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A Transformação Digital na Construção Civil: BIM, Digital Twins e IA

A indústria da construção civil segue ufanista com as plataformas BIM, embora muitos ainda confundam BIM com certas ferramentas proprietárias. No entanto, suspeito que essa lógica de pensamento esteja se tornando obsoleta, mesmo antes de atingir seu auge. O avanço tecnológico tem dessas peculiaridades; quem se lembra dos laserdiscs, precursores dos CDs?

O Papel das Ferramentas na Arquitetura e Engenharia Digital

Primeiramente, é crucial entender que a questão central não são as ferramentas em si, mas seus métodos de operação, interface com o usuário e propósito. O BIM continua sendo o melhor método para produção de dados e gerenciamento de documentação em projetos de arquitetura e engenharia. No entanto, ferramentas de inteligência artificial estão surgindo para potencializar decisões em projeto, manutenção preditiva, simulação e análise em tempo real. Quando integrados a sistemas de Machine Learning, esses dados ajudam a construir um arcabouço de soluções possíveis para problemas complexos.

Integração de Digital Twins e IA na Arquitetura e Engenharia

Na fase atual, a IA se tornou um complemento importante às ferramentas de projeto. A aplicação de Digital Twins, por exemplo, permite uma análise robusta de dados em tempo real, automação de decisões e otimização através de simulações. O que o Digital Twin faz é criar um “gêmeo virtual” de objetos, processos ou sistemas físicos, monitorando-os em tempo real e de forma detalhada. Isso permite a otimização de seu equivalente real, seja ele uma máquina, um mega edifício, uma indústria ou até mesmo uma cidade.

Sinergia entre BIM, Digital Twins e Machine Learning

A complementaridade entre BIM, Digital Twins e Machine Learning está transformando a arquitetura e engenharia ao automatizar processos de design, documentação e operação. O BIM já facilita a criação de modelos detalhados e a coordenação entre disciplinas. Com a integração de algoritmos de Machine Learning, será possível otimizar designs e reduzir erros de forma automática. Digital Twins, por sua vez, permitem monitoramento e simulação em tempo real, possibilitando manutenção preditiva e ajustes contínuos durante o ciclo de vida do projeto.

No futuro, essas tecnologias combinadas podem automatizar grande parte do processo de arquitetura e engenharia. Ferramentas de design generativo, integradas ao BIM, junto com a análise de dados históricos realizados por Machine Learning, permitirão que projetos sejam otimizados autonomamente. Os Digital Twins terão um papel crucial ao prever o desempenho dos ativos e permitir ajustes dinâmicos, resultando em construções mais eficientes e adaptáveis.

Até aqui,  falamos de algo que já está em curso na engenharia de ponta e nem consideramos o avanço tecnológico de ferramentas de design generativo que permitem a criação de múltiplas opções de design baseadas em critérios definidos pelo usuário. Nos permitindo explorar várias soluções de design rapidamente nas fases conceituais.

Sistematizando:

  • Concepção projectual: partindo do BIM e ferramentas de design generativo, auxiliado por Machinhe Learning, criamos automaticamente múltiplas opções de design, otimizadas para diversos critérios. Temos como papel, dentro disso, formular os critérios e diretrizes, aquilo que na língua do arquiteto chamamos de Partido e Programa, inserir os principais dados e selecionar, dentre as múltiplas opções entregues pelo design generativo, quais seriam as melhores soluções sugeridas.
  • Desenvolvimento e Simulação: O Digital Twins simulará continuamente o desempenho dos designs gerados em um ambiente virtual, permitindo ajustes em tempo real e a otimização antes da construção. Destes ajustes finos escolhemos o melhor projeto a ser construído.
  • Execução e Operação: A construção  será acompanhada e ajustada automaticamente com base no contínuo feedback do Digital Twins e nas previsões do Machine Learning. Durante a fase operacional, a manutenção e os ajustes de desempenho serão feitos de forma automatizada, gerando dados para otimização da obra e operação atual, tanto quanto para melhorias em novos projetos.

A partir desta sinergia, o ciclo de vida de um  projeto e obra pode ser  gerido de forma contínua, da sua concepção até o limite máximo de seu uso. Com o Digital Twins e ML ajustando o BIM conforme necessário para garantir que o ativo físico opere da maneira mais eficiente e durável possível.

O Compromisso Ético na Era da Automação

Nesse cenário de transformação, o compromisso central dos profissionais de arquitetura e engenharia deve ser a criação de diretrizes que assegurem a preservação da vida e do meio ambiente. Inspirando-se nos ensinamentos de Isaac Asimov, é fundamental estabelecer limites claros para o uso dos recursos naturais e desenvolver estratégias que não apenas minimizem os impactos negativos, mas que os transformem em benefícios ambientais. Com essas diretrizes, que garantem a proteção da humanidade e do planeta Terra enquanto entes vivos, os sistemas de automação poderão nos guiar para soluções inovadoras, potencializando compensações ambientais e estratégias globais que não apenas reduzam impactos negativos, mas quiçá também gerem impactos positivos.

Decisões estratégicas exigem um comportamento ético e político da profissão, além da competência técnica. É hora de caminhar em direção a um futuro mais digno e sustentável, onde a tecnologia seja uma aliada na construção de um mundo melhor.

imagem gerada pelo DALL-E tendo como input o comando: crie uma imagem artística de modelo de cidade com favelas toda formada com partes de lixo eletrônico.
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Conectividade Global vs. Coesão Local: O Dilema da Reconstrução Urbana em um Mundo Globalizado

Entre Pólis e Civitas, cidades em desalinho.

