Vivemos a intensidade de um novo mundo que se desenha entre tragédias. Este momento nos empurra para a borda de um novo modelo de vida, potencialmente transformador. Pela primeira vez, enfrentamos crises que atravessam a geografia desigual do planeta; o que antes parecia ficção, agora arrasta o coletivo.
A pandemia foi o primeiro grande alerta: um sinal de que as políticas públicas precisam superar fronteiras para alcançar essa nova esfera de interdependência. Em um passado recente, o pensamento progressista abandonou as disputas classistas e centrou-se na inclusão, na equidade, na justiça social, buscando a inserção democrática dentro do capitalismo. Hoje, porém, é inevitável incorporar à pauta uma dimensão ampliada que recupere o centro da discussão da produção e da desigualdade e inclua a crise ecológica – é na racionalidade sobre produção e consumo que repousa a sustentabilidade social, vital para a vida na Terra.
Sem essa dimensão, o sistema revela-se um organismo exausto. As enchentes em Valência são um retrato disso: a vasta extensão de terra tomada pelas águas grita uma realidade incontestável – não estamos prontos para os desastres naturais da era da superexploração. E no sul do Brasil, as chuvas caem sem distinguir no território, o recorte de classe. Desaba sobre todos, ainda que os mais ricos encontrem alguma proteção. Mas todos, sem exceção, sentem algum peso da tragédia.
Viver numa sociedade focada em mitigação e inclusão não resolveu o cerne da questão: o próprio modo de produção e reprodução do sistema está desalinhado com a capacidade de equilíbrio do planeta. A intensidade dos efeitos naturais sobre a vida humana exige uma ruptura, uma pausa que permita recomeçar – algo que soa utópico, até mesmo na literatura.
Contudo, é preciso lembrar: as tragédias globais apontam para a urgência de um modelo transformador. Crises são janelas para redesenhar o presente. A justiça climática poderia ser a base de um novo modelo, onde o poder econômico serve à sustentabilidade e à inclusão, rompendo o ciclo de exploração que multiplica as tragédias sociais e ambientais.
A pandemia nos deixou um eco profundo da fragilidade global e demonstrou a imensa necessidade da interdependência entre políticas públicas, saúde e sustentabilidade. O caminho aponta para a busca de sistemas de saúde integrados e políticas que criem uma “saúde planetária”, capaz de prever e mitigar futuras pandemias, reconhecendo o laço estreito entre degradação ambiental e zoonoses. Esse novo olhar sobre a vida – sistêmico, ecológico, preventivo – surge como urgência.
Asimov nos lançou um interessante paradoxo sobre tecnologia: “O fogo é perigoso a princípio, assim como a fala (…) mas os humanos não seriam humanos sem eles.” A tecnologia é parte do que nos define, ao mesmo tempo nos desafia. Em vez de apagá-la, devemos redirecioná-la, fazê-la pulsar por metas coletivas e planetárias, onde “techné” recupere seu sentido grego de habilidade útil, arte, equilibrada com a razão. Assim, não é a inovação tecnológica em si o problema, mas a ética que a rege.
Poderíamos então nos dedicar a outra ciência, uma ciência do ofício, do sensível e do toque ancestral. Em um mundo que se despedaça, recuperar o manejo sustentável da terra e dos biomas é inovador. A justiça ambiental emerge como uma expansão da luta por equidade, elevando o direito à vida para além da humanidade. A superexploração é um elemento a ser reescrito, com a diminuição das práticas extrativistas e a adoção de práticas regenerativas, ainda que isso traga rupturas profundas na organização global atual.
Adoramos a ciência moderna, que nos deu anos a mais de vida. Mas a imortalidade não é um parâmetro humano alcançável. Precisamos, talvez, de uma ciência que valorize a vida enquanto coletividade, que enxergue o humano demasiado humano enquanto um ser múltiplo, que deixe uma história viva após nossa passagem. Reconstruir escalas de valor, sem o romantismo de que a ação individual é o bastante. Um novo pacto passaria primordialmente pela articulação entre indivíduos, instituições e culturas. Formação de redes, encontro entre muitas vozes, ativismos locais, lideranças globais, são muitas as frentes que disseminam o caminho possível.
Há um desejo forte, de parte de lideranças globais, de estruturar uma governança para as grandes crises; mas essa iniciativa precisa das raízes locais, comunitárias. Precisamos atingir a microescala, aprender com a natureza a respiração de seus ciclos. Retomar o encontro do relógio maquínico com o tempo sagrado dos astros.
Alguns mitos e símbolos ancestrais nos ensinam sobre valores sustentáveis. Povos originários, em suas relações simbióticas com o sagrado da natureza, trazem outra ética. Em movimentos de direitos da natureza, como no Equador e Nova Zelândia, rios e florestas têm voz. Esse novo olhar ecológico, ao reintroduzir os mitos no debate ambiental, nos afasta da visão instrumental da natureza. Não falo sobre dogmas, verticalidades de pensamento, mas sobre o saber do sensível, da capacidade de religar-se com o que importa.
A urgência é, então, costurar a rede existente de forma que ela se entrelace com a governança global e local. Dar voz aos modelos de gestão e resistência que permitam decisões políticas concretas, enraizadas na realidade das micro escalas. Redes como o Navdanya, Pachamama.org, Rede Ambiental Indigena, Seed Freedom, Global Forest Coalition, Via Campesina, entre outros, nos permitem conhecer outros mundos possíveis. Mundos capazes de tentar frear o ciclo devastador e realinhar nosso modo de viver com as possibilidades reais do planeta.
Ultimo pedaço de terra livre
No alto dessa colina estamos reunidos sob o céu carregado. Somos camponeses, cientistas, poetas e anciãos de diversas etnias, unidos pelo propósito que nos sobrou. Transformar essa colina em um santuário de resistência e renascimento. Sem certeza de nada, apenas uma missão clara: desacelerar o tempo. Queriam, como quem retém a respiração, reconfigurar a existência.
Sentimos o peso da crise em cada camada da pele, mas ali, no silêncio coletivo, começamos a compreender o real significado do vínculo entre terra e vida. A humanidade, percebe atônita, não poderia sobreviver sem mudar o curso de seus passos.
Ali, plantamos as últimas sementes que nos alimentavam. A “ciência do toque”, técnica ancestral de cultivo e afeto com o ecossistema local. Ao lado do plantador, cientistas traduzem aquele saber em dados, replicáveis e espalháveis para outras comunidades. O que germinou em nós, espalhamos pelo mundo, como um fogo que arde em nome da cura. Será que há outros de nós por aí?
E no murmurar da madrugada que já não ve estrelas, em torno da fogueira debatemos um futuro onde a economia serve à terra e não o oposto. No silêncio da urgência, esta é uma revolução do sensível. Se um dia o futuro existir, começaria exatamente ali, sob o céu em murmúrio e o último solo fértil e livre. Ali respiramos o tempo calmo das sementes.
O Rio de Janeiro é uma cidade que constantemente desafia a nossa capacidade de se chocar. A mais recente dessas provocações veio na forma de um vídeo: um cidadão baleado na cabeça, sentado dentro de um ônibus na Avenida Brasil, em um dia marcado por intensos tiroteios que sitiaram cinco bairros inteiros. Em respeito à dignidade da vítima e de todos nós, me recuso a compartilhar essas imagens.
Cinco estações ferroviárias foram fechadas: Penha Circular, Brás de Pina, Cordovil, Parada de Lucas e Vigário Geral. Além disso, 35 linhas de ônibus tiveram suas rotas fortemente alteradas ou suprimidas. Com isso, a conexão entre a Zona Oeste, a Zona Norte, a Baixada Fluminense e o Centro da cidade ficou seriamente comprometida, sob a constante ameaça de violência.
