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Fundamentalismo Contemporâneo e sua Ascensão nas Margens da Exclusão Social

O Fundamentalismo contemporâneo cresce na desigualdade. A grande insegurança social, econômica e, por que não, existencial, que o coletivo humano vivencia atualmente, torna-se um terreno fértil para que esse tipo de pensamento brote. Crescido a isso, temos uma hegemonia de redes de comunicação interpessoal, estruturadas de forma a reforçar esse tipo de pensamento. Exemplificando: muitas pessoas, inseguras de si, buscam respostas absolutas em discursos fechados nas redes sociais, encontram nestas seus pares e ficam alimentando comunidades que repelem o contraditório. Se tornam assim um campo fértil para o dogmatismo e polarização social.

Primeiro, o que considero fundamentalismo quando escrevo aqui: Quaisquer formas de pensar e se organizar socialmente que tenham: rigidez ideológica, busca por uma liderança ou estruturas hierárquicas que reforcem obediência e controle, ausência de diálogo entre as diferenças, gerando intolerância e exclusão e resistência a transformações sociais, culturais e políticas e reforço ideológico com base em dualismo maniqueísta (sempre haverá um mal a combater). Tendo dito isso, percebemos que a leitura não se prende a uma visão religiosa, como o senso comum está acostumado e muito se ampara para tratar o fundamentalismo como algo a parte do seu dia a dia. Quando pensamos, por exemplo, em certos grupos online que se reúnem para definir regras de comportamento e valores morais, percebemos como a força e o controle se sobrepõem à diversidade e ao diálogo, resultando em hostilidade contra qualquer perspectiva que divirja da norma estabelecida pelo grupo.

Regiões historicamente marcadas pela desigualdade, marginalização e falta de infraestrutura tendem a ser mais vulneráveis ​​ao surgimento de pensamentos fundamentalistas. Nas comunidades periféricas, onde a exclusão social é evidente, imagine um jovem que cresceu em um bairro periférico onde o Estado pouco aparece e os direitos básicos são precários. Ao ser privado de acesso digno aos direitos materiais e subjetivos, necessários para o bem-estar, ele busca construir algum sentido de comunidade e segurança.  Diante da perda cultural, abraça portos seguros que lhe são apresentados. E aqui a religião acaba por ter um papel importante. Ao prover um senso de futuro seguro e de paz, desde que seguidos um secto de dogmas, provém a resposta simbólica.  Além disso, cria um elo comunitário entre os fiéis, oferecendo alto material e simbólico ao mesmo tempo.

Em um mundo extremamente mutável e com um futuro imponderado e instável, a necessidade de controle se torna quase um acontecimento natural. Assim, apegar-se a crenças fixas e absolutistas, recusar o dissenso e a contradição como parte da experiência humana na Terra e buscar certezas simplistas servem como defesa psicológica. Um exemplo disso é a tendência que muitos têm de se refugiar em doutrinas, grupos e seitas que oferecem respostas definitivas para suas angústias. Constitui-se no indivíduo o medo da mudança como uma forma de manter sua identidade estável em meio ao caos.

Quando isso se expõe ao coletivo, ele se torna a defesa diante da ameaça aos valores tradicionais e à identidade coletiva. Em um mundo de niilismo e sofrimento extremo, é compreensível que as pessoas queiram preservar os pequenos momentos de paz e amor que sentem em suas comunidades, como uma reunião de vizinhos que compartilham da mesma opinião e rejeitam “ameaças” externas. O elo com nossos iguais. Esse elo é reforçado, por sua vez, dentro de um discurso ideológico (maquinado verticalmente ou organicamente em redes complexas) que prega a homogeneidade do grupo, criando uma visão de “nós contra eles”. Essa visão reforça tanto laços internos quanto hostilidade aos diferentes. Eu sou pois o outro não é. É uma lógica que permite até pequenas interações do dia a dia, como a evidência defensiva de um grupo que se fecha contra críticas externas ou de famílias que se dividem em posições políticas opostas, cada uma vendo a outra como inimiga.

O grande problema deste “eu contra o outro” é que ele alimenta um clima de conflito que, além de reduzir o poder dos laços comunitários, pode extrapolar os limites do diálogo e entrar no circuito da indústria de guerra. Afinal, a lógica dos movimentos fundamentalistas é um ótimo campo de prospecção para manter e expandir seu mercado. Esse tipo de geopolítica do fundamentalismo constrói uma identidade coletiva. A lógica dos movimentos fundamentalistas torna-se um terreno fértil para a manutenção e expansão do mercado armamentista, com as empresas do setor lucrando com a venda de armas que “protegem a identidade ameaçada” desses grupos.

A indústria de guerra e o fundamentalismo muitas vezes se retroalimentam. Assim, a indústria armamentista se aproveita desses cenários para a venda de armamentos, reforçando a narrativa de que o aumento de arsenais é essencial para proteger o Estado ou uma identidade ameaçada. Influenciam políticos e lideranças influentes para promover políticas de militarização, aumentando os orçamentos de defesa, e direcionando-os principalmente para a venda de equipamentos bélicos em larga escala, ignorando as possibilidades de diplomacia, diálogo e estratégia de inteligência. Afinal, a indústria lucra com a manutenção controlada dos conflitos, ocorrendo em escalas diversas desde a construção de porta-aviões e bombas atômicas ao comércio de fuzis que circulam legal e ilegalmente.

Este tipo de geografia global na sociedade contemporânea, nos ajuda a compreender como as periferias globais se tornam reféns passivas ou voluntárias ou até mesmo crentes nestas guerras ideológicas. O fundamentalismo pode nascer em quaisquer frentes que tenham material suficiente para tal: seja ele no conflito Israel Palestina, seja no evangelismo do complexo de Israel sejam nas inúmeras guerras africanas. Também pode ser encontrado em territorialidades como as grandes polarizações políticas cujo debate e construção diplomática se perde para um populismo apaixonado desenfreado que desmonta famílias em festas de natal. O fundamentalismo contemporâneo seca a esperança, sufoca o diferente, mata o outro e usa da miséria e do desespero de muitos para retroalimentar seus podres poderes.

O grande paradoxo está no fato de que: quanto mais íntimos nos tornamos do outro, percebemos que somos muito mais diferentes do que iguais e este é o ponto onde somos humanos demasiado humanos. É exatamente essa diferença que faz os humanos criarem os pontos disruptivos que movimentam a cultura e a vida como um todo. E isso por si já demonstra que, o senso de comunidade gerado em torno dos pensamentos fundamentalistas não é tão comunitário assim, pois não coloca como principal a partilha e solidariedade acima de tudo. Em vez disso, a identidade é construída a partir da existência de um “outro” a ser combatido, e não de um amor fraterno amplo, capaz de, como São Francisco de Assis, abraçar a mãe Terra e todos os seres que nela habitam.

