artigo, pensamento, Sem categoria

Precisamos amar e ser temidos!

A disputa pelo simbólico não vai construir sozinha a saída da crise nacional.

Ontem caminhando na rua tive o prazer de conhecer uma música gospel cuja letra dizia:

“Não toque nos profetas do senhor
E nem fale mal do seu ministério
Pois quem toca nos ungidos do senhor
Pode acabar no cemitério”

Por um lado, as forças à esquerda se encastelaram e se auto fagocitar nos mesmos espaços de militância que quase não tem representação e vivem sendo disputadas a ferro e fogo por burocratas. Por outro, as forças mais conservadoras avançaram bruscamente por anos e anos em estruturas capilares de comunicação e contato popular (rádios, TVs, jornais, centros cívicos e de sociabilidade, etc).

Na disputa simbólica nacional, a hegemonia sempre esteve com os lados mais conservadores. A visão que o povo tem de comunismo por exemplo foi bem definida nas escolas militares da ditadura e disseminada pelos mais diversos meios de comunicação de massa. Esta mesma visão muitas vezes pauta inclusive os movimentos de esquerda (liberais e comunistas) que assumem para si um conjunto de signos identitários comunistas estereotipados pelas forças conservadoras, e assumem de forma acrítica quaisquer narrativas.

As forças mais conservadoras avançaram bruscamente por anos e anos em estruturas capilares de comunicação e contato popular (rádios, TVs, jornais, centros cívicos e de sociabilidade etc.). Por um lado, as forças à esquerda se encastelaram e se auto fagocitam nos mesmos espaços de militância que quase não tem mais representação embora vivam sendo disputadas a ferro e fogo por burocratas.

Lembremos, o Brasil é um país sem um projeto nacional de educação de base e que nunca construiu uma lógica de pensamento livre e crítico a partir das massas populares. Somos um dos países da América Latina que menos lê e que menos entende de sua própria história.

Armas no Brasil não estão conectadas a um desejo de direito civil como nos EUA, a guerras internacionais ou a morte, elas se conectam com o senso comum pelo sentido de proteção e defesa individual e familiar. Seja a proteção que se crê pela institucionalidade das forças militares, seja no sentido de defesa pessoal ou até mesmo conquista de status e poder. O militarismo (em todas as suas vertentes, inclusive a paramilitar) é uma das principais portas de seguridade social e ascensão dos mais pobres.

Por estas brechas, o conservadorismo construiu sua narrativa em meio a degradação de todos os sistemas públicos existentes. Hospitais não funcionam, educação precarizada, previdência social derretida, mas o militarismo segue firme e forte. Nossa base material frágil garante aos grupamentos armados este tipo de poder.  É preciso uma compreensão extra! As discussões antiviolência não funcionam tão bem no Brasil contemporâneo, por ser um país onde parte gigante do seu povo relativiza a violência. Esta já nos é familiar.

A eleição do Bolsonaro foi um banho de água fria em quem acreditava que o povo poderia escolher livros ao invés de armas. Como fazer tal escolha em um país onde o prazer da leitura é escasso e vemos fuzis em cada esquina? Por mais que pareça insano, percebemos que boa parte dos brasileiros não se importa com o aumento do armamentismo. Precisamos entender que tal discurso é dizer que devemos escolher entre aquilo que a maioria nunca teve um acesso decente com algo que lhes é tão familiar que já não temem.

O Deus cristão é também o Deus da espada, que levará ao cemitério quem tocar no ungido dele. Esta narrativa ganha espaço no povo que vive a materialidade de um país onde a violência se tornou naturalizada no dia a dia. Não será fugindo da realidade que vamos fazer renascer o Brasil, precisamos sim elevar nossa discussão de projeto de nação para além disso. Vocês têm armas? Ok, nós não teremos medo de encarar vocês de peito aberto e na mão! Vamos com a cara e a coragem reconstruir tudo que der para reconstruir do chão deste povo.

Ano a ano a esquerda taxou tudo e todos que eram sua oposição como fascistas, ao mesmo tempo em que governava lado a lado com o ovo da serpente (Crivelas e IURDs, Pastor Everaldo, os muitos acordos e composições com a escória política nas cidades de interior). Fazemos campanha estereotipada de fascismo neste país onde sequer estudamos a fundo o que foi o momento histórico e o levante das forças fascio. Soma-se a isso o fato de que o Brasil é um país onde os micros fascismos habitam emaranhados na sociedade.

Se ilude quem acredita que as eleições vão resolver o país, que simplesmente recuperar o controle do governo vai resolver. Se ilude também quem crê que o maniqueísmo sobre o armamentismo vai angariar votos. Esta eleição está fadada ao risco da incredulidade, perdeu-se o bonde da história quando a indignação popular que começava a crescer nas ruas diante do desarranjo na lida com a pandemia foi silenciado em nome de um: Tiraremos Bolsonaro nas urnas. Agora as urnas chegaram e as ruas estão vazias. Vivemos o volume morto da despolitização e da confusão entre fazer marketing e fazer política.

Entendam de uma vez: o grosso do povo brasileiro não gosta de políticos frágeis, o povo espera alguém que tenha peito e coragem de enfrentar. Este marketing o Bolsonaro faz, por mais que ele seja um covarde e um incapaz de gerir qualquer coisa (como bem se mostrou seu mandato) se vende como o ex-militar capacitado de acabar com a corrupção do centrão. Porém sua demagogia caiu por terra, a corrupção está aí e nada foi construído neste país além dela.

Aqui cabe aquele chavão máximo de Maquiavel: ser amado ou ser temido? E a resposta que acredito para tal: Sejamos amados por quem tiver a fim de nos amar, estes que venham conosco, mas acima de tudo sejamos temidos pelo bolsonarismo!

O bolsonarismo e o conservadorismo tolera em parte os indivíduos que compõem as minorias, mas temem a capacidade destas se organizarem. Não importa se gostamos ou não do Lula, do PT, do PSDB, de quem quer que seja, o que nos importa é: Ninguém mais vai poder se sentir corajoso de meter o bico do fuzil apontado para quaisquer de nós que sejam, porque a organização a partir de agora tem que ser temida. O medo que a classe média começa a sentir nesta eleição já é vivido por qualquer um que milita e faz campanha nos subúrbios, baixadas, periferias deste país a muito tempo.

A discussão não é mais a identidade, a representação ou o levante do protagonismo por dentro do sistema. A pauta principal é resolver as arestas materiais que trazem mais sofrimento, dificuldade de emprego e renda, dificuldade de se manter estudando, discrepâncias salariais, entre outros.

O povo tem fome, não tem mais tempo de ter medo, então fica o recado aos que militam, mas nunca passaram fome: não tenhamos medo! Nada gera mais pânico ao bolsonarismo (em todas as suas faces) do que um povo que encara esta escória miliciana. O bolsonarismo já está pronto para ir as ruas questionar as urnas, e as massas de esquerda farão o que? Seguirão encasteladas em seus aparelhos na esperança e fiança de um judiciário que só tem legitimidade para meia dúzia da classe média e da elite?

O que o Brasil precisa mesmo é aposentar estes modelos de disputa e se debruçar na construção social do seu projeto de país inserido no mundo. Precisamos redesenhar o nosso campo produtivo, fomentar um projeto factível de reestruturação da infraestrutura material: indústrias, logísticas, manejo ambiental, habitação de massa repensada pelo direito a morar e não pela financeirização, criar mecanismos de combate à fome e miséria e remontar a educação de base para que me 12 anos tenhamos uma nova geração forte e capaz de produzir uma sociedade muito melhor.

Segue sendo nossa maior vergonha termos um sistema educacional onde: aos mais pobres é destinado a degradação do sistema de educação pública, a classe média em geral seguirá as escolas privadas de ensino também frágil, mas com lógica de clube e festa para se manterem atraentes para os estudantes e meia dúzia de escolas de ponta onde serão formados os filhos da elite desta nação. Tentamos debater democracia sem sequer sairmos completamente da visão de mundo aristocrática. Uma educação emancipadora e revolucionária seria aquela capaz de dar ao povo as ferramentas de construção e sistematização de saberes científicos e de gerar crítica concreta.

