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UE–Mercosul e o risco de esmagar a agricultura familiar

Quando o comércio corre mais rápido do que a justiça territorial, quem tropeça primeiro é quem pisa no barro.

Estrada

A enchente levou a estradinha de terra batida. No dia seguinte, o atravessador apareceu com o caminhão-baú e um papel na mão. “Sem esse documento, você não vende.” E, como diria Ana Castela, “acreditei que era herói, mas é bandido”.

No dia 9 de janeiro de 2026, o Conselho da União Europeia autorizou a assinatura do acordo UE–Mercosul. Para quem não acompanha: é um acordo de livre comércio que pretende reduzir tarifas e ampliar cotas entre os blocos, mexendo com o que cada lado vende e compra, principalmente agro e indústria. Visto do alto, parece diplomacia com elementos interessantes. No chão, porém, é disputa: preço, rota, contrato, e a terra rural voltando a ser peça do tabuleiro do capital.

Fresta


No Brasil, quem corre o risco de receber esse vendaval pela fresta é um ente imenso e pouco fotografado: a agricultura familiar. O Censo Agro de 2017 aponta mais de 10 milhões de pessoas ocupadas nisso e cerca de 23% do valor da produção vindo daí. Isso não é detalhe, é estrutura social de país. É renda circulando em cidade pequena e média, feira, caminhãozinho, escola rural, estrada de terra. É território respirando baixo, enquanto o agronegócio faz show com telão.

A primeira tensão nasce rápido. Se essa janela comercial aumentar o apetite por commodities, a terra encarece, o arrendamento endurece, a fronteira produtiva ganha força. O pequeno produtor, sem colchão financeiro, sentirá como água entrando pela soleira. A desigualdade no campo não chega com anúncio. Chega como “o preço do hectare”, “o vizinho vendeu”, “o atravessador apertou”. Chega como chuva que enlouqueceu, enchente onde era seca e, às vezes, sorrateira como tocaia de jagunço.

O Brasil traz uma notícia ambígua. Houve redução do desmatamento divulgada pelo PRODES. Respiro diante das tentativas de passar a boiada. Mas a economia que empurra o desmatamento é rede, e rede muda de humor com o mercado. Tem grilagem, licença duvidosa, legalidade convivendo e negociando com ilegalidade. E governança que evapora quando a renda da terra chama.

A Europa tenta colocar freio na própria fome de importação. A regra antidesmatamento exige diligência e rastreabilidade: produto “desmatamento zero”, legal, rastreável até a área de produção. Só que a própria UE vem adiando e revisando prazos porque sabe o peso operacional disso tudo. Agora imagine essa exigência aterrissando na América do Sul, onde o Estado muitas vezes chega tarde, e o atravessador chega cedo.

ESG não enche o prato

E aqui aparece a segunda tensão, silenciosa e cruel. Como fazer justiça ambiental num país que nunca pagou a dívida da reforma agrária? Rastreabilidade é necessária, sim. Eu não romantizo cadeia produtiva submersa, desenhada em Brasília nos gabinetes do agro. O problema é o Brasil real. O grande ajusta a exploração por compliance, como quem vive passeando de ponte aérea. O pequeno paga seu labor como quem compra botijão no desespero, no fim do mês. E quando não consegue, some da cadeia formal: vira refém de intermediário, vende mais barato, trabalha mais para sobrar menos. Quando vira marketing, “verde” vira barreira de entrada. O selo verde brilha, mas o prato do povo continua vazio.

Daí o paradoxo: a floresta em pé aparece como narrativa, mas quem entra decisivo no mercado global é quem já tinha estrutura, advogado, crédito barato e uma geografia montada a seu favor. Leia-se: latifúndio, lastro e poder.

Uma imagem simples, quase como se Jane Jacobs tivesse crescido no interior do Maranhão. Um satélite olha a Amazônia enquanto um homem olha a própria cerca. O satélite mede quilômetros quadrados. O homem mede dias de chuva, preço do adubo, a dívida do mês. Quando a política internacional só enxerga o satélite, atropela a escala da vida. Quando só enxerga a cerca, fere a escala da Mãe Terra. Falta olhar de chão, de dentro do território, e talvez principalmente de quem não tem nem satélite nem cerca.

Aqui já não cabe o maniqueísmo de vitrine que virou a política eleitoreira. Livre comércio versus protecionismo. Ambientalismo versus produção. O problema é a velocidade voraz do capital sobre a terra. O comércio corre, a governança territorial anda, e o pequeno produtor tenta pegar um trem que já saiu, carregando documento, nota fiscal e a esperança básica de não passar fome.

Contrapartida

Se a gente quiser falar sério de Sul Global, sem romantizar pobreza e sem engolir propaganda de “modernização” que sempre chega junto do capital, o papo é reto: como impedir que esse acordo vire motor de concentração territorial? Como evitar que o campo pobre e a floresta voltem a ser zona de sacrifício, agora com etiqueta reciclável e selo ESG?

A resposta, a meu ver, não é instagramável. É infraestrutura pública. Rastreabilidade precisa ser serviço público, cooperativo e territorializado: cadastro georreferenciado acessível, assistência técnica forte, cooperativas, consórcios municipais, plataformas de governança simples que virem prática campesina, não burocracia. Se o mundo exige geolocalização e diligência, o Estado precisa entregar ferramentas ao povo para isso não virar exclusão.

E aqui entra o urbanismo, no sentido mais político da palavra. A cidade consome sem ver a origem, especula a terra e terceiriza o custo social do alimento. A gente pega a carne no freezer e não vê o sangue vertido. Se a agricultura familiar é base social, ela não pode virar refém do humor do mercado externo ou de chantagem logística. CEASAs, mercados municipais, cozinhas públicas, logística curta. PNAE e PAA como programa de país, não apenas de governo. Escola pública e hospital público como compradores regulares de cooperativas e agricultores familiares, com contrato estável e rota planejada são alguns caminhos.

O UE–Mercosul é uma operação territorial transcontinental: gera valor, especulação e espalha impacto. E uma operação territorial deste porte exige contrapartida política. Uma contrapartida concreta possível para o Sul é criarmos um programa público que priorize a agricultura familiar, articulado a uma política urbana de alimentação do povo pobre. Sem contrapartida realmente popular, o acordo corre o risco de virar atalho para a riqueza passar correndo na sua lógica de extração, enquanto o pobre do campo fica no acostamento, vendo a vida se desfazer no pó da estradinha de terra batida.

