Arquitetura e Urbanismo, artigo, cultura, filosofia de vida, pensamento, política

Pequena Contribuição Sobre o Campo Teórico na Arquitetura

Ler é uma arte, dizem que arquitetos não gostam de ler, tenho pena dos profissionais que acreditam nessa máxima. Ler é uma tarefa árdua que muitas vezes exige que nos prendamos dramaticamente em um parágrafo, tentando desvendar seus significados ocultos. Um exemplo disso é quando Manfredo Tafuri lança o seguinte parágrafo em “Projeto e Utopia”:

“Quando Laugier, em 1753, enuncia as suas teorias sobre o desenho das cidades, abrindo oficialmente a investigação dupla. Por um lado, a redução da própria cidade a fenômeno natural, por outro a de superar qualquer ideia apriorística do ordenamento urbano, através da extensão ao tecido citadino de dimensões formais ligadas à estética do pitoresco” (Tafuri, 1985, p. 13).

Tafuri nos mostra que Laugier propôs analisarmos a cidade como um fenômeno natural, um organismo vivo. Segundo Laugier, devemos abandonar a ideia de um planejamento urbano rígido, adotando uma abordagem flexível e adaptável ao movimento orgânico da cidade, buscando uma estética pitoresca.

Contudo, Tafuri se posiciona como crítico dessa visão. Ele argumenta que enxergar a cidade dessa maneira é uma simplificação excessiva, pois ignora as complexidades das forças políticas, econômicas e sociais que moldam o espaço.

A busca pelo pitoresco pode criar uma ilusão de naturalidade, uma beleza idílica que esconde problemas mais profundos, resultando em um urbanismo superficial. O próprio recorte de valor da paisagem é definido por estas relações complexas, qual paisagem aparece no recorte de observação dos pintores? Atualmente poderíamos nos perguntar: quais paisagens são cenário de novela e filmes dos mais diversos e o que elas representam nas cenas? Não há inocência por trás destas escolhas, mas sim disputa de valor sobre o território e o espaço construído. E nisso, o campo teórico e crítico é fundamental para a produção prática.

Construir instrumental teórico para a ação prática.

Agora vejamos um pouco sobre alguns pontos que tornam o ato de estudar Tafuri relevantes para a nossa profissão, assumir uma visão histórica, crítica, engajada e entendendo a complexidade da intervenção. Primeiro separemos aqui um pouco de instrumental teórico do qual podemos nos servir:

  • Abordagem Histórica: Evitar projetos que não levem em conta o contexto histórico específico, fugindo de soluções universalizadas.
  • Intervenções Críticas e Realistas: Enfrentar diretamente as contradições e desafios sociais do ambiente urbano.
  • Engajamento Social e Político: As intervenções devem ser socialmente engajadas, refletindo as necessidades e condições das comunidades.
  • Assumir a Complexidade: Reconhecer e abraçar a complexidade inerente à prática arquitetônica, evitando simplificações excessivas. Abraçar a interdisciplinaridade necessária para resolver problemas difíceis.
  • Autocrítica: Cada projeto ou obra deve gerar um processo de reflexão autocrítica, permitindo o aprimoramento contínuo dos métodos e práticas.

Podemos pensar a partir destes instrumentais para criar o arcabouço sobre o qual construiremos nossa produção intelectual e criativa, buscando soluções práticas para os problemas que enfrentaremos em campo. Somado a estes, separamos aqui alguns pontos para refletir, que nos ajudam a caminhar nesta complexidade aberta pela teoria de Tafuri:

  1. A Arquitetura como Reflexo das Contradições Sociais
    Um tema muito pertinente na cidade do Rio, e no Brasil como um todo. É irônico pois muitos de nós defendemos que a desigualdade urbana e espacial é reflexo direto da ausência do trabalho do arquiteto na produção destes espaços. Se partirmos de uma abordagem crítica podemos compreender que a contradição espacial é diretamente conectada com a contradição socioeconômica. Assim podemos assumir como o resultado de um projeto, uma cidade onde você tem bairros de alta renda com arquitetura de alto padrão e bem cuidados, contrastando com áreas periféricas onde a infraestrutura é precária.
  1. A Ideologia na Arquitetura
    A arquitetura é uma construção simbólica coletiva que expressa ideologias. Igrejas, relógios centrais e shopping centers reforçam sinais atrelados às formas vigentes de poder.

