Arquitetura e Urbanismo, brasil, economia, filosofia de vida, política, trabalho

Arquitetura é um colo de avó: pequenas reflexões para a prática nacional

A primeira lembrança que me atravessa quando se fala em interiores não é um catálogo de decoração, mas a casa da minha avó. Ali, a vida tinha escala de 1×1: o corpo inteiro cabia entre o bordado da capinha do gás, a máquina de costura que se transformava em carro de fórmula 1, o quintal que era ao mesmo tempo o mundo inteiro e  cantinho de acolhimento. É dessa escala íntima, olho no olho, que eu via nascer a arquitetura. A arquitetura é um colo de avó, um bolo de laranja quentinho na mesa, um sol que entra na fresta da janela.

No Brasil, a profissão foi arrastada para um dilema: somos vistos ora como luxo e supérfluo, ora como engrenagem de projetos estatais grandiosos e inacabados. No meio, fica o vazio: a vida cotidiana do povo.

Essa fratura não é apenas cultural; ela é estrutural, econômica. Em poucas décadas, deixamos de ocupar um lugar estratégico dentro do projeto nacional de desenvolvimento e passamos a ser percebidos como caros e substituíveis. A armadilha, a meu ver se aprofundou quando a profissão centralizou-se na lógica do luxo como um caminho único. E isso não é necessariamente uma crítica implacável à arquitetura de luxo, que tem seu espaço de direito na sociedade atual. 

O luxo funciona como dispositivo de status e exclusividade: molda o gosto, define o que é belo e desejável, mas apenas para uma fração ínfima da sociedade. A classe média, que em países industrializados sustenta tanto o consumo quanto a cultura material da sociedade, no Brasil nunca se consolidou plenamente. E os pobres, que são maioria, só nos enxergam quando o Estado entra em seus territórios com grandes obras, remoções ou empreendimentos de impacto praticamente autoritário. Fora disso, a figura do arquiteto desaparece de seu horizonte de vida, diferente do médico por exemplo.

Essa ausência tem consequências devastadoras. Quando o cotidiano das famílias não reconhece o arquiteto como parte de sua economia; alguém que resolve problemas espaciais urgentes, que age na escala doméstica, comunitária, de vizinhança, a profissão se isola. E quando uma categoria se isola, perde relevância social e política. É sintomático que, enquanto o país vivia a explosão de consumo de carros e imóveis nos anos 2000, embalado pela ascensão de milhões ao consumo básico, nós não conseguimos nos inserir como serviço acessível para essa massa. Continuamos restritos a dois pólos já citados: o do luxo exclusivo e o do planejamento estatal de megaprojetos. Ambos distantes da vida real.

É nesse ponto que precisamos recuperar uma lição das escalas. Há a escala da família: o sofá da avó, o banheiro que falta em tantas casas brasileiras, o quartinho inacabado do filho o espaço íntimo que define dignidade. Há a escala da comunidade: a rua onde se joga bola, a praça onde se organiza uma festa, a rede de solidariedade que sustenta bairros inteiros. E há a escala da multidão e do estatal: os fluxos da cidade, os planos que estruturam mobilidade, habitação e saúde coletiva. Claro, não são escalas fechadas, longe de mim querer atravessar a cidade por apenas três recortes possíveis, apenas simplifico para fins de dar algum inicio de pensamento sobre o tema. 

O arquiteto, ou o estudante de arquitetura precisa ser capaz de transitar entre essas dimensões, sem perder de vista que elas se conectam como sistema, como ensinavam os pensadores que viam o espaço não apenas como território físico, mas como campo de cidadania, de luta, de afetos.

Se a economia brasileira gira em torno de estratégias de mega exclusão e certa inclusão controlada para evitar grandes turbas disruptivas, a arquitetura não pode se reduzir ser apenas vitrine da exclusividade. A profissão precisa se reorganizar a partir da vida real, da urgência, daquele que não pode esperar seis meses por um projeto para então começar uma obra. Nosso trabalho tem de ser mais ágil, mais enraizado, mais próximo do cotidiano da maioria. Não se trata de reduzir a qualidade ou o rigor técnico, mas de reinventar formas de inserção econômica laboral: organizações coletivas, solidárias, mutirões, cooperativismos, abertas a novas economias de escala que vão do mutirão à assistência técnica, do microempreendimento comunitário às tecnologias sociais, da carreira de estado à arquitetura liberal de atendimento popular.

Sem uma estratégia econômica que inclua de fato o povo, não haverá campo de trabalho sustentável para a arquitetura. E sem arquitetos presentes no cotidiano popular, não haverá cidade justa. Entre o sofá da avó e os grandes planos da nação, existe uma vasta zona de vida que precisa ser ocupada, praticamente um universo de cores que se assemelha a um quadro de Pollock. É ali que a arquitetura pode recuperar sua relevância. Não como luxo, não como burocracia estatal distante, mas como prática social que desenha futuro a partir do olho no olho, da escala humana, daquilo que funda a dignidade de viver.

Para tal, temos uma missão: compreender, técnica e cientificamente, onde estamos e para onde podemos ir. Isso começa pelo gesto simples de olhar ao redor: o bairro, a rua, a casa do vizinho que precisa de um banheiro digno. Jovens arquitetos podem se organizar em coletivos, experimentar formatos de cooperativas, oferecer serviços acessíveis de assistência técnica, participar de mutirões de construção, articular-se com movimentos sociais e comunidades. Outros podem se dedicar ao setor público, disputando políticas urbanas e habitacionais de forma crítica. Há também espaço para a inovação: explorar tecnologias sociais, novos materiais e soluções sustentáveis de baixo custo.

O ponto é não esperar pela grande encomenda ou pelo concurso distante; é começar nos interstícios, nos entremeios, nos lugares que parecem pequenos, mas que são o coração da vida real. É ali que a arquitetura renasce como prática social. Não precisamos reinventar tudo de uma vez, nem sermos reféns de ferramentas. Afinal não é a ferramenta que define o arquiteto, é o arquiteto que define a ferramenta que vai utilizar. Basta iniciar os processos, criar redes e caminhar juntos. A relevância virá quando conseguirmos estar presentes na escala da família, da comunidade e da multidão, com a coragem de projetar os afetos dos mais pobres. Ou estamos presentes na escala da vida real, ou seremos apenas designers do privilégio.

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Sob os Véus de Gaza

Alaa com Nimah menos de 24 horas após seu nascimento – Cortesia de Alaa al-Nimer foto original: Aljazeera

Na madrugada de 21 de junho de 2025, o mundo acordou mais tenso. Os Estados Unidos bombardearam instalações nucleares no Irã com bombas de penetração massiva. Os alvos principais foram as estruturas de enriquecimento de urânio. Compondo uma nova encruzilhada geopolítica que ameaça empurrar o planeta para mais um ciclo de violência.

A justificativa oficial é a contenção. Impedir que o Irã desenvolva armas nucleares que, segundo os aliados israelenses, poderiam ameaçar a paz de Israel. É a lógica do ataque preventivo. Muitos israelenses, inclusive críticos de Netanyahu, apoiam essa narrativa, chamando-a de “guerra existencial”. Uma guerra, dizem, por sobrevivência.

O conflito entre Israel e Irã, e de forma mais ampla entre Israel e Palestina, revela um espelho humano desconfortável. Ali se projetam séculos de colonialismo, intervenções ocidentais mal resolvidas e narrativas cuidadosamente moldadas para justificar o injustificável. O Ocidente precisa reconhecer seu papel neste processo de limpeza étnica, ao se omitir diante das estruturas territoriais que ajudou a consolidar.

Não vejo, no horizonte próximo, uma saída nítida. Com o fim da era do petróleo e a busca global por novas fontes energéticas, o Irã precisará apostar na energia nuclear como estratégia de soberania. Por sua vez, a desconfiança do bloco formado por Israel, EUA e Europa torna impossível qualquer avanço sem tensão entre as partes. A ascensão de poderes ultraconservadores, sejam teocráticos como no Irã, parlamentares ultra-nacionalistas como em Israel ou militantes como no Hamas, transforma a guerra em condição permanente no território. Vamos explorar alguns pontos.