Deixo esse texto como uma humilde reflexão sem muita pesquisa. Deixo-o e sigo no campo que mais me agrada caminhar nos territórios. O campo da contradição, do imponderado e do casuístico. Gosto deste lugar onde o bem e o mal não precisa disputar uma verdade fixa, mas se encontra na caminhada da vida, no jogo e no baile entre os dois. As armas sempre vão encontrar as mãos de um iludido que se acha esperto e as balas sempre vão encontrar o corpo de um pobre que nada tinha a ver com o conflito.

imagem original de Viviane Costa: autora do livro: Traficantes evangélicos: Quem são e a quem servem os novos bandidos de Deus (livro que ainda preciso ler) – link na Amazon Aqui
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Do Trump ao Bolsonaro: Política de Medo e a Ascenção da Era da Inteligência Artificial

A política é um campo das paixões, cujos afetos se constroem, em grande parte, pela linguagem. Seria leviano da minha parte fazer conjecturas definitivas sobre o possível retorno de Trump ao poder. Não falaria em “renascimento”, pois nunca o considerei, digamos, “morto”. O grupo político global ao qual Trump pertence – e é referência – permanece organizado e atuante no sistema contemporâneo. Demonstrando total capacidade de se manter firme em uma rede global.

Embora as redes sociais (muitas vezes taxadas como vilãs) valorizem a polarização e a autorreferência numa busca insólita por reconhecimento individual, não creio que isso explique, por si só, o fracasso do progressismo. Até porque existem redes que não operam nessa lógica, como o Discord, Mastodon, Couchsurfing, Goodreads entre outras. Também considero um exagero atribuir o fenômeno do trumpismo a um conjunto de erros do lado progressista, como se estivéssemos falando de eleições de duas décadas atrás. Prefiro encarar a dura e possível verdade: a pauta de Trump encontra eco nos corações de pessoas muito diversas, em diferentes partes do mundo. Além disso, esses grupos encontraram e aperfeiçoaram as ferramentas de linguagem e comunicação para alcançar esse impacto.

Hoje, em meio a uma mistura de insegurança econômica, mudanças culturais e medo da perda de identidade nacional em um mundo cada vez mais globalizado, abre-se espaço para uma busca desesperada por soluções rápidas e simplistas. É como se quiséssemos frear a Terra para encontrar algum eixo onde possamos ancorá-la.

A retórica de líderes extremistas ou populistas explora o desajuste em relação ao projeto de poder vigente, vendendo esse porto seguro. O modelo de poder articulado em organizações de representação (partidos, instituições, movimentos sociais, raciais, de gênero etc.) parece esbarrar em uma limitação: seu funcionamento exige a criação de uma máscara standard de imagem, capaz de gerar dados para políticas públicas com algum alcance expressivo. Contudo, a padronização, em uma sociedade tão complexa como a nossa, torna-se inviável atualmente. As ações afirmativas, por exemplo, atingem um teto estrutural: jovens cotistas, formados, que não encontram empregos dignos e precisam se lançar no empreendedorismo de sobrevivência, acabam esbarrando nos mitos do “self-made man”, encontrando ali algum tipo de referência para suas vidas.

Diante de um progressismo que não garante a completude da segurança psicológica e encontra limitações, o trumpismo, putinismo assim como o bolsonarismo no Brasil, trazem uma receita fácil para tempos de medo. Sugerem um inimigo comum – mesmo que mal definido –, seguido de um desejo coletivo: unir a nação, sermos “um só povo”, buscar a “grandeza”. Esse desejo, porém, carece de consistência prática, e aí paramos, pois não há soluções, apenas a retórica e a guerra para manter o inimigo comum vivaz nos corações apaixonados por um líder caricato.

Sugiro aqui, o retorno à linguagem como tema. “Palavras têm poder”, já dizia o profeta… ou talvez tenha sido minha avó, durante a infância. Uma das grandes viradas de chave em 68 foi a percepção das mudanças sociais: onde estavam os desencaixados no mundo polarizado pela guerra fria? Os desajustados? Essa discussão, sei, já está batida, porém ainda não solucionada. Somada a ela reside minha nova preocupação: os avanços da inteligência artificial podem concentrar ainda mais o poder político e econômico nas mãos de um pequeno grupo de pessoas ou corporações que controlam os dados e a tecnologia.

O paradigma da IA traz uma transformação radical na forma de acumulação de poder e exploração do capital, em contraste com o modelo de produção industrial. Antes, o capital dependia diretamente da força de trabalho humano; agora, a IA reduz essa dependência ao automatizar tarefas e dispensar a intervenção humana em diversas etapas produtivas. Grandes corporações e governos acumulam esses recursos, monopolizando os meios de produção e elevando a concentração de riqueza a níveis jamais vistos.

Essa mudança aprofunda o controle social e psicológico, com algoritmos que monitoram e manipulam preferências, criando uma nova “mais-valia comportamental”. A IA explora desejos e comportamentos de consumo, ampliando o lucro de forma indireta ao influenciar escolhas e subjetividades. O mercado de trabalho também sofre um impacto estrutural: o desemprego cresce com a substituição de trabalhadores por automação, e os empregos restantes tendem a ser mais precarizados, sem os direitos e o poder de organização típicos da era industrial. E a sobrevivência, o empreendedorismo real, torna-se a fusão completa de vida-trabalho-consumo, onde o made-yourself é a auto exploração e objetificação de si mesmo. Resta a humanidade que vive da sua força de trabalho, se auto vender enquanto objeto, retroalimentando as grandes plataformas que geram lucro. Seu novo trabalho nesta indústria é ser o próprio produto final vendido por ela.

Resistir às práticas exploratórias torna-se cada vez mais difícil.

Com a dissociação entre valor e trabalho, o paradigma da IA rompe o ciclo de reprodução do capital como o entendemos. A acumulação de riqueza continua sem a necessidade de redistribuir valor por meio de salários, uma vez que o capital pode ser reproduzido por máquinas e algoritmos. O capital, assim, torna-se menos dependente do trabalho humano, o que amplia as desigualdades e centraliza ainda mais o poder sobre a vida social e política. A IA impõe um desequilíbrio profundo ao sistema capitalista, redefinindo as bases da exploração e o papel da força de trabalho na sociedade.

Estamos diante de uma luta algorítmica que passa pela linguagem. Não é sensato pensar que a interface da IA ou das redes sociais seja um mero processo de manipulação; acredito que o maior desafio é perceber que elas criam camadas de existência relacional. Interfaces, mundos dentro de mundos. São novos territórios que se sobrepõem e se aproveitam do fato de que o espaço virtual, diferente do real, é infinitamente expansível em dimensões possíveis.

Hoje, as redes sociais permitem que os desencontrados e descontentes encontrem seus pares para dialogar e se organizar. Um jovem imigrante palestino, por exemplo, que não se sente representado pelas políticas de guerra do partido democrata, pode buscar apoio online. Mesmo que esse partido financie a guerra de Israel, ele acaba escolhendo Trump – alguém que, ironicamente, poderia deportá-lo para o centro do conflito, sem frear as ações israelenses. No entanto, em um futuro próximo, a IA poderá ir além: ela será capaz de criar personas virtuais que simulam uma presença real nesses debates.

Conclusão

Diante de um mundo repleto de inseguranças de futuro, surge um processo extremamente concentrador. A evolução de uma mais-valia comportamental, que já era prenunciada pela turma de maio de 68, capturada pelas redes algorítmicas trazem à tona um controle constante e  sutil sobre a exploração da vida. Ampliando o controle psicológico por meio de tecnologias cada vez mais intrusivas.

