Esta semana, deparei-me com um novo elemento curioso na paisagem urbana. Pelo que observei, ele já está consolidado há algum tempo em certos pontos da cidade: totens espalhados por vias importantes de diversos bairros, construídos em material metálico, com uma luz verde que remete ao visual de “Matrix”, decorados com símbolos criptografados e a mensagem: “Esta rua é protegida pela Gabriel.”
Sem muito alarde, o Rio de Janeiro recebeu um novo tipo de controle social — desta vez, tecnológico e digno das literaturas de Orwell, Asimov, Neumeier e Miner, ou até mesmo das irmãs Wachowski. A tecnologia em si, assim como sua implementação na cidade, não é uma novidade. Ela me remete à transformação de um conceito comunitário estudado por Jane Jacobs, o dos “olhos da cidade”, em capital e negócio.
Não entrarei aqui no debate sobre a privatização total do controle da violência no Rio, tema que se manifesta em exemplos como o domínio de territórios por forças paramilitares diversas. O foco, neste caso, é o fim da urbanidade e a terceirização dos olhos das ruas. Modelos tradicionais de bairro, que sempre foram vendidos pela ideia de encontros, de relações diretas com o espaço público, com o diferente e o inesperado, perderam a disputa subjetiva. A “condominialização” da vida venceu, e isso nos diz muito sobre como a cidade pode ser completamente terceirizada.
A vida condominial transfere responsabilidades significativas do Estado para grupos privados. Vias públicas inteiras passam a ser monitoradas por sistemas variados: síndicos, associações de moradores, lideranças locais, empresas de segurança, entre outros. A vigilância por câmeras, que o próprio Estado já promoveu com iniciativas como o COR (Centro de Operações Rio), agora divide espaço com empresas como a Gabriel.
Um aspecto intrigante da câmera é sua estética própria, claramente bem estudada, que vai das cores às mensagens e aos símbolos, sua cor verde, seus signos criptografados no totem e até mesmo seu nome próprio masculino sendo tratado pelo gênero feminino. Esses elementos constroem uma “persona” e uma mensagem, como nos ensinaram os grandes pensadores da ficção científica e os grandes religiosos do mundo. À primeira vista, pode parecer o mesmo modelo de negócio do COR, mas o universo simbólico em torno da Gabriel aponta para outra direção. A câmera quer ser vista, decifrada e, acima de tudo, quer nos vigiar 24 horas por dia.
Ironicamente, num mundo onde o direito de ir e vir e a defesa da vida privada são tratados quase como mantras por aqueles que defendem esse modelo de segurança, essas empresas têm o poder de transformar nosso cotidiano em um verdadeiro “Big Brother”, usando a segurança como justificativa. Outra ironia: os mesmos defensores dessas câmeras nas ruas muitas vezes se opõem ao uso delas para monitorar operações policiais.
Curiosamente, a presença da Gabriel não parece ter tido um impacto significativo na redução da criminalidade ou na sensação de segurança entre a população, assim como o COR tampouco teve. No entanto, essas câmeras foram fundamentais para registrar casos de abuso de poder policial e racismo, como o que ocorreu com os jovens negros, filhos de diplomatas, em Ipanema.
O povo, em geral, parece indiferente à presença vigilante passiva desses totens — soldados eletrônicos privados que tudo veem — assim como são com relação às câmeras do COR. Quanto a nós, é preciso compreender um ponto crucial: nenhuma tecnologia aplicada está isenta das escolhas humanas. E é nisso que devemos nos concentrar ao lidar com as “Gabriels” e CORs da vida. Vale lembrar que, quando certas forças de poder na cidade quiseram executar Marielle Franco, algumas câmeras do COR simplesmente fecharam os seus olhos.
Este é o ponto, o problema não está nas tecnologias por si mesmas, mas sim na nossa relação com elas. Este talvez tenha sido uma das lições mais importantes que Asimov nos deixou. Portanto, fica o recado a todos esses olhos que nos vigiam: estou ligado no movimento.
O fechamento do Spaghettilândia, com mais de 70 anos de história na Cinelândia, foi anunciado como um marco positivo para o renascimento do Centro do Rio de Janeiro. O tom otimista do jornal que divulgou a notícia ressaltava a “intensa renovação comercial” da região. Contudo, essa narrativa de revitalização ignora uma realidade fundamental: como pode o fechamento de um estabelecimento tão tradicional, frequentado por figuras importantes da Cidade, da política e da intelectualidade, representar um avanço para o espaço urbano?
Esse episódio expõe uma faceta problemática do discurso que tenta inflar a imagem do Rio de Janeiro como um polo boêmio, cultural e gastronômico. É verdade que esses elementos ainda existem, mas desde 2014 sua vitalidade foi profundamente comprometida. O centro da cidade, outrora pulsante, definhou. Espaço de encontros e trabalho, hoje não conseguiu sequer consolidar-se como área de moradia, um fracasso diretamente relacionado ao projeto “Reviver Centro”, que falha ao entregar a solução apenas nas mãos do setor imobiliário.
O projeto “Reviver Centro” é emblemático de uma abordagem equivocada que prioriza interesses econômicos imediatos, mas negligencia as necessidades sociais e urbanas. Para o setor imobiliário, a prioridade não é criar espaços habitáveis e integrados à vida cotidiana. Em vez disso, apartamentos diminutos e inviáveis para uma família são a norma, sem qualquer incentivo para a criação de infraestrutura essencial, como mercados e padarias. O resultado é um centro desprovido de vitalidade comunitária e comercial que não atende à vida cotidiana.
Tentativas de revitalização têm se concentrado em impulsionar polos gastronômicos, que atraem um público homogêneo, de perfil alto e efêmero. Isso ignora a diversidade e as necessidades reais dos moradores potenciais. Afinal, quem pode se alimentar constantemente de “comida cara de boteco”? Esse modelo de revitalização elitista aliena a classe média e trabalhadora, tornando o centro uma área para consumo eventual, mas inviável para habitação e vida diária.
O fechamento do Spaghettilândia simboliza, na verdade, o fracasso do modelo de revitalização em curso. Mais do que um sinal de progresso, ele aponta para a decadência de um projeto urbano que, ao se submeter cegamente às forças do mercado, ignora as demandas fundamentais para que uma cidade verdadeiramente viva e respire.
A transformação de uma cidade requer mais do que renovação comercial; demanda um planejamento urbano cuidadoso, que equilibre interesses econômicos com as necessidades sociais e culturais de sua população. A solução não pode ser entregue unicamente aos poderes imobiliários, mas deve incluir uma visão integrada e participativa, voltada para o bem-estar de seus cidadãos. Ainda á possibilidades de salvação do projeto de reocupação do Centro da Cidade, para tal ele precisa ser ampliado a compreender a complexidade das dinâmicas da região, em especial de toda a área em seu entorno. Reviver Centro precisa assumir a história desta cidade, sua importância global, sua territorialidade negra e periférica, suas muitas camadas sociais. Podemos ter todas as áreas culturais globais mas é necessário ter a relação da escala comunitária junto, ninguém vive de turismo e o Rio não é Disney.
