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Repensar a Produção Industrial e Logística no Rio de Janeiro

A retomada do investimento estratégico em produção industrial no Rio de Janeiro pode ser interessante para reverter a deterioração urbana e econômica que a cidade enfrenta. A capital fluminense, que já fora capital do Brasil , hoje se vê limitada a um modelo econômico que não considera todo o seu potencial.

O Desafio de uma Cidade Global

Uma cidade que aspira a ser global não pode depender exclusivamente do turismo e de serviços concentrados em apenas 15% de seu território, nas áreas mais privilegiadas. Esse modelo negligencia 85% da cidade, privando vastas regiões de oportunidades de desenvolvimento. Embora o turismo no Rio seja inegavelmente forte, com suas praias, montanhas e sua cultura, a cidade possui uma infraestrutura robusta erguida desde os anos que foi capital e que poderia sustentar uma diversidade muito maior de atividades econômicas.

Recuperando o Projeto Estratégico

O Rio recebeu investimentos estruturais significativos em um plano estratégico de nação. Esse legado, que está se degradando paulatinamente, precisa ser resgatado e adaptado às necessidades contemporâneas. Em um mundo onde cidades se reestruturam para enfrentar desafios ambientais, sociais e econômicos, o Rio tem a obrigação de se destacar como um exemplo de equilíbrio entre vida humana e preservação de biomas naturais.

Com duas baías, maciços naturais e uma costa oceânica, o Rio pode se tornar um modelo de cidade comprometida com a ecologia e a sustentabilidade. No entanto, a atual tentativa de transformá-lo em uma cidade global, voltada principalmente para o sistema internacional de serviços — como finanças, seguros, imóveis e serviços jurídicos — insere-o em uma rede internacional que, por sua vez, exclui e segrega grande parte da população carioca, além de torná-lo mais caro. Em resumo, a cidade projetada hoje não é para o carioca.

Redimensionando os Pólos Industriais

Pode parecer anacrônico falar em reindustrialização, mas é justamente através do fortalecimento dos pólos industriais que podemos revitalizar a cidade. Não se trata de retornar a um paradigma industrial hegemônico, como foi no modernismo, mas de enxergar a industrialização como uma parte estratégica de complementação econômica para o Rio de Janeiro, isto é, encontrar a dimensão correta para o equilíbrio de sua participação na economia da cidade. O Rio de Janeiro possui uma infraestrutura logística estratégica, com portos como o Porto do Rio de Janeiro e o Porto de Itaguaí, que são fundamentais para o comércio exterior do país. Com investimentos relativamente modestos na complementação ferroviária, seria possível interligar o sistema portuário e aeroportuário aos pólos industriais (não apenas para cargas, mas para passageiros), aumentando a eficiência logística e reduzindo a dependência das rodovias.

O Brasil cometeu um erro histórico ao abandonar o transporte ferroviário em favor do rodoviário, que é poluente e insustentável a longo prazo. Embora a construção rápida de rodovias possa trazer benefícios imediatos, ela negligencia o planejamento de longo prazo, essencial para o desenvolvimento sustentável. 

Problemas e Potencialidades dos Pólos Industriais

Fomentar polos industriais no Rio de Janeiro apresenta desafios significativos, mas também oferece potencialidades que não podem ser ignoradas:

Potencialidades:

  • Geração de Empregos e Desenvolvimento Econômico Local: A reindustrialização pode criar empregos e impulsionar a economia local, reduzindo a dependência de setores vulneráveis como a sazonalidade do turismo.
  • Integração Logística e Mobilidade Urbana: Uma logística bem integrada, auxiliada por um sistema ferroviário eficiente, pode melhorar significativamente a mobilidade urbana.

Problemas Possíveis:

  • Impacto Ambiental e Pressão sobre Biomas Naturais: A expansão industrial pode colocar pressão sobre os biomas naturais, exigindo um planejamento cuidadoso para mitigar danos ambientais.
  • Desigualdade Socioespacial: Sem políticas inclusivas, o desenvolvimento industrial pode acentuar as desigualdades já existentes na cidade.
  • Saturação da Infraestrutura Urbana: A infraestrutura urbana precisa ser adequada para suportar o crescimento industrial sem se tornar sobrecarregada.

