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Cemitérios no Rio: desigualdade até na última morada?

Nunca imaginei que fosse ser expulso de um jazigo. Pelo visto, a gentrificação alcança a todos. Quem diria que correríamos o risco de perder a última morada.

A saga de ver o jazigo da família ser ameaçado de leilão me fez enxergar um mundo imobiliário peculiar: a compra e venda de túmulos. Nos classificados, as melhores descrições possíveis: “Túmulo, ótima localização, direto com o proprietário”. O que viria a ser uma ótima localização? Estaria vivo o proprietário? “Oportunidade única: jazigo perpétuo, cemitério Caju, na primeira quadra”; “Jazigo Perpétuo, Cemitério da Cacuia, área nobre”; onde seria a periferia, no Dendê?

Não pensem que o Rio partido fica esquecido no além. Morar no São João Batista é luxo! Um buraco de 3m² pode ser comprado por módicos 180 mil reais, ou bem mais. Ainda assim, é mais barato e, quem sabe, até mais confortável que um estúdio da Avenida Paulista. Atravessou o túnel e pronto: estou pertinho da praia e do Bairro Peixoto, um dos cantinhos mais simpáticos para os vivos e mortos desta cidade se sentirem no aconchego de um Rio perdido no tempo.

Minha morada final, por enquanto, não custa mais de 30 mil reais. É no Murundu, ali entre Bangu e Realengo, terra de meu avô. Chão do meu batismo. Mas quem sabe, até lá, o Airbnb não crie um sistema imobiliário para a vida além? Podemos ser corpos nômades, vagando de aluguel nos túmulos por aí. Passar um fim de semana no Caju, ao lado do Cruzeiro. Outro fim de semana, curtir um samba com Paulo da Portela no Irajá. Passar uma tarde no Jardim da Saudade, sob um pé de laranjeira. Talvez uma noite no cemitério vertical. Ou tirar férias luxuosas na Recoleta.

Imagino até a notificação no celular: “Sua reserva no Vila Rosali foi confirmada. Check-in: 2084”. 104 anos, como o velho Niemeyer! Qual o prejuízo? Minha vida já é aluguel mal pago.

A morada final nunca foi algo que imaginei. Meu limite foi o velório. Quero todos os meus amigos presentes, os vivos e os mortos. Deem um jeito, dá para chegar de trem! De um lado, o samba; do outro, o rock’n’roll, sem misturar. Não gosto do Sambô. Um cortejo digno das vaidades que nunca tive, mas com o deboche niilista e existencial de quem sabe que a morte é só um detalhe.

Nada na vida é tão importante que não mereça ser celebrado. Se até lá meu túmulo ainda não tiver sido leiloado, deixo na lápide para todos: A vida é boa! Se sentirem saudades, fiquem tranquilos; venho visitá-los nas madrugadas para conversar.

quem é vivo sempre aparece

publicado originalmente no instagram: @rodrigobertame

replicado no Diário do Rio

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O Jeito Carioca e a Romantização da Precariedade

Espaços Culturais: Entre o Improviso e a Segurança

Nada justifica o falecimento da servidora Virgínia Gazola da Petrobrás acidentada no Armazém do Campo, no Rio de Janeiro. Infelizmente, não se trata de um evento trágico singular, mas de um reflexo de uma cultura arraigada que alimenta um marketing da identidade carioca, no qual o “jeito carioca de ser” de ser descontraído e improvisado é romantizado a ponto de encobrir graves negligências.

Espaços famosos da noite carioca, ocupados por bares, eventos culturais e áreas de lazer de rua frequentemente carecem de um mínimo de infraestrutura que garanta qualidade e segurança aos seus usuários. Muitos desses locais, mesmo com rotatividade suficiente para investir em melhorias, apoio e articulação política permanecem inertes. Vemos que, sustentabilidade financeira não se traduz, necessariamente, em responsabilidade.

Antes de avançarmos na crítica, é importante problematizar a própria imagem que vendemos do carioca. Essa imagem descontraída e improvisada foi historicamente capturada e moldada como parte de um projeto maior de controle simbólico, que remonta às décadas de 1920. O Rio de Janeiro é vendido como o cartão-postal do Brasil, mas a identidade de seu povo é frequentemente enquadrada em estereótipos que obscurecem a diversidade e a complexidade local.

Esse estereótipo não é inofensivo. Ele invalida práticas e comportamentos que fogem ao padrão romantizado, perpetuando a ideia de que o caos e o desleixo são parte da identidade carioca, parte da malandragem. Entendam! Uma coisa é, nascermos pobres, sem acesso a nada, precisarmos improvisar para solucionar problemas de vida cotidiana, outra coisa é o mercado cultural criar, conscientemente, simulacros deste modo improvisado de viver para vender a imagem de o Rio Cool. Na prática, o simulacro se reflete na aceitação tácita de condições precárias em espaços públicos e privados. Vendemos um certo desconforto e desorganização como elementos de autenticidade. Assim, somos “legais” à medida em que nossa experiência urbana reflita este estereótipo.

O acidente ocorrido no Armazém do Campo poderia, sim, ter sido evitado. Esse episódio expõe uma contradição dolorosa: triste que um espaço gerido por um movimento social de luta tenha vacilado com isso. Se o mundo que acreditamos é o melhor, temos a obrigação de, tanto nas lutas quanto na nossa micro escala de alcance sermos reflexo deste mundo, em todos os sentidos. Um espaço gerido por um movimento social de luta, que acredita em um mundo melhor, falhou em refletir esses ideais no cuidado e segurança oferecidos. Me assusta pensar que este mesmo espaço, ainda que sem alvará, tenha sido considerado Patrimônio Imaterial da Cidade, o que denota que o espaço não estava tão invisível ao poder público. Esse é um alerta ético.

Aqui entra também a relevância do conhecimento técnico. Arquitetos, engenheiros e técnicos possuem o ferramental necessário para pensar, projetar e construir espaços mais seguros, interessantes e funcionais, especialmente em contextos culturais e urbanos. Negligenciar isso, para além de irresponsável, é uma forma de desprezo pelos saberes profissionais que podem salvar vidas. Este alerta não cabe somente à casa em questão ou aos movimentos, mas a todo o circuito cultural do Rio, e incluo aqui os inúmeros empresários da economia cultural, de turismo e eventos.

Infelizmente, o desleixo não é exceção, mas padrão. Há no Rio uma infinidade de espaços culturais, bares e áreas de lazer que operam à beira da precariedade, oferecendo condições propícias às mais terríveis tragédias. Como exemplo, lembro-me de um dos banheiros de botequim mais bem cuidados que já encontrei, na Rua Paranhos, em Olaria. Na prática, um botequim de bairro suburbano, periférico, no pé do Complexo do Alemão, sem atrativos turísticos para participar do circuito hype do Rio. Paradoxalmente, aquele banheiro seria considerado luxuoso em comparação com muitos espaços badalados da Lapa ou outros polos da noite carioca.

Para enfrentar esse cenário, é necessário promover uma mudança de paradigma que integre políticas públicas, responsabilidade empresarial e educação técnica. Isso inclui a implementação rigorosa de normas de segurança em espaços culturais e comerciais, acompanhada de fiscalização efetiva para coibir negligências.  Também é fundamental oferecer programas de capacitação voltados para pequenos empresários, destacando que investir em segurança não é apenas uma obrigação, mas um diferencial competitivo. Além disso, criar linhas de crédito ou incentivos fiscais para estabelecimentos que realizem melhorias estruturais e de preservação e restauração de patrimônio arquitetônico pode estimular a adoção de boas práticas. 

Por fim, é essencial integrar (e respeitar) o saber técnico dos arquitetos, engenheiros e técnicos às discussões públicas sobre segurança e planejamento, garantindo soluções acessíveis, criativas e eficazes. Algo que com o tempo foi sendo perdido ou ocupado por outras forças econômicas que atuam na cidade. Avanços como os do Corredor Cultural parecem ter se estagnado diante da precariedade ou falta de política firme de preservação e restauração. E aqui, temos um compromisso necessário de ser assumido pela prefeitura atual do Rio, maior beneficiária e fomentadora da narrativa do jeito carioca de ser como identidade para atrair turismo e outras atividades econômicas.

Acidentes como o que vitimou a servidora são evitáveis. O primeiro passo é desconstruir a romantização da precariedade, do caos e do improviso, reconhecendo que, acima de tudo, o cuidado com o bem estar do cidadão é parte  fundamental de qualquer identidade cultural que se pretenda digna. O segundo ´passo é respeitar as condições técnicas mínimas da arquitetura e engenharia nos quesitos: segurança, conforto, ergonomia, entre outros.