A burocracia protege o Estado. Sei que essa frase assusta alguns. A burocracia, frequentemente criticada por sua lentidão e rigidez, é, paradoxalmente, uma das principais responsáveis pela proteção do Estado e pela implementação eficaz de políticas públicas. No entanto, o conceito de burocracia vai além da visão negativa implantada no seio do povo. Ele remete ao saber técnico e profissional das organizações públicas, baseando-se na racionalidade e no cumprimento de regras que garantem a estabilidade e continuidade das políticas, independentemente dos governos.
Embora as críticas à burocracia sejam, em grande parte, justificáveis, é necessário compreender a complexidade do seu papel no funcionamento do Estado. Primeiramente, é preciso assimilarmos algo: O Estado é um âmbito complexo e de disputa perene, não é um local passível de traçar um objetivo comum de forma simples, como uma empresa privada poderia fazer ao dizer: produzir e dar lucro aos acionistas. A tensão entre políticos (representantes das mais diversas forças econômicas e sociais do país), responsáveis por definir o rumo das políticas públicas, e os profissionais do setor público (taxados de burocratas), encarregados de sua implementação técnica, é uma característica intrínseca da administração pública. Com o aumento da atuação estatal em áreas mais complexas, como saúde, educação e mobilidade urbana, vemos a “burocratização da política” e a “politização da burocracia”, em que as esferas técnica e política se sobrepõem e estas disputas ganham camadas mais densas.
No entanto, a burocracia tradicional encontra desafios no mundo contemporâneo. Se já encontravam quando Kafka, de maneira brilhante, expunha em literatura suas críticas profundas, o que dirá agora, em um mundo marcado pela velocidade e pela hiper conectividade. As demandas da sociedade, que exigem respostas rápidas e flexíveis do poder público, muitas vezes entram em choque com o modelo hierárquico e rígido da burocracia weberiana. O excesso de informações e a necessidade de processar grandes volumes de dados, por exemplo, tornam a burocracia lenta e, em muitos casos, desatualizada diante das novas realidades tecnológicas.
O cenário contemporâneo exige novas formas de atuação. A descentralização do processo decisório possibilitaria maior autonomia aos gestores públicos, permitindo que problemas específicos sejam resolvidos de forma mais rápida e eficaz, sem a necessidade de intervenção constante das hierarquias superiores, favorecendo a impessoalidade da política implementada.
Laboratórios de Inovação: Um Caminho Promissor
A criação de laboratórios de inovação dentro do setor público tem se mostrado uma ferramenta poderosa para testar e ajustar políticas e processos em menor escala antes de sua implementação em larga escala. No Brasil, desde 2010, já existem iniciativas de laboratórios de inovação do setor público, como os pioneiros nas universidades federais do Espírito Santo e da UNB. Esses espaços oferecem maior flexibilidade, são mais tolerantes ao fracasso e permitem a experimentação de soluções para os desafios enfrentados pela administração pública.
Além disso, a coprodução de políticas públicas com redes colaborativas, envolvendo a sociedade civil na formulação e implementação de decisões, é uma estratégia defendida pela teoria da complexidade. Plataformas e fóruns participativos, que promovem a colaboração em tempo real entre governo e cidadãos, tornam-se essenciais para a construção de políticas mais inclusivas e adaptáveis às necessidades sociais.
Apesar das vantagens dos laboratórios de inovação, é importante reconhecer que esses espaços também são locais de disputa política. Assim como em qualquer âmbito público, correm o risco de serem direcionados para interesses privados ou de grupos específicos, desviando-se de sua função original de servir à coletividade. Portanto, é fundamental que essas estruturas garantam ampla participação do povo e que se construam com base em uma cultura de inovação que valorize o conhecimento popular e a criatividade coletiva. A inovação, ao contrário do que muitos pensam, não é restrita aos círculos acadêmicos; ela emerge das multidões e do cotidiano, seja nas relações sociais, seja nas tecnologias que desenvolvemos em nosso dia a dia. Toda grande descoberta ou invenção humana é uma construção coletiva.
O Futuro da Administração Pública
Integrar os modelos burocráticos tradicionais com novas abordagens tecnológicas e participativas requer uma transformação cultural dentro da máquina pública. A hierarquia rígida e a centralização das decisões precisam dar lugar a estruturas mais flexíveis e abertas à inovação. Ferramentas tecnológicas podem ser catalisadoras dessas mudanças, proporcionando um Estado mais ágil e alinhado às necessidades de um mundo cada vez mais rápido e interconectado.
Concluindo, a burocracia, com todas as suas falhas e virtudes, continua sendo um pilar fundamental na estrutura do Estado moderno. No entanto, sua evolução é necessária para que possa acompanhar a complexidade do mundo contemporâneo. Os laboratórios de inovação e a coprodução de políticas públicas com redes colaborativas populares mostram-se como caminhos promissores para essa transformação, permitindo uma administração pública mais eficaz, inclusiva, inovadora e socialmente referenciada.
A gestão pública é um campo que exige um equilíbrio complexo entre conhecimento técnico, administrativo, jurídico e político. Enquanto a experiência puramente militante pode fornecer uma base de engajamento político e definir prioridades, a gestão pública demanda um enfoque técnico para que essas políticas se tornem realidade. Sem esse equilíbrio, há o risco de que as pautas definidas jamais se transformem em resultados concretos e mensuráveis. A prática da gestão pública é marcada pela necessidade de procedimentos formais, controle social e uma vasta rede de regulações que orientam o uso dos recursos e a prestação de serviços à coletividade.
Entro muitos fatores, destaco que: o desequilíbrio conceitual surge dois. De um lado, há forças altamente qualificadas na produção política, mas que falham na execução burocrática. Do outro, estão aqueles que não compreendem as distinções entre o público e o privado, o que desvirtua a administração pública de suas funções principais. Como resultado, órgãos públicos não conseguem cumprir plenamente suas responsabilidades para com o povo.
Assim, destaco o seguinte recorte: a distinção entre o público e privado. Estes já começam na finalidade, no papel social. A administração pública tem como objetivo constitucional o atendimento ao interesse coletivo, que estabelece os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Em contraste, a gestão privada onde resultados financeiros, competitividade no mercado e lucro para os acionistas ou proprietários são foco.
Essa diferença fundamental reflete-se nas práticas, legislações e restrições que regulam cada área. No privado, o tripé mercado-trabalho-receita guia as máquinas de sua regulação. Já o gestor público está sujeito a um complexo sistema de controle externo, como tribunais de contas, controladoria geral, entidades fiscalizadoras, Lei de Responsabilidade Fiscal. Esse instrumental de segurança ao Erário impõe limites rigorosos, tornando a flexibilidade do setor privado um privilégio raro no setor público. A responsabilidade administrativa no setor público preza pela severidade e segurança.
Lidar com o bem comum é mais complexo do que com o privado. Isso torna a tomada de decisão da administração pública mais lenta. Seguem-se ritos que garantam ampla participação social, como processos licitatórios, consultas públicas e debates em câmaras. No setor privado, as decisões são mais ágeis, geralmente passando apenas pelos gestores ou, no máximo, por assembleias de acionistas.
A contratação de pessoal e a transparência são pontos cruciais. No setor privado, contratações e demissões são ajustes de mercado. No público, a admissão ocorre via concurso, garantindo impessoalidade, transparência e eficiência, promovendo igualdade de oportunidades e prevenindo favorecimentos. Além disso, a gestão pública exige maior transparência, com a divulgação de contratos, licitações e execuções orçamentárias, permitindo a fiscalização pela sociedade.