A ameaça iminente é de um aumento das desigualdades estruturais e da concentração de poder nas mãos de corporações e elites políticas, tendo a IA como ocorrência desse processo. Ao redefinir as bases do trabalho e da acumulação, estamos testemunhando um desequilíbrio que pode alterar de forma irreversível a sociedade, reforçando uma natureza paradoxal do progresso tecnológico.

Precisamos retomar a linguagem como pauta e construir a premissa ética sobre a automatização do mundo e o controle algorítmico, enquanto os avanços estão acontecendo. Este novo controle da linguagem nos permitirá organizar minimamente um futuro de segurança no tecido social e econômico da Terra.

Nestas semanas onde o Rio prepara-se para receber o G20 cabe a nós ter este tipo de debate na pauta. A democratização do kernel, a abertura dos códigos e a disputa urgente do direito a esta nova linguagem.

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Arquitetura e Bioeconomia: Caminhos para um Brasil Sustentável

Proponho uma leitura possível de Brasil que integre três conceitos interessantes para projetarmos novos tempos, na verdade dois conceitos e o meu ofício: bioeconomia, biossegurança e arquitetura. Embora esta construção exija uma base de pesquisa acadêmica sólida para um aprofundamento efetivo, pretendo humildemente oferecer uma abordagem que funcione como ponto de partida para reflexões e ações. Neste texto, tento conectar esses conceitos para pensarmos em um desenvolvimento sustentável capaz de unir a alta tecnologia e a industrialização necessária com a preservação ambiental e inclusão socioeconômica, em um país periférico e vulnerável como o Brasil.

O Brasil, com sua biodiversidade e populações vulneráveis ao lado de atividades industriais, precisa se apropriar dos conceitos de bioeconomia. Este é um ponto crítico, pois ainda não há um marco regulatório para a bioeconomia, e estamos lidando com um campo repleto de violentas disputas, que frequentemente vitimizam os povos mais vulneráveis, povos estes que deveriam ocupar o protagonismo das políticas nacionais de manejo sustentável. Assim, é crucial instrumentalizar juridicamente o país para que os conhecimentos locais sejam integrados aos processos industriais sem exploração cultural e econômica de povos vulneráveis, possibilitando colaboração para todos.

A bioeconomia surge como um modelo potencial para unir tecnologia, sustentabilidade e uso racional dos recursos biológicos, apontando para um desenvolvimento mais sustentável. Políticas públicas e linhas de crédito específicas podem fornecer suporte essencial a essas populações, promovendo estratégias de desenvolvimento que conectem alta tecnologia e economias locais sem comprometer a autonomia das comunidades.

No contexto brasileiro, setores industriais como o farmacêutico, o petrolífero e o alimentício poderiam atuar em sinergia com economias populares, valorizando saberes tradicionais de comunidades indígenas e ribeirinhas. Contudo, implementar essa visão encontra desafios práticos e requer soluções que viabilizem essa interação de forma justa.

Alcançar uma industrialização avançada e sustentável depende de alinhar o desenvolvimento tecnológico aos princípios da bioeconomia, inclusive para atrair investimentos. Comunidades indígenas e ribeirinhas podem oferecer conhecimentos valiosos às indústrias farmacêuticas e alimentícias, desde que seja garantido seu protagonismo e seguridade de direitos na gestão do patrimônio genético e dos saberes tradicionais, criando um ciclo de respeito às práticas culturais e ao território.

A pandemia de covid 19 nos ensinou sobre outro saber fundamental contemporâneo. A biossegurança envolve ações e métodos de contenção de riscos biológicos, como barreiras físicas e medidas operacionais para evitar a liberação de agentes prejudiciais ao ambiente e à saúde pública. Embora esse conceito seja aplicado sobretudo em indústrias e laboratórios estratégicos, ele pode se expandir para o urbanismo, ajudando a tratar das fronteiras entre o urbano e o rural, o construído e o natural. Há potencial para desenvolver uma mentalidade projetual que centralize a saúde pública e coletiva nas decisões de planejamento territorial e arquitetônico.

O Brasil possui um potencial estratégico em bioeconomia, mas esse potencial exige investimentos estruturais de grande escala. Por meio de um planejamento urbano bioeconômico, cidades brasileiras podem avançar no uso sustentável dos territórios, preservando biomas e gerando renda local, evitando a expansão urbana em áreas preservadas e espraiamento desenfreado. Espaços urbanos com jardins comunitários e agricultura urbana fortalecem a coesão social e a segurança alimentar, assim como o uso concomitante de parte do sistema industrial que permite a massificação da produção girar em favor de produções de escala menor. E o desenvolvimento arquitetônico sustentável pode promover inclusão e mitigar os efeitos massivos das mudanças climáticas.

A estruturação desse futuro bioeconômico requer políticas públicas consistentes. Incentivos, linhas de crédito e centros de pesquisa são fundamentais para conectar o conhecimento científico aos saberes tradicionais, racionalizar os riscos das ações nocivas à natureza por parte da industrialização e fomentar no seio da sociedade o valor agregado em torno de uma vida mais verde. Fortalecer a engenharia nacional para garantir a infraestrutura tão sonhada do país, as redes educacionais e as redes de solidariedade é vital dentro deste projeto.

Integrar biossegurança, bioeconomia e arquitetura representa uma transformação estrutural profunda. É um projeto de longo prazo que depende de políticas sólidas e da colaboração entre setores diversos, incluindo e relacionando comunidades e indústrias. Com sua biodiversidade e riqueza cultural, o Brasil possui uma vantagem única para desenvolver modelos que possam servir de referência global. Essa é uma oportunidade que exige planejamento, mas que pode fundamentar um futuro sustentável e inclusivo.

Construir um Brasil que valorize inovação, preservação ambiental e justiça social depende de abordagens colaborativas que promovam uma economia inclusiva e responsável. O valor da bioeconomia está em disputa no mundo, e é imprescindível que os povos mais vulneráveis estejam organizados e constituam força política para disputar os marcos regulatórios e implementar sistemas de segurança jurídica que defendam a biodiversidade. O papel do arquiteto, nesse contexto, pode ser o de apoiar a criação de valores e relações espaciais que defendam solos protegidos, nascentes, terras indígenas demarcadas, reflorestamento, soluções urbanas e tecnológicas de baixa poluição. Para que essa transição verde ocorra, o papel da arquitetura e do urbanismo pode ser crucial, pois traduz em materialidade espacial as demandas e fomento das práticas de bioeconomia.

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Caminhos para Sobrevivência e a Urgência de uma Revolução Ambiental

Vivemos a intensidade de um novo mundo que se desenha entre tragédias. Este momento nos empurra para a borda de um novo modelo de vida, potencialmente transformador. Pela primeira vez, enfrentamos crises que atravessam a geografia desigual do planeta; o que antes parecia ficção, agora arrasta o coletivo.

A pandemia foi o primeiro grande alerta: um sinal de que as políticas públicas precisam superar fronteiras para alcançar essa nova esfera de interdependência. Em um passado recente, o pensamento progressista abandonou as disputas classistas e centrou-se na inclusão, na equidade, na justiça social, buscando a inserção democrática dentro do capitalismo. Hoje, porém, é inevitável incorporar à pauta uma dimensão ampliada que recupere o centro da discussão da produção e da desigualdade e inclua a crise ecológica – é na racionalidade sobre produção e consumo que repousa a sustentabilidade social, vital para a vida na Terra.

