A questão da cidade é global. Estamos acostumados com os grandes estudos metropolitanos que envolvem mega arquiteturas, grandes intervenções urbanas, entre outros. Hoje queria apresentar uma questão peculiar, mas não menos importante.
Agbogbloshie é um subúrbio de Accra, cidade de Gana. Primeiro pra contextualizar, estamos falando de um país da África Oeste cuja história é demarcada por violentos processos de colonização, exploração de recursos e escravidão. Estes processos seguem até hoje, quando, dentro das lógicas da divisão internacional do trabalho, o país segue como produtor de minérios e agricultura e como um grande consumidor de produtos industriais de segunda ou terceira mão. E é nestas condições que vamos partir de Gana, um tipo de país de subúrbio global para Agbogbloshie, um subúrbio de Gana.
Num dado momento, o País propôs incentivar, como tentativa de abastecer o mercado interno, a importação de eletroeletrônicos usados (como faz com automóveis por exemplo). Uma proposta que, vista sem crítica, parece inocente e até promissora se transformou em um dos maiores problemas do país. Hoje, Gana abriga um dos maiores lixões de eletroeletrônicos do planeta, servindo de escoamento internacional para este ciclo de mercadoria. Falamos aqui de um ciclo que ainda é alimentado pelo movimento da obsolescência programada, criando um dos maiores problemas humanitários da região.
Uma quantidade significativa de cidadãos Ganenses sobrevive de um verdadeiro comércio de lixo tóxico, resultado de um descarte que para maioria de nós é invisível. A propaganda da sustentabilidade nos vende uma gama de discursos sobre indústria carbono zero, elementos reciclados, baixo consumo de água, mas pelo visto, são regras e códigos que só aparecem nas fotos do Vale do Silício. A imagem de simplicidade expressa no New Balance do Steve Jobs ou no Brunello Cucinelli de Zuckerberg cujo luxo silencioso esconde o silencio do lixão do Silício.
Aqui gostaria de propor um pensamento singular. Por um momento abandonemos o conceito de cidade ou metrópole como assumimos em nossas mentes e vamos realocar as fronteiras pelos fluxos e redes. Por um determinado recorte de tempo e espaço, Agbogbloshie é uma periferia de uma metrópole do Vale do Silício, sua destruição é aceitável desde que a roda da fortuna gire e a sustentabilidade se dará apenas sobre o meu quintal. Esta leitura que falseia o próprio senso da natureza, onde o todo é um só indivisível e onde não há um fora. Este subúrbio que é resultado de um movimento político internacional pesa, e pesa ainda mais quando está em um País que exporta ouro, pedras preciosas e demais minérios.
É possível que o custo do luxo silencioso de uma camisa do Zuckerberg mate a fome por um dia dos moradores de Agbogbloshie. Esta é a metrópole que me proporei a debater em breve, uma metrópole cujas principais fronteiras estão nas redes de poder que a impactam.
Foto de Andrew McConell para o jornal The Guardian.
Vamos fazer aqui algumas associações. Primeiramente, partir do conceito de capital, esse tipo de sujeito que movimenta o mundo. Para Marx (vamos resumir grosseiramente como) um tipo de valor que empregado em algum processo retorne ampliado ao proprietário (o lucro). Vamos agenciar isso com desejos, com vontades de poder, e outras coisas mais.
Quando o mundo opera e amarra materialmente as necessidades materiais e subjetivas do ser humano a produção de capital e a aquisição de renda, ele vende que: basta conseguir acumular capital que você vai ter conforto, vai ser feliz, vai ser amado, desejado, virar referencia. Esse é o mundo que se vende, porém ele esquece de te dizer que a acumulação do capital é relacional: pra um estar bem alguns precisarão continuar ferrados. E não está na pauta das dinâmicas do capital a solução do todo. Logo, você está num ciclo de sorte e fortuna: nascer herdeiro, ganhar na loteria, por um acaso se tornar um craque em algo que transforme você num objeto de valor, fazer parte de algum nicho de exclusividade te trará o bem-estar, caso não aconteça, vai fazer parte do ciclo que precisará lutar dia a dia pra sobreviver enquanto vai viver bombardeado de dizeres que vão tentar provar que voce vive e está no lugar errado de se estar.
O problema é: E todos os que não estão nesta situação? Viverão o infortúnio. Uma questão que pesa, desde a morte de Deus em Nietzsche, o ser humano perdeu também uma certa pacificação transcendente institucional, a recompensa que está no além túmulo. Esta recompensa que servia como moeda de troca diante da violência sofrida pelos trabalhadores escravizados para construir pirâmides, templos, cidades megalomaníacas, se esvaiu e sobrou a exploração e o trabalho. Vamos ver o trabalho como um lugar, o lugar do pobre no capital. Mas também proponho que pensemos o mesmo como uma arma de luta.