Este Brasil só é possível de construir a partir da ampla organização popular, algo que perdure para além das disputas dadas. Muitos ungidos do Senhor estão neste momento passando fome e sofrendo das mesmas violências cotidianas que os LGBTQ+ ou os povos originários, enquanto o Bolsonaro e seus asseclas comem picanha a R$1799,00 mil e setecentos e noventa e nove reais o quilo, nada diferente do que Cabral estava consumindo na cadeia.

Não nos iludamos! Não há saída possível sem passarmos pela retomada das ruas, independente do que as ruas construam, e por um trabalho árduo que caminhe para além dos processos eleitorais, isso é o que impõe o medo e o respeito diante dos poderes dados. O povo em sua incógnita de descrença que segue tentando encontrar os caminhos para a melhora material de suas vidas não é mais um alienado ou um agente passivo ao que está dado.

Standard
Arquitetura e Urbanismo, artigo, política

Condominialização da vida

Uma das grandes contradições das relações entre espaço e sociedade se dá na busca do condomínio fechado. Nós urbanistas estudamos e entendemos os riscos e problemas que este modelo traz nas cidades, porém sempre fica a questão: Por que estes modelos seguem vingando?

Neste momento vamos pensar sobre alguns pontos: segurança, igualdade e qualidade de vida.

O que a maioria dos condomínios vende é uma vida com lazer “urbano” controlado, destinado a um determinado grupamento de moradores selecionados pela capacidade de compra destes imóveis. A vida vendida nas propagandas garante isso, a segurança e conforto é produto da capacidade de gestão de iguais sob um mesmo território murado. A vida fora dos muros é o risco, o medo do outro, do diferente, do imigrante.

O que o condomínio fechado nos mostra com isso é que a relação de qualidade de vida que nos sistemas do capital neoliberal é destinada a alguns poucos têm preço. Para seguirmos em frente vamos observar um pouco o que o modelo neoliberal nos traz:

O modelo se sustenta por um pequeno grupo de mega ricos cuja flexibilidade e poder econômico os permite escapar das muitas relações nacionais de controle social e econômico, temos um grupamento razoável de trabalhadores que se inserem numa lógica de classe média: a quem é destinada a alegria a partir de pequenos consumos, e a quem incide boa parte das tributações que pagam o estado. Por fim, temos uma massa de pobres, cujo poder de consumo é mínimo ou zero, cujo controle se dá pela manutenção do mínimo do mínimo para a sobrevivência destes. Resumindo, o sistema constrói um Estado realmente desigual e incapaz de resolver seus problemas.

É jogado a sociedade a resolução dos problemas por si mesmo, cada um que se resolva. O sistema se torna capaz de flexibilizar suas soluções justamente porque ele aliena a lógica de oferta e demanda devem caminhar juntas na solução de problemas vitais. Não precisamos construir habitação para toda a população, vamos construir X habitações e cada pessoa com seu recurso que tente adquirir sua moradia.  

Quaisquer modelos de governança que visem políticas sociais, seja a social-democracia seja o próprio comunismo é logo traçado como ofensa ao direito individual do cidadão enfrentar por si só o seu caminho.

Agora voltando a contradição: o modelo de condominialização vinga porque ele promove exatamente alguns dos conceitos da justiça social ou do comunismo. Em um microcosmo ele produz espaços de qualidade de vida a um grupamento de cidadãos com igualdade de renda, identidade, conceito de vida. Garante-se o controle de invasores ao ecossistema e por sua vez a segurança.

O que o condomínio nos ensina de interessante é que a segurança está muito relacionada com a capacidade de uma vida igualitária, esta é a busca daqueles que se encantam com a proposta da vida condominial.  Ironicamente um dos desejos de conforto humano se consolida naquilo que o pensamento da esquerda propõe, da Deleuziana até o mais ortodoxo dos modelos, a igualdade.

O condomínio se transforma nesta válvula de escape social, a busca de uma vida comum que de comunitária não tem nada. Se torna um espaço estéril, onde a igualdade entre os que coabitam é construída pelas ferramentas de controle dos grandes investidores (que modelam o negócio).

Assim, o condomínio e a condominialização da vida tentam trazer uma falsa solução aos problemas que ninguém parece ter interesse de resolver, como por exemplo, recuperar as relações de vida comum e vida pública da sociedade garantindo o direito de igualdade de tratamento a todos os cidadãos.

Standard
artigo, Sem categoria

O BROP entre o comunitarismo e a especulação

Na noite da última segunda feira, no auditório da UNISUAM em Bonsucesso ocorreu uma Audiência Pública Territorial da Comissão Especial do Plano Diretor. Como eixo principal destacou-se o que estava sendo pensado para a Zona da Leopoldina, mais especificamente a região que abarca de Manguinhos até a Penha.

O triste destaque se deve a uma apresentação extremamente focada em um tipo de modelagem de uso do solo para verticalização imobiliária disfarçada de adensamento. Entre os principais equívocos que foram apontados, destaco algumas questões fundamentais que nos são extremamente caras ao lugar e à qualidade de vida de todos os cidadãos, não foram sequer pinceladas pelo poder público, questões como mobilidade, áreas livres, arborização, entre outros.

É um erro absurdo acreditar que aumento de gabarito por si só significa reestruturar bairros. Ficou claro nas falas da população a saturação e reais problemas que esta, que reside, sofre. Chega a ser um pensamento antiurbano acreditar que se resolve a cidade apenas aumentando oferta construtiva. O gabarito legal permitido na região hoje já é alto e ainda assim nunca fora alcançado.

Para entendermos o motivo, precisamos assumir a cidade real: A região debatida sofreu um imenso esvaziamento por inúmeros processos mal resolvidos de planejamento, desde a escolha do território como território industrial num dado momento histórico até o processo de desindustrialização da cidade e o crescimento da especulação imobiliária para a Barra da Tijuca e Jacarepaguá, entre mil outros fatores, promoveu o esvaziamento local. Ao longo de décadas houveram discrepâncias absurdas de investimento público na cidade, vendeu-se por anos que os subúrbios, em especial a Zona Norte e Oeste AP3 e AP5, são lugares ruins para se morar. Ser cool no Rio, desde a década de 50 é morar na Zona Sul, curtir a cultura da Zona Sul, parar nos pólos gastronômicos da Zona Sul.

Nos últimos anos, além de obras extremamente equivocadas e de qualidade duvidosa, complementou a degradação destes espaços que perderam pólos de cultura e lazer, árvores, praças entre outros.

Temos de ter em mente que, o que atrai população, tensiona a demanda por moradia e por sua vez atrai o mercado imobiliário, é a garantia de um lugar infraestruturado e com interesse de lazer-cultura-educação-segurança. É uma anacronia a comparação da Zona da Leopoldina com a região da Zona Sul na qualidade de afirmar que: a verticalização que torna a Zona Sul agradável.

O interesse da sociedade em morar na Zona Sul foi construído a partir de suas belezas naturais, paisagísticas, valores de cultura e sociedade e de sua qualidade urbana e de um bombardeio de propaganda simbólica que vendeu a Zona Sul como o lugar certo de ser carioca. Esta por sua vez tensionou o Estado a infraestruturar a região, urbanizando-a, precisou deste conjunto de operações para que o processo de verticalização acontecesse, de maneira a atender a forte demanda por moradia na região. Mesmo em Copacabana, um dos bairros mais verticais e densos da cidade, só perdeu sua última casa baixa da orla no ano de 2013. É importante demarcar estas informações para a compreensão de que a verticalização só se completou na orla de Copacabanda a partir deste ano citado.

Pergunto eu:

O que levaria quaisquer pessoas a morar em um apartamento de 50m² de frente para a Avenida Brasil? O que levaria estas pessoas a não comprar seu imóvel em outro lugar da cidade, visto que os preços tenderiam a ser competitivos ou até mais atrativos?