Há um equívoco, quem acredita que este tipo de prática sugere uma certa gourmetização (a gentrificação dos espaços de cultura), como se isso afastasse o povo. Primeiro, a maior parte do povo sequer consegue chegar nos principais pólos centrais de noitada do Rio de Janeiro pois o metrô fecha cedo e muitos ônibus da zona norte, oeste e baixada param de circular. Segundo, muitos destes lugares, apesar de ter pouco cuidado na sua arquitetura e engenharia, já são gentrificados, com preços caríssimos para o que oferecem a seu público. O que estes empreendimentos fazem, é aplicar maximização do lucro a partir da redução dos custos de investimento, justificando isso na cultura do lugar: “este é o espírito do meu bar”.

Para ilustrar esta postagem, que é dura de escrever, optei por usar uma antiga foto de Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Marçal caminhando. Lembro-me de uma frase atribuída a Paulo da Portela que talvez fosse uma das mais replicadas por minha família e muita gente que conheço na vida: “Posso estar sem um nada no bolso, mas a elegância e a postura eu não perco“.  Este estereótipo romantizado do carioca ser autentico por um desleixo fantasiado de improviso não reflete a maior parte da população dessa cidade. E ainda que refletisse, nada justificaria a negligencia técnico-científica de todas as forças envolvidas na boa conservação dos espaços culturais da cidade.

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Leopoldina sitiada: Cidade Maravilhosa Despedaçada

O Rio de Janeiro é uma cidade que constantemente desafia a nossa capacidade de se chocar. A mais recente dessas provocações veio na forma de um vídeo: um cidadão baleado na cabeça, sentado dentro de um ônibus na Avenida Brasil, em um dia marcado por intensos tiroteios que sitiaram cinco bairros inteiros. Em respeito à dignidade da vítima e de todos nós, me recuso a compartilhar essas imagens.

Cinco estações ferroviárias foram fechadas: Penha Circular, Brás de Pina, Cordovil, Parada de Lucas e Vigário Geral. Além disso, 35 linhas de ônibus tiveram suas rotas fortemente alteradas ou suprimidas. Com isso, a conexão entre a Zona Oeste, a Zona Norte, a Baixada Fluminense e o Centro da cidade ficou seriamente comprometida, sob a constante ameaça de violência.

O bairro de Brás de Pina, parte da Vila Guanabara, conhecida como a “princesinha da Leopoldina”, tem uma história marcada por sua pujança econômica. Seus casarios neocoloniais e o traçado urbano que, visto de cima, lembra uma colmeia, fazem parte de uma área que também abriga uma comunidade que resistiu às remoções da era Lacerda e foi palco da primeira urbanização de favelas da cidade. Porém, hoje, esse território luta para sobreviver à expansão de um poder paralelo que se alimenta do fundamentalismo.

Há uma incompreensão generalizada sobre o que realmente compõe o chamado Complexo de Israel. Muitos reduzem sua presença apenas às áreas de favelas, mas o fenômeno se estende também às áreas formais dos bairros, controlando grandes glebas e impactando toda a região. Desde 2009, venho afirmando: se o fundamentalismo se enraizasse no Brasil, seria a partir do neopentecostalismo. O que vemos no comando do “Exército de Israel” é a materialização desse presságio. Bairros inteiros estão sob seu domínio, com tecnologia bélica de ponta, oferecendo uma gama de serviços básicos e impondo regras próprias sobre o território. O grande dilema é que, ao contrário de uma ocupação meramente estratégica e material, o Complexo de Israel opera em uma espécie de guerra santa, como se parte da Zona da Leopoldina tivesse se tornado uma representação de uma “Israel divina” sob a qual todos temos de nos submeter.

O mais impressionante é o aparente desinteresse do poder público em assumir a responsabilidade que lhe cabe: retomar o controle territorial. Essa ação deveria superar qualquer divergência ideológica, pois a realidade é simples e direta: onde o Estado não exerce seu poder de governança, outros poderes assumirão esse papel. Nesse território, fica nítido que o Estado perdeu o controle.

Não adianta aqueles que influenciam e organizam economicamente esta cidade tratarem este problema como um mal menor. O aparato publicitário que favorece as políticas de cidade criativa, hub cultural, cidade global e turística não se ampara quando imagens como as do dia de hoje se tornam um padrão da cara da cidade. É preciso que estas forças econômicas compreendam que um problema de Brás de Pina, da Cidade Alta, de Cordovil, de Lucas é um problema da cidade, tal qual o é o problema do Leblon, de Ipanema, Catete. Não há campanha de Cidade Maravilhosa que resista a tragédia humana que está sendo o dia de hoje para esta região.

A Terra de Pixinguinha, está gritando socorro, sequestrada e sitiada pela loucura da barbárie de um projeto de Brasil que deu errado. Povo sem acesso a escola, transporte, segurança, saúde, espera a pausa das balas, um momento imponderável, para arriscar-se nas ruas em busca de sua luta diária por sobrevivência, sem saber se no fim do dia chegará em casa. Sabemos que a saída não é simples e precisará de uma ação sistêmica, trazendo para as decisões vários atores sociais. assistência social, segurança pública, poderes econômicos, entre outros precisarão operar em uma modelagem de estado que recuperem o território e o desejo de vida dos citadinos transformar novamente o espaço que hoje é do medo, em um lugar desejado pelos seus.

A gramática da guerra santa, da intolerância religiosa e do controle divino sobre o território apagam quaisquer possibilidade de reconstrução popular. Aos que moram nestes bairros tem restado o medo diário e a nostalgia de dias melhores que já foram vividos, dias que Dolores Duran aprendeu a tocar piano na aprazível princesinha da Leopoldina.

foto de autoria própria: Avenida Arapogi e suas águas.
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Quem Vigia a Cidade? Os olhos verdes dos Totens de Segurança no Rio.

Esta semana, deparei-me com um novo elemento curioso na paisagem urbana. Pelo que observei, ele já está consolidado há algum tempo em certos pontos da cidade: totens espalhados por vias importantes de diversos bairros, construídos em material metálico, com uma luz verde que remete ao visual de “Matrix”, decorados com símbolos criptografados e a mensagem: “Esta rua é protegida pela Gabriel.”

Sem muito alarde, o Rio de Janeiro recebeu um novo tipo de controle social — desta vez, tecnológico e digno das literaturas de Orwell, Asimov, Neumeier e Miner, ou até mesmo das irmãs Wachowski. A tecnologia em si, assim como sua implementação na cidade, não é uma novidade. Ela me remete à transformação de um conceito comunitário estudado por Jane Jacobs, o dos “olhos da cidade”, em capital e negócio.

Não entrarei aqui no debate sobre a privatização total do controle da violência no Rio, tema que se manifesta em exemplos como o domínio de territórios por forças paramilitares diversas. O foco, neste caso, é o fim da urbanidade e a terceirização dos olhos das ruas. Modelos tradicionais de bairro, que sempre foram vendidos pela ideia de encontros, de relações diretas com o espaço público, com o diferente e o inesperado, perderam a disputa subjetiva. A “condominialização” da vida venceu, e isso nos diz muito sobre como a cidade pode ser completamente terceirizada.

A vida condominial transfere responsabilidades significativas do Estado para grupos privados. Vias públicas inteiras passam a ser monitoradas por sistemas variados: síndicos, associações de moradores, lideranças locais, empresas de segurança, entre outros. A vigilância por câmeras, que o próprio Estado já promoveu com iniciativas como o COR (Centro de Operações Rio), agora divide espaço com empresas como a Gabriel.

Um aspecto intrigante da câmera é sua estética própria, claramente bem estudada, que vai das cores às mensagens e aos símbolos, sua cor verde, seus signos criptografados no totem e até mesmo seu nome próprio masculino sendo tratado pelo gênero feminino. Esses elementos constroem uma “persona” e uma mensagem, como nos ensinaram os grandes pensadores da ficção científica e os grandes religiosos do mundo. À primeira vista, pode parecer o mesmo modelo de negócio do COR, mas o universo simbólico em torno da Gabriel aponta para outra direção. A câmera quer ser vista, decifrada e, acima de tudo, quer nos vigiar 24 horas por dia.

Ironicamente, num mundo onde o direito de ir e vir e a defesa da vida privada são tratados quase como mantras por aqueles que defendem esse modelo de segurança, essas empresas têm o poder de transformar nosso cotidiano em um verdadeiro “Big Brother”, usando a segurança como justificativa. Outra ironia: os mesmos defensores dessas câmeras nas ruas muitas vezes se opõem ao uso delas para monitorar operações policiais.