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Praça Onze Maravilha: entre o fetiche e a captura

Dia da Consciência Negra. No palco de um evento tradicional do Estácio, a prefeitura escolheu um estranho roteiro simbólico: usar uma celebração da memória negra para lançar mais uma operação urbana. Batizada de “Praça Onze Maravilha”. O nome tenta acenar para a história; o conteúdo, porém, repete a velha fórmula da cidade-negócio.

Enquanto Porto Maravilha ainda patina com edifícios vazios, terrenos cercados e pouca vida cotidiana real, a prefeitura apresenta mais um experimento com o mesmo DNA: criar valor construtivo para operações imobiliárias, embrulhado em discurso de “revitalização” e “cultura”. A lógica é conhecida desde o Estatuto da Cidade: produz-se solo criado, vende-se potencial construtivo, atrai-se capital financeiro, promete-se urbanidade, mas esta nunca vem. Na prática, entrega-se um pacote de adensamento, edifícios inexpressivos e usos sazonais, desconectados da vida de quem sustenta aquele território, outrora esquecido, no dia a dia.

É importante lembrar onde estamos pisando. A área da antiga Praça Onze, berço do samba, território de negros, pobres, ciganos, imigrantes, já foi estraçalhada várias vezes em nome da “modernização” global do Rio. A Avenida Presidente Vargas demoliu casas e modos de vida inteiros. O viaduto 31 de Março aprofundou o rasgo social e urbano. O que antes era território de compartilhamento, festa, trabalho e moradia virou corredor de passagem rápida, cheio de vazios e cicatrizes. Agora, o projeto chega mais sofisticado: menos demolição direta, mais captura simbólica. Usa a cultura negra como cenário de fundo para abrir caminho a uma nova rodada de valorização fundiária voltada para os de cultura branca.

Dentro desse pacote, surgem dois equipamentos que, vistos isoladamente, me parecem potentes: a Biblioteca dos Saberes e o Centro Cultural Rio-Áfricas. São ideias que, em outros arranjos urbanísticos, podem fortalecer um verdadeiro direito à cidade, à memória e à produção de conhecimento a partir das periferias negras. Aqui, porém, surgem como âncoras de um tabuleiro imobiliário vazio de lógica inclusiva. Servem para dar verniz “afro” a um modelo que já conhecemos bem no Porto Maravilha: torres adensadas, arquiteturas genéricas, usos voltados para turismo, escritórios e moradia temporária, com pouco enraizamento comunitário. O projeto peca não apenas no processo econômico que o viabiliza, a própria lógica do projeto parece não compreender bem a dinâmica daquela região, sequer no seu apogeu funcional: o Carnaval.

À primeira vista, pode parecer que funciona. É uma região atravessada por megaeventos sazonais, shows, carnaval e desfiles na Sapucaí. O problema é justamente esse: a cidade-espetáculo encobre a cidade real da mesma forma que os camarotes não veem o que acontece embaixo do Balança mas não cai. A operação urbana não se pergunta o que acontece no Catumbi numa terça-feira chuvosa de março, quando não há bloco, não há show, não há turista, assim como o Viaduto 31 de Março também não perguntou. Não enfrenta as condições de moradia precária nos arredores, a informalidade do trabalho, o transporte caro e ineficiente, a dificuldade de acesso a serviços públicos básicos. Repete-se o que já aconteceu no Porto: milhões investidos no cenário, pouca transformação estrutural na vida de quem mora e trabalha por perto. E que loucura, com quilometros de praça criada ao longo do cais, resolvem inventar um parque em uma ilha artificial com uma entrada só. Saudades do velho Niemeyer que pensou ao menos que as estruturas do sambódromo abrigariam escolas públicas nos demais dias do ano.

A dinâmica social de formação do Rio segue exibindo suas feridas abertas. A cidade insiste em tratar seu espaço como ativo financeiro, não como infraestrutura de vida cidadã. Em vez de assumir a urbanidade: rua, praça, transporte, moradia digna, equipamentos públicos robustos como base concreta para reconstruir vínculos, a prefeitura aposta em mais uma operação que empilha metros quadrados vendáveis para uso de airbnb. A memória negra, a cultura popular e a história da Praça Onze aparecem como logomarca, não como sujeito político de decisão.

Criticar um projeto como o “Praça Onze Maravilha” não é ser contra cultura, nem contra novos equipamentos urbanos e arquitetonicos. É exigir que não se repita o ciclo em que a cidade negra é usada como palco, mas segue excluída da plateia e dos lucros. A Cury os lucros, aos povos negros a bala de fuzil, triste corolário desta cidade.

Pergunto-me honestamente: alguém debateu abertamente este projeto com os moradores da Rocinha, do Alemão, da Maré? descendentes diretos dos processos de exclusão e massacre desta cidade. Se a intenção fosse realmente construir um outro modelo, o ponto de partida seria ouvir e integrar quem já está ali e sua ancestralidade: blocos, terreiros, escolas de samba, moradores, trabalhadoras e trabalhadores que, há décadas, seguram o cotidiano que não sai na foto oficial.

Foi um evento bonito, fico grato pelo convite recebido, mas, em um evento onde a Arquitetura assumiu centralidade no debate de luta contra o massacre negro desde tempos escravagistas, é necessário que eu enquanto arquiteto tenha responsabilidade sobre o fazer e teça a crítica necessária para que o massacre não se repita no material e subjetivo. Ainda há tempo de fazer uma ação mais coerente e inclusiva, tendo como protagonista a necessidade real do nosso povo. Arquitetura e Urbanismo é escolha política, esta frase foi falada inclusive pelo vice-prefeito! E sobre isso complemento: escolha política têm cor, classe e território.

Tenhamos cuidado ou a Praça Onze seguirá como metáfora cruel: o lugar onde a cidade celebra a negritude no discurso e no fetiche, enquanto reorganiza o espaço para expulsá-la, mais uma vez, na prática material.