É mister pensar, quando Cidinho e Doca cantaram pela primeira vez: Eu só quero é ser feliz, morar tranquilamente na favela onde eu nasci e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar”. Há algumas leituras possíveis, não sei dizer ao certo o que pensavam, se apenas na paz e conforto da vida, se pensavam na busca de igualdade de tratamento, porém quero aqui subverter um pouco alguns conceitos e debruçar sobre a frase para armá-la.
A busca da felicidade, do amor do conforto psíquico, o desejo de afeto, é sobre isso que se trata a primeira parte. Um direito que parece banal, mas que nos é tirado e é perceptível em qualquer levantamento de dados de doenças da mente o quanto a desigualdade social refletida na forma como a violência é espacializada. Na segunda parte, uma cobrança, qual é o lugar do pobre? Um olhar colonizador trata a música como uma aceitação, porém, o sujeito que canta a música é o próprio pobre na busca de um direito. A frase não diz a priori sobre aceitar o lugar que foi imposto ao pobre, ela se abre sobre a cobrança do pobre de que aqueles que o exploram terão de aceitar nos seus lugares.
Se o funk melody tendia a falar sobre cantos de paz, um pouco de afeto e o direito ao seu lugar na terra, o funk contemporâneo segue traçando novas contradições, mas como cantou mc kevin: “Eu vim do funk, sou favela, mato e morro por ela”, expõe hoje como Bezerra da Silva expôs num passado recente a contradição desse capital. No fundo, todos buscando uma saída pra si com os códigos e condições de possibilidades que estão dados no espaço onde se encontram.
A frase do Senador americano Marco Rubio diz muita coisa sobre um problema que temos de enfrentar: “As vendas de armamentos são importantes não apenas pelo dinheiro, mas também porque proporcionam influência sobre comportamentos futuros”. A máquina de guerra dada está aí: os mesmos senhores da guerra que fazem fortuna e controlam comportamentos a partir da venda de armas vão condenar arbitrariamente todos que eles quiserem condenar. Seu filho pode aparecer no Datena com uma arma ou um guarda chuva, pode ser avião ou estudante, ele sempre vai ser condenado ou suspeito, vai morrer de tiro porque a opinião pública não está nem aí.
Adriano Imperador vai ser criticado por ser rico e decidir morar na favela, os MCs da ostentação serão criticados e rechaçados por ganharem dinheiro e decidirem morar na Barra da Tijuca. Mas os críticos são aqueles que até podem querer ir no baile da Penha a noite mas não vão querer morar na Merendiba e pegar o trem pra trabalhar no centro todo dia.
Assim, proponho deixar um flanco aqui aberto, pensar nosso espaço sem romantismo, sem culpa e com a crueza da vida. Lembrando Bezerra: “As coisas na Terra estão mal divididas, o pobre levando uma vida bandida e comendo mais o pão que o diabo amassou”. É isso, planos diretores, macro textos só servem até onde a cidade legal garante direitos, ali onde a cidade legal nos esquece, eu quero mesmo é aprender com Bezerra da Silva como entender, operar e modificar a cidade. A cidade é minha arma de guerra.
Não sou um defensor da busca de identidades, mas sim dos agenciamentos.
Apesar de entender os caminhos pelos quais a busca de uma identidade é utilizada como instrumento de organização social e agregação, minha crítica ao tipo consiste em uma limitação que vejo acontecer por aí: a identidade, após ser definida com acúmulos de signos tende a se cristalizar num dado ponto no tempo.
Veja, boa parte das organizações humanas usou ou usa a identidade como ferramenta. Ao construir uma unidade nacional, a identidade é moldada pra se tentar criar um ser humano tipo representante daquela nação. Assim, por mais que a identidade garanta ao sujeito a estabilidade e contato com seu território (como diz Hall), ela entrava a solução em momentos de crise. Isto é, há momentos na história da vida em que a identidade precisa experimentar rupturas de seus campos seguros e lançar-se diante de um campo de forças e tensões para que algo diferente se faça.
Cristo era Judeu, e na qualidade de Judeu propõe novos parâmetros em uma terra dominada por Roma, a ruptura de Jesus com seus pontos estáveis e de solidez permitiu tanto ao judaísmo perpassar pelas ocupações Romanas, quanto ao monoteísmo cristão (e porque não também árabe) sobrepujar a visão de mundo representada pelo Panteão, este espaço que nada mais é do que uma biblioteca das muitas estruturas identitárias existentes no mundo naquela época.