Curiosamente, a presença da Gabriel não parece ter tido um impacto significativo na redução da criminalidade ou na sensação de segurança entre a população, assim como o COR tampouco teve. No entanto, essas câmeras foram fundamentais para registrar casos de abuso de poder policial e racismo, como o que ocorreu com os jovens negros, filhos de diplomatas, em Ipanema.

O povo, em geral, parece indiferente à presença vigilante passiva desses totens — soldados eletrônicos privados que tudo veem — assim como são com relação às câmeras do COR. Quanto a nós, é preciso compreender um ponto crucial: nenhuma tecnologia aplicada está isenta das escolhas humanas. E é nisso que devemos nos concentrar ao lidar com as “Gabriels” e CORs da vida. Vale lembrar que, quando certas forças de poder na cidade quiseram executar Marielle Franco, algumas câmeras do COR simplesmente fecharam os seus olhos.

Este é o ponto, o problema não está nas tecnologias por si mesmas, mas sim na nossa relação com elas. Este talvez tenha sido uma das lições mais importantes que Asimov nos deixou. Portanto, fica o recado a todos esses olhos que nos vigiam: estou ligado no movimento.

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Nova Indústria Brasil: Estratégias para além da hegemonia do Agronegócio.

Associar a Nova Indústria Brasil ao enfrentamento da hegemonia do agronegócio é essencial para reequilibrar a matriz econômica do país. Isso requer estratégias que diversifiquem a produção, promovendo um modelo de desenvolvimento industrial que seja sustentável e inclusivo. Um país com o potencial do Brasil não pode continuar refém de um setor econômico que o expõe aos riscos de um balanço desfavorável entre o extrativismo e o baixo valor agregado das commodities.

Quando falamos em desenvolvimento sustentável associado à inovação tecnológica, podemos refletir no papel do programa. A Nova Indústria Brasil pode ser um bom instrumento para liderar a transformação de matérias-primas agrícolas em produtos de maior valor agregado, como biocombustíveis, bioplásticos, produtos farmacêuticos e alimentos processados sustentáveis. Para isso, é crucial incentivar a bioindústria, com investimentos robustos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias verdes, incluindo bioenergia, aproveitamento de resíduos agrícolas e tecnologias de baixo impacto ambiental. Esse movimento posiciona a indústria brasileira como um motor de sustentabilidade global.

Para tal, o governo poderia criar canais de integração por meio de instrumentos administrativos e financeiros que possibilitem à indústria adquirir insumos de pequenos produtores, utilizando-se da agricultura familiar e similares  para uso na manufatura. Isso não só fortalece a agricultura familiar, mas também oferece alternativas ao modelo tradicional do agronegócio. Exemplos incluem o uso de biomateriais e fibras naturais, que apresentam menor impacto ambiental em comparação a insumos como o algodão.

Porém, um dos principais desafios para o desenvolvimento da Nova Indústria Brasil é a qualificação profissional. O crescimento de novas indústrias demanda mão de obra capacitada em todos os níveis, desde técnicos até pesquisadores de pós-doutorado. É imprescindível criar um ecossistema de inovação que envolva startups, universidades e iniciativas de produção local. Para isso, é necessário valorizar financeiramente esses profissionais, garantindo que pesquisadores e técnicos sejam devidamente remunerados.

Outro fator que pesa como desafiador para um país continental como o nosso é a capacidade de infraestrutura logística. A modernização da infraestrutura é fundamental para o escoamento eficiente dos produtos da indústria sustentável e da agricultura familiar. Diversificar os modais de transporte, melhorar as rodovias, retomar o sistema ferroviário nacional e ampliar a cobertura digital são medidas essenciais. Essas ações garantem que a produção industrial sustentável chegue de maneira competitiva aos mercados nacional e internacional.

Ética Ambiental, diversificação econômica são o novo paradigma para a industrialização

O Brasil, com sua biodiversidade e conhecimentos ancestrais, possui condições únicas para liderar globalmente as experiências efetivas em sustentabilidade. A Nova Indústria Brasil pode fortalecer essa posição, combinando desenvolvimento econômico com respeito ao meio ambiente. Investir em processos produtivos éticos, inspirados por práticas tradicionais e saberes dos povos originários, atrai investimentos globais e consumidores conscientes, colocando o Brasil na vanguarda da produção sustentável.

Fomentar a Nova Indústria Brasil como força motriz para enfrentar o agronegócio requer uma abordagem multifacetada, envolvendo políticas públicas, movimentos sociais e mudanças culturais. Incentivar a agricultura familiar e agroecológica, garantir a segurança alimentar e fortalecer pequenas propriedades por meio de crédito e assistência técnica são estratégias fundamentais. A reforma agrária e a redistribuição de terras, ainda que desafiadoras, são vitais para democratizar o acesso à terra e permitir que pequenos agricultores prosperem.

A regulamentação ambiental com fiscalização rigorosa e penalidades para práticas insustentáveis, aliada a incentivos para tecnologias verdes, pode mitigar os danos ambientais causados pelo agronegócio. Parcerias internacionais e políticas de comércio justo que priorizem pequenos produtores também são ações estratégicas para diversificar a economia brasileira.

A conscientização e mobilização popular são peças-chave. Informar a sociedade sobre os impactos socioambientais do agronegócio e promover o consumo consciente são maneiras de pressionar por mudanças. Além disso, a educação em todos os níveis deve formar uma nova geração crítica, capacitada para questionar o modelo econômico atual e propor alternativas sustentáveis.

Investir em pesquisa e inovação, como biotecnologia e sistemas agroflorestais, oferece caminhos produtivos e ambientalmente responsáveis. O fortalecimento dos movimentos sociais e o apoio a políticas de sustentabilidade completam a estratégia para transformar a Nova Indústria Brasil em um eixo central de desenvolvimento econômico.

Conclusão

Integrar a Nova Indústria Brasil a um plano de transformação econômica nacional pode ser estruturante para a melhoria da nossa realidade, Para além de  resistir à hegemonia de modelos antiquados ou modelos excludentes como os do agronegócio; é reconfigurar a economia brasileira em direção a um futuro mais equilibrado, inovador e justo. Ela resolveria os problemas socioeconômicos? Por si só não, porém com um bom projeto que vislumbre de forma estratégica a implementação de um desenvolvimento socioambiental de país, que seja capaz de gerar renda e principalmente, distribuir esta renda entre os mais pobres, pode nos colocar em um patamar especial na vida política global.

imagem gerada no Dall-E tendo como principal enredo a justiça social, a nova industrialização de matriz verde, sabedorias ancestrais na estética do construtivismo soviético.
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Repensar a Produção Industrial e Logística no Rio de Janeiro

A retomada do investimento estratégico em produção industrial no Rio de Janeiro pode ser interessante para reverter a deterioração urbana e econômica que a cidade enfrenta. A capital fluminense, que já fora capital do Brasil , hoje se vê limitada a um modelo econômico que não considera todo o seu potencial.

O Desafio de uma Cidade Global

Uma cidade que aspira a ser global não pode depender exclusivamente do turismo e de serviços concentrados em apenas 15% de seu território, nas áreas mais privilegiadas. Esse modelo negligencia 85% da cidade, privando vastas regiões de oportunidades de desenvolvimento. Embora o turismo no Rio seja inegavelmente forte, com suas praias, montanhas e sua cultura, a cidade possui uma infraestrutura robusta erguida desde os anos que foi capital e que poderia sustentar uma diversidade muito maior de atividades econômicas.

Recuperando o Projeto Estratégico

O Rio recebeu investimentos estruturais significativos em um plano estratégico de nação. Esse legado, que está se degradando paulatinamente, precisa ser resgatado e adaptado às necessidades contemporâneas. Em um mundo onde cidades se reestruturam para enfrentar desafios ambientais, sociais e econômicos, o Rio tem a obrigação de se destacar como um exemplo de equilíbrio entre vida humana e preservação de biomas naturais.

Com duas baías, maciços naturais e uma costa oceânica, o Rio pode se tornar um modelo de cidade comprometida com a ecologia e a sustentabilidade. No entanto, a atual tentativa de transformá-lo em uma cidade global, voltada principalmente para o sistema internacional de serviços — como finanças, seguros, imóveis e serviços jurídicos — insere-o em uma rede internacional que, por sua vez, exclui e segrega grande parte da população carioca, além de torná-lo mais caro. Em resumo, a cidade projetada hoje não é para o carioca.