    Por exemplo, um shopping exprime sofisticação, controle social e o mundo privado sobrepondo-se ao público. Ele atua como referência de prazer e status, uma ode ao consumo. Podemos projetar sua forma para isolá-lo do contexto em que se insere, com grandes paredes nas fachadas, destacando apenas o interior, sempre bem trabalhado com materiais de qualidade, aromatizado, climatizado e mobiliado para que se perca a noção do tempo e do lugar. Isso contrasta claramente com a lógica tradicional do comércio de rua, feiras livres e camelos.
  1. O Papel da Arquitetura na Criação de Imagens de Poder
    A arquitetura é uma ferramenta poderosa de representação subjetiva. Ao longo da história, temos numerosos exemplos que expressam isso: túmulos reais, catedrais, castelos e mansões. A imponência de projetos como a Torre de TV de Berlim, Burj Khalifa, Empire State Building, CCTV em Pequim e Brasília no Brasil exemplifica esse poder.

    A arquitetura pode projetar e consolidar o poder de corporações ou instituições. Suas principais expressões sensíveis transmitem ao usuário a mensagem ideológica e os princípios dessas formas de poder: pujança, luxo, alteridade, solidez, riqueza e status.

    Ao mesmo tempo, a arquitetura pode empoderar os invisibilizados, ao legitimar seu território, seu lugar, suas expressões sensíveis em obra construída. Assumindo um caráter de belo e de interessante a estes invisíveis.
  1. Crítica ao Funcionalismo
    Tafuri busca um equilíbrio entre o funcional e o formal. Ele entende que uma arquitetura funcional ultrapassa aspectos da experiência humana sensível. Embora pareça extremamente prático, essa arquitetura ainda exprime um conceito. Ruas que focam apenas no ponto de partida e chegada perdem a sensibilidade do percurso, mesmo cumprindo sua função como passagem.

    Um exemplo interessante é a Estação Central do Brasil. Uma estação de trem, reflexo de uma ideologia de conexão e desenvolvimento nacional, possui uma arquitetura de qualidade espacial e formal. Em contraste, uma estação de metrô representa apenas uma passagem com qualidade ordinária e comum, oferecendo baixo conforto estético e espacial. Essa diferença especial ilustra bem como a arquitetura pode operar.
  2. A Arquitetura como Simbolismo do Contemporâneo
    A crise do hiper individualismo é evidente na arquitetura contemporânea. Construções contemporâneas, com o uso extensivo de aço, vidro e áreas de lazer controladas, frequentemente se tornam símbolos de alienação para seus moradores, que muitas vezes não conhecem sequer seus vizinhos. Isso contrasta com arquiteturas tradicionais, como os povos originários, que promovem um senso de comunidade e conexão humano-humano e humano-natureza, ou com ruas de bairro tradicionais onde moradores se conversam a gerações.

Esses exemplos ajudam a vivenciar como as ideias de Tafuri sobre arquitetura e urbanismo se manifestam nas construções e situações do dia a dia. Estudar Teorias e Críticas da arquitetura é crucial para nossa profissão. A leitura de Tafuri revela conexões essenciais que nos mostram que cada projeto e cada obra são reflexos diretos do nosso pensamento, moldados por uma teia intricada de nossas relações e condições de possibilidades.

Um dos maiores desafios do arquiteto é criar uma linha de pensamento e desenvolver ferramentas teóricas que fundamentem nossas ações. Consolidar essa teoria é uma jornada constante e desafiadora, mas quem se dedica a isso tem a oportunidade de alcançar um salto qualitativo na prática profissional.

Minha sugestão é que se armem com todas as ferramentas que a vida oferece, buscar a cultura como quem busca o cultivo de uma arte. Mergulharmos na literatura, na ciência, na filosofia, na música e nas conversas descontraídas de botequim. Mantenhamos uma abordagem histórica, coerência crítica e realista, e nos engajemos socialmente. O mundo é vasto e complexo. Cultivemos o hábito de se instrumentalizar com o melhor que o mundo tem a oferecer, e estejamos preparados para transformar o mundo ao nosso redor com paixão.

Este texto, propositalmente foi grande e não terá imagens. Leiam! Quem se sentir a vontade, comente. O debate é importante.

Standard
artigo, brasil, cultura, filosofia de vida, literatura, pensamento, rio de janeiro

Amar a praia: uma lição do meu pai

Meu pai amava a praia de Sepetiba, enquanto eu a considerava sem graça. Preferia jogar bola no Recôncavo, andar de bicicleta com meus amigos, catar fruta no pé na Arealva, pular o rio, e soltar pipa.