O que me move são os agenciamentos, e o que quero dizer com isso? Trago aqui um Macunaíma subversivo ou subvertido. Mário de Andrade traz o personagem complexo, contraditório, numa história aberta porém que é muitas vezes traçado pelo senso comum como elemento de uma busca de identidade nacional, a busca da representação do povo brasileiro. Este traço que o senso comum reflete tem sua importância e foi necessário num dado momento histórico para o enfrentamento dos processos de apagamento social e embranquecimento deste país. Porém, Macunaíma se torna resistente e potente na medida em que revela ao Brasil que sua formação é africana, indígena, branca e repleta de muitas entradas e interfaces de luta pela vida.
Por este caminho que penso em Macunaíma. Macunaíma enquanto subversão, enquanto uma chave de agenciamentos. Macunaíma é a potência da constelação, cujo caráter se molda a luta que precisa ser travada pela vida. Um vir a ser Macunaíma é compreender que, dentro de um mesmo espectro de povo brasileiro teremos muitos devires a enfrentar, é compreender que mesmo tendo nascido numa família que não sofre as agruras do racismo você faz parte da galera que sofre com as perseguições da Polícia ao 474 (pois jovens negros da periferia não tem direito de ir a praia sem ser suspeitos de arrastão).
Devolver ao Brasil a sua cara é sermos capazes de retomar os agenciamentos, mesmo os mais contraditórios para avançarmos naquilo que é nosso sofrer comum, a ausência de direitos. E falamos aqui de direitos que só serão conquistados com enfrentamento e luta. Para lutarmos, sejamos Macunaíma em uma explosão de constelação, uma rede de agenciamentos cuja principal característica é sabermos onde estamos fluindo pelo território e sob que perspectivas.
Pois falamos de visões de mundo, de formas de entender e viver o tempo, o espaço e muitos outros caminhos e entradas possíveis. Este texto é parte de uma pesquisa apócrifa, em breve falaremos mais a respeito.
Rodrigo Bertame, rio de janeiro, 17 de setembro de 2023.
O intenso debate em torno da maconha frequentemente se torna cansativo quando abordado com um viés excessivamente moralista, em vez de ser visto de maneira séria e científica.
Tal debate atrasa, entre muitos, pesquisas farmacológicas e de produção, bem como geram uma falta de investimento mapeado de capital na exploração das potencialidades das fibras do cânhamo e dos produtos derivados dessa planta. Isso ocorre em parte devido à complexidade do mercado global da maconha é praticamente um comodities global paralelo capaz de mexer com todo o cenário do agro (, que pode influenciar drasticamente o panorama agrícola, dominado por culturas como algodão, soja e milho.
No mercado paralelo, a maconha desempenha um serviço ótimo ao capital, cria instrumentos de controle dos mais pobres, cria espaços financeiros para lavagem de dinheiro e fluxos de riqueza não rastreáveis, fortalecendo estruturas de poder substanciais. No entanto, devemos questionar se esse mundo que queremos? Vamos seguir vendo as coisas andarem soltas por aí e gente pobre morrendo? verdadeiramente desejamos permanecer passivos diante do sofrimento dos menos afortunados, enquanto os mais ricos desfrutam sem restrições legais ou morais. Isso não é uma perspectiva de sociedade aceitável.
A descriminalização da maconha apresenta uma oportunidade de aprimorar até o controle de forma muito mais eficiente! Num país como o Brasil, essa medida inseriria a maconha na discussão sobre saúde pública.
Por outro lado, é válido mencionar a associação entre o uso da maconha e o risco de esquizofrenia, ou outros males causados por ela. No entanto, esse risco não é diferente do que observamos em relação ao tabaco, que amplia as chances de enfisema, ou ao álcool, que contribui para a cirrose. Analogamente, problemas de saúde pública como burnout, depressão e outros são agravados por diferentes fatores, como condições de trabalho precárias ou desemprego persistente. A ciência médica é a chave para lidar com essas questões.
É inegável que o debate sobre a maconha enfrenta dificuldades nos estratos sociais mais pobres, pois é justamente nesse território carentes que o Estado não consegue chegar. É nesses ambientes onde a qualidade dos serviços de saúde é deficiente que a maconha, assim como outras substâncias, tende a ser utilizada de forma descontrolada e criar mais prejuízos comunitários, gerando um imaginário do senso comum que se cristaliza. Nesse contexto, a ilegalidade é explorada como uma ferramenta de exploração econômica pelo sistema.
A comparação entre diferentes estratos sociais também é relevante. Um pai de família pobre, que se torna alcoólatra, provavelmente enfrentará um destino mais severo do que um pai de classe média ou rico, que tem acesso a melhores cuidados médicos e uma rede de apoio mais sólida. Para muitos de nós, médico é aquele cara que só conhecemos quando estamos perto do leito de morte, nas portas de uma emergência ou UTI. Só recente que os médicos de família conseguiram furar uma bolha cultural.