Redimensionando os Pólos Industriais

Pode parecer anacrônico falar em reindustrialização, mas é justamente através do fortalecimento dos pólos industriais que podemos revitalizar a cidade. Não se trata de retornar a um paradigma industrial hegemônico, como foi no modernismo, mas de enxergar a industrialização como uma parte estratégica de complementação econômica para o Rio de Janeiro, isto é, encontrar a dimensão correta para o equilíbrio de sua participação na economia da cidade. O Rio de Janeiro possui uma infraestrutura logística estratégica, com portos como o Porto do Rio de Janeiro e o Porto de Itaguaí, que são fundamentais para o comércio exterior do país. Com investimentos relativamente modestos na complementação ferroviária, seria possível interligar o sistema portuário e aeroportuário aos pólos industriais (não apenas para cargas, mas para passageiros), aumentando a eficiência logística e reduzindo a dependência das rodovias.

O Brasil cometeu um erro histórico ao abandonar o transporte ferroviário em favor do rodoviário, que é poluente e insustentável a longo prazo. Embora a construção rápida de rodovias possa trazer benefícios imediatos, ela negligencia o planejamento de longo prazo, essencial para o desenvolvimento sustentável. 

Problemas e Potencialidades dos Pólos Industriais

Fomentar polos industriais no Rio de Janeiro apresenta desafios significativos, mas também oferece potencialidades que não podem ser ignoradas:

Potencialidades:

  • Geração de Empregos e Desenvolvimento Econômico Local: A reindustrialização pode criar empregos e impulsionar a economia local, reduzindo a dependência de setores vulneráveis como a sazonalidade do turismo.
  • Integração Logística e Mobilidade Urbana: Uma logística bem integrada, auxiliada por um sistema ferroviário eficiente, pode melhorar significativamente a mobilidade urbana.

Problemas Possíveis:

  • Impacto Ambiental e Pressão sobre Biomas Naturais: A expansão industrial pode colocar pressão sobre os biomas naturais, exigindo um planejamento cuidadoso para mitigar danos ambientais.
  • Desigualdade Socioespacial: Sem políticas inclusivas, o desenvolvimento industrial pode acentuar as desigualdades já existentes na cidade.
  • Saturação da Infraestrutura Urbana: A infraestrutura urbana precisa ser adequada para suportar o crescimento industrial sem se tornar sobrecarregada.

Para enfrentar esses desafios, é crucial adotar um modelo de desenvolvimento que atraia investimentos em indústrias limpas e sustentáveis, priorizando tecnologias de baixo impacto ambiental e promovendo o avanço tecnológico. Além disso, é necessário aprimorar a logística integrada da cidade, uma tarefa que, como já mencionado, não é excessivamente complexa. Também é fundamental apoiar os setores já consolidados, garantindo que novas políticas sejam complementares e alinhadas com as iniciativas em vigor.

O Rio de Janeiro tem o potencial de complementar seu peso na economia criativa ao atrair indústrias de ponta, contribuindo para equilibrar a participação do Brasil, que atualmente é amplamente focada na produção de commodities.

Conclusão

O Rio de Janeiro tem o potencial de se reinventar como uma cidade que diversifica sua economia de forma organizada e sustentável. Com investimentos direcionados, pode recuperar seu protagonismo nacional e se tornar um exemplo global de desenvolvimento equilibrado. A criação e o fortalecimento dos polos industriais, quando realizados com atenção aos desafios ambientais e sociais, podem garantir um crescimento econômico inclusivo a longo prazo.

croqui: autoria própria
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Segurança Pública pela ótica da Teoria da Complexidade

Assustou-me saber que no Evento Rio Innovation Week havia um mega stand da PM apontando um caminho de parcerias privadas com esta instituição que é por natureza pública. A partir deste fato, trago a reflexão. Peço perdão se o texto ficou grande, mas creio que o tema pede por isso e peço uma certa paciência na leitura.

A complexidade da segurança pública no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, mostra uma desconexão entre o que se pensa e as políticas que são realmente inovadoras há anos. Falta uma visão mais ampla, que compreenda como diversos fatores sociais estão interligados, ou que tem perpetuado um ciclo vicioso de militarização, corrupção e falta de cooperação. Refletiremos aqui sobre os principais desafios do sistema de segurança pública do Rio de Janeiro e propomos possibilidades inspirada na teoria da complexidade e em exemplos internacionais que deram certo.

Os Limites da Militarização na Segurança Pública

No Brasil, e em particular no Rio de Janeiro, existe uma tradição de associar segurança pública à presença ostensiva de forças policiais. Essa visão simplista ignora as causas mais profundas da criminalidade e coloca na prática uma política de confronto com a própria população. A militarização da segurança, embora vista por muitos como uma solução rápida, e sugira ao povo uma sensação de proteção, resulta em confrontos violentos e um alto índice de mortes especialmente nas áreas mais pobres e periféricas da cidade. A presença ostensiva de uma polícia militarizada não só falha em reduzir a criminalidade, como também alimenta um ciclo de violência e desconfiança entre a população e as forças de segurança. Além de ser uma máquina de extermínio de pessoas pobres.

É preciso entendermos a complexidade: ser PM para o carioca pobre é um instrumento de estabilidade financeira, ascensão social e garantia de futuro. Por sua vez, se torna um concurso almejado. A maior parte dos praças da PM são jovens pobres tentando um futuro melhor, são estes que por salários que vão de 3 a 7 mil reais (bruto) salários de soldados a sargentos, que irão para o combate ostensivo em operações de guerra sem uma estratégia inteligente e integrada.

O Ostensivo é Midiático

Muitos, inclusive eu, ficaram surpresos ao ver os resultados de uma pesquisa que colocou o Rio de Janeiro em um modesto 168º lugar na lista das cidades mais violentas do país com mais de 100 mil habitantes. Esperávamos que estivéssemos no topo, ou pelo menos entre as três primeiras posições. Isso reflete como, no Rio, a violência se tornou mais um espetáculo midiático do que uma realidade quantitativa. O crime, aqui, é um grande negócio, mas a percepção de violência, amplificada pela mídia, é o que realmente domina o imaginário coletivo.

O modelo de segurança ostensivo que temos no Rio de Janeiro funciona de maneira cinematográfica para a mídia, alimentando um sistema de controle social que sustenta diversos tipos de negócios. Desde a valorização ou desvalorização de imóveis em certas partes da cidade até a regulamentação de serviços de segurança privada, lazeres em condomínios fechados e shopping centers, tudo parece girar em torno dessa percepção inflada de violência. Programas como Brasil Urgente e Balanço Geral vendem uma ideologia que associa violência ao punitivismo, desrespeitando princípios fundamentais do Brasil Democrático de Direito como a separação dos poderes, e promovem a imagem do “justiceiro”, aquele que, sozinho, define a lei, prende os “meliantes” e aplica a pena , muitas vezes de forma extrajudicial. Essa postura é abertamente aplaudida por apresentadores de TV, que ignoram a gravidade de tais atos.

É importante destacar que esse justiçamento é seletivo. Ele raramente se aplica a crimes de “colarinho branco”, como a sonegação de impostos por grandes milionários, grandes empresas envolvidas em corrupção público-privada ou a empresas que cometem assédio moral, racismo, entre outros. O que vemos é um espetáculo que mantém o foco em uma violência visível, palpável, enquanto outras formas de transgressão, muitas vezes mais danosas para a sociedade, passam despercebidas ou são tratadas com leniência. Assim, o ostensivo que se vê nas ruas é menos sobre segurança real e mais sobre alimentação um ciclo de medo e consumo que beneficia Pouco e penaliza muitos.

O filme Robocop e Robocop 2, por sua vez são interessantes exemplos críticos a respeito desse tema, desconectado de um pensamento sistêmico e com um viés mercadológico a OCP decide criar um segundo cyborg mais robusto, armado e violento que seria o sistema de segurança de Delta City, a cidade construída a partir da demolição de toda Detroit.

O filme nos oferece uma crítica contundente ao modelo de segurança pública ostensiva alinhado à privatização das cidades e da segurança pública. O discurso do presidente da OCP destaca esse tema: “Nós vamos construir uma cidade nova em folha onde agora está Detroit, um exemplo para o mundo (…)privada e responsável.” A noção de substituir a governança democrática pelo controle corporativo é enfatizada pela sua afirmação de que “qualquer um pode comprar ações da OCP e ter um pedaço da cidade, não existe mais democracia do que isso”, questionando assim as verdadeiras implicações de tal privatização.