O bairro de Brás de Pina, parte da Vila Guanabara, conhecida como a “princesinha da Leopoldina”, tem uma história marcada por sua pujança econômica. Seus casarios neocoloniais e o traçado urbano que, visto de cima, lembra uma colmeia, fazem parte de uma área que também abriga uma comunidade que resistiu às remoções da era Lacerda e foi palco da primeira urbanização de favelas da cidade. Porém, hoje, esse território luta para sobreviver à expansão de um poder paralelo que se alimenta do fundamentalismo.
Há uma incompreensão generalizada sobre o que realmente compõe o chamado Complexo de Israel. Muitos reduzem sua presença apenas às áreas de favelas, mas o fenômeno se estende também às áreas formais dos bairros, controlando grandes glebas e impactando toda a região. Desde 2009, venho afirmando: se o fundamentalismo se enraizasse no Brasil, seria a partir do neopentecostalismo. O que vemos no comando do “Exército de Israel” é a materialização desse presságio. Bairros inteiros estão sob seu domínio, com tecnologia bélica de ponta, oferecendo uma gama de serviços básicos e impondo regras próprias sobre o território. O grande dilema é que, ao contrário de uma ocupação meramente estratégica e material, o Complexo de Israel opera em uma espécie de guerra santa, como se parte da Zona da Leopoldina tivesse se tornado uma representação de uma “Israel divina” sob a qual todos temos de nos submeter.
O mais impressionante é o aparente desinteresse do poder público em assumir a responsabilidade que lhe cabe: retomar o controle territorial. Essa ação deveria superar qualquer divergência ideológica, pois a realidade é simples e direta: onde o Estado não exerce seu poder de governança, outros poderes assumirão esse papel. Nesse território, fica nítido que o Estado perdeu o controle.
Não adianta aqueles que influenciam e organizam economicamente esta cidade tratarem este problema como um mal menor. O aparato publicitário que favorece as políticas de cidade criativa, hub cultural, cidade global e turística não se ampara quando imagens como as do dia de hoje se tornam um padrão da cara da cidade. É preciso que estas forças econômicas compreendam que um problema de Brás de Pina, da Cidade Alta, de Cordovil, de Lucas é um problema da cidade, tal qual o é o problema do Leblon, de Ipanema, Catete. Não há campanha de Cidade Maravilhosa que resista a tragédia humana que está sendo o dia de hoje para esta região.
A Terra de Pixinguinha, está gritando socorro, sequestrada e sitiada pela loucura da barbárie de um projeto de Brasil que deu errado. Povo sem acesso a escola, transporte, segurança, saúde, espera a pausa das balas, um momento imponderável, para arriscar-se nas ruas em busca de sua luta diária por sobrevivência, sem saber se no fim do dia chegará em casa. Sabemos que a saída não é simples e precisará de uma ação sistêmica, trazendo para as decisões vários atores sociais. assistência social, segurança pública, poderes econômicos, entre outros precisarão operar em uma modelagem de estado que recuperem o território e o desejo de vida dos citadinos transformar novamente o espaço que hoje é do medo, em um lugar desejado pelos seus.
A gramática da guerra santa, da intolerância religiosa e do controle divino sobre o território apagam quaisquer possibilidade de reconstrução popular. Aos que moram nestes bairros tem restado o medo diário e a nostalgia de dias melhores que já foram vividos, dias que Dolores Duran aprendeu a tocar piano na aprazível princesinha da Leopoldina.
foto de autoria própria: Avenida Arapogi e suas águas.
Lendo o relatório “Global Economic Prospects – June 2024”. Ele revela os desafios econômicos globais e a crescente disparidade entre economias desenvolvidas e em desenvolvimento, destacando a necessidade urgente de uma abordagem coordenada e inclusiva para reduzir as desigualdades econômicas e sociais que se aprofundaram após a pandemia de COVID-19. O relatório aponta que o crescimento global projetado de 2,6% para 2024 demonstra um ritmo insuficiente para transformar significativamente as condições de vida em muitos países em desenvolvimento. Essa diferença acentua as dificuldades enfrentadas pelas economias pobres, que, apesar de abrigarem a maior parte da população mundial, encontram barreiras para atingir um desenvolvimento econômico sustentável, mantendo a desigualdade historicamente parametrizada.
A persistência das desigualdades é notável, com quase metade dos países em desenvolvimento sem perspectivas de reduzir a disparidade de renda em relação às economias avançadas até 2024. Essa situação reforça o constante ciclo de pobreza e dificulta investimentos em setores essenciais, como saúde, educação e infraestrutura, que são fundamentais para o desenvolvimento humano e a melhoria da qualidade de vida. Em meio a isso, é importante enfatizar o papel do investimento público como um motor de crescimento e inclusão econômica, especialmente em países pobres, onde a infraestrutura básica ainda é uma necessidade que precisa ser universalizada. No entanto, a eficácia desses investimentos esbarra na falta de uma gestão pública eficiente e transparente, algo comum nas economias mais vulneráveis, onde a má alocação de recursos, disputas ideológicas sem planejamento e a busca do poder pelo poder perpetuam o status de subdesenvolvimento.
Adicionalmente, vemos no mundo de hoje uma vulnerabilidade em redes de muitas entradas, desde pequenos estados e economias em conflito até povos que enfrentam desastres naturais cada vez mais frequentes, fruto das mudanças climáticas, além do surgimento de ciclos de pobreza e de crises endêmicas cada vez mais recorrentes.
O conceito de policrise surge como um destaque interessante, apontando que essas crises não devem mais ser lidas de forma isolada, mas, ao contrário, se entrelaçam, gerando efeitos multiplicadores que evidenciam e potencializam a vulnerabilidade dos sistemas globais. Esse entendimento sistêmico é essencial para lidar com crises que se reforçam mutuamente, como a pandemia, as guerras e as mudanças climáticas, que, ao interagirem, amplificam problemas como a inflação global, a insegurança alimentar e a instabilidade geopolítica.
Os mecanismos sistêmicos contemporâneos demonstram como uma crise pode desencadear outras em uma sequência que foge ao controle, criando ciclos de deterioração coletiva. Diante disso, as respostas tradicionais de política, focadas em problemas isolados e em uma visão especializada, são insuficientes para lidar com a profundidade e a complexidade das crises atuais.
Para piorar, cerca de 40% dos estados pobres estão sob elevado risco de crise de dívida, limitando suas capacidades de investir em áreas críticas. A situação desses países evidencia a necessidade de apoio internacional, tanto para garantir a estabilidade financeira quanto para fortalecer sua adaptação às mudanças enfrentadas pelo planeta. Nesse contexto, a cooperação internacional deveria assumir a responsabilidade de mitigar desigualdades, promover a transição para uma economia mais verde e digital e reforçar a segurança alimentar como um direito à dignidade humana e à vida. No entanto, as tensões geopolíticas e a fragmentação das políticas comerciais dificultam a implementação de uma agenda global colaborativa. Resumindo: diante de momentos de crise, uma parte gigante dos poderes globais age como: “se o peixe é pouco, meu pirão primeiro”. Um entendimento tolo que não percebe que o problema do outro também é um problema nosso.