Sem essa dimensão, o sistema revela-se um organismo exausto. As enchentes em Valência são um retrato disso: a vasta extensão de terra tomada pelas águas grita uma realidade incontestável – não estamos prontos para os desastres naturais da era da superexploração. E no sul do Brasil, as chuvas caem sem distinguir no território, o recorte de classe. Desaba sobre todos, ainda que os mais ricos encontrem alguma proteção. Mas todos, sem exceção, sentem algum peso da tragédia.

Viver numa sociedade focada em mitigação e inclusão não resolveu o cerne da questão: o próprio modo de produção e reprodução do sistema está desalinhado com a capacidade de equilíbrio do planeta. A intensidade dos efeitos naturais sobre a vida humana exige uma ruptura, uma pausa que permita recomeçar – algo que soa utópico, até mesmo na literatura.

Contudo, é preciso lembrar: as tragédias globais apontam para a urgência de um modelo transformador. Crises são janelas para redesenhar o presente. A justiça climática poderia ser a base de um novo modelo, onde o poder econômico serve à sustentabilidade e à inclusão, rompendo o ciclo de exploração que multiplica as tragédias sociais e ambientais.

A pandemia nos deixou um eco profundo da fragilidade global e demonstrou a imensa necessidade da interdependência entre políticas públicas, saúde e sustentabilidade. O caminho aponta para a busca de sistemas de saúde integrados e políticas que criem uma “saúde planetária”, capaz de prever e mitigar futuras pandemias, reconhecendo o laço estreito entre degradação ambiental e zoonoses. Esse novo olhar sobre a vida – sistêmico, ecológico, preventivo – surge como urgência.

Asimov nos lançou um interessante paradoxo sobre tecnologia: “O fogo é perigoso a princípio, assim como a fala (…) mas os humanos não seriam humanos sem eles.” A tecnologia é parte do que nos define, ao mesmo tempo nos desafia. Em vez de apagá-la, devemos redirecioná-la, fazê-la pulsar por metas coletivas e planetárias, onde “techné” recupere seu sentido grego de habilidade útil, arte, equilibrada com a razão. Assim, não é a inovação tecnológica em si o problema, mas a ética que a rege.

Poderíamos então nos dedicar a outra ciência, uma ciência do ofício, do sensível e do toque ancestral. Em um mundo que se despedaça, recuperar o manejo sustentável da terra e dos biomas é inovador. A justiça ambiental emerge como uma expansão da luta por equidade, elevando o direito à vida para além da humanidade. A superexploração é um elemento a ser reescrito, com a diminuição das práticas extrativistas e a adoção de práticas regenerativas, ainda que isso traga rupturas profundas na organização global atual.

Adoramos a ciência moderna, que nos deu anos a mais de vida. Mas a imortalidade não é um parâmetro humano alcançável. Precisamos, talvez, de uma ciência que valorize a vida enquanto coletividade, que enxergue o humano demasiado humano enquanto um ser múltiplo, que deixe uma história viva após nossa passagem. Reconstruir escalas de valor, sem o romantismo de que a ação individual é o bastante. Um novo pacto passaria primordialmente pela articulação entre indivíduos, instituições e culturas. Formação de redes, encontro entre muitas vozes, ativismos locais, lideranças globais, são muitas as frentes que disseminam o caminho possível.

Há um desejo forte, de parte de lideranças globais, de estruturar uma governança para as grandes crises; mas essa iniciativa precisa das raízes locais, comunitárias. Precisamos atingir a microescala, aprender com a natureza a respiração de seus ciclos. Retomar o encontro do relógio maquínico com o tempo sagrado dos astros.

Alguns mitos e símbolos ancestrais nos ensinam sobre valores sustentáveis. Povos originários, em suas relações simbióticas com o sagrado da natureza, trazem outra ética. Em movimentos de direitos da natureza, como no Equador e Nova Zelândia, rios e florestas têm voz. Esse novo olhar ecológico, ao reintroduzir os mitos no debate ambiental, nos afasta da visão instrumental da natureza. Não falo sobre dogmas, verticalidades de pensamento, mas sobre o saber do sensível, da capacidade de religar-se com o que importa.

A urgência é, então, costurar a rede existente de forma que ela se entrelace com a governança global e local. Dar voz aos modelos de gestão e resistência que permitam decisões políticas concretas, enraizadas na realidade das micro escalas. Redes como o Navdanya, Pachamama.org, Rede Ambiental Indigena, Seed Freedom, Global Forest Coalition, Via Campesina, entre outros, nos permitem conhecer outros mundos possíveis. Mundos capazes de tentar frear o ciclo devastador e realinhar nosso modo de viver com as possibilidades reais do planeta.


Ultimo pedaço de terra livre

No alto dessa colina estamos reunidos sob o céu carregado. Somos camponeses, cientistas, poetas e anciãos de diversas etnias, unidos pelo propósito que nos sobrou. Transformar essa colina em um santuário de resistência e renascimento. Sem certeza de nada, apenas uma missão clara: desacelerar o tempo. Queriam, como quem retém a respiração, reconfigurar a existência.

Sentimos o peso da crise em cada camada da pele, mas ali, no silêncio coletivo, começamos a compreender o real significado do vínculo entre terra e vida. A humanidade, percebe atônita, não poderia sobreviver sem mudar o curso de seus passos.

Ali, plantamos as últimas sementes que nos alimentavam. A “ciência do toque”, técnica ancestral de cultivo e afeto com o ecossistema local. Ao lado do plantador, cientistas traduzem aquele saber em dados, replicáveis e espalháveis para outras comunidades. O que germinou em nós, espalhamos pelo mundo, como um fogo que arde em nome da cura. Será que há outros de nós por aí?

E no murmurar da madrugada que já não ve estrelas, em torno da fogueira debatemos um futuro onde a economia serve à terra e não o oposto. No silêncio da urgência,  esta é uma revolução do sensível. Se um dia o futuro existir, começaria exatamente ali, sob o céu em murmúrio e o último solo fértil e livre. Ali respiramos o tempo calmo das sementes.

autoria própria: ultimo pedaço de terra livre

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Leopoldina sitiada: Cidade Maravilhosa Despedaçada

O Rio de Janeiro é uma cidade que constantemente desafia a nossa capacidade de se chocar. A mais recente dessas provocações veio na forma de um vídeo: um cidadão baleado na cabeça, sentado dentro de um ônibus na Avenida Brasil, em um dia marcado por intensos tiroteios que sitiaram cinco bairros inteiros. Em respeito à dignidade da vítima e de todos nós, me recuso a compartilhar essas imagens.

Cinco estações ferroviárias foram fechadas: Penha Circular, Brás de Pina, Cordovil, Parada de Lucas e Vigário Geral. Além disso, 35 linhas de ônibus tiveram suas rotas fortemente alteradas ou suprimidas. Com isso, a conexão entre a Zona Oeste, a Zona Norte, a Baixada Fluminense e o Centro da cidade ficou seriamente comprometida, sob a constante ameaça de violência.