Mas um dia, compreendi o amor de meu pai. Me dizia: “Não anda olhando para o chão, moleque, cabeça erguida”. E foi assim que diante da Baía de Sepetiba, levantei a cabeça e a paisagem renasceu. Ver a restinga da Marambaia ao fundo, riscando o horizonte, o pôr do sol, o barulho da marola e das aves, o aroma da maresia, nem lembrei do barro entre a areia e a água.

Nossa segunda praia era o Recreio, na época dos areais, acampando. Recreio é mar arredio, destes que querem ser livres, ou a gente respeita ou ele nos engole. Algumas vezes íamos às praias da Ilha do Governador. Mais velho, já arquiteto, aprendi a amar a Praia das Pedrinhas, mar de pescador, graças ao meu pai que lá atrás disse: “Olha para o horizonte”.

Privatizar praia é o sonho de quem para o 474 numa manhã de domingo e manda os garotos do Jacaré descerem; delírio que diz: “Nossa praia”. Praia é um ser livre, um ente de renovação. Quantos de nós não pulamos as ondas de um ano novo e renovamos nosso pacto com a vida? Aprisionar o mar em políticas privatistas é negar seu sentido libertário. O mar não cabe no bem privado, mal cabe no bem público. O mar é fluxo da vida, berço do imprevisível. Praia, pedacinho de terra que toca a imensidão das correntes, captamos seus valores e significados, a potência para além dos corpos.

Em um mundo que dá claros sinais de que nossa escolha limitante de transformar tudo em recurso cria danos irreversíveis, a lei da praia é fruto de uma visão estreita e obsoleta. Não enxerga a grandiosidade do mar, lança um olhar míope e mesquinho, que aprisiona a praia em cifras, reduzindo-a a um mero balanço financeiro para alguns poucos privilegiados, alheios à complexidade de vida que permeia nosso país.

foto autoral: povo na praia do Flamengo, reveillon
Standard
artigo, cultura, filosofia de vida, literatura, pensamento, rio de janeiro

Aprendendo a Ler o Mundo

Ler e escrever sempre foram partes inseparáveis da minha vida, uma insanidade que me acompanha desde antes mesmo de saber andar. Era como se eu tivesse nascido fazendo isso, confesso que nem lembro como aprendi. No entanto, foi aos 14 anos, em uma aula na ETEJK, que a professora Angela Renata me ensinou a ler jornais.

Angela Renata nos mostrou que cada jornal abre uma janela distinta sobre o dia, informando seus leitores sobre o que considera importante e relevante. Ela nos incentivava a, pelo menos uma vez por semana, ler três tipos diferentes de jornais. Escolhi algumas segundas-feiras, dia que ela sugeriu, e me dedicava à leitura de O Globo, Jornal do Brasil, Jornal do Comércio e O Povo. Afinal, quem nasce nos subúrbios precisa, ao menos, de um “cospe-sangue”.

Esses jornais me abriram os olhos para a diversidade de representações do mundo que coexistem dentro do mesmo mundo. Percebi que cada segmento da população tinha acesso a diferentes tipos de assuntos, moldando sua inserção e ação na vida. Economia, negócios e política eram mais proeminentes para a elite da cidade, enquanto futebol, assaltos e notícias de delegacias eram mais comuns nos jornais consumidos pelos mais pobres. A capa de jornal, exposta nas bancas, era como um meme, gerando um efeito manada no cotidiano. Escrever uma boa manchete é uma arte. Lembro-me de duas capas d’O Povo que ficaram gravadas na minha memória: a primeira, “MATOU A MÃE POR UM GUARANÁ”; a segunda, uma foto centralizada numa página vazia, mostrando apenas uma cabeça sem corpo. O POVO com sua pedagogia da violência nos ensinava a ter medo da vida, enquanto o jornal do comércio ensinava onde o rico deveria investir sua renda.

Hoje, os jornais impressos praticamente desapareceram, mas o ciclo complexo das informações e os parâmetros das janelas que querem nos mostrar continuam firmes. Ler o mundo é estar aberto a todas as janelas às quais temos acesso. Dos jornais, explorei a filosofia, os livros técnico-científicos, as críticas, e ao mesmo tempo, a oralidade dos pontos de ônibus, conversas de calçadas, quintais e praças. Hoje, meu hiperfoco volta à literatura, e aconselho: comecemos pelos clássicos.

autoral: grafite e caneta sobre papel
Standard
artigo, ciência, cultura, filosofia de vida, pensamento

A Singularidade do Horizonte de eventos

O que faríamos diante do horizonte de eventos? Existe um limiar em cada travessia, um instante em que a fronteira entre o presente e o futuro se dissolve. Como habitar um espaço onde um mero fragmento de segundo pode significar o fim da história, enquanto simultaneamente a história se torna eterna? Há um término absoluto nesse horizonte ou seria o nascimento? E se aceitarmos que não há um verdadeiro início, o cenário se torna ainda mais perturbador.