O argumento sionista da “guerra existencial” perde força diante da desigualdade bélica. Não é possível comparar de forma equânime os arsenais de Israel e Palestina, nem justificar como defesa, a recusa de ajuda humanitária à população de Gaza. Aqui precisamos assumir um princípio pétreo: o Ocidente se cala diante das ações de Israel, rotulando qualquer crítica como antissemitismo.  Em nome de práticas e acordos econômicos historicamente firmados, não praticam uma boa política de resolução de conflitos. Poucas nações tiveram a coragem da África do Sul em denunciar Israel na Corte Internacional por prática de genocídio. Enquanto isso, seguimos exigindo que os palestinos se comportem como bons colonizados. Se resistem, são terroristas. Se protestam, são ignorados. Se morrem, viram estatística. E pedimos uma paz etérea, sem ação.

O ataque ao Irã, mais que mera resposta a ameaças nucleares, é uma exibição de força, um recado sobre quem deseja comandar o tabuleiro. Mais uma vez, os civis pagam o preço. Em Teerã, Gaza, Tel Aviv ou Beirute, pessoas comuns só querem viver, trabalhar, criar filhos e cuidar dos seus. Mas veem seus sonhos destruídos por discursos belicistas disfarçados de patriotismo, autodefesa, ou religião e bombas que transformam suas vidas e cidades em terra arrasada.

As potências se movem com a frieza clássica das Nações. A Rússia torce pelo caos, desviando atenções da Ucrânia enquanto negocia com quem lhe interessa. A China observa, pragmática, enquanto seu fornecedor de petróleo entra em colapso. A Europa vacila. Quer paz, mas teme confrontar Washington. Quer direitos humanos, mas evita encarar seus próprios telhados de vidro.

O mundo, por sua vez, se perde num jogo maniqueísta. Uns defendem o Irã ou o Hamas, como resistência pura, outros o Ocidente Judaico Cristão, Israel e sua “necessidade” de guerra. Esquecemos que nenhum desses garante os direitos humanos nem para seus próprios povos. Precisamos romper esse ciclo. Boicotes e sanções precisam ser aplicados não apenas a Palestina ou a Israel, mas principalmente ao Hamas, Irã, EUA, Rússia, China e todos que alimentam e fazem girar uma parte da economia pela lógica da destruição.

O caminho mais difícil, porém necessário, é o reconhecimento de que nenhum povo liberta a si mesmo destruindo o outro. Assim foi no passado, antes do delírio sionista que nem todos os judeus aceitam. A vida pós-Holocausto não pode existir à custa de um novo Holocausto, seja ele palestino, curdo ou iraniano.

Para piorar, a guerra também se alimenta de discursos religiosos dogmáticos. A ideia de uma Terra Santa, o retorno do profeta, a reconstrução do templo sagrado, criam terreno fértil para o circuito global de ódio. No Brasil, líderes evangélicos como André Valadão justificam o genocídio com base em profecias. A guerra seria inevitável, parte do fim dos tempos e necessária para a volta do Messias. Como se Cristo, o mesmo pregou o amor ao próximo, precisasse do extermínio de um povo inteiro para retornar. Assim, a distopia e o apocalipse substituem a política.

Essas estruturas de poder no Oriente Médio, marcadas por patriarcado, religião e geopolítica, atingem com força especial as mulheres. A guerra, em todas as suas camadas, reforça o domínio masculino sobre o território, o poder e os corpos. Não à toa, os maiores índices de vítimas são mulheres e crianças. No Irã, avanços conquistados antes da Revolução de 1979 foram revertidos tão logo o Regime se implantou. A moral religiosa restringiu direitos, reduziu a presença feminina no mercado de trabalho e impôs submissão legal. Vale lembrar que não faz nem três anos que Mahsa Amini, uma jovem curda-iraniana foi assassinada por forças policiais tendo como crime: seu hijab não atendia aos padrões obrigatórios do governo.

Na Palestina, a condição das mulheres,  especialmente em Gaza e Cisjordânia, é ainda mais agravada pela colonização israelense e pelas práticas ideológicas conservadoras tanto do Sionismo quanto do próprio Hamas. Elas enfrentam uma dupla opressão: a violência e o controle de Israel, que restringe seus direitos básicos e perpetua práticas de apartheid, e as leis discriminatórias impostas pelo Hamas. A contradição e violência institucionalizam a desigualdade e limitam a presença das mulheres na esfera pública, embora mantenham taticamente ativas suas mobilizações de resistência. Além da baixa participação política, mulheres palestinas lidam com restrições legais à herança, ao trabalho, à mobilidade e ao próprio corpo. A falta de leis contra a violência doméstica, aliada a um sistema jurídico que marginaliza a palavra feminina, consolida um cenário de violação sistemática dos direitos humanos.

A situação em Israel também revela contradições profundas. O feminismo é incompatível com o sionismo, uma vez que este se estrutura na colonização e dominação de outro povo. A ocupação e a negação de direitos aos palestinos e a sistemática ação de limpeza étnica por meio do extermínio, inclusive realizada por mulheres soldados, evidencia um tipo de feminismo seletivo, que se mostra insustentável frente às lutas por igualdade universal.

A luta da mulher palestina se torna múltipla: ao mesmo tempo enfrenta todas as contradições internas de um sistema conservador do qual faz parte, enquanto combate e resiste diante do processo de criminalização e desumanização traçado pelo ocidente. Ao mesmo tempo, também tem de lidar com a lógica colonizadora do ocidentalismo de ajudar a suas lutas, que muitas vezes atrapalham mais que apóiam.

Porém, mesmo diante da repressão, os movimentos feministas islâmicos resistem. No Irã, por meio da educação, do ativismo jurídico e da reinterpretação do Corão. Na Palestina, mulheres atuam nas linhas de frente da resistência (ainda que não estejam nas direções políticas do Hamas), atuam em espaços comunitários, questionam normas religiosas machistas e organizam redes de solidariedade. Sob regimes autoritários, sua força continua sendo central para a transformação política e cultural no Oriente Médio.

Talvez seja hora de mudar a pergunta. Em vez de discutir que nação está certa nessa guerra, precisamos pensar no que estamos dispostos a fazer para que a guerra acabe. A vida não é sobre lados. É sobre recusar uma lógica que transforma sofrimento humano, racismo, machismo, xenofobia em ferramenta de controle de poder.

Se viver no Rio de Janeiro nos ensinou algo, foi que mais armas nunca trarão paz. Bombardear sem diálogo não desfaz o ódio. Ocupações e bloqueios não garantem segurança. É preciso inventar outro caminho. E ele só começa quando reconhecemos o valor da vida como centro de qualquer política e damos voz a quem está sendo massacrado. Parafraseando o Rappa: Paz sem voz, não é Paz, é medo, e o medo não deve ser instrumento do fazer político.

Lista de Referências interessantes:

GIL, Rafaela Herrmann. A mulher palestina e sua representatividade nos espaços de poder. 2019. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Relações Internacionais) – Universidade de Brasília, Brasília, 2019. Disponível em: https://bdm.unb.br/bitstream/10483/24494/1/2019_RafaelaHerrmannGil_tcc.pdf. Acesso em: 25 jun. 2025.

AUTOR DESCONHECIDO. Conflito entre Israel e Irã reacende debate evangélico sobre fim dos tempos. UOL, São Paulo, 25 jun. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2025/06/25/conflito-entre-israel-e-ira-reacende-debate-evangelico-sobre-fim-dos-tempos.htm. Acesso em: 25 jun. 2025.

U.S. CAMPAIGN FOR PALESTINIAN RIGHTS. Palestine is a feminist issue. [S.l.]: USCPR, s.d. Disponível em: https://uscpr.org/activist-resource/grassroots-advocacy-toolkit/palestine-is-a-feminist-issue/. Acesso em: 25 jun. 2025.

POLLITT, Katha. No, you can’t be a feminist and a Zionist. Forward, [S.l.], 31 out. 2017. Disponível em: https://forward.com/opinion/387675/no-you-cant-be-a-feminist-and-a-zionist/. Acesso em: 25 jun. 2025.