Masterplan da Praça Onze Maravilha

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Governança em Metrópoles: O Rio de Janeiro e uma Transição Possível para Redes Distribuídas

Este texto propõe uma pequena análise ensaística ou de opinião sobre a crise institucional enfrentada por metrópoles contemporâneas, com especial atenção ao caso do Rio de Janeiro. A partir das discussões em aula realizada no curso A inteligência do espaço-tempo e o stress global e da teoria desenvolvida por Robin Dunbar que fora citada, sugere-se aqui uma pequena reflexão acerca dos limites cognitivos e organizacionais que moldam a governança urbana. Ainda que não se trate de um modelo absoluto, a teoria de Dunbar oferece um ponto de partida relevante para pensarmos os desafios atuais de gestão em cidades de grande porte.

Robin Dunbar, antropólogo britânico, propôs que existe um número máximo de relações sociais estáveis que um indivíduo é capaz de manter é de aproximadamente 150 pessoas. Conhecido como “número de Dunbar”, esse limite marca o ponto em que formas de organização social baseadas apenas em vínculos informais e confiança direta tornam-se inviáveis. A partir desse ponto, a complexidade social crescente demandaria a construção de instituições formais para manter a coesão e a funcionalidade do grupo. Mesmo que não tomemos esse número como exato, ele nos permite levantar uma questão fundamental: todo sistema organizacional possui um limiar a partir do qual precisa se tornar mais sofisticado para manter sua capacidade de governança.

Assim, podemos sugerir que tais instituições formais atualmente conhecidas por nós também enfrentam limites operacionais. Diversos estudiosos apontam que, em populações acima de 1 a 10 milhões de habitantes, os custos de manutenção institucional tendem a superar os benefícios, gerando ineficiência, sobrecarga burocrática e vulnerabilidades estruturais. Nesse ponto, os sistemas entram em risco de disfunção, colapso ou rupturas sistêmicas.

Essa problemática se torna plausível no contexto do Rio de Janeiro. Com uma região metropolitana que ultrapassa os 13 milhões de habitantes, a cidade opera em um grau de complexidade que supera a capacidade adaptativa de suas instituições centralizadas, construídas sob lógicas administrativas do século XX. A excessiva centralização do poder decisório, aliada à fragmentação territorial, à assimetria de informações e à lentidão das respostas institucionais, compromete a eficácia das políticas públicas e alimenta uma crise permanente de governança.

Nas periferias urbanas, como favelas e comunidades autogeridas, observa-se a formação de sistemas sociais quase autônomos, ou dominados por outras estruturas de poder, muitas vezes desconectados ou mesmo em confronto com os canais formais de poder consituído. Esses territórios, diante da ausência do Estado ou de sua atuação precária, tornam-se espaços disputados por múltiplos atores, legais ou não, que passam a exercer formas locais de governança mais ágeis e eficientes em seu escopo limitado. A perda gradual de controle institucional sobre o território fluminense reflete, assim, tanto a falência administrativa, como um descompasso entre o desenho das instituições e a complexidade do tecido social contemporâneo.

Redes distribuídas como alternativa estrutural

A ciência dos sistemas complexos nos oferece uma alternativa teórica e prática a esse modelo centralizado. Inspirada em estruturas biológicas e tecnológicas informacionais, ela propõe a reorganização da governança em redes distribuídas, sistemas com múltiplos centros de decisão, autônomos, interconectados por fluxos contínuos de informação e orientados por protocolos colaborativos.

Essa proposta poderia ser sintetizada em três linhas (a princípio):

  1. Descentralização inteligente: por meio da criação de núcleos decisórios com autonomia territorial, como subprefeituras, associações locais e redes comunitárias. Esses núcleos seriam capazes de deliberar sobre questões específicas de seu território, comunicando suas decisões ao sistema mais amplo, sem a necessidade de submissão hierárquica. A descentralização, neste modelo, não implicaria a atual fragmentação vigente, mas uma reconfiguração organizativa a partir das redes.
  2. Inteligência coletiva: com o uso de plataformas digitais participativas para elaboração, monitoramento e fiscalização de políticas públicas. Esses espaços virtuais podem funcionar como canais de escuta contínua e construção colaborativa, onde a população contribui de maneira orgânica e descentralizada. A tecnologia atual já nos permite sistematizar essas contribuições de forma eficiente, acelerando os processos pré-deliberativos e fortalecendo a legitimidade popular das decisões.
  3. Adaptação em tempo real: a partir da incorporação de dados urbanos, sensores, algoritmos e inteligência artificial, é possível monitorar dinâmicas territoriais e redistribuir recursos públicos de forma responsiva e eficaz, acompanhando as variações reais da demanda nos diferentes bairros e regiões da metrópole. Um exemplo simples: uma mesma linha de ônibus poderia traçar uma rota diferente em determinados períodos como: dia e madrugada, em função do levantamento de demanda.

No caso do Rio de Janeiro, a adoção de um modelo de rede distribuída implicaria na reconversão de suas instituições executivas: elas deixariam de ser instâncias de comando centralizado tradicionais e passariam a funcionar como plataformas de articulação entre diferentes territórios. A administração pública atuaria como orquestradora de uma malha de redes locais, reconhecendo, fortalecendo e conectando as capacidades já existentes nas bases comunitárias. Iniciativas que hoje são tratadas como exceções ou soluções paliativas ou vozes retificadoras das políticas pensadas pelos poderes constituídos, como associações de moradores, mutirões urbanos e coletivos culturais, passariam a integrar a estrutura legítima de governança metropolitana como verdadeiras construtoras das políticas estruturantes da cidade.

O Rio de Janeiro encontra-se em um ponto crítico de inflexão. A insistência em modelos centralizados diante da complexidade crescente da metrópole não apenas limita a eficácia administrativa, como também representa uma ameaça à própria coesão urbana, cada vez mais frágil e tensionada pelos inúmeros poderes paralelos que conformam nosso território. A transição para uma governança distribuída, orientada pelos princípios da ciência dos sistemas complexos pode ser uma boa alternativa de saída. Ela oferece uma oportunidade para ressignificar o papel do Estado, potencializar o protagonismo cidadão e construir uma cidade mais adaptativa e democrática.

Pollock
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Um dia do Arquiteto

Esta semana celebramos o Dia do Arquiteto e Urbanista no Brasil. Uma profissão curiosa e pitoresca. Parece-me um ofício tão essencial à sociedade e, ao mesmo tempo, tão supérfluo. Multidisciplinar, multi-escala, mas, convenhamos, nunca esqueçamos: é um ofício, um trabalho.