Nesse canto onde a luz parece ausente, mas a eternidade se desdobra, algo profundo se mobiliza. Parece-nos incapaz, como se fossemos atingidos por um nocaute, testemunhando a vida passar diante dos nossos olhos. Décadas de existência se desenrolam em um piscar de olhos entre o golpe e a queda.

Sobre a morte, o luto é uma experiência alheia. Para nós, resta a singularidade, o instante em que estamos apenas com nós mesmos. Podemos criar mil analogias, mas talvez sejamos incapazes de capturar plenamente esse momento. O medo surge da falta de controle sobre os processos, muito mais do que do desfecho em si.

Acreditamos piamente que podemos controlar a vida, o cotidiano, os movimentos. Esquecemos que, além de nós, a existência é pura entropia. A incerteza, associada a uma variável aleatória, é o padrão mais comum, e para nós, o máximo que conseguimos é a suspeita de um possível resultado entre mil probabilidades. O universo é uma infinidade de mundos semelhantes ao nosso, dizia Giordano Bruno diante da Inquisição. O mais fascinante é que, mesmo que passem gerações sem um sinal claro disso, é possível que ele estivesse certo.

Ali, onde a arte se separa da ciência, a ciência da filosofia e todos esses domínios da religião, experimentamos a persuasão da luz e sombra barroca, o desejo de luz e ascensão aos céus das arquiteturas góticas, e o brilho de sermos seres capazes de amar e enfrentar os mais loucos mistérios. Alegra-me saber que, de tempos em tempos, alguém decide se desfazer e aceitar a entropia da vida, rompendo com a banalidade de si mesmo.

autoral: caneta esferográfica sobre papel

Standard
artigo, pensamento, Sem categoria

Foi um Rio que passou em minha vida

Um dia vou ouvir esta música e talvez não esteja mais nesta terra. Desde tempos de Brasil colônia a Brasil Democracia vivemos num município que sente constante falta de água potável e que, nos anos seguintes (principalmente pós urbanos) é servido com trágicos processos de enchente. A conta não fecha: como podemos não ter água potável em uma cidade que sofre com as cheias de inúmeros rios de água doce?

Matamos duas Baías (Guanabara e Sepetiba) afundamos a pesca, afundamos a vida ribeirinha e balneária. Matamos os portos e a navegabilidade. As bacias do Sarapuí, Meriti, Pavuna, Acari, Irajá, Faria Timbó, Ramos, Carioca, entre outros, muitos cobertos, foram escondidos, outros abandonados. Cada cheia vem o jornal com matérias, povo joga lixo, ninguém liga, a culpa é do morador. Na real é maior que isso, a culpa é de uma cultura que desde os tempos de Cabral 1 não se importou tanto com isso e que impregnou em todos nós que Rio é valão.

Ok, podemos passar pano, o senso de preservação da natureza é recente. Recente para quem? Os originários desta terra, assim como os das terras africanas tinham uma relação divina e transcendente com os rios. Nós perdemos esse carinho em algum momento da história.

Quem já deixou um Bougainville abandonado sabe que a natureza não é moral, ela seguirá livre seu rumo. Se você não foi capaz de navegar com ela, ela pode te derrubar, sendo bonita e violenta ao mesmo tempo. A crise ambiental bate na porta, calor e chuva aqui, frio forte no ártico, temperaturas locais mais extremas e a natureza vai cobrar os erros humanos.

A maior parte do povo, aquele que vê as adutoras do Guandu passarem na porta da casa deles e levar água potável pra zonas abastadas da cidade enquanto eles ficam sem água, acordou alagado pelos rios que também poderiam abastecer suas casas se fossemos um país de projeto político sério.

Mas, sinceramente, cabe ao povo abraçar para si a solução. Se o povo que mais sofre não for capaz de abraçar o seu lugar, os seus rios e tirar ou cobrar na marra a solução para o problema, o futuro dele vai ser a morte, pela cheia ou pela seca. Aqueles que deveriam ter feito e só te visitam depois da tragédia não vão fazer muito além.