ISRAEL DEFENSE FORCES. The status of women in Gaza. [S.l.]: IDF, s.d. Disponível em: https://www.idf.il/en/mini-sites/the-hamas-terrorist-organization/the-status-of-women-in-gaza/. Acesso em: 25 jun. 2025.

COMMON DREAMS. UN: ‘Hell on Earth’ for Gaza’s children and women. [S.l.]: Common Dreams, 6 nov. 2023. Disponível em: https://www.commondreams.org/news/united-nations-gaza. Acesso em: 25 jun. 2025.

PETIT, Jérémie. L’autonomie féminine en islam chiite contemporain : l’exemple de l’Iran. Revue des mondes musulmans et de la Méditerranée, n. 143, 2018. Disponível em: https://journals.openedition.org/remmm/6971. Acesso em: 25 jun. 2025.

NORTHEASTERN UNIVERSITY. Why are women’s rights groups silent after Hamas sexual violence against women? Political leanings are to blame, experts say. CSSH News, 16 nov. 2023. Disponível em: https://cssh.northeastern.edu/why-are-womens-rights-groups-silent-after-hamas-sexual-violence-against-women-political-leanings-are-to-blame-experts-say/. Acesso em: 25 jun. 2025.

AL ARABIYA ENGLISH. Iranian woman beaten by police for not wearing hijab dies after coma. Al Arabiya, 16 set. 2022. Disponível em: https://english.alarabiya.net/News/middle-east/2022/09/16/Iranian-woman-beaten-by-police-for-not-wearing-hijab-dies-after-coma. Acesso em: 25 jun. 2025.

AL JAZEERA. Muslim women in the West in the crosshairs of Zionists, white feminists. Al Jazeera, 31 out. 2023. Disponível em: https://www.aljazeera.com/opinions/2023/10/31/muslim-women-in-the-west-in-the-crosshairs-of-zionists-white-feminists. Acesso em: 25 jun. 2025.

AL JAZEERA. Feminists need to oppose hijab bans as much as hijab mandates. Al Jazeera, 21 mar. 2023. Disponível em: https://www.aljazeera.com/opinions/2023/3/21/feminists-need-to-oppose-hijab-bans-as-much-as-hijab-mandates. Acesso em: 25 jun. 2025.

SILVA, Renata Corrêa da. A morte de mulheres palestinas e o silêncio das feministas e da academia. Jornal da USP, 29 nov. 2023. Disponível em: https://jornal.usp.br/artigos/a-morte-de-mulheres-palestinas-e-o-silencio-das-feministas-e-da-academia/. Acesso em: 25 jun. 2025.

Referências de instagram:

Irã

  1. Faravaz Farvardin – artista e cantora – @faravazmusic
  2. Masih Alinejad – jornalista e ativista exilada – @masih.alinejad
  3. Reihane Taravati – fotógrafa e videomaker – @reihanetstudio
  4. Nesa Azadikhah – DJ e produtora musical – @nesaazadikhah
  5. Farnaz Abdoli – estilista e designer de moda – @farnazabdoli
  6. Shirin Heidari – modelo e ativista – @shirinshirinak
  7. Elaine Chaya – influenciadora iraniano-americana – @elainechaya

Israel

  1. Hagit Ofran – ativista do Peace Now – @hagitofran (X/Twitter)
  2. Yael Mellul – advogada e ativista feminista – @mellul_yael
  3. +972 Magazine – coletivo jornalístico crítico à ocupação – @972mag

Palestina

  1. Palestinian Feminist Collective – coletivo feminista da diáspora palestina – @palestinianfeministcollective
  2. Bisan Owda – jornalista e ativista em Gaza – @wizard_bisan1
  3. Renad Attallah – influenciadora juvenil de Gaza – @renadfromgaza
  4. Malak Mattar – artista visual de Gaza – @malakmattarart
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O mundo precisa reaprender a dialogar

Vivemos tempos estranhos. Enquanto as redes sociais gritam, os mercados oscilam e as potências se encaram, parece faltar algo básico na política: a capacidade de ouvir, entender e negociar. A era Trump, com sua retórica agressiva e decisões impulsivas, expõe uma fragilidade maior; a de um mundo que paulatinamente tem perdido seus mecanismos de mediação.

A Europa, nesse cenário, parece ter ficado sem rumo. Diante das pressões americanas e do avanço econômico da China, suas reações foram, muitas vezes, descoordenadas e marcadas por políticas internas que mais enclausuram e desunem do que somam. O economista Yanis Varoufakis aponta isso com lucidez: a Europa está se tornando um apêndice hesitante de um império em declínio. E o pior é que faz isso sem um plano próprio, sem coragem de assumir um papel autônomo na discussão global.

Mas o que significaria, hoje, retomar um projeto coletivo? Talvez não seja tão complexo quanto parece. Não se trata de criar novas alianças para enfrentar inimigos, mas de reinventar os modos de convivência globais. Abandonar tarifas que não servem a ninguém. Investir conjuntamente em tecnologia e sustentabilidade. Fortalecer laços com países que também buscam um lugar mais justo na engrenagem global. E, acima de tudo, recuperar a capacidade da mediação e da negociação. Essa arte, que em tempos de polaridades exacerbadas e guerras, parece tão esquecida, de construir acordos a partir de interesses compartilhados.

Quando diferentes interesses são colocados à mesa, a mediação busca justamente aquilo que, à primeira vista, parece impossível: transformar conflito em oportunidade. Para isso, é preciso mais do que diplomacia formal. É necessário método, é isso que separa a mediação do romantismo. Reconhecer os próprios limites, abrir mão de posições rígidas e aceitar que o outro também tem razões legítimas. Essa é uma arte rara, especialmente em tempos de egos inflados, disputas sangrentas de poder e nacionalismos exacerbados.

Em vez de disputas baseadas em força ou prestígio, os acordos bem-sucedidos tendem a se apoiar em algo mais sutil: o reconhecimento de que há um ganho possível para todos, ainda que não seja o ganho pleno. Parcerias econômicas, intercâmbios tecnológicos, cooperação climática, tudo isso exige uma mudança de postura, em que algum grau de interesse comum se sobreponha à vaidade  da disputa distópica da geopolítica. A Europa, por exemplo, poderia negociar diretamente com a China em torno de tecnologias verdes, não como quem desafia os EUA, mas como quem constroi pontes a partir de necessidades mútuas.

Essas negociações não se constroem em conferências relâmpago, mas em processos contínuos de escuta e operação conjunta. Elas exigem paciência, linguagem precisa e disposição para lidar com desacordos sem transformar tudo em guerra. É aí que a mediação se revela mais do que uma técnica: torna-se um modo de estar no mundo. Um modo de afirmar que, apesar das diferenças, ainda podemos e devemos construir futuros compartilhados.

É possível imaginar um mundo menos polarizado, se houver disposição para cooperar em vez de competir o tempo todo. A mediação, quando levada a sério, não é fraqueza: é maturidade política. É reconhecer que ninguém sobrevive sozinho em tempos de transição climática, crise econômica e tensões geopolíticas. Para a Europa, o convite está feito: em vez de seguir reagindo, pode escolher atuar. Não com gritos, mas com inteligência.

Talvez o que esteja em jogo não seja apenas uma disputa entre potências, mas a chance real de redesenhar as bases do sistema. As teorias da complexidade nos mostram que sistemas vivos, inclusive os sociais e econômicos, não operam bem sob controle centralizado e previsões lineares. Eles evoluem a partir da interação de múltiplos agentes, da cooperação descentralizada e de adaptação constante. Nesse sentido, o futuro não precisa repetir os impérios do passado: pode emergir como uma constelação de economias interdependentes, plurais, distribuídas, sem centros fixos, sem moedas únicas que arrastem nações inteiras para ciclos de dependência.