Ao ler sobre as obras nos municípios de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, destruídos pelo rompimento da barragem de Mariana, fui confrontado com uma dicotomia intrigante. Nessas áreas, foram construídos condomínios aos moldes de bairros-jardim e de condomínios fechados contemporâneos, soluções que se encaixam na lógica das cidades globais. No entanto, um relato de um morador expressa bem o desencontro que essa urbanização criou para aqueles que sofreram as perdas do desastre e agora recebem essas casas: “Antes, por ser zona rural, as pessoas trabalhavam nas casas ou na dos vizinhos. Hoje, não é área rural, não pode ter galinha (…) A Renova precisa criar um modo de sobrevivência da comunidade.” Este testemunho, divulgado em uma matéria da Folha de São Paulo, revela a falha dessas novas construções em atender às necessidades e expectativas de uma população que tinha sua vida profundamente conectada ao contexto rural.

Este exemplo nos leva a refletir sobre as cidades contemporâneas e a forma como elas absorvem ou negligenciam os valores comunitários em favor de modelos globais padronizados. As palavras “pólis” e “civitas”, embora ambas significassem “cidade” para os gregos e romanos, carregam significados intrínsecos que podem nos ajudar a compreender e reavaliar a organização urbana atual.

A pólis grega representava o espaço do ethos, da ética e da política, onde a unidade comunitária e cultural era fundamental. As cidades-Estado gregas eram autônomas, cada uma com sua forma de governo, leis e instituições, e a participação cívica era um valor central. Já a civitas romana, apesar de também ser uma unidade política, possuía uma concepção mais expansiva, onde o ethos enfatizava a obediência à lei e o dever para com o Estado, em busca de coesão em um império diversificado.

Nas cidades globais contemporâneas, podemos observar uma combinação dessas heranças. Elas são frequentemente organizadas em torno de centros cívicos, como as pólis, e utilizam grandes infraestruturas — como arranha-céus e espaços públicos monumentais — que simbolizam ordem e poder. Porém, essas centralidades muitas vezes estão desconectadas das periferias, perpetuando a fragmentação espacial e social. Essa desconexão reflete uma lógica mais próxima da civitas romana, onde a organização urbana se expressa geograficamente através da segregação e da especialização das zonas (residencial, comercial, industrial), e politicamente da pólis, onde embora a liberdade e participação ativa cidadã fosse importante ela era destinada apenas aos homens livres.

Assim, como nas pólis – que promoviam uma integração orgânica entre diferentes funções urbanas, com uma ênfase na participação cívica e no uso comum do espaço público – as cidades globais contemporâneas tendem a refletir uma dinâmica onde apenas uma parte dos cidadãos, os “cidadãos globais”, usufruem dos benefícios do fluxo econômico e da participação nas redes globais de mercado. Esses indivíduos sabem navegar pelas redes globais atuando de maneira expansionista, enquanto outros, marginalizados dentro desse sistema, encontram-se fixados em suas realidades locais, com acesso limitado aos benefícios urbanos e a uma vida marcada pela precariedade e pela subserviência ao poder constituído de um Império.

Essa realidade cria uma tensão entre a ética globalizada dessas cidades e as necessidades locais dos seus mais vulneráveis, gerando alienação e fragmentação interna. Na cidade global, diferentes grupos sociais vivem realidades praticamente distintas, muitas das vezes invisíveis apesar da proximidade física. Assim como as Pólis e as Civitas enfrentaram desafios em relação à coesão social, as cidades globais contemporâneas também enfrentam o desafio de reconciliar a fragmentação humana e a desigualdade econômica com um ethos urbano mais inclusivo e sustentável.

Para que as cidades globais evoluam de maneira mais justa e sustentável, é necessário uma ética que combine a conectividade global com um compromisso local com a justiça social e a equidade, e isto não é simples visto que exige abnegação de privilégios por parte de quem os tem. Isso implica em novas formas de organização espacial, que priorizem a inclusão e a acessibilidade, e em políticas que reduzam a desigualdade e promovam uma economia que beneficie a todos, não apenas uma elite globalizada. No campo da arquitetura e do urbanismo, isso se traduz em modelos de planejamento que valorizem as relações comunitárias e a capacidade humana de proteção e auto sustento, reconhecendo a importância de um ethos reconciliador e inclusivo.

Agora que comentamos muito a respeito de pontos conceituais e teóricos a se pensar, vamos juntos refletir na caminhada, mas especificamente em instrumentos práticos para a construção de outra sociedade.

Instrumentos para a Construção de uma Ética cidadã Inclusiva

Listamos aqui alguns instrumentos práticos que integram a conectividade global com um compromisso local de justiça social e equidade.

É preciso que parte da riqueza produzida no mundo seja trabalhada de forma pública e comunitária. Pensando que o sistema financeiro pode, não apenas se retroalimentar, mas também pavimentar ciclos menores de campo produtivo, sendo assim, pensemos que:

  • Taxação Progressiva e Redistribuição de Renda: Implementar um sistema de tributação progressiva que cobre maiores impostos das grandes corporações e indivíduos de alta renda, direcionando esses recursos para financiar serviços públicos, habitação acessível, e programas sociais que beneficiem e mitiguem os problemas das comunidades marginalizadas.
  • Economia Solidária e Cooperativas Urbanas: Incentivar a criação de cooperativas de trabalhadores e empresas sociais que operem com um modelo de economia solidária, onde os lucros são redistribuídos entre os membros da comunidade e reinvestidos em projetos locais que gerem empregos e promovam o desenvolvimento sustentável.
  • Apoio a Pequenos Negócios e Iniciativas Locais: Criar programas de fomento, financiamento, acompanhamento e subsídios para pequenos negócios e iniciativas empreendedoras locais, prioritariamente em áreas desfavorecidas, permitindo que essas comunidades desenvolvam sua parte no ciclo da economia e reduzam a dependência de capitais globais que muitas vezes ignoram as necessidades locais.
  • Orçamento Participativo: Implementar práticas de orçamento participativo, onde os cidadãos tenham voz efetiva e ativa na alocação dos recursos públicos, garantindo que as prioridades da comunidade sejam atendidas e que as decisões políticas reflitam as reais necessidades locais.
  • Descentralização Administrativa: Promover a descentralização dos poderes governamentais, transferindo mais autonomia para as administrações locais, que estão mais próximas das comunidades e, portanto, mais capazes de entender e responder às suas necessidades específicas. Construir gestões comunitárias, com instrumentos de ação e dentro de limitações cabíveis.
  • Transparência e Responsabilidade: Fortalecer os mecanismos de transparência e responsabilidade nas esferas públicas, garantindo que as políticas e projetos urbanos sejam desenvolvidos e executados de maneira ética, equitativa e com o envolvimento direto da comunidade.
  • Habitação Acessível e Inclusiva: Desenvolver políticas de habitação que garantam moradias acessíveis e de qualidade para todos os estratos sociais, evitando a gentrificação e promovendo a mistura social em todos os bairros. Isso inclui a construção de moradias sociais integradas a áreas bem servidas por infraestrutura urbana (principalmente). Rediscutir o valor da terra e as condições fundiárias.
  • Educação e Capacitação Comunitária: Criar programas educacionais focados na capacitação, com ênfase em habilidades que promovam a participação ativa na economia urbana, além de fomentar uma educação cívica que incentive a participação política e o engajamento comunitário.
  • Saúde e Bem-Estar Comunitário: Expandir o acesso a serviços de saúde e programas de bem-estar comunitário, especialmente em áreas carentes, garantindo que todos os cidadãos tenham acesso universal a cuidados de saúde de qualidade e programas de apoio social.
  • Zoneamento Inclusiva e Uso Misto do Solo: Reformular as políticas de zoneamento para permitir o uso misto do solo, combinando habitação, comércio, lazer e serviços públicos em proximidade. Promovendo assim, maior integração social e reduzindo a necessidade de longos deslocamentos, que muitas vezes penalizam as populações mais pobres.
  • Espaços Públicos Acessíveis e Seguros: Investir na criação e manutenção de espaços públicos de qualidade que sejam acessíveis a todos os cidadãos, independentemente de sua condição social. Praças, parques, centros comunitários e áreas de lazer devem ser distribuídos de forma equitativa pela cidade, servindo como locais de encontro e interação social. Construir integração dos diferentes.
  • Infraestrutura Verde: Integrar a infraestrutura verde no planejamento urbano, incluindo corredores ecológicos, parques, telhados verdes e sistemas de coleta de águas pluviais. Fortalecer as massas florestais locais e reservas ambientais, incluindo a recuperação de rios degradados.
  • Mobilidade Urbana Sustentável: Desenvolver sistemas de transporte público eficientes, acessíveis e sustentáveis, priorizando o transporte coletivo, ciclovias e caminhos para pedestres. É possível pensar em transporte a custo zero, pois a economia ganharia com a mobilidade do trabalhador.

Instrumentos Globais para uma Produção Industrial Racional e Sustentável

A forma como essa evolução industrial e tecnológica ocorre precisa ser reavaliada para garantir a sustentabilidade global. Abaixo estão propostas de instrumentos práticos visam criar um sistema global de produção industrial mais racional e sustentável.

  • Organização Mundial para a Sustentabilidade Industrial (OMSI): Criar uma organização internacional, sob a égide da ONU, dedicada exclusivamente à regulamentação e supervisão da produção industrial global. A OMSI teria o poder de estabelecer normas ambientais obrigatórias para todos os países, monitorar o cumprimento dessas normas e impor sanções a nações ou empresas que violassem as diretrizes.
  • Acordos de Produção Sustentável: Estabelecer acordos internacionais que limitem a capacidade de produção industrial com base em critérios de sustentabilidade, como emissões de carbono, uso de recursos naturais, e impacto social. Esses acordos poderiam ser vinculados a metas globais de redução de emissões e conservação ambiental, com penalidades para países que não atingirem os objetivos. A relação do que é produzido e estocado com o que é consumido precisaria passar por constantes linhas de equilíbrio global, evitando uma massa de produtos parados em galpões, píeres, ou outros sistemas de depósito logístico.
  • Taxação Global de Recursos Naturais: Implementar uma taxa global sobre a extração de recursos naturais, incentivando as indústrias a usar materiais reciclados e a investir em tecnologias de desmaterialização. Pensar como imposto progressivo, aumentando à medida que os recursos se tornassem mais escassos, ou houvesse reincidências por parte das empresas. Os fundos arrecadados seriam destinados ao desenvolvimento de tecnologias sustentáveis e à mitigação dos danos ambientais globais.
  • Regulação Obrigatória da Economia Circular: Tornar a adoção de práticas de economia circular obrigatória para todas as indústrias globais, exigindo que as empresas desenvolvam produtos que possam ser facilmente reciclados, reutilizados ou compostados. Produtos que não cumprissem esses requisitos seriam proibidos de serem comercializados em mercados internacionais ou sobretaxados.
  • Incentivo ao Desenvolvimento de Materiais Sustentáveis: Criar um fundo global financiado por governos, fundações e grandes corporações para apoiar a pesquisa e o desenvolvimento de materiais sustentáveis e biodegradáveis. Este fundo seria utilizado para acelerar a substituição de materiais poluentes e não renováveis por alternativas sustentáveis.
  • Regulação de Cadeias de Suprimento Localizadas: Incentivar e regular a descentralização das cadeias de suprimento, promovendo a produção local e regional em detrimento de longas cadeias globais de valor. Isso reduziria a pegada de carbono associada ao transporte de bens e criaria economias menos dependentes de fatores externos.
  • Criação de Hubs Industriais Locais Sustentáveis: Investir na criação de hubs industriais locais sustentáveis, que funcionam como polos de inovação e produção com impacto ambiental mínimo. Esses hubs utilizam energia renovável, reciclagem completa de resíduos, e estariam integrados a sistemas de transporte sustentável, servindo como modelos para a produção industrial global.
  • Política de Autossuficiência Regional: Implementar políticas globais que incentivem a autossuficiência regional em certos setores, como alimentos, têxteis e produtos básicos. Isso reduziria a dependência de importações e estimularia a economia local, enquanto diminuiria a pressão sobre os sistemas de produção globalizados.
  • Patentes Verdes Compartilhadas: Estabelecer um sistema de patentes verdes compartilhadas, onde tecnologias inovadoras e sustentáveis sejam de domínio público ou licenciadas sob termos favoráveis para uso global.
  • Incentivo Global para Automação Sustentável: Promover a automação nas indústrias globais com o objetivo de aumentar a eficiência energética e reduzir o desperdício de recursos.
  • Inteligência Artificial para Otimização da Cadeia de Suprimentos: Utilizar inteligência artificial para otimizar as cadeias de suprimento globais, reduzindo o desperdício e melhorando a eficiência no uso de recursos, através de estudos contínuos de dados e auditorias automatizadas, tornando mais eficiente os processos de controle e fiscalização.
  • Simbiose Industrial: Introduzir modelagem de negócios de simbiose industrial, permitindo que indústrias de diferentes nichos troquem insumos, compartilhem infraestrutura, vendam energia, resíduos e matéria prima umas às outras.
  • Educação para a Sustentabilidade Industrial: Introduzir currículos obrigatórios em escolas, programas de pós-graduação e graduação em universidades em todo o mundo focados em sustentabilidade industrial, economia circular e inovação verde. A educação deve ser vista como um instrumento chave para mudar a mentalidade das futuras gerações em relação à produção e consumo.
  • Campanhas Globais de Conscientização: Lançar campanhas globais de conscientização sobre o impacto da produção industrial e a importância de práticas sustentáveis. Essas campanhas seriam financiadas por um consórcio de governos e corporações e visariam informar e engajar o público em questões críticas de sustentabilidade.