Para enfrentar esses desafios, é crucial adotar um modelo de desenvolvimento que atraia investimentos em indústrias limpas e sustentáveis, priorizando tecnologias de baixo impacto ambiental e promovendo o avanço tecnológico. Além disso, é necessário aprimorar a logística integrada da cidade, uma tarefa que, como já mencionado, não é excessivamente complexa. Também é fundamental apoiar os setores já consolidados, garantindo que novas políticas sejam complementares e alinhadas com as iniciativas em vigor.

O Rio de Janeiro tem o potencial de complementar seu peso na economia criativa ao atrair indústrias de ponta, contribuindo para equilibrar a participação do Brasil, que atualmente é amplamente focada na produção de commodities.

Conclusão

O Rio de Janeiro tem o potencial de se reinventar como uma cidade que diversifica sua economia de forma organizada e sustentável. Com investimentos direcionados, pode recuperar seu protagonismo nacional e se tornar um exemplo global de desenvolvimento equilibrado. A criação e o fortalecimento dos polos industriais, quando realizados com atenção aos desafios ambientais e sociais, podem garantir um crescimento econômico inclusivo a longo prazo.

croqui: autoria própria
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O mais velho

Férias, fui moleque de rua na Arealva. A rua de terra batida já me ensinava urbanismo: de um lado, casas com quintal; do outro, um sítio repleto de árvores das mais diversas espécies. Às três da tarde rolava a bola. Dois baixinhos eram nossos craques da rua: Marcinho e Luana. Às vezes, apostávamos um contra valendo dois litrão de coca.

Ali aprendi o que falei em 2015 – a várzea é uma célula-tronco do urbano – era na terra que a copa acontecia. Em uma das laterais havia um tronco que atuava de líbero para os dois times: bateu a bola nele, seguiu o jogo. Eu era zaga; a regra era clara: se a bola passar, a perna fica. No campo, eu (bom pereba) tinha duas missões: parar o adversário e entrar de voadora em quem batesse no Márcio ou Luana.

O juiz era o Mais Velho. Toda rua de subúrbio tem o Mais Velho. O Mais Velho é aquele cara que faz parte do bonde, mas não está na nossa faixa etária. Tem idade suficiente para ser respeitado como adulto, mas é jovem demais para ser da turma dos nossos pais. O Mais Velho tem um papel crucial na vida da molecada; ele é um modelo, é uma espécie de espelho futuro. Soa o apito, e ali, o Mais Velho nos ensinou um dos conceitos de Einstein: o tempo é relativo.

Nesse jogo, estávamos mal. Começamos perdendo e o relógio correndo. O Mais Velho, na sua função de juiz e com a legitimidade que a idade lhe dava, deixou o jogo seguir. Acho que foram os trinta minutos mais longos das nossas vidas. A tarde ia caindo e a bola rolava contra o relógio até que nossos craques desencantaram: um gol de placa atrás do outro e o jogo virou! Soa apito final. Troca de farpas e voadoras com o time adversário, pegamos o prêmio e fomos com o Mais Velho tomar os dois litrão de Coca pra comemorar.

Assim eram os dias de férias em Sepetiba, onde a rua de terra batida se transformava em terreno de aprendizados. Nós, nos aventurando em vários rolés, e o Mais Velho sempre por lá, como um guardião das nossas aventuras.

Nesses encantamentos que só o Brasil tem, sempre que via Romário ou Marta jogando, lembrava-me de Marcinho e Luana, da rua Arealva e dos meus dias de férias com a avó em Sepetiba. Fui privilegiado por jogar bola com eles.

caneta sobre papel: rua arealva, Sepetiba, pelos anos de 1992
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O seu lugar cura

A mente humana não é um sistema isolado; é uma parte indissociável de um vasto ecossistema social, ambiental e cultural. Neste ecossistema, cada indivíduo habita territórios existenciais únicos, ocupando lugares singulares, ainda que compartilhando um mesmo espaço. O ciclo é constante: assim como nossa mente é influenciada pelo ambiente, ela também o transforma, criando um dinamismo de mutabilidades incessantes.

Devemos conceber uma geo-psicologia. Na metrópole, a insalubridade, a violência e a desigualdade são experiências que geram estresses próprios, moldam nossa lida com o mundo. Porém, em um país onde aproximadamente 50 milhões de brasileiros vivem em áreas rurais e cidades com menos de 100 mil habitantes, onde uma parte significativa da economia gira em torno da agropecuária ou do agrobusiness, não é surpreendente uma contradição: a metrópole é a exceção.