Corrupção e Conivência com o Crime Organizado

Vale constatar que, no caso do Rio de Janeiro, o modelo de privatização das cidades controlado pelo sistema de segurança é justamente o que rege os muitos poderes paralelos atuantes na região metropolitana. Territórios inteiros tem o seu controle político assumido por estas forças que permitem ou proíbem candidatos x ou y, entradas e saídas de veículos e pessoas, entre outros fatores. O negócio criminoso do Rio não são exatamente o tráfico, assaltos, ou outro tipo de violência, o principal negócio é o controle do território e por sua vez as relações econômicas que isso movimenta. Um sistema cujo elo entre o Rio legalizado e o Rio ilegal se dá por redes de corrupção.

Assim, destacamos o grave problema que é a corrupção dentro das forças de segurança, que muitas vezes está envolvida com o crime organizado. As milícias, grupos formados por policiais e ex-policiais, exercem controle violento sobre diversas comunidades do Rio de Janeiro, muitas vezes com a complacência ou apoio de setores do governo. Para além disso, a prática do arrego aos batalhões, pagamento realizado por grupos de poder armado paralelo aos batalhões que cuidam da segurança local é uma prática comum. Com o pagamento garantido, as operações ostensivas não acontecem gerando uma falsa sensação de segurança local. Essa conivência entre o Estado e o crime organizado cria um ambiente onde a segurança pública é refúgio de interesses privados, dificultando qualquer tentativa eficaz de melhoria.

Fragmentação e Falta de Coordenação

O sistema de segurança pública no Rio de Janeiro sofre de uma falta de integração que impede a implementação de políticas mais completas. A ausência de coordenação entre as diferentes forças policiais e entre as esferas federal, estadual e municipal resulta em esforços desconectados e ineficazes. Isso agrava a sensação de insegurança e torna difícil a criação de estratégias unificadas para enfrentar o crime de maneira eficaz. Impossível combater um sistema global de negócios que envolve uma rede internacional de comércio ilegal que gira por portos, rodovias e aeroportos sem integração das forças de combate.

Foco na Repressão em Detrimento da Prevenção

Tradicionalmente, as políticas de segurança no Rio de Janeiro têm priorizado a repressão ao crime, deixando de lado os investimentos em medidas preventivas. Isso é muito afetado pela forma simplista como é tratado a política de segurança. A ação ostensiva funciona como uma espécie de “mostrar serviço”. Ainda que não dê resultado prático, liberar helicópteros, tropas especiais, armamentos pesados para uma operação que gera alto risco para inúmeros trabalhadores e que muitas vezes o melhor resultado é a apreensão de uma porcentagem ínfima de armas e drogas é notoriamente antieconômico, ainda que midiático.  

Programas sociais que podem atuar sobre as causas da violência, como a pobreza e a exclusão social, são raros e mal organizados. Essa abordagem limitada perpetua um ciclo de violência que poderia ser reduzido com políticas mais abrangentes, externas para a prevenção e inclusão social.

Alternativas Globais que nos Servem de Exemplo

A experiência internacional oferece exemplos de como uma abordagem menos militarizada e mais integrada pode resultar em maior segurança e bem-estar social. No Japão, o modelo de policiamento comunitário baseia-se na proximidade. Pequenas delegacias de bairro são operadas por policiais que conhecem bem a população local, promovendo um ambiente de confiança mútua. Essa estratégia contrasta fortemente com a abordagem militarizada do Rio de Janeiro e servem de exemplo sobre como construir uma relação de cooperação entre cidadãos e forças de segurança.

Na Espanha, a desmilitarização da polícia foi acompanhada de reformas que enfatizaram os direitos humanos e o policiamento comunitário. A formação contínua dos policiais, focada na mediação de conflitos e no trabalho em conjunto com outros serviços sociais, criou uma polícia mais próxima da população e mais eficaz na manutenção da ordem pública.

Portugal, por sua vez, introduziu uma política de descriminalização das drogas, tratando o uso de substâncias como uma questão de saúde pública. Essa abordagem reduziu significativamente a violência relacionada ao tráfico e à população carcerária, mostrando como políticas focadas na saúde e na prevenção podem ser eficazes.

Para quem considere que tais exemplos não se aplicam ao Rio por conta d qualidade educacional e do sistema de bem estar destes países citados. É justamente sobre isso que digo, estes são elementos fundamentais para reduzir o grau de criminalidade de um lugar. O que garante o funcionamento do patrulhamento comunitário, ou a boa lide com drogas legalizadas é justamente a capacidade de outras esferas do sistema integrarem um cuidado com o seu povo. Cuidado de saúde, urbanístico, econômico, um cuidado com o eu povo.

Devaneios para uma Reorganização da Segurança Pública no Rio de Janeiro

Vamos pensar um pouco como a teoria da complexidade pode contribuir para a reorganização da segurança pública no Rio de Janeiro. O primeiro ponto é compreender que temos um papel central de um projeto de segurança embasado em interconexão entre vários fatores sociais e na necessidade de uma abordagem sistêmica da vida. As UPPs tinham um nome péssimo, mas uma proposta inicial boa, um Sistema Integrado de Segurança Pública e Desenvolvimento Social, que conecte áreas como segurança, saúde, educação e desenvolvimento econômico e social. Recuperar estes princípios e ampliar na formação de rede colaborativa, envolvendo tanto órgãos governamentais quanto a sociedade civil, para enfrentar os desafios de segurança a partir de múltiplas perspectivas. Além disso, a implementação de um policiamento comunitário em rede, inspirado nos modelos japoneses e espanhóis (veja este pequeno documentário a respeito), seria crucial para aproximar a polícia da população e criar um ambiente de confiança mútua. A desmilitarização das forças de segurança e a formação contínua dos policiais, com ênfase em direitos humanos e mediação de conflitos, também são medidas essenciais para a transformação do sistema.

A legalização de drogas ilícitas é outro ponto importante. Entendo que o cidadão comum tema lidar com este problema, porém é crucial olharmos para as experiências bem-sucedidas a respeito de legalização de drogas. Drogas como o cigarro, açúcares, certos fármacos, álcool são muito mais bem controlados na sociedade por instrumentos de saúde pública e instrumentos econômicos. Este é o ponto.

Um dos temores que a população tem da legalização é que ela enxerga as drogas como um caminho para a morte, e tem um sentido em pensar assim dentro do sistema atual. A questão é que, podemos contar mais de 50 anos em que as disputas ostensivas matam gente e não resolvem os problemas.

Os programas focados na juventude, especialmente em áreas vulneráveis, e a criação de conselhos comunitários de segurança e desenvolvimento social são outras propostas que podem ajudar a construir uma sociedade mais justa e segura. Se o jovem tem alguma perspectiva que envolve educação e formação em um trabalho digno e uma perspectiva mínima de acesso a um sistema de saúde que funcione, a criminalidade reduzirá muito.

Conclusão

A transformação da segurança pública no Rio de Janeiro exige uma abordagem integrada e intersetorial, que vá além do simples combate ao crime. Ao adotar uma perspectiva mais ampla, baseada na teoria da complexidade e em exemplos internacionais que deram certo, é possível construir um ambiente de segurança mais humano e sustentável, onde diferentes esferas do governo e da sociedade civil trabalhem juntas para promover a paz social e o desenvolvimento humano.

É preciso entender que a máquina que move a violência é econômica e extremamente enlaçada nas muitas forças que gerem este Estado, forças essas que ocupam cargos legalizados e cargos ilegais. Infelizmente, não é tarefa simples lidar com isso ou desmontar estas estruturas das diversas formas de poder que atuam na cidade, mas uma coisa é certa é preciso começar de algum lugar.

Subjetivamente, precisamos confrontar e modificar o imaginário coletivo que sustenta a ideia de que a segurança se resolve com heróis solitários em uma batalha contra o crime ou inovações tecnológicas puramente armamentistas e ostensivas. O caminho simplista dos filmes hollywoodianos, onde policiais e “justiceiros” como Batman, Bradock ou Duro de Matar resolvem todos os problemas sozinhos, não se sustentam na realidade. Esses estereótipos podem funcionar bem como entretenimento, mas não como modelo de segurança pública.

Enquanto continuarmos alimentando essa lógica, vamos apenas substituir a chance de enfrentar os sérios desafios do Estado por um espetáculo televisivo diário, cuja qualidade e efetividade são, no mínimo, questionáveis.