Sugerimos a urgência de políticas de longo prazo que priorizem a inclusão social, a redução da pobreza e o desenvolvimento sustentável para alcançar um crescimento mais equitativo. Esse é um sonho de inúmeros intelectuais, políticos sérios e agentes diversos no planeta. Um diferencial diante disso é que as políticas precisam considerar a interconectividade das crises e buscar soluções integradas, abordando simultaneamente todas as vulnerabilidades dos sistemas globais. Isso significa, por exemplo, que a formulação de políticas climáticas, além de mitigar emissões, precisa ser capaz de enfrentar os impactos sociais e econômicos das mudanças climáticas. A insistência em soluções fragmentadas tende a perpetuar ciclos de crises mal resolvidas, levando à repetição de problemas em uma escala e intensidade cada vez maiores.
Quando pensamos nas políticas de redes complexas como uma possibilidade de resposta à crise, podemos considerar que essas políticas representam um caminho para lidar com os muitos problemas contemporâneos, propondo uma governança que considere as múltiplas camadas de desafios. Integrar diferentes frentes de ação e fomentar uma cooperação mais ampla entre nações pode ser uma chave para atenuar os impactos das crises e construir uma base de resposta global. Assim, a reflexão que surge é: como estruturar políticas de redes complexas que sejam efetivas em um cenário de incerteza e fragmentação global? A resposta a essa questão não parece simples, mas pode delinear o futuro das relações internacionais e do desenvolvimento econômico sustentável, buscando um equilíbrio entre progresso e inclusão social em um mundo cada vez mais interconectado.
Foto-montagem: Zeca Pagodinho discursando sobrea vida na ONU.
Tomo a liberdade de remixar um termo citado por Darcy Ribeiro em uma entrevista para refletir sobre a ciência e seu papel na sociedade. A ciência enfraquece quando se torna o território dos “cavalos de santo” da intelectualidade.
O campo acadêmico e científico é um dos pilares mais promissores da estrutura social contemporânea. Talvez o melhor investimento que a humanidade possa fazer esteja naqueles que se dedicam à experimentação, à pesquisa e ao desenvolvimento. Esses indivíduos arriscam-se no terreno das hipóteses, buscando inovações que transformam o mundo. Contudo, esse campo encontra-se hoje estruturado sob uma lógica de exploração e alienação, refletindo a organização de todo o sistema econômico. Se antes reverenciávamos a intelectualidade, como quem presta tributo a uma divindade, hoje nos deparamos com cientistas altamente precarizados, dedicando praticamente 24 horas por dia a seus projetos, enquanto enfrentam depressão, burnout e crises financeiras.
A realidade é dura: sem desmerecer outras profissões, eu, Rodrigo, com meu diploma de técnico em elétrica, consigo um emprego com um salário superior ao de uma bolsa de doutorado, e de forma relativamente confortável.
No entanto, não pretendo me aprofundar aqui na crise material, pois ela caminha ao lado de outra, ainda mais complexa e subjetiva. Um paradoxo emerge: a ciência e a produção de conhecimento são, por natureza, processos coletivos, contínuos e sem fronteiras. Contudo, o exercício científico, quando organizado como um sistema de produção formal, tornou-se altamente competitivo, individualista e solitário.
As publicações científicas, hoje, perecem ao valorizar mais o rigor da formatação, a citação de autores consagrados e a quantidade de títulos acadêmicos do que os resultados verdadeiramente inovadores e de impacto social relevante. Esses artigos são revisados por pares, em processos lentos e custosos, que muitas vezes limitam o acesso aos próprios resultados da pesquisa. A ciência se perdeu naquilo que criticava: tornou-se hermética, o território de poucos iluminados. A quantidade vale mais que a qualidade, e o furto de trabalhos, ideias e dados é uma constante, um verdadeiro campo minado. A ciência, que deveria ser um empreendimento coletivo, compartilhado entre aqueles que se dedicam ao seu avanço, foi reduzida a uma luta solitária por financiamento e reconhecimento. Nesse contexto, muitas vezes falta a abertura para o diálogo e a colaboração entre pares, assim como a coragem para assumir riscos e explorar caminhos menos convencionais.
autoria própria: Stephen Hawking e o Pequeno Príncipe conversando sobre o universo
Produzir conhecimento, por sua vez, é algo que fazemos continuamente. O maior desafio do indivíduo é ter a coragem de se lançar ao risco, diante de um sistema que aprisiona e formata a vida científica. Para além das universidades e dos centros de pesquisa, há saberes que nascem nas comunidades tradicionais, nas práticas cotidianas, nas trocas entre trabalhadores e em movimentos sociais que enfrentam desafios locais com soluções criativas. Esses conhecimentos têm suas próprias metodologias e princípios, muitas vezes transmitidos oralmente ou por práticas de convivência, como é o caso do conhecimento de povos indígenas sobre o manejo sustentável da terra ou das experiências comunitárias de cooperativas urbanas.
A estrutura científica contemporânea alcança resultados, mas, para isso, limita a existência da vida ao não se permitir costurar a trama dos muitos estímulos sensoriais que ritualizam a experiência humana na Terra. Falta à ciência o toque fino na vida e no outro, algo comum aos poetas, aos esotéricos, às culturas mais tradicionais.
O reconhecimento acadêmico desses saberes ainda é limitado. Muitas vezes, o que não se adequa aos rigorosos critérios de validação científica acaba sendo subvalorizado ou considerado anedótico, mesmo quando essas práticas trazem respostas concretas para problemas ambientais, sociais e econômicos. Rezadeiras, cartomantes, yogues tântricos, praticantes de tai chi, meditação e herbalistas são desconsiderados como parte da formação do saber.
É justamente nesse ponto que surge a necessidade urgente de reimaginar a ciência como um espaço de liberdade intelectual, onde o risco e a colaboração estejam no centro. Reimaginar a ciência significa, também, resgatar a noção de que o conhecimento científico não é um fim em si mesmo, mas um meio para melhorar a vida das pessoas, construir soluções coletivas e responder às crises que atravessamos enquanto sociedade global. Significa criar espaços em que cientistas possam trabalhar sem a sombra constante da precarização e da pressão por métricas de impacto. A experiência da pandemia de COVID-19 mostrou o valor de esforços colaborativos, como as coalizões internacionais para desenvolvimento de vacinas, demonstrando que, diante de grandes desafios, a união de esforços e a abertura de dados podem gerar avanços rápidos e transformadores.
É fundamental também repensar os critérios de avaliação científica, valorizando a qualidade do impacto social dos projetos e o compromisso com questões urgentes da população mundial fragilizada. Importa menos os santos da ciência, e muito mais os dispositivos que eles trazem e as formas como os utilizamos.
O próximo salto está aí, a meu ver: construir uma ciência aberta ao diálogo, ao risco e ao compartilhamento de saberes, onde a criatividade possa florescer. Com esses passos, talvez possamos resgatar a esperança de que a ciência, em sua diversidade, possa novamente ser um território de construção de um mundo mais justo para todos. Fazemos ciência nas conversas de bar, nas trocas cotidianas e na observação dos momentos simples de prazer e boas risadas.
No encontro entre o saber acadêmico e os conhecimentos que emergem dos povos, há um toque sutil, como um fluxo que pulsa entre a racionalidade e a intuição, tal como a respiração que conecta os corpos ao espírito. A ciência, ao abrir-se para esse toque, transcende seus recalques e mergulha num campo onde cada descoberta se torna um ato libertário de entrega, de diálogo com o desconhecido.
Ali, dissolve-se o ego sofrido do pesquisador isolado, dando lugar ao movimento coletivo, onde o risco é uma forma de êxtase e a colaboração entrelaça razão e sentimento. Assim, a ciência pode se transformar num espaço relacional, onde cada troca expande os limites da compreensão, ecoando um desejo profundo de alcançar e tocar, mesmo que de leve, a pulsação da vida real.