A carreira do arquiteto é vendida com um ar de vislumbre exclusivo. Não sei se chegamos a ser capitalistas. Tenho minhas dúvidas. Creio que somos aristocratas. As boas relações, o prazer do afago vaidoso, os elogios sinceros ou não, as capas de revista e vernissages parecem mais valiosos do que fechar o mês sem sufoco. A verdade nua e crua é: somos apenas proletários com bom gosto para cortinas e para boletos atrasados.

A arquitetura é essa jovem senhora que ainda mora na última mansão de um bairro que já foi chique. Ela observa a rua com relutância, escondida atrás de cortinas que não troca desde o enxoval de casamento. Do lado de fora, a vida acontece: o pau quebra, o churrasco estala, toca Naldo nas caixinhas JBL. Ela insiste no Chanel nº 5 comprado nos anos 80. Finge desgosto, mas dá pra ver o pé batendo discretamente ao som de “Amor de Chocolate”.

Ainda vivi um tempo em que as escolas de arquitetura recebiam grandes nomes como Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha e Zaha Hadid, gente que inspirava mais pelo gesto do que pelo marketing. Hoje, porém, a moda é influencer ensinando como ganhar milhões e lançando livros de autoajuda. Nada contra, afinal, nem eu tenho uma grande obra para vos apresentar. Enquanto isso, a profissão enfrenta recessão: evasão crescente, salários em queda e prestígio diminuindo. Sei que pareço um velho ranzinza, mas, no meu tempo, isso não era mato. Era paisagem.

Agora, na Delfim Moreira, vi varandas “orgânicas” e jogos de luzes de um edifício milionário tentando roubar o protagonismo da própria orla do Rio. Se me pagarem 38 milhões, talvez eu aceite morar lá. Mas, sinceramente, prefiro uma casinha de meia água com quintal e gramado na Praia Seca.

Minha irmã, formada em TI ou algo do tipo, me deu uma Caran D’Ache. Só mesmo alguém da tecnologia para bancar isso. Qualquer capitalista sabe que salário de arquiteto não banca essa lapiseira. E um bom comunista diria que é só parte do fetiche do imperialismo. Já o grafite? Compro na Shopee. Sei que é como ter uma Ferrari e instalar um kit-gás, mas esta é minha vida.

Enquanto discutimos formas orgânicas e conceitos abstratos no nosso baile da Ilha Fiscal, o povo mete a mão na massa e constrói a casinha pequenina que, cá entre nós, é a que eu gosto. “Ah, Rodrigo, não desvalorize tanto o seu saber!” Não o faço. Amo o saber e pratico o ofício. Mas aprendi com o velho Niemeyer que “o mais importante não é a arquitetura, mas a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar.”

Feliz Dia do Arquiteto e Urbanista, ainda que atrasado!

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Cemitérios no Rio: desigualdade até na última morada?

Nunca imaginei que fosse ser expulso de um jazigo. Pelo visto, a gentrificação alcança a todos. Quem diria que correríamos o risco de perder a última morada.

A saga de ver o jazigo da família ser ameaçado de leilão me fez enxergar um mundo imobiliário peculiar: a compra e venda de túmulos. Nos classificados, as melhores descrições possíveis: “Túmulo, ótima localização, direto com o proprietário”. O que viria a ser uma ótima localização? Estaria vivo o proprietário? “Oportunidade única: jazigo perpétuo, cemitério Caju, na primeira quadra”; “Jazigo Perpétuo, Cemitério da Cacuia, área nobre”; onde seria a periferia, no Dendê?

Não pensem que o Rio partido fica esquecido no além. Morar no São João Batista é luxo! Um buraco de 3m² pode ser comprado por módicos 180 mil reais, ou bem mais. Ainda assim, é mais barato e, quem sabe, até mais confortável que um estúdio da Avenida Paulista. Atravessou o túnel e pronto: estou pertinho da praia e do Bairro Peixoto, um dos cantinhos mais simpáticos para os vivos e mortos desta cidade se sentirem no aconchego de um Rio perdido no tempo.

Minha morada final, por enquanto, não custa mais de 30 mil reais. É no Murundu, ali entre Bangu e Realengo, terra de meu avô. Chão do meu batismo. Mas quem sabe, até lá, o Airbnb não crie um sistema imobiliário para a vida além? Podemos ser corpos nômades, vagando de aluguel nos túmulos por aí. Passar um fim de semana no Caju, ao lado do Cruzeiro. Outro fim de semana, curtir um samba com Paulo da Portela no Irajá. Passar uma tarde no Jardim da Saudade, sob um pé de laranjeira. Talvez uma noite no cemitério vertical. Ou tirar férias luxuosas na Recoleta.

Imagino até a notificação no celular: “Sua reserva no Vila Rosali foi confirmada. Check-in: 2084”. 104 anos, como o velho Niemeyer! Qual o prejuízo? Minha vida já é aluguel mal pago.

A morada final nunca foi algo que imaginei. Meu limite foi o velório. Quero todos os meus amigos presentes, os vivos e os mortos. Deem um jeito, dá para chegar de trem! De um lado, o samba; do outro, o rock’n’roll, sem misturar. Não gosto do Sambô. Um cortejo digno das vaidades que nunca tive, mas com o deboche niilista e existencial de quem sabe que a morte é só um detalhe.

Nada na vida é tão importante que não mereça ser celebrado. Se até lá meu túmulo ainda não tiver sido leiloado, deixo na lápide para todos: A vida é boa! Se sentirem saudades, fiquem tranquilos; venho visitá-los nas madrugadas para conversar.

quem é vivo sempre aparece

publicado originalmente no instagram: @rodrigobertame

replicado no Diário do Rio

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O Jeito Carioca e a Romantização da Precariedade

Espaços Culturais: Entre o Improviso e a Segurança

Nada justifica o falecimento da servidora Virgínia Gazola da Petrobrás acidentada no Armazém do Campo, no Rio de Janeiro. Infelizmente, não se trata de um evento trágico singular, mas de um reflexo de uma cultura arraigada que alimenta um marketing da identidade carioca, no qual o “jeito carioca de ser” de ser descontraído e improvisado é romantizado a ponto de encobrir graves negligências.