Não digo com isso que devemos ficar presos num bucolismo de tempos pretéritos, mas é preciso compreender o básico do espaço real e vivido: sem qualidade urbana e paisagística, sem pertencimento, não se gera interesse e nem desejo de morar. E sem um interesse massivo, não se viabiliza moradia verticalizada com qualidade. Isso é tão basal que o próprio mercado imobiliário compreende como parte de suas estratégias. Assim, é totalmente falso qualquer afirmação de que basta construir um prédio que as pessoas irão naturalmente desejar morar.

Dito isto, não podemos tratar de um Plano Diretor da cidade que simplesmente deixe livre um mega potencial construtivo a beira da avenida brasil sem nenhum parâmetro de organização. Isso é dar uma carta branca a sociedade construir qualquer coisa de forma não planejada. Resumindo o plano nega o próprio objeto de planejar.

O que fica claro é: para gerar interesse do mercado imobiliário na Zona da Leopoldina, desmonta completamente quaisquer requisitos urbanísticos e cria instrumentos de tábula-rasa que favoreça o lucro a partir da quantidade (potencial de construir no terreno), Esta ferramenta pode ser utilizada como moeda de troca para que o mesmo mercado invista com mais qualidade nas áreas Centro-Sul e Barra da Tijuca. Fica claro mais uma vez que o alvo das discussões do Plano Diretor para a região da Leopoldina não é a população, mas a possibilidade de gerar algum interesse para os grandes investidores de terras.

Entre os elementos extremamente arriscados, segue no plano a possibilidade de remembramento de pequenos lotes (que representam a maior parte dos lotes desta região), para a construção de um grande lote. A princípio isso parece algo inocente, mas é muito perigoso em uma região onde a maioria dos lotes não possuem escritura definida corretamente, casas que possuem acréscimo, famílias que construíram no quintal ou no segundo andar da casa dos pais e não fizeram desmembramento. Estamos falando de um território cujos lotes próprios são vulneráveis também.

A materialidade destes projetos onde só o que pesa é imprimir potencial construtivo e liberar aumento de gabarito em vazios urbanos dos bairros gera projetos como já vimos por aí, cito ruas como os empreendimento da Rua Degas, ou o novo lançamento da CURY com entrada direto pela Linha Amarela, sem qualquer relação com entorno ou com impactos diversos do empreendimento no local. O poder público fala em construção de condomínios no mesmo lugar onde o povo claramente pediu saneamento, escolas, ônibus, creches, praças e parques. Precisamos discutir mobilidade decente, áreas de lazer, pontos de cultura, planejamento de arborização, espaços de educação, saúde e cultura. São estes elementos que podem fazer surgir o interesse popular por estes bairros. É sobre isso que o Plano Diretor deve se debruçar, ao invés de repetir erros de um Rio de Janeiro já cansado destes processos imobiliários.

A solução para o BROP ou para a própria Av. Brasil passa primeiramente pelo resgate das relações comunitárias vigentes locais, pela valorização das qualidades e signos importantes dos bairros e pela geração de interesse popular nos mesmos. Bonsucesso é interessante quando o clube de Bonsucesso se torna interessante, quando o mercado é barato, quando as praças estão aptas a vivência e sociabilidade, quando os bares estão com movimento a noite. A Penha será ótimo a medida em que os pólos de lazer tirem partido da paisagem da Igreja, ou o parque shangai seja patrimonializado pelo que representa para aquela região. Assim também é Ramos ou Olaria. Ninguém que mora na URCA seria louco de esconder o cara de cão, ninguém que mora na Zona Sul seria louco de transformar suas praias e calçadões num aterro sanitário, destronar a escultura de Drummond.

Ao construir e consolidar os projetos de estruturação dos bairros, garantir a revitalização deles, valorizar a cultura local, suas construções e associações de bairro e território, compreender as muitas nuances rua a rua, saberemos realmente como lidar com bairros. É preciso termos essa compreensão, estamos falando de Bairros, com história, memória, simbolismos mil e infraestrutura e não de terra a avulsa. Quem nesta cidade ainda fala de terra avulsa disfarçado de falar de cidade em geral é especulador formal, grileiro ou miliciano.

As grandes glebas abandonadas da Avenida Brasil precisariam, antes de receber um empreendimento de qualquer porte imobiliário, de investimentos urbanos e urbanísticos. Isso é um mínimo dos mínimos. Por que não pensar o Centro Expandido como se pensa os PEUs ou como se pensou o Reviver Centro? Por que a prefeitura precisa de uma tal Zona Franca Urbana que não diz exatamente a que veio?  Estas são questões que precisam ser respondidas com muita urgência, antes que nada sobre para se chamar de bairro nesta cidade do Rio de Janeiro.

Qualquer pessoa que vê o resultado da Transcarioca, do Porto Maravilha, das obras abandonadas do entorno do Maracanã, enxerga exatamente do que se trata o modus operandi desta prefeitura para a cidade. Esta é a cidade real que nos restou.

Standard
artigo, brasil, política

A graça não cobra nada

Em 2022, o ano em que celebramos os 30 anos da Eco 92 precisamos de mais avanços nas construções. A real é que, a pandemia que ainda nos assola colocou na cara do gol as limitações da organização do capital: a incapacidade de colocar a vida na centralidade das políticas.

Estima-se que a falta de políticas sérias por parte de diversos formuladores mundo a fora pode ter afetado os principais índices de levantamento. Atualmente já se pondera que o número total de vítimas mundo a fora seja três vezes maior do que o declarado, muito devido a subnotificação e falta de testes.

No Brasil, o Bolsonarismo representou a narrativa máxima da organização deste capital, declarações como “A economia não pode parar” não foi um eco solitário e estranho em meio a crise global, possivelmente tenha sido apenas a versão mais autêntica e radical do pensamento e modelo vigente. É preciso termos isso em mente: A economia do mundo como conhecemos não parou ou se reformulou. Ela seguiu os rumos e nadou na busca de manter firme as suas estratégias de acumulo de poder e capital.

Enquanto o Brasil passava a boiada quase sem enfrentamento popular, pois por uma escolha política da militância organizada o Bolsonarismo seria disputado nas urnas, países em conflito se mantinham reféns de suas guerras. Os sistemas de pesquisa de vacinas e fármacos alinhados aos modelos de pesquisa do capital, onde se disputam os direitos autorais e de copyright, mesmo tendo sido mais rápidos que outrora, se travavam em burocracias e disputas das mais diversas. Enquanto nosso povo morria o agronegócio (base estratégica da economia brasileira hoje devido a equivocada política) fazia fortunas em giro de dinheiro com artistas de sertanejo. Mesmo mobilizações globais em defesa da pandemia se tornavam ferramentas de captação de recursos para determinados grupos. O mercado de luxo seguiu faturando enquanto populações sofriam. A morte inclusive é um meio de se fazer dinheiro, se assim não fosse não teríamos tantas guerras. Ironicamente um Trump cai com seu utraconservadorismo ao mesmo tempo em que se orgulha de não ter iniciado novas guerras. Graças ao mundo que não parou mas fingiu parar, hoje tanto a economia quanto a vida definham.

Faltou ao mundo a coragem de parar a roda da fortuna, reorganizar o sentido da vida social e recomeçar. O resultado é que o projeto ruiu, não resistiu, primeiro, começou a cair o radicalismo da direita e agora seguem balançando quaisquer representações que tentem manter este modelo sem discutir com seriedade uma saída global a crise instituída.

Em meio a esta crise o povo segue em desespero diante da falta de perspectiva, nada mais assusta ou acalma. Sem projetos globais convincentes, sem rompermos com o modelo presente de exploração de pessoas, de vidas em geral e de recursos, não vamos avançar. Seguiremos cavando os torpes caminhos de nossa extinção em massa. Neste processo que inclusive expõe a própria injustiça global, visto que nem na extinção encontramos os caminhos de igualdade: os mais pobres seguirão sendo eliminados primeiro.