Uma economia global pensada a partir dessa lógica complexa não precisaria se apoiar em um único lastro, como o dólar, nem aceitar como naturais as atuais hierarquias de valor e poder. Poderia, ao contrário, reconhecer a diversidade de soluções locais, fomentar moedas complementares, redes de trocas descentralizadas, circuitos cooperativos de produção e alianças tecnológicas orientadas pelo bem comum. Em vez de mercados auto-regulados à moda antiga, teríamos ecossistemas econômicos interligados por princípios de equidade, sustentabilidade e solidariedade. A mediação, nesse novo mundo, deixa de ser um mero instrumento de conciliação entre velhos blocos, para se tornar um modo de cultivar a inteligência coletiva capaz de sustentar essa ordem viva e interdependente.

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Governança em Metrópoles: O Rio de Janeiro e uma Transição Possível para Redes Distribuídas

Este texto propõe uma pequena análise ensaística ou de opinião sobre a crise institucional enfrentada por metrópoles contemporâneas, com especial atenção ao caso do Rio de Janeiro. A partir das discussões em aula realizada no curso A inteligência do espaço-tempo e o stress global e da teoria desenvolvida por Robin Dunbar que fora citada, sugere-se aqui uma pequena reflexão acerca dos limites cognitivos e organizacionais que moldam a governança urbana. Ainda que não se trate de um modelo absoluto, a teoria de Dunbar oferece um ponto de partida relevante para pensarmos os desafios atuais de gestão em cidades de grande porte.

Robin Dunbar, antropólogo britânico, propôs que existe um número máximo de relações sociais estáveis que um indivíduo é capaz de manter é de aproximadamente 150 pessoas. Conhecido como “número de Dunbar”, esse limite marca o ponto em que formas de organização social baseadas apenas em vínculos informais e confiança direta tornam-se inviáveis. A partir desse ponto, a complexidade social crescente demandaria a construção de instituições formais para manter a coesão e a funcionalidade do grupo. Mesmo que não tomemos esse número como exato, ele nos permite levantar uma questão fundamental: todo sistema organizacional possui um limiar a partir do qual precisa se tornar mais sofisticado para manter sua capacidade de governança.

Assim, podemos sugerir que tais instituições formais atualmente conhecidas por nós também enfrentam limites operacionais. Diversos estudiosos apontam que, em populações acima de 1 a 10 milhões de habitantes, os custos de manutenção institucional tendem a superar os benefícios, gerando ineficiência, sobrecarga burocrática e vulnerabilidades estruturais. Nesse ponto, os sistemas entram em risco de disfunção, colapso ou rupturas sistêmicas.

Essa problemática se torna plausível no contexto do Rio de Janeiro. Com uma região metropolitana que ultrapassa os 13 milhões de habitantes, a cidade opera em um grau de complexidade que supera a capacidade adaptativa de suas instituições centralizadas, construídas sob lógicas administrativas do século XX. A excessiva centralização do poder decisório, aliada à fragmentação territorial, à assimetria de informações e à lentidão das respostas institucionais, compromete a eficácia das políticas públicas e alimenta uma crise permanente de governança.

Nas periferias urbanas, como favelas e comunidades autogeridas, observa-se a formação de sistemas sociais quase autônomos, ou dominados por outras estruturas de poder, muitas vezes desconectados ou mesmo em confronto com os canais formais de poder consituído. Esses territórios, diante da ausência do Estado ou de sua atuação precária, tornam-se espaços disputados por múltiplos atores, legais ou não, que passam a exercer formas locais de governança mais ágeis e eficientes em seu escopo limitado. A perda gradual de controle institucional sobre o território fluminense reflete, assim, tanto a falência administrativa, como um descompasso entre o desenho das instituições e a complexidade do tecido social contemporâneo.

Redes distribuídas como alternativa estrutural

A ciência dos sistemas complexos nos oferece uma alternativa teórica e prática a esse modelo centralizado. Inspirada em estruturas biológicas e tecnológicas informacionais, ela propõe a reorganização da governança em redes distribuídas, sistemas com múltiplos centros de decisão, autônomos, interconectados por fluxos contínuos de informação e orientados por protocolos colaborativos.

Essa proposta poderia ser sintetizada em três linhas (a princípio):

  1. Descentralização inteligente: por meio da criação de núcleos decisórios com autonomia territorial, como subprefeituras, associações locais e redes comunitárias. Esses núcleos seriam capazes de deliberar sobre questões específicas de seu território, comunicando suas decisões ao sistema mais amplo, sem a necessidade de submissão hierárquica. A descentralização, neste modelo, não implicaria a atual fragmentação vigente, mas uma reconfiguração organizativa a partir das redes.
  2. Inteligência coletiva: com o uso de plataformas digitais participativas para elaboração, monitoramento e fiscalização de políticas públicas. Esses espaços virtuais podem funcionar como canais de escuta contínua e construção colaborativa, onde a população contribui de maneira orgânica e descentralizada. A tecnologia atual já nos permite sistematizar essas contribuições de forma eficiente, acelerando os processos pré-deliberativos e fortalecendo a legitimidade popular das decisões.
  3. Adaptação em tempo real: a partir da incorporação de dados urbanos, sensores, algoritmos e inteligência artificial, é possível monitorar dinâmicas territoriais e redistribuir recursos públicos de forma responsiva e eficaz, acompanhando as variações reais da demanda nos diferentes bairros e regiões da metrópole. Um exemplo simples: uma mesma linha de ônibus poderia traçar uma rota diferente em determinados períodos como: dia e madrugada, em função do levantamento de demanda.

No caso do Rio de Janeiro, a adoção de um modelo de rede distribuída implicaria na reconversão de suas instituições executivas: elas deixariam de ser instâncias de comando centralizado tradicionais e passariam a funcionar como plataformas de articulação entre diferentes territórios. A administração pública atuaria como orquestradora de uma malha de redes locais, reconhecendo, fortalecendo e conectando as capacidades já existentes nas bases comunitárias. Iniciativas que hoje são tratadas como exceções ou soluções paliativas ou vozes retificadoras das políticas pensadas pelos poderes constituídos, como associações de moradores, mutirões urbanos e coletivos culturais, passariam a integrar a estrutura legítima de governança metropolitana como verdadeiras construtoras das políticas estruturantes da cidade.

O Rio de Janeiro encontra-se em um ponto crítico de inflexão. A insistência em modelos centralizados diante da complexidade crescente da metrópole não apenas limita a eficácia administrativa, como também representa uma ameaça à própria coesão urbana, cada vez mais frágil e tensionada pelos inúmeros poderes paralelos que conformam nosso território. A transição para uma governança distribuída, orientada pelos princípios da ciência dos sistemas complexos pode ser uma boa alternativa de saída. Ela oferece uma oportunidade para ressignificar o papel do Estado, potencializar o protagonismo cidadão e construir uma cidade mais adaptativa e democrática.

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Estatal, Público, Privado e Comum

Falemos um pouco sobre os conceitos de estatal, público, privado e comum. Muitas vezes soam embaralhados no debate político e no circuito popular. É muito corriqueiro pensarmos o sistema estatal e o sistema público por exemplo como a mesma coisa, coisa de governo. Esse tipo de confusão acaba por esconder disputas de poder e visões diferentes, principalmente, sobre quem deve gerir o que é de todos e como deve ser gerido.

Estatal é tudo aquilo que pertence diretamente ao Estado. São bens e instituições geridas pelo poder público, com autoridade centralizada. Público, em sentido mais amplo, é aquilo que existe para uso e benefício de todos, independentemente de ser estatal ou não. Aqui está um sombreamento corriqueiro. Muitas vezes entendemos um bem estatal como um bem público. Ainda que seu produto final seja deste caráter específico, sua gestão não necessariamente é. Decisões de gestão da Petrobrás, por exemplo, não precisam de audiência pública aberta a todos os cidadãos brasileiros para acontecer.

O privado por sua vez, é mais simples de entender: aquilo que é de propriedade de indivíduos ou empresas, voltado para interesses particulares, ainda que sob regulação pública. É no campo privado que florescem a autonomia, o empreendedorismo e, ao mesmo tempo, as desigualdades.

Além destes, vou retomar aqui o conceito de comum, trazido por Antonio Negri. O comum não seria nem estatal, nem público nos moldes tradicionais. Sua principal distinção está no fato de que ele emerge da própria colaboração social. Ele é um modo de organização mais horizontalizado por natureza. Conhecimentos compartilhados, redes de solidariedade, práticas coletivas que não dependem do Estado nem de interesses privados. O comum é um espaço de invenção social e resistência.