Espaços famosos da noite carioca, ocupados por bares, eventos culturais e áreas de lazer de rua frequentemente carecem de um mínimo de infraestrutura que garanta qualidade e segurança aos seus usuários. Muitos desses locais, mesmo com rotatividade suficiente para investir em melhorias, apoio e articulação política permanecem inertes. Vemos que, sustentabilidade financeira não se traduz, necessariamente, em responsabilidade.

Antes de avançarmos na crítica, é importante problematizar a própria imagem que vendemos do carioca. Essa imagem descontraída e improvisada foi historicamente capturada e moldada como parte de um projeto maior de controle simbólico, que remonta às décadas de 1920. O Rio de Janeiro é vendido como o cartão-postal do Brasil, mas a identidade de seu povo é frequentemente enquadrada em estereótipos que obscurecem a diversidade e a complexidade local.

Esse estereótipo não é inofensivo. Ele invalida práticas e comportamentos que fogem ao padrão romantizado, perpetuando a ideia de que o caos e o desleixo são parte da identidade carioca, parte da malandragem. Entendam! Uma coisa é, nascermos pobres, sem acesso a nada, precisarmos improvisar para solucionar problemas de vida cotidiana, outra coisa é o mercado cultural criar, conscientemente, simulacros deste modo improvisado de viver para vender a imagem de o Rio Cool. Na prática, o simulacro se reflete na aceitação tácita de condições precárias em espaços públicos e privados. Vendemos um certo desconforto e desorganização como elementos de autenticidade. Assim, somos “legais” à medida em que nossa experiência urbana reflita este estereótipo.

O acidente ocorrido no Armazém do Campo poderia, sim, ter sido evitado. Esse episódio expõe uma contradição dolorosa: triste que um espaço gerido por um movimento social de luta tenha vacilado com isso. Se o mundo que acreditamos é o melhor, temos a obrigação de, tanto nas lutas quanto na nossa micro escala de alcance sermos reflexo deste mundo, em todos os sentidos. Um espaço gerido por um movimento social de luta, que acredita em um mundo melhor, falhou em refletir esses ideais no cuidado e segurança oferecidos. Me assusta pensar que este mesmo espaço, ainda que sem alvará, tenha sido considerado Patrimônio Imaterial da Cidade, o que denota que o espaço não estava tão invisível ao poder público. Esse é um alerta ético.

Aqui entra também a relevância do conhecimento técnico. Arquitetos, engenheiros e técnicos possuem o ferramental necessário para pensar, projetar e construir espaços mais seguros, interessantes e funcionais, especialmente em contextos culturais e urbanos. Negligenciar isso, para além de irresponsável, é uma forma de desprezo pelos saberes profissionais que podem salvar vidas. Este alerta não cabe somente à casa em questão ou aos movimentos, mas a todo o circuito cultural do Rio, e incluo aqui os inúmeros empresários da economia cultural, de turismo e eventos.

Infelizmente, o desleixo não é exceção, mas padrão. Há no Rio uma infinidade de espaços culturais, bares e áreas de lazer que operam à beira da precariedade, oferecendo condições propícias às mais terríveis tragédias. Como exemplo, lembro-me de um dos banheiros de botequim mais bem cuidados que já encontrei, na Rua Paranhos, em Olaria. Na prática, um botequim de bairro suburbano, periférico, no pé do Complexo do Alemão, sem atrativos turísticos para participar do circuito hype do Rio. Paradoxalmente, aquele banheiro seria considerado luxuoso em comparação com muitos espaços badalados da Lapa ou outros polos da noite carioca.

Para enfrentar esse cenário, é necessário promover uma mudança de paradigma que integre políticas públicas, responsabilidade empresarial e educação técnica. Isso inclui a implementação rigorosa de normas de segurança em espaços culturais e comerciais, acompanhada de fiscalização efetiva para coibir negligências.  Também é fundamental oferecer programas de capacitação voltados para pequenos empresários, destacando que investir em segurança não é apenas uma obrigação, mas um diferencial competitivo. Além disso, criar linhas de crédito ou incentivos fiscais para estabelecimentos que realizem melhorias estruturais e de preservação e restauração de patrimônio arquitetônico pode estimular a adoção de boas práticas. 

Por fim, é essencial integrar (e respeitar) o saber técnico dos arquitetos, engenheiros e técnicos às discussões públicas sobre segurança e planejamento, garantindo soluções acessíveis, criativas e eficazes. Algo que com o tempo foi sendo perdido ou ocupado por outras forças econômicas que atuam na cidade. Avanços como os do Corredor Cultural parecem ter se estagnado diante da precariedade ou falta de política firme de preservação e restauração. E aqui, temos um compromisso necessário de ser assumido pela prefeitura atual do Rio, maior beneficiária e fomentadora da narrativa do jeito carioca de ser como identidade para atrair turismo e outras atividades econômicas.

Acidentes como o que vitimou a servidora são evitáveis. O primeiro passo é desconstruir a romantização da precariedade, do caos e do improviso, reconhecendo que, acima de tudo, o cuidado com o bem estar do cidadão é parte  fundamental de qualquer identidade cultural que se pretenda digna. O segundo ´passo é respeitar as condições técnicas mínimas da arquitetura e engenharia nos quesitos: segurança, conforto, ergonomia, entre outros.

Há um equívoco, quem acredita que este tipo de prática sugere uma certa gourmetização (a gentrificação dos espaços de cultura), como se isso afastasse o povo. Primeiro, a maior parte do povo sequer consegue chegar nos principais pólos centrais de noitada do Rio de Janeiro pois o metrô fecha cedo e muitos ônibus da zona norte, oeste e baixada param de circular. Segundo, muitos destes lugares, apesar de ter pouco cuidado na sua arquitetura e engenharia, já são gentrificados, com preços caríssimos para o que oferecem a seu público. O que estes empreendimentos fazem, é aplicar maximização do lucro a partir da redução dos custos de investimento, justificando isso na cultura do lugar: “este é o espírito do meu bar”.