Standard
artigo, pensamento, Sem categoria

A fé que governa o tempo – feliz 2024

Na fé ancestral africana, Iroko é quem governa o tempo. O tempo, esse que corre fugidio das nossas mãos assim como para e finca raízes. No evangelho o tempo é o próprio Cristo nascido, morto e ressuscitado, o tempo no próprio corpo. O tempo que é vida em movimento.

O tempo que nos é surrupiado, o tempo que passa, o tempo que gira e nos faz parecer que sempre há uma chance a mais. Quem melhor fala de tempo nos textos bíblicos provavelmente foi Eclesiastes; Tudo fez formoso em seu tempo; também pôs o mundo no coração do homem (…) Já tenho entendido que não há coisa melhor para eles do que alegrar-se e fazer bem na sua vida (…) O que é, já foi; e o que há de ser, também já foi. Futuro e passado dizem que olhar para a frente é olhar para os que já estavam.

Nas areias a beira mar, os corpos celebram na fé, lado a lado, o renovo da esperança e o mar a todas as vozes recebe. Pois, nos versos do compositor, “Na beira do mar, o bem, é o mar que carrega com a gente”.

Que neste dia de grande beleza e esperança, ecoe esse pequeno desejo: que a gente recupere o direito ao tempo que nos é roubado, e que vivamos e celebremos o tempo, ou melhor, os muitos tempos que conseguimos viver no tempo. Como o rio que nasce, cresce, se espalha, vira vapor, vira chuva, alimenta terras, desemboca na foz e se transmuta em parte de oceano e parte volta para a nascente. Que a vida seja esse grande ciclo complexo chamado tempo, do qual, nenhum de nós conseguirá assumir a totalidade, pois somos meros grãos de areia na imensidão do universo que a gente respeita e contempla sem precisar ter as rédeas do controle. “Não é sobre o mar que a lua é mais bela? O mar é instável. Como ele é a vida dos homens dos saveiros”.

Mesmo que a vida seja instável, como toda vida é, a gente vai navegando junto, lado a lado, ainda que por fora tudo pareça antagônico, lá no fundo a fé que nos move há de ser a mesma, e já que cito mil poetas, pq não parafrasear mais um e desejar a todos que recebam todas as cores desta vida e todos os sorrisos que puderem sorrir. Feliz 2024.

imagem: umbandistas e pentecostais na praia, ano novo 2024.

Standard
artigo, pensamento, Sem categoria

Notre-Dame de Paris, literatura, arquitetura, vida

Uma das mais belas críticas a arquitetura que já li se chama Nodre-Dame de Paris de Victor Hugo. No livro terceiro, quando expõe seu desencanto com os processos de mudança na arquitetura do Templo, ressalta quão nocivos são o tempo, as mudanças políticas coléricas, mas principalmente as modas estéticas decadentes.

“As modas fazem mais mal que as revoluções. Elas dissecaram o vivo, atacaram a medula óssea da arte, (…)” cita o autor. Victor Hugo nos traz nessa obra a importância do valor estético do gótico, do medievo e da vida periférica. Seus principais personagens: A arquitetura, a cigana, a pessoa com deficiência e o arquidiácono. No triângulo trágico da história temos duas pessoas que vivem a margem da sociedade e que passam por uma complexa relação de controle e manipulação do representante da institucionalidade (o livro é imensamente mais amplo que isso, leiam). A arquitetura é valorizada por ser incompleta (como o autor cita) por ser algo que representa uma transição de tempos. O tempo expresso nas rusgas, nas mudanças dos adornos e do altar, são denunciados como uma violência a obra e aos modos de vida da época.

No debate de patrimônio, a obra teve peso após o incêndio que afetou a catedral. Da literatura para a vida, o livro diz: Há algo de valor na arquitetura e na vida marginal, uma ética.

Os pobres, que dão vida e espírito ao lugar (catedral) Quasimodo, cuja falta de beleza e deficiência o torna um pária, traz o amor altruísta e o sacrifício de si, esmeralda, rejeitada por sua condição marginal no povo representa uma liberdade impossível dentro dos cânones sociais e frollo que vê sua moral abalada pelo desejo de possuir o que não tem é o representante do poder em seu eterno conflito. Frollo, o diácono arquiteto da catedral opera obcecado pelo ser-livre da cigana, uma liberdade que só é possível quando nossa existência acontece para além das fronteiras, uma liberdade marginal. É isso que conforma a arquitetura da catedral, entre o espaço construído e o vivído (ainda que vivido nos textos de Victor Hugo).

