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Do Lamento da Ciência Solitária ao Êxtase do Abraço Coletivo

Tomo a liberdade de remixar um termo citado por Darcy Ribeiro em uma entrevista para refletir sobre a ciência e seu papel na sociedade. A ciência enfraquece quando se torna o território dos “cavalos de santo” da intelectualidade.

O campo acadêmico e científico é um dos pilares mais promissores da estrutura social contemporânea. Talvez o melhor investimento que a humanidade possa fazer esteja naqueles que se dedicam à experimentação, à pesquisa e ao desenvolvimento. Esses indivíduos arriscam-se no terreno das hipóteses, buscando inovações que transformam o mundo. Contudo, esse campo encontra-se hoje estruturado sob uma lógica de exploração e alienação, refletindo a organização de todo o sistema econômico. Se antes reverenciávamos a intelectualidade, como quem presta tributo a uma divindade, hoje nos deparamos com cientistas altamente precarizados, dedicando praticamente 24 horas por dia a seus projetos, enquanto enfrentam depressão, burnout e crises financeiras.

A realidade é dura: sem desmerecer outras profissões, eu, Rodrigo, com meu diploma de técnico em elétrica, consigo um emprego com um salário superior ao de uma bolsa de doutorado, e de forma relativamente confortável.

No entanto, não pretendo me aprofundar aqui na crise material, pois ela caminha ao lado de outra, ainda mais complexa e subjetiva. Um paradoxo emerge: a ciência e a produção de conhecimento são, por natureza, processos coletivos, contínuos e sem fronteiras. Contudo, o exercício científico, quando organizado como um sistema de produção formal, tornou-se altamente competitivo, individualista e solitário.

As publicações científicas, hoje, perecem ao valorizar mais o rigor da formatação, a citação de autores consagrados e a quantidade de títulos acadêmicos do que os resultados verdadeiramente inovadores e de impacto social relevante. Esses artigos são revisados por pares, em processos lentos e custosos, que muitas vezes limitam o acesso aos próprios resultados da pesquisa. A ciência se perdeu naquilo que criticava: tornou-se hermética, o território de poucos iluminados. A quantidade vale mais que a qualidade, e o furto de trabalhos, ideias e dados é uma constante, um verdadeiro campo minado. A ciência, que deveria ser um empreendimento coletivo, compartilhado entre aqueles que se dedicam ao seu avanço, foi reduzida a uma luta solitária por financiamento e reconhecimento. Nesse contexto, muitas vezes falta a abertura para o diálogo e a colaboração entre pares, assim como a coragem para assumir riscos e explorar caminhos menos convencionais.

autoria própria: Stephen Hawking e o Pequeno Príncipe conversando sobre o universo

Produzir conhecimento, por sua vez, é algo que fazemos continuamente. O maior desafio do indivíduo é ter a coragem de se lançar ao risco, diante de um sistema que aprisiona e formata a vida científica. Para além das universidades e dos centros de pesquisa, há saberes que nascem nas comunidades tradicionais, nas práticas cotidianas, nas trocas entre trabalhadores e em movimentos sociais que enfrentam desafios locais com soluções criativas. Esses conhecimentos têm suas próprias metodologias e princípios, muitas vezes transmitidos oralmente ou por práticas de convivência, como é o caso do conhecimento de povos indígenas sobre o manejo sustentável da terra ou das experiências comunitárias de cooperativas urbanas.

A estrutura científica contemporânea alcança resultados, mas, para isso, limita a existência da vida ao não se permitir costurar a trama dos muitos estímulos sensoriais que ritualizam a experiência humana na Terra. Falta à ciência o toque fino na vida e no outro, algo comum aos poetas, aos esotéricos, às culturas mais tradicionais.

O reconhecimento acadêmico desses saberes ainda é limitado. Muitas vezes, o que não se adequa aos rigorosos critérios de validação científica acaba sendo subvalorizado ou considerado anedótico, mesmo quando essas práticas trazem respostas concretas para problemas ambientais, sociais e econômicos. Rezadeiras, cartomantes, yogues tântricos, praticantes de tai chi, meditação e herbalistas são desconsiderados como parte da formação do saber.

É justamente nesse ponto que surge a necessidade urgente de reimaginar a ciência como um espaço de liberdade intelectual, onde o risco e a colaboração estejam no centro. Reimaginar a ciência significa, também, resgatar a noção de que o conhecimento científico não é um fim em si mesmo, mas um meio para melhorar a vida das pessoas, construir soluções coletivas e responder às crises que atravessamos enquanto sociedade global. Significa criar espaços em que cientistas possam trabalhar sem a sombra constante da precarização e da pressão por métricas de impacto. A experiência da pandemia de COVID-19 mostrou o valor de esforços colaborativos, como as coalizões internacionais para desenvolvimento de vacinas, demonstrando que, diante de grandes desafios, a união de esforços e a abertura de dados podem gerar avanços rápidos e transformadores.

É fundamental também repensar os critérios de avaliação científica, valorizando a qualidade do impacto social dos projetos e o compromisso com questões urgentes da população mundial fragilizada. Importa menos os santos da ciência, e muito mais os dispositivos que eles trazem e as formas como os utilizamos.

O próximo salto está aí, a meu ver: construir uma ciência aberta ao diálogo, ao risco e ao compartilhamento de saberes, onde a criatividade possa florescer. Com esses passos, talvez possamos resgatar a esperança de que a ciência, em sua diversidade, possa novamente ser um território de construção de um mundo mais justo para todos. Fazemos ciência nas conversas de bar, nas trocas cotidianas e na observação dos momentos simples de prazer e boas risadas.

No encontro entre o saber acadêmico e os conhecimentos que emergem dos povos, há um toque sutil, como um fluxo que pulsa entre a racionalidade e a intuição, tal como a respiração que conecta os corpos ao espírito. A ciência, ao abrir-se para esse toque, transcende seus recalques e mergulha num campo onde cada descoberta se torna um ato libertário de entrega, de diálogo com o desconhecido.