Isaac Asimov, um pioneiro em robótica e algoritmos, nos apresentou uma visão importante da sociedade: a possibilidade de uma estrutura regida por regras claras e universais, capaz de coordenar nossas ações e interações. Hoje, enfrentamos um desafio semelhante, mas em um contexto muito mais complexo. Como construir uma política que dê conta da diversidade e interconectividade de uma sociedade em rede, onde as antigas formas de organização coletiva estão esgotadas?
Estamos em um momento de ruptura social: as grandes estruturas de organização coletiva, que por muito tempo sustentaram partidos, ordens religiosas, movimentos sociais e ajudaram a produzir as políticas públicas, hoje não falam de forma completa à nossa realidade. A lógica de massas parecem ultrapassar limites que não são mais suficientes para abarcar a complexidade das relações contemporâneas. Se as bandeiras unitárias não oferecem mais nós mobilizadores, é porque a realidade das redes expõe um novo modo de organização e de interesse social – mais fluido, interconectado e diversificado.
A lógica de identidade, apesar de ainda ser útil na construção de políticas públicas, atinge um limite ao deixar de fora uma vasta gama de indivíduos que não se enquadram nos padrões necessários para serem atendidos. Assim, indivíduos encontram em redes contemporâneas respostas para inquietações e problemas que lhe parecem prioritários. Um jovem favelado gay criado na igreja batista que não se sente oprimido por questões de gênero no seu ciclo cotidiano, mas que tem a geladeira vazia vai encontrar como prioridade uma luta material por sobrevivência (dinheiro e comida) do que uma luta por gênero por exemplo. Um garoto branco morador de favela que fica em segundo plano na lida de uma ONG que combate o racismo pode sentir-se preterido em uma luta periférica e tentar encontrar seus caminhos em outras esferas.
Em tempos anteriores, estes exemplos eram poucos ou, ainda havia uma capacidade de aglutinar casos diversos sob uma bandeira. Porém, os dias atuais, a singularidade e diversidade se tornam o elemento de desejo e interesse. O dilema que enfrentamos está justamente aí: construir uma política que exige mobilização em massa – seja ela um Estado, um grande grupo social, ou uma coalizão- em um mundo cada vez mais diverso de representação e encaixe. A sociedade em rede evidencia cada vez mais as singularidades, seus fluxos e interconexões. O detalhe que te diferencia é tão ou importante quanto o que te iguala no sistema. Se o que me diferencia é mais desejante do que aquilo que me une, como consigo construir uma política de massa, visto que esta precisa se balizar por uma média da maioria?
Estamos habituados a padrões organizacionais modernos, pós-industriais, que buscam algum tipo de elo de segurança: uma ordem, uma liderança central, ou um corpo de controle administrativo, gestor. Contudo, a realidade atual escapa a esse modelo. É simplista e até ludita acreditar que o controle das redes sociais, por exemplo, é movido apenas pelo desejo de um “grande irmão capital”. Acreditar que, ao identificar um driver central, resolveremos os problemas das redes ignoramos o fato de que vivemos em um sistema cada vez mais descentralizado.
Pensemos em nossa rede atual como um sistema que se organiza por múltiplos nós interligados. No entanto, não nos coloquemos como esses nós, mas sim como as pulsões que trafegam por eles: somos entes de força ativa. De forma autônoma, porém organizada por uma série de protocolos e regras (como as três leis da robótica de Asimov), podemos navegar por espaços que são tão reais quanto virtuais. Um bom exemplo são os motoristas de Uber, que discutem política durante suas viagens, demonstrando como fluxos de informação se formam e se dispersam em redes complexas independente de serem sistemas virtuais.
Cada um de nós pode ter seu próprio foco, suas próprias lutas e papeis, constituídos ou constituintes. E nossas ações, por sua vez, são coordenadas por mecanismos distribuídos, como blockchain, sistemas peer-to-peer, ou redes neurais profundas, que possibilitam a comunicação sem a necessidade de uma estrutura centralizada. Esse modelo se reflete nos movimentos sociais contemporâneos, como os trabalhadores de aplicativos, que constroem solidariedade e trocam informações sem depender de uma hierarquia formal.
Assim, o controle do sistema não é o que inserimos, surge mais da interdependência e do fluxo de informações que de uma autoridade central. A dinâmica do poder torna-se difusa, surgindo de inúmeras interações que operam em sinergia, muito além das visões modernas de controle total por corporações ou governos.
Diante dessa realidade, nos vemos obrigados a compensar as formas de construir uma política global que seja capaz de coordenar esses fluxos, respeitando a singularidade de cada nó, ao mesmo tempo, articulando uma ação coletiva. E isso é algo extremamente desafiador, pois nosso primeiro enfrentamento é romper com dogmas e paradigmas industriais e pós industriais.
Não é tarefa simples repensar o planeta dentro destes novos modelos, não acontecerá pelos sistemas constituídos e consolidados. Talvez, como todas as grandes mudanças da humanidade, acontecerá de forma periférica, meio alternativa, até que as estruturas estejam prontas. A questão é que talvez não tenhamos tempo na Terra para tal reorganização social. Se Asimov nos ensinou algo, é que o desafio não está apenas em criar novas regras, mas, principalmente, em como nos relacionamos com elas. Detesto terminar texto com perguntas, porém este será assim. Estamos prontos para pensar a política a partir da perspectiva de redes complexas e algoritmos?
Por pura diversão, pedi ao DALL-E para criar três imagens a partir de três narrativas:
1 – uma visão a partir do pensamento do senso comum sobre as redes a partir do controle do capitalismo
2- uma visão a partir do pensamento do senso comum sobre as redes com uma vitória do sistema soviético
3-uma visão a partir das reflexões postas aqui e da articulação das teorias das redes complexas.
Esta semana, deparei-me com um novo elemento curioso na paisagem urbana. Pelo que observei, ele já está consolidado há algum tempo em certos pontos da cidade: totens espalhados por vias importantes de diversos bairros, construídos em material metálico, com uma luz verde que remete ao visual de “Matrix”, decorados com símbolos criptografados e a mensagem: “Esta rua é protegida pela Gabriel.”
Sem muito alarde, o Rio de Janeiro recebeu um novo tipo de controle social — desta vez, tecnológico e digno das literaturas de Orwell, Asimov, Neumeier e Miner, ou até mesmo das irmãs Wachowski. A tecnologia em si, assim como sua implementação na cidade, não é uma novidade. Ela me remete à transformação de um conceito comunitário estudado por Jane Jacobs, o dos “olhos da cidade”, em capital e negócio.
Não entrarei aqui no debate sobre a privatização total do controle da violência no Rio, tema que se manifesta em exemplos como o domínio de territórios por forças paramilitares diversas. O foco, neste caso, é o fim da urbanidade e a terceirização dos olhos das ruas. Modelos tradicionais de bairro, que sempre foram vendidos pela ideia de encontros, de relações diretas com o espaço público, com o diferente e o inesperado, perderam a disputa subjetiva. A “condominialização” da vida venceu, e isso nos diz muito sobre como a cidade pode ser completamente terceirizada.
A vida condominial transfere responsabilidades significativas do Estado para grupos privados. Vias públicas inteiras passam a ser monitoradas por sistemas variados: síndicos, associações de moradores, lideranças locais, empresas de segurança, entre outros. A vigilância por câmeras, que o próprio Estado já promoveu com iniciativas como o COR (Centro de Operações Rio), agora divide espaço com empresas como a Gabriel.