Com olhar sensível, Victor Hugo torna visível a potencia marginal, os conflitos sociais e o papel da arquitetura nesse entremeio. E nos ensina que preservar arquitetura não é só manter fachada, mas saber como contar a história da nossa existência a partir daquela obra construída.

Standard
artigo, ciência, pensamento, política, Saúde

Um pensar científico para os dias de hoje

Já se foi o tempo em que pesquisa científica era o espaço de grandes tratados e personagens icônicos. A imagem do gênio e sua descoberta que vemos até hoje por aí talvez não caiba mais na complexidade da vida contemporânea, ao menos não com a mesma qualidade que já fora um dia. Não falo isso desmerecendo os grandes nomes que já passaram na terra, apenas comentando sobre a readequação social do campo e da comunidade científica. É mister desmistificar este raciocínio do ser iluminado, como se não houvesse produção constante e historicidade nas trocas e descobertas.

Partindo deste ponto, vejamos aonde podemos chegar. As crises remodelam o mundo, e na década de 80 uma crise de saúde apareceu e ajudou a repensar os modelos de ciência, a AIDS. O advento da epidemia de AIDS, a comunidade científica operacionalizou suas ações junto a sociedade civil de uma forma interessante, enxergou a necessidade de trabalhar em conjunto com movimentos sociais, ativistas e diversos outros grupamentos. A lógica não era apenas laboratorial e a interdisciplinaridade ganhou um novo patamar e constituiu um paradigma.

A partir dos anos 80 fazer ciência implicava em reconhecer o diálogo com diversos atores sociais e as mais amplas expressões de conhecimento. Incluímos na pauta o âmbito social, sem o qual se tornaria inviável alguns avanços. Recentemente, vivemos a pandemia de COVID, e graças ao acúmulo destes estudos de método, somados a coragem de expansão de novas modelagens de pesquisas, a comunidade científica gerou um novo salto. Claro que abrimos a ressalva de que, como em qualquer relação social complexa, não podemos esconder que há no campo relações de racismo, misoginia e disputas de hegemonia e poder onde verdadeiras máquinas de pesquisa são engendradas por grandes captadores e fomentadores de recursos para pesquisas.

Quando o globo precisa se focar em segurar a pandemia, a ciência se sente obrigada a romper com alguns padrões. Um dos mais importantes que gostaria de destacar é a abertura dos dados, toneladas de dados, artigos, testes, eram abertos independente de passar por revisão de pares e publicações, a troca em rede se tornou o novo paradigma. Pela primeira vez no mundo, se viu de forma expressiva a comunidade científica trocar tamanho volume de informação em tão pouco tempo, quase que o brainstorm global de pensamento e estudo. Todos tínhamos acesso, mesmo não pesquisadores conseguiram encontrar com facilidade.

Para além disso, o tripé: política-economia-ciência precisou operar em nível global. Talvez esta tenha sido uma das maiores dificuldades, pois precisamos lidar com inúmeras disputas que iam desde a luta pela quebra de patentes até guerras políticas locais que se usavam dos resultados científicos como palanque constante. Apesar dos conflitos, creio que este seja o grande paradigma: precisamos incluir a desigualdade social como uma dimensão constante nas discussões e pesquisas. Segundo a pesquisadora Andrea Silva, “pessoas com maior nível de pobreza têm 55% maior risco de evoluir do HIV para Aids”, só para citar uma pesquisa que revela o quanto as desigualdades sociais impactam ainda hoje no cuidado de uma doença que deveria ter um tratamento universal. Podemos compor o mesmo debate quando vivemos a pandemia de COVID. Ainda hoje a África é o continente com menor taxa global de vacinação, temos 70% da população do continente não vacinada.

No Brasil, uma das maiores missões se passou na fase inicial da pandemia, quando o país mostrou o tamanho de sua vulnerabilidade: falta de saneamento e acesso a água potável e falta de condições de seguridade social para garantir períodos de lockdown demonstraram o quanto ainda estamos com o tripé político, econômico e científico desconectados.

Apesar das inúmeras mudanças algo se mantém, o desejo de se lançar ao desconhecido. Talvez essa seja a grande graça da aventura da pesquisa, quando a gente se lança ao risco do desconhecido e das incertezas para investigar e achar elementos que seguirão nos mantendo nas incertezas. Aqui me permito uma alegoria poética, olharmos para o campo da ciência como um horizonte de eventos, onde cada um de nós seja um pequeno fóton girando rumo a singularidade que nos interessa. O mais bacana é ver que, nada na ciência é possível sem uma rede global de trabalhadores e ferramentas unidos em torno da aventura.