Mesmo vivendo em cidades com elementos urbanos canônicos, se suas raízes são rurais, haverá uma força cultural que se aninha em certas odes de coesão comunitária. O sertanejo mostra isso: apesar de abordar temas universais como amor e nostalgia, que favorecem a regulação emocional, suas canções estão profundamente enraizadas na vida rural. Ela cria um território existencial que une a moradora de Duque de Caxias varrendo sua casa com o garoto da porteira sentado curtindo o seu radinho.

É fascinante quando o sonhador de Leonardo é aquele que, sem saber para onde vai, deixa a vida seguir o sol no horizonte da estrada, mantendo a esperança de que, num toque do destino, o brilho do olhar continuará aceso. É o jovem lavrador que vê na chance de montar um boi no festival de Barretos, o horizonte para mudar sua história. Na mesma idade, um menino joga sua pelada no campo do Martins em São João, sonhando com a Champion League, enquanto sua mãe ouve Eyshila fazendo o almoço.

A perspectiva dos territórios existenciais valoriza a diversidade das experiências humanas ao rejeitar a ideia de uma normalidade universal, um lugar certo. O espaço sim! Tem que garantir toda infra material para a dignidade humana e ambiental, ali, deixemos o povo construir o lugar que o povo quiser, sem medo de amar.

autoral: o passe, grafite no papel
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Amar a praia: uma lição do meu pai

Meu pai amava a praia de Sepetiba, enquanto eu a considerava sem graça. Preferia jogar bola no Recôncavo, andar de bicicleta com meus amigos, catar fruta no pé na Arealva, pular o rio, e soltar pipa.

Mas um dia, compreendi o amor de meu pai. Me dizia: “Não anda olhando para o chão, moleque, cabeça erguida”. E foi assim que diante da Baía de Sepetiba, levantei a cabeça e a paisagem renasceu. Ver a restinga da Marambaia ao fundo, riscando o horizonte, o pôr do sol, o barulho da marola e das aves, o aroma da maresia, nem lembrei do barro entre a areia e a água.

Nossa segunda praia era o Recreio, na época dos areais, acampando. Recreio é mar arredio, destes que querem ser livres, ou a gente respeita ou ele nos engole. Algumas vezes íamos às praias da Ilha do Governador. Mais velho, já arquiteto, aprendi a amar a Praia das Pedrinhas, mar de pescador, graças ao meu pai que lá atrás disse: “Olha para o horizonte”.

Privatizar praia é o sonho de quem para o 474 numa manhã de domingo e manda os garotos do Jacaré descerem; delírio que diz: “Nossa praia”. Praia é um ser livre, um ente de renovação. Quantos de nós não pulamos as ondas de um ano novo e renovamos nosso pacto com a vida? Aprisionar o mar em políticas privatistas é negar seu sentido libertário. O mar não cabe no bem privado, mal cabe no bem público. O mar é fluxo da vida, berço do imprevisível. Praia, pedacinho de terra que toca a imensidão das correntes, captamos seus valores e significados, a potência para além dos corpos.

Em um mundo que dá claros sinais de que nossa escolha limitante de transformar tudo em recurso cria danos irreversíveis, a lei da praia é fruto de uma visão estreita e obsoleta. Não enxerga a grandiosidade do mar, lança um olhar míope e mesquinho, que aprisiona a praia em cifras, reduzindo-a a um mero balanço financeiro para alguns poucos privilegiados, alheios à complexidade de vida que permeia nosso país.

foto autoral: povo na praia do Flamengo, reveillon
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Aprendendo a Ler o Mundo

Ler e escrever sempre foram partes inseparáveis da minha vida, uma insanidade que me acompanha desde antes mesmo de saber andar. Era como se eu tivesse nascido fazendo isso, confesso que nem lembro como aprendi. No entanto, foi aos 14 anos, em uma aula na ETEJK, que a professora Angela Renata me ensinou a ler jornais.

Angela Renata nos mostrou que cada jornal abre uma janela distinta sobre o dia, informando seus leitores sobre o que considera importante e relevante. Ela nos incentivava a, pelo menos uma vez por semana, ler três tipos diferentes de jornais. Escolhi algumas segundas-feiras, dia que ela sugeriu, e me dedicava à leitura de O Globo, Jornal do Brasil, Jornal do Comércio e O Povo. Afinal, quem nasce nos subúrbios precisa, ao menos, de um “cospe-sangue”.