Ali, dissolve-se o ego sofrido do pesquisador isolado, dando lugar ao movimento coletivo, onde o risco é uma forma de êxtase e a colaboração entrelaça razão e sentimento. Assim, a ciência pode se transformar num espaço relacional, onde cada troca expande os limites da compreensão, ecoando um desejo profundo de alcançar e tocar, mesmo que de leve, a pulsação da vida real.

viva o SUS!!

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Algoritmos Sociais: Quem Escreve as Regras que nos Guiam?

Dando sequência ao texto anterior, sigo explorando temas que não inseri naquele, mas que refleti a partir da literatura de Asimov (somado às outras coisas que li na vida).

Podemos definir algoritmo como uma sequência finita de instruções claras, quando seguidas, levam à solução de um problema ou ao alcance de uma meta. A partir dessa ideia, gostaria de explorar o conceito para além de sua conotação técnica e matemática. Pensando no algoritmo como um paradigma global, podemos agenciá-lo como um processo estruturado, onde as condições iniciais geram resultados previsíveis a partir de alguns passos lógicos.

Podemos, então, falar em “algoritmos sociais”?

Esse é o ponto central deste texto. Vale lembrar que este é um texto reflexivo, e não uma pesquisa científica formal. Com isso, dou-me a liberdade de explorar ideias originais, sem a necessidade de rigor científico, ainda que seja uma tentativa de produzir conhecimento, e dou-me também o direito de estar equivocado. Voltemos, então, às elucubrações.

Uma “organização algorítmica” da vida implicaria na existência de regras e padrões que regem o comportamento coletivo e individual em uma sociedade. Pensando assim,  convenções sociais, normas culturais e até sistemas econômicos podem ser vistos como algoritmos sociais, pois seguem preceitos que moldam as interações humanas.

As redes sociais são um exemplo contemporâneo de como os algoritmos impactam a sociedade. Eles filtram, priorizam e promovem informações, influenciando comportamentos e opiniões. Surge, então, uma crise: estamos sendo controlados pelas corporações que detêm os algoritmos?

Expandindo essa reflexão, podemos dizer que qualquer contexto social com processos estruturados de interação ou decisão opera dentro de “algoritmos sociais”. Eles podem ser explícitos, como regras de conduta, ou implícitos, como preconceitos culturais que orientam decisões.

Legislações, por exemplo, podem ser vistas como uma forma de algoritmo social, pois estabelecem regras formais que orientam as ações das pessoas. Assim como um algoritmo processa informações de maneira determinística, as leis processam entradas legais e produzem saídas específicas, como sanções ou recompensas. O novo aqui não está apenas em controlar o ambiente, mas nos corpos e nas disputas que se dão dentro desse ambiente.

No caso dos algoritmos digitais, seu impacto é evidente na circulação da informação, influenciando decisões políticas e de consumo. Eles intensificam a desterritorialização e criam rupturas nos contratos sociais e democráticos.

Diante disso, surge a questão da neutralidade desses sistemas. Assim como os algoritmos digitais carregam intenções e vieses, as leis são escritas por pessoas com poder político e econômico, refletindo interesses e desigualdades. A velha máxima prevalece: quem controla a escrita, detém o poder.

Mas, se não sabemos quais regras nos guiam, como saber para onde estamos sendo levados? Aqui surge um equívoco comum: assumir uma regra: o controlador é inimigo e negar o sistema por completo. Fechar o mundo iniciado por Alan Turing é impossível, uma luta quixotesca. A disputa concreta creio que está no direito à escrita, no poder de sermos os autores de nossas próprias leis.

Assim, o discurso das redes abertas precisa ser retomado. Devemos trilhar dois caminhos: a curto prazo, compreender os algoritmos que nos cercam; a médio prazo, garantir o direito de escrever nossos próprios algoritmos.

No conto Andando em Círculos, de Asimov, o personagem principal, diante de um movimento robótico que parecia um bug, precisa fazer uma operação inteligente. Ele para, lembra das três leis da robótica, investiga o fato estranho e a partir do debruçar intelectual encontra uma saída original para si. O conto não mostra que, ainda que um algoritmo tenha sido produzido pra dar um resultado enviesado, ele possui linhas de fuga diante da investigação profunda e original.

O filme Bill e Ted é outro que explora de maneira divertida o poder do algoritmo. Bastou uma regra resumida em uma frase adolescente, e o futuro encontraria a paz mundial: “Sejam excelentes uns com os outros”.

A disputa urbana de uma smart city passa por aí, disputarmos o sistema lógico de gerenciamento automatizado da cidade, sem negá-lo como algo útil. O que precisamos é fazer parte de quem governa a produção das regras, ou ao menos ter as regras escritas de forma aberta para que possamos investigar os processos.

Estudar os algoritmos, tanto em seu sentido técnico quanto social, nos ajuda a entender como sistemas de regras influenciam a dinâmica social, muitas vezes de maneira invisível ou intencionalmente projetada. Também nos aprimoramos para construir os novos sistemas de interação política e social que virão a estruturar o mundo. O grande barato é vermos que algoritmo não é algo novo, hermético e complexo. O que não faz torna-lo um vilão, é que estamos excluídos do direito de comunicação, que por sua vez dificulta um direito de ação.

Desenho autoria própria só para alegorizar o texto.
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Política em Rede: do Esgotamento das Estruturas Tradicionais ao nascimento prematuro das Estruturas Algoritmo

Isaac Asimov, um pioneiro em robótica e algoritmos, nos apresentou uma visão importante da sociedade: a possibilidade de uma estrutura regida por regras claras e universais, capaz de coordenar nossas ações e interações. Hoje, enfrentamos um desafio semelhante, mas em um contexto muito mais complexo. Como construir uma política que dê conta da diversidade e interconectividade de uma sociedade em rede, onde as antigas formas de organização coletiva estão esgotadas?