Robocop 2 – O policial do futuro matando alguém

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Arquitetura e Urbanismo, artigo, Inteligencia Artificial, pensamento, política

A Transformação Digital na Construção Civil: BIM, Digital Twins e IA

A indústria da construção civil segue ufanista com as plataformas BIM, embora muitos ainda confundam BIM com certas ferramentas proprietárias. No entanto, suspeito que essa lógica de pensamento esteja se tornando obsoleta, mesmo antes de atingir seu auge. O avanço tecnológico tem dessas peculiaridades; quem se lembra dos laserdiscs, precursores dos CDs?

O Papel das Ferramentas na Arquitetura e Engenharia Digital

Primeiramente, é crucial entender que a questão central não são as ferramentas em si, mas seus métodos de operação, interface com o usuário e propósito. O BIM continua sendo o melhor método para produção de dados e gerenciamento de documentação em projetos de arquitetura e engenharia. No entanto, ferramentas de inteligência artificial estão surgindo para potencializar decisões em projeto, manutenção preditiva, simulação e análise em tempo real. Quando integrados a sistemas de Machine Learning, esses dados ajudam a construir um arcabouço de soluções possíveis para problemas complexos.

Integração de Digital Twins e IA na Arquitetura e Engenharia

Na fase atual, a IA se tornou um complemento importante às ferramentas de projeto. A aplicação de Digital Twins, por exemplo, permite uma análise robusta de dados em tempo real, automação de decisões e otimização através de simulações. O que o Digital Twin faz é criar um “gêmeo virtual” de objetos, processos ou sistemas físicos, monitorando-os em tempo real e de forma detalhada. Isso permite a otimização de seu equivalente real, seja ele uma máquina, um mega edifício, uma indústria ou até mesmo uma cidade.

Sinergia entre BIM, Digital Twins e Machine Learning

A complementaridade entre BIM, Digital Twins e Machine Learning está transformando a arquitetura e engenharia ao automatizar processos de design, documentação e operação. O BIM já facilita a criação de modelos detalhados e a coordenação entre disciplinas. Com a integração de algoritmos de Machine Learning, será possível otimizar designs e reduzir erros de forma automática. Digital Twins, por sua vez, permitem monitoramento e simulação em tempo real, possibilitando manutenção preditiva e ajustes contínuos durante o ciclo de vida do projeto.

No futuro, essas tecnologias combinadas podem automatizar grande parte do processo de arquitetura e engenharia. Ferramentas de design generativo, integradas ao BIM, junto com a análise de dados históricos realizados por Machine Learning, permitirão que projetos sejam otimizados autonomamente. Os Digital Twins terão um papel crucial ao prever o desempenho dos ativos e permitir ajustes dinâmicos, resultando em construções mais eficientes e adaptáveis.

Até aqui,  falamos de algo que já está em curso na engenharia de ponta e nem consideramos o avanço tecnológico de ferramentas de design generativo que permitem a criação de múltiplas opções de design baseadas em critérios definidos pelo usuário. Nos permitindo explorar várias soluções de design rapidamente nas fases conceituais.

Sistematizando:

  • Concepção projectual: partindo do BIM e ferramentas de design generativo, auxiliado por Machinhe Learning, criamos automaticamente múltiplas opções de design, otimizadas para diversos critérios. Temos como papel, dentro disso, formular os critérios e diretrizes, aquilo que na língua do arquiteto chamamos de Partido e Programa, inserir os principais dados e selecionar, dentre as múltiplas opções entregues pelo design generativo, quais seriam as melhores soluções sugeridas.
  • Desenvolvimento e Simulação: O Digital Twins simulará continuamente o desempenho dos designs gerados em um ambiente virtual, permitindo ajustes em tempo real e a otimização antes da construção. Destes ajustes finos escolhemos o melhor projeto a ser construído.
  • Execução e Operação: A construção  será acompanhada e ajustada automaticamente com base no contínuo feedback do Digital Twins e nas previsões do Machine Learning. Durante a fase operacional, a manutenção e os ajustes de desempenho serão feitos de forma automatizada, gerando dados para otimização da obra e operação atual, tanto quanto para melhorias em novos projetos.

A partir desta sinergia, o ciclo de vida de um  projeto e obra pode ser  gerido de forma contínua, da sua concepção até o limite máximo de seu uso. Com o Digital Twins e ML ajustando o BIM conforme necessário para garantir que o ativo físico opere da maneira mais eficiente e durável possível.

O Compromisso Ético na Era da Automação

Nesse cenário de transformação, o compromisso central dos profissionais de arquitetura e engenharia deve ser a criação de diretrizes que assegurem a preservação da vida e do meio ambiente. Inspirando-se nos ensinamentos de Isaac Asimov, é fundamental estabelecer limites claros para o uso dos recursos naturais e desenvolver estratégias que não apenas minimizem os impactos negativos, mas que os transformem em benefícios ambientais. Com essas diretrizes, que garantem a proteção da humanidade e do planeta Terra enquanto entes vivos, os sistemas de automação poderão nos guiar para soluções inovadoras, potencializando compensações ambientais e estratégias globais que não apenas reduzam impactos negativos, mas quiçá também gerem impactos positivos.

Decisões estratégicas exigem um comportamento ético e político da profissão, além da competência técnica. É hora de caminhar em direção a um futuro mais digno e sustentável, onde a tecnologia seja uma aliada na construção de um mundo melhor.

imagem gerada pelo DALL-E tendo como input o comando: crie uma imagem artística de modelo de cidade com favelas toda formada com partes de lixo eletrônico.
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Conectividade Global vs. Coesão Local: O Dilema da Reconstrução Urbana em um Mundo Globalizado

Entre Pólis e Civitas, cidades em desalinho.

Ao ler sobre as obras nos municípios de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, destruídos pelo rompimento da barragem de Mariana, fui confrontado com uma dicotomia intrigante. Nessas áreas, foram construídos condomínios aos moldes de bairros-jardim e de condomínios fechados contemporâneos, soluções que se encaixam na lógica das cidades globais. No entanto, um relato de um morador expressa bem o desencontro que essa urbanização criou para aqueles que sofreram as perdas do desastre e agora recebem essas casas: “Antes, por ser zona rural, as pessoas trabalhavam nas casas ou na dos vizinhos. Hoje, não é área rural, não pode ter galinha (…) A Renova precisa criar um modo de sobrevivência da comunidade.” Este testemunho, divulgado em uma matéria da Folha de São Paulo, revela a falha dessas novas construções em atender às necessidades e expectativas de uma população que tinha sua vida profundamente conectada ao contexto rural.

Este exemplo nos leva a refletir sobre as cidades contemporâneas e a forma como elas absorvem ou negligenciam os valores comunitários em favor de modelos globais padronizados. As palavras “pólis” e “civitas”, embora ambas significassem “cidade” para os gregos e romanos, carregam significados intrínsecos que podem nos ajudar a compreender e reavaliar a organização urbana atual.

A pólis grega representava o espaço do ethos, da ética e da política, onde a unidade comunitária e cultural era fundamental. As cidades-Estado gregas eram autônomas, cada uma com sua forma de governo, leis e instituições, e a participação cívica era um valor central. Já a civitas romana, apesar de também ser uma unidade política, possuía uma concepção mais expansiva, onde o ethos enfatizava a obediência à lei e o dever para com o Estado, em busca de coesão em um império diversificado.

Nas cidades globais contemporâneas, podemos observar uma combinação dessas heranças. Elas são frequentemente organizadas em torno de centros cívicos, como as pólis, e utilizam grandes infraestruturas — como arranha-céus e espaços públicos monumentais — que simbolizam ordem e poder. Porém, essas centralidades muitas vezes estão desconectadas das periferias, perpetuando a fragmentação espacial e social. Essa desconexão reflete uma lógica mais próxima da civitas romana, onde a organização urbana se expressa geograficamente através da segregação e da especialização das zonas (residencial, comercial, industrial), e politicamente da pólis, onde embora a liberdade e participação ativa cidadã fosse importante ela era destinada apenas aos homens livres.

Assim, como nas pólis – que promoviam uma integração orgânica entre diferentes funções urbanas, com uma ênfase na participação cívica e no uso comum do espaço público – as cidades globais contemporâneas tendem a refletir uma dinâmica onde apenas uma parte dos cidadãos, os “cidadãos globais”, usufruem dos benefícios do fluxo econômico e da participação nas redes globais de mercado. Esses indivíduos sabem navegar pelas redes globais atuando de maneira expansionista, enquanto outros, marginalizados dentro desse sistema, encontram-se fixados em suas realidades locais, com acesso limitado aos benefícios urbanos e a uma vida marcada pela precariedade e pela subserviência ao poder constituído de um Império.