Nem toda política de Estado deve agradar a todos; isso seria populismo. O objetivo de uma política de Estado deve ser a caminhar para um lado popular. Embora a legalização da maconha possa ser cooptada pelo sistema capitalista, é viável que com pequenos ajustes institucionaliza a economia que gira por fora dos fiscos e sistemas de controle financeiro, ela pode se tornar uma grande ferramenta nacional de equidade e socialização nacional. Penso que a descriminalização, fazendo parte um programa abrangente de saúde pública, possa contribuir para a produção agrícola, a indústria farmacêutica e têxtil, além do entretenimento, de forma a abordar problemas sociais complexos, como a violência urbana decorrente do mercado ilegal.
Mercados ilegais frequentemente estão associados a níveis mais altos de violência. Se até mesmo o guaraná antártica fosse proibido, logo surgiriam pontos de venda clandestinos protegidos por segurança privada, competindo por áreas de alto valor econômico. A analogia serve para ressaltar que a descriminalização das drogas traz consigo a ação de desmilitarizar as narcocidades e campos e, no mínimo colocar em visibilidade a relação capital-trabalho que envolve esta pauta. Se esta pauta tiver conectada em um programa que vislumbre a ruptura da contradição capital-trabalho e da hiper acumulação de renda em cima da maioria do povo, melhor ainda! não apenas reduziria a violência, mas também permitiria uma abordagem mais ampla das questões sociais, com a possibilidade de uma inserção estratégica da cannabis na economia e sociedade do país.
Concluindo, é crucial associar a descriminalização da maconha a um plano de desenvolvimento estratégico social, incorporando-a em todas as esferas do país. Isso evitaria a repetição de erros do passado, como a abolição da escravidão sem uma estratégia de inclusão socioeconomica da população negra. O processo de descriminalização e legalização deve ser planejado, considerando suas implicações econômicas e sociais, com o objetivo de transformar a relação entre capital e trabalho e reduzir a desigualdade.
Mesmo que pareça que o debate pertença só a um nicho estereotipado de população, ao benefício do usuário de classe média ou outros, o que pretendi apontar foi o quanto a descriminalização pode movimentar dentro do sistema: da agricultura familiar ao agronegócio, a indústria, os mais pobres, usuários ou não, envolvidos direta ou indiretamente. O Brasil e qualquer país se beneficiaria muito ao ajustar as ferramentas de controle, orientação e tratamentos necessários. Descriminalizar também é sobre isso! O oba oba que os moralistas tanto temem é o que já acontece com as drogas ilegais, onde os pobres morrem na ponta do fuzil enquanto os ricos se divertem em suas festanças liberais.
Para ilustrar simbolicamente essa discussão, compartilho uma imagem de meu pequeno pé de Mertiolate. Meus amigos que consomem maconha sabem que ela não é uma planta de cannabis, mas os amigos não usuários frequentemente têm essa impressão, e assim, o pé de mertiolate pode ser perseguido por pura falta de conhecimento. Essa experiência destaca a importância da percepção pública e das narrativas construídas em torno de determinados temas.
A crise da construção civil traz à tona o discurso de desregulamentação do salário-mínimo profissional de arquitetos e engenheiros. Entre os argumentos mais falados entre arquitetos (leiam, entre nós) sempre se citam os pequenos escritórios que não conseguem arcar com os custos empregatícios de profissionais devidamente registrados. Me aterei a esse recorte no momento.
Estes mesmos pequenos escritórios sofrem também com a tributação excessiva e com os gastos em softwares e hardwares para manter-se vivos, e isso denota uma coisa importante: a crise não é por conta do trabalhador, mas por conta da má inserção do arquiteto no universo jurídico empresarial do Brasil. Quaisquer escritórios são tratados e vistos como uma construtora ou grande empresa de consultoria e não pelo perfil do profissional liberal como médicos ou psicólogos, que podem ter seus pequenos consultórios.
Sobre o caso do trabalhador no ramo de serviços, há uma questão viável de se fazer, os arquitetos podem compor um contrato civil entre as partes e ser pagos por prestação de serviços, o que isso acarreta é basicamente uma mudança de cultura de trabalho, pois não caberia mais a cobrança por CLT e sim por serviço entregue, visto que não há vínculo empregatício.
Quanto aos tributos, este sim é o grande entrave que ninguém aparentemente quer tocar. Inventam-se meios e subterfúgios, mas a realidade é que um pequeno escritório NÃO DEVERIA SER TRIBUTADO COMO UMA GRANDE EMPRESA DO CAMPO DA CONSTRUÇÃO CIVIL. Ao que parece a reforma tributária não prevê uma mudança nisso, correndo ainda o risco de haver uma maior tributação sobre o profissional liberal e com isso uma pane no campo da profissão.
Como, diferente da engenharia, que se manteve no canteiro de obras e se fortaleceu enquanto categoria hegemônica na construção civil pesada e na indústria, os arquitetos se tornaram um item de serviço que muitas das vezes se vende pelo luxo e pela exclusividade. Isso para o mercado é um prato cheio a favor da precariedade, nós mesmos criamos um campo oferta e demanda de serviços que é muito mais de nicho social que de massa.