A desesperança e o atual niilismo se dá devido termos uma sociedade que busca ansiosamente uma saída disso tudo e não encontra. Muitos deram um voto de confiança a uma fuga pelo ultraconservadorismo e ainda estão perdidas ao perceber que este também é parte do mesmo stablishment que tanto criticam e nos faz mal. Construir um mundo novo ainda é possível, porém cada vez mais difícil pois ele não será traçado por dentro das estruturas que estão consolidadas, mas também não creio que sobrevivam apenas por fora destas estruturas.

Precisamos disputar a base do globo, construir novas ferramentas e formas de pensar coletivamente e criar as barreiras necessárias para não sermos sufocados. Essa é a encruzilhada atual, não será simples ou agradável passar por ela, pode significar um enfrentamento em que não vejamos a linha final, um corre em que estaremos solitários quase como loucos isolados escrevendo nas pilastras do viaduto sobre mensagens de amor.

Mas será no corre simples, nas conversas de rua, nas atividades comunitárias que organizamos, nos papos de organização e na organização propriamente dita. a saída vai exigir uma linha singela de construção permanente de novas redes de sociabilidade. O duro é que para dar certo precisaremos nós mesmos, nós por nós criar as válvulas de escape da economia, fugindo de todas as teias que podem nos aprisionar a um determinado poder limitante dentro do sistema.

Standard
artigo, Sem categoria

Reflexões sobre uma economia industrial em um mundo caótico

Em meio a inúmeros alertas da ONU e enfrentando uma pandemia que cobrou da humanidade a capacidade de parar o giro do sistema para se recompor, o sistema global permaneceu tentando remendar a si mesmo. Passando-se dois anos de pandemia, a escolha dos grandes operadores dos modos de produção foi por manter a roda da economia como conhecemos em pleno movimento, apesar de todas as limitações e embaçamentos que podem causar catástrofes ainda maiores. Assumimos esta escolha política, mesmo distante das inúmeras disputas.

Estamos, enquanto espécie, diante de um flanco. Enfrentamos uma necessidade urgente de ruptura do paradigma atual que, diferente dos processos de mudança do iluminismo ou do modernismo, não passa por signos de busca de evolução da humanidade, mas sim pela própria necessidade de sobrevivência dela. Assim, nos resta a certeza de que não temos mais tempo de experimentações sem encarar os riscos de para onde a trajetória econômica está nos levando. Diante disso fica a pergunta: Como repactuar a economia global diante do dilema ambiental? Essa pergunta precisa de uma resposta aplicada em larga escala urgentemente.

Dentro deste dilema trago um recorte para reflexão: Os atuais avanços do mundo industrial já nos permitem gerar novos modelos que podem colaborar com a busca deste novo paradigma. O discurso vigente do sistema capitalista, que centra a produção em lucro, competitividade e propriedade do conhecimento (patentes, copyright, P&D) como fomentadores de uma sociedade mais eficiente já não cabe mais. Foi justamente dentro deste raciocínio que chegamos aonde estamos. Tentamos sobreviver em um planeta que transforma vida em recurso e tudo que toda em produto de consumo.

Por outro lado, o sistema vigente em modelos de produção socialista produzira um nicho de relações burocráticas que tornaram a indústria menos potente em inovação (argumento que é questionável), hoje, com o atual nível de conexão de redes, não precisamos mais nos ater a tal debate. Vamos recortar o que é comum a ambos, a busca da produção e o uso estratégico do modelo industrial para garantir o controle social. Por sua vez, não é mais necessária uma megaprodução de excedentes para otimizar lucros, ou um grande sistema de exploração de força de trabalho braçal para garantir eficiência (como defendiam/defendem alguns).

Podemos criar redes de automação capazes de inferir na produção dentro de melhor racionalidade de demanda, interesse, uso, capacidade produtiva e capacidade destrutiva. Podemos integrar todos os instrumentos de produção e logística globais em redes de possibilidades capazes de monitorar em tempo real a necessidade de produção, reduzir custos, reduzir desperdícios e excedentes que viram lixo. Com o Big DATA podemos tornar os ecossistemas de produção industrial mais flexíveis e ajustados a demandas globais.

Um exemplo alegórico: O aumento expressivo do consumo de um determinado remédio destinado a uma doença contagiosa em uma cidade pode dar indícios de um possível surto, apontar para a rede industrial a necessidade de se produzir mais deste remédio para esta cidade ou deslocar de um lugar com pouca necessidade deste remédio. Esta indústria pode dar indícios a rede de indústrias de motores sobre a necessidade de produzir certo tipo de transporte para garantir a logística de mobilidade para aquela região e por aí vai. Uma reação em cadeia que ligue ponta a ponta: consumo e produção conforme diagnóstico em tempo real das problemáticas e potencialidades de atendimento das demandas.

Cada vez mais, o ato de implementar uma indústria envolve também pensar nas relações urbanas, paisagísticas, naturais de onde esta se insere. O modus operandi de um planeta rateado pelos setores econômicos que garantem a eterna repetição dos mesmos ciclos de centro-periferia global. Da mesma forma devemos pensar se ainda se torna necessário investir energia na produção constante de veículos automotores individuais por exemplo.

Precisamos rever urgentemente a relação do lucro e propriedade relacionados a produção industrial. Não cabe mais, em um mundo complexo, pensar o grande campo industrial como um sistema de proprietários de capital e relações de poder e disputas privadas. Não cabe mais a produção seguir com base em excedentes de necessidade duvidosa para girar uma economia desvinculada dos impactos ambientais e das reais demandas da sociedade. Com um olhar atento sobre a produção globalizada e internacionalizada seríamos capazes de economizar tempo e material, baratear a produção a partir da logística de produtos sob demanda, ao invés de repetir o padrão de barateamento gerado por uma megaprodução de excedentes.

Podemos portanto, reinserir a produção dentro de um sistema ampliado de organização social. Atualmente podemos gerir complexos industriais através de bigDATA de forma a garantir maior eficiência nos processos. Porém, precisamos de um ciclo ampliado constante de gestão política e governança, que englobe sociedade civil, sindicatos, ambientes comunitários, parlamento, entre outros.

É preciso pensar uma estrutura social que viabilize a redução da jornada de trabalho sem a redução dos salários. Precisamos considerar as ferramentas que o capital apresenta, podemos por exemplo redefinir a produção do lucro do capital financeiro, cujo principal alvo é a geração de renda e crédito através da confiança. O lucro segue como conhecemos, sendo produzido pela capacidade produtiva dos trabalhadores e pelas máquinas de exploração da vida, porém se compõe via capital financeiro, de forma indireta a isso. É preciso repactuar a renda, pois a realidade é que teremos uma massa de desempregados ou de subempregados muito maior do que a que existe hoje. Esta massa por sua vez é parte significativa na produção da mais valia, ao mesmo tempo em que é potencial consumidor.

O sistema de lucros deve ser reorganizado e costurado. Ao invés da produção de bilionários, a industrialização global, automatizada e gerida de forma racional pode produzir um sistema universal de redução e mitigação da miséria. Para tal, precisamos reinvestir o lucro gerado em políticas de renovação e proteção social e ambiental. O valor excedente produzido precisa entrar em um ciclo de benefícios locais, ser reinvestido prioritariamente na busca da equidade social em todas as esferas de governança.  Visamos com isso reduzir os danos causados e prevenir que novos danos ocorram. Com o investimento global dos lucros industriais organizados, podemos estruturar bancos de apoio e distribuição da renda, programar e fomentar políticas de pesquisa e desenvolvimento que se fundamentem prioritariamente na constante ação em rede.

Pesquisa e desenvolvimento é um trabalho global e colaborativo. É um equívoco seguirmos crendo ainda nos modelos míticos da grande genialidade. Precisamos Consolidar as redes de possibilidades dos encontros. Quanto mais integrados estamos, melhor é a eficiência e racionalidade de ações que planejamos.