Esses jornais me abriram os olhos para a diversidade de representações do mundo que coexistem dentro do mesmo mundo. Percebi que cada segmento da população tinha acesso a diferentes tipos de assuntos, moldando sua inserção e ação na vida. Economia, negócios e política eram mais proeminentes para a elite da cidade, enquanto futebol, assaltos e notícias de delegacias eram mais comuns nos jornais consumidos pelos mais pobres. A capa de jornal, exposta nas bancas, era como um meme, gerando um efeito manada no cotidiano. Escrever uma boa manchete é uma arte. Lembro-me de duas capas d’O Povo que ficaram gravadas na minha memória: a primeira, “MATOU A MÃE POR UM GUARANÁ”; a segunda, uma foto centralizada numa página vazia, mostrando apenas uma cabeça sem corpo. O POVO com sua pedagogia da violência nos ensinava a ter medo da vida, enquanto o jornal do comércio ensinava onde o rico deveria investir sua renda.

Hoje, os jornais impressos praticamente desapareceram, mas o ciclo complexo das informações e os parâmetros das janelas que querem nos mostrar continuam firmes. Ler o mundo é estar aberto a todas as janelas às quais temos acesso. Dos jornais, explorei a filosofia, os livros técnico-científicos, as críticas, e ao mesmo tempo, a oralidade dos pontos de ônibus, conversas de calçadas, quintais e praças. Hoje, meu hiperfoco volta à literatura, e aconselho: comecemos pelos clássicos.

autoral: grafite e caneta sobre papel
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Da janela do ônibus

Pego o 350, do centro a irajá, no cair da noite, a viagem é mais vazia.

Das janelas do ônibus, a cidade passa como um filme em cores sépias, distorcido pelo embaçamento sujo dos vidros que balançam sem parar. Todo ônibus suburbano tem um ritmo percussivo de parafusos frouxos, vidros tremulando em ferro, portas rangendo. O ritmo é cortado por um grito: “Vai descer, piloto!”, substituindo o toque da campainha que não funciona. Do lado de fora, a vida passa. Benfica, Manguinhos, Bonsucesso, Olaria, Penha, Brás de Pina, Penha Circular, Vicente, Quitungo, Vila da Penha, a vida passa.

Garotos com suas caixas de som do tamanho de carrinhos de feira conversam, um senhor vende balas, bares abertos, igrejas cheias, jovens sem capacete em suas motos, corpos solitários, corpos conversativos, olhares perdidos. Se Wim Wenders fosse brasileiro, certamente Damiel e Cassiel experimentariam este pitoresco passeio.

Há uma angústia suave na viagem, cada passageiro singular com sua história, suas narrativas mentais, na expectativa ansiosa da chegada ao ponto onde vai descer. Cada rosto, uma história não contada, uma vida em suspense aos olhos de quem observa.

Quando sai da fábrica, o ônibus é apenas uma máquina, um símbolo da evolução capital, um marco de sucesso. Nas ruas, ganha nome, apelido.
Há um evento chamado 350 quando inúmeros corpos adentram ele para tentar chegar a seus destinos. Cada viagem é um teatro de vidas passando pelas janelas, cenas de um filme contínuo e inacabado, projetado nas paredes sujas do ônibus.

O bater das janelas no ritmo desordenado da vida urbana, a curva fechada e o banco solto são um lembrete da nossa fragilidade enquanto seres humanos. Seu centro de gravidade parece feito pra carregar batatas no lugar de gente, é esse o presente para o trabalhador, pros idosos, cada degrau é um Everest. A vida passa lá fora, mas dentro do 350 o tempo parece suspenso, ainda que estejamos em movimento.

Cada parada, um novo cenário, um novo ato. Chego ao destino final, não o do ônibus, mas o meu, avenida Brás de Pina, esquina com a São Félix. O 350 ainda tem mais um pequeno chão pra andar, nada que eu não faria andando.

autoral: passageiro no ônibus

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Sambas e milongas numa birosca da avenida Niévski

autoral: macunaíma e o homem do subterraneo conversando em um bar em Nievski

Em Buenos Aires, procurei uma milonga. Tentei encontrar um canto mais distante dos eixos turísticos possível e, assim, caí num “subúrbio” curioso. O som Era numa padaria (ou algo do tipo) onde, à noite, alguns músicos tocavam, quase como uma roda de amigos, uma JAM. Ali conheci muito da música argentina e ouvi uma hipótese genial.