Um aspecto intrigante da câmera é sua estética própria, claramente bem estudada, que vai das cores às mensagens e aos símbolos, sua cor verde, seus signos criptografados no totem e até mesmo seu nome próprio masculino sendo tratado pelo gênero feminino. Esses elementos constroem uma “persona” e uma mensagem, como nos ensinaram os grandes pensadores da ficção científica e os grandes religiosos do mundo. À primeira vista, pode parecer o mesmo modelo de negócio do COR, mas o universo simbólico em torno da Gabriel aponta para outra direção. A câmera quer ser vista, decifrada e, acima de tudo, quer nos vigiar 24 horas por dia.
Ironicamente, num mundo onde o direito de ir e vir e a defesa da vida privada são tratados quase como mantras por aqueles que defendem esse modelo de segurança, essas empresas têm o poder de transformar nosso cotidiano em um verdadeiro “Big Brother”, usando a segurança como justificativa. Outra ironia: os mesmos defensores dessas câmeras nas ruas muitas vezes se opõem ao uso delas para monitorar operações policiais.
Curiosamente, a presença da Gabriel não parece ter tido um impacto significativo na redução da criminalidade ou na sensação de segurança entre a população, assim como o COR tampouco teve. No entanto, essas câmeras foram fundamentais para registrar casos de abuso de poder policial e racismo, como o que ocorreu com os jovens negros, filhos de diplomatas, em Ipanema.
O povo, em geral, parece indiferente à presença vigilante passiva desses totens — soldados eletrônicos privados que tudo veem — assim como são com relação às câmeras do COR. Quanto a nós, é preciso compreender um ponto crucial: nenhuma tecnologia aplicada está isenta das escolhas humanas. E é nisso que devemos nos concentrar ao lidar com as “Gabriels” e CORs da vida. Vale lembrar que, quando certas forças de poder na cidade quiseram executar Marielle Franco, algumas câmeras do COR simplesmente fecharam os seus olhos.
Este é o ponto, o problema não está nas tecnologias por si mesmas, mas sim na nossa relação com elas. Este talvez tenha sido uma das lições mais importantes que Asimov nos deixou. Portanto, fica o recado a todos esses olhos que nos vigiam: estou ligado no movimento.
A gestão pública é um campo que exige um equilíbrio complexo entre conhecimento técnico, administrativo, jurídico e político. Enquanto a experiência puramente militante pode fornecer uma base de engajamento político e definir prioridades, a gestão pública demanda um enfoque técnico para que essas políticas se tornem realidade. Sem esse equilíbrio, há o risco de que as pautas definidas jamais se transformem em resultados concretos e mensuráveis. A prática da gestão pública é marcada pela necessidade de procedimentos formais, controle social e uma vasta rede de regulações que orientam o uso dos recursos e a prestação de serviços à coletividade.
Entro muitos fatores, destaco que: o desequilíbrio conceitual surge dois. De um lado, há forças altamente qualificadas na produção política, mas que falham na execução burocrática. Do outro, estão aqueles que não compreendem as distinções entre o público e o privado, o que desvirtua a administração pública de suas funções principais. Como resultado, órgãos públicos não conseguem cumprir plenamente suas responsabilidades para com o povo.
Assim, destaco o seguinte recorte: a distinção entre o público e privado. Estes já começam na finalidade, no papel social. A administração pública tem como objetivo constitucional o atendimento ao interesse coletivo, que estabelece os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Em contraste, a gestão privada onde resultados financeiros, competitividade no mercado e lucro para os acionistas ou proprietários são foco.
Essa diferença fundamental reflete-se nas práticas, legislações e restrições que regulam cada área. No privado, o tripé mercado-trabalho-receita guia as máquinas de sua regulação. Já o gestor público está sujeito a um complexo sistema de controle externo, como tribunais de contas, controladoria geral, entidades fiscalizadoras, Lei de Responsabilidade Fiscal. Esse instrumental de segurança ao Erário impõe limites rigorosos, tornando a flexibilidade do setor privado um privilégio raro no setor público. A responsabilidade administrativa no setor público preza pela severidade e segurança.
Lidar com o bem comum é mais complexo do que com o privado. Isso torna a tomada de decisão da administração pública mais lenta. Seguem-se ritos que garantam ampla participação social, como processos licitatórios, consultas públicas e debates em câmaras. No setor privado, as decisões são mais ágeis, geralmente passando apenas pelos gestores ou, no máximo, por assembleias de acionistas.
A contratação de pessoal e a transparência são pontos cruciais. No setor privado, contratações e demissões são ajustes de mercado. No público, a admissão ocorre via concurso, garantindo impessoalidade, transparência e eficiência, promovendo igualdade de oportunidades e prevenindo favorecimentos. Além disso, a gestão pública exige maior transparência, com a divulgação de contratos, licitações e execuções orçamentárias, permitindo a fiscalização pela sociedade.
O orçamento é outra distinção. No setor privado, há mais liberdade para relocar recursos conforme o mercado, estratégias de gerencia e governança corporativa. No âmbito da gestão pública, por sua vez, o orçamento segue normas rígidas e protetivas, como a Lei Orçamentária Anual e o Plano Plurianual, limitando a capacidade de reação rápida a imprevistos.
Diferente do setor privado, onde a responsabilidade geralmente está vinculada ao cumprimento de contratos e à satisfação dos acionistas. Gestores públicos estão sujeitos à Lei de Improbidade Administrativa, que pode acarretar penalidades severas, incluindo a perda do mandato, em casos de má gestão ou corrupção.
Diante dessa realidade, é imprescindível que o gestor público tenha um viés de função social. Ele deve entender que sua responsabilidade vai além da política ou da técnica: é necessário ser um exímio trabalhador, um cuidadoso articulador, capaz de unir conhecimento técnico, políticas sociais e a complexidade administrativa do espaço que gere. A capacidade de equilibrar as demandas da população com as exigências formais da administração pública é o que distingue de verdade um proeminente líder. Somente assim é possível transformar as políticas desejadas em resultados concretos que beneficiem a sociedade como um todo.
A crise climática e os desafios de saúde coletiva revelam um panorama que vai além das fronteiras nacionais, exigindo uma resposta coordenada e efetiva em escala global. No entanto, para que essa resposta seja genuína, precisamos de um novo paradigma de governança que não apenas integre o tripé político, técnico e econômico, mas que também valorize e empodere o que chamamos aqui “mundos menores” (uma paráfrase deleuziana) — pequenas comunidades, cidades periféricas, povos tradicionais e regiões historicamente marginalizadas que muitas vezes possuem soluções interessantes e inovadoras.
O Paradigma dos Mundos Menores: Uma Governança de Baixo para Cima
Historicamente, a governança global tem sido centralizada em grandes metrópoles e centros de poder econômico, que ditam as diretrizes políticas e tecnológicas, frequentemente ignorando as realidades e conhecimentos dos mundos menores.
Esse modelo centralizado não apenas perpetua desigualdades, mas também limita a capacidade de resposta a crises complexas, como a emergência climática e os desafios de saúde coletiva, que requerem soluções adaptadas às especificidades locais.
Os mundos menores, entretanto, têm mostrado uma potência que as grandes estruturas de governança global frequentemente falham em replicar.
Pequenas cidades, comunidades rurais e povos tradicionais operam com uma lógica de proximidade com a natureza e um senso comunitário que possibilitam respostas rápidas e eficazes a desastres.
Exemplos como o manejo do fogo pelos aborígenes australianos ou as respostas dos Moken aos tsunamis mostram que, muitas vezes, a sabedoria ancestral e local é mais eficaz do que as tecnologias impostas de cima para baixo.
Integração Política: Descentralizando o Poder e Empoderando as Comunidades Locais.