O que deve se tornar predominante e paradigmático acima do lucro, é o impacto de preservação e recuperação ambiental do entorno, seja natural ou construído. Neste sentido, a partilha pode ser peça importante para organizar o novo modelo de operação industrial, focando na cooperação internacional, na racionalização da logística de transporte dos bens de consumo e de transporte das matérias primas muito mais que na concorrência. O planeta não suporta mais nossa organização social modernista, essa é a triste realidade, precisamos urgentemente mudar as rodas de funcionamento do planeta, o tempo é pouco.

O mundo é propício a receber qualquer pequeno impacto no ecossistema e vai nos cobrar. Já demos alguns passos culturalmente.  Aumenta o número de cidadãos, para quem, a existência passa pela experiência do mundo e não mais pelo controle de posses. Precisamos reforçar estes modelos se quisermos seguir vivendo neste planeta.

Standard
artigo, brasil, política, Saúde

7 de abril: Dia Mundial da Saúde

Neste dia, apesar de ainda termos caminhos a avançar, já temos muito a celebrar. Embora vivamos em um país empobrecido e desigual, o nosso sistema de saúde consegue ser um exemplo robusto de que políticas de Estado destinadas ao povo podem ser realizadas. O que o SUS tem a nos ensinar em termos de organização política? Este texto será um pouco sobre isso.

O SUS modificou por completo a forma como tratamos a saúde, entendendo-a e assumindo-a como um direito universal do povo e como algo muito maior do que o simplismo de: tratar uma doença de um indivíduo. Alguns de nós hoje somos sequer incapazes de lembrar dos modos de funcionamento do sistema de saúde do país antes do SUS. Como conseguimos implementar uma política de Estado firme como essa em meio às muitas intempéries, revezes e crises de classe?

Primeiramente importa entendermos que nosso sistema atual é fruto de uma luta gradual e constante produzida por inúmeras mãos. A política de saúde só se torna possível de nascer em um país como o nosso devido o trabalho árduo de uma enormidade de cidadãos organizados nas redes de construção das mesmas. Falamos assim, de um trabalho que é acima de tudo coletivo, interdisciplinar e por que não dizer: militante.

Nada nasce da noite para o dia, se desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) o direito a saúde é vinculado ao direito à vida de todo ser humano, podemos dizer que, apenas na constituição de 1988 que o Brasil conseguiu inseri-lo como direito fundamental de todo cidadão. Tal direito é conquistado constitucionalmente a duras penas como resultado das imensas lutas do movimento da Reforma Sanitária que entendem que a saúde deva ser um Direito de todos e um Dever do Estado.

Desde a década de 70 até 88 o movimento se organiza no fortalecimento de encontros, simpósios, conferências, criação e fortalecimento de entidades profissionais dentre outros. Este trabalho, junto ao seio do povo foi de fundamental importância para a construção do novo conceito de saúde que viria a ser implementado no país. Se antes, saúde era algo destinado a alguns apenas, já nas décadas de 80 ela fora vista de forma abrangente e integradora da sociedade. Da porta do hospital ao saneamento de uma cidade, tudo era trabalhado na construção do sistema.

É esta multidão que constitui potência política suficiente para produzir no país um instrumento que garanta universalidade, equidade e integralidade de saúde a todos nós, ainda que muito precise ser feito para tal. Assim como todo projeto político, nada se completa ou termina em si mesmo, precisamos seguir a construção e as lutas a cada dia para garantir a consolidação e melhoria completa do mesmo. Entre as décadas de 70 e 90 (quando a lei é regulamentada) muitos passos foram dados nesta construção compartilhada.

Uma das maiores lições que a construção do nosso sistema de saúde nos traz é esta: não há saída por política que não envolva uma concepção popular para a mesma. O niilismo que enfrentamos hoje se dá por nossa atual incapacidade de organização coletiva focada em algo para além de um mero processo de espectador e torcida diante de disputas eleitorais de personalidades. A história por sua vez nos mostra que, o que menos importa na construção popular do nosso direito a saúde são os personagens, o mais importante mesmo está na rede de possibilidades que abrimos e que se mantém aberta para esta luta.

O SUS não é resultado da política de um homem ou de uma categoria apenas, sequer teria algum avanço significativo se assim o fosse. Ele é fruto do sonho de muitos que dedicaram e dedicam algum tempo em propor, em construir, em chegar junto nesta frente, do mais simples trabalho de base junto ao povo até os mais complexos trabalhos de gestão e planejamento nacional. É sob esse prisma que nossa Saúde é uma construção política! É um erro e porque não dizer uma antipolítica, quando reduzimos quaisquer construções a um viés pasteurizado e cristalizado de forma dentro das dinâmicas da vida social. Como as águas do rio de Heráclito as dinâmicas das lutas sociais acrescentaram bandeiras, formas, modelos, projetos, textos de lei ao grande corpo que se tornou o SUS. Ninguém precisou prender o pensamento a uma cor, um dogma ou um nome sequer.

Nosso direito a saúde aconteceu com o trabalho colaborativo produzido a cada dia, em cada esfera do cotidiano onde lutamos por uma qualidade de bem-estar. Sua luta é um modelo, seja na esfera individual, familiar, comunitária ou de estado, cabe a nós, enquanto cidadãos que tem interesse nas lutas comuns, seguir em frente, fugir das artimanhas dos laços menores e retomarmos as organizações para construção de um Brasil maior, com equidade, justiça social e direitos amplos e universais a todos os brasileiros.

Dentro disso, nós arquitetos, onde podemos nos posicionar? Um início é: garantir o direito fundamental a habitação, cidade e saneamento e fazer-se cumprir o artigo 6º da constituição. Se sonhamos em construir um dia neste país o SUS da Arquitetura, precisamos antes de mais nada, inserir constantemente a arquitetura nas pautas e formulações do SUS. Assim também, precisaremos enfrentar nosso olhar exclusivista e corporativista e aprender, como aqueles que construíram esta história nos ensinaram, de que as mudanças acontecem assim que nos abrirmos e ampliarmos a todos os ramos da sociedade que contribuem na boa formação do espaço vivido.

Que nossas lutas pela saúde universal sigam sem esmorecer e sigam sendo exemplo do que é a boa prática política. Só assim poderemos retomar os rumos, romper com a atual crise que este ciclo bianual de rinhas em torno de figurões messiânicos produzidos pelas grandes ferramentas de marketing eleitoral. Lembrando que, esta imensa conquista que é nosso sistema de saúde pública é fruto destas lutas.

Standard
artigo, brasil, política

Nos subúrbios a ditadura nunca acabou!

Ela segue firme nas rondas da PM, no carro da linguiça, nas mãos que tem cheiro de morte. Segue a cada em cada silenciamento. Tem ruas onde andar as 22h se torna arriscado, ou você será vítima ou será confundido com um possível meliante. Meliante, sinônimo de vagabundo, termo que até algum tempo atrás tipificava um crime que hoje já não é mais. Porém o termo está aí, e com ele a tipificação das pessoas. Nos subúrbios e favelas a gente tem que andar com documentos sempre em mãos, quiçá um comprovante de residência, pois aqui ela nunca acabou.

Aqui tem que se tomar cuidado! Nos tempos onde as classes média e abastada progressistas do país conseguiam construir uma resistência a 64, apanhavam, morriam, eram torturadas, nasciam também os cavalos corredores, os matadores e a milícia. Ali se estruturou a cultura da morte e da chacina, o alvo apenas mudou, foi para um canto da cidade mais silencioso e invisível e se tornou mais palatável. Quantos Herzogs perdemos nas guerras das favelas, ainda jovens e adolescentes? Quantos corpos seguem desaparecidos pelas ruas da baixada? famílias que nunca mais viram seus parentes, muitos deles crianças cujo crime naquela rua seria o lazer de uma festa de bacana.