Um músico virou-se e disse: “O samba e o tango são iguais.” Em espanto, esperei a continuidade, quando veio: “Ambos falamos das mi3rdas das nossas vidas, mas vocês fazem do jeito doido brasileiro, e nós com o Draaama argentino.”

Anos depois, lendo “Memórias do Subterrâneo” de Dostoiévski, lembrei-me dessa frase e uma loucura veio à mente. Numa birosca na Avenida Nievski, dessas que só têm um banheiro quebrado e vendem ovo rosa, sentam-se Macunaíma e um Anônimo saído do subterrâneo. Ao fundo um rádio toca Atahualpa Yupanqui, Nosso herói sem caráter diz: “Quem é você, compadre, que cara fechada é essa?”

“Sou um homem doente e desagradável. E você?” – responde o homem.

Com a inteligência perturbada, deu uma grande gargalhada. “Vim das terras quentes do Brasil, mas me conte, que diabos de doença é essa?”
Estranhando, o homem responde: “Não é uma doença do corpo, mas da alma. Não consegui chegar a nada. Quanto mais consciência eu tenho do belo e sublime, mais me afundo no lodo. Conheço-me a partir da degradação.”

Nosso herói sem caráter, pensativo: “Ai, que preguiça,” aconselha: “Olha, rapaz, lá na minha terra a gente cura disso com banho de rio e uma cachaça.”

autoral: milonga em Buenos Aires

“Mas isso não é uma fuga? Você não vê a miséria do mundo?” retruca o russo.

“Vejo sim, rapaiz, sou dela, mas prefiro rir e despreocupar. A vida tem surpresas, contradições.”

De fuga em fuga, Macunaíma roda o mundo em busca de aventuras. De fuga em fuga, o russo se aprofunda no subterrâneo, num desejo pungente de conhecer a si por sua própria degradação. O dia acaba, ambos desconfortáveis de estar ali. O homem volta para o subsolo, e Macunaíma vira constelação. “Não há nada melhor que a Avenida Nievski, pelo menos em Petersburgo.”

Em Buenos Aires, a milonga segue e realmente concordo: temos maneiras muito distintas de lidar com as nossas mi3rdas de vida.

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Dicas de leitura sobre a cidade: 400 contra 1 Uma História do Crime Organizado.

400 contra 1 é um livro que geral deveria ler.

O trabalho autobiográfico de william professor, ao contar a história do nascimento do chamado Comando Vermelho desmistifica de forma muito simples algumas distorções que vislumbramos no senso comum.

Destacando algumas:

  • A primeira delas, o tal encontro entre presos políticos e presos comuns passa meio periférico no livro, demonstrando que pra professor este não foi um eixo fundamental.

Notar isso é importante em um país onde até esta história perpassa trazendo no imaginário uma espécie de encontro de iluminados fazendo um trabalho de base.

O eixo que professor demonstra com força é o fato de que sob a lei que prendia os presos políticos, pessoas que não participavam de nenhuma organização também sofriam das penas mais severas, porém, quando veio a anistia, a materialidade do racismo e classismo brasileiro se via no fato de que os presos políticos sairam e os presos comuns ficaram (embora ambos assaltasse bancos por exemplo).

Entre outros, professor demonstra como a construção do chamado Comando nasce mais em função da estrutura de repressão do estado e da necessidade deste criar um inimigo do que de um desejo das lideranças. Desejo este que fica sempre claro: conseguir a liberdade.

O livro é um papo reto, retíssimo, destes que a gente não gosta de ter por aí e por conta disso seguimos navegando no meio do racismo que marginaliza criando dicotomias que não solucionam nada.

Ler esta obra faz pensar muito, até detalhes que parecem bobos como a baixa presença de Bezerra da Silva nos setlists das rodas de samba.

Reflito como a gente cria imaginários de uma pretensa pureza ideal para tentar combater a máquina de propaganda racista que vende uma parte significativa da sociedade como criminosa, membros de facção, etc. Esquecemos de lidar com o humano das pessoas e com a materialidade dos problemas.

Por enquanto só esses pitacos, o livro é muito maior que isso e por isso recomendo muito.

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Penha: sobre sua Pedra edificarei o meu lar

Pouca coisa é mais terrível no debate de formação e de cultura dos subúrbios que o apagamento do protagonismo negro na construção do solo.