Estamos em um momento de ruptura social: as grandes estruturas de organização coletiva, que por muito tempo sustentaram partidos, ordens religiosas, movimentos sociais e ajudaram a produzir as políticas públicas, hoje não falam de forma completa à nossa realidade. A lógica de massas parecem ultrapassar limites que não são mais suficientes para abarcar a complexidade das relações contemporâneas. Se as bandeiras unitárias não oferecem mais nós mobilizadores, é porque a realidade das redes expõe um novo modo de organização e de interesse social – mais fluido, interconectado e diversificado.

A lógica de identidade, apesar de ainda ser útil na construção de políticas públicas, atinge um limite ao deixar de fora uma vasta gama de indivíduos que não se enquadram nos padrões necessários para serem atendidos. Assim, indivíduos encontram em redes contemporâneas respostas para inquietações e problemas que lhe parecem prioritários. Um jovem favelado gay criado na igreja batista que não se sente oprimido por questões de gênero no seu ciclo cotidiano, mas que tem a geladeira vazia vai encontrar como prioridade uma luta material por sobrevivência (dinheiro e comida) do que uma luta por gênero por exemplo. Um garoto branco morador de favela que fica em segundo plano na lida de uma ONG que combate o racismo pode sentir-se preterido em uma luta periférica e tentar encontrar seus caminhos em outras esferas.

Em tempos anteriores, estes exemplos eram poucos ou, ainda havia uma capacidade de aglutinar casos diversos sob uma bandeira. Porém, os dias atuais, a singularidade e diversidade se tornam o elemento de desejo e interesse.  O dilema que enfrentamos está justamente aí: construir uma política que exige mobilização em massa – seja ela um Estado, um grande grupo social, ou uma coalizão- em um mundo cada vez mais diverso de representação e encaixe. A sociedade em rede evidencia cada vez mais as singularidades, seus fluxos e interconexões. O detalhe que te diferencia é tão ou importante quanto o que te iguala no sistema. Se o que me diferencia é mais desejante do que aquilo que me une, como consigo construir uma política de massa, visto que esta precisa se balizar por uma média da maioria?

Estamos habituados a padrões organizacionais modernos, pós-industriais, que buscam algum tipo de elo de segurança: uma ordem, uma liderança central, ou um corpo de controle administrativo, gestor. Contudo, a realidade atual escapa a esse modelo. É simplista e até ludita acreditar que o controle das redes sociais, por exemplo, é movido apenas pelo desejo de um “grande irmão capital”. Acreditar que, ao identificar um driver central, resolveremos os problemas das redes ignoramos o fato de que vivemos em um sistema cada vez mais descentralizado.

Pensemos em nossa rede atual como um sistema que se organiza por múltiplos nós interligados. No entanto, não nos coloquemos como esses nós, mas sim como as pulsões que trafegam por eles: somos entes de força ativa. De forma autônoma, porém organizada por uma série de protocolos e regras (como as três leis da robótica de Asimov), podemos navegar por espaços que são tão reais quanto virtuais. Um bom exemplo são os motoristas de Uber, que discutem política durante suas viagens, demonstrando como fluxos de informação se formam e se dispersam em redes complexas independente de serem sistemas virtuais.

Cada um de nós pode ter seu próprio foco, suas próprias lutas e papeis, constituídos ou constituintes. E nossas ações, por sua vez, são coordenadas por mecanismos distribuídos, como blockchain, sistemas peer-to-peer, ou redes neurais profundas, que possibilitam a comunicação sem a necessidade de uma estrutura centralizada. Esse modelo se reflete nos movimentos sociais contemporâneos, como os trabalhadores de aplicativos, que constroem solidariedade e trocam informações sem depender de uma hierarquia formal.

Assim, o controle do sistema não é o que inserimos, surge mais da interdependência e do fluxo de informações que de uma autoridade central. A dinâmica do poder torna-se difusa, surgindo de inúmeras interações que operam em sinergia, muito além das visões modernas de controle total por corporações ou governos.

Diante dessa realidade, nos vemos obrigados a compensar as formas de construir uma política global que seja capaz de coordenar esses fluxos, respeitando a singularidade de cada nó, ao mesmo tempo, articulando uma ação coletiva. E isso é algo extremamente desafiador, pois nosso primeiro enfrentamento é romper com dogmas e paradigmas industriais e pós industriais.

Não é tarefa simples repensar o planeta dentro destes novos modelos, não acontecerá pelos sistemas constituídos e consolidados. Talvez, como todas as grandes mudanças da humanidade, acontecerá de forma periférica, meio alternativa, até que as estruturas estejam prontas. A questão é que talvez não tenhamos tempo na Terra para tal reorganização social. Se Asimov nos ensinou algo, é que o desafio não está apenas em criar novas regras, mas, principalmente, em como nos relacionamos com elas. Detesto terminar texto com perguntas, porém este será assim. Estamos prontos para pensar a política a partir da perspectiva de redes complexas e algoritmos?

Por pura diversão, pedi ao DALL-E para criar três imagens a partir de três narrativas:

1 – uma visão a partir do pensamento do senso comum sobre as redes a partir do controle do capitalismo

2- uma visão a partir do pensamento do senso comum sobre as redes com uma vitória do sistema soviético

3-uma visão a partir das reflexões postas aqui e da articulação das teorias das redes complexas.

Deixo aqui para alegoria e apreciação.

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10 de outubro – Saude mental, uma luta coletiva!

A cada vez que um morador de rua me para, eu pergunto o seu nome. É uma ação simples, mas poderosa. Um gesto que reconhece no outro uma humanidade que a sociedade muitas vezes ignora. Para o morador, ouvir seu nome é um sinal de pertencimento, de que ele ainda é visto e ouvido. Essa troca pode ser tão significativa quanto o dinheiro, às vezes até mais. E ali, no meio da rua, um pedaço de vida é compartilhado. Quem não gosta de um bom papo furado? Todos gostamos. E essa é uma verdade que esquecemos: somos feitos de encontros e histórias, uma mistura do singular com o coletivo.