O primeiro passo para um novo paradigma de governança global é a descentralização do poder político. É necessário que a tomada de decisões seja compartilhada, incorporando as vozes e conhecimentos das comunidades locais como parte ativa dos fóruns globais. Essa integração não deve ser meramente simbólica, mas estrutural, garantindo que as prioridades das minorias e das regiões periféricas sejam colocadas no centro das políticas climáticas e de saúde.
Devemos fomentar os conselhos globais de governança de maneira que incluam representantes das comunidades locais, pequenos municípios e minorias. Esses conselhos teriam poder de deliberação e influência sobre as políticas internacionais, promovendo uma troca constante de saberes e experiências entre o global e o local. A governança deixaria de ser um monólogo das grandes potências para se tornar um diálogo genuíno e multidirecional.
A Força Técnica dos Mundos Menores: Redes Locais e Conhecimentos Ancestrais
Em termos técnicos, os mundos menores trazem uma riqueza de conhecimentos que pode revolucionar a forma como enfrentamos as crises climáticas e de saúde coletiva. A integração de saberes tradicionais com tecnologias contemporâneas cria soluções adaptáveis, acessíveis e sustentáveis. Esse modelo híbrido de ação técnica valoriza o que é tradicional, sem ignorar os avanços tecnológicos globais, promovendo inovações que realmente atendam às necessidades das comunidades.
Faz-se necessário implementar uma rede aberta e descentralizada de cooperação técnica que conecte cidades pequenas, comunidades rurais e povos tradicionais com centros de pesquisa e inovação, facilitando a troca de dados, práticas e tecnologias. Plataformas colaborativas de acesso aberto permitiriam que soluções locais fossem amplamente disseminadas, oferecendo modelos replicáveis de resiliência e adaptação.
Por exemplo, mediante um território propício a tsunamis, podemos elaborar a implementação de sistemas de alerta que utilizem tanto tecnologias de ponta quanto sinais naturais reconhecidos por comunidades locais, como alterações no comportamento animal ou mudanças climáticas perceptíveis, criando um sistema de alerta antecipado que é ao mesmo tempo preciso e culturalmente relevante.
Economia Inclusiva
O financiamento de ações climáticas e de saúde coletiva precisa ser reimaginado sob uma perspectiva de justiça econômica que reconheça a importância dos mundos menores. Os atuais mecanismos financeiros internacionais frequentemente favorecem grandes projetos que beneficiam principalmente centros urbanos e países desenvolvidos, deixando as comunidades mais vulneráveis à margem.
Sugiro estabelecermos fundos descentralizados e de fácil acesso para financiar iniciativas locais de adaptação climática e saúde coletiva. Esses fundos seriam geridos por conselhos comunitários, garantindo que os recursos sejam direcionados para as necessidades reais das populações. A criação de parcerias público-comunitárias, em que empresas privadas se comprometem não apenas com o financiamento, mas também com a cocriação de soluções junto às comunidades, fortaleceria a economia local e incentivaria a inovação.
Projetos de microfinanciamento que apoiem a adaptação climática em pequenas comunidades, como sistemas de captação de água de baixo custo, hortas comunitárias para segurança alimentar, e clínicas de saúde integradas que combinam medicina tradicional e moderna.
Governança Global a Partir dos Mundos Menores
Os desafios da emergência climática e da saúde coletiva não serão superados com mais do mesmo. É necessário romper com o modelo centralizado de governança que privilegia as metrópoles e adotar um novo paradigma, onde os mundos menores são reconhecidos não como beneficiários, mas como protagonistas das soluções globais. Descentralizar o poder político, integrar conhecimentos técnicos locais e criar uma economia inclusiva são passos fundamentais para construir uma governança que seja verdadeiramente global e que responda às complexidades do nosso tempo.
Ao valorizar as comunidades locais e empoderar as minorias, podemos criar um sistema de governança que não apenas enfrente as crises climáticas e de saúde coletiva, mas que também promova justiça, resiliência e inclusão. Esse é o caminho para um futuro sustentável, onde as soluções emergem de baixo para cima, refletindo a diversidade e a riqueza dos mundos menores que formam o nosso planeta.
Associar a Nova Indústria Brasil ao enfrentamento da hegemonia do agronegócio é essencial para reequilibrar a matriz econômica do país. Isso requer estratégias que diversifiquem a produção, promovendo um modelo de desenvolvimento industrial que seja sustentável e inclusivo. Um país com o potencial do Brasil não pode continuar refém de um setor econômico que o expõe aos riscos de um balanço desfavorável entre o extrativismo e o baixo valor agregado das commodities.
Quando falamos em desenvolvimento sustentável associado à inovação tecnológica, podemos refletir no papel do programa. A Nova Indústria Brasil pode ser um bom instrumento para liderar a transformação de matérias-primas agrícolas em produtos de maior valor agregado, como biocombustíveis, bioplásticos, produtos farmacêuticos e alimentos processados sustentáveis. Para isso, é crucial incentivar a bioindústria, com investimentos robustos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias verdes, incluindo bioenergia, aproveitamento de resíduos agrícolas e tecnologias de baixo impacto ambiental. Esse movimento posiciona a indústria brasileira como um motor de sustentabilidade global.
Para tal, o governo poderia criar canais de integração por meio de instrumentos administrativos e financeiros que possibilitem à indústria adquirir insumos de pequenos produtores, utilizando-se da agricultura familiar e similares para uso na manufatura. Isso não só fortalece a agricultura familiar, mas também oferece alternativas ao modelo tradicional do agronegócio. Exemplos incluem o uso de biomateriais e fibras naturais, que apresentam menor impacto ambiental em comparação a insumos como o algodão.
Porém, um dos principais desafios para o desenvolvimento da Nova Indústria Brasil é a qualificação profissional. O crescimento de novas indústrias demanda mão de obra capacitada em todos os níveis, desde técnicos até pesquisadores de pós-doutorado. É imprescindível criar um ecossistema de inovação que envolva startups, universidades e iniciativas de produção local. Para isso, é necessário valorizar financeiramente esses profissionais, garantindo que pesquisadores e técnicos sejam devidamente remunerados.
Outro fator que pesa como desafiador para um país continental como o nosso é a capacidade de infraestrutura logística. A modernização da infraestrutura é fundamental para o escoamento eficiente dos produtos da indústria sustentável e da agricultura familiar. Diversificar os modais de transporte, melhorar as rodovias, retomar o sistema ferroviário nacional e ampliar a cobertura digital são medidas essenciais. Essas ações garantem que a produção industrial sustentável chegue de maneira competitiva aos mercados nacional e internacional.
Ética Ambiental, diversificação econômica são o novo paradigma para a industrialização
O Brasil, com sua biodiversidade e conhecimentos ancestrais, possui condições únicas para liderar globalmente as experiências efetivas em sustentabilidade. A Nova Indústria Brasil pode fortalecer essa posição, combinando desenvolvimento econômico com respeito ao meio ambiente. Investir em processos produtivos éticos, inspirados por práticas tradicionais e saberes dos povos originários, atrai investimentos globais e consumidores conscientes, colocando o Brasil na vanguarda da produção sustentável.
Fomentar a Nova Indústria Brasil como força motriz para enfrentar o agronegócio requer uma abordagem multifacetada, envolvendo políticas públicas, movimentos sociais e mudanças culturais. Incentivar a agricultura familiar e agroecológica, garantir a segurança alimentar e fortalecer pequenas propriedades por meio de crédito e assistência técnica são estratégias fundamentais. A reforma agrária e a redistribuição de terras, ainda que desafiadoras, são vitais para democratizar o acesso à terra e permitir que pequenos agricultores prosperem.
