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Descentralizar o saber técnico é um desafio estrutural no Brasil

A desigualdade regional no Brasil gera uma das maiores dificuldades de articulação para projetos nacionais. A disparidade de bens, serviços e qualidade de vida oferecidos entre as regiões intensifica a concentração de serviços qualificados no Sudeste e Sul. Entre os muitos reflexos desse modelo está a concentração do conhecimento técnico-científico, que cristalizou um padrão de desenvolvimento desigual.

O país precisa enfrentar um desafio: como modificar esse fenômeno? Como criar uma estrutura sistêmica que amplie as capacidades de adaptação e inovação em regiões onde a economia ainda é muito pobre? Programas foram implementados, mas esbarram em problemas estruturais e na descontinuidade.

A expansão de universidades no interior trouxe avanços, mas muitos campi enfrentam a ausência do básico: laboratórios, bibliotecas e internet. Soma-se a isso um desalinhamento entre os cursos oferecidos e as vocações econômicas locais, além da dificuldade de atrair e reter pesquisadores em cidades que não oferecem o mesmo magnetismo material e simbólico do Sudeste e Sul.

Políticas de incentivos fiscais, como a Zona Franca de Manaus, também têm suas limitações. Embora atraiam indústrias, frequentemente resultam em enclaves econômicos desconectados das comunidades locais, sem transformar a base da economia regional. Da mesma forma, programas como o Mais Médicos mostraram que incentivos financeiros são insuficientes para fixar profissionais em áreas remotas. Sem uma estrutura de suporte, como moradia, segurança e acesso a serviços, a rotatividade desses trabalhadores segue alta, comprometendo a continuidade das ações.

Precisamos reconhecer que a maior parte do Brasil é formada por essas cidades e que criar estratégias de desenvolvimento regional para torná-las mais atrativas em qualidade de vida pode ajudar a reverter o processo de evasão da mão de obra qualificada que está hiper centralizado no eixo sul-sudeste.

A descentralização do saber técnico-científico , porém, exige mais do que boas intenções. É preciso articular infraestrutura educacional, incentivos econômicos, conectividade digital, redes de colaboração nacional e baratear a logística nacional, melhorando a capacidade de translado e conexão modal entre as inúmeras cidades deste País. Investir na formação de pólos de conhecimento alinhados às demandas locais e garantir a continuidade administrativa são passos fundamentais para superar a fragmentação que compromete a eficácia dessas políticas.

Este desafio é imenso. A governança brasileira, com sua complexidade federativa, exige alinhamento entre as esferas de poder, algo que frequentemente se perde em políticas descoordenadas e sobrepostas, além de inúmeras disputas de pequenos e grandes poderes. Isso nos obriga também a impessoalizar alguns processos administrativos e políticos estratégicos, visando mitigar a capacidade destes ficarem amarrados ao personalismo de lideranças.

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A Dor do Pobre: 4614/24 e Desigualdade na Nova Política Fiscal

Quero começar este texto com uma frase curta e incisiva de Pagu: “A dor do pobre é o dinheiro”. As políticas de arcabouço fiscal do governo Lula ilustram bem essa frase. A PLC 4614/2024 é sobre isso. 

Duas medidas são duras: o aumento real do salário mínimo atrelado aos índices anuais efetivos de crescimento da despesa primária, conforme fixados na LC 200; e a exigência de que, para fins de concessão do BPC, a pessoa com deficiência seja definida como aquela incapaz de viver de forma independente e de trabalhar. De cara lhes digo: para o governo, o pobre é um gasto.

Ao impor um teto ao salário mínimo e limitar o acesso ao Benefício de Prestação Continuada, o governo abandona milhares de brasileiros já vulneráveis, deixando-os ainda mais expostos à precariedade, largados ao relento. Convém lembrar, bolsas e benefícios são, por si só, um atestado da incapacidade do Estado de enfrentar estruturalmente os problemas de desigualdade psico-socioeconômica que afetam o país.

O Projeto de Lei 4614/2024 exige que o beneficiário comprove incapacidade absoluta para a vida independente e para o trabalho. Esse requisito entra em conflito direto com o conceito de pessoa com deficiência (PCD) já consolidado no Brasil, em alinhamento com a ONU, que estabelece: “Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas”.

Assim sendo, o que o governo promove é a exclusão de um benefício afirmativo sem dar condições sociais para completa integração das pessoas a dignidade plena e todos os direitos civis. Entendemos que, mesmo a deficiência em um grau aparentemente leve carrega a longo prazo uma série de dificuldades ao longo da vida, ainda mais em um país pobre como o nosso. 