O bairro de Brás de Pina, parte da Vila Guanabara, conhecida como a “princesinha da Leopoldina”, tem uma história marcada por sua pujança econômica. Seus casarios neocoloniais e o traçado urbano que, visto de cima, lembra uma colmeia, fazem parte de uma área que também abriga uma comunidade que resistiu às remoções da era Lacerda e foi palco da primeira urbanização de favelas da cidade. Porém, hoje, esse território luta para sobreviver à expansão de um poder paralelo que se alimenta do fundamentalismo.

Há uma incompreensão generalizada sobre o que realmente compõe o chamado Complexo de Israel. Muitos reduzem sua presença apenas às áreas de favelas, mas o fenômeno se estende também às áreas formais dos bairros, controlando grandes glebas e impactando toda a região. Desde 2009, venho afirmando: se o fundamentalismo se enraizasse no Brasil, seria a partir do neopentecostalismo. O que vemos no comando do “Exército de Israel” é a materialização desse presságio. Bairros inteiros estão sob seu domínio, com tecnologia bélica de ponta, oferecendo uma gama de serviços básicos e impondo regras próprias sobre o território. O grande dilema é que, ao contrário de uma ocupação meramente estratégica e material, o Complexo de Israel opera em uma espécie de guerra santa, como se parte da Zona da Leopoldina tivesse se tornado uma representação de uma “Israel divina” sob a qual todos temos de nos submeter.

O mais impressionante é o aparente desinteresse do poder público em assumir a responsabilidade que lhe cabe: retomar o controle territorial. Essa ação deveria superar qualquer divergência ideológica, pois a realidade é simples e direta: onde o Estado não exerce seu poder de governança, outros poderes assumirão esse papel. Nesse território, fica nítido que o Estado perdeu o controle.

Não adianta aqueles que influenciam e organizam economicamente esta cidade tratarem este problema como um mal menor. O aparato publicitário que favorece as políticas de cidade criativa, hub cultural, cidade global e turística não se ampara quando imagens como as do dia de hoje se tornam um padrão da cara da cidade. É preciso que estas forças econômicas compreendam que um problema de Brás de Pina, da Cidade Alta, de Cordovil, de Lucas é um problema da cidade, tal qual o é o problema do Leblon, de Ipanema, Catete. Não há campanha de Cidade Maravilhosa que resista a tragédia humana que está sendo o dia de hoje para esta região.

A Terra de Pixinguinha, está gritando socorro, sequestrada e sitiada pela loucura da barbárie de um projeto de Brasil que deu errado. Povo sem acesso a escola, transporte, segurança, saúde, espera a pausa das balas, um momento imponderável, para arriscar-se nas ruas em busca de sua luta diária por sobrevivência, sem saber se no fim do dia chegará em casa. Sabemos que a saída não é simples e precisará de uma ação sistêmica, trazendo para as decisões vários atores sociais. assistência social, segurança pública, poderes econômicos, entre outros precisarão operar em uma modelagem de estado que recuperem o território e o desejo de vida dos citadinos transformar novamente o espaço que hoje é do medo, em um lugar desejado pelos seus.

A gramática da guerra santa, da intolerância religiosa e do controle divino sobre o território apagam quaisquer possibilidade de reconstrução popular. Aos que moram nestes bairros tem restado o medo diário e a nostalgia de dias melhores que já foram vividos, dias que Dolores Duran aprendeu a tocar piano na aprazível princesinha da Leopoldina.

foto de autoria própria: Avenida Arapogi e suas águas.
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Policrise e desigualdade social: emergência de uma politica global complexa

Lendo o relatório “Global Economic Prospects – June 2024”. Ele revela os desafios econômicos globais e a crescente disparidade entre economias desenvolvidas e em desenvolvimento, destacando a necessidade urgente de uma abordagem coordenada e inclusiva para reduzir as desigualdades econômicas e sociais que se aprofundaram após a pandemia de COVID-19. O relatório aponta que o crescimento global projetado de 2,6% para 2024 demonstra um ritmo insuficiente para transformar significativamente as condições de vida em muitos países em desenvolvimento. Essa diferença acentua as dificuldades enfrentadas pelas economias pobres, que, apesar de abrigarem a maior parte da população mundial, encontram barreiras para atingir um desenvolvimento econômico sustentável, mantendo a desigualdade historicamente parametrizada.

A persistência das desigualdades é notável, com quase metade dos países em desenvolvimento sem perspectivas de reduzir a disparidade de renda em relação às economias avançadas até 2024. Essa situação reforça o constante ciclo de pobreza e dificulta investimentos em setores essenciais, como saúde, educação e infraestrutura, que são fundamentais para o desenvolvimento humano e a melhoria da qualidade de vida. Em meio a isso, é importante enfatizar o papel do investimento público como um motor de crescimento e inclusão econômica, especialmente em países pobres, onde a infraestrutura básica ainda é uma necessidade que precisa ser universalizada. No entanto, a eficácia desses investimentos esbarra na falta de uma gestão pública eficiente e transparente, algo comum nas economias mais vulneráveis, onde a má alocação de recursos, disputas ideológicas sem planejamento e a busca do poder pelo poder perpetuam o status de subdesenvolvimento.

Adicionalmente, vemos no mundo de hoje uma vulnerabilidade em redes de muitas entradas, desde pequenos estados e economias em conflito até povos que enfrentam desastres naturais cada vez mais frequentes, fruto das mudanças climáticas, além do surgimento de ciclos de pobreza e de crises endêmicas cada vez mais recorrentes.

O conceito de policrise surge como um destaque interessante, apontando que essas crises não devem mais ser lidas de forma isolada, mas, ao contrário, se entrelaçam, gerando efeitos multiplicadores que evidenciam e potencializam a vulnerabilidade dos sistemas globais. Esse entendimento sistêmico é essencial para lidar com crises que se reforçam mutuamente, como a pandemia, as guerras e as mudanças climáticas, que, ao interagirem, amplificam problemas como a inflação global, a insegurança alimentar e a instabilidade geopolítica.

Os mecanismos sistêmicos contemporâneos demonstram como uma crise pode desencadear outras em uma sequência que foge ao controle, criando ciclos de deterioração coletiva. Diante disso, as respostas tradicionais de política, focadas em problemas isolados e em uma visão especializada, são insuficientes para lidar com a profundidade e a complexidade das crises atuais.

Para piorar, cerca de 40% dos estados pobres estão sob elevado risco de crise de dívida, limitando suas capacidades de investir em áreas críticas. A situação desses países evidencia a necessidade de apoio internacional, tanto para garantir a estabilidade financeira quanto para fortalecer sua adaptação às mudanças enfrentadas pelo planeta. Nesse contexto, a cooperação internacional deveria assumir a responsabilidade de mitigar desigualdades, promover a transição para uma economia mais verde e digital e reforçar a segurança alimentar como um direito à dignidade humana e à vida. No entanto, as tensões geopolíticas e a fragmentação das políticas comerciais dificultam a implementação de uma agenda global colaborativa. Resumindo: diante de momentos de crise, uma parte gigante dos poderes globais age como: “se o peixe é pouco, meu pirão primeiro”. Um entendimento tolo que não percebe que o problema do outro também é um problema nosso.