O orçamento é outra distinção. No setor privado, há mais liberdade para relocar recursos conforme o mercado, estratégias de gerencia e governança corporativa. No âmbito da gestão pública, por sua vez, o orçamento segue normas rígidas e protetivas, como a Lei Orçamentária Anual e o Plano Plurianual, limitando a capacidade de reação rápida a imprevistos.
Diferente do setor privado, onde a responsabilidade geralmente está vinculada ao cumprimento de contratos e à satisfação dos acionistas. Gestores públicos estão sujeitos à Lei de Improbidade Administrativa, que pode acarretar penalidades severas, incluindo a perda do mandato, em casos de má gestão ou corrupção.
Diante dessa realidade, é imprescindível que o gestor público tenha um viés de função social. Ele deve entender que sua responsabilidade vai além da política ou da técnica: é necessário ser um exímio trabalhador, um cuidadoso articulador, capaz de unir conhecimento técnico, políticas sociais e a complexidade administrativa do espaço que gere. A capacidade de equilibrar as demandas da população com as exigências formais da administração pública é o que distingue de verdade um proeminente líder. Somente assim é possível transformar as políticas desejadas em resultados concretos que beneficiem a sociedade como um todo.
Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Brasil registrou mais de 90 mil focos de incêndio apenas na Amazônia em 2023, um aumento alarmante em comparação aos anos anteriores. No Cerrado, os números também são preocupantes: cerca de 60 mil focos no mesmo período. Esses números expõem uma crise ambiental alimentada de maneira significativa pelo modelo atual de agronegócio, que favorece a expansão da fronteira agrícola em detrimento de florestas e matas nativas. Expansão está, muitas vezes, feita à base de arranjos políticos somados ao fato de que temos uma elite com sistemas cognitivos encurtados, pessoas que não conseguem compreender o mundo de maneira sistêmica e se satisfazem com o fetiche do luxo.
O agronegócio é o motor econômico brasileiro, impulsiona o PIB e muda a cara de cidades pequenas e médias Brasil afora. Mas o modelo em voga, ao manter a ênfase em monoculturas e pecuária extensiva, fomenta o desmatamento e as queimadas. A prática de “limpar” áreas com fogo para plantio ou pastagem ainda é recorrente e se agrava pela falta de fiscalização eficaz. Além disso, a flexibilização das leis ambientais e o enquadramento dos órgãos de fiscalização, como o IBAMA, permite que essas práticas predatórias avancem sem punições adequadas.
Para além dos danos ambientais, o que já é inaceitável para um País com os biomas estratégico para o Planeta como o nosso, essa relação direta afeta a saúde pública devido a emissão de substâncias poluentes, contribuindo para a mudança climática e prejudicando o comércio internacional, que se propõe cada vez mais sustentável.
Isto é, não precisamos sequer apelar à consciência dos fomentadores do agro, a própria economia mostra que o caminho que percorrem terá um desfecho péssimo. A competitividade do Brasil no mercado global se põe em risco, pois cada vez mais consumidores e investidores bloqueiam negócios com quem tem práticas como as que o Brasil mantém. Dentro desta conjuntura internacional, logo nosso modelo que produz: poluição, aquecimento global e alimentação ultra processada se tornará antiquado e indesejado deixando como resquício a imensa sobrecarga no sistema de saúde pública devido às inúmeras doenças que ele acarreta.
É inviável reverter esse cenário sem um esforço nacional que vá além de medidas paliativas e emergenciais. Algumas sugestões:
Revisão do Código Florestal : É crucial revisar e fortalecer o Código Florestal, garantindo que as áreas de preservação permanente e de reserva legal sejam efetivamente protegidas, inclusive ampliando estas demarcações para que recuperemos terras perdidas. Isso implica em maior rigor na fiscalização e na aplicação de multas para quem desmata ilegalmente.
Incentivo à Agricultura Sustentável : Redirecionar políticas de subsídio e crédito para práticas agrícolas sustentáveis, como sistemas agroflorestais e integração laboral-pecuária-floresta (ILPF). Esse modelo promove a recuperação do solo e reduz a necessidade de abertura de novas áreas para a agricultura.
Tecnologia e Inovação no Combate a Incêndios : Investir em tecnologias de monitoramento e combate a incêndios, incluindo satélites, drones e inteligência artificial, que permitem a detecção precoce e a resposta rápida aos focos de incêndio. Além disso, o treinamento e a capacitação das brigadas de combate ao fogo são essenciais.
Valorização da Floresta em Pé : Criar mecanismos de valorização econômica da floresta em pé, como o pagamento por serviços ambientais e o mercado de créditos de carbono. Isso gera um incentivo econômico para o produtor preservar a vegetação nativa do que expandir a agricultura predatória.
Educação Ambiental : Promover e ampliar programas de educação ambiental nas comunidades rurais e urbanas, conscientizando sobre os impactos das queimadas e a importância da preservação dos recursos naturais. A formação de uma consciência coletiva é essencial para mudar comportamentos a longo prazo. É preciso que o meio ambiente esteja de forma clara na grade curricular.
Saúde preventiva : Promover o monitoramento integral e sistêmico das relações entre doenças e o ramo de atividade econômica do agronegócio. Aumento de doenças causadas por problemas respiratórios, calor e doenças causadas pelos produtos lançados no mercado para consumo da população.
As queimadas são um desafio estrutural que envolve o futuro do nosso desenvolvimento econômico e social. Na atual esfera da emergência, somos obrigados a reavaliar o modelo e adotar políticas que assegurem um equilíbrio entre a produção agrícola, posse de terras e a preservação ambiental. Como já anunciavam os zapatistas, “nada é impossível para quem não tem nada a perder”; e estamos, agora, na iminência de perder tudo: nossa terra, nossa água, nosso ar. O Brasil está em uma encruzilhada, onde resistir já não é mais uma escolha, mas uma necessidade urgente. Só assim será possível garantir um futuro sustentável para as próximas gerações. Na verdade, só assim será possível garantir algum futuro — um onde a fumaça que cobre os céus sejam só uma triste memória e não o nosso destino.
A crise climática e os desafios de saúde coletiva revelam um panorama que vai além das fronteiras nacionais, exigindo uma resposta coordenada e efetiva em escala global. No entanto, para que essa resposta seja genuína, precisamos de um novo paradigma de governança que não apenas integre o tripé político, técnico e econômico, mas que também valorize e empodere o que chamamos aqui “mundos menores” (uma paráfrase deleuziana) — pequenas comunidades, cidades periféricas, povos tradicionais e regiões historicamente marginalizadas que muitas vezes possuem soluções interessantes e inovadoras.
O Paradigma dos Mundos Menores: Uma Governança de Baixo para Cima
Historicamente, a governança global tem sido centralizada em grandes metrópoles e centros de poder econômico, que ditam as diretrizes políticas e tecnológicas, frequentemente ignorando as realidades e conhecimentos dos mundos menores.
Esse modelo centralizado não apenas perpetua desigualdades, mas também limita a capacidade de resposta a crises complexas, como a emergência climática e os desafios de saúde coletiva, que requerem soluções adaptadas às especificidades locais.
Os mundos menores, entretanto, têm mostrado uma potência que as grandes estruturas de governança global frequentemente falham em replicar.
Pequenas cidades, comunidades rurais e povos tradicionais operam com uma lógica de proximidade com a natureza e um senso comunitário que possibilitam respostas rápidas e eficazes a desastres.