Somado a isso tudo ainda temos os altíssimos custos de um sistema de ferramentas que nos cabem: pacotes proprietários de softwares que cobram preços anuais astronômicos por exemplo. Todo o desenho de sistema é dado para que se crie alguns pouquíssimos grandes conglomerados de projeto. Como um campus industrial da arquitetura e urbanismo, que aglutinará projeto, gerenciamento e acompanhamento de obras. Estes subcontratarão arquitetos por pequenas demandas (encaixando legalmente na lógica de contrato civil). Com isso, a hegemonia de controle da profissão estaria completamente domesticada por meia dúzia de grandes bilionários no mundo a fora. Não é ilusório pensar nisso em um planeta onde a disputa de controle territorial é travada de forma cada vez mais severa.
Assim, retomo uma tecla que sempre bato, o que o brasileiro médio não consegue compreender é que o recorte classista da sociedade inclui ele – o pequeno profissional liberal – no balaio dos explorados, para que uma casta de grandes donos de capital consiga manter seus privilégios.
No campo ampliado da arquitetura, o projeto parece claramente o mesmo de sempre: a constituição e manutenção de um determinado grupo privilegiado que, ainda assim, sofrerá danos materiais. Estes danos serão repassados em uma manifestação contra os donos do capital do Brasil? Provavelmente não, estes irão estourar na massa de arquitetos sem sobrenome famoso no meio, sem dinheiro e contatos para ir a congressos e afins, arquitetos estes que acabarão hiper explorados ganhando salários de estagiário premium e muitos destes quietos pois sonharão que um dia pertencerão ao tal ciclo privilegiado. Porém, sem um embate real com as políticas trabalhistas vigentes, a tendencia é isso virar um ciclo vicioso de escritórios mambembes que entregam projetos e obras de pouco esmero realizados por trabalhadores hiper explorados e nada recompensados (nada muito diferente do que já acontece na educação com as escolas privadas).
Este é o charco diário na cabeça do trabalhador. Ainda somos uma categoria que se enquadra numa certa classe média brasileira, e infelizmente isso coloca as possibilidades reais de luta em uma letargia sem fim. Vamos seguir tomando prosecco no último baile da ilha fiscal enquanto o Brasil pega fogo.
O trabalho autobiográfico de william professor, ao contar a história do nascimento do chamado Comando Vermelho desmistifica de forma muito simples algumas distorções que vislumbramos no senso comum.
Destacando algumas:
A primeira delas, o tal encontro entre presos políticos e presos comuns passa meio periférico no livro, demonstrando que pra professor este não foi um eixo fundamental.
Notar isso é importante em um país onde até esta história perpassa trazendo no imaginário uma espécie de encontro de iluminados fazendo um trabalho de base.
O eixo que professor demonstra com força é o fato de que sob a lei que prendia os presos políticos, pessoas que não participavam de nenhuma organização também sofriam das penas mais severas, porém, quando veio a anistia, a materialidade do racismo e classismo brasileiro se via no fato de que os presos políticos sairam e os presos comuns ficaram (embora ambos assaltasse bancos por exemplo).
Entre outros, professor demonstra como a construção do chamado Comando nasce mais em função da estrutura de repressão do estado e da necessidade deste criar um inimigo do que de um desejo das lideranças. Desejo este que fica sempre claro: conseguir a liberdade.
O livro é um papo reto, retíssimo, destes que a gente não gosta de ter por aí e por conta disso seguimos navegando no meio do racismo que marginaliza criando dicotomias que não solucionam nada.
Ler esta obra faz pensar muito, até detalhes que parecem bobos como a baixa presença de Bezerra da Silva nos setlists das rodas de samba.
Reflito como a gente cria imaginários de uma pretensa pureza ideal para tentar combater a máquina de propaganda racista que vende uma parte significativa da sociedade como criminosa, membros de facção, etc. Esquecemos de lidar com o humano das pessoas e com a materialidade dos problemas.
Por enquanto só esses pitacos, o livro é muito maior que isso e por isso recomendo muito.
Pouca coisa é mais terrível no debate de formação e de cultura dos subúrbios que o apagamento do protagonismo negro na construção do solo.
É comum contarmos a história da paisagem suburbana vinculada ao imaginário das casas de porte neocoloniais, na formação dos trabalhadores fabris, em geral imigrantes europeus e na glória de grandes beneméritos que investiram num lugar.
Concordo que seja plausível contar a história da Zona da Leopoldina citando nomes como Capitão Baltazar, família Nunes ou Álvaro da Costa Mello, porém esta leitura esconde a força que riscou o chão sendo capaz de consolidar a peculiaridade e identidade que o abraça.