Que este Dia Mundial da Saúde Mental -10 de outubro – seja um dia de enfrentamento! Precisamos romper com a visão ultrapassada de que saúde mental é apenas uma questão individual. Somos seres coletivos, conectados ao tecido social que nos envolve. Nossa saúde mental reflete, em grande parte, a qualidade desse tecido.

Imagine um jovem crescendo em uma casa sem janelas, sem saneamento básico, cercado por esgoto a céu aberto. Todos os dias, ele enfrenta a violência urbana, o medo constante, a falta de oportunidades. Esse jovem terá uma estrutura psíquica mais fragilizada em comparação com outro que cresce em um bairro com lazer, segurança e conforto. A desigualdade que permeia as ruas e os lares também afeta a psique.

Estudos da OMS e dados do PNUD mostram que os problemas de saúde mental afetam desproporcionalmente as populações de baixa renda, especialmente em países em desenvolvimento. Depressão, ansiedade e dependência química são comuns em contextos de pobreza, onde o acesso ao tratamento é escasso. Quem vive à margem está mais vulnerável à violência, à instabilidade social e à falta de assistência. Além disso, os serviços de saúde mental, quando existem, são frequentemente subfinanciados, perpetuando o ciclo de exclusão. Ciclo este que é global e estrutural!

O Índice de Pobreza Multidimensional de 2023 revela que mais de 1,1 bilhão de pessoas vivem em pobreza extrema, enfrentando privações em áreas fundamentais como saúde, educação e moradia. Esse cenário reflete a desigualdade socioeconômica que alimenta as disparidades de saúde. O pior paradoxo é que, mesmo quando o serviço de saúde mental está disponível, o estigma cultural em torno dos tratamentos impede muitos de buscar ajuda.

A saúde mental deve ser vista em sua totalidade. Ela é geográfica e relacional, conectada ao entorno do indivíduo. Assim, torna-se essencial construir políticas públicas que abordem a saúde mental de forma integrada e sistêmica. Precisamos consolidar  estratégias que considerem o cidadão como parte de um contexto maior, no qual as desigualdades sociais desempenham um papel central em sua psique.

Neste 10 de outubro, não discutamos apenas o tratamento clínico! Reforcemos a importância de intervenções socioeconômicas como parte dos processos de cura. Tratar a mente é também tratar o ambiente, a pobreza, a educação e garantir a proteção social. Arquitetos e urbanistas têm um papel importante nesta batalha: construir espaços que proporcionem bem-estar. Uma cidade que adoece seus habitantes nunca será uma cidade interessante e viva.

Que neste dia, a saúde mental seja assumida como um direito de todos e, para garantir esse direito, precisamos combater as raízes da desigualdade que deixam tantos para trás.

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Quem Vigia a Cidade? Os olhos verdes dos Totens de Segurança no Rio.

Esta semana, deparei-me com um novo elemento curioso na paisagem urbana. Pelo que observei, ele já está consolidado há algum tempo em certos pontos da cidade: totens espalhados por vias importantes de diversos bairros, construídos em material metálico, com uma luz verde que remete ao visual de “Matrix”, decorados com símbolos criptografados e a mensagem: “Esta rua é protegida pela Gabriel.”

Sem muito alarde, o Rio de Janeiro recebeu um novo tipo de controle social — desta vez, tecnológico e digno das literaturas de Orwell, Asimov, Neumeier e Miner, ou até mesmo das irmãs Wachowski. A tecnologia em si, assim como sua implementação na cidade, não é uma novidade. Ela me remete à transformação de um conceito comunitário estudado por Jane Jacobs, o dos “olhos da cidade”, em capital e negócio.

Não entrarei aqui no debate sobre a privatização total do controle da violência no Rio, tema que se manifesta em exemplos como o domínio de territórios por forças paramilitares diversas. O foco, neste caso, é o fim da urbanidade e a terceirização dos olhos das ruas. Modelos tradicionais de bairro, que sempre foram vendidos pela ideia de encontros, de relações diretas com o espaço público, com o diferente e o inesperado, perderam a disputa subjetiva. A “condominialização” da vida venceu, e isso nos diz muito sobre como a cidade pode ser completamente terceirizada.

A vida condominial transfere responsabilidades significativas do Estado para grupos privados. Vias públicas inteiras passam a ser monitoradas por sistemas variados: síndicos, associações de moradores, lideranças locais, empresas de segurança, entre outros. A vigilância por câmeras, que o próprio Estado já promoveu com iniciativas como o COR (Centro de Operações Rio), agora divide espaço com empresas como a Gabriel.

Um aspecto intrigante da câmera é sua estética própria, claramente bem estudada, que vai das cores às mensagens e aos símbolos, sua cor verde, seus signos criptografados no totem e até mesmo seu nome próprio masculino sendo tratado pelo gênero feminino. Esses elementos constroem uma “persona” e uma mensagem, como nos ensinaram os grandes pensadores da ficção científica e os grandes religiosos do mundo. À primeira vista, pode parecer o mesmo modelo de negócio do COR, mas o universo simbólico em torno da Gabriel aponta para outra direção. A câmera quer ser vista, decifrada e, acima de tudo, quer nos vigiar 24 horas por dia.

Ironicamente, num mundo onde o direito de ir e vir e a defesa da vida privada são tratados quase como mantras por aqueles que defendem esse modelo de segurança, essas empresas têm o poder de transformar nosso cotidiano em um verdadeiro “Big Brother”, usando a segurança como justificativa. Outra ironia: os mesmos defensores dessas câmeras nas ruas muitas vezes se opõem ao uso delas para monitorar operações policiais.

Curiosamente, a presença da Gabriel não parece ter tido um impacto significativo na redução da criminalidade ou na sensação de segurança entre a população, assim como o COR tampouco teve. No entanto, essas câmeras foram fundamentais para registrar casos de abuso de poder policial e racismo, como o que ocorreu com os jovens negros, filhos de diplomatas, em Ipanema.