Há um modelo que deva ser hegemônico? A meu ver não, cada modelo responde a um conjunto específico de necessidades sociais e pode ser operado de forma estratégica a partir da complexidade. Talvez o maior erro da gestão global, desde a revolução industrial, tenha sido a tentativa de impor um modelo hegemônico e referência paradigmática.

Simplificando: nem a estatização de todo o sistema econômico, como pregado por algumas tradições políticas de esquerda e nem o enxugamento ou fim da máquina estatal como pregado por inúmeros discursos neoliberais e capitalistas, resolverão o sistema. No meu modo de pensar: Há bens, instituições e serviços que precisam de uma gestão pública, há os que precisam de uma gestão estatal, há os que funcionam melhor no sistema privado e ainda há aqueles que funcionam muito melhor na organização pelo comum.

As confusões realmente começam quando os limites entre esses conceitos se tornam turvos. Uma escola pública, estatal em estrutura, deveria servir ao interesse público, mas quantas vezes vemos interesses privados infiltrados em sua gestão? Quantas vezes o Estado administra mal o que é público, esvaziando o sentido coletivo do bem? Ao mesmo tempo, quantas vezes uma corporação privada se utiliza de recurso e privilégio público e estatal para conseguir lucro ou benefícios?

Fora outros espectros de sombreamento. Organizações sociais que prestam serviços de saúde com verbas públicas, mas operam com gestão privada; empresas estatais que agem como corporação privada no mercado internacional; espaços públicos privatizados sob concessão. O mercado tenta se apropriar dos privilégios e benefícios do que é público; o Estado tenta governar o que poderia ser comum; o comum se perde sendo cooptado pelo Estado ou pelo mercado.

Entender essas distinções é um ato político. Saber onde termina o interesse público e começa o interesse privado é fundamental para defender direitos, garantir justiça social e reinventar novas formas de vida. Um bom desafio para o nosso tempo seria justamente este: resgatar o comum como um campo vivo de liberdade coletiva e reorganizar o projeto de nação espacializando melhor o que deve ser gerido de forma estatal, de forma pública, de forma comum e o que pode ser mercado.

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Superposição do colapso – tarifas, algoritmos e alternativas do Sul

Hoje falamos muito em algoritmos, mas  lembro de quando tudo era quântico: palestras, filmes, conceitos, literatura. Saber física quântica parecia sinônimo de vida intelectual, mesmo que a gente entendesse pouco do que de fato estava falando, até hoje não sei se o gato de Schrödinger estava vivo ou morto, na verdade sequer sei escrever Schrödinger sem consultar o Google. Vivemos num mundo em que cada decisão parece conter todas as decisões possíveis, até que uma escolha se imponha ou um colapso ocorra. Aquilo que me soa como um labirinto borgeano, a física chamaria de superposição quântica. 

Se não fosse o algoritmo do Google, talvez eu nem soubesse que hoje é dia de celebrar esses conceitos. Na vida prática, chamamos isso de incerteza. Mas, ao contrário do mundo subatômico, nossos dilemas não colapsam por leis naturais, são empurrados por interesses, movidos por algoritmos e tensionados por forças geopolíticas.

A recente decisão de Donald Trump em retomar tarifas contra a China, a meu ver, não revela um equívoco ou protecionismo antiquado. Considero que se trata mais de uma ação de guerra de poder e medo. A guerra tarifária, por sua vez, é só um sintoma de algo mais profundo: a incapacidade dos antigos centros de poder de sustentar a ficção de crescimento contínuo num planeta exaurido, hiperconectado e radicalmente desigual. 

Trump, ao colocar em xeque a confiança no dólar, expõe o esgotamento de uma ordem que ainda se sustenta pela inércia. Enquanto a Casa Branca tenta manipular a bola do jogo a seu favor, Wall Street já precifica a estagnação e o capital global pressente a necessidade de reorganizar seu campo (ou as regras, ou a bola), talvez além do dólar.

Quando o sistema produtivo global ganha autonomia, o centro perde o comando da engrenagem. A China, com sua força produtiva e avanço tecnológico, representa uma ameaça real ao modelo ocidental, não só econômica, mas também política. Talvez por isso, os EUA imponham além de tarifas, barreiras diplomáticas, tecnológicas e militares. Além da China, outras referências surgem do Oriente. Uma explosão de subjetividades que deixou de ser exótica ou folclórica descentralizam a hegemonia do entretenimento americano. O BTS substituiu o N’SYNC; antes deles, o fenômeno Gangnam Style já sinalizava um entretenimento internacional com identidade própria. Nada disso foi acaso. Trata-se de um projeto nacional estratégico da Coreia do Sul.

Nesse ponto, a tentativa americana de restaurar seu domínio por meio de tarifas escancara uma certa impotência atual, quase como uma última cartada da vida. Tarifas não reconstroem cadeias produtivas, não requalificam trabalhadores, não recupera subjetividades e tampouco geram inovação orgânica. No máximo, adiam a implosão de um modelo insustentável. Ao fazer isso, alimentam tensões globais, inflamam nacionalismos econômicos e aprofundam desigualdades. Trump aposta alto, um lance que pode não ter volta.

O colapso da superposição quântica está em curso. Tarifas, algoritmos  e acordos comerciais disputam quem vai conduzir o novo ciclo. Mas talvez o caminho não seja escolher uma trilha dominante. Talvez seja hora de aprendermos com as margens, com as economias informais, com a inteligência prática de quem sempre viveu fora da lógica centralizada. Até porque, mesmo em uma reestruturação do capital, ainda seremos margem. 

Em meio à guerra tarifária, precisamos desenhar uma racionalidade econômica que não dependa dos conflitos comerciais atuais, nem da volatilidade financeira. Uma economia que funcione mesmo sem PIBs exuberantes, porque se ancora em vínculos reais e não em promessas especulativas. Uma economia, onde o novo lastro possa ser gerado pela partilha, como num belo sistema P2P de compartilhamento de dados.

No Brasil, cooperativas agroecológicas enfrentam o agronegócio exportador. No Senegal, startups solares descentralizam o acesso à energia. Na Índia, o sistema público de saúde convive com inovação tecnológica. Essas experiências não prometem utopias, são tentativas práticas de uma nova forma de viver e produzir.

Assim, o Sul Global observa e age. Experimenta soluções locais, modelos híbridos de produção e redes descentralizadas de troca. A reorganização do capital que nos favorece não virá de Davos. O que parece hoje disperso e marginal pode se tornar central, num mundo em que as velhas engrenagens emperram. Centralidade que nasce das bordas, dos territórios sempre negligenciados que agora, aos poucos, cultivam autonomia.

Nosso desafio é abandonar o olhar exótico e reconhecer essas experiências como fundamentos de outra ordem econômica. Uma construção que redesenhe o sentido de valor: não mais centrado no dólar, mas ancorado em novos ativos, como a floresta em pé, a energia limpa, o saber tradicional, para além de  resistir, é hora de propor. De formar pactos sustentáveis entre os excluídos de ontem, para que sejam os arquitetos do amanhã.

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O Tempo Entre os Mundos


O tempo é um elemento estruturante da vida humana e da forma como organizamos a existência. Entre cronômetros e algoritmos, a sociedade moderna se desenvolveu sob a primazia de um tempo linear, homogêneo e quantitativo, uma abstração herdada do Iluminismo e potencializada pela Revolução Industrial. Entretanto, este modelo não esgota a compreensão sobre o tempo e suas possibilidades. Ao redor do mundo, epistemologias indígenas, cosmologias africanas e saberes populares oferecem alternativas à temporalidade hegemônica, propondo formas de viver que entrelaçam passado, presente e futuro de maneira mais orgânica e integrada.


O conceito de aceleração social, demonstra como a modernidade tardia impõe ritmos insustentáveis de trabalho e consumo, fragmentam a experiência da vida e comprometem a profundidade das relações humanas. Boaventura de Sousa Santos nos traz as epistemologias do Sul, aponta a necessidade de resgatar e articular saberes ancestrais que operam em temporalidades alternativas, não subordinadas à lógica produtivista.
Diferentes sociedades tradicionais estruturam o tempo de maneira não-linear.