A regulamentação ambiental com fiscalização rigorosa e penalidades para práticas insustentáveis, aliada a incentivos para tecnologias verdes, pode mitigar os danos ambientais causados pelo agronegócio. Parcerias internacionais e políticas de comércio justo que priorizem pequenos produtores também são ações estratégicas para diversificar a economia brasileira.
A conscientização e mobilização popular são peças-chave. Informar a sociedade sobre os impactos socioambientais do agronegócio e promover o consumo consciente são maneiras de pressionar por mudanças. Além disso, a educação em todos os níveis deve formar uma nova geração crítica, capacitada para questionar o modelo econômico atual e propor alternativas sustentáveis.
Investir em pesquisa e inovação, como biotecnologia e sistemas agroflorestais, oferece caminhos produtivos e ambientalmente responsáveis. O fortalecimento dos movimentos sociais e o apoio a políticas de sustentabilidade completam a estratégia para transformar a Nova Indústria Brasil em um eixo central de desenvolvimento econômico.
Conclusão
Integrar a Nova Indústria Brasil a um plano de transformação econômica nacional pode ser estruturante para a melhoria da nossa realidade, Para além de resistir à hegemonia de modelos antiquados ou modelos excludentes como os do agronegócio; é reconfigurar a economia brasileira em direção a um futuro mais equilibrado, inovador e justo. Ela resolveria os problemas socioeconômicos? Por si só não, porém com um bom projeto que vislumbre de forma estratégica a implementação de um desenvolvimento socioambiental de país, que seja capaz de gerar renda e principalmente, distribuir esta renda entre os mais pobres, pode nos colocar em um patamar especial na vida política global.
imagem gerada no Dall-E tendo como principal enredo a justiça social, a nova industrialização de matriz verde, sabedorias ancestrais na estética do construtivismo soviético.
Assustou-me saber que no Evento Rio Innovation Week havia um mega stand da PM apontando um caminho de parcerias privadas com esta instituição que é por natureza pública. A partir deste fato, trago a reflexão. Peço perdão se o texto ficou grande, mas creio que o tema pede por isso e peço uma certa paciência na leitura.
A complexidade da segurança pública no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, mostra uma desconexão entre o que se pensa e as políticas que são realmente inovadoras há anos. Falta uma visão mais ampla, que compreenda como diversos fatores sociais estão interligados, ou que tem perpetuado um ciclo vicioso de militarização, corrupção e falta de cooperação. Refletiremos aqui sobre os principais desafios do sistema de segurança pública do Rio de Janeiro e propomos possibilidades inspirada na teoria da complexidade e em exemplos internacionais que deram certo.
Os Limites da Militarização na Segurança Pública
No Brasil, e em particular no Rio de Janeiro, existe uma tradição de associar segurança pública à presença ostensiva de forças policiais. Essa visão simplista ignora as causas mais profundas da criminalidade e coloca na prática uma política de confronto com a própria população. A militarização da segurança, embora vista por muitos como uma solução rápida, e sugira ao povo uma sensação de proteção, resulta em confrontos violentos e um alto índice de mortes especialmente nas áreas mais pobres e periféricas da cidade. A presença ostensiva de uma polícia militarizada não só falha em reduzir a criminalidade, como também alimenta um ciclo de violência e desconfiança entre a população e as forças de segurança. Além de ser uma máquina de extermínio de pessoas pobres.
É preciso entendermos a complexidade: ser PM para o carioca pobre é um instrumento de estabilidade financeira, ascensão social e garantia de futuro. Por sua vez, se torna um concurso almejado. A maior parte dos praças da PM são jovens pobres tentando um futuro melhor, são estes que por salários que vão de 3 a 7 mil reais (bruto) salários de soldados a sargentos, que irão para o combate ostensivo em operações de guerra sem uma estratégia inteligente e integrada.
O Ostensivo é Midiático
Muitos, inclusive eu, ficaram surpresos ao ver os resultados de uma pesquisa que colocou o Rio de Janeiro em um modesto 168º lugar na lista das cidades mais violentas do país com mais de 100 mil habitantes. Esperávamos que estivéssemos no topo, ou pelo menos entre as três primeiras posições. Isso reflete como, no Rio, a violência se tornou mais um espetáculo midiático do que uma realidade quantitativa. O crime, aqui, é um grande negócio, mas a percepção de violência, amplificada pela mídia, é o que realmente domina o imaginário coletivo.
O modelo de segurança ostensivo que temos no Rio de Janeiro funciona de maneira cinematográfica para a mídia, alimentando um sistema de controle social que sustenta diversos tipos de negócios. Desde a valorização ou desvalorização de imóveis em certas partes da cidade até a regulamentação de serviços de segurança privada, lazeres em condomínios fechados e shopping centers, tudo parece girar em torno dessa percepção inflada de violência. Programas como Brasil Urgente e Balanço Geral vendem uma ideologia que associa violência ao punitivismo, desrespeitando princípios fundamentais do Brasil Democrático de Direito como a separação dos poderes, e promovem a imagem do “justiceiro”, aquele que, sozinho, define a lei, prende os “meliantes” e aplica a pena , muitas vezes de forma extrajudicial. Essa postura é abertamente aplaudida por apresentadores de TV, que ignoram a gravidade de tais atos.
É importante destacar que esse justiçamento é seletivo. Ele raramente se aplica a crimes de “colarinho branco”, como a sonegação de impostos por grandes milionários, grandes empresas envolvidas em corrupção público-privada ou a empresas que cometem assédio moral, racismo, entre outros. O que vemos é um espetáculo que mantém o foco em uma violência visível, palpável, enquanto outras formas de transgressão, muitas vezes mais danosas para a sociedade, passam despercebidas ou são tratadas com leniência. Assim, o ostensivo que se vê nas ruas é menos sobre segurança real e mais sobre alimentação um ciclo de medo e consumo que beneficia Pouco e penaliza muitos.
O filme Robocop e Robocop 2, por sua vez são interessantes exemplos críticos a respeito desse tema, desconectado de um pensamento sistêmico e com um viés mercadológico a OCP decide criar um segundo cyborg mais robusto, armado e violento que seria o sistema de segurança de Delta City, a cidade construída a partir da demolição de toda Detroit.
O filme nos oferece uma crítica contundente ao modelo de segurança pública ostensiva alinhado à privatização das cidades e da segurança pública. O discurso do presidente da OCP destaca esse tema: “Nós vamos construir uma cidade nova em folha onde agora está Detroit, um exemplo para o mundo (…)privada e responsável.” A noção de substituir a governança democrática pelo controle corporativo é enfatizada pela sua afirmação de que “qualquer um pode comprar ações da OCP e ter um pedaço da cidade, não existe mais democracia do que isso”, questionando assim as verdadeiras implicações de tal privatização.
Corrupção e Conivência com o Crime Organizado
Vale constatar que, no caso do Rio de Janeiro, o modelo de privatização das cidades controlado pelo sistema de segurança é justamente o que rege os muitos poderes paralelos atuantes na região metropolitana. Territórios inteiros tem o seu controle político assumido por estas forças que permitem ou proíbem candidatos x ou y, entradas e saídas de veículos e pessoas, entre outros fatores. O negócio criminoso do Rio não são exatamente o tráfico, assaltos, ou outro tipo de violência, o principal negócio é o controle do território e por sua vez as relações econômicas que isso movimenta. Um sistema cujo elo entre o Rio legalizado e o Rio ilegal se dá por redes de corrupção.