O povo, em geral, parece indiferente à presença vigilante passiva desses totens — soldados eletrônicos privados que tudo veem — assim como são com relação às câmeras do COR. Quanto a nós, é preciso compreender um ponto crucial: nenhuma tecnologia aplicada está isenta das escolhas humanas. E é nisso que devemos nos concentrar ao lidar com as “Gabriels” e CORs da vida. Vale lembrar que, quando certas forças de poder na cidade quiseram executar Marielle Franco, algumas câmeras do COR simplesmente fecharam os seus olhos.

Este é o ponto, o problema não está nas tecnologias por si mesmas, mas sim na nossa relação com elas. Este talvez tenha sido uma das lições mais importantes que Asimov nos deixou. Portanto, fica o recado a todos esses olhos que nos vigiam: estou ligado no movimento.

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Fechamento do Spaghettilândia: Revitalização ou o Fracasso do Reviver Centro?

O fechamento do Spaghettilândia, com mais de 70 anos de história na Cinelândia, foi anunciado como um marco positivo para o renascimento do Centro do Rio de Janeiro. O tom otimista do jornal que divulgou a notícia ressaltava a “intensa renovação comercial” da região. Contudo, essa narrativa de revitalização ignora uma realidade fundamental: como pode o fechamento de um estabelecimento tão tradicional, frequentado por figuras importantes da Cidade, da política e da intelectualidade, representar um avanço para o espaço urbano?

Esse episódio expõe uma faceta problemática do discurso que tenta inflar a imagem do Rio de Janeiro como um polo boêmio, cultural e gastronômico. É verdade que esses elementos ainda existem, mas desde 2014 sua vitalidade foi profundamente comprometida. O centro da cidade, outrora pulsante, definhou. Espaço de encontros e trabalho, hoje não conseguiu sequer consolidar-se como área de moradia, um fracasso diretamente relacionado ao projeto “Reviver Centro”, que falha ao entregar a solução apenas nas mãos do setor imobiliário.

O projeto “Reviver Centro” é emblemático de uma abordagem equivocada que prioriza interesses econômicos imediatos, mas negligencia as necessidades sociais e urbanas. Para o setor imobiliário, a prioridade não é criar espaços habitáveis e integrados à vida cotidiana. Em vez disso, apartamentos diminutos e inviáveis para uma família são a norma, sem qualquer incentivo para a criação de infraestrutura essencial, como mercados e padarias. O resultado é um centro desprovido de vitalidade comunitária e comercial que não atende à vida cotidiana.

Tentativas de revitalização têm se concentrado em impulsionar polos gastronômicos, que atraem um público homogêneo, de perfil alto e efêmero. Isso ignora a diversidade e as necessidades reais dos moradores potenciais. Afinal, quem pode se alimentar constantemente de “comida cara de boteco”? Esse modelo de revitalização elitista aliena a classe média e trabalhadora, tornando o centro uma área para consumo eventual, mas inviável para habitação e vida diária.

O fechamento do Spaghettilândia simboliza, na verdade, o fracasso do modelo de revitalização em curso. Mais do que um sinal de progresso, ele aponta para a decadência de um projeto urbano que, ao se submeter cegamente às forças do mercado, ignora as demandas fundamentais para que uma cidade verdadeiramente viva e respire.

A transformação de uma cidade requer mais do que renovação comercial; demanda um planejamento urbano cuidadoso, que equilibre interesses econômicos com as necessidades sociais e culturais de sua população. A solução não pode ser entregue unicamente aos poderes imobiliários, mas deve incluir uma visão integrada e participativa, voltada para o bem-estar de seus cidadãos. Ainda á possibilidades de salvação do projeto de reocupação do Centro da Cidade, para tal ele precisa ser ampliado a compreender a complexidade das dinâmicas da região, em especial de toda a área em seu entorno. Reviver Centro precisa assumir a história desta cidade, sua importância global, sua territorialidade negra e periférica, suas muitas camadas sociais. Podemos ter todas as áreas culturais globais mas é necessário ter a relação da escala comunitária junto, ninguém vive de turismo e o Rio não é Disney.

fachada do Spaghettilândia

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Burocracia e Inovação: Os Desafios do Setor Público na contemporaneidade

A burocracia protege o Estado. Sei que essa frase assusta alguns. A burocracia, frequentemente criticada por sua lentidão e rigidez, é, paradoxalmente, uma das principais responsáveis pela proteção do Estado e pela implementação eficaz de políticas públicas. No entanto, o conceito de burocracia vai além da visão negativa implantada no seio do povo. Ele remete ao saber técnico e profissional das organizações públicas, baseando-se na racionalidade e no cumprimento de regras que garantem a estabilidade e continuidade das políticas, independentemente dos governos.

Embora as críticas à burocracia sejam, em grande parte, justificáveis, é necessário compreender a complexidade do seu papel no funcionamento do Estado. Primeiramente, é preciso assimilarmos algo: O Estado é um âmbito complexo e de disputa perene, não é um local passível de traçar um objetivo comum de forma simples, como uma empresa privada poderia fazer ao dizer: produzir e dar lucro aos acionistas. A tensão entre políticos (representantes das mais diversas forças econômicas e sociais do país), responsáveis por definir o rumo das políticas públicas, e os profissionais do setor público (taxados de burocratas), encarregados de sua implementação técnica, é uma característica intrínseca da administração pública. Com o aumento da atuação estatal em áreas mais complexas, como saúde, educação e mobilidade urbana, vemos a “burocratização da política” e a “politização da burocracia”, em que as esferas técnica e política se sobrepõem e estas disputas ganham camadas mais densas.

No entanto, a burocracia tradicional encontra desafios no mundo contemporâneo. Se já encontravam quando Kafka, de maneira brilhante, expunha em literatura suas críticas profundas, o que dirá agora, em um mundo marcado pela velocidade e pela hiper conectividade. As demandas da sociedade, que exigem respostas rápidas e flexíveis do poder público, muitas vezes entram em choque com o modelo hierárquico e rígido da burocracia weberiana. O excesso de informações e a necessidade de processar grandes volumes de dados, por exemplo, tornam a burocracia lenta e, em muitos casos, desatualizada diante das novas realidades tecnológicas.