Exemplos como o manejo do fogo pelos aborígenes australianos ou as respostas dos Moken aos tsunamis mostram que, muitas vezes, a sabedoria ancestral e local é mais eficaz do que as tecnologias impostas de cima para baixo.
Integração Política: Descentralizando o Poder e Empoderando as Comunidades Locais.
O primeiro passo para um novo paradigma de governança global é a descentralização do poder político. É necessário que a tomada de decisões seja compartilhada, incorporando as vozes e conhecimentos das comunidades locais como parte ativa dos fóruns globais. Essa integração não deve ser meramente simbólica, mas estrutural, garantindo que as prioridades das minorias e das regiões periféricas sejam colocadas no centro das políticas climáticas e de saúde.
Devemos fomentar os conselhos globais de governança de maneira que incluam representantes das comunidades locais, pequenos municípios e minorias. Esses conselhos teriam poder de deliberação e influência sobre as políticas internacionais, promovendo uma troca constante de saberes e experiências entre o global e o local. A governança deixaria de ser um monólogo das grandes potências para se tornar um diálogo genuíno e multidirecional.
A Força Técnica dos Mundos Menores: Redes Locais e Conhecimentos Ancestrais
Em termos técnicos, os mundos menores trazem uma riqueza de conhecimentos que pode revolucionar a forma como enfrentamos as crises climáticas e de saúde coletiva. A integração de saberes tradicionais com tecnologias contemporâneas cria soluções adaptáveis, acessíveis e sustentáveis. Esse modelo híbrido de ação técnica valoriza o que é tradicional, sem ignorar os avanços tecnológicos globais, promovendo inovações que realmente atendam às necessidades das comunidades.
Faz-se necessário implementar uma rede aberta e descentralizada de cooperação técnica que conecte cidades pequenas, comunidades rurais e povos tradicionais com centros de pesquisa e inovação, facilitando a troca de dados, práticas e tecnologias. Plataformas colaborativas de acesso aberto permitiriam que soluções locais fossem amplamente disseminadas, oferecendo modelos replicáveis de resiliência e adaptação.
Por exemplo, mediante um território propício a tsunamis, podemos elaborar a implementação de sistemas de alerta que utilizem tanto tecnologias de ponta quanto sinais naturais reconhecidos por comunidades locais, como alterações no comportamento animal ou mudanças climáticas perceptíveis, criando um sistema de alerta antecipado que é ao mesmo tempo preciso e culturalmente relevante.
Economia Inclusiva
O financiamento de ações climáticas e de saúde coletiva precisa ser reimaginado sob uma perspectiva de justiça econômica que reconheça a importância dos mundos menores. Os atuais mecanismos financeiros internacionais frequentemente favorecem grandes projetos que beneficiam principalmente centros urbanos e países desenvolvidos, deixando as comunidades mais vulneráveis à margem.
Sugiro estabelecermos fundos descentralizados e de fácil acesso para financiar iniciativas locais de adaptação climática e saúde coletiva. Esses fundos seriam geridos por conselhos comunitários, garantindo que os recursos sejam direcionados para as necessidades reais das populações. A criação de parcerias público-comunitárias, em que empresas privadas se comprometem não apenas com o financiamento, mas também com a cocriação de soluções junto às comunidades, fortaleceria a economia local e incentivaria a inovação.
Projetos de microfinanciamento que apoiem a adaptação climática em pequenas comunidades, como sistemas de captação de água de baixo custo, hortas comunitárias para segurança alimentar, e clínicas de saúde integradas que combinam medicina tradicional e moderna.
Governança Global a Partir dos Mundos Menores
Os desafios da emergência climática e da saúde coletiva não serão superados com mais do mesmo. É necessário romper com o modelo centralizado de governança que privilegia as metrópoles e adotar um novo paradigma, onde os mundos menores são reconhecidos não como beneficiários, mas como protagonistas das soluções globais. Descentralizar o poder político, integrar conhecimentos técnicos locais e criar uma economia inclusiva são passos fundamentais para construir uma governança que seja verdadeiramente global e que responda às complexidades do nosso tempo.
Ao valorizar as comunidades locais e empoderar as minorias, podemos criar um sistema de governança que não apenas enfrente as crises climáticas e de saúde coletiva, mas que também promova justiça, resiliência e inclusão. Esse é o caminho para um futuro sustentável, onde as soluções emergem de baixo para cima, refletindo a diversidade e a riqueza dos mundos menores que formam o nosso planeta.
Associar a Nova Indústria Brasil ao enfrentamento da hegemonia do agronegócio é essencial para reequilibrar a matriz econômica do país. Isso requer estratégias que diversifiquem a produção, promovendo um modelo de desenvolvimento industrial que seja sustentável e inclusivo. Um país com o potencial do Brasil não pode continuar refém de um setor econômico que o expõe aos riscos de um balanço desfavorável entre o extrativismo e o baixo valor agregado das commodities.
Quando falamos em desenvolvimento sustentável associado à inovação tecnológica, podemos refletir no papel do programa. A Nova Indústria Brasil pode ser um bom instrumento para liderar a transformação de matérias-primas agrícolas em produtos de maior valor agregado, como biocombustíveis, bioplásticos, produtos farmacêuticos e alimentos processados sustentáveis. Para isso, é crucial incentivar a bioindústria, com investimentos robustos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias verdes, incluindo bioenergia, aproveitamento de resíduos agrícolas e tecnologias de baixo impacto ambiental. Esse movimento posiciona a indústria brasileira como um motor de sustentabilidade global.
Para tal, o governo poderia criar canais de integração por meio de instrumentos administrativos e financeiros que possibilitem à indústria adquirir insumos de pequenos produtores, utilizando-se da agricultura familiar e similares para uso na manufatura. Isso não só fortalece a agricultura familiar, mas também oferece alternativas ao modelo tradicional do agronegócio. Exemplos incluem o uso de biomateriais e fibras naturais, que apresentam menor impacto ambiental em comparação a insumos como o algodão.
Porém, um dos principais desafios para o desenvolvimento da Nova Indústria Brasil é a qualificação profissional. O crescimento de novas indústrias demanda mão de obra capacitada em todos os níveis, desde técnicos até pesquisadores de pós-doutorado. É imprescindível criar um ecossistema de inovação que envolva startups, universidades e iniciativas de produção local. Para isso, é necessário valorizar financeiramente esses profissionais, garantindo que pesquisadores e técnicos sejam devidamente remunerados.
Outro fator que pesa como desafiador para um país continental como o nosso é a capacidade de infraestrutura logística. A modernização da infraestrutura é fundamental para o escoamento eficiente dos produtos da indústria sustentável e da agricultura familiar. Diversificar os modais de transporte, melhorar as rodovias, retomar o sistema ferroviário nacional e ampliar a cobertura digital são medidas essenciais. Essas ações garantem que a produção industrial sustentável chegue de maneira competitiva aos mercados nacional e internacional.
Ética Ambiental, diversificação econômica são o novo paradigma para a industrialização
O Brasil, com sua biodiversidade e conhecimentos ancestrais, possui condições únicas para liderar globalmente as experiências efetivas em sustentabilidade. A Nova Indústria Brasil pode fortalecer essa posição, combinando desenvolvimento econômico com respeito ao meio ambiente. Investir em processos produtivos éticos, inspirados por práticas tradicionais e saberes dos povos originários, atrai investimentos globais e consumidores conscientes, colocando o Brasil na vanguarda da produção sustentável.