Povos originários das Américas, como os Krenak, veem o tempo como um fluxo cíclico onde a relação entre humanos, natureza e cosmos não está sujeita à ditadura da urgência. Tradições iorubá remetem a flexibilidade do tempo,onde passados não estão encerrados e futuros são constantemente atualizados pelas ações no presente. Esses sistemas desafiam o tempo ocidental e apontam para modos de existir que valorizam a continuidade e a coexistência na Terra.


Para construir um futuro que equilibre os saberes tradicionais com a produção contemporânea da vida, precisaremos repensar os modelos de desenvolvimento. O paradigma da “desaceleração” tem ganhado força em movimentos como o decrescimento econômico, que propõe uma relação mais harmônica com os recursos naturais e com os ritmos da vida. Práticas como a agroecologia, organizadas nos calendários naturais dos povos campesinos, a arquitetura vernacular, que respeita os ciclos materiais dos territórios, são boas formas de viver, respeitam e dialogam com as diferentes temporalidades


A degustação do tempo não é um exercício romântico de retorno ao passado, mas sim um esforço de articulação entre as possibilidades que os avanços técnicos proporcionam e a sabedoria acumulada que por milênios nos capacitam. O futuro pode ser um espaço onde o tempo não seja um senhor impiedoso, cronos que tudo devora, mas um aliado na construção de um mundo mais habitável e justo.
Tomo um café com sabor de café, leio um livro, escrevo cartas a mão. Redesenho meu passeio pela teia do tempo dentro do cotidiano. Saboreio a fumaça que sai do copo e o desgaste do grafite no risco.

Lembro-me de Gana, onde o tempo do dia se iniciava com o bater da massa do Banku. Um som que ecoava por todo o país e dava um ritmo, o som do alimento de uma nação. O trabalho vivo de produção do próprio alimento dava o ritmo, o tom, demarcação do tempo.

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Notre-Dame: o tempo, a revolução e o modismo

Pensamentos da leitura de Notre Dame de Paris.

Victor Hugo, em Notre Dame de Paris, apresenta uma reflexão original ao identificar três lesões que marcam a arquitetura: o tempo, a revolução e o modismo, ironicamente considerando a última a mais agressiva. Em sua visão, a arquitetura medieval não é apenas um vestígio do passado, mas um símbolo vivo da identidade cultural. Ele denuncia a efemeridade dos modismos arquitetônicos e critica a destruição do patrimônio histórico em nome da modernização.

Notre Dame é lida por nós como resistência da história francesa, um monumento de continuidade. O autor preserva a memória da catedral e levanta uma reflexão sobre o impacto da ação humana no curso da história e na formação das sociedades futuras. Ele nos convida a perceber o tempo de maneira cíclica, onde a narrativa do romance, embora situada no século XV, carrega a marca da Revolução de 1830. A cidade de Paris, aos olhos de Victor Hugo, é um organismo vivo e em constante transformação.

A catedral não é apenas um cenário, mas um personagem ativo na história. A Paris de Victor Hugo se veste de memória e transitoriedade, construída a partir da vivência das pessoas que a habitaram. O autor descreve Notre Dame com uma devoção quase mística:

Victor Hugo vê na arquitetura gótica uma expressão da arte coletiva do povo, diz ele:

Diferente do renascimento e do neoclassicismo, o gótico surge em sua obra como uma manifestação periférica, uma estética de resistência contra os estilos elitistas e dominantes do seu tempo. O gótico, segundo o autor, propõe uma transição contínua, onde o passado é constantemente ressignificado pelas transformações humanas e a arquitetura é a escritura social desta história, diz ele:

A relação de Victor Hugo com Notre-Dame é profundamente afetiva e simbólica. Ele a vê como um marco da identidade francesa, um testemunho do gênio coletivo e da história de seu povo. Sua defesa contra os demolidores é também uma luta perene e atemporal contra o esquecimento e a padronização impostas pela modernidade. Ele parece lamentar que a cidade medieval possuísse uma unidade estética singular, enquanto a modernização fragmenta Paris em estilos desconectados. Esse olhar sobre o patrimônio também carrega uma crítica à política de apagamento que permite a destruição de edifícios históricos sob o pretexto do progresso.

Assim, em Notre Dame de Paris, Victor Hugo não descreve a arquitetura apenas como um traço físico da cidade, mas como um reflexo das transformações sociais e culturais. O desaparecimento de elementos arquitetônicos, como a escadaria que foi demolida ou ornamentos destruídos durante revoluções, simboliza essa luta entre o passado e o presente. Ele faz referência ao impacto de mudanças tecnológicas, como a substituição do arco pleno pelo arco ogival, introduzido a partir das Cruzadas.

Além de símbolo arquitetônico, Notre-Dame é um espelho da exclusão social. Os personagens principais expressam essa marginalização. Quasímodo, o sineiro corcunda e surdo, cresce na solidão das pedras góticas e encontra na catedral seu único refúgio. Esmeralda, cigana, carrega em si a beleza e o exotismo que fascinam e amedrontam a sociedade, tornando-se vítima do preconceito e da intolerância. Claude Frollo, o arquidiácono, representa a degradação moral e o fanatismo religioso. Gringoire, o poeta errante, oscila entre a intelectualidade e a miséria, sem nunca pertencer a lugar algum.

A catedral, imponente, abriga e condena. Para Quasímodo, Notre-Dame é um útero de pedra, um lar e uma prisão, um monumento de sombra e silêncio. Esmeralda busca refúgio, mas descobre que nem mesmo as paredes sagradas podem salvá-la da violência do mundo exterior. A praça pública, por sua vez, encarna a brutalidade da multidão. É ali que Quasímodo é açoitado e ridicularizado, que Esmeralda é condenada e que a justiça se manifesta como espetáculo sangrento.

A cidade medieval de Paris, com suas ruas tortuosas e becos marginais, é um labirinto onde aqueles que não se encaixam são condenados à sombra. A arquitetura e a sociedade se entrelaçam: Notre-Dame, a catedral-santuário corrompida, a praça-palco de julgamentos, e a cidade-organismo que exclui os párias sociais.

Hoje, Notre-Dame é reverenciada mundialmente, um amor que Victor Hugo ajudou a ensinar capítulo por capítulo. Ao ressaltar a beleza de um mundo esquecido e marginalizado, ele nos convida a olhar Paris através dos olhos dos corcundas, ciganos e miseráveis, que, à sua maneira, também são belos. 

Notre-Dame: Um Dispositivo Para a Arquitetura

A leitura de Notre-Dame de Paris nos oferece uma boa lente crítica para enxergar a arquitetura como um espaço de disputa política e social. Victor Hugo denuncia a destruição da memória coletiva em nome do progresso imposto por elites dominantes, algo que ressoa fortemente com a luta contra a gentrificação e a especulação imobiliária nas periferias urbanas. 

A defesa do gótico como expressão de uma arte popular e coletiva sugere um modelo alternativo ao academicismo e às imposições estéticas da elite, abrindo caminho para uma arquitetura enraizada nas necessidades reais do povo, que seja capaz de enxergar a beleza na “feiúra”. Ao reivindicar a preservação de Notre-Dame como um ato de resistência e nos apresentar uma vida urbana a partir do povo marginalizado, podemos traçar um paralelo de vida e conceber no urbanismo popular, uma forma de contestação, buscando construir cidades mais inclusivas que respeitem a história e vivência dos seus habitantes. Como construir cidades que abracem nossos Quasimodos e Esmeraldas? Esse é um desafio.

Para o arquiteto periférico, a obra de Victor Hugo pode ser uma referência para pensar projetos que desafiem a lógica excludente do urbanismo burguês, promovendo espaços de pertencimento e dignidade para aqueles que historicamente são deixados à margem. A catedral gótica, com sua resistência ao tempo e à destruição, é um símbolo de luta: da mesma forma que Victor Hugo lutou pela preservação do patrimônio histórico, os arquitetos podem lutar pelo direito à cidade, no seu aspecto físico e subjetivo, lutar pelo direito à beleza, garantindo que a memória e o pertencimento comunitário dos territórios populares não sejam apagadas pelo avanço da especulação e das políticas de segregação urbana.