Assim, destacamos a necessidade de repensar a urbanização global e os sistemas de produção industrial em um mundo interconectado que recupere o caráter econômico das cidades e não o puramente financeiro. Propusemos instrumentos práticos que visam alinhar o progresso tecnológico e urbano com uma ética mais inclusiva e sustentável. A adoção de políticas que promovam a equidade, a economia circular, a descentralização da produção e a inovação sustentável é essencial para mitigar os impactos negativos do desenvolvimento desenfreado e garantir um futuro em que o progresso beneficie a todos. Essas mudanças são urgentes para que haja um uso justo e racional das tecnologias e indústrias, respeitando tanto as necessidades humanas quanto os limites ambientais.

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Um papo sobre a possível Bolha Imobiliária nos Grandes Centros Urbanos do Brasil.

A expressiva valorização dos preços dos imóveis, a desconexão entre esses valores e a renda dos consumidores e o aumento significativo no estoque de imóveis não vendidos, são indícios que nos levam a considerar seriamente a hipótese de estarmos vivendo uma bolha imobiliária.

Evidências da Formação de uma Bolha Imobiliária

Entre 2008 e 2014, os preços dos imóveis nas principais capitais brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro, tiveram uma expressiva valorização, registrando aumentos que chegaram a 200% em alguns casos. Essa valorização acentuada, em um período relativamente curto, é um sinal clássico de formação de bolhas imobiliárias. Comparações internacionais revelam que o aumento dos preços no Brasil superou o de outros países emergentes e até mesmo desenvolvidos, refletindo uma desconexão entre o crescimento dos preços e os fundamentos econômicos, como renda e crescimento populacional.

A relação entre o preço dos imóveis e a renda média dos brasileiros é outro indicador importante. Nos últimos anos, o preço médio dos imóveis se distanciou significativamente da capacidade de compra da população, especialmente quando olhamos pra cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Essa tendência é evidenciada pelo índice de acessibilidade habitacional, que tem se deteriorado, indicando que os preços estão fora do alcance de grande parte da população. Além disso, a desaceleração nas vendas de imóveis e o aumento no estoque de unidades não vendidas, registrado pela Associação Brasileira das Incorporadoras Imobiliárias (ABRAINC), reforçam a ideia de que o mercado pode estar caminhando para uma correção de preços.

Estratégias Governamentais para Mitigação

Diante desses sinais, o governo brasileiro, tem adotado medidas para evitar o estouro de uma bolha imobiliária. O Banco Central do Brasil, por exemplo, impôs regras mais rígidas para o crédito imobiliário, incluindo a exigência de maiores reservas de capital para os bancos que concedem financiamentos nessa modalidade. Essas medidas visam limitar a alavancagem excessiva das instituições financeiras, o que poderia inflacionar os preços dos imóveis de forma insustentável.

Além disso, o governo tem promovido políticas de controle da inflação. O endividamento das famílias, especialmente com crédito imobiliário, também é monitorado de perto, com o Banco Central implementando políticas macroprudenciais que limitam a relação entre o valor do imóvel e o financiamento concedido e ajudam na prevenção de uma inundação de crédito fácil no mercado, um dos principais catalisadores de bolhas imobiliárias.

Considerações

A possibilidade de uma bolha imobiliária nas grandes cidades brasileiras é uma preocupação legítima, dada a expressiva valorização dos preços dos imóveis e a desconexão entre esses preços e a renda dos consumidores.

No entanto, as ações governamentais, particularmente as políticas de regulação do crédito imobiliário e o monitoramento macroeconômico, têm sido importantes para mitigar os riscos de um colapso no mercado. Porém elas sozinhas não resolverão a problemática. Há um viés que precisamos debater: o que é construído nas grandes cidades enquanto solução habitacional?

Problemática dos Empreendimentos Studio

Nos últimos anos, os empreendimentos do tipo Studio, caracterizados por espaços habitacionais extremamente compactos, têm proliferado nas grandes cidades brasileiras. Esses empreendimentos, muitas vezes vendidos como uma solução moderna e prática para a vida urbana, acabam por se revelar desconectados da realidade de grande parte das famílias brasileiras.