Fomentar a Nova Indústria Brasil como força motriz para enfrentar o agronegócio requer uma abordagem multifacetada, envolvendo políticas públicas, movimentos sociais e mudanças culturais. Incentivar a agricultura familiar e agroecológica, garantir a segurança alimentar e fortalecer pequenas propriedades por meio de crédito e assistência técnica são estratégias fundamentais. A reforma agrária e a redistribuição de terras, ainda que desafiadoras, são vitais para democratizar o acesso à terra e permitir que pequenos agricultores prosperem.
A regulamentação ambiental com fiscalização rigorosa e penalidades para práticas insustentáveis, aliada a incentivos para tecnologias verdes, pode mitigar os danos ambientais causados pelo agronegócio. Parcerias internacionais e políticas de comércio justo que priorizem pequenos produtores também são ações estratégicas para diversificar a economia brasileira.
A conscientização e mobilização popular são peças-chave. Informar a sociedade sobre os impactos socioambientais do agronegócio e promover o consumo consciente são maneiras de pressionar por mudanças. Além disso, a educação em todos os níveis deve formar uma nova geração crítica, capacitada para questionar o modelo econômico atual e propor alternativas sustentáveis.
Investir em pesquisa e inovação, como biotecnologia e sistemas agroflorestais, oferece caminhos produtivos e ambientalmente responsáveis. O fortalecimento dos movimentos sociais e o apoio a políticas de sustentabilidade completam a estratégia para transformar a Nova Indústria Brasil em um eixo central de desenvolvimento econômico.
Conclusão
Integrar a Nova Indústria Brasil a um plano de transformação econômica nacional pode ser estruturante para a melhoria da nossa realidade, Para além de resistir à hegemonia de modelos antiquados ou modelos excludentes como os do agronegócio; é reconfigurar a economia brasileira em direção a um futuro mais equilibrado, inovador e justo. Ela resolveria os problemas socioeconômicos? Por si só não, porém com um bom projeto que vislumbre de forma estratégica a implementação de um desenvolvimento socioambiental de país, que seja capaz de gerar renda e principalmente, distribuir esta renda entre os mais pobres, pode nos colocar em um patamar especial na vida política global.
imagem gerada no Dall-E tendo como principal enredo a justiça social, a nova industrialização de matriz verde, sabedorias ancestrais na estética do construtivismo soviético.
Assustou-me saber que no Evento Rio Innovation Week havia um mega stand da PM apontando um caminho de parcerias privadas com esta instituição que é por natureza pública. A partir deste fato, trago a reflexão. Peço perdão se o texto ficou grande, mas creio que o tema pede por isso e peço uma certa paciência na leitura.
A complexidade da segurança pública no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, mostra uma desconexão entre o que se pensa e as políticas que são realmente inovadoras há anos. Falta uma visão mais ampla, que compreenda como diversos fatores sociais estão interligados, ou que tem perpetuado um ciclo vicioso de militarização, corrupção e falta de cooperação. Refletiremos aqui sobre os principais desafios do sistema de segurança pública do Rio de Janeiro e propomos possibilidades inspirada na teoria da complexidade e em exemplos internacionais que deram certo.
Os Limites da Militarização na Segurança Pública
No Brasil, e em particular no Rio de Janeiro, existe uma tradição de associar segurança pública à presença ostensiva de forças policiais. Essa visão simplista ignora as causas mais profundas da criminalidade e coloca na prática uma política de confronto com a própria população. A militarização da segurança, embora vista por muitos como uma solução rápida, e sugira ao povo uma sensação de proteção, resulta em confrontos violentos e um alto índice de mortes especialmente nas áreas mais pobres e periféricas da cidade. A presença ostensiva de uma polícia militarizada não só falha em reduzir a criminalidade, como também alimenta um ciclo de violência e desconfiança entre a população e as forças de segurança. Além de ser uma máquina de extermínio de pessoas pobres.
É preciso entendermos a complexidade: ser PM para o carioca pobre é um instrumento de estabilidade financeira, ascensão social e garantia de futuro. Por sua vez, se torna um concurso almejado. A maior parte dos praças da PM são jovens pobres tentando um futuro melhor, são estes que por salários que vão de 3 a 7 mil reais (bruto) salários de soldados a sargentos, que irão para o combate ostensivo em operações de guerra sem uma estratégia inteligente e integrada.
O Ostensivo é Midiático
Muitos, inclusive eu, ficaram surpresos ao ver os resultados de uma pesquisa que colocou o Rio de Janeiro em um modesto 168º lugar na lista das cidades mais violentas do país com mais de 100 mil habitantes. Esperávamos que estivéssemos no topo, ou pelo menos entre as três primeiras posições. Isso reflete como, no Rio, a violência se tornou mais um espetáculo midiático do que uma realidade quantitativa. O crime, aqui, é um grande negócio, mas a percepção de violência, amplificada pela mídia, é o que realmente domina o imaginário coletivo.
O modelo de segurança ostensivo que temos no Rio de Janeiro funciona de maneira cinematográfica para a mídia, alimentando um sistema de controle social que sustenta diversos tipos de negócios. Desde a valorização ou desvalorização de imóveis em certas partes da cidade até a regulamentação de serviços de segurança privada, lazeres em condomínios fechados e shopping centers, tudo parece girar em torno dessa percepção inflada de violência. Programas como Brasil Urgente e Balanço Geral vendem uma ideologia que associa violência ao punitivismo, desrespeitando princípios fundamentais do Brasil Democrático de Direito como a separação dos poderes, e promovem a imagem do “justiceiro”, aquele que, sozinho, define a lei, prende os “meliantes” e aplica a pena , muitas vezes de forma extrajudicial. Essa postura é abertamente aplaudida por apresentadores de TV, que ignoram a gravidade de tais atos.
É importante destacar que esse justiçamento é seletivo. Ele raramente se aplica a crimes de “colarinho branco”, como a sonegação de impostos por grandes milionários, grandes empresas envolvidas em corrupção público-privada ou a empresas que cometem assédio moral, racismo, entre outros. O que vemos é um espetáculo que mantém o foco em uma violência visível, palpável, enquanto outras formas de transgressão, muitas vezes mais danosas para a sociedade, passam despercebidas ou são tratadas com leniência. Assim, o ostensivo que se vê nas ruas é menos sobre segurança real e mais sobre alimentação um ciclo de medo e consumo que beneficia Pouco e penaliza muitos.
O filme Robocop e Robocop 2, por sua vez são interessantes exemplos críticos a respeito desse tema, desconectado de um pensamento sistêmico e com um viés mercadológico a OCP decide criar um segundo cyborg mais robusto, armado e violento que seria o sistema de segurança de Delta City, a cidade construída a partir da demolição de toda Detroit.
O filme nos oferece uma crítica contundente ao modelo de segurança pública ostensiva alinhado à privatização das cidades e da segurança pública. O discurso do presidente da OCP destaca esse tema: “Nós vamos construir uma cidade nova em folha onde agora está Detroit, um exemplo para o mundo (…)privada e responsável.” A noção de substituir a governança democrática pelo controle corporativo é enfatizada pela sua afirmação de que “qualquer um pode comprar ações da OCP e ter um pedaço da cidade, não existe mais democracia do que isso”, questionando assim as verdadeiras implicações de tal privatização.