O cenário contemporâneo exige novas formas de atuação. A descentralização do processo decisório possibilitaria maior autonomia aos gestores públicos, permitindo que problemas específicos sejam resolvidos de forma mais rápida e eficaz, sem a necessidade de intervenção constante das hierarquias superiores, favorecendo a impessoalidade da política implementada.

Laboratórios de Inovação: Um Caminho Promissor

A criação de laboratórios de inovação dentro do setor público tem se mostrado uma ferramenta poderosa para testar e ajustar políticas e processos em menor escala antes de sua implementação em larga escala. No Brasil, desde 2010, já existem iniciativas de laboratórios de inovação do setor público, como os pioneiros nas universidades federais do Espírito Santo e da UNB. Esses espaços oferecem maior flexibilidade, são mais tolerantes ao fracasso e permitem a experimentação de soluções para os desafios enfrentados pela administração pública.

Além disso, a coprodução de políticas públicas com redes colaborativas, envolvendo a sociedade civil na formulação e implementação de decisões, é uma estratégia defendida pela teoria da complexidade. Plataformas e fóruns participativos, que promovem a colaboração em tempo real entre governo e cidadãos, tornam-se essenciais para a construção de políticas mais inclusivas e adaptáveis às necessidades sociais.

Apesar das vantagens dos laboratórios de inovação, é importante reconhecer que esses espaços também são locais de disputa política. Assim como em qualquer âmbito público, correm o risco de serem direcionados para interesses privados ou de grupos específicos, desviando-se de sua função original de servir à coletividade. Portanto, é fundamental que essas estruturas garantam ampla participação do povo e que se construam com base em uma cultura de inovação que valorize o conhecimento popular e a criatividade coletiva. A inovação, ao contrário do que muitos pensam, não é restrita aos círculos acadêmicos; ela emerge das multidões e do cotidiano, seja nas relações sociais, seja nas tecnologias que desenvolvemos em nosso dia a dia. Toda grande descoberta ou invenção humana é uma construção coletiva.

O Futuro da Administração Pública

Integrar os modelos burocráticos tradicionais com novas abordagens tecnológicas e participativas requer uma transformação cultural dentro da máquina pública. A hierarquia rígida e a centralização das decisões precisam dar lugar a estruturas mais flexíveis e abertas à inovação. Ferramentas tecnológicas podem ser catalisadoras dessas mudanças, proporcionando um Estado mais ágil e alinhado às necessidades de um mundo cada vez mais rápido e interconectado.

Concluindo, a burocracia, com todas as suas falhas e virtudes, continua sendo um pilar fundamental na estrutura do Estado moderno. No entanto, sua evolução é necessária para que possa acompanhar a complexidade do mundo contemporâneo. Os laboratórios de inovação e a coprodução de políticas públicas com redes colaborativas populares mostram-se como caminhos promissores para essa transformação, permitindo uma administração pública mais eficaz, inclusiva, inovadora e socialmente referenciada.

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GESTÃO PÚBLICA E PRIVADA: Diferenças na Administração do Bem Comum

A gestão pública é um campo que exige um equilíbrio complexo entre conhecimento técnico, administrativo, jurídico e político. Enquanto a experiência puramente militante pode fornecer uma base de engajamento político e definir prioridades, a gestão pública demanda um enfoque técnico para que essas políticas se tornem realidade. Sem esse equilíbrio, há o risco de que as pautas definidas jamais se transformem em resultados concretos e mensuráveis. A prática da gestão pública é marcada pela necessidade de procedimentos formais, controle social e uma vasta rede de regulações que orientam o uso dos recursos e a prestação de serviços à coletividade.

Entro muitos fatores, destaco que: o desequilíbrio conceitual surge  dois. De um lado, há forças altamente qualificadas na produção política, mas que falham na execução burocrática. Do outro, estão aqueles que não compreendem as distinções entre o público e o privado, o que desvirtua a administração pública de suas funções principais. Como resultado, órgãos públicos não conseguem cumprir plenamente suas responsabilidades para com o povo.

Assim, destaco o seguinte recorte: a distinção entre o público e privado. Estes já começam na finalidade, no papel social. A administração pública tem como objetivo constitucional o atendimento ao interesse coletivo, que estabelece os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Em contraste, a gestão privada onde resultados financeiros, competitividade no mercado e lucro para os acionistas ou proprietários são foco.

Essa diferença fundamental reflete-se nas práticas, legislações e restrições que regulam cada área. No privado, o tripé mercado-trabalho-receita guia as máquinas de sua regulação. Já o gestor público está sujeito a um complexo sistema de controle externo, como tribunais de contas, controladoria geral, entidades fiscalizadoras, Lei de Responsabilidade Fiscal. Esse instrumental de segurança ao Erário impõe limites rigorosos, tornando a flexibilidade do setor privado um privilégio raro no setor público. A responsabilidade administrativa no setor público preza pela severidade e segurança.

Lidar com o bem comum é mais complexo do que com o privado. Isso torna a tomada de decisão da administração pública mais lenta. Seguem-se ritos que garantam ampla participação social, como processos licitatórios, consultas públicas e debates em câmaras. No setor privado, as decisões são mais ágeis, geralmente passando apenas pelos gestores ou, no máximo, por assembleias de acionistas.

A contratação de pessoal e a transparência são pontos cruciais. No setor privado, contratações e demissões são ajustes de mercado. No público, a admissão ocorre via concurso, garantindo impessoalidade, transparência e eficiência, promovendo igualdade de oportunidades e prevenindo favorecimentos. Além disso, a gestão pública exige maior transparência, com a divulgação de contratos, licitações e execuções orçamentárias, permitindo a fiscalização pela sociedade.

O orçamento é outra distinção. No setor privado, há mais liberdade para relocar recursos conforme o mercado, estratégias de gerencia e governança corporativa. No âmbito da gestão pública, por sua vez, o orçamento segue normas rígidas e protetivas, como a Lei Orçamentária Anual e o Plano Plurianual, limitando a capacidade de reação rápida a imprevistos.