É comum contarmos a história da paisagem suburbana vinculada ao imaginário das casas de porte neocoloniais, na formação dos trabalhadores fabris, em geral imigrantes europeus e na glória de grandes beneméritos que investiram num lugar.

Concordo que seja plausível contar a história da Zona da Leopoldina citando nomes como Capitão Baltazar, família Nunes ou Álvaro da Costa Mello, porém esta leitura esconde a força que riscou o chão sendo capaz de consolidar a peculiaridade e identidade que o abraça.

Era na festa da Penha que os citadinos espacializavam a região. Os escravizados ocupavam a base da pedra e ali construíam sua realidade, seus batuques, sambas, rodas de capoeira. A festa da Penha fora por séculos um fervo de expressão cultural com impacto geográfico. O mesmo porto que escoava a produção agrícola, trazia romeiros. A rua dos Romeiros demarca até hoje em traçado o encontro do mar (do porto maria angu quem sabe) até a Penha onde fora erguida a Igreja.

Nos importa lembrar sempre que: Penha não é Vila da Penha, ambas são fundadas por “penhas” distintas diga-se de passagem. Apesar disso, se encontram na avenida da arte. Noel, que era de outra Vila muito cantou sobre a Penha. Fico a pensar que anos mais tarde, a vila de Noel leva um dos mais imponentes sambas enredos do carnaval para a passarela Darcy Ribeiro. Seu compositor, Luís Carlos que era da Vila da Penha.  Alguma coisa realmente acontece na nossa vida quando a gente cruza a esquina da Rua dos Romeiros com a Brás de Pina, admiramos o Parque Shangai e sua jóia de carrossel, gostamos do comércio e vemos o povo nos corres do BRT, do alto Nossa Senhora da Penha nos observa quieta.  

Os pés que marcaram a rua dos Romeiros definiram o traçado urbano daquela região antes mesmo que qualquer administrador público o fizesse oficialmente. E quem haverá de contestar? Claro, esta não é uma história romântica, é a história crua de formação de uma região onde a repressão sempre foi forte.  Apesar de tudo, o chão da Leopoldina venceu e seu povo segue resistindo através dos seus modos de habitar.

A Penha, como qualquer recorte de Rio de Janeiro, representa em alguma escala esse emaranhado que compõe o solo brasileiro.  Aqui faz-se legal rememorar Espírito da Luz, o sambista anônimo de Rio Zona Norte que coloca o dedo na ferida do recorte geográfico etnocentrado no homem branco médio. Em tempos em que buscamos um novo marco civilizatório, é imprescindível que histórias como esta sejam contadas sem o enviesamento da branquitude. É, entre outros, a festa da Penha, o aquilombamento, a sociabilidade, dos negros que viabiliza o uso e a ocupação urbana da zona da Leopoldina e não o contrário. É através da força deste povo que esse território ganha valores culturais capazes de torná-lo especial, singular e aprazível.

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O CARNAVAL QUE NÃO ACONTECEU, MAS ACONTECEU

Primeiramente, este texto é um produto de um pensamento coletivo, muitas vozes ecoaram e conversaram e isso convergiu nestas pontuações que aqui trago.

Acima de tudo, nunca defendi a realização da festividade em meio a pandemia, considerei uma precipitação o anúncio lá atrás ainda em 2021, pois o mesmo colocou milhares de trabalhadores do carnaval em linha de ação em um momento em que a pandemia ainda não se mostrava tão controlada assim. Segundo: pior que a realização do carnaval como conhecíamos foi a solução proposta, um falso cancelamento. Porém, apesar de não estar na agenda, ele esteve e aconteceu.

Foram inúmeras as festas privativas, lotadas onde todos sabemos que os controles de mitigação da covid são inexistentes, ou como diz a famosa alcunha, para inglês ver. Além do caráter de festas privadas, foram experimentados modelos de negócios novos a partir das festividades, entre eles destacam-se além dos blocos privados, os minidesfiles das escolas de samba. O carnaval de rua não deixou de ocorrer, ele aconteceu por linhas de fuga e não mais pelos blocos tradicionais que já há alguns carnavais estavam no sistema de fomento do megaevento.