O que o governo promove, portanto, é a exclusão de um benefício afirmativo sem oferecer as condições sociais necessárias para a plena integração dessas pessoas à dignidade e aos direitos civis. Mesmo uma deficiência considerada leve pode, a longo prazo, acarretar sérias dificuldades — ainda mais em um país marcado pela pobreza como o nosso. Tanto estes benefícios, quanto o salário mínimo não se justificam como economia, visto ser um dinheiro que circula novamente na economia, tão logo é recebido.

Quando junta esta política com a aprovação da precarização do professor no Rio de Janeiro, o recado dado permanece: reduzimos a ajuda permanente e dificultamos as condições de ensino. Admira-me a esquerda se alinhar a este tipo de projeto, rasgando bandeiras históricas de lutas populares e por um mundo igualitário. 

Ao combinar essas políticas com a recente aprovação da precarização do trabalho docente no Rio de Janeiro (e no restante do Brasil), o recado é claro: reduzimos a ajuda permanente e precarizamos o acesso digno à educação. 

Surpreende ver setores da esquerda (incluso o governo) alinhados a esse tipo de projeto, que contradiz bandeiras históricas de lutas populares e pela igualdade. O projeto do Brasil desenha um país com um planejamento frágil, baixíssimo fomento em desenvolvimento real, subserviente ao agronegócio. Um país que escolheu o pobre como alvo de seu projeto de controle social e econômico. 

Não é pelo dinheiro economizado, é pelo valor que “sua cabeça agora está custando”. Com menos renda e salário, o que o governo faz é aumentar a massa de reserva de trabalhadores barateados pela necessidade de sobrevivência. Ao mesmo tempo, seguem os privilégios das famílias donas do poder, das OSs, das BETs e de inúmeras estruturas legais ou ilegais que gerenciam e rateiam o Brasil. Infelizmente, jogaremos fora um dos maiores ativos do País: o bem-estar e a dignidade do seu povo, Não terá narrativa ou militância que salve a esquerda do ônus destas decisões estapafúrdias.

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Um dia do Arquiteto

Esta semana celebramos o Dia do Arquiteto e Urbanista no Brasil. Uma profissão curiosa e pitoresca. Parece-me um ofício tão essencial à sociedade e, ao mesmo tempo, tão supérfluo. Multidisciplinar, multi-escala, mas, convenhamos, nunca esqueçamos: é um ofício, um trabalho.

A carreira do arquiteto é vendida com um ar de vislumbre exclusivo. Não sei se chegamos a ser capitalistas. Tenho minhas dúvidas. Creio que somos aristocratas. As boas relações, o prazer do afago vaidoso, os elogios sinceros ou não, as capas de revista e vernissages parecem mais valiosos do que fechar o mês sem sufoco. A verdade nua e crua é: somos apenas proletários com bom gosto para cortinas e para boletos atrasados.

A arquitetura é essa jovem senhora que ainda mora na última mansão de um bairro que já foi chique. Ela observa a rua com relutância, escondida atrás de cortinas que não troca desde o enxoval de casamento. Do lado de fora, a vida acontece: o pau quebra, o churrasco estala, toca Naldo nas caixinhas JBL. Ela insiste no Chanel nº 5 comprado nos anos 80. Finge desgosto, mas dá pra ver o pé batendo discretamente ao som de “Amor de Chocolate”.

Ainda vivi um tempo em que as escolas de arquitetura recebiam grandes nomes como Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha e Zaha Hadid, gente que inspirava mais pelo gesto do que pelo marketing. Hoje, porém, a moda é influencer ensinando como ganhar milhões e lançando livros de autoajuda. Nada contra, afinal, nem eu tenho uma grande obra para vos apresentar. Enquanto isso, a profissão enfrenta recessão: evasão crescente, salários em queda e prestígio diminuindo. Sei que pareço um velho ranzinza, mas, no meu tempo, isso não era mato. Era paisagem.

Agora, na Delfim Moreira, vi varandas “orgânicas” e jogos de luzes de um edifício milionário tentando roubar o protagonismo da própria orla do Rio. Se me pagarem 38 milhões, talvez eu aceite morar lá. Mas, sinceramente, prefiro uma casinha de meia água com quintal e gramado na Praia Seca.

Minha irmã, formada em TI ou algo do tipo, me deu uma Caran D’Ache. Só mesmo alguém da tecnologia para bancar isso. Qualquer capitalista sabe que salário de arquiteto não banca essa lapiseira. E um bom comunista diria que é só parte do fetiche do imperialismo. Já o grafite? Compro na Shopee. Sei que é como ter uma Ferrari e instalar um kit-gás, mas esta é minha vida.