Corrupção e Conivência com o Crime Organizado
Vale constatar que, no caso do Rio de Janeiro, o modelo de privatização das cidades controlado pelo sistema de segurança é justamente o que rege os muitos poderes paralelos atuantes na região metropolitana. Territórios inteiros tem o seu controle político assumido por estas forças que permitem ou proíbem candidatos x ou y, entradas e saídas de veículos e pessoas, entre outros fatores. O negócio criminoso do Rio não são exatamente o tráfico, assaltos, ou outro tipo de violência, o principal negócio é o controle do território e por sua vez as relações econômicas que isso movimenta. Um sistema cujo elo entre o Rio legalizado e o Rio ilegal se dá por redes de corrupção.
Assim, destacamos o grave problema que é a corrupção dentro das forças de segurança, que muitas vezes está envolvida com o crime organizado. As milícias, grupos formados por policiais e ex-policiais, exercem controle violento sobre diversas comunidades do Rio de Janeiro, muitas vezes com a complacência ou apoio de setores do governo. Para além disso, a prática do arrego aos batalhões, pagamento realizado por grupos de poder armado paralelo aos batalhões que cuidam da segurança local é uma prática comum. Com o pagamento garantido, as operações ostensivas não acontecem gerando uma falsa sensação de segurança local. Essa conivência entre o Estado e o crime organizado cria um ambiente onde a segurança pública é refúgio de interesses privados, dificultando qualquer tentativa eficaz de melhoria.
Fragmentação e Falta de Coordenação
O sistema de segurança pública no Rio de Janeiro sofre de uma falta de integração que impede a implementação de políticas mais completas. A ausência de coordenação entre as diferentes forças policiais e entre as esferas federal, estadual e municipal resulta em esforços desconectados e ineficazes. Isso agrava a sensação de insegurança e torna difícil a criação de estratégias unificadas para enfrentar o crime de maneira eficaz. Impossível combater um sistema global de negócios que envolve uma rede internacional de comércio ilegal que gira por portos, rodovias e aeroportos sem integração das forças de combate.
Foco na Repressão em Detrimento da Prevenção
Tradicionalmente, as políticas de segurança no Rio de Janeiro têm priorizado a repressão ao crime, deixando de lado os investimentos em medidas preventivas. Isso é muito afetado pela forma simplista como é tratado a política de segurança. A ação ostensiva funciona como uma espécie de “mostrar serviço”. Ainda que não dê resultado prático, liberar helicópteros, tropas especiais, armamentos pesados para uma operação que gera alto risco para inúmeros trabalhadores e que muitas vezes o melhor resultado é a apreensão de uma porcentagem ínfima de armas e drogas é notoriamente antieconômico, ainda que midiático.
Programas sociais que podem atuar sobre as causas da violência, como a pobreza e a exclusão social, são raros e mal organizados. Essa abordagem limitada perpetua um ciclo de violência que poderia ser reduzido com políticas mais abrangentes, externas para a prevenção e inclusão social.
Alternativas Globais que nos Servem de Exemplo
A experiência internacional oferece exemplos de como uma abordagem menos militarizada e mais integrada pode resultar em maior segurança e bem-estar social. No Japão, o modelo de policiamento comunitário baseia-se na proximidade. Pequenas delegacias de bairro são operadas por policiais que conhecem bem a população local, promovendo um ambiente de confiança mútua. Essa estratégia contrasta fortemente com a abordagem militarizada do Rio de Janeiro e servem de exemplo sobre como construir uma relação de cooperação entre cidadãos e forças de segurança.
Na Espanha, a desmilitarização da polícia foi acompanhada de reformas que enfatizaram os direitos humanos e o policiamento comunitário. A formação contínua dos policiais, focada na mediação de conflitos e no trabalho em conjunto com outros serviços sociais, criou uma polícia mais próxima da população e mais eficaz na manutenção da ordem pública.
Portugal, por sua vez, introduziu uma política de descriminalização das drogas, tratando o uso de substâncias como uma questão de saúde pública. Essa abordagem reduziu significativamente a violência relacionada ao tráfico e à população carcerária, mostrando como políticas focadas na saúde e na prevenção podem ser eficazes.
Para quem considere que tais exemplos não se aplicam ao Rio por conta d qualidade educacional e do sistema de bem estar destes países citados. É justamente sobre isso que digo, estes são elementos fundamentais para reduzir o grau de criminalidade de um lugar. O que garante o funcionamento do patrulhamento comunitário, ou a boa lide com drogas legalizadas é justamente a capacidade de outras esferas do sistema integrarem um cuidado com o seu povo. Cuidado de saúde, urbanístico, econômico, um cuidado com o eu povo.
Devaneios para uma Reorganização da Segurança Pública no Rio de Janeiro
Vamos pensar um pouco como a teoria da complexidade pode contribuir para a reorganização da segurança pública no Rio de Janeiro. O primeiro ponto é compreender que temos um papel central de um projeto de segurança embasado em interconexão entre vários fatores sociais e na necessidade de uma abordagem sistêmica da vida. As UPPs tinham um nome péssimo, mas uma proposta inicial boa, um Sistema Integrado de Segurança Pública e Desenvolvimento Social, que conecte áreas como segurança, saúde, educação e desenvolvimento econômico e social. Recuperar estes princípios e ampliar na formação de rede colaborativa, envolvendo tanto órgãos governamentais quanto a sociedade civil, para enfrentar os desafios de segurança a partir de múltiplas perspectivas. Além disso, a implementação de um policiamento comunitário em rede, inspirado nos modelos japoneses e espanhóis (veja este pequeno documentário a respeito), seria crucial para aproximar a polícia da população e criar um ambiente de confiança mútua. A desmilitarização das forças de segurança e a formação contínua dos policiais, com ênfase em direitos humanos e mediação de conflitos, também são medidas essenciais para a transformação do sistema.
A legalização de drogas ilícitas é outro ponto importante. Entendo que o cidadão comum tema lidar com este problema, porém é crucial olharmos para as experiências bem-sucedidas a respeito de legalização de drogas. Drogas como o cigarro, açúcares, certos fármacos, álcool são muito mais bem controlados na sociedade por instrumentos de saúde pública e instrumentos econômicos. Este é o ponto.
Um dos temores que a população tem da legalização é que ela enxerga as drogas como um caminho para a morte, e tem um sentido em pensar assim dentro do sistema atual. A questão é que, podemos contar mais de 50 anos em que as disputas ostensivas matam gente e não resolvem os problemas.
Os programas focados na juventude, especialmente em áreas vulneráveis, e a criação de conselhos comunitários de segurança e desenvolvimento social são outras propostas que podem ajudar a construir uma sociedade mais justa e segura. Se o jovem tem alguma perspectiva que envolve educação e formação em um trabalho digno e uma perspectiva mínima de acesso a um sistema de saúde que funcione, a criminalidade reduzirá muito.
Conclusão
A transformação da segurança pública no Rio de Janeiro exige uma abordagem integrada e intersetorial, que vá além do simples combate ao crime. Ao adotar uma perspectiva mais ampla, baseada na teoria da complexidade e em exemplos internacionais que deram certo, é possível construir um ambiente de segurança mais humano e sustentável, onde diferentes esferas do governo e da sociedade civil trabalhem juntas para promover a paz social e o desenvolvimento humano.