Diferente do setor privado, onde a responsabilidade geralmente está vinculada ao cumprimento de contratos e à satisfação dos acionistas. Gestores públicos estão sujeitos à Lei de Improbidade Administrativa, que pode acarretar penalidades severas, incluindo a perda do mandato, em casos de má gestão ou corrupção.

Diante dessa realidade, é imprescindível que o gestor público tenha um viés de função social. Ele deve entender que sua responsabilidade vai além da política ou da técnica: é necessário ser um exímio trabalhador, um cuidadoso articulador, capaz de unir conhecimento técnico, políticas sociais e a complexidade administrativa do espaço que gere. A capacidade de equilibrar as demandas da população com as exigências formais da administração pública é o que distingue de verdade um proeminente líder. Somente assim é possível transformar as políticas desejadas em resultados concretos que beneficiem a sociedade como um todo.

imagem original extraída de artigo do TCE de SP: https://www.tce.sp.gov.br/6524-estado-sao-paulo-tem-762-obras-paralisadas-ou-atrasadas

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Queimadas, a Terra do Fogo e o fim do Futuro

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Brasil registrou mais de 90 mil focos de incêndio apenas na Amazônia em 2023, um aumento alarmante em comparação aos anos anteriores. No Cerrado, os números também são preocupantes: cerca de 60 mil focos no mesmo período. Esses números expõem uma crise ambiental alimentada de maneira significativa pelo modelo atual de agronegócio, que favorece a expansão da fronteira agrícola em detrimento de florestas e matas nativas. Expansão está, muitas vezes, feita à base de arranjos políticos somados ao fato de que temos uma elite com sistemas cognitivos encurtados, pessoas que não conseguem compreender o mundo de maneira sistêmica e se satisfazem com o fetiche do luxo.

O agronegócio é o motor econômico brasileiro, impulsiona o PIB e muda a cara de cidades pequenas e médias Brasil afora. Mas o modelo em voga, ao manter a ênfase em monoculturas e pecuária extensiva, fomenta o desmatamento e as queimadas. A prática de “limpar” áreas com fogo para plantio ou pastagem ainda é recorrente e se agrava pela falta de fiscalização eficaz. Além disso, a flexibilização das leis ambientais e o enquadramento dos órgãos de fiscalização, como o IBAMA, permite que essas práticas predatórias avancem sem punições adequadas.

Para além dos danos ambientais, o que já é inaceitável para um País com os biomas estratégico para o Planeta como o nosso, essa relação direta afeta a saúde pública devido a emissão de substâncias poluentes, contribuindo para a mudança climática e prejudicando o comércio internacional, que se propõe cada vez mais sustentável.

Isto é, não precisamos sequer apelar à consciência dos fomentadores do agro, a própria economia mostra que o caminho que percorrem terá um desfecho péssimo. A competitividade do Brasil no mercado global se põe em risco, pois cada vez mais consumidores e investidores bloqueiam negócios com quem tem práticas como as que o Brasil mantém. Dentro desta conjuntura internacional, logo nosso modelo que produz: poluição, aquecimento global e alimentação ultra processada se tornará antiquado e indesejado deixando como resquício a imensa sobrecarga no sistema de saúde pública devido às inúmeras doenças que ele acarreta. 

É inviável reverter esse cenário sem um esforço nacional que vá além de medidas paliativas e emergenciais. Algumas sugestões:

  1. Revisão do Código Florestal : É crucial revisar e fortalecer o Código Florestal, garantindo que as áreas de preservação permanente e de reserva legal sejam efetivamente protegidas, inclusive ampliando estas demarcações para que recuperemos terras perdidas. Isso implica em maior rigor na fiscalização e na aplicação de multas para quem desmata ilegalmente.
  2. Incentivo à Agricultura Sustentável : Redirecionar políticas de subsídio e crédito para práticas agrícolas sustentáveis, como sistemas agroflorestais e integração laboral-pecuária-floresta (ILPF). Esse modelo promove a recuperação do solo e reduz a necessidade de abertura de novas áreas para a agricultura.
  3. Tecnologia e Inovação no Combate a Incêndios : Investir em tecnologias de monitoramento e combate a incêndios, incluindo satélites, drones e inteligência artificial, que permitem a detecção precoce e a resposta rápida aos focos de incêndio. Além disso, o treinamento e a capacitação das brigadas de combate ao fogo são essenciais.
  4. Valorização da Floresta em Pé : Criar mecanismos de valorização econômica da floresta em pé, como o pagamento por serviços ambientais e o mercado de créditos de carbono. Isso gera um incentivo econômico para o produtor preservar a vegetação nativa do que expandir a agricultura predatória.
  5. Educação Ambiental : Promover e ampliar programas de educação ambiental nas comunidades rurais e urbanas, conscientizando sobre os impactos das queimadas e a importância da preservação dos recursos naturais. A formação de uma consciência coletiva é essencial para mudar comportamentos a longo prazo. É preciso que o meio ambiente esteja de forma clara na grade curricular. 
  6. Saúde preventiva : Promover o monitoramento integral e sistêmico das relações entre doenças e o ramo de atividade econômica do agronegócio. Aumento de doenças causadas por problemas respiratórios, calor e doenças causadas pelos produtos lançados no mercado para consumo da população.

As queimadas são um desafio estrutural que envolve o futuro do nosso desenvolvimento econômico e social. Na atual esfera da emergência, somos obrigados a reavaliar o modelo e adotar políticas que assegurem um equilíbrio entre a produção agrícola, posse de terras e a preservação ambiental. Como já anunciavam os zapatistas, “nada é impossível para quem não tem nada a perder”; e estamos, agora, na iminência de perder tudo: nossa terra, nossa água, nosso ar. O Brasil está em uma encruzilhada, onde resistir já não é mais uma escolha, mas uma necessidade urgente. Só assim será possível garantir um futuro sustentável para as próximas gerações. Na verdade, só assim será possível garantir algum futuro — um onde a fumaça que cobre os céus sejam só uma triste memória e não o nosso destino.