Para ilustrar esta postagem, que é dura de escrever, optei por usar uma antiga foto de Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Marçal caminhando. Lembro-me de uma frase atribuída a Paulo da Portela que talvez fosse uma das mais replicadas por minha família e muita gente que conheço na vida: “Posso estar sem um nada no bolso, mas a elegância e a postura eu não perco“.  Este estereótipo romantizado do carioca ser autentico por um desleixo fantasiado de improviso não reflete a maior parte da população dessa cidade. E ainda que refletisse, nada justificaria a negligencia técnico-científica de todas as forças envolvidas na boa conservação dos espaços culturais da cidade.

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O Rio é menos Doce no G20

foto de  Fred Loureiro/ Secom ES – original de Brasil de Fato

O Brasil, nesta semana, tornou-se o palco de um dos mais importantes encontros democráticos globais. Ao mesmo tempo, uma série de eventos articula ativistas e entidades da sociedade civil em torno de temas cruciais: governança, justiça social, e uma resposta urgente para a crise ambiental que já ceifa vidas e compromete gerações. Mas é impossível ignorar o paradoxo gritante: enquanto discutimos políticas para um mundo mais justo e ambientalmente seguro, nosso próprio país fecha os olhos para os crimes cometidos por mineradoras que exploram impiedosamente nosso solo, nossos rios e as vidas de comunidades inteiras. 

A abertura do evento coincide, bizarramente, com o julgamento da SAMARCO – uma oportunidade perdida de fazer justiça a centenas de famílias e ao meio ambiente devastado pelo rompimento da barragem em Mariana. Um dos maiores crimes ambientais da nossa história recente expôs as entranhas de um sistema que protege o lucro ao custo do sacrifício de vidas pobres, deixando claro que o país que sedia o G20 não teve coragem de enfrentar o poder desproporcional do extrativismo de sua elite econômica. Milhares de toneladas de lama tóxica varreram o Rio Doce, soterrando sonhos e histórias, em um ato de violência impune contra a natureza, 19 pessoas, e as inúmeras famílias que dependiam do seu lugar para sobreviver. Em Mariana, o rompimento da barragem não só varreu vilas e comunidades, mas expôs, com uma violência gritante, a insensibilidade de um sistema que escolhe proteger o lucro ao custo de vidas. Esse crime ambiental expôs o preço de uma economia servil, que passa por cima dos mais pobres como se fossem descartáveis.

Essa tragédia não é isolada, é uma expressão clara do alinhamento político e classista que molda a realidade nacional. Um parêntese: É preciso que discutamos de maneira técnica e ética a responsabilidade que cabe. Nós, por exemplo, engenheiros, arquitetos, políticos e empresários têm responsabilidade diante de uma violência gerada por nosso erro. A ética profissional, longe de ser apenas individual, deve ser ancorada em uma perspectiva social, onde o “fiz porque fui mandado” deixa de ser uma desculpa para legitimar a destruição. Precisamos urgentemente de uma ética comprometida com o coletivo e com o meio ambiente, uma ética que não seja escrava do mercado. Fechando parênteses, retomemos o debate.

No Brasil, onde o abismo social é marcado pela desigualdade de voz, o G20, especialmente o G20 SOCIAL e o Urban 20, oferece uma chance ímpar de articular as lutas e reconstruir um espaço fragmentado. As discussões, as pautas e as deliberações desses fóruns não podem se limitar ao papel e anais a serem lembrados apenas no encontro seguinte: são um material precioso para reforçarmos a resistência contra os interesses que corroem nosso sistema planetário. Esses fóruns são espaços de luta, e não nos iludamos: sem uma luta efetiva contra o poder econômico e as elites corporativas que ditam as regras neste país, esses encontros se tornam espaços de catarse controlada, onde nossos gritos de justiça são abafados e o mercado continua dominando as decisões, deliberadas entre os donos do poder nos cafés da manhã dos hoteis, nos almoços e  jantares exclusivos. 

Enquanto a SAMARCO segue impune, operando, negociando com prefeituras, contaminando rios e terras, estendendo sua ganância sobre territórios vulneráveis. Outras mineradoras seguem o mesmo caminho, escoradas por uma lógica de mercado que coloca o lucro acima da vida. Esse é o retrato de um Brasil onde as grandes corporações controlam as políticas públicas, desdenhando da vida, da lei e da dignidade do povo. Temos que ser veementes em nossa posição, lutar e articular nossos interesses com força e clareza. Caso contrário, estaremos apenas domesticando nossas consciências, enquanto o poder faz seus acordos nos bastidores.

O G20 chega a um Rio de Janeiro que é vitrine dolorosa das contradições do Brasil. As delegações passam com velocidade pela periferia da cidade, das pistas do aeroporto para os hotéis. Neste Rio, barril de pólvora social, líderes globais tentam encontrar uma saída digna para um futuro que, a cada dia, se torna mais distópico.

É imperativo que transformemos esses fóruns em verdadeiros espaços de ação e resistência! Enquanto queimadas, inundações, fome, guerras e catástrofes climáticas se alastram, somos convocados a transformar os rumos da vida coletiva. A verdade é crua: o mundo mudou, e não há espaço para a inação. Não se trata apenas de uma escolha política, mas de uma necessidade de vida: ou disputamos a política global em todos os seus âmbitos, ou assistimos à destruição do que ainda resta de justo e humano em nossa sociedade.

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De onde surgiu Rick Azevedo? O drible do trabalhador no enfrentamento do 6×1

De onde surgiu Rick Azevedo? Essa pergunta tem ecoado entre certa parte dos pensadores da esquerda carioca. Confesso que também conheço pouco sobre ele, mas já o considero um nome promissor. A expressiva votação que o candidato do PSOL alcançou nos diz muito sobre a invisibilidade do trabalhador pobre diante do sistema político brasileiro.

Há dois pontos essenciais que gostaria de destacar. Primeiro, Rick foi direto e incisivo em uma análise crucial: diante da precarização, não basta resiliência; é preciso disputar espaço. Esse é o recado do “6×1”, um sinal de uma luta popular real. Engana-se quem pensa que essa pauta é restrita a celetistas ou trabalhadores com contrato formal; ela representa todos aqueles que, frente à precarização de suas vidas, precisam estar disponíveis para o mercado, 24 horas por dia, sete dias por semana, para sobreviver.