É preciso entender que a máquina que move a violência é econômica e extremamente enlaçada nas muitas forças que gerem este Estado, forças essas que ocupam cargos legalizados e cargos ilegais. Infelizmente, não é tarefa simples lidar com isso ou desmontar estas estruturas das diversas formas de poder que atuam na cidade, mas uma coisa é certa é preciso começar de algum lugar.
Subjetivamente, precisamos confrontar e modificar o imaginário coletivo que sustenta a ideia de que a segurança se resolve com heróis solitários em uma batalha contra o crime ou inovações tecnológicas puramente armamentistas e ostensivas. O caminho simplista dos filmes hollywoodianos, onde policiais e “justiceiros” como Batman, Bradock ou Duro de Matar resolvem todos os problemas sozinhos, não se sustentam na realidade. Esses estereótipos podem funcionar bem como entretenimento, mas não como modelo de segurança pública.
Enquanto continuarmos alimentando essa lógica, vamos apenas substituir a chance de enfrentar os sérios desafios do Estado por um espetáculo televisivo diário, cuja qualidade e efetividade são, no mínimo, questionáveis.
A indústria da construção civil segue ufanista com as plataformas BIM, embora muitos ainda confundam BIM com certas ferramentas proprietárias. No entanto, suspeito que essa lógica de pensamento esteja se tornando obsoleta, mesmo antes de atingir seu auge. O avanço tecnológico tem dessas peculiaridades; quem se lembra dos laserdiscs, precursores dos CDs?
O Papel das Ferramentas na Arquitetura e Engenharia Digital
Primeiramente, é crucial entender que a questão central não são as ferramentas em si, mas seus métodos de operação, interface com o usuário e propósito. O BIM continua sendo o melhor método para produção de dados e gerenciamento de documentação em projetos de arquitetura e engenharia. No entanto, ferramentas de inteligência artificial estão surgindo para potencializar decisões em projeto, manutenção preditiva, simulação e análise em tempo real. Quando integrados a sistemas de Machine Learning, esses dados ajudam a construir um arcabouço de soluções possíveis para problemas complexos.
Integração de Digital Twins e IA na Arquitetura e Engenharia
Na fase atual, a IA se tornou um complemento importante às ferramentas de projeto. A aplicação de Digital Twins, por exemplo, permite uma análise robusta de dados em tempo real, automação de decisões e otimização através de simulações. O que o Digital Twin faz é criar um “gêmeo virtual” de objetos, processos ou sistemas físicos, monitorando-os em tempo real e de forma detalhada. Isso permite a otimização de seu equivalente real, seja ele uma máquina, um mega edifício, uma indústria ou até mesmo uma cidade.
Sinergia entre BIM, Digital Twins e Machine Learning
A complementaridade entre BIM, Digital Twins e Machine Learning está transformando a arquitetura e engenharia ao automatizar processos de design, documentação e operação. O BIM já facilita a criação de modelos detalhados e a coordenação entre disciplinas. Com a integração de algoritmos de Machine Learning, será possível otimizar designs e reduzir erros de forma automática. Digital Twins, por sua vez, permitem monitoramento e simulação em tempo real, possibilitando manutenção preditiva e ajustes contínuos durante o ciclo de vida do projeto.
No futuro, essas tecnologias combinadas podem automatizar grande parte do processo de arquitetura e engenharia. Ferramentas de design generativo, integradas ao BIM, junto com a análise de dados históricos realizados por Machine Learning, permitirão que projetos sejam otimizados autonomamente. Os Digital Twins terão um papel crucial ao prever o desempenho dos ativos e permitir ajustes dinâmicos, resultando em construções mais eficientes e adaptáveis.
Até aqui, falamos de algo que já está em curso na engenharia de ponta e nem consideramos o avanço tecnológico de ferramentas de design generativo que permitem a criação de múltiplas opções de design baseadas em critérios definidos pelo usuário. Nos permitindo explorar várias soluções de design rapidamente nas fases conceituais.
Sistematizando:
Concepção projectual: partindo do BIM e ferramentas de design generativo, auxiliado por Machinhe Learning, criamos automaticamente múltiplas opções de design, otimizadas para diversos critérios. Temos como papel, dentro disso, formular os critérios e diretrizes, aquilo que na língua do arquiteto chamamos de Partido e Programa, inserir os principais dados e selecionar, dentre as múltiplas opções entregues pelo design generativo, quais seriam as melhores soluções sugeridas.
Desenvolvimento e Simulação: O Digital Twins simulará continuamente o desempenho dos designs gerados em um ambiente virtual, permitindo ajustes em tempo real e a otimização antes da construção. Destes ajustes finos escolhemos o melhor projeto a ser construído.
Execução e Operação: A construção será acompanhada e ajustada automaticamente com base no contínuo feedback do Digital Twins e nas previsões do Machine Learning. Durante a fase operacional, a manutenção e os ajustes de desempenho serão feitos de forma automatizada, gerando dados para otimização da obra e operação atual, tanto quanto para melhorias em novos projetos.
A partir desta sinergia, o ciclo de vida de um projeto e obra pode ser gerido de forma contínua, da sua concepção até o limite máximo de seu uso. Com o Digital Twins e ML ajustando o BIM conforme necessário para garantir que o ativo físico opere da maneira mais eficiente e durável possível.
O Compromisso Ético na Era da Automação
Nesse cenário de transformação, o compromisso central dos profissionais de arquitetura e engenharia deve ser a criação de diretrizes que assegurem a preservação da vida e do meio ambiente. Inspirando-se nos ensinamentos de Isaac Asimov, é fundamental estabelecer limites claros para o uso dos recursos naturais e desenvolver estratégias que não apenas minimizem os impactos negativos, mas que os transformem em benefícios ambientais. Com essas diretrizes, que garantem a proteção da humanidade e do planeta Terra enquanto entes vivos, os sistemas de automação poderão nos guiar para soluções inovadoras, potencializando compensações ambientais e estratégias globais que não apenas reduzam impactos negativos, mas quiçá também gerem impactos positivos.
Decisões estratégicas exigem um comportamento ético e político da profissão, além da competência técnica. É hora de caminhar em direção a um futuro mais digno e sustentável, onde a tecnologia seja uma aliada na construção de um mundo melhor.
imagem gerada pelo DALL-E tendo como input o comando: crie uma imagem artística de modelo de cidade com favelas toda formada com partes de lixo eletrônico.
Ler é uma arte, dizem que arquitetos não gostam de ler, tenho pena dos profissionais que acreditam nessa máxima. Ler é uma tarefa árdua que muitas vezes exige que nos prendamos dramaticamente em um parágrafo, tentando desvendar seus significados ocultos. Um exemplo disso é quando Manfredo Tafuri lança o seguinte parágrafo em “Projeto e Utopia”:
“Quando Laugier, em 1753, enuncia as suas teorias sobre o desenho das cidades, abrindo oficialmente a investigação dupla. Por um lado, a redução da própria cidade a fenômeno natural, por outro a de superar qualquer ideia apriorística do ordenamento urbano, através da extensão ao tecido citadino de dimensões formais ligadas à estética do pitoresco” (Tafuri, 1985, p. 13).