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Saúde Coletiva e Emergência Climática: O Desafio de uma Governança Global a Partir dos Mundos Menores

A crise climática e os desafios de saúde coletiva revelam um panorama que vai além das fronteiras nacionais, exigindo uma resposta coordenada e efetiva em escala global. No entanto, para que essa resposta seja genuína, precisamos de um novo paradigma de governança que não apenas integre o tripé político, técnico e econômico, mas que também valorize e empodere o que chamamos aqui “mundos menores” (uma paráfrase deleuziana) — pequenas comunidades, cidades periféricas, povos tradicionais e regiões historicamente marginalizadas que muitas vezes possuem soluções interessantes e inovadoras.

O Paradigma dos Mundos Menores: Uma Governança de Baixo para Cima

Historicamente, a governança global tem sido centralizada em grandes metrópoles e centros de poder econômico, que ditam as diretrizes políticas e tecnológicas, frequentemente ignorando as realidades e conhecimentos dos mundos menores.

Esse modelo centralizado não apenas perpetua desigualdades, mas também limita a capacidade de resposta a crises complexas, como a emergência climática e os desafios de saúde coletiva, que requerem soluções adaptadas às especificidades locais.

Os mundos menores, entretanto, têm mostrado uma potência que as grandes estruturas de governança global frequentemente falham em replicar.

Pequenas cidades, comunidades rurais e povos tradicionais operam com uma lógica de proximidade com a natureza e um senso comunitário que possibilitam respostas rápidas e eficazes a desastres.

Exemplos como o manejo do fogo pelos aborígenes australianos ou as respostas dos Moken aos tsunamis mostram que, muitas vezes, a sabedoria ancestral e local é mais eficaz do que as tecnologias impostas de cima para baixo.

Integração Política: Descentralizando o Poder e Empoderando as Comunidades Locais.

O primeiro passo para um novo paradigma de governança global é a descentralização do poder político. É necessário que a tomada de decisões seja compartilhada, incorporando as vozes e conhecimentos das comunidades locais como parte ativa dos fóruns globais. Essa integração não deve ser meramente simbólica, mas estrutural, garantindo que as prioridades das minorias e das regiões periféricas sejam colocadas no centro das políticas climáticas e de saúde.

Devemos fomentar os conselhos globais de governança de maneira que incluam representantes das comunidades locais, pequenos municípios e minorias. Esses conselhos teriam poder de deliberação e influência sobre as políticas internacionais, promovendo uma troca constante de saberes e experiências entre o global e o local. A governança deixaria de ser um monólogo das grandes potências para se tornar um diálogo genuíno e multidirecional.

A Força Técnica dos Mundos Menores: Redes Locais e Conhecimentos Ancestrais

Em termos técnicos, os mundos menores trazem uma riqueza de conhecimentos que pode revolucionar a forma como enfrentamos as crises climáticas e de saúde coletiva. A integração de saberes tradicionais com tecnologias contemporâneas cria soluções adaptáveis, acessíveis e sustentáveis. Esse modelo híbrido de ação técnica valoriza o que é tradicional, sem ignorar os avanços tecnológicos globais, promovendo inovações que realmente atendam às necessidades das comunidades.

Faz-se necessário implementar uma rede aberta e descentralizada de cooperação técnica que conecte cidades pequenas, comunidades rurais e povos tradicionais com centros de pesquisa e inovação, facilitando a troca de dados, práticas e tecnologias. Plataformas colaborativas de acesso aberto permitiriam que soluções locais fossem amplamente disseminadas, oferecendo modelos replicáveis de resiliência e adaptação.

Por exemplo, mediante um território propício a tsunamis, podemos elaborar a implementação de sistemas de alerta que utilizem tanto tecnologias de ponta quanto sinais naturais reconhecidos por comunidades locais, como alterações no comportamento animal ou mudanças climáticas perceptíveis, criando um sistema de alerta antecipado que é ao mesmo tempo preciso e culturalmente relevante.

Economia Inclusiva

O financiamento de ações climáticas e de saúde coletiva precisa ser reimaginado sob uma perspectiva de justiça econômica que reconheça a importância dos mundos menores. Os atuais mecanismos financeiros internacionais frequentemente favorecem grandes projetos que beneficiam principalmente centros urbanos e países desenvolvidos, deixando as comunidades mais vulneráveis à margem.

Sugiro estabelecermos fundos descentralizados e de fácil acesso para financiar iniciativas locais de adaptação climática e saúde coletiva. Esses fundos seriam geridos por conselhos comunitários, garantindo que os recursos sejam direcionados para as necessidades reais das populações. A criação de parcerias público-comunitárias, em que empresas privadas se comprometem não apenas com o financiamento, mas também com a cocriação de soluções junto às comunidades, fortaleceria a economia local e incentivaria a inovação.

Projetos de microfinanciamento que apoiem a adaptação climática em pequenas comunidades, como sistemas de captação de água de baixo custo, hortas comunitárias para segurança alimentar, e clínicas de saúde integradas que combinam medicina tradicional e moderna.

Governança Global a Partir dos Mundos Menores

Os desafios da emergência climática e da saúde coletiva não serão superados com mais do mesmo. É necessário romper com o modelo centralizado de governança que privilegia as metrópoles e adotar um novo paradigma, onde os mundos menores são reconhecidos não como beneficiários, mas como protagonistas das soluções globais. Descentralizar o poder político, integrar conhecimentos técnicos locais e criar uma economia inclusiva são passos fundamentais para construir uma governança que seja verdadeiramente global e que responda às complexidades do nosso tempo.

Ao valorizar as comunidades locais e empoderar as minorias, podemos criar um sistema de governança que não apenas enfrente as crises climáticas e de saúde coletiva, mas que também promova justiça, resiliência e inclusão. Esse é o caminho para um futuro sustentável, onde as soluções emergem de baixo para cima, refletindo a diversidade e a riqueza dos mundos menores que formam o nosso planeta.

desenho: autoria própria

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