Esse texto não seria possível sem duas leituras fundamentais: a própria obra de Victor Hugo, leitura que ainda segue em curso e pode produzir mais texto em breve, e uma tese interessante intitulado “O tempo que devora: história e revolução em Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo” de autoria de Jefferson Cano (que pode ser lido aqui).

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Jovens Arquitetos e Futuro

Os jovens de hoje cresceram conectados. Acostumados com redes sociais, fóruns online, plataformas digitais e games em rede, pertencem a um mundo repleto de ferramentas que permitem organizar ações de forma rápida e articulações horizontalizadas. A arquitetura no entanto, ainda opera sob dinâmicas de mercado saturado , elitizado e atravessado por desigualdades estruturais. Recessão, machismo estrutural , desvalorização profissional e classismo são alguns dos enfrentamentos cotidianos de quem se forma no país.

Atualmente, o Brasil conta com mais de 200 mil arquitetos e urbanistas registrados no CAU/BR. Apesar desse crescimento, a falta de investimentos públicos e privados no setor da construção civil e a crise imobiliária, ausência de industrialização e de um plano nacional de habitação colocou a categoria e na verdade todo o campo da construção civil em um limbo. Cerca de 60% dos arquitetos brasileiros trabalham de forma autônoma , a maioria, enfrentando precarização e instabilidade. Para as mulheres, que representam a maioria entre os formados, a realidade é ainda mais árdua: desigualdade salarial , assédio e invisibilização profissional fazem parte do cotidiano. Em um mercado altamente elitizado, muitos desistem da carreira, migrando para áreas correlatas ou aceitando condições de trabalho precarizadas em qualquer área pra sobreviver.

Quando estudante, lembro-me de algumas táticas. Sem dinheiro para conhecer o mundo, desbravei-o nas bibliotecas da FAU. Lia em todos os meus tempos vagos, revistas, livros, artigos, teses. Porém não falarei sobre isso agora. Para este texto vou citar 3 documentos que me auxiliaram na auto-organização: o livro Manual do Arquiteto Descalço (aqui); o documento da FNA, na época da gestão Jeferson se não me engano, Manual de Defesa Pessoal do Jovem Arquiteto e Urbanista (aqui), e mais atualmente a Cartilha T.A.B.A. Trabalhadores Articulados em Benefício da Arquitetura (aqui).

A verdade dura é: minha geração já não via muito futuro na profissão, pois a forma estruturante dela é para poucos terem sucesso.

Apesar das enormes dificuldades deste porvir, os jovens de hoje têm à disposição ferramentas e práticas que podem revolucionar o campo da arquitetura, na verdade do trabalho. Redes sociais e plataformas digitais como Discord, Instagram e TikTok já estão sendo utilizadas para criar comunidades de troca e apoio . Diferentemente da minha geração, que utiliza essas ferramentas de forma mais expositiva, os mais jovens constroem nichos e espaços de diálogo muito próprios que desafiam a lógica tradicional. Para além do entretenimento, o que precisamos é otimizar estas ferramentas para articulação. 

Jovens Arquitetos podem utilizar esses espaços para compartilhar oportunidades de trabalho, oferecer ajuda técnica e podem divulgar projetos colaborativos em redes de interesse mútuo ou complementar. Um exemplo inspirador no Brasil é a rede Arquitetos pela Moradia , que conecta e articula profissionais e estudantes interessados ​​em Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS) . O grupo promove debates sobre políticas habitacionais, divulga editais e cursos, e fomenta projetos que impactam comunidades locais.

No âmbito internacional, iniciativas como o Open Architecture Collaborative (nascido do Architecture for Humanity), nos Estados Unidos, demonstram o poder do trabalho coletivo. Esse grupo cria projetos de impacto social em áreas vulneráveis, promovendo soluções de habitação e infraestrutura. Na Colômbia, o MU Micro Urbanismo em Bogotá realiza intervenções urbanas táticas em comunidades periféricas, promovendo a transformação de espaços públicos negligenciados.

Esses exemplos mostram que, em contextos de crise, a organização coletiva pode ser uma ferramenta poderosa de transformação econômica e social. No Brasil, movimentos autogeridos como mutirões, cooperativas, coletivos culturais e coletivos de assistência técnica e melhorias habitacionais, assim como coletivos de jovens arquitetos realizando diversas entradas de trabalho e experimentações podem propor um novo paradigma para a arquitetura.

Táticas de Ação: Como Começamos um Coletivo de Arquitetura?

  1. Forme o Grupo
    • Identifique colegas com interesses em comum. Um coletivo pequeno e bem alinhado é mais eficaz do que grupos dispersos. Não precisam ser necessariamente arquitetos.
  2. Organizar Grupos de Estudo
    • Utilize bibliotecas públicas, materiais online e promova rodas de debate. Estude além da sala de aula para entender como aplicar o conhecimento na realidade local.
  3. Crie uma Rede Digital
    • Use plataformas como Discord, telegram ou WhatsApp para organizar canais dedicados a oportunidades de trabalho, compartilhamento de materiais e discussões sobre temas de interesse global e local: justiça ambiental, urbanismo sustentável, crise climática e assistência técnica, por exemplo.
    • Um coletivo deve possuir uma agenda ativa de ações. Rodas de conversa, grupos de estudo, cineclubismo, oficinas de experimentação e projetos utópicos, estudos de estética, estudos políticos, entre outros.
  4. Mapeie Demandas Locais
    • Identificar espaços públicos ou habitacionais que necessitem de intervenção. Use ferramentas como o Google Earth para mapear condições e criar um portfólio. Conheça sua vizinhança, caminhe e identifique os problemas, produza documentos pessoais, compreenda a economia que gira em torno da construção de uma casa popular periférica.
  5. Busque Apoio e Financiamento
    • Articule-se para, quando apresentar o portfólio e a proposta de impacto social do coletivo, ter capacidade de pleitear recursos.
    • Auxiliar ONGs, Cooperativas, associações de moradores ou coletivos a realizar ações de melhorias. Disputar editais, organizar-se para acompanhar metodologicamente os instrumentos de fomento, assim como captar recursos via ferramentas de doação colaborativa. 
  6. Realize Projetos Colaborativos
    • Comece pequeno: revitalizar uma calçada, criar mobiliário urbano sustentável ou promover oficinas de educação ambiental, de estudo do lugar, de memórias afetivas.

A formação em arquitetura nos capacita com habilidades que vão além de projetos e obras. Cito alguns que considero interessantes. O olhar generalista e multidisciplinar, que comunga técnicas exatas, artes e ciências sociais aplicadas, nos dá flexibilidade para atuar em outros campos de trabalho. A capacidade de análise sistêmica é altamente valorizada em setores como gestão de projetos , consultoria estratégica e inovação tecnológica . A habilidade criativa nos conecta a áreas como design de serviços e publicidade, além de áreas que exigem soluções inovadoras para problemas. 

O equilíbrio entre conhecimentos técnicos e sociais também permite que arquitetos transitem por áreas como políticas públicas , consultoria ambiental e empreendedorismo social. Assim, apesar da recessão, um bom preparo pode nos levar a algumas possibilidades que ampliam o horizonte de atuação e mostram que a formação em arquitetura apesar de não ser o principal elemento, se torna um ativo importante.

Estudar é um Ato Político

Lembro-me de uma frase que se lia num banheiro público e que sempre ouvi nos tempos de FAU: “Não deixe a faculdade atrapalhar seus estudos”. Estudar, no sentido amplo, vai além das aulas e exige esforço ativo. Quando jovens arquitetos se reúnem para aprender juntos, estão resistindo a um modelo de educação que prioriza a competitividade em detrimento da colaboração. Círculos de estudo livres podem ser sementes de movimentos maiores, assim como os cafés modernistas ou os escritórios brutalistas um dia o foram. Teoria e prática não andam separadas.