Assim, destacamos o grave problema que é a corrupção dentro das forças de segurança, que muitas vezes está envolvida com o crime organizado. As milícias, grupos formados por policiais e ex-policiais, exercem controle violento sobre diversas comunidades do Rio de Janeiro, muitas vezes com a complacência ou apoio de setores do governo. Para além disso, a prática do arrego aos batalhões, pagamento realizado por grupos de poder armado paralelo aos batalhões que cuidam da segurança local é uma prática comum. Com o pagamento garantido, as operações ostensivas não acontecem gerando uma falsa sensação de segurança local. Essa conivência entre o Estado e o crime organizado cria um ambiente onde a segurança pública é refúgio de interesses privados, dificultando qualquer tentativa eficaz de melhoria.
Fragmentação e Falta de Coordenação
O sistema de segurança pública no Rio de Janeiro sofre de uma falta de integração que impede a implementação de políticas mais completas. A ausência de coordenação entre as diferentes forças policiais e entre as esferas federal, estadual e municipal resulta em esforços desconectados e ineficazes. Isso agrava a sensação de insegurança e torna difícil a criação de estratégias unificadas para enfrentar o crime de maneira eficaz. Impossível combater um sistema global de negócios que envolve uma rede internacional de comércio ilegal que gira por portos, rodovias e aeroportos sem integração das forças de combate.
Foco na Repressão em Detrimento da Prevenção
Tradicionalmente, as políticas de segurança no Rio de Janeiro têm priorizado a repressão ao crime, deixando de lado os investimentos em medidas preventivas. Isso é muito afetado pela forma simplista como é tratado a política de segurança. A ação ostensiva funciona como uma espécie de “mostrar serviço”. Ainda que não dê resultado prático, liberar helicópteros, tropas especiais, armamentos pesados para uma operação que gera alto risco para inúmeros trabalhadores e que muitas vezes o melhor resultado é a apreensão de uma porcentagem ínfima de armas e drogas é notoriamente antieconômico, ainda que midiático.
Programas sociais que podem atuar sobre as causas da violência, como a pobreza e a exclusão social, são raros e mal organizados. Essa abordagem limitada perpetua um ciclo de violência que poderia ser reduzido com políticas mais abrangentes, externas para a prevenção e inclusão social.
Alternativas Globais que nos Servem de Exemplo
A experiência internacional oferece exemplos de como uma abordagem menos militarizada e mais integrada pode resultar em maior segurança e bem-estar social. No Japão, o modelo de policiamento comunitário baseia-se na proximidade. Pequenas delegacias de bairro são operadas por policiais que conhecem bem a população local, promovendo um ambiente de confiança mútua. Essa estratégia contrasta fortemente com a abordagem militarizada do Rio de Janeiro e servem de exemplo sobre como construir uma relação de cooperação entre cidadãos e forças de segurança.
Na Espanha, a desmilitarização da polícia foi acompanhada de reformas que enfatizaram os direitos humanos e o policiamento comunitário. A formação contínua dos policiais, focada na mediação de conflitos e no trabalho em conjunto com outros serviços sociais, criou uma polícia mais próxima da população e mais eficaz na manutenção da ordem pública.
Portugal, por sua vez, introduziu uma política de descriminalização das drogas, tratando o uso de substâncias como uma questão de saúde pública. Essa abordagem reduziu significativamente a violência relacionada ao tráfico e à população carcerária, mostrando como políticas focadas na saúde e na prevenção podem ser eficazes.
Para quem considere que tais exemplos não se aplicam ao Rio por conta d qualidade educacional e do sistema de bem estar destes países citados. É justamente sobre isso que digo, estes são elementos fundamentais para reduzir o grau de criminalidade de um lugar. O que garante o funcionamento do patrulhamento comunitário, ou a boa lide com drogas legalizadas é justamente a capacidade de outras esferas do sistema integrarem um cuidado com o seu povo. Cuidado de saúde, urbanístico, econômico, um cuidado com o eu povo.
Devaneios para uma Reorganização da Segurança Pública no Rio de Janeiro
Vamos pensar um pouco como a teoria da complexidade pode contribuir para a reorganização da segurança pública no Rio de Janeiro. O primeiro ponto é compreender que temos um papel central de um projeto de segurança embasado em interconexão entre vários fatores sociais e na necessidade de uma abordagem sistêmica da vida. As UPPs tinham um nome péssimo, mas uma proposta inicial boa, um Sistema Integrado de Segurança Pública e Desenvolvimento Social, que conecte áreas como segurança, saúde, educação e desenvolvimento econômico e social. Recuperar estes princípios e ampliar na formação de rede colaborativa, envolvendo tanto órgãos governamentais quanto a sociedade civil, para enfrentar os desafios de segurança a partir de múltiplas perspectivas. Além disso, a implementação de um policiamento comunitário em rede, inspirado nos modelos japoneses e espanhóis (veja este pequeno documentário a respeito), seria crucial para aproximar a polícia da população e criar um ambiente de confiança mútua. A desmilitarização das forças de segurança e a formação contínua dos policiais, com ênfase em direitos humanos e mediação de conflitos, também são medidas essenciais para a transformação do sistema.
A legalização de drogas ilícitas é outro ponto importante. Entendo que o cidadão comum tema lidar com este problema, porém é crucial olharmos para as experiências bem-sucedidas a respeito de legalização de drogas. Drogas como o cigarro, açúcares, certos fármacos, álcool são muito mais bem controlados na sociedade por instrumentos de saúde pública e instrumentos econômicos. Este é o ponto.
Um dos temores que a população tem da legalização é que ela enxerga as drogas como um caminho para a morte, e tem um sentido em pensar assim dentro do sistema atual. A questão é que, podemos contar mais de 50 anos em que as disputas ostensivas matam gente e não resolvem os problemas.
Os programas focados na juventude, especialmente em áreas vulneráveis, e a criação de conselhos comunitários de segurança e desenvolvimento social são outras propostas que podem ajudar a construir uma sociedade mais justa e segura. Se o jovem tem alguma perspectiva que envolve educação e formação em um trabalho digno e uma perspectiva mínima de acesso a um sistema de saúde que funcione, a criminalidade reduzirá muito.
Conclusão
A transformação da segurança pública no Rio de Janeiro exige uma abordagem integrada e intersetorial, que vá além do simples combate ao crime. Ao adotar uma perspectiva mais ampla, baseada na teoria da complexidade e em exemplos internacionais que deram certo, é possível construir um ambiente de segurança mais humano e sustentável, onde diferentes esferas do governo e da sociedade civil trabalhem juntas para promover a paz social e o desenvolvimento humano.
É preciso entender que a máquina que move a violência é econômica e extremamente enlaçada nas muitas forças que gerem este Estado, forças essas que ocupam cargos legalizados e cargos ilegais. Infelizmente, não é tarefa simples lidar com isso ou desmontar estas estruturas das diversas formas de poder que atuam na cidade, mas uma coisa é certa é preciso começar de algum lugar.
Subjetivamente, precisamos confrontar e modificar o imaginário coletivo que sustenta a ideia de que a segurança se resolve com heróis solitários em uma batalha contra o crime ou inovações tecnológicas puramente armamentistas e ostensivas. O caminho simplista dos filmes hollywoodianos, onde policiais e “justiceiros” como Batman, Bradock ou Duro de Matar resolvem todos os problemas sozinhos, não se sustentam na realidade. Esses estereótipos podem funcionar bem como entretenimento, mas não como modelo de segurança pública.
Enquanto continuarmos alimentando essa lógica, vamos apenas substituir a chance de enfrentar os sérios desafios do Estado por um espetáculo televisivo diário, cuja qualidade e efetividade são, no mínimo, questionáveis.