Espero que o modelo da ciência aberta siga, cada vez mais interdisciplinar, sem ficar presa em patentes, premiações e títulos de valores e se torne um dia o paradigma de organização do pensamento e da criação humana.

Entendo que, em um mundo onde os modelos econômicos e estruturais da sociedade ainda prezam por relações de competição, individualismos, e transformação de inovações em propriedades de direito privado, outras formas de se organizar demorem a conseguir espaço. Porém, a pandemia nos mostrou com muita clareza as vantagens da ruptura dos modelos tradicionais de organização do trabalho científico.

Almejo viver num mundo onde pensar e trabalhar cientificamente seja explorar as mais inesperadas redes de colaboração, inserir o trabalho sobre o social e termos a responsabilidade de entender que os nossos resultados impactam vidas. Vimos o quanto ganhamos com isso enquanto humanidade.

Foto 51 DNA por Rosalind Franklin e foto do Buraco Negro do centro da galáxia M87 resultado do trabalho coletivo de mais de 200 pesquisadores.
Standard
artigo, pensamento, Sem categoria, territórios

Macunaíma, entre identidades e constelação.

Não sou um defensor da busca de identidades, mas sim dos agenciamentos.

Apesar de entender os caminhos pelos quais a busca de uma identidade é utilizada como instrumento de organização social e agregação, minha crítica ao tipo consiste em uma limitação que vejo acontecer por aí: a identidade, após ser definida com acúmulos de signos tende a se cristalizar num dado ponto no tempo.

Veja, boa parte das organizações humanas usou ou usa a identidade como ferramenta. Ao construir uma unidade nacional, a identidade é moldada pra se tentar criar um ser humano tipo representante daquela nação. Assim, por mais que a identidade garanta ao sujeito a estabilidade e contato com seu território (como diz Hall), ela entrava a solução em momentos de crise. Isto é, há momentos na história da vida em que a identidade precisa experimentar rupturas de seus campos seguros e lançar-se diante de um campo de forças e tensões para que algo diferente se faça.

Cristo era Judeu, e na qualidade de Judeu propõe novos parâmetros em uma terra dominada por Roma, a ruptura de Jesus com seus pontos estáveis e de solidez permitiu tanto ao judaísmo perpassar pelas ocupações Romanas, quanto ao monoteísmo cristão (e porque não também árabe) sobrepujar a visão de mundo representada pelo Panteão, este espaço que nada mais é do que uma biblioteca das muitas estruturas identitárias existentes no mundo naquela época.

O que me move são os agenciamentos, e o que quero dizer com isso? Trago aqui um Macunaíma subversivo ou subvertido. Mário de Andrade traz o personagem complexo, contraditório, numa história aberta porém que é muitas vezes traçado pelo senso comum como elemento de uma busca de identidade nacional, a busca da representação do povo brasileiro. Este traço que o senso comum reflete tem sua importância e foi necessário num dado momento histórico para o enfrentamento dos processos de apagamento social e embranquecimento deste país. Porém, Macunaíma se torna resistente e potente na medida em que revela ao Brasil que sua formação é africana, indígena, branca e repleta de muitas entradas e interfaces de luta pela vida.

Por este caminho que penso em Macunaíma. Macunaíma enquanto subversão, enquanto uma chave de agenciamentos. Macunaíma é a potência da constelação, cujo caráter se molda a luta que precisa ser travada pela vida. Um vir a ser Macunaíma é compreender que, dentro de um mesmo espectro de povo brasileiro teremos muitos devires a enfrentar, é compreender que mesmo tendo nascido numa família que não sofre as agruras do racismo você faz parte da galera que sofre com as perseguições da Polícia ao 474 (pois jovens negros da periferia não tem direito de ir a praia sem ser suspeitos de arrastão).

Devolver ao Brasil a sua cara é sermos capazes de retomar os agenciamentos, mesmo os mais contraditórios para avançarmos naquilo que é nosso sofrer comum, a ausência de direitos. E falamos aqui de direitos que só serão conquistados com enfrentamento e luta. Para lutarmos, sejamos Macunaíma em uma explosão de constelação, uma rede de agenciamentos cuja principal característica é sabermos onde estamos fluindo pelo território e sob que perspectivas.

Pois falamos de visões de mundo, de formas de entender e viver o tempo, o espaço e muitos outros caminhos e entradas possíveis. Este texto é parte de uma pesquisa apócrifa, em breve falaremos mais a respeito.

Rodrigo Bertame, rio de janeiro, 17 de setembro de 2023.