A problemática desses imóveis está na inadequação às necessidades habitacionais da maioria da população. Enquanto o público-alvo desses empreendimentos é geralmente composto por jovens solteiros ou casais sem filhos, o perfil médio das famílias brasileiras, composto por mais membros e com necessidades espaciais mais complexas, não é atendido. Basta ver qualquer peça de marketing de vendas destes produtos e notará que não são destinados a vida cotidiana de uma família brasileira, são vendidos um meio de vida quase turística, o cidadão  almoça fora todo dia nos melhores restaurantes do bairro, passa o dia na rua e volta para o apartamento como quem volta para um quarto de hotel.

Esses imóveis, embora compactos, frequentemente são vendidos a preços por metro quadrado que superam em muito a média dos demais imóveis na mesma região. Isso cria uma bolha de especulação em torno desse tipo de empreendimento, descolando ainda mais o mercado imobiliário da realidade econômica da maioria da população. Assim, os empreendimentos do tipo Studio, apesar de sua aparente modernidade, agravam essa desconexão ao não atenderem às reais necessidades habitacionais da maioria da população.

Possíveis caminhos de mitigação

Para melhorar a equidade habitacional no país, é necessário repensar as políticas de incentivo à construção de imóveis. Uma abordagem mais inclusiva, que considere o perfil demográfico e as necessidades das famílias brasileiras, é essencial. Além disso, o fomento ao desenvolvimento de habitações populares de qualidade, associadas a boas condições de infraestrutura urbana, pode ser uma solução eficaz para equilibrar o mercado imobiliário.

Programas habitacionais que incentivem a construção de moradias acessíveis, diversificadas e bem localizadas, além de um planejamento urbano que promova a integração social e econômica, são fundamentais para evitar o aprofundamento das desigualdades e a formação de bolhas especulativas no mercado imobiliário.

Imagem meramente ilustrativa, gerada por AI -DALL-E tendo como referencia um apartamento studio de 22m² e pé direito de 3,20m.

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Salve a malandragem

No último dia 7, o Rio celebrou a malandragem, essa arte de resistência social. Vivendo à margem das estruturas e redes privilegiadas, criamos ferramentas para navegar e subverter o desfavorável. A vida ensina a malandragem, não tem como fugir, mas ela também é aprendida na escola.

Malandragem não é marra! Há um estereótipo tolo andando pela cidade, como se ser malandro fosse meter bronca nos outros e arrumar treta. No fim viram um bando de mané.

Malandragem talvez seja simplesmente a capacidade que o mais fraco tem de sobreviver dentro das estruturas desiguais da vida, no balanço do trem, na amizade com o dono da bodega para pegar um fiado, na conversa fiada para espantar uma possível confusão. Malandragem é saber apreciar a noite, mas ser esperto para acordar cedo e não se estrepar no trabalho.

A malandragem tem sua potência de alegria acima de tudo, com a astúcia para “não dar mole pra Kojak”. É aceitar que há uma fluidez em certos discursos presos e que nem tudo pode ser 8 ou 80, nem tudo se bate de frente, mas também não é correr da raia dos princípios. Malandro que é malandro tem princípios!

Existe um equilíbrio curioso para se manter vivo, esse equilíbrio ocorre no cotidiano quando entendemos que não somos nós solitários, mas sim nós por nós. A malandragem, no melhor sentido da palavra, é uma arte política, uma arte marcial do diálogo.

Dito isso, não ligo para os estereótipos. O que faz o bom malandro não é a fantasia de malandro, o que faz o bom malandro é o balanço do trem, o descer da ladeira e o caminhar da vida, o drible que o craque aprendeu na várzea. Malandragem é uma arma ativa do pobre, a sagacidade do improviso diante do imprevisível.

Por isso, neste dia 7, o Rio não só celebrou a malandragem, mas também exaltou a astúcia dos que, na batalha do cotidiano, transformam as adversidades em momentos de aprendizado e resistência. A cidade, com sua encantaria malandra, continua a ensinar que a vida é uma grande roda de samba, nas ruas ou no fundo de quintal, improvisando, dançando, acima de tudo, vivendo.

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O seu lugar cura

A mente humana não é um sistema isolado; é uma parte indissociável de um vasto ecossistema social, ambiental e cultural. Neste ecossistema, cada indivíduo habita territórios existenciais únicos, ocupando lugares singulares, ainda que compartilhando um mesmo espaço. O ciclo é constante: assim como nossa mente é influenciada pelo ambiente, ela também o transforma, criando um dinamismo de mutabilidades incessantes.

Devemos conceber uma geo-psicologia. Na metrópole, a insalubridade, a violência e a desigualdade são experiências que geram estresses próprios, moldam nossa lida com o mundo. Porém, em um país onde aproximadamente 50 milhões de brasileiros vivem em áreas rurais e cidades com menos de 100 mil habitantes, onde uma parte significativa da economia gira em torno da agropecuária ou do agrobusiness, não é surpreendente uma contradição: a metrópole é a exceção.

Mesmo vivendo em cidades com elementos urbanos canônicos, se suas raízes são rurais, haverá uma força cultural que se aninha em certas odes de coesão comunitária. O sertanejo mostra isso: apesar de abordar temas universais como amor e nostalgia, que favorecem a regulação emocional, suas canções estão profundamente enraizadas na vida rural. Ela cria um território existencial que une a moradora de Duque de Caxias varrendo sua casa com o garoto da porteira sentado curtindo o seu radinho.

É fascinante quando o sonhador de Leonardo é aquele que, sem saber para onde vai, deixa a vida seguir o sol no horizonte da estrada, mantendo a esperança de que, num toque do destino, o brilho do olhar continuará aceso. É o jovem lavrador que vê na chance de montar um boi no festival de Barretos, o horizonte para mudar sua história. Na mesma idade, um menino joga sua pelada no campo do Martins em São João, sonhando com a Champion League, enquanto sua mãe ouve Eyshila fazendo o almoço.