Era na festa da Penha que os citadinos espacializavam a região. Os escravizados ocupavam a base da pedra e ali construíam sua realidade, seus batuques, sambas, rodas de capoeira. A festa da Penha fora por séculos um fervo de expressão cultural com impacto geográfico. O mesmo porto que escoava a produção agrícola, trazia romeiros. A rua dos Romeiros demarca até hoje em traçado o encontro do mar (do porto maria angu quem sabe) até a Penha onde fora erguida a Igreja.
Nos importa lembrar sempre que: Penha não é Vila da Penha, ambas são fundadas por “penhas” distintas diga-se de passagem. Apesar disso, se encontram na avenida da arte. Noel, que era de outra Vila muito cantou sobre a Penha. Fico a pensar que anos mais tarde, a vila de Noel leva um dos mais imponentes sambas enredos do carnaval para a passarela Darcy Ribeiro. Seu compositor, Luís Carlos que era da Vila da Penha. Alguma coisa realmente acontece na nossa vida quando a gente cruza a esquina da Rua dos Romeiros com a Brás de Pina, admiramos o Parque Shangai e sua jóia de carrossel, gostamos do comércio e vemos o povo nos corres do BRT, do alto Nossa Senhora da Penha nos observa quieta.
Os pés que marcaram a rua dos Romeiros definiram o traçado urbano daquela região antes mesmo que qualquer administrador público o fizesse oficialmente. E quem haverá de contestar? Claro, esta não é uma história romântica, é a história crua de formação de uma região onde a repressão sempre foi forte. Apesar de tudo, o chão da Leopoldina venceu e seu povo segue resistindo através dos seus modos de habitar.
A Penha, como qualquer recorte de Rio de Janeiro, representa em alguma escala esse emaranhado que compõe o solo brasileiro. Aqui faz-se legal rememorar Espírito da Luz, o sambista anônimo de Rio Zona Norte que coloca o dedo na ferida do recorte geográfico etnocentrado no homem branco médio. Em tempos em que buscamos um novo marco civilizatório, é imprescindível que histórias como esta sejam contadas sem o enviesamento da branquitude. É, entre outros, a festa da Penha, o aquilombamento, a sociabilidade, dos negros que viabiliza o uso e a ocupação urbana da zona da Leopoldina e não o contrário. É através da força deste povo que esse território ganha valores culturais capazes de torná-lo especial, singular e aprazível.
Nossa terra tem palmeiras onde canta o sabiá, já dizia o poeta, embora a sabiá que mais ouvi cantar nasceu fruto de uma jaqueira em Oswaldo Cruz bem pertinho de Madureira. São muitas as árvores da nossa vida, assim como são os sabiás que por aí avoam, bem como muitas são nossas bandeiras. Cresci sob a sombra de uma amendoeira que infelizmente a civilização torpe assassinou, toco tambor sob a benção da Tamarineira que um cacique um dia plantou.
Minha bandeira não é vermelha ou verde e amarela, esse país do medo cansou. Minha bandeira é verde e amarela, mas também é vermelha sangue, mas também é azul e branca, verde-branco e grená, branco e vermelho era a bandeira de meu avô e trago também no coração, como bom neto de Bangu que sou. Não me interessa mais a política dos corpos tristes e amedrontados, o Brasil é maior que isso e sinto muito os amantes do passado, o Brasil não cabe em uma bandeira só. Sâo tantas as bandeiras que me dariam esperança em um mundo novo, que seria impossível fazer cabê-las aqui.
Quero ver caminhando comigo aqueles que estão felizes por ganhar uma copa latino americana flamulando suas bandeiras preto e vermelhas, quero ver pular de alegria os cruz maltinos por saírem do sufoco, e que brilhe a estrela solitária assim como terá de brilhar a estrela vermelha em favor do povo. Aos que estão com medo, aos que estão com raiva, não me levem a mal, mas não dá pra enjaular o universo de dores e alegrias que somos dentro de suas caixas pré-montadas que já não respondem a realidade da humanidade.
O Brasil ameríndio, negro, favelado, macumbeiro nunca coube nos comerciais de margarina, nunca tomou o café da manhã da Xuxa e nunca teve a cozinha da Ana Maria Braga. Somos uma espécie de Macunaímas subversivos. Foi esse Brasil que ficou sem vacina a tempo, que morreu e que deu um não ao projeto de poder de vocês. Esse Brasil que são muitos Brasis emaranhados não escolheu o Lula por que o idolatra, mas o escolheu principalmente pra dizer um não a vocês. Esse projeto de poder antiquado, que funciona na base do encarceramento, do terror, de enquadrar e enjaular. O povo sofrido já sabe como lidar com o bico do fuzil (infelizmente) e não vai cair nesse terror barato, podem armar o alçapão a vontade.