Em uma economia de recessão, a utopia também é panfleto. Muitos movimentos da Arquitetura se organizaram a partir de projetos panfletos, de produção de ideias, narrativas, discursos utópicos, experimentações teóricas. Cidades futuristas do Archigram ou o Cenotáfio de Newton de Boullée, são exemplos interessantes de arquiteturas sem sombra. Curioso, usei o termo panfleto alguns dias após tê-lo criticado em dois textos anteriores sobre organização política. Mas aqui cabe.

Conclusão

A arquitetura nunca foi apenas sobre construir prédios. Os desafios do mercado brasileiro são reais, mas as oportunidades para transformar a profissão também. A recessão constante e a desvalorização nos mostram que o modelo está muito equivocado. Nosso esforço atual precisa caminhar para a transformação do campo de trabalho, é um esforço que exigirá a emancipação da profissão e o realinhamento dela com as necessidades do Brasil Real.  Ao organizar-se, estudar juntos, criar redes, elos e cooperativismos e agir coletivamente, jovens arquitetos podem criar algo novo, redefinindo o papel da arquitetura na sociedade. Fica como um pequeno convite à ação. 

archigram cities: veja aqui

@rodrigobertame

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Contradições, Delírios e Utopias. A Política Precisa Escutar as Margens

“Sou negra, lésbica, toco na noite e não vou votar no candidato de vocês. Quero que me expliquem o porquê.” Uma jovem abruptamente pegou um panfleto das nossas mãos e lançou esta frase. Lembro-me até hoje da campanha eleitoral. Distribuíamos panfletos para uma eleição onde Marcelo Freixo (candidato pelo PSOL) disputava a prefeitura contra Crivella (representante da Igreja Universal), no pólo gastronômico de Vista Alegre.

Parece estonteante, à primeira vista. A militância, embebida em suas certezas e métodos, não está habituada a lidar com contradições tão explícitas. No lugar de argumentos automáticos, optamos por simplesmente sentar e ouvir. “Me explique você o porquê”, dissemos.

A jovem, negra, lésbica e música da noite, frequentava ativamente uma igreja batista onde encontrou acolhimento e pertencimento. Para ela, a fé, diferente do que muitos imaginam, nunca foi fonte de intolerância ou desrespeito. Pelo contrário, foi ali que encontrou segurança e aceitação. Quem conhece o cristianismo evangélico sabe de suas múltiplas expressões, das mais acolhedoras às mais excludentes e intolerantes.

Escutar a jovem, genuinamente e sem julgamentos, foi nosso maior ato revolucionário naquele momento.

Ao final, ela compreendeu que Crivella, representante de um modelo institucional da Universal, não representava os valores da Igreja Batista que a acolhia. Nós, por outro lado,compreendemos que há mais profundidade diante das relações singulares do que supõe os cânones vermelhos.

Identidades e Fluxos: contradições no caminho das militâncias

Essa contradição não é um caso isolado. Nas periferias, onde as múltiplas crises da vida se entrelaçam, identidades rígidas não sustentam a complexidade da existência. Recentemente, li um texto de blog do Emilio Bazan Sanchez (link aqui) que questionava: Estamos limitando o potencial humano ao dividir a vida em caixas organizadas? Ele sugeria que uma visão mais fluida das identidades pode abrir possibilidades de crescimento individual e social.

Pensadores já vislumbravam essa fluidez. Beauvoir, ao dizer “não se nasce mulher, torna-se”, indicava a mutabilidade de quem somos e a forma como as definições são construídas socialmente. Deleuze, numa alegoria que gosto, agenciava um cavalo de carroça ao boi de carga, distanciando-o do cavalo de corrida. O que importa para a turma de 68, é o processo contínuo, o devir e não um estado fixo, essência divina, casta.

Contudo, no mundo real, essa fluidez encontra resistência. O ser humano busca conforto nas caixinhas organizativas. Políticas públicas, por exemplo, precisam categorizar e padronizar para alcançar resultados concretos. Estruturamos nossa vida social a partir destes limites. Porém, ao cristalizar identidades, excluímos uma enormidade de pessoas que não se enquadram na escritura de significados da identidade. Na vida real, transitamos simultaneamente por diversos papeis: colegas, pais, amigos, vizinhos, trabalhadores, para cada papel há um jeito de perceber e vivenciar nossa identidade. Somos fluxos, redes em constante mutação. Como acolher as contradições sem perder o sentido de coletividade? Como agenciar as singularidades em identidades e complexidades ao mesmo tempo?

Para superar as crises do nosso tempo, precisamos encarar as contradições de frente, quiçá mergulhar nelas. Como integrar os desencaixados de nossos “sonhos tão mesquinhos” de revolução? Afinal, é utópico pensar em justiça para as minorias enquanto não conseguimos escutar sequer as demandas de uma jovem negra, lésbica e evangélica.

A militância de esquerda, historicamente centrada em organizações, categorias e bandeiras, precisa reconhecer que antigas estratégias já não dialogam com a complexidade contemporânea. Urge construir ações que acolham contradições e singularidades. Isso exige escuta ativa, valorização da pluralidade, integração com o divergente e, acima de tudo, ações práticas.

Reconhecer que expressões culturais, mesmo aparentemente contrárias às nossas crenças, têm valor social intrínseco e podem ser pontos de conexão entre os explorados. Devemos permitir que os povos periféricos articulem suas demandas sem o paternalismo de quem dita as pautas, inclusive as nossas pautas. É essencial construir alianças verdadeiras, abertas e ampliadas, mesmo que não caibam em categorias pré-definidas.

Ressignificar o Acolhimento: um novo caminho para a revolução

O reacionarismo sabe usar o conceito de “pátria” como uma quimera de unidade popular, vendendo um passado irreal como futuro paraíso perdido. A esquerda, muitas vezes, cai na mesma armadilha, trocando apenas a cor da moeda. Ressignificar o acolhimento, a meu ver, é nosso desafio. Não se trata de apenas reagir ao conservadorismo, mas de inspirar esperança concreta, conectando sonhos coletivos às condições reais de quem vive às margens. Criar um novo desejo não é simples, eu sei, mas precisamos dar o primeiro risco no papel.

Um devaneio: um jovem ambientalista evangélico que mora em uma casa ribeirinha. Ele está mais próximo da realidade sofrida dos povos originários do que de uma liderança rica de uma mercoigreja. Sua identidade coletiva, para a esquerda, pode ser a de um ribeirinho. Mas, para ele, talvez seja mais importante ser um profeta de Deus em sua rua. Ignorar essa contradição e esse jovem é cair num dualismo que nos isola.

Entre Martin Luther King e Silas Malafaia, há um abismo ético. Há uma contradição histórica entre Abdias do Nascimento e o Integralismo. São nesses espaços tensionados que a complexidade humana se revela, e desde algum tempo, são nestes espaços de tensões que prefiro caminhar politicamente. Entendo que a militância precisa agir nessas margens, navegando as crises lendo as letras miúdas que ninguém quer ler.

Como ensinou Zaratustra: “Por variados caminhos e de várias maneiras cheguei à minha verdade.” O futuro exige que atravessemos as identidades como fluxos, redes e elos. Não importa tanto quem somos, mas quem podemos ser com as ferramentas que temos disponíveis.

Navegar bem na crise não é apenas sobreviver. É criar, acolher e construir um lugar mais humano, onde as contradições se tornem pontes. Esse lugar não estará pré-definido em nossas bandeiras nem será o resultado de sonhos fixos em um passado quimérico. Creio que este lugar será construído por um mosaico de vidas que ousaram não temer o outro, o diferente, o divergente, o desajustado. Vidas pobres, e pensem, ainda assim não é simples compreender a pobreza, afinal temos muitas gradações e escalas de pobres, cada qual com um universo girando em suas singularidades enquanto são explorados pelas máquinas de moer corpos. Porém, se não fazemos parte dos 1% que controlam o mundo, somos todos parte de uma ralé que precisa encontrar novas formas de sonhar e novos mundos para construir dentro deste mesmo mundo.

Foto: Solen Mourlon/MSF – original: https://www.msf.org.br/noticias/por-que-a-crise-climatica-e-tambem-uma-crise-humanitaria-e-de-saude/

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