A perspectiva dos territórios existenciais valoriza a diversidade das experiências humanas ao rejeitar a ideia de uma normalidade universal, um lugar certo. O espaço sim! Tem que garantir toda infra material para a dignidade humana e ambiental, ali, deixemos o povo construir o lugar que o povo quiser, sem medo de amar.

autoral: o passe, grafite no papel
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Aprendendo a Ler o Mundo

Ler e escrever sempre foram partes inseparáveis da minha vida, uma insanidade que me acompanha desde antes mesmo de saber andar. Era como se eu tivesse nascido fazendo isso, confesso que nem lembro como aprendi. No entanto, foi aos 14 anos, em uma aula na ETEJK, que a professora Angela Renata me ensinou a ler jornais.

Angela Renata nos mostrou que cada jornal abre uma janela distinta sobre o dia, informando seus leitores sobre o que considera importante e relevante. Ela nos incentivava a, pelo menos uma vez por semana, ler três tipos diferentes de jornais. Escolhi algumas segundas-feiras, dia que ela sugeriu, e me dedicava à leitura de O Globo, Jornal do Brasil, Jornal do Comércio e O Povo. Afinal, quem nasce nos subúrbios precisa, ao menos, de um “cospe-sangue”.

Esses jornais me abriram os olhos para a diversidade de representações do mundo que coexistem dentro do mesmo mundo. Percebi que cada segmento da população tinha acesso a diferentes tipos de assuntos, moldando sua inserção e ação na vida. Economia, negócios e política eram mais proeminentes para a elite da cidade, enquanto futebol, assaltos e notícias de delegacias eram mais comuns nos jornais consumidos pelos mais pobres. A capa de jornal, exposta nas bancas, era como um meme, gerando um efeito manada no cotidiano. Escrever uma boa manchete é uma arte. Lembro-me de duas capas d’O Povo que ficaram gravadas na minha memória: a primeira, “MATOU A MÃE POR UM GUARANÁ”; a segunda, uma foto centralizada numa página vazia, mostrando apenas uma cabeça sem corpo. O POVO com sua pedagogia da violência nos ensinava a ter medo da vida, enquanto o jornal do comércio ensinava onde o rico deveria investir sua renda.

Hoje, os jornais impressos praticamente desapareceram, mas o ciclo complexo das informações e os parâmetros das janelas que querem nos mostrar continuam firmes. Ler o mundo é estar aberto a todas as janelas às quais temos acesso. Dos jornais, explorei a filosofia, os livros técnico-científicos, as críticas, e ao mesmo tempo, a oralidade dos pontos de ônibus, conversas de calçadas, quintais e praças. Hoje, meu hiperfoco volta à literatura, e aconselho: comecemos pelos clássicos.

autoral: grafite e caneta sobre papel
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No balanço do trem

No balanço do trem, vende água, vende biscoito, vende salame, vende queijo, vende sorvete, vende refri, vende cerveja, vende guaraná, vende fone, vende doce, vende bala, vende tudo. Vem de isopor, vem de break, vem de improviso, vem de pandeiro, vem de samba, vem de choro, vem de caixa de som. Vem devagar, chegando na estação, vem o trem.

No balanço do trem, a vida tem ritmo. Surfista da Zona Norte, moda dos anos 80, dropava no teto, entre a vida e a morte. Ferro, brita, rede contínua. Deodoro, Santa Cruz, Paracambi, Belford Roxo, Saracuruna, Vila Inhomirim, Guapimirim. De Japeri à Central, não há nada igual.

Vago, vagão, vagabundo, cuidado com o vão entre a porta e a plataforma. A sirene toca, o povo embarca, o pregador anuncia sua fala. Pede atenção, desculpa, senhores passageiros, por atrapalhar sua viagem. O camelô traz uma oportunidade única de ter algo supérfluo e provavelmente desnecessário. A viagem segue, a vida segue. Do lado de fora, mais um espírito da luz caído, olhando para o alto. Quanta arte se apaga com a queda do poeta. Caminha pelos trilhos, pula o muro, abre o buraco, passa por baixo. Jogo no Maracanã, jogo no Engenhão.

No reflexo, vejo uma paisagem de segredos esquecidos. Rostos se misturam com muros, casinhas, vazios, o aço desliza no espaço e no tempo. No ventre do trem, o humano é posto à prova; tem uma beleza e uma artimanha fugaz. Em cada curva a realidade se desdobra enquanto o trem avança pensativo, rumo à Central do Brasil.

Poucas obras são tão engenhosas e belas como a Central do Brasil: seu vão livre, seus relógios, a cara de um Brasil que um dia sonhou ser industrial e desenvolvido. Relógios que expõem o paradoxo do atraso, a escolha do abandono à própria sorte. Deixados ao relento, reinventamos a vida no interior do trem, porque somos carne de pescoço, carne que também está à venda dentro e fora dos vagões. “Eu morri e nem sei mesmo qual foi aquele mês.” Somos só gente simples, trabalhando de sol a sol, chegando na estação. Mais uma jornada, logo mais retorno.

autoral: caneta e lapis sobre papel: trem

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Favela! Uma vitória em meio a muitas lutas.

Importante o IBGE reconhecer a palavra FAVELA, depois de séculos de uso cotidiano do termo. Embora tenhamos um retrato extremamente estereotipado quando ouvimos, pois existem milhares de formas e jeitos de se organizar naquilo que chamamos favela. Por exemplo, reconhecemos lugares como a Cidade de Deus, um bairro formal do Rio onde foram construídos conjuntos habitacionais, como favela.

O peso do termo é a luta pela sobrevivência, pela vida. Para parte da opinião pública, Favela é o lugar onde o Estado tem o direito de matar sem julgamento, é o lugar que não deveria existir, onde parte-se do pressuposto da culpa. A favela incomoda e está certa, ela veio para incomodar mesmo. Não tem como o pobre ter direito a terra nesse país sem incomodar.