Sugerimos a urgência de políticas de longo prazo que priorizem a inclusão social, a redução da pobreza e o desenvolvimento sustentável para alcançar um crescimento mais equitativo. Esse é um sonho de inúmeros intelectuais, políticos sérios e agentes diversos no planeta. Um diferencial diante disso é que as políticas precisam considerar a interconectividade das crises e buscar soluções integradas, abordando simultaneamente todas as vulnerabilidades dos sistemas globais. Isso significa, por exemplo, que a formulação de políticas climáticas, além de mitigar emissões, precisa ser capaz de enfrentar os impactos sociais e econômicos das mudanças climáticas. A insistência em soluções fragmentadas tende a perpetuar ciclos de crises mal resolvidas, levando à repetição de problemas em uma escala e intensidade cada vez maiores.

Quando pensamos nas políticas de redes complexas como uma possibilidade de resposta à crise, podemos considerar que essas políticas representam um caminho para lidar com os muitos problemas contemporâneos, propondo uma governança que considere as múltiplas camadas de desafios. Integrar diferentes frentes de ação e fomentar uma cooperação mais ampla entre nações pode ser uma chave para atenuar os impactos das crises e construir uma base de resposta global. Assim, a reflexão que surge é: como estruturar políticas de redes complexas que sejam efetivas em um cenário de incerteza e fragmentação global? A resposta a essa questão não parece simples, mas pode delinear o futuro das relações internacionais e do desenvolvimento econômico sustentável, buscando um equilíbrio entre progresso e inclusão social em um mundo cada vez mais interconectado.

Foto-montagem: Zeca Pagodinho discursando sobrea vida na ONU.
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Do Lamento da Ciência Solitária ao Êxtase do Abraço Coletivo

Tomo a liberdade de remixar um termo citado por Darcy Ribeiro em uma entrevista para refletir sobre a ciência e seu papel na sociedade. A ciência enfraquece quando se torna o território dos “cavalos de santo” da intelectualidade.

O campo acadêmico e científico é um dos pilares mais promissores da estrutura social contemporânea. Talvez o melhor investimento que a humanidade possa fazer esteja naqueles que se dedicam à experimentação, à pesquisa e ao desenvolvimento. Esses indivíduos arriscam-se no terreno das hipóteses, buscando inovações que transformam o mundo. Contudo, esse campo encontra-se hoje estruturado sob uma lógica de exploração e alienação, refletindo a organização de todo o sistema econômico. Se antes reverenciávamos a intelectualidade, como quem presta tributo a uma divindade, hoje nos deparamos com cientistas altamente precarizados, dedicando praticamente 24 horas por dia a seus projetos, enquanto enfrentam depressão, burnout e crises financeiras.

A realidade é dura: sem desmerecer outras profissões, eu, Rodrigo, com meu diploma de técnico em elétrica, consigo um emprego com um salário superior ao de uma bolsa de doutorado, e de forma relativamente confortável.

No entanto, não pretendo me aprofundar aqui na crise material, pois ela caminha ao lado de outra, ainda mais complexa e subjetiva. Um paradoxo emerge: a ciência e a produção de conhecimento são, por natureza, processos coletivos, contínuos e sem fronteiras. Contudo, o exercício científico, quando organizado como um sistema de produção formal, tornou-se altamente competitivo, individualista e solitário.

As publicações científicas, hoje, perecem ao valorizar mais o rigor da formatação, a citação de autores consagrados e a quantidade de títulos acadêmicos do que os resultados verdadeiramente inovadores e de impacto social relevante. Esses artigos são revisados por pares, em processos lentos e custosos, que muitas vezes limitam o acesso aos próprios resultados da pesquisa. A ciência se perdeu naquilo que criticava: tornou-se hermética, o território de poucos iluminados. A quantidade vale mais que a qualidade, e o furto de trabalhos, ideias e dados é uma constante, um verdadeiro campo minado. A ciência, que deveria ser um empreendimento coletivo, compartilhado entre aqueles que se dedicam ao seu avanço, foi reduzida a uma luta solitária por financiamento e reconhecimento. Nesse contexto, muitas vezes falta a abertura para o diálogo e a colaboração entre pares, assim como a coragem para assumir riscos e explorar caminhos menos convencionais.

autoria própria: Stephen Hawking e o Pequeno Príncipe conversando sobre o universo

Produzir conhecimento, por sua vez, é algo que fazemos continuamente. O maior desafio do indivíduo é ter a coragem de se lançar ao risco, diante de um sistema que aprisiona e formata a vida científica. Para além das universidades e dos centros de pesquisa, há saberes que nascem nas comunidades tradicionais, nas práticas cotidianas, nas trocas entre trabalhadores e em movimentos sociais que enfrentam desafios locais com soluções criativas. Esses conhecimentos têm suas próprias metodologias e princípios, muitas vezes transmitidos oralmente ou por práticas de convivência, como é o caso do conhecimento de povos indígenas sobre o manejo sustentável da terra ou das experiências comunitárias de cooperativas urbanas.

A estrutura científica contemporânea alcança resultados, mas, para isso, limita a existência da vida ao não se permitir costurar a trama dos muitos estímulos sensoriais que ritualizam a experiência humana na Terra. Falta à ciência o toque fino na vida e no outro, algo comum aos poetas, aos esotéricos, às culturas mais tradicionais.

O reconhecimento acadêmico desses saberes ainda é limitado. Muitas vezes, o que não se adequa aos rigorosos critérios de validação científica acaba sendo subvalorizado ou considerado anedótico, mesmo quando essas práticas trazem respostas concretas para problemas ambientais, sociais e econômicos. Rezadeiras, cartomantes, yogues tântricos, praticantes de tai chi, meditação e herbalistas são desconsiderados como parte da formação do saber.

É justamente nesse ponto que surge a necessidade urgente de reimaginar a ciência como um espaço de liberdade intelectual, onde o risco e a colaboração estejam no centro. Reimaginar a ciência significa, também, resgatar a noção de que o conhecimento científico não é um fim em si mesmo, mas um meio para melhorar a vida das pessoas, construir soluções coletivas e responder às crises que atravessamos enquanto sociedade global. Significa criar espaços em que cientistas possam trabalhar sem a sombra constante da precarização e da pressão por métricas de impacto. A experiência da pandemia de COVID-19 mostrou o valor de esforços colaborativos, como as coalizões internacionais para desenvolvimento de vacinas, demonstrando que, diante de grandes desafios, a união de esforços e a abertura de dados podem gerar avanços rápidos e transformadores.

É fundamental também repensar os critérios de avaliação científica, valorizando a qualidade do impacto social dos projetos e o compromisso com questões urgentes da população mundial fragilizada. Importa menos os santos da ciência, e muito mais os dispositivos que eles trazem e as formas como os utilizamos.

O próximo salto está aí, a meu ver: construir uma ciência aberta ao diálogo, ao risco e ao compartilhamento de saberes, onde a criatividade possa florescer. Com esses passos, talvez possamos resgatar a esperança de que a ciência, em sua diversidade, possa novamente ser um território de construção de um mundo mais justo para todos. Fazemos ciência nas conversas de bar, nas trocas cotidianas e na observação dos momentos simples de prazer e boas risadas.

No encontro entre o saber acadêmico e os conhecimentos que emergem dos povos, há um toque sutil, como um fluxo que pulsa entre a racionalidade e a intuição, tal como a respiração que conecta os corpos ao espírito. A ciência, ao abrir-se para esse toque, transcende seus recalques e mergulha num campo onde cada descoberta se torna um ato libertário de entrega, de diálogo com o desconhecido.