O que quero dizer com empregabilidade? Quando falo em “empregabilidade”, refiro-me não apenas à exigência de estar sempre “pronto para uso” no mercado, sempre competitivo e adaptado às transformações econômicas, tecnológicas e sociais. É a pressão para ser “empregável” em qualquer situação, diferentemente de um emprego, que é uma ocupação formal e estável. Empregabilidade abrange o trabalho informal, o bico, o subemprego, e principalmente o desemprego, todos os sistemas onde o trabalhador vende sua força na esperança de um retorno que talvez nunca venha.

Assim, a jornada “6×1” vai muito além de um acordo para celetistas. É a rotina dos entregadores, motoristas de Uber, microempreendedores (MEIs) e todo tipo de trabalhador que não consegue, em 40 horas semanais, garantir o básico para viver. Enquanto a Europa experimenta e disputa jornadas reduzidas, como o modelo “4×3”, que permite mais equilíbrio entre trabalho e vida, o Brasil segue pelo caminho oposto, abraçando uma lógica de exploração que mantém a mão de obra barata e a pobreza crônica, favorecendo a hiperexploração. E essa realidade só se aplica à gigantesca massa de pobres, sem heranças ou privilégios, cujas vidas são devoradas por um mercado que exige sempre mais e oferece cada vez menos.

O segundo ponto essencial é a coerência das ações de Rick. Ele é o “desconhecido mais conhecido” que já vi, e sua trajetória expõe a crise de desconexão da esquerda carioca – e talvez nacional. Seu impacto eleitoral não se limita aos corredores da esquerda. Rick caminhou por onde muitos formuladores e líderes da esquerda já não passam: as filas de trens, os pontos de ônibus, as ruas da Baixada Fluminense, os subúrbios, o duro solo do trabalhador carioca e fluminense. Ele foi ao encontro do trabalhador, do desempregado, do pobre, aquele que ele efetivamente busca representar.

Rick faz uma crítica necessária e contundente ao sistema sindical, num momento em que o próprio governo federal, que deveria carregar as bandeiras do trabalhismo e sindicalismo, se curva diante da correlação desfavorável de forças e tem de negociar com um parlamento que empurra os trabalhadores para novas formas de exploração. E, ironicamente, é o mesmo governo que, ao optar por um ajuste fiscal, ameaça o Sistema Único de Saúde (SUS) em um contexto onde até a saúde privada se torna precária para o trabalhador médio.

Rick Azevedo se apresenta como uma força emergente, uma representação autêntica da luta contemporânea pelo trabalho no contexto carioca. Ele pode simbolizar uma esperança para a reconstrução do pensamento trabalhista e sindical e para o próprio PSOL. Que o ímpeto de suas pautas permaneça forte em sua atuação como parlamentar, este será seu novo desafio, manter-se firme às pautas que o levaram ao cargo no legislativo. Ver essa chama acesa no PSOL é inspirador. Essa bolha furada prova que ainda é possível lutar de verdade, basta ter coragem.

imagem de divulgação do próprio vereador
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Leopoldina sitiada: Cidade Maravilhosa Despedaçada

O Rio de Janeiro é uma cidade que constantemente desafia a nossa capacidade de se chocar. A mais recente dessas provocações veio na forma de um vídeo: um cidadão baleado na cabeça, sentado dentro de um ônibus na Avenida Brasil, em um dia marcado por intensos tiroteios que sitiaram cinco bairros inteiros. Em respeito à dignidade da vítima e de todos nós, me recuso a compartilhar essas imagens.

Cinco estações ferroviárias foram fechadas: Penha Circular, Brás de Pina, Cordovil, Parada de Lucas e Vigário Geral. Além disso, 35 linhas de ônibus tiveram suas rotas fortemente alteradas ou suprimidas. Com isso, a conexão entre a Zona Oeste, a Zona Norte, a Baixada Fluminense e o Centro da cidade ficou seriamente comprometida, sob a constante ameaça de violência.

O bairro de Brás de Pina, parte da Vila Guanabara, conhecida como a “princesinha da Leopoldina”, tem uma história marcada por sua pujança econômica. Seus casarios neocoloniais e o traçado urbano que, visto de cima, lembra uma colmeia, fazem parte de uma área que também abriga uma comunidade que resistiu às remoções da era Lacerda e foi palco da primeira urbanização de favelas da cidade. Porém, hoje, esse território luta para sobreviver à expansão de um poder paralelo que se alimenta do fundamentalismo.

Há uma incompreensão generalizada sobre o que realmente compõe o chamado Complexo de Israel. Muitos reduzem sua presença apenas às áreas de favelas, mas o fenômeno se estende também às áreas formais dos bairros, controlando grandes glebas e impactando toda a região. Desde 2009, venho afirmando: se o fundamentalismo se enraizasse no Brasil, seria a partir do neopentecostalismo. O que vemos no comando do “Exército de Israel” é a materialização desse presságio. Bairros inteiros estão sob seu domínio, com tecnologia bélica de ponta, oferecendo uma gama de serviços básicos e impondo regras próprias sobre o território. O grande dilema é que, ao contrário de uma ocupação meramente estratégica e material, o Complexo de Israel opera em uma espécie de guerra santa, como se parte da Zona da Leopoldina tivesse se tornado uma representação de uma “Israel divina” sob a qual todos temos de nos submeter.

O mais impressionante é o aparente desinteresse do poder público em assumir a responsabilidade que lhe cabe: retomar o controle territorial. Essa ação deveria superar qualquer divergência ideológica, pois a realidade é simples e direta: onde o Estado não exerce seu poder de governança, outros poderes assumirão esse papel. Nesse território, fica nítido que o Estado perdeu o controle.

Não adianta aqueles que influenciam e organizam economicamente esta cidade tratarem este problema como um mal menor. O aparato publicitário que favorece as políticas de cidade criativa, hub cultural, cidade global e turística não se ampara quando imagens como as do dia de hoje se tornam um padrão da cara da cidade. É preciso que estas forças econômicas compreendam que um problema de Brás de Pina, da Cidade Alta, de Cordovil, de Lucas é um problema da cidade, tal qual o é o problema do Leblon, de Ipanema, Catete. Não há campanha de Cidade Maravilhosa que resista a tragédia humana que está sendo o dia de hoje para esta região.