Na Copa das Copas, os porões da ditadura que estavam operando no Haiti também operaram nas favelas, estavam exército, polícia, milícia e certas igrejas construindo o mais duro cerceamento de ir e vir garantindo aos brasileiros e estrangeiros que podiam pagar a fortuna de ingresso da copa tivessem o sossego e tranquilidade de não ver nossa miséria humana. A regulamentação da Garantia de Lei e Ordem em 2013 e as mais de 30 operações militares subsequentes no país entre 2013 e 2018 também foram importantes máquinas de fortalecimento desta casta. Só como adendo, o período de 2014 a 2016 vivemos os mais altos índices de pessoas desaparecidas por violência dos últimos anos, com média de mais de seis mil por ano, imensa maioria da Baixada Fluminense, Subúrbios e Favelas.

A nós que somos do Rio, lembramos dos caveirões que saiam a noite pra matar na favela e viraram atração turística na porta do Maraca. Os poderes escolheram perdoar sem perdoar, premiaram os generais e coronéis dando-lhes legitimidade. E hoje é o que temos, a presidência das milícias.

Às vezes me perguntam o por quê dos mais pobres não se assustarem tanto com a lógica dessa gente? Não vejo uma resposta tão clara, mas talvez o indício principal passe por aí: Para os mais pobres, a ditadura nunca acabou, governo a governo ela está aí, a cada dia com uma máscara diferente, vislumbrando como manter a rede de negócios, acharco e chacinas. A ditadura virou nosso cotidiano, e sobrevivemos nas brechas e com base nas leis dela. Não há primeira instância para quem é pobre, não há STF, esse universo é longínquo e pertencente a outra casta social, o pobre tem na frente a lei do cão e a prece pelo milagre.

Vamos precisar de muito peito e coragem pra enfrentar definitivamente isso tudo. Enfrentar com projeto político, reconstruir um sistema de segurança pública cuja função seja a proteção, investigação e prevenção, retirando dele este modus operandi enviesado cuja base é a suspeita individual com viés racista, a operação espalhafatosa pra sair na mídia e a corrupção que mantém tudo girando, ninguém chamaria Tom Jobim de meliante.

Sim, ela, a doce corrupção, a nota de cinquenta caminha pela cidade. Papel moeda que vira canudo pra PM cheirar pó depois de matar o garoto que lhe vendeu, vira oferta na igreja que é usada pra lavar dinheiro para o sistema vira o troco da carteira do filho do juíz que vai fumar seu baseado enquanto bate palma pro por do sol da cidade maravilhosa. Ali, onde o Rio é cidade maravilhosa, não passa o carro da linguiça, ninguém precisa provar que trabalha, ninguém precisa andar com nota fiscal da bicicleta no bolso, ali se é livre e ninguém morre assassinado porque acendeu um baseado na praia do arpoador, ao contrário vira hype.

É isso, quando os porões da ditadura sucumbiram de atacar a classe média que lutava por liberdade, os seus assassinos foram também anistiados e ganharam um espaço pra chamar de seu, pra ser os novos porões. Com base nos batalhões da Policia Militar, saíram a praticar todo o seu conceito e este novo porão chamamos de Subúrbios, de Favelas, de Baixada Fluminense. É ali, onde os mais pobres moram, não tem voz e nem liberdade de ser quem são, como são e andarem por onde quiserem, sem viver de perto o cotidiano da violência endêmica deste Estado.

1964 nunca acabou e isso precisamos ter na mente e no coração da gente.

Standard
artigo, brasil, política

Atingimos o volume morto eleitoral

Iniciarei aqui usando um termo do camarada militante da cultura Pablo Meijueiro: “atingimos o volume morto” das estratégias de coligações. Dito isso, inicio este texto (que assim como muitos outros meus) tende a desagradar boa parte da militância ufanista. O jogo das peças políticas começou a desenhar um quadro muito curioso na polarização. Primeiro vamos elencar alguns movimentos:

  • A aproximação de Lula e Alckmin, que significa uma tentativa de aproximação de Lula com parte significativa da elite brasileira que não se sente confortável com o Bolsonarismo,
  • A aproximação de alguns partidos de esquerda como o PSOL ao projeto,
  • O movimento das mesmas peças em torno do fortalecimento da polarização eleitoral na disputa Bolsonaro vs Lula,
  • A ausência de otimismo popular em torno de quaisquer dos projetos eleitorais aqui apresentados,

Bom, um primeiro trabalho que começamos a notar é a dificuldade de se constituir uma campanha de marketing que consiga alinhavar tudo isso. Na cabeça popular, que acompanhou ano a ano um nome como o Alckmin/PSDB ser dilacerado pelas campanhas do PT, nunca soará fácil compreender tal aliança, ainda mais vinda com um política que almeja o poder presidencial. Todos aqueles que se colocam como um centro, um moderado, ou alguém que não se encontra à esquerda do espectro ideológico enxergará isso como algo puramente eleitoreiro e oportunista, talvez até como um desespero pela volta ao poder pelo poder.

Para as forças a esquerda, todo este quadro do volume morto representa algo pior. Partidos que se constituíram como uma alternativa de renascimento da esquerda, simplesmente definharam ao aceitar tal projeto posto. Podem assim, cair no isolamento completo, não serão reconhecidos como uma possibilidade de mudança por parte da população que almeja isso e também não serão aceitos pela parte mais centro direita. A estes, só restarão as migalhas do poder que cairá da mesa (caso o projeto vença o pleito).

É realmente triste ver a decadência deste projeto, ver que o povo mesmo, este de onde a esquerda deveria nascer e para o qual deveria construir, está fora da contabilidade dos marketeiros da política. As alianças primordiais do Lula são com o Pato da FIESP, o mesmo que foi acusado do golpe e é com este que a esquerda hegemônica vai caminhar. Quem não abraçar isso será taxado de bolsonarista, jogo da direita, sectário, e qualquer outra patifaria de argumento ad hominen possível de ser gralhado nas redes sociais organizadas para o cancelamento.

Lula e Boulos são quadros de momentos históricos únicos. Assim como Lula nasce politicamente do seio das lutas trabalhistas, potentes para mobilizar parte significativa do povo, Boulos nasce do seio das novas lutas contra a precarização, a luta pelo direito a cidade, habitação, mobilidade, para os mais pobres. As escolhas porém deste segundo parecem frear a potencia desta história, fica para trás a força popular que o emanou em nome de um projeto maior que é a unidade liberal. Aceita-se recuar na disputa do Executivo do Estado ou do Federal em nome de apoiar um projeto de poder que inclui aquelas forças que pactuam com os principais adversários de classe de sua base (especuladores imobiliários, grandes empresários, entre outros).

É trágico ver que a história busca ciclos e que a tática da esquerda segue cristalizada. O governo Lula e Alckmin representará a continuidade do governo liberal que a esquerda tanto diz combater, e este governo será assumido socialmente pela tinta vermelha desta mesma esquerda. O ônus deste governo para o povo recairá sobre a esquerda. Chega a ofender quando vemos Pinheirinho ser usado de palanque eleitoral em um projeto que tem a tiracolo elevar a vice as forças econômicas que, na condição de governo de São Paulo, produziram um massacre repleto de abusos policiais que chegou a ser denunciado na ONU. A operação em Pinheirinho tem todos os adornos historicamente construídos como método policial e miliciano. Nada neste fato difere da base material e simbólica que deu o poder ao Bolsonarismo. Portanto, nada neste palanque se torna alternativa concreta de mudança social para este povo.

A escolha de Boulos não foi revolucionária ou potente. Pôs no freio das possibilidades reais de produzir mudança e assumir o conforto eleitoral do cargo legislativo, onde pode manter-se por anos sendo eleito com seu nicho de votos. Tudo ocorre em nome desta contagem de votos e partilha eleitoral que não chega e não toca mais o anseio do povo.