E nessa terra que, além de Palmeiras, tem Corinthians que abre os caminhos na paulada, vocês ainda tem muito o que aprender com os povos originários, a começar que a vida dos sabiás não cabem numa gaiola. Não fomos feitos para ficarmos nas suas jaulas, mas para voar livres.
A principio, sigo a plantar as sementes nessa tentativa de construir um universo tão plural e diverso onde posso ver livres e felizes todos sabiás, curiós e uirapurus. Aos que se acham os representantes da verdade, da pátria e de Deus, aos que se acham capazes de reduzir o Brasil a duas cores, sinto muito desapontá-los porém, são infinitas as cores que compõem os sonhos do nosso País.
E no mundo onde livre cantarão os sabiás, deixo um recado da sabiá que encantou os filhos da jaqueira:
“Não temo quebrantos Porque eu sou guerreira Dentro do samba eu nasci Me criei, me converti E ninguém vai tombar a minha bandeira”.
Assim como Assis não seria o mesmo sem Washington e Zico não seria o mesmo sem Júnior em campo, o debate da band mostrou o óbvio: faltou à esquerda neste ano o contrapeso e contraponto nos debates. O que parece ter transparecido: independente do que apareceu, as forças a direita já venceram esta eleição.
A esquerda se enterrou em um projeto único, embora tenhamos candidatos que se puseram na disputa, estes não passarão de 1%, pois a concentração está no projeto de poder do PT. Um projeto cuja contradição habita no fato de que: materialmente é a continuidade do sistema neo-liberal, cuja representação do acordo está no vice: Geraldo Alckimin, porém simbolicamente tem que se apresentar com a tinta de esquerda.
O debate mostrou a fragilidade da unidade personalista, enquanto a direita mostra seus mil tons e dá a oportunidade de seus eleitores escolherem o melhor gestor do pacote, a esquerda perdeu inclusive a possibilidade de dialogar sobre os temas mais delicados às pautas. Não tivemos um candidato falando de reformas estruturantes, de fim de teto de gastos, de recuperação dos direitos trabalhistas perdidos. Lula fala de dar MEI para entregadores quando deveria falar de dar emprego que os tire da precaridade.
Ciro, apresenta de forma muito tímida seu projeto de nação, fala em escolas sem falar no projeto de educação verdadeiramente emancipador, porém remete sempre ao povo que leia o seu projeto (o que sabemos que não acontecerá rs). Tebet tenta se posicionar como uma novidade, embora venha carregada pelo MDB, esta máquina de fisiologismo. Soraia e Dávilla parecem perdidos. Ainda assim, estes nomes: dávilla, tebet, soraia, pautaram e deram o tom do debate ao amplificar muitas vertentes de uma lógica liberal contemporânea de pensamento.
Ciro tentou debater o modelo de nação que temos, questionando o sistema político do Brasil que basicamente conforma o terreno para a corrupção como ferramenta de governabilidade. Cita o desenvolvimentismo, mas não explica bem o que significa e que diferenças tem do modelo atual e se foca muito na pauta de resolver a vida dos endividados, o que é super possível de fazer, porém é uma ação pontual dentro da proposta ampla de governo que nós esperamos conhecer.
Lula estrategicamente se focou em falar das benesses de seu governo, porém tropeçou quanto ao questionamento sobre o que será um Lula 2023? Ao invés de apresentar a proposta de saída retoma o básico: eu fiz isso eu fiz aquilo. Para o povo em geral, em especial quem acompanha debate, isso pouco significa pois todos sabemos que 2023 não é 2003, tem uma geração inteira na vida adulta que sequer viu FHC ser presidente.
A ausência de outras vozes de esquerda foi notória demais para o próprio campo que agora está se questionando. Este é o projeto, a escolha equivocada de movimentos e partidos de esquerda que decidiram por se apequenar nesta eleição e que agora reclamam inclusive do crescimento do neoestalinismo, que se apresenta como alternativa crítica pelo viés da esquerda. Claro que foi tático da emissora não convidar Leonardo Péricles (UP), Vera Lúcia (PSTU) e Sofia Manzano (PCB), sabemos que é de praxe. Isso levou o debate a transparecer, para o povão, como sendo: o Partido Novo ocupando o lugar que até então era do PSOL, levando assim a discussão para o espectro mais liberalizante possível.
O debate mostrou o interesse de três projetos de Brasil: um projeto neo-liberal que mantém o sistema pelo viés financeiro com base no agronegócio e outras comodities, isso é muito representado pelo Lula/Alckimin, Bolsonaro, e talvez Tebet, um sistema neo-desenvolvimentista que Ciro trouxe mas não explicou bem e um sistema utópico super liberal trazido por Soraia e Dávilla.