De Canudos, o embrião que forja o termo favela, aos Yanomamis, o enfrentamento ultrapassa qualquer tipo de discurso representativo. No Rio de Janeiro, lugar onde o termo favela nasceu, a terra é um elemento central na pauta desde a providência até as máfias que distribuem o poder atual da cidade. A luta pela terra é a história de formação deste país.

O rateio do espaço urbano e do espaço rural entre as forças da elite deste país um crime a humanidade. Sem contar que muitas destas relações são dadas na base da violência, ocupação de áreas de proteção, loteamentos, demarcações de latifúndios. Tudo que estiver no caminho destes caras vai sofrer a violência, legalizada e ilegalizada, armada ou não. O poder ruma todo imbricado nessa gente, verdadeiros caciques que espalham tentáculos em redes de parentesco. Desde as capitanias hereditárias o Brasil é um imenso caso de família. Quem manda aqui são os herdeiros da grilagem, dos privilégios, das corrupções que aumentam suas estruturas de poder. Aos expropriados da própria carne, sobra o sacrifício de se manter em um território forjado na barbárie. Sem a reforma agrária e a reforma urbana, esse país nunca vai ser capaz de construir quaisquer estruturas democráticas diferentes das que estão dadas.

imagem: página Madureira ontem e Hoje, Morro da Serrinha
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Descriminalizar a maconha, uma política de Estado

O intenso debate em torno da maconha frequentemente se torna cansativo quando abordado com um viés excessivamente moralista, em vez de ser visto de maneira séria e científica.

Tal debate atrasa, entre muitos, pesquisas farmacológicas e de produção, bem como geram uma falta de investimento mapeado de capital na exploração das potencialidades das fibras do cânhamo e dos produtos derivados dessa planta. Isso ocorre em parte devido à complexidade do mercado global da maconha é praticamente um comodities global paralelo capaz de mexer com todo o cenário do agro (, que pode influenciar drasticamente o panorama agrícola, dominado por culturas como algodão, soja e milho.

No mercado paralelo, a maconha desempenha um serviço ótimo ao capital, cria instrumentos de controle dos mais pobres, cria espaços financeiros para lavagem de dinheiro e fluxos de riqueza não rastreáveis, fortalecendo estruturas de poder substanciais. No entanto, devemos questionar se esse mundo que queremos? Vamos seguir vendo as coisas andarem soltas por aí e gente pobre morrendo? verdadeiramente desejamos permanecer passivos diante do sofrimento dos menos afortunados, enquanto os mais ricos desfrutam sem restrições legais ou morais. Isso não é uma perspectiva de sociedade aceitável.

A descriminalização da maconha apresenta uma oportunidade de aprimorar até o controle de forma muito mais eficiente! Num país como o Brasil, essa medida inseriria a maconha na discussão sobre saúde pública.

Por outro lado, é válido mencionar a associação entre o uso da maconha e o risco de esquizofrenia, ou outros males causados por ela. No entanto, esse risco não é diferente do que observamos em relação ao tabaco, que amplia as chances de enfisema, ou ao álcool, que contribui para a cirrose. Analogamente, problemas de saúde pública como burnout, depressão e outros são agravados por diferentes fatores, como condições de trabalho precárias ou desemprego persistente. A ciência médica é a chave para lidar com essas questões.

É inegável que o debate sobre a maconha enfrenta dificuldades nos estratos sociais mais pobres, pois é justamente nesse território carentes que o Estado não consegue chegar. É nesses ambientes onde a qualidade dos serviços de saúde é deficiente que a maconha, assim como outras substâncias, tende a ser utilizada de forma descontrolada e criar mais prejuízos comunitários, gerando um imaginário do senso comum que se cristaliza. Nesse contexto, a ilegalidade é explorada como uma ferramenta de exploração econômica pelo sistema.

A comparação entre diferentes estratos sociais também é relevante. Um pai de família pobre, que se torna alcoólatra, provavelmente enfrentará um destino mais severo do que um pai de classe média ou rico, que tem acesso a melhores cuidados médicos e uma rede de apoio mais sólida. Para muitos de nós, médico é aquele cara que só conhecemos quando estamos perto do leito de morte, nas portas de uma emergência ou UTI. Só recente que os médicos de família conseguiram furar uma bolha cultural.

Nem toda política de Estado deve agradar a todos; isso seria populismo. O objetivo de uma política de Estado deve ser a caminhar para um lado popular. Embora a legalização da maconha possa ser cooptada pelo sistema capitalista, é viável que com pequenos ajustes institucionaliza a economia que gira por fora dos fiscos e sistemas de controle financeiro, ela pode se tornar uma grande ferramenta nacional de equidade e socialização nacional.  Penso que a descriminalização, fazendo parte um programa abrangente de saúde pública, possa contribuir para a produção agrícola, a indústria farmacêutica e têxtil, além do entretenimento, de forma a abordar problemas sociais complexos, como a violência urbana decorrente do mercado ilegal.

Mercados ilegais frequentemente estão associados a níveis mais altos de violência. Se até mesmo o guaraná antártica fosse proibido, logo surgiriam pontos de venda clandestinos protegidos por segurança privada, competindo por áreas de alto valor econômico. A analogia serve para ressaltar que a descriminalização das drogas traz consigo a ação de desmilitarizar as narcocidades e campos e, no mínimo colocar em visibilidade a relação capital-trabalho que envolve esta pauta. Se esta pauta tiver conectada em um programa que vislumbre a ruptura da contradição capital-trabalho e da hiper acumulação de renda em cima da maioria do povo, melhor ainda!  não apenas reduziria a violência, mas também permitiria uma abordagem mais ampla das questões sociais, com a possibilidade de uma inserção estratégica da cannabis na economia e sociedade do país.

