservadoras seguirão a fluidez do percurso e se forem incapazes de construir uma candidatura a direita para além do Bolsonaro, abraçarão o elemento ou permanecerão lavando as mãos.

Resumindo: Ao focar as investidas primordialmente no pleito eleitoral de 2022, quaisquer forças minimamente progressistas estão reduzindo a própria potência de suas construções políticas e correndo o grande risco de uma derrocada do bloco anti-bolsonarista, mesmo diante de um bolsonarismo que também se esforça para perder. E o Futuro? Um 2023 em diante fraco (vença quem vencer). Qualquer um que governar com as alianças do poder constituído se verá diante de poucas saídas políticas, sofrerá uma forte pressão de domínio por parte da direita que ainda rege a agenda de controle deste país e praticamente nenhuma ação de conciliação de classes. Quaisquer dos nomes eleitos tenderão a compactuar com o aprofundamento da agenda de austeridade para garantir o mínimo de governabilidade e a turbulência desta direita que também não consegue mais emplacar um candidatável e irá tolerar um dos personagens.

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12 de outubro – Nossa Senhora da Conceição Aparecida, uma reflexão sobre o espaço.

O Brasil profundo se encontra e se reconhece em Aparecida. Na basílica onde multidões buscam um milagre, um sinal, uma recompensa ou uma simples esperança do cotidiano. Hoje também é dia do Cristo Redentor (o filho) e arquitetura/escultura símbolo da cidade do Rio. Dia 12 de outubro o país conecta sua religiosidade, sua espacialidade, seus territórios e seu cotidiano.

É comum gastarmos esforços e discussões sobre a produção do espaço pelos mais diversos parâmetros econômicos e materiais. Estudamos a viabilidade, mobilidade, eficiência, capacidade de produção e de investimentos. Pode ser, mas o habitar é uma teia complexa, que passa pelo material mas não só por ele.

As múltiplas Nossas Senhoras que existem no mundo, são referência a uma mesma santidade católica, Maria mãe de Jesus, cujos nomes diversos expressam um momento ou um lugar especial. De certa forma, Maria, que para o catolicismo tem o papel intercessor entre o Cristo e a humanidade, também constrói socialmente esta imbricada relação de pertencimento social do ser humano com o lugar. O espaço ganha importância e sentido a medida em que nele se firma a aparição, seguido do primeiro milagre, do burburinho social e da peregrinação capaz de transformar o espaço ermo em lugar de encontro.

Este é um indicie importante para pensarmos nossa capacidade de ocupação dos espaços: onde estão nossas conexões de importância com ele? Seja Nossa Senhora Aparecida conectando o Brasil ao Paraíba do Sul, seja o Cristo Filho e Redentor conectando a Mata Atlântica com a vida cosmopolita de uma cidade metrópole. O viés da ocupação que acontece pelo cotidiano das experiências populares podem trazer respostas para a desconexão que há entre a maneira como pensamos as cidades e o resultado final de seu uso e ocupação pelas pessoas.

Claro que podemos fazer a leitura a partir dos eixos de poder e controle, da interesse da igreja católica (enquanto instituição), mas isso não seria possível de acontecer sem o movimento capilar do povo. Por conta de nossa capacidade de construir significação para além do que os olhos veem, produzimos redes que nos permitem imaginar, sentir, produzir arte e criar os laços da vida humana. Tanto o evento miraculoso de Aparecida que funda uma cidade, quanto o Cristo Redentor que do alto do monte nos observa, ambos apontam para os desejos humanos de construir e relacionar suas vidas com o simbólico e afetivo.

Maria em suas múltiplas representações se conecta a Pachamama e dialoga com Onilé nesta busca humana pelo signo da fertilidade na Terra Mãe e Morada de todos nós. Nesta linha que o urbanismo, enquanto ciência surgida entre o século XIX e XX encontra sua limitação por separarmos a terra de nós mesmos e de nossos sagrado, e implementa caminhos piores ao torná-la um produto mesurável financeiramente. A história humana é um desenlace milenar de experimentos e de comunicação do ser entre os seus e do ser com a Terra. São múltiplas as linguagens que um dia se estabeleceram, se modificaram ou se esvaíram, algumas completamente, outras deixando rastros e vestígios.

Quando um rio morre para melhorar a eficiência de uma mineradora, uma parte de nós morre com ele, atualmente aceitamos isso em nome desta visão que busca o progresso constantemente, mas não teríamos a mesma ação se considerarmos a importância divina deste rio como parte de um todo que nos constitui. Compreender a ocupação dos espaços e a espacialização dos territórios por um viés distinto do que nos é hegemônico hoje nos ajudará a constituir outras histórias para a formação de nossas cidades, muitas das quais estão no subterrâneo dos saberes a espera da investigação que as traga.

Quantas estradas, caminhos, vielas não foram abertos pelas cavalgadas dos peregrinos? Quantas histórias não ficaram por estes caminhos? Ruas, vilas e cidadezinhas que testemunham pedaços de vida de inúmeros anônimos cujos causos vão sendo lembrados por onde passam. Estas pequenas doses de fé costuram uma teia popular que conecta Aparecida, aos oratórios esculpidos por antigos artesãos, aos santeiros, aos pequenos alteres improvisados que garantem a proteção dos botequins, são muitos os espaços e dinâmicas que aprendemos com o povo.

Que neste dia 12 pensemos nossas formas de conceber, produzir e viver o espaço por outro prisma. Onde o olhar da criança que corre pela rua, ou olhar do adulto que peregrina e deposita sua fé, tragam indícios dos rumos a se tomar. Ao buscar esta gramática dos saberes e modos de vida do povo, vamos nos tornar mais capazes de constituir espaços onde o pertencimento e a possibilidade de construção das relações mais profundas que concebem o bem viver social apareçam. Convém a nós, compreender a gramática com a qual o povo escreve parte de sua história em um determinado tempo e espaço, para então construir nossas narrativas a partir desta comunicação. Quem sabe assim, consigamos sair do ciclo destrutivo no qual o planeta se encontra, não há resposta simples quando estamos diante da necessidade de reformulação de paradigma, mas devemos tentar buscar caminhos.

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