Ali, dissolve-se o ego sofrido do pesquisador isolado, dando lugar ao movimento coletivo, onde o risco é uma forma de êxtase e a colaboração entrelaça razão e sentimento. Assim, a ciência pode se transformar num espaço relacional, onde cada troca expande os limites da compreensão, ecoando um desejo profundo de alcançar e tocar, mesmo que de leve, a pulsação da vida real.

viva o SUS!!

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Algoritmos Sociais: Quem Escreve as Regras que nos Guiam?

Dando sequência ao texto anterior, sigo explorando temas que não inseri naquele, mas que refleti a partir da literatura de Asimov (somado às outras coisas que li na vida).

Podemos definir algoritmo como uma sequência finita de instruções claras, quando seguidas, levam à solução de um problema ou ao alcance de uma meta. A partir dessa ideia, gostaria de explorar o conceito para além de sua conotação técnica e matemática. Pensando no algoritmo como um paradigma global, podemos agenciá-lo como um processo estruturado, onde as condições iniciais geram resultados previsíveis a partir de alguns passos lógicos.

Podemos, então, falar em “algoritmos sociais”?

Esse é o ponto central deste texto. Vale lembrar que este é um texto reflexivo, e não uma pesquisa científica formal. Com isso, dou-me a liberdade de explorar ideias originais, sem a necessidade de rigor científico, ainda que seja uma tentativa de produzir conhecimento, e dou-me também o direito de estar equivocado. Voltemos, então, às elucubrações.

Uma “organização algorítmica” da vida implicaria na existência de regras e padrões que regem o comportamento coletivo e individual em uma sociedade. Pensando assim,  convenções sociais, normas culturais e até sistemas econômicos podem ser vistos como algoritmos sociais, pois seguem preceitos que moldam as interações humanas.

As redes sociais são um exemplo contemporâneo de como os algoritmos impactam a sociedade. Eles filtram, priorizam e promovem informações, influenciando comportamentos e opiniões. Surge, então, uma crise: estamos sendo controlados pelas corporações que detêm os algoritmos?

Expandindo essa reflexão, podemos dizer que qualquer contexto social com processos estruturados de interação ou decisão opera dentro de “algoritmos sociais”. Eles podem ser explícitos, como regras de conduta, ou implícitos, como preconceitos culturais que orientam decisões.

Legislações, por exemplo, podem ser vistas como uma forma de algoritmo social, pois estabelecem regras formais que orientam as ações das pessoas. Assim como um algoritmo processa informações de maneira determinística, as leis processam entradas legais e produzem saídas específicas, como sanções ou recompensas. O novo aqui não está apenas em controlar o ambiente, mas nos corpos e nas disputas que se dão dentro desse ambiente.

No caso dos algoritmos digitais, seu impacto é evidente na circulação da informação, influenciando decisões políticas e de consumo. Eles intensificam a desterritorialização e criam rupturas nos contratos sociais e democráticos.

Diante disso, surge a questão da neutralidade desses sistemas. Assim como os algoritmos digitais carregam intenções e vieses, as leis são escritas por pessoas com poder político e econômico, refletindo interesses e desigualdades. A velha máxima prevalece: quem controla a escrita, detém o poder.

Mas, se não sabemos quais regras nos guiam, como saber para onde estamos sendo levados? Aqui surge um equívoco comum: assumir uma regra: o controlador é inimigo e negar o sistema por completo. Fechar o mundo iniciado por Alan Turing é impossível, uma luta quixotesca. A disputa concreta creio que está no direito à escrita, no poder de sermos os autores de nossas próprias leis.

Assim, o discurso das redes abertas precisa ser retomado. Devemos trilhar dois caminhos: a curto prazo, compreender os algoritmos que nos cercam; a médio prazo, garantir o direito de escrever nossos próprios algoritmos.

No conto Andando em Círculos, de Asimov, o personagem principal, diante de um movimento robótico que parecia um bug, precisa fazer uma operação inteligente. Ele para, lembra das três leis da robótica, investiga o fato estranho e a partir do debruçar intelectual encontra uma saída original para si. O conto não mostra que, ainda que um algoritmo tenha sido produzido pra dar um resultado enviesado, ele possui linhas de fuga diante da investigação profunda e original.

O filme Bill e Ted é outro que explora de maneira divertida o poder do algoritmo. Bastou uma regra resumida em uma frase adolescente, e o futuro encontraria a paz mundial: “Sejam excelentes uns com os outros”.

A disputa urbana de uma smart city passa por aí, disputarmos o sistema lógico de gerenciamento automatizado da cidade, sem negá-lo como algo útil. O que precisamos é fazer parte de quem governa a produção das regras, ou ao menos ter as regras escritas de forma aberta para que possamos investigar os processos.

Estudar os algoritmos, tanto em seu sentido técnico quanto social, nos ajuda a entender como sistemas de regras influenciam a dinâmica social, muitas vezes de maneira invisível ou intencionalmente projetada. Também nos aprimoramos para construir os novos sistemas de interação política e social que virão a estruturar o mundo. O grande barato é vermos que algoritmo não é algo novo, hermético e complexo. O que não faz torna-lo um vilão, é que estamos excluídos do direito de comunicação, que por sua vez dificulta um direito de ação.

Desenho autoria própria só para alegorizar o texto.
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Política em Rede: do Esgotamento das Estruturas Tradicionais ao nascimento prematuro das Estruturas Algoritmo

Isaac Asimov, um pioneiro em robótica e algoritmos, nos apresentou uma visão importante da sociedade: a possibilidade de uma estrutura regida por regras claras e universais, capaz de coordenar nossas ações e interações. Hoje, enfrentamos um desafio semelhante, mas em um contexto muito mais complexo. Como construir uma política que dê conta da diversidade e interconectividade de uma sociedade em rede, onde as antigas formas de organização coletiva estão esgotadas?

Estamos em um momento de ruptura social: as grandes estruturas de organização coletiva, que por muito tempo sustentaram partidos, ordens religiosas, movimentos sociais e ajudaram a produzir as políticas públicas, hoje não falam de forma completa à nossa realidade. A lógica de massas parecem ultrapassar limites que não são mais suficientes para abarcar a complexidade das relações contemporâneas. Se as bandeiras unitárias não oferecem mais nós mobilizadores, é porque a realidade das redes expõe um novo modo de organização e de interesse social – mais fluido, interconectado e diversificado.

A lógica de identidade, apesar de ainda ser útil na construção de políticas públicas, atinge um limite ao deixar de fora uma vasta gama de indivíduos que não se enquadram nos padrões necessários para serem atendidos. Assim, indivíduos encontram em redes contemporâneas respostas para inquietações e problemas que lhe parecem prioritários. Um jovem favelado gay criado na igreja batista que não se sente oprimido por questões de gênero no seu ciclo cotidiano, mas que tem a geladeira vazia vai encontrar como prioridade uma luta material por sobrevivência (dinheiro e comida) do que uma luta por gênero por exemplo. Um garoto branco morador de favela que fica em segundo plano na lida de uma ONG que combate o racismo pode sentir-se preterido em uma luta periférica e tentar encontrar seus caminhos em outras esferas.