Junto a isso, vemos uma campanha massiva de tentativa de convencimento dos jovens a tirar o título de eleitor e votar. Sim, pois votar passivamente se tornou o único papel político do povo que realmente importa para esta projeto. Vemos uma campanha que beira o assédio moral aos mais jovens, público que nasceu ali por volta de 2005 e 2006 e que começou a entender um pouco de seu lugar no País por volta de 2014, isso é, já na crise e terra arrasada dos pós megaeventos (copa e olimpíadas). É de um otimismo muito grande esperar que estes jovens que não enxergam mais representatividade em nada do que está posto, assumam o papel de protagonistas da vitória eleitoral desta estratégia. É capaz de muitos destes jovens ainda votarem em um Bolsonaro na vida e serem xingados pela máquina militante das esquerdas.

Partimos do pressuposto que por ser jovem ele deve votar na esquerda (é um cânone divino estar do lado certo da história). Esta mesma esquerda que ele não vê atuando em absolutamente nada além de pequenos nichos com discursos pré-prontos e que muitas das vezes beira um certo cinismo. Há de pensar: Estes jovens, assim como boa parte do povo enxerga com clareza que, em meio a pandemia, quando explodiu uma possibilidade real de Fora Bolsonaro devido o mesmo estar literalmente forçando a morte da população, as organizações de esquerda esfriaram quaisquer manifestações antes que tomasse vultos incontroláveis. Enxergam com clareza que o fascista de ontem virou o amigo e vice de hoje, que o roubo do MEC não gera uma manifestação organizada ou greve, e que interessou a estas forças progressistas que o Bolsonaro permanecesse presidente até a eleição.

Veja que, a base bolsonarista das igrejas neopetencostais que se tornaram máquinas de poder e lavagem de dinheiro (uma ofensa a fé do povo), suga dinheiro do sistema de educação do Brasil e isso não virou uma manifestação de massa no dia seguinte. A esquerda parece não ter coragem de assumir a corrupção política como pauta para si, uma pauta que capitaneia a indignação do povo não é trabalhada por nenhum grupo político organizado.

Me perdoem se usei a expressão -projeto de poder-, não cabe projeto no que está dado, o que temos é uma estratégia de troca de personagens no jogo político, projeto exigiria outra construção. A polarização reflete o nosso fracasso em qualquer tentativa de alternativa a tudo que está dado, aceitamos ou fomos entubados pelo jogo político onde o fim disso tudo pode ser trágico. A esquerda como conhecemos seguirá morta, morrerá vença quem vencer, mas talvez ela precise morrer para renascer. A estratégia Lulista de garantir-se na política do establishment e usar o Bolsonaro como escada eleitoral, minguando toda e qualquer força que seja autônoma ou possibilidade a isso tudo pode dar com os burros n’água, pois querendo ou não, mesmo que vença, não será simples garantir o engajamento popular para a manutenção do poder.

O que mais me incomoda nisso tudo não é o pragmatismo do jogo político eleitoral. O povo toparia o pragmatismo pelo pragmatismo, votar num nome como se este fosse o mais do mesmo, quantos não são eleitos assim? O que incomoda mesmo é o cinismo de pintar, o tempo todo, as artimanhas e movimentos das peças e do dinheiro envolvido nisso como um jogo do bem e do mal e como se os fins justificassem os meios de uma revolução lá na frente que nunca virá.

Aqueles que não aceitam a chantagem e o assédio moral eleitoral serão vistos como inimigos, e falas e textos como esse serão vendidos como mais incômodos do que um jantar com o Alckmin, cujo prato pagaria a cesta básica de famílias inteiras que estão passando fome nesse Brasil. E o desespero que começa a bater está justamente aí, os mapeamentos estão mostrando que ano a ano, a chantagem e o assédio funcionam cada vez menos e o povo se torna cada vez mais descrente das organizações coletivas que deveriam promover mudanças e engajamento de base e nas bases, mas são minadas ou aparelhadas por este jogo.

Standard
artigo, cultura, rio de janeiro

O CARNAVAL QUE NÃO ACONTECEU, MAS ACONTECEU

Primeiramente, este texto é um produto de um pensamento coletivo, muitas vozes ecoaram e conversaram e isso convergiu nestas pontuações que aqui trago.

Acima de tudo, nunca defendi a realização da festividade em meio a pandemia, considerei uma precipitação o anúncio lá atrás ainda em 2021, pois o mesmo colocou milhares de trabalhadores do carnaval em linha de ação em um momento em que a pandemia ainda não se mostrava tão controlada assim. Segundo: pior que a realização do carnaval como conhecíamos foi a solução proposta, um falso cancelamento. Porém, apesar de não estar na agenda, ele esteve e aconteceu.

Foram inúmeras as festas privativas, lotadas onde todos sabemos que os controles de mitigação da covid são inexistentes, ou como diz a famosa alcunha, para inglês ver. Além do caráter de festas privadas, foram experimentados modelos de negócios novos a partir das festividades, entre eles destacam-se além dos blocos privados, os minidesfiles das escolas de samba. O carnaval de rua não deixou de ocorrer, ele aconteceu por linhas de fuga e não mais pelos blocos tradicionais que já há alguns carnavais estavam no sistema de fomento do megaevento.

Nos subúrbios, as turmas de Clóvis resistiram. Suas saídas repletas de foguetórios foram notadas por inúmeros moradores que sequer sabiam da existência deste tipo de evento. Bares lotados, ruas cheias, um povo que simplesmente não consegue mais conviver sem o encontro presencial e que não suportou mais um ano sem evento. O que o feriado mostrou foi: a festa em si não morrerá, independente do quanto se tente estragá-la para encaixar em um modelo comercial, porém ela pode, e muito, se modificar a ponto de perder seus elementos de fundamento.

O teste de comercialização da festa teve como principal resultado a meu ver uma fragmentação do sentido coletivo dos eventos, os minidesfiles que obrigaram escolas a eleger aproximadamente uns 80 componentes de uma gama de 2500 foliões é passível de criar uma realidade paralela nas escolas, uma quantidade ínfima que de longe não mostra o poder de formação de uma agremiação e que, como dizia o Império Serrano, segue escondendo gente bamba. As escolas com certeza saíram as mais prejudicadas, pois, além de retornarem ao trabalho árduo mais cedo (vide os barracões, ensaios de comunidade, ensaios de bateria, etc) ainda seguirão trabalhando em meio a pandemia até o dia do desfile oficial em abril.

O sambódromo se tornou um dos únicos espaços apagados e vazios da cidade neste fim de semana, o que já demonstra o peso simbólico da tragédia, diferente do ano anterior, onde apesar de não ter o carnaval a apoteose brilhou em cores celebrando todas as escolas de samba que por ela passa. Este mesmo sambódromo que um dia foi uma arquitetura pensada para a celebração do povo e que já vem sofrendo com o desmonte de sentido demarcado pelos ingressos caríssimos e camarotes que preferem fazer uma festa rave em meio aos desfiles (sim, é possível pagar caro para ir ao sambódromo e não ouvir samba). A mercantilização das escolas seguiu mais um passo na escala, e será preciso muita resistência popular para que o próprio povo, que é fundamento da escola não seja excluído de vez da festa.

Quanto ao carnaval de blocos, creio que um grande impasse se deu por conta de uma tradicional máquina de controle, o fomento cultural. Uma vez que um sistema autônomo é capturado pelo sistema de fomento cultural e passa a viver disso ano a ano para realizar sua atividade, a ausência deste fomento não significa o retorno ao modelo autônomo anterior. Creio que nisso muitos blocos se perderam, sem carnaval de rua e sem fomento, muitos partiram para a festa privada como possibilidade de fazer alguma renda, outros nada fizeram.

As ruas, porém, são um espaço político do carnaval, lembremos que mesmo a apoteose é uma rua da cidade. E rua vazia e carnaval não combinam. O povo fez, do seu jeito, o carnaval para além do carnaval. Basta dar o feriado e o povo retoma as ruas.