A Terra de Pixinguinha, está gritando socorro, sequestrada e sitiada pela loucura da barbárie de um projeto de Brasil que deu errado. Povo sem acesso a escola, transporte, segurança, saúde, espera a pausa das balas, um momento imponderável, para arriscar-se nas ruas em busca de sua luta diária por sobrevivência, sem saber se no fim do dia chegará em casa. Sabemos que a saída não é simples e precisará de uma ação sistêmica, trazendo para as decisões vários atores sociais. assistência social, segurança pública, poderes econômicos, entre outros precisarão operar em uma modelagem de estado que recuperem o território e o desejo de vida dos citadinos transformar novamente o espaço que hoje é do medo, em um lugar desejado pelos seus.

A gramática da guerra santa, da intolerância religiosa e do controle divino sobre o território apagam quaisquer possibilidade de reconstrução popular. Aos que moram nestes bairros tem restado o medo diário e a nostalgia de dias melhores que já foram vividos, dias que Dolores Duran aprendeu a tocar piano na aprazível princesinha da Leopoldina.

foto de autoria própria: Avenida Arapogi e suas águas.
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Policrise e desigualdade social: emergência de uma politica global complexa

Lendo o relatório “Global Economic Prospects – June 2024”. Ele revela os desafios econômicos globais e a crescente disparidade entre economias desenvolvidas e em desenvolvimento, destacando a necessidade urgente de uma abordagem coordenada e inclusiva para reduzir as desigualdades econômicas e sociais que se aprofundaram após a pandemia de COVID-19. O relatório aponta que o crescimento global projetado de 2,6% para 2024 demonstra um ritmo insuficiente para transformar significativamente as condições de vida em muitos países em desenvolvimento. Essa diferença acentua as dificuldades enfrentadas pelas economias pobres, que, apesar de abrigarem a maior parte da população mundial, encontram barreiras para atingir um desenvolvimento econômico sustentável, mantendo a desigualdade historicamente parametrizada.

A persistência das desigualdades é notável, com quase metade dos países em desenvolvimento sem perspectivas de reduzir a disparidade de renda em relação às economias avançadas até 2024. Essa situação reforça o constante ciclo de pobreza e dificulta investimentos em setores essenciais, como saúde, educação e infraestrutura, que são fundamentais para o desenvolvimento humano e a melhoria da qualidade de vida. Em meio a isso, é importante enfatizar o papel do investimento público como um motor de crescimento e inclusão econômica, especialmente em países pobres, onde a infraestrutura básica ainda é uma necessidade que precisa ser universalizada. No entanto, a eficácia desses investimentos esbarra na falta de uma gestão pública eficiente e transparente, algo comum nas economias mais vulneráveis, onde a má alocação de recursos, disputas ideológicas sem planejamento e a busca do poder pelo poder perpetuam o status de subdesenvolvimento.

Adicionalmente, vemos no mundo de hoje uma vulnerabilidade em redes de muitas entradas, desde pequenos estados e economias em conflito até povos que enfrentam desastres naturais cada vez mais frequentes, fruto das mudanças climáticas, além do surgimento de ciclos de pobreza e de crises endêmicas cada vez mais recorrentes.

O conceito de policrise surge como um destaque interessante, apontando que essas crises não devem mais ser lidas de forma isolada, mas, ao contrário, se entrelaçam, gerando efeitos multiplicadores que evidenciam e potencializam a vulnerabilidade dos sistemas globais. Esse entendimento sistêmico é essencial para lidar com crises que se reforçam mutuamente, como a pandemia, as guerras e as mudanças climáticas, que, ao interagirem, amplificam problemas como a inflação global, a insegurança alimentar e a instabilidade geopolítica.

Os mecanismos sistêmicos contemporâneos demonstram como uma crise pode desencadear outras em uma sequência que foge ao controle, criando ciclos de deterioração coletiva. Diante disso, as respostas tradicionais de política, focadas em problemas isolados e em uma visão especializada, são insuficientes para lidar com a profundidade e a complexidade das crises atuais.

Para piorar, cerca de 40% dos estados pobres estão sob elevado risco de crise de dívida, limitando suas capacidades de investir em áreas críticas. A situação desses países evidencia a necessidade de apoio internacional, tanto para garantir a estabilidade financeira quanto para fortalecer sua adaptação às mudanças enfrentadas pelo planeta. Nesse contexto, a cooperação internacional deveria assumir a responsabilidade de mitigar desigualdades, promover a transição para uma economia mais verde e digital e reforçar a segurança alimentar como um direito à dignidade humana e à vida. No entanto, as tensões geopolíticas e a fragmentação das políticas comerciais dificultam a implementação de uma agenda global colaborativa. Resumindo: diante de momentos de crise, uma parte gigante dos poderes globais age como: “se o peixe é pouco, meu pirão primeiro”. Um entendimento tolo que não percebe que o problema do outro também é um problema nosso.

Sugerimos a urgência de políticas de longo prazo que priorizem a inclusão social, a redução da pobreza e o desenvolvimento sustentável para alcançar um crescimento mais equitativo. Esse é um sonho de inúmeros intelectuais, políticos sérios e agentes diversos no planeta. Um diferencial diante disso é que as políticas precisam considerar a interconectividade das crises e buscar soluções integradas, abordando simultaneamente todas as vulnerabilidades dos sistemas globais. Isso significa, por exemplo, que a formulação de políticas climáticas, além de mitigar emissões, precisa ser capaz de enfrentar os impactos sociais e econômicos das mudanças climáticas. A insistência em soluções fragmentadas tende a perpetuar ciclos de crises mal resolvidas, levando à repetição de problemas em uma escala e intensidade cada vez maiores.

Quando pensamos nas políticas de redes complexas como uma possibilidade de resposta à crise, podemos considerar que essas políticas representam um caminho para lidar com os muitos problemas contemporâneos, propondo uma governança que considere as múltiplas camadas de desafios. Integrar diferentes frentes de ação e fomentar uma cooperação mais ampla entre nações pode ser uma chave para atenuar os impactos das crises e construir uma base de resposta global. Assim, a reflexão que surge é: como estruturar políticas de redes complexas que sejam efetivas em um cenário de incerteza e fragmentação global? A resposta a essa questão não parece simples, mas pode delinear o futuro das relações internacionais e do desenvolvimento econômico sustentável, buscando um equilíbrio entre progresso e inclusão social em um mundo cada vez mais interconectado.

Foto-montagem: Zeca Pagodinho discursando sobrea vida na ONU.
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