Tafuri nos mostra que Laugier propôs analisarmos a cidade como um fenômeno natural, um organismo vivo. Segundo Laugier, devemos abandonar a ideia de um planejamento urbano rígido, adotando uma abordagem flexível e adaptável ao movimento orgânico da cidade, buscando uma estética pitoresca.
Contudo, Tafuri se posiciona como crítico dessa visão. Ele argumenta que enxergar a cidade dessa maneira é uma simplificação excessiva, pois ignora as complexidades das forças políticas, econômicas e sociais que moldam o espaço.
A busca pelo pitoresco pode criar uma ilusão de naturalidade, uma beleza idílica que esconde problemas mais profundos, resultando em um urbanismo superficial. O próprio recorte de valor da paisagem é definido por estas relações complexas, qual paisagem aparece no recorte de observação dos pintores? Atualmente poderíamos nos perguntar: quais paisagens são cenário de novela e filmes dos mais diversos e o que elas representam nas cenas? Não há inocência por trás destas escolhas, mas sim disputa de valor sobre o território e o espaço construído. E nisso, o campo teórico e crítico é fundamental para a produção prática.
– Construir instrumental teórico para a ação prática.
Agora vejamos um pouco sobre alguns pontos que tornam o ato de estudar Tafuri relevantes para a nossa profissão, assumir uma visão histórica, crítica, engajada e entendendo a complexidade da intervenção. Primeiro separemos aqui um pouco de instrumental teórico do qual podemos nos servir:
Abordagem Histórica: Evitar projetos que não levem em conta o contexto histórico específico, fugindo de soluções universalizadas.
Intervenções Críticas e Realistas: Enfrentar diretamente as contradições e desafios sociais do ambiente urbano.
Engajamento Social e Político: As intervenções devem ser socialmente engajadas, refletindo as necessidades e condições das comunidades.
Assumir a Complexidade: Reconhecer e abraçar a complexidade inerente à prática arquitetônica, evitando simplificações excessivas. Abraçar a interdisciplinaridade necessária para resolver problemas difíceis.
Autocrítica: Cada projeto ou obra deve gerar um processo de reflexão autocrítica, permitindo o aprimoramento contínuo dos métodos e práticas.
Podemos pensar a partir destes instrumentais para criar o arcabouço sobre o qual construiremos nossa produção intelectual e criativa, buscando soluções práticas para os problemas que enfrentaremos em campo. Somado a estes, separamos aqui alguns pontos para refletir, que nos ajudam a caminhar nesta complexidade aberta pela teoria de Tafuri:
A Arquitetura como Reflexo das Contradições Sociais Um tema muito pertinente na cidade do Rio, e no Brasil como um todo. É irônico pois muitos de nós defendemos que a desigualdade urbana e espacial é reflexo direto da ausência do trabalho do arquiteto na produção destes espaços. Se partirmos de uma abordagem crítica podemos compreender que a contradição espacial é diretamente conectada com a contradição socioeconômica. Assim podemos assumir como o resultado de um projeto, uma cidade onde você tem bairros de alta renda com arquitetura de alto padrão e bem cuidados, contrastando com áreas periféricas onde a infraestrutura é precária.
A Ideologia na Arquitetura A arquitetura é uma construção simbólica coletiva que expressa ideologias. Igrejas, relógios centrais e shopping centers reforçam sinais atrelados às formas vigentes de poder.
Por exemplo, um shopping exprime sofisticação, controle social e o mundo privado sobrepondo-se ao público. Ele atua como referência de prazer e status, uma ode ao consumo. Podemos projetar sua forma para isolá-lo do contexto em que se insere, com grandes paredes nas fachadas, destacando apenas o interior, sempre bem trabalhado com materiais de qualidade, aromatizado, climatizado e mobiliado para que se perca a noção do tempo e do lugar. Isso contrasta claramente com a lógica tradicional do comércio de rua, feiras livres e camelos.
O Papel da Arquitetura na Criação de Imagens de Poder A arquitetura é uma ferramenta poderosa de representação subjetiva. Ao longo da história, temos numerosos exemplos que expressam isso: túmulos reais, catedrais, castelos e mansões. A imponência de projetos como a Torre de TV de Berlim, Burj Khalifa, Empire State Building, CCTV em Pequim e Brasília no Brasil exemplifica esse poder.
A arquitetura pode projetar e consolidar o poder de corporações ou instituições. Suas principais expressões sensíveis transmitem ao usuário a mensagem ideológica e os princípios dessas formas de poder: pujança, luxo, alteridade, solidez, riqueza e status.
Ao mesmo tempo, a arquitetura pode empoderar os invisibilizados, ao legitimar seu território, seu lugar, suas expressões sensíveis em obra construída. Assumindo um caráter de belo e de interessante a estes invisíveis.
Crítica ao Funcionalismo Tafuri busca um equilíbrio entre o funcional e o formal. Ele entende que uma arquitetura funcional ultrapassa aspectos da experiência humana sensível. Embora pareça extremamente prático, essa arquitetura ainda exprime um conceito. Ruas que focam apenas no ponto de partida e chegada perdem a sensibilidade do percurso, mesmo cumprindo sua função como passagem.
Um exemplo interessante é a Estação Central do Brasil. Uma estação de trem, reflexo de uma ideologia de conexão e desenvolvimento nacional, possui uma arquitetura de qualidade espacial e formal. Em contraste, uma estação de metrô representa apenas uma passagem com qualidade ordinária e comum, oferecendo baixo conforto estético e espacial. Essa diferença especial ilustra bem como a arquitetura pode operar.
A Arquitetura como Simbolismo do Contemporâneo A crise do hiper individualismo é evidente na arquitetura contemporânea. Construções contemporâneas, com o uso extensivo de aço, vidro e áreas de lazer controladas, frequentemente se tornam símbolos de alienação para seus moradores, que muitas vezes não conhecem sequer seus vizinhos. Isso contrasta com arquiteturas tradicionais, como os povos originários, que promovem um senso de comunidade e conexão humano-humano e humano-natureza, ou com ruas de bairro tradicionais onde moradores se conversam a gerações.
Esses exemplos ajudam a vivenciar como as ideias de Tafuri sobre arquitetura e urbanismo se manifestam nas construções e situações do dia a dia. Estudar Teorias e Críticas da arquitetura é crucial para nossa profissão. A leitura de Tafuri revela conexões essenciais que nos mostram que cada projeto e cada obra são reflexos diretos do nosso pensamento, moldados por uma teia intricada de nossas relações e condições de possibilidades.
Um dos maiores desafios do arquiteto é criar uma linha de pensamento e desenvolver ferramentas teóricas que fundamentem nossas ações. Consolidar essa teoria é uma jornada constante e desafiadora, mas quem se dedica a isso tem a oportunidade de alcançar um salto qualitativo na prática profissional.
Minha sugestão é que se armem com todas as ferramentas que a vida oferece, buscar a cultura como quem busca o cultivo de uma arte. Mergulharmos na literatura, na ciência, na filosofia, na música e nas conversas descontraídas de botequim. Mantenhamos uma abordagem histórica, coerência crítica e realista, e nos engajemos socialmente. O mundo é vasto e complexo. Cultivemos o hábito de se instrumentalizar com o melhor que o mundo tem a oferecer, e estejamos preparados para transformar o mundo ao nosso redor com paixão.
Este texto, propositalmente foi grande e não terá imagens. Leiam! Quem se sentir a vontade, comente. O debate é importante.