Com isso o sistema fagocitou o modelo de gestão vigente até então, experimentou novas modelagens de negócios (como os minidesfiles e blocos de clubes) e deixou as ruas a novos embriões de blocos autônomos que não precisam de estrutura ou verba para acontecer. Assim, a prefeitura realizou um carnaval mesmo dizendo que não o faria e se eximiu de preparar a cidade para a tomada das ruas.  Este modelo das ruas, porém dura pouco, basta um carnaval com ruas autônomas em protesto (como já foram alguns bons carnavais) e tudo volta a ser controlado a ferro e fogo e quem sabe corda e ingresso.

O que cabe a nós? Como bons Clóvis, resistir, confrontar, se divertir e meter medo, porque sim, Clóvis meus amigos é pra meter medo, sem romantismos de um passado que não volta mais.

Fica a lição, aos blocos e escolas, também precisamos lutar pois o modelo posto é o carnaval do não povo que vai brigar para expremer seu tempo de desfile entre um episódio de BBB e um filme repetido, um zé carioca batendo caixinha de fósforo para o pato Donald ver. E fica a crítica ao cinismo de um sistema político que usou da bandeira da saúde pública para cancelar uma das festas populares mais importantes que temos, mas que no fundo só fez reorganizá-la em outros moldes econômicos onde todos os eventos privados foram repletos de aglomeração e covidário. Não podemos entregar o carnaval a esta modelagem, se assim fizer, já adianto que é melhor baixar os estandartes e enrolar as bandeiras, passou do tempo dessa massa popular que constrói a história que a história não conta assumir-se mais Clóvis e fazer em abril um carnaval para meter medo no sistema S.A. que tenta financeirizar tudo.

original publicada em: central dos bate bolas, twitter: https://twitter.com/centraldosbt
Standard
artigo, Sem categoria

Fragmentos de uma luta de classes carioca

A ideia de uma identidade carioca, ou uma carioquisse, surge de um recorte específico e estereotipado da cidade do Rio. Esta que já foi capital nacional e viveu anos de pujança. Esta identidade a meu ver se demarcou por um recorte geográfico muito bem definido, a escolha de uma vertente de espraiamento e especulação voltada à burguesia e as elites tanto cariocas quanto nacionais.

Assim, criou-se a imagem de Rio de Janeiro voltada ao eixo Zona Sul da cidade. O próprio termo Zona Sul nasce deste processo de autossegregação (há pesquisas muito importantes que explicam melhor esse momento). O lugar do carioca nesta construção se divide pelo seu recorte de classe. Para a burguesia e todos os que podem pagar, destinou-se o eixo de crescimento situado entre o oceano e os maciços, e para o restante da população destinou-se dos maciços ao interior do continente (simplificando o recorte).

Neste sentido, podemos entender que, se por um lado o capital cultural, simbólico, narrativo da cidade que vence historicamente como verdade de representação foi forjado em uma parte desta (mesmo que capturando diversos elementos da cidade como um todo), ao outro lado, ficou o relento de fazer sua própria história, porém sem que esta esteja na oficialidade das narrativas, exceto quando domesticada pelos que escrevem e tem voz.

A complexidade do Rio é que sua construção cultural/territorial não é dicotômica, há nuances das mais diversas que surgem no intraurbano. Entre as muitas nuances vou destacar 3 grandes topônimos: O Rio (retratado pelo eixo centro-sul estendendo-se a Barra da Tijuca e Recreio), Os Subúrbios (retratados pelas Zonas Norte e Oeste excluindo-se Barra e Recreio), as Favelas (retratado por lugares de ocupação não formal que se encontram pulverizados pela cidade como um todo).

As favelas sempre foram denotadas como o lugar que deve ser expurgado, desde termos como área de risco, até o estigma de território da violência, a favela é o território onde o Estado tem liberdade garantida pela opinião pública para executar o que quiser, independente das leis. As favelas resistem a morte, a remoção, a ausência (ou presença torta) do Estado e a presença das disputas mais viscerais de poder e espólio sobre o direito a vida.

Os subúrbios por sua vez, expressam um sombreamento difuso. São territórios legalizados, em geral propriedades privadas destinadas aos mais diversos tipos de pobres que, em algum momento da vida tiveram condições de adquirir um bem, um imóvel.  Ainda que muitas vezes, tenhamos bairros tão ou mais pobres que algumas favelas, há um caráter de origem formal no território. Além de formal, há uma relação de distinção e heterogeneidade na constituição dos mesmos.

Assim como não podemos dizer que o tratamento dado ao Vidigal é o mesmo dado ao Cesarão, também não podemos dizer que o tratamento dado ao Méier é o mesmo dado a Honório Gurgel. E são justamente nestas disparidades que a busca de uma certa identidade se torna limitada. O que unifica as lutas das favelas, antes de uma identidade favelada e periférica, é a disputa de classe, o desejo de que a máquina do poder pare de matar os moradores deste lugar. Para os subúrbios esta discussão é mais complicada, pois não há por parte do Estado um ataque claro aos territórios. A PM não passa da mesma forma nas ruas da Vila da Penha como passa nas ruas de Costa Barros, por exemplo. Este tipo de relação torna complicado a construção de um sentido comum e de elementos de igualdade entre os dois bairros (base para a construção de sentido de identidade).

É com base nisso que temos que lidar na hora de produzir nossa história e nossas lutas. Uma identidade suburbana, a meu ver é cada vez mais inviável de se constituir sem que a mesma se reduza a um estereótipo domesticado, um Zé Carioca contemporâneo, um Zé Pelintra que anda pela Lapa pra tentar chamar a atenção de gringos. O que precisamos compreender é a construção de uma emanação de enfrentamento de subúrbios e favelas como agentes de lutas, uma emanação do vir a ser pobre que reconhece na sua condição de vida o impacto que a segregação social, econômica e territorial lhe impõe. Sob este reconhecimento que seremos capazes de entender o que leva um jovem branco morador de um bairro pobre hegemonicamente negro a ser visto pelas forças do poder como um jovem também negro quando está no seu bairro.

Esta segregação invisibiliza sua voz, deforma seu bairro em nome da especulação imobiliária descolada do cotidiano, mata quaisquer infraestruturas como transporte, hospitais, escolas, etc. Ela implode os saberes e fazeres do povo, apaga sua paisagem, seu patrimônio construído, e sua história. O pobre não tem acesso à cidade como um todo, sem que seja questionado. Ainda que alguns tenham conseguido romper certas brechas e ganharam espaços de fala, o discurso hegemônico ainda é domesticado. Não se modifica a estrutura, mas se constrói um equipamento x ou uma apropriação cultural y e isso é vendido como uma solução. Criamos um pólo gastronômico em um bairro qualquer e deixamos o bairro vizinho entregue ao poder paralelo do tráfico, milícia e igreja unificados.

Não importa as forças que estão no poder, a base de constituição delas nasce da burguesia que pouco conhece os espaços segregados e invisíveis da cidade. Somos governados e geridos (seja pelo público ou pelo privado) por grupos e forças cuja origem está no mais elitizado dos espaços, nas universidades de ponta, nas escolas de ponta, onde muitos dos mais pobres nunca pisaram, pois precisam enfrentar uma luta hercúlea pela sobrevivência desde cedo. Quem é pobre não tem tempo de estacionar o carro no Leblon às dez da manhã de segunda-feira, não tem tempo de dar opinião em jornais de grande circulação ou de passar o dia bebendo uísque a beira da praia como forma de compor um grande sucesso nacional.

Por isso e outras mais, nossa luta não pode ser apenas uma disputa de identidades, pois a identidade carioca já está formada e dentro dela, o pobre já tem seu lugar definido e estereotipado. Nossa luta é um combate de classes, onde o suburbano e periférico veste seu Clóvis. Sob a fantasia está o lazer, a alegria, a dor, a paz e a violência. É com este ferramental de quem, nesta cidade, é realmente capaz de experimentar com tranquilidade as mais doidas contradições da sociedade, sem cair no maniqueísmo raso das intempéries, que teremos de buscar nossa alternativa para não sucumbir.

Turma do Indio 2017 – Guadalupe – imagem de Vincent Rosenblatt
Standard