Concluindo, é crucial associar a descriminalização da maconha a um plano de desenvolvimento estratégico social, incorporando-a em todas as esferas do país. Isso evitaria a repetição de erros do passado, como a abolição da escravidão sem uma estratégia de inclusão socioeconomica da população negra. O processo de descriminalização e legalização deve ser planejado, considerando suas implicações econômicas e sociais, com o objetivo de transformar a relação entre capital e trabalho e reduzir a desigualdade.

Mesmo que pareça que o debate pertença só a um nicho estereotipado de população, ao benefício do usuário de classe média ou outros, o que pretendi apontar foi o quanto a descriminalização pode movimentar dentro do sistema: da agricultura familiar ao agronegócio, a indústria, os mais pobres, usuários ou não, envolvidos direta ou indiretamente. O Brasil e qualquer país se beneficiaria muito ao ajustar as ferramentas de controle, orientação e tratamentos necessários. Descriminalizar também é sobre isso! O oba oba que os moralistas tanto temem é o que já acontece com as drogas ilegais, onde os pobres morrem na ponta do fuzil enquanto os ricos se divertem em suas festanças liberais.  

Para ilustrar simbolicamente essa discussão, compartilho uma imagem de meu pequeno pé de Mertiolate. Meus amigos que consomem maconha sabem que ela não é uma planta de cannabis, mas os amigos não usuários frequentemente têm essa impressão, e assim, o pé de mertiolate pode ser perseguido por pura falta de conhecimento. Essa experiência destaca a importância da percepção pública e das narrativas construídas em torno de determinados temas.

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Arquitetura e Urbanismo, artigo, pensamento, política, trabalho

Sobre o trabalho do arquiteto

A crise da construção civil traz à tona o discurso de desregulamentação do salário-mínimo profissional de arquitetos e engenheiros. Entre os argumentos mais falados entre arquitetos (leiam, entre nós) sempre se citam os pequenos escritórios que não conseguem arcar com os custos empregatícios de profissionais devidamente registrados. Me aterei a esse recorte no momento.

Estes mesmos pequenos escritórios sofrem também com a tributação excessiva e com os gastos em softwares e hardwares para manter-se vivos, e isso denota uma coisa importante: a crise não é por conta do trabalhador, mas por conta da má inserção do arquiteto no universo jurídico empresarial do Brasil. Quaisquer escritórios são tratados e vistos como uma construtora ou grande empresa de consultoria e não pelo perfil do profissional liberal como médicos ou psicólogos, que podem ter seus pequenos consultórios.

Sobre o caso do trabalhador no ramo de serviços, há uma questão viável de se fazer, os arquitetos podem compor um contrato civil entre as partes e ser pagos por prestação de serviços, o que isso acarreta é basicamente uma mudança de cultura de trabalho, pois não caberia mais a cobrança por CLT e sim por serviço entregue, visto que não há vínculo empregatício.

Quanto aos tributos, este sim é o grande entrave que ninguém aparentemente quer tocar. Inventam-se meios e subterfúgios, mas a realidade é que um pequeno escritório NÃO DEVERIA SER TRIBUTADO COMO UMA GRANDE EMPRESA DO CAMPO DA CONSTRUÇÃO CIVIL. Ao que parece a reforma tributária não prevê uma mudança nisso, correndo ainda o risco de haver uma maior tributação sobre o profissional liberal e com isso uma pane no campo da profissão.

Como, diferente da engenharia, que se manteve no canteiro de obras e se fortaleceu enquanto categoria hegemônica na construção civil pesada e na indústria, os arquitetos se tornaram um item de serviço que muitas das vezes se vende pelo luxo e pela exclusividade. Isso para o mercado é um prato cheio a favor da precariedade, nós mesmos criamos um campo oferta e demanda de serviços que é muito mais de nicho social que de massa.

Somado a isso tudo ainda temos os altíssimos custos de um sistema de ferramentas que nos cabem: pacotes proprietários de softwares que cobram preços anuais astronômicos por exemplo. Todo o desenho de sistema é dado para que se crie alguns pouquíssimos grandes conglomerados de projeto. Como um campus industrial da arquitetura e urbanismo, que aglutinará projeto, gerenciamento e acompanhamento de obras. Estes subcontratarão arquitetos por pequenas demandas (encaixando legalmente na lógica de contrato civil). Com isso, a hegemonia de controle da profissão estaria completamente domesticada por meia dúzia de grandes bilionários no mundo a fora. Não é ilusório pensar nisso em um planeta onde a disputa de controle territorial é travada de forma cada vez mais severa.

Assim, retomo uma tecla que sempre bato, o que o brasileiro médio não consegue compreender é que o recorte classista da sociedade inclui ele – o pequeno profissional liberal – no balaio dos explorados, para que uma casta de grandes donos de capital consiga manter seus privilégios.

No campo ampliado da arquitetura, o projeto parece claramente o mesmo de sempre: a constituição e manutenção de um determinado grupo privilegiado que, ainda assim, sofrerá danos materiais. Estes danos serão repassados em uma manifestação contra os donos do capital do Brasil? Provavelmente não, estes irão estourar na massa de arquitetos sem sobrenome famoso no meio, sem dinheiro e contatos para ir a congressos e afins, arquitetos estes que acabarão hiper explorados ganhando salários de estagiário premium e muitos destes quietos pois sonharão que um dia pertencerão ao tal ciclo privilegiado. Porém, sem um embate real com as políticas trabalhistas vigentes, a tendencia é isso virar um ciclo vicioso de escritórios mambembes que entregam projetos e obras de pouco esmero realizados por trabalhadores hiper explorados e nada recompensados (nada muito diferente do que já acontece na educação com as escolas privadas).

Este é o charco diário na cabeça do trabalhador. Ainda somos uma categoria que se enquadra numa certa classe média brasileira, e infelizmente isso coloca as possibilidades reais de luta em uma letargia sem fim. Vamos seguir tomando prosecco no último baile da ilha fiscal enquanto o Brasil pega fogo.

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