Enquanto discutimos formas orgânicas e conceitos abstratos no nosso baile da Ilha Fiscal, o povo mete a mão na massa e constrói a casinha pequenina que, cá entre nós, é a que eu gosto. “Ah, Rodrigo, não desvalorize tanto o seu saber!” Não o faço. Amo o saber e pratico o ofício. Mas aprendi com o velho Niemeyer que “o mais importante não é a arquitetura, mas a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar.”

Feliz Dia do Arquiteto e Urbanista, ainda que atrasado!

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Cemitérios no Rio: desigualdade até na última morada?

Nunca imaginei que fosse ser expulso de um jazigo. Pelo visto, a gentrificação alcança a todos. Quem diria que correríamos o risco de perder a última morada.

A saga de ver o jazigo da família ser ameaçado de leilão me fez enxergar um mundo imobiliário peculiar: a compra e venda de túmulos. Nos classificados, as melhores descrições possíveis: “Túmulo, ótima localização, direto com o proprietário”. O que viria a ser uma ótima localização? Estaria vivo o proprietário? “Oportunidade única: jazigo perpétuo, cemitério Caju, na primeira quadra”; “Jazigo Perpétuo, Cemitério da Cacuia, área nobre”; onde seria a periferia, no Dendê?

Não pensem que o Rio partido fica esquecido no além. Morar no São João Batista é luxo! Um buraco de 3m² pode ser comprado por módicos 180 mil reais, ou bem mais. Ainda assim, é mais barato e, quem sabe, até mais confortável que um estúdio da Avenida Paulista. Atravessou o túnel e pronto: estou pertinho da praia e do Bairro Peixoto, um dos cantinhos mais simpáticos para os vivos e mortos desta cidade se sentirem no aconchego de um Rio perdido no tempo.

Minha morada final, por enquanto, não custa mais de 30 mil reais. É no Murundu, ali entre Bangu e Realengo, terra de meu avô. Chão do meu batismo. Mas quem sabe, até lá, o Airbnb não crie um sistema imobiliário para a vida além? Podemos ser corpos nômades, vagando de aluguel nos túmulos por aí. Passar um fim de semana no Caju, ao lado do Cruzeiro. Outro fim de semana, curtir um samba com Paulo da Portela no Irajá. Passar uma tarde no Jardim da Saudade, sob um pé de laranjeira. Talvez uma noite no cemitério vertical. Ou tirar férias luxuosas na Recoleta.

Imagino até a notificação no celular: “Sua reserva no Vila Rosali foi confirmada. Check-in: 2084”. 104 anos, como o velho Niemeyer! Qual o prejuízo? Minha vida já é aluguel mal pago.

A morada final nunca foi algo que imaginei. Meu limite foi o velório. Quero todos os meus amigos presentes, os vivos e os mortos. Deem um jeito, dá para chegar de trem! De um lado, o samba; do outro, o rock’n’roll, sem misturar. Não gosto do Sambô. Um cortejo digno das vaidades que nunca tive, mas com o deboche niilista e existencial de quem sabe que a morte é só um detalhe.

Nada na vida é tão importante que não mereça ser celebrado. Se até lá meu túmulo ainda não tiver sido leiloado, deixo na lápide para todos: A vida é boa! Se sentirem saudades, fiquem tranquilos; venho visitá-los nas madrugadas para conversar.

quem é vivo sempre aparece

publicado originalmente no instagram: @rodrigobertame

replicado no Diário do Rio

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Falta d’água no Rio: Urge colocar a Água como centro da Política global!

A equidade sanitária é um desafio urgente para a nossa região metropolitana. A cidade do Rio está há dois dias sem acesso à água. Locais de trabalho e lazer fechados para garantir o racionamento. E mal começamos o verão.

Fui criança em um bairro que não recebia água regularmente. Na época, eu naturalizava, ainda não tinha conhecimento técnico sobre o problema real. Assim como eu, muitos cariocas são assim e por isso tendem a normalizar a crise. Ter uma cisterna grande (para quem podia), ligar a bomba e garantir a caixa cheia fazia parte do cotidiano. Sabíamos que, dia sim, dia não, ficaríamos à míngua. É surreal pensar que uma cidade com tantos recursos hídricos como a nossa, optou por um modelo de abastecimento centralizado em uma única fonte.