Essa realidade cria uma tensão entre a ética globalizada dessas cidades e as necessidades locais dos seus mais vulneráveis, gerando alienação e fragmentação interna. Na cidade global, diferentes grupos sociais vivem realidades praticamente distintas, muitas das vezes invisíveis apesar da proximidade física. Assim como as Pólis e as Civitas enfrentaram desafios em relação à coesão social, as cidades globais contemporâneas também enfrentam o desafio de reconciliar a fragmentação humana e a desigualdade econômica com um ethos urbano mais inclusivo e sustentável.

Para que as cidades globais evoluam de maneira mais justa e sustentável, é necessário uma ética que combine a conectividade global com um compromisso local com a justiça social e a equidade, e isto não é simples visto que exige abnegação de privilégios por parte de quem os tem. Isso implica em novas formas de organização espacial, que priorizem a inclusão e a acessibilidade, e em políticas que reduzam a desigualdade e promovam uma economia que beneficie a todos, não apenas uma elite globalizada. No campo da arquitetura e do urbanismo, isso se traduz em modelos de planejamento que valorizem as relações comunitárias e a capacidade humana de proteção e auto sustento, reconhecendo a importância de um ethos reconciliador e inclusivo.

Agora que comentamos muito a respeito de pontos conceituais e teóricos a se pensar, vamos juntos refletir na caminhada, mas especificamente em instrumentos práticos para a construção de outra sociedade.

Instrumentos para a Construção de uma Ética cidadã Inclusiva

Listamos aqui alguns instrumentos práticos que integram a conectividade global com um compromisso local de justiça social e equidade.

É preciso que parte da riqueza produzida no mundo seja trabalhada de forma pública e comunitária. Pensando que o sistema financeiro pode, não apenas se retroalimentar, mas também pavimentar ciclos menores de campo produtivo, sendo assim, pensemos que:

  • Taxação Progressiva e Redistribuição de Renda: Implementar um sistema de tributação progressiva que cobre maiores impostos das grandes corporações e indivíduos de alta renda, direcionando esses recursos para financiar serviços públicos, habitação acessível, e programas sociais que beneficiem e mitiguem os problemas das comunidades marginalizadas.
  • Economia Solidária e Cooperativas Urbanas: Incentivar a criação de cooperativas de trabalhadores e empresas sociais que operem com um modelo de economia solidária, onde os lucros são redistribuídos entre os membros da comunidade e reinvestidos em projetos locais que gerem empregos e promovam o desenvolvimento sustentável.
  • Apoio a Pequenos Negócios e Iniciativas Locais: Criar programas de fomento, financiamento, acompanhamento e subsídios para pequenos negócios e iniciativas empreendedoras locais, prioritariamente em áreas desfavorecidas, permitindo que essas comunidades desenvolvam sua parte no ciclo da economia e reduzam a dependência de capitais globais que muitas vezes ignoram as necessidades locais.
  • Orçamento Participativo: Implementar práticas de orçamento participativo, onde os cidadãos tenham voz efetiva e ativa na alocação dos recursos públicos, garantindo que as prioridades da comunidade sejam atendidas e que as decisões políticas reflitam as reais necessidades locais.
  • Descentralização Administrativa: Promover a descentralização dos poderes governamentais, transferindo mais autonomia para as administrações locais, que estão mais próximas das comunidades e, portanto, mais capazes de entender e responder às suas necessidades específicas. Construir gestões comunitárias, com instrumentos de ação e dentro de limitações cabíveis.
  • Transparência e Responsabilidade: Fortalecer os mecanismos de transparência e responsabilidade nas esferas públicas, garantindo que as políticas e projetos urbanos sejam desenvolvidos e executados de maneira ética, equitativa e com o envolvimento direto da comunidade.
  • Habitação Acessível e Inclusiva: Desenvolver políticas de habitação que garantam moradias acessíveis e de qualidade para todos os estratos sociais, evitando a gentrificação e promovendo a mistura social em todos os bairros. Isso inclui a construção de moradias sociais integradas a áreas bem servidas por infraestrutura urbana (principalmente). Rediscutir o valor da terra e as condições fundiárias.
  • Educação e Capacitação Comunitária: Criar programas educacionais focados na capacitação, com ênfase em habilidades que promovam a participação ativa na economia urbana, além de fomentar uma educação cívica que incentive a participação política e o engajamento comunitário.
  • Saúde e Bem-Estar Comunitário: Expandir o acesso a serviços de saúde e programas de bem-estar comunitário, especialmente em áreas carentes, garantindo que todos os cidadãos tenham acesso universal a cuidados de saúde de qualidade e programas de apoio social.
  • Zoneamento Inclusiva e Uso Misto do Solo: Reformular as políticas de zoneamento para permitir o uso misto do solo, combinando habitação, comércio, lazer e serviços públicos em proximidade. Promovendo assim, maior integração social e reduzindo a necessidade de longos deslocamentos, que muitas vezes penalizam as populações mais pobres.
  • Espaços Públicos Acessíveis e Seguros: Investir na criação e manutenção de espaços públicos de qualidade que sejam acessíveis a todos os cidadãos, independentemente de sua condição social. Praças, parques, centros comunitários e áreas de lazer devem ser distribuídos de forma equitativa pela cidade, servindo como locais de encontro e interação social. Construir integração dos diferentes.
  • Infraestrutura Verde: Integrar a infraestrutura verde no planejamento urbano, incluindo corredores ecológicos, parques, telhados verdes e sistemas de coleta de águas pluviais. Fortalecer as massas florestais locais e reservas ambientais, incluindo a recuperação de rios degradados.
  • Mobilidade Urbana Sustentável: Desenvolver sistemas de transporte público eficientes, acessíveis e sustentáveis, priorizando o transporte coletivo, ciclovias e caminhos para pedestres. É possível pensar em transporte a custo zero, pois a economia ganharia com a mobilidade do trabalhador.

Instrumentos Globais para uma Produção Industrial Racional e Sustentável

A forma como essa evolução industrial e tecnológica ocorre precisa ser reavaliada para garantir a sustentabilidade global. Abaixo estão propostas de instrumentos práticos visam criar um sistema global de produção industrial mais racional e sustentável.