Ainda em tempo, curioso notar como o projeto de Dávilla e Soraia é antiquado, nem os capitalistas defendem isso a vera pois já sabem que é muito mais interessante ter o aporte robusto do Estado a seu favor e gerenciar apenas os lucros do negócio. Essa é uma das premissas de existência das parcerias PPP e é justamente para isso que o agro faz bancada e lava dinheiro com eventos de entretenimento.
Vangloriar o agronegócio como força motriz do Brasil é um equívoco, pois ele só está neste patamar porque somos um país sem desenvolvimento industrial nacional desde que o Plano Real foi aplicado. O povo passa fome enquanto produz alimento industrializado por aí. A gente (quem pode pagar) bebe soro químico embalado como leite a preços exorbitantes e entramos num ciclo vicioso que só está trazendo mais desemprego e fome.
O que vivenciamos foi um debate muito despolitizado, cujos temas mais necessários ao povo não foram sequer tocados, um show de horrores de pessoas que estão distanciadas demais do povo mais pobre. O Brasil seguirá na incógnita e isso nos obriga a trabalhar mais firme em pró de saídas que não estão tão dadas assim.
Algumas palavras caem no senso comum e vão ganhando formas diversas enquanto se perdem no seu conceito. Assim aconteceu com sustentabilidade, assim está acontecendo com o empreender.
Em nome de um sistema de marketing que pretende transformar o ato de empreender em um padrão natural, quase uma essência humana, vamos criando máscaras e distorções históricas tremendas. Uma delas é dar o ar científico do termo ismo a palavra, e outra delas é investigar o ato de empreender como um ato a-histórico, atemporal, como se o conceito existisse desde nossos primórdios.
Primeiro precisamos entender que um conceito é cunhado e consolidado quando um certo conjunto de possibilidades e significações corroboram com isso. Em sociedades como as primitivas, ou mesmo na era do bronze, o conceito de empreendedor não cabia. O que falamos aqui é algo muito similar com as tentativas forçadas de vincular Jesus ou os indígenas ao comunismo marxista. Ainda que não haja uma definição unanime sobre o conceito de empreendedorismo, alguns dados são bem-vistos, entre eles a capacidade potencial de inovar em algo assumindo os riscos.
A problemática da discussão do empreendedorismo se dá quando analisamos processos complexos de inovação apenas a partir dos indivíduos que centralizam a gestão ou liderança do processo sem assumir que estes processos são uma construção de corpos coletivos (direta ou indiretamente). A busca de competitividade e inovação constante fez com que aumentasse o grau de investimento do sistema em empreender o que materialmente é muito bom. O ponto crítico está justamente em um simbólico que implementa em torno de algo amplo e social a um homem. Brecht em seu famoso poema: “Perguntas de um trabalhador que lê” já alertava a esta crítica, questões como:
“No dia em que a Muralha da China ficou pronta,
Para onde foram os pedreiros?
A grande Roma está cheia de arcos-do-triunfo:
Quem os erigiu? Quem eram aqueles que foram vencidos pelos césares?”
Nenhuma sociedade, nenhuma aventura humana na terra, se reduz aos seus ícones e heróis. Os próprios estudos sobre inovação contemporânea já compreendem a importância capilar de todos aqueles que estão vinculados nas redes envolvidas na construção dos seus caminhos. O problema é que, refletir esta materialidade dos fatos rompe com um simbólico fundamental de sustentação do sistema que também é antiquado, a construção do incone-herói.
O que o sistema faz no lugar disso é construir uma série de novas significações para empreendedor, entre elas quaisquer enfrentamentos na vida que envolvam risco e autossuperação vira automaticamente ação empreendedora. Com isso tentam igualar romanticamente o camelô que vende bala numa luta hercúlea pela sobrevivência com um Elon Musk, cuja herança o permite investir nas mais diversas experimentações globais e interplanetárias.
Casos como o dos camelôs não são empreendedorismo, são luta pela sobrevivência mesmo em um país que não promove o mínimo de direitos civis dignos pra seus cidadãos. Por sua vez o empreendedorismo como construção social pode nascer de um pacto social importante: investimentos pesados do Estado em P&D, valorização dos polos de desenvolvimento tecnológico e de desenvolvimento social, fortalecimento da educação de base garantindo o olhar mais realista e humanista sobre o Brasil e estrutura social digna para que o povo tenha tempo de estudar e se desenvolver.
É necessário que entendamos de vez que os grandes e famosos empreendedores do mundo não foram pessoas avulsas, mas sim pessoas que conseguiram articular uma gama de sorte e possibilidades em torno de si e que seus grandes empreendimentos nunca teriam saído sem a lapidação e suor de muita gente, dos faxineiros das empresas até o presidente da república de alguns países. No fim, o empreendedorismo mesmo é consequência de uma ação coletiva de sociedade disfarçada de uma ação individual refletida em uma liderança.