Standard
Arquitetura e Urbanismo, artigo, pensamento, política, trabalho

Sobre o trabalho do arquiteto

A crise da construção civil traz à tona o discurso de desregulamentação do salário-mínimo profissional de arquitetos e engenheiros. Entre os argumentos mais falados entre arquitetos (leiam, entre nós) sempre se citam os pequenos escritórios que não conseguem arcar com os custos empregatícios de profissionais devidamente registrados. Me aterei a esse recorte no momento.

Estes mesmos pequenos escritórios sofrem também com a tributação excessiva e com os gastos em softwares e hardwares para manter-se vivos, e isso denota uma coisa importante: a crise não é por conta do trabalhador, mas por conta da má inserção do arquiteto no universo jurídico empresarial do Brasil. Quaisquer escritórios são tratados e vistos como uma construtora ou grande empresa de consultoria e não pelo perfil do profissional liberal como médicos ou psicólogos, que podem ter seus pequenos consultórios.

Sobre o caso do trabalhador no ramo de serviços, há uma questão viável de se fazer, os arquitetos podem compor um contrato civil entre as partes e ser pagos por prestação de serviços, o que isso acarreta é basicamente uma mudança de cultura de trabalho, pois não caberia mais a cobrança por CLT e sim por serviço entregue, visto que não há vínculo empregatício.

Quanto aos tributos, este sim é o grande entrave que ninguém aparentemente quer tocar. Inventam-se meios e subterfúgios, mas a realidade é que um pequeno escritório NÃO DEVERIA SER TRIBUTADO COMO UMA GRANDE EMPRESA DO CAMPO DA CONSTRUÇÃO CIVIL. Ao que parece a reforma tributária não prevê uma mudança nisso, correndo ainda o risco de haver uma maior tributação sobre o profissional liberal e com isso uma pane no campo da profissão.

Como, diferente da engenharia, que se manteve no canteiro de obras e se fortaleceu enquanto categoria hegemônica na construção civil pesada e na indústria, os arquitetos se tornaram um item de serviço que muitas das vezes se vende pelo luxo e pela exclusividade. Isso para o mercado é um prato cheio a favor da precariedade, nós mesmos criamos um campo oferta e demanda de serviços que é muito mais de nicho social que de massa.

Somado a isso tudo ainda temos os altíssimos custos de um sistema de ferramentas que nos cabem: pacotes proprietários de softwares que cobram preços anuais astronômicos por exemplo. Todo o desenho de sistema é dado para que se crie alguns pouquíssimos grandes conglomerados de projeto. Como um campus industrial da arquitetura e urbanismo, que aglutinará projeto, gerenciamento e acompanhamento de obras. Estes subcontratarão arquitetos por pequenas demandas (encaixando legalmente na lógica de contrato civil). Com isso, a hegemonia de controle da profissão estaria completamente domesticada por meia dúzia de grandes bilionários no mundo a fora. Não é ilusório pensar nisso em um planeta onde a disputa de controle territorial é travada de forma cada vez mais severa.

Assim, retomo uma tecla que sempre bato, o que o brasileiro médio não consegue compreender é que o recorte classista da sociedade inclui ele – o pequeno profissional liberal – no balaio dos explorados, para que uma casta de grandes donos de capital consiga manter seus privilégios.

No campo ampliado da arquitetura, o projeto parece claramente o mesmo de sempre: a constituição e manutenção de um determinado grupo privilegiado que, ainda assim, sofrerá danos materiais. Estes danos serão repassados em uma manifestação contra os donos do capital do Brasil? Provavelmente não, estes irão estourar na massa de arquitetos sem sobrenome famoso no meio, sem dinheiro e contatos para ir a congressos e afins, arquitetos estes que acabarão hiper explorados ganhando salários de estagiário premium e muitos destes quietos pois sonharão que um dia pertencerão ao tal ciclo privilegiado. Porém, sem um embate real com as políticas trabalhistas vigentes, a tendencia é isso virar um ciclo vicioso de escritórios mambembes que entregam projetos e obras de pouco esmero realizados por trabalhadores hiper explorados e nada recompensados (nada muito diferente do que já acontece na educação com as escolas privadas).

Este é o charco diário na cabeça do trabalhador. Ainda somos uma categoria que se enquadra numa certa classe média brasileira, e infelizmente isso coloca as possibilidades reais de luta em uma letargia sem fim. Vamos seguir tomando prosecco no último baile da ilha fiscal enquanto o Brasil pega fogo.

Standard