  • Organização Mundial para a Sustentabilidade Industrial (OMSI): Criar uma organização internacional, sob a égide da ONU, dedicada exclusivamente à regulamentação e supervisão da produção industrial global. A OMSI teria o poder de estabelecer normas ambientais obrigatórias para todos os países, monitorar o cumprimento dessas normas e impor sanções a nações ou empresas que violassem as diretrizes.
  • Acordos de Produção Sustentável: Estabelecer acordos internacionais que limitem a capacidade de produção industrial com base em critérios de sustentabilidade, como emissões de carbono, uso de recursos naturais, e impacto social. Esses acordos poderiam ser vinculados a metas globais de redução de emissões e conservação ambiental, com penalidades para países que não atingirem os objetivos. A relação do que é produzido e estocado com o que é consumido precisaria passar por constantes linhas de equilíbrio global, evitando uma massa de produtos parados em galpões, píeres, ou outros sistemas de depósito logístico.
  • Taxação Global de Recursos Naturais: Implementar uma taxa global sobre a extração de recursos naturais, incentivando as indústrias a usar materiais reciclados e a investir em tecnologias de desmaterialização. Pensar como imposto progressivo, aumentando à medida que os recursos se tornassem mais escassos, ou houvesse reincidências por parte das empresas. Os fundos arrecadados seriam destinados ao desenvolvimento de tecnologias sustentáveis e à mitigação dos danos ambientais globais.
  • Regulação Obrigatória da Economia Circular: Tornar a adoção de práticas de economia circular obrigatória para todas as indústrias globais, exigindo que as empresas desenvolvam produtos que possam ser facilmente reciclados, reutilizados ou compostados. Produtos que não cumprissem esses requisitos seriam proibidos de serem comercializados em mercados internacionais ou sobretaxados.
  • Incentivo ao Desenvolvimento de Materiais Sustentáveis: Criar um fundo global financiado por governos, fundações e grandes corporações para apoiar a pesquisa e o desenvolvimento de materiais sustentáveis e biodegradáveis. Este fundo seria utilizado para acelerar a substituição de materiais poluentes e não renováveis por alternativas sustentáveis.
  • Regulação de Cadeias de Suprimento Localizadas: Incentivar e regular a descentralização das cadeias de suprimento, promovendo a produção local e regional em detrimento de longas cadeias globais de valor. Isso reduziria a pegada de carbono associada ao transporte de bens e criaria economias menos dependentes de fatores externos.
  • Criação de Hubs Industriais Locais Sustentáveis: Investir na criação de hubs industriais locais sustentáveis, que funcionam como polos de inovação e produção com impacto ambiental mínimo. Esses hubs utilizam energia renovável, reciclagem completa de resíduos, e estariam integrados a sistemas de transporte sustentável, servindo como modelos para a produção industrial global.
  • Política de Autossuficiência Regional: Implementar políticas globais que incentivem a autossuficiência regional em certos setores, como alimentos, têxteis e produtos básicos. Isso reduziria a dependência de importações e estimularia a economia local, enquanto diminuiria a pressão sobre os sistemas de produção globalizados.
  • Patentes Verdes Compartilhadas: Estabelecer um sistema de patentes verdes compartilhadas, onde tecnologias inovadoras e sustentáveis sejam de domínio público ou licenciadas sob termos favoráveis para uso global.
  • Incentivo Global para Automação Sustentável: Promover a automação nas indústrias globais com o objetivo de aumentar a eficiência energética e reduzir o desperdício de recursos.
  • Inteligência Artificial para Otimização da Cadeia de Suprimentos: Utilizar inteligência artificial para otimizar as cadeias de suprimento globais, reduzindo o desperdício e melhorando a eficiência no uso de recursos, através de estudos contínuos de dados e auditorias automatizadas, tornando mais eficiente os processos de controle e fiscalização.
  • Simbiose Industrial: Introduzir modelagem de negócios de simbiose industrial, permitindo que indústrias de diferentes nichos troquem insumos, compartilhem infraestrutura, vendam energia, resíduos e matéria prima umas às outras.
  • Educação para a Sustentabilidade Industrial: Introduzir currículos obrigatórios em escolas, programas de pós-graduação e graduação em universidades em todo o mundo focados em sustentabilidade industrial, economia circular e inovação verde. A educação deve ser vista como um instrumento chave para mudar a mentalidade das futuras gerações em relação à produção e consumo.
  • Campanhas Globais de Conscientização: Lançar campanhas globais de conscientização sobre o impacto da produção industrial e a importância de práticas sustentáveis. Essas campanhas seriam financiadas por um consórcio de governos e corporações e visariam informar e engajar o público em questões críticas de sustentabilidade.

Assim, destacamos a necessidade de repensar a urbanização global e os sistemas de produção industrial em um mundo interconectado que recupere o caráter econômico das cidades e não o puramente financeiro. Propusemos instrumentos práticos que visam alinhar o progresso tecnológico e urbano com uma ética mais inclusiva e sustentável. A adoção de políticas que promovam a equidade, a economia circular, a descentralização da produção e a inovação sustentável é essencial para mitigar os impactos negativos do desenvolvimento desenfreado e garantir um futuro em que o progresso beneficie a todos. Essas mudanças são urgentes para que haja um uso justo e racional das tecnologias e indústrias, respeitando tanto as necessidades humanas quanto os limites ambientais.

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Arquitetura e Urbanismo, artigo, pensamento

Um papo sobre a possível Bolha Imobiliária nos Grandes Centros Urbanos do Brasil.

A expressiva valorização dos preços dos imóveis, a desconexão entre esses valores e a renda dos consumidores e o aumento significativo no estoque de imóveis não vendidos, são indícios que nos levam a considerar seriamente a hipótese de estarmos vivendo uma bolha imobiliária.

Evidências da Formação de uma Bolha Imobiliária

Entre 2008 e 2014, os preços dos imóveis nas principais capitais brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro, tiveram uma expressiva valorização, registrando aumentos que chegaram a 200% em alguns casos. Essa valorização acentuada, em um período relativamente curto, é um sinal clássico de formação de bolhas imobiliárias. Comparações internacionais revelam que o aumento dos preços no Brasil superou o de outros países emergentes e até mesmo desenvolvidos, refletindo uma desconexão entre o crescimento dos preços e os fundamentos econômicos, como renda e crescimento populacional.

A relação entre o preço dos imóveis e a renda média dos brasileiros é outro indicador importante. Nos últimos anos, o preço médio dos imóveis se distanciou significativamente da capacidade de compra da população, especialmente quando olhamos pra cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Essa tendência é evidenciada pelo índice de acessibilidade habitacional, que tem se deteriorado, indicando que os preços estão fora do alcance de grande parte da população. Além disso, a desaceleração nas vendas de imóveis e o aumento no estoque de unidades não vendidas, registrado pela Associação Brasileira das Incorporadoras Imobiliárias (ABRAINC), reforçam a ideia de que o mercado pode estar caminhando para uma correção de preços.

Estratégias Governamentais para Mitigação

Diante desses sinais, o governo brasileiro, tem adotado medidas para evitar o estouro de uma bolha imobiliária. O Banco Central do Brasil, por exemplo, impôs regras mais rígidas para o crédito imobiliário, incluindo a exigência de maiores reservas de capital para os bancos que concedem financiamentos nessa modalidade. Essas medidas visam limitar a alavancagem excessiva das instituições financeiras, o que poderia inflacionar os preços dos imóveis de forma insustentável.

Além disso, o governo tem promovido políticas de controle da inflação. O endividamento das famílias, especialmente com crédito imobiliário, também é monitorado de perto, com o Banco Central implementando políticas macroprudenciais que limitam a relação entre o valor do imóvel e o financiamento concedido e ajudam na prevenção de uma inundação de crédito fácil no mercado, um dos principais catalisadores de bolhas imobiliárias.

Considerações

A possibilidade de uma bolha imobiliária nas grandes cidades brasileiras é uma preocupação legítima, dada a expressiva valorização dos preços dos imóveis e a desconexão entre esses preços e a renda dos consumidores.

No entanto, as ações governamentais, particularmente as políticas de regulação do crédito imobiliário e o monitoramento macroeconômico, têm sido importantes para mitigar os riscos de um colapso no mercado. Porém elas sozinhas não resolverão a problemática. Há um viés que precisamos debater: o que é construído nas grandes cidades enquanto solução habitacional?

Problemática dos Empreendimentos Studio

Nos últimos anos, os empreendimentos do tipo Studio, caracterizados por espaços habitacionais extremamente compactos, têm proliferado nas grandes cidades brasileiras. Esses empreendimentos, muitas vezes vendidos como uma solução moderna e prática para a vida urbana, acabam por se revelar desconectados da realidade de grande parte das famílias brasileiras.

A problemática desses imóveis está na inadequação às necessidades habitacionais da maioria da população. Enquanto o público-alvo desses empreendimentos é geralmente composto por jovens solteiros ou casais sem filhos, o perfil médio das famílias brasileiras, composto por mais membros e com necessidades espaciais mais complexas, não é atendido. Basta ver qualquer peça de marketing de vendas destes produtos e notará que não são destinados a vida cotidiana de uma família brasileira, são vendidos um meio de vida quase turística, o cidadão  almoça fora todo dia nos melhores restaurantes do bairro, passa o dia na rua e volta para o apartamento como quem volta para um quarto de hotel.

Esses imóveis, embora compactos, frequentemente são vendidos a preços por metro quadrado que superam em muito a média dos demais imóveis na mesma região. Isso cria uma bolha de especulação em torno desse tipo de empreendimento, descolando ainda mais o mercado imobiliário da realidade econômica da maioria da população. Assim, os empreendimentos do tipo Studio, apesar de sua aparente modernidade, agravam essa desconexão ao não atenderem às reais necessidades habitacionais da maioria da população.

Possíveis caminhos de mitigação

Para melhorar a equidade habitacional no país, é necessário repensar as políticas de incentivo à construção de imóveis. Uma abordagem mais inclusiva, que considere o perfil demográfico e as necessidades das famílias brasileiras, é essencial. Além disso, o fomento ao desenvolvimento de habitações populares de qualidade, associadas a boas condições de infraestrutura urbana, pode ser uma solução eficaz para equilibrar o mercado imobiliário.

Programas habitacionais que incentivem a construção de moradias acessíveis, diversificadas e bem localizadas, além de um planejamento urbano que promova a integração social e econômica, são fundamentais para evitar o aprofundamento das desigualdades e a formação de bolhas especulativas no mercado imobiliário.

Imagem meramente ilustrativa, gerada por AI -DALL-E tendo como referencia um apartamento studio de 22m² e pé direito de 3,20m.

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