Mais surreal ainda é saber que, ano após ano, esse recurso sempre chega primeiro às regiões mais nobres, independentemente da distância. Para quem não conhece o Rio, o Guandu está mais próximo de bairros como Santa Cruz, Campo Grande, Sepetiba, Bangu e Realengo, todos na Zona Oeste ou Norte da cidade. Bairros que estão, literalmente, ao lado e ficam dias e dias sem água.

Nos últimos anos, tornou-se comum ver a cidade inteira parar por alguns dias devido à falta de água. São muitos os problemas, mas o principal é a ausência de uma política nacional que trata o recurso hídrico como prioridade estratégica e direito humano básico. Não há vida na Terra sem água. Se continuarmos com essa matriz centralizadora, que depende exclusivamente do Rio Guandu, sem investir na requalificação de outros rios ou aquíferos do Estado, corremos o risco de matar nossa cidade de sede.

A equidade sanitária, neste ponto, é fundamental. Garantir o acesso ao tratamento de esgoto e água para toda a população periférica não apenas reduz a pressão no sistema, mas também gera dados para um melhor planejamento e melhoria das condições reais para a engenharia sanitária produzir soluções técnicas viáveis de melhoria do abastecimento da cidade como um todo. Além disso, é fundamental controlar e fiscalizar desperdícios industriais e empresariais. Por exemplo, as jazidas de extração de areia, grandes consumidoras de água, operam hoje em um sistema de mercado, digamos assim, misto (legal e ilegal) que precisa ser regulamentado, fiscalizado e com as jazidas ilegais veementemente combatidas.

Colocar água no centro da pauta política, junto com alimento, saúde e educação, é indispensável para a construção de uma cidade verdadeiramente sustentável. Penso que a saída passa por um arranjo que envolve os princípios políticos de equidade social, a pressão popular e um saber técnico que compreenda o papel ético e a função social da engenharia e arquitetura na solução de problemas como os que estão dados. Sem isso, não vislumbro futuro possível.

Como creio em um futuro belo, segue uma imagem de um Rio de Janeiro possível, o Rio de todos os Rios que a Portela nos presenteou em 2017.
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O Rio é menos Doce no G20

foto de  Fred Loureiro/ Secom ES – original de Brasil de Fato

O Brasil, nesta semana, tornou-se o palco de um dos mais importantes encontros democráticos globais. Ao mesmo tempo, uma série de eventos articula ativistas e entidades da sociedade civil em torno de temas cruciais: governança, justiça social, e uma resposta urgente para a crise ambiental que já ceifa vidas e compromete gerações. Mas é impossível ignorar o paradoxo gritante: enquanto discutimos políticas para um mundo mais justo e ambientalmente seguro, nosso próprio país fecha os olhos para os crimes cometidos por mineradoras que exploram impiedosamente nosso solo, nossos rios e as vidas de comunidades inteiras. 

A abertura do evento coincide, bizarramente, com o julgamento da SAMARCO – uma oportunidade perdida de fazer justiça a centenas de famílias e ao meio ambiente devastado pelo rompimento da barragem em Mariana. Um dos maiores crimes ambientais da nossa história recente expôs as entranhas de um sistema que protege o lucro ao custo do sacrifício de vidas pobres, deixando claro que o país que sedia o G20 não teve coragem de enfrentar o poder desproporcional do extrativismo de sua elite econômica. Milhares de toneladas de lama tóxica varreram o Rio Doce, soterrando sonhos e histórias, em um ato de violência impune contra a natureza, 19 pessoas, e as inúmeras famílias que dependiam do seu lugar para sobreviver. Em Mariana, o rompimento da barragem não só varreu vilas e comunidades, mas expôs, com uma violência gritante, a insensibilidade de um sistema que escolhe proteger o lucro ao custo de vidas. Esse crime ambiental expôs o preço de uma economia servil, que passa por cima dos mais pobres como se fossem descartáveis.

Essa tragédia não é isolada, é uma expressão clara do alinhamento político e classista que molda a realidade nacional. Um parêntese: É preciso que discutamos de maneira técnica e ética a responsabilidade que cabe. Nós, por exemplo, engenheiros, arquitetos, políticos e empresários têm responsabilidade diante de uma violência gerada por nosso erro. A ética profissional, longe de ser apenas individual, deve ser ancorada em uma perspectiva social, onde o “fiz porque fui mandado” deixa de ser uma desculpa para legitimar a destruição. Precisamos urgentemente de uma ética comprometida com o coletivo e com o meio ambiente, uma ética que não seja escrava do mercado. Fechando parênteses, retomemos o debate.