Em tempos anteriores, estes exemplos eram poucos ou, ainda havia uma capacidade de aglutinar casos diversos sob uma bandeira. Porém, os dias atuais, a singularidade e diversidade se tornam o elemento de desejo e interesse.  O dilema que enfrentamos está justamente aí: construir uma política que exige mobilização em massa – seja ela um Estado, um grande grupo social, ou uma coalizão- em um mundo cada vez mais diverso de representação e encaixe. A sociedade em rede evidencia cada vez mais as singularidades, seus fluxos e interconexões. O detalhe que te diferencia é tão ou importante quanto o que te iguala no sistema. Se o que me diferencia é mais desejante do que aquilo que me une, como consigo construir uma política de massa, visto que esta precisa se balizar por uma média da maioria?

Estamos habituados a padrões organizacionais modernos, pós-industriais, que buscam algum tipo de elo de segurança: uma ordem, uma liderança central, ou um corpo de controle administrativo, gestor. Contudo, a realidade atual escapa a esse modelo. É simplista e até ludita acreditar que o controle das redes sociais, por exemplo, é movido apenas pelo desejo de um “grande irmão capital”. Acreditar que, ao identificar um driver central, resolveremos os problemas das redes ignoramos o fato de que vivemos em um sistema cada vez mais descentralizado.

Pensemos em nossa rede atual como um sistema que se organiza por múltiplos nós interligados. No entanto, não nos coloquemos como esses nós, mas sim como as pulsões que trafegam por eles: somos entes de força ativa. De forma autônoma, porém organizada por uma série de protocolos e regras (como as três leis da robótica de Asimov), podemos navegar por espaços que são tão reais quanto virtuais. Um bom exemplo são os motoristas de Uber, que discutem política durante suas viagens, demonstrando como fluxos de informação se formam e se dispersam em redes complexas independente de serem sistemas virtuais.

Cada um de nós pode ter seu próprio foco, suas próprias lutas e papeis, constituídos ou constituintes. E nossas ações, por sua vez, são coordenadas por mecanismos distribuídos, como blockchain, sistemas peer-to-peer, ou redes neurais profundas, que possibilitam a comunicação sem a necessidade de uma estrutura centralizada. Esse modelo se reflete nos movimentos sociais contemporâneos, como os trabalhadores de aplicativos, que constroem solidariedade e trocam informações sem depender de uma hierarquia formal.

Assim, o controle do sistema não é o que inserimos, surge mais da interdependência e do fluxo de informações que de uma autoridade central. A dinâmica do poder torna-se difusa, surgindo de inúmeras interações que operam em sinergia, muito além das visões modernas de controle total por corporações ou governos.

Diante dessa realidade, nos vemos obrigados a compensar as formas de construir uma política global que seja capaz de coordenar esses fluxos, respeitando a singularidade de cada nó, ao mesmo tempo, articulando uma ação coletiva. E isso é algo extremamente desafiador, pois nosso primeiro enfrentamento é romper com dogmas e paradigmas industriais e pós industriais.

Não é tarefa simples repensar o planeta dentro destes novos modelos, não acontecerá pelos sistemas constituídos e consolidados. Talvez, como todas as grandes mudanças da humanidade, acontecerá de forma periférica, meio alternativa, até que as estruturas estejam prontas. A questão é que talvez não tenhamos tempo na Terra para tal reorganização social. Se Asimov nos ensinou algo, é que o desafio não está apenas em criar novas regras, mas, principalmente, em como nos relacionamos com elas. Detesto terminar texto com perguntas, porém este será assim. Estamos prontos para pensar a política a partir da perspectiva de redes complexas e algoritmos?

Por pura diversão, pedi ao DALL-E para criar três imagens a partir de três narrativas:

1 – uma visão a partir do pensamento do senso comum sobre as redes a partir do controle do capitalismo

2- uma visão a partir do pensamento do senso comum sobre as redes com uma vitória do sistema soviético

3-uma visão a partir das reflexões postas aqui e da articulação das teorias das redes complexas.

Deixo aqui para alegoria e apreciação.

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10 de outubro – Saude mental, uma luta coletiva!

A cada vez que um morador de rua me para, eu pergunto o seu nome. É uma ação simples, mas poderosa. Um gesto que reconhece no outro uma humanidade que a sociedade muitas vezes ignora. Para o morador, ouvir seu nome é um sinal de pertencimento, de que ele ainda é visto e ouvido. Essa troca pode ser tão significativa quanto o dinheiro, às vezes até mais. E ali, no meio da rua, um pedaço de vida é compartilhado. Quem não gosta de um bom papo furado? Todos gostamos. E essa é uma verdade que esquecemos: somos feitos de encontros e histórias, uma mistura do singular com o coletivo.

Que este Dia Mundial da Saúde Mental -10 de outubro – seja um dia de enfrentamento! Precisamos romper com a visão ultrapassada de que saúde mental é apenas uma questão individual. Somos seres coletivos, conectados ao tecido social que nos envolve. Nossa saúde mental reflete, em grande parte, a qualidade desse tecido.

Imagine um jovem crescendo em uma casa sem janelas, sem saneamento básico, cercado por esgoto a céu aberto. Todos os dias, ele enfrenta a violência urbana, o medo constante, a falta de oportunidades. Esse jovem terá uma estrutura psíquica mais fragilizada em comparação com outro que cresce em um bairro com lazer, segurança e conforto. A desigualdade que permeia as ruas e os lares também afeta a psique.

Estudos da OMS e dados do PNUD mostram que os problemas de saúde mental afetam desproporcionalmente as populações de baixa renda, especialmente em países em desenvolvimento. Depressão, ansiedade e dependência química são comuns em contextos de pobreza, onde o acesso ao tratamento é escasso. Quem vive à margem está mais vulnerável à violência, à instabilidade social e à falta de assistência. Além disso, os serviços de saúde mental, quando existem, são frequentemente subfinanciados, perpetuando o ciclo de exclusão. Ciclo este que é global e estrutural!

O Índice de Pobreza Multidimensional de 2023 revela que mais de 1,1 bilhão de pessoas vivem em pobreza extrema, enfrentando privações em áreas fundamentais como saúde, educação e moradia. Esse cenário reflete a desigualdade socioeconômica que alimenta as disparidades de saúde. O pior paradoxo é que, mesmo quando o serviço de saúde mental está disponível, o estigma cultural em torno dos tratamentos impede muitos de buscar ajuda.

A saúde mental deve ser vista em sua totalidade. Ela é geográfica e relacional, conectada ao entorno do indivíduo. Assim, torna-se essencial construir políticas públicas que abordem a saúde mental de forma integrada e sistêmica. Precisamos consolidar  estratégias que considerem o cidadão como parte de um contexto maior, no qual as desigualdades sociais desempenham um papel central em sua psique.

Neste 10 de outubro, não discutamos apenas o tratamento clínico! Reforcemos a importância de intervenções socioeconômicas como parte dos processos de cura. Tratar a mente é também tratar o ambiente, a pobreza, a educação e garantir a proteção social. Arquitetos e urbanistas têm um papel importante nesta batalha: construir espaços que proporcionem bem-estar. Uma cidade que adoece seus habitantes nunca será uma cidade interessante e viva.

Que neste dia, a saúde mental seja assumida como um direito de todos e, para garantir esse direito, precisamos combater as raízes da desigualdade que deixam tantos para trás.

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