Nos subúrbios, as turmas de Clóvis resistiram. Suas saídas repletas de foguetórios foram notadas por inúmeros moradores que sequer sabiam da existência deste tipo de evento. Bares lotados, ruas cheias, um povo que simplesmente não consegue mais conviver sem o encontro presencial e que não suportou mais um ano sem evento. O que o feriado mostrou foi: a festa em si não morrerá, independente do quanto se tente estragá-la para encaixar em um modelo comercial, porém ela pode, e muito, se modificar a ponto de perder seus elementos de fundamento.

O teste de comercialização da festa teve como principal resultado a meu ver uma fragmentação do sentido coletivo dos eventos, os minidesfiles que obrigaram escolas a eleger aproximadamente uns 80 componentes de uma gama de 2500 foliões é passível de criar uma realidade paralela nas escolas, uma quantidade ínfima que de longe não mostra o poder de formação de uma agremiação e que, como dizia o Império Serrano, segue escondendo gente bamba. As escolas com certeza saíram as mais prejudicadas, pois, além de retornarem ao trabalho árduo mais cedo (vide os barracões, ensaios de comunidade, ensaios de bateria, etc) ainda seguirão trabalhando em meio a pandemia até o dia do desfile oficial em abril.

O sambódromo se tornou um dos únicos espaços apagados e vazios da cidade neste fim de semana, o que já demonstra o peso simbólico da tragédia, diferente do ano anterior, onde apesar de não ter o carnaval a apoteose brilhou em cores celebrando todas as escolas de samba que por ela passa. Este mesmo sambódromo que um dia foi uma arquitetura pensada para a celebração do povo e que já vem sofrendo com o desmonte de sentido demarcado pelos ingressos caríssimos e camarotes que preferem fazer uma festa rave em meio aos desfiles (sim, é possível pagar caro para ir ao sambódromo e não ouvir samba). A mercantilização das escolas seguiu mais um passo na escala, e será preciso muita resistência popular para que o próprio povo, que é fundamento da escola não seja excluído de vez da festa.

Quanto ao carnaval de blocos, creio que um grande impasse se deu por conta de uma tradicional máquina de controle, o fomento cultural. Uma vez que um sistema autônomo é capturado pelo sistema de fomento cultural e passa a viver disso ano a ano para realizar sua atividade, a ausência deste fomento não significa o retorno ao modelo autônomo anterior. Creio que nisso muitos blocos se perderam, sem carnaval de rua e sem fomento, muitos partiram para a festa privada como possibilidade de fazer alguma renda, outros nada fizeram.

As ruas, porém, são um espaço político do carnaval, lembremos que mesmo a apoteose é uma rua da cidade. E rua vazia e carnaval não combinam. O povo fez, do seu jeito, o carnaval para além do carnaval. Basta dar o feriado e o povo retoma as ruas.

Com isso o sistema fagocitou o modelo de gestão vigente até então, experimentou novas modelagens de negócios (como os minidesfiles e blocos de clubes) e deixou as ruas a novos embriões de blocos autônomos que não precisam de estrutura ou verba para acontecer. Assim, a prefeitura realizou um carnaval mesmo dizendo que não o faria e se eximiu de preparar a cidade para a tomada das ruas.  Este modelo das ruas, porém dura pouco, basta um carnaval com ruas autônomas em protesto (como já foram alguns bons carnavais) e tudo volta a ser controlado a ferro e fogo e quem sabe corda e ingresso.

O que cabe a nós? Como bons Clóvis, resistir, confrontar, se divertir e meter medo, porque sim, Clóvis meus amigos é pra meter medo, sem romantismos de um passado que não volta mais.

Fica a lição, aos blocos e escolas, também precisamos lutar pois o modelo posto é o carnaval do não povo que vai brigar para expremer seu tempo de desfile entre um episódio de BBB e um filme repetido, um zé carioca batendo caixinha de fósforo para o pato Donald ver. E fica a crítica ao cinismo de um sistema político que usou da bandeira da saúde pública para cancelar uma das festas populares mais importantes que temos, mas que no fundo só fez reorganizá-la em outros moldes econômicos onde todos os eventos privados foram repletos de aglomeração e covidário. Não podemos entregar o carnaval a esta modelagem, se assim fizer, já adianto que é melhor baixar os estandartes e enrolar as bandeiras, passou do tempo dessa massa popular que constrói a história que a história não conta assumir-se mais Clóvis e fazer em abril um carnaval para meter medo no sistema S.A. que tenta financeirizar tudo.

original publicada em: central dos bate bolas, twitter: https://twitter.com/centraldosbt
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