No Brasil, onde o abismo social é marcado pela desigualdade de voz, o G20, especialmente o G20 SOCIAL e o Urban 20, oferece uma chance ímpar de articular as lutas e reconstruir um espaço fragmentado. As discussões, as pautas e as deliberações desses fóruns não podem se limitar ao papel e anais a serem lembrados apenas no encontro seguinte: são um material precioso para reforçarmos a resistência contra os interesses que corroem nosso sistema planetário. Esses fóruns são espaços de luta, e não nos iludamos: sem uma luta efetiva contra o poder econômico e as elites corporativas que ditam as regras neste país, esses encontros se tornam espaços de catarse controlada, onde nossos gritos de justiça são abafados e o mercado continua dominando as decisões, deliberadas entre os donos do poder nos cafés da manhã dos hoteis, nos almoços e  jantares exclusivos. 

Enquanto a SAMARCO segue impune, operando, negociando com prefeituras, contaminando rios e terras, estendendo sua ganância sobre territórios vulneráveis. Outras mineradoras seguem o mesmo caminho, escoradas por uma lógica de mercado que coloca o lucro acima da vida. Esse é o retrato de um Brasil onde as grandes corporações controlam as políticas públicas, desdenhando da vida, da lei e da dignidade do povo. Temos que ser veementes em nossa posição, lutar e articular nossos interesses com força e clareza. Caso contrário, estaremos apenas domesticando nossas consciências, enquanto o poder faz seus acordos nos bastidores.

O G20 chega a um Rio de Janeiro que é vitrine dolorosa das contradições do Brasil. As delegações passam com velocidade pela periferia da cidade, das pistas do aeroporto para os hotéis. Neste Rio, barril de pólvora social, líderes globais tentam encontrar uma saída digna para um futuro que, a cada dia, se torna mais distópico.

É imperativo que transformemos esses fóruns em verdadeiros espaços de ação e resistência! Enquanto queimadas, inundações, fome, guerras e catástrofes climáticas se alastram, somos convocados a transformar os rumos da vida coletiva. A verdade é crua: o mundo mudou, e não há espaço para a inação. Não se trata apenas de uma escolha política, mas de uma necessidade de vida: ou disputamos a política global em todos os seus âmbitos, ou assistimos à destruição do que ainda resta de justo e humano em nossa sociedade.

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De onde surgiu Rick Azevedo? O drible do trabalhador no enfrentamento do 6×1

De onde surgiu Rick Azevedo? Essa pergunta tem ecoado entre certa parte dos pensadores da esquerda carioca. Confesso que também conheço pouco sobre ele, mas já o considero um nome promissor. A expressiva votação que o candidato do PSOL alcançou nos diz muito sobre a invisibilidade do trabalhador pobre diante do sistema político brasileiro.

Há dois pontos essenciais que gostaria de destacar. Primeiro, Rick foi direto e incisivo em uma análise crucial: diante da precarização, não basta resiliência; é preciso disputar espaço. Esse é o recado do “6×1”, um sinal de uma luta popular real. Engana-se quem pensa que essa pauta é restrita a celetistas ou trabalhadores com contrato formal; ela representa todos aqueles que, frente à precarização de suas vidas, precisam estar disponíveis para o mercado, 24 horas por dia, sete dias por semana, para sobreviver.

O que quero dizer com empregabilidade? Quando falo em “empregabilidade”, refiro-me não apenas à exigência de estar sempre “pronto para uso” no mercado, sempre competitivo e adaptado às transformações econômicas, tecnológicas e sociais. É a pressão para ser “empregável” em qualquer situação, diferentemente de um emprego, que é uma ocupação formal e estável. Empregabilidade abrange o trabalho informal, o bico, o subemprego, e principalmente o desemprego, todos os sistemas onde o trabalhador vende sua força na esperança de um retorno que talvez nunca venha.

Assim, a jornada “6×1” vai muito além de um acordo para celetistas. É a rotina dos entregadores, motoristas de Uber, microempreendedores (MEIs) e todo tipo de trabalhador que não consegue, em 40 horas semanais, garantir o básico para viver. Enquanto a Europa experimenta e disputa jornadas reduzidas, como o modelo “4×3”, que permite mais equilíbrio entre trabalho e vida, o Brasil segue pelo caminho oposto, abraçando uma lógica de exploração que mantém a mão de obra barata e a pobreza crônica, favorecendo a hiperexploração. E essa realidade só se aplica à gigantesca massa de pobres, sem heranças ou privilégios, cujas vidas são devoradas por um mercado que exige sempre mais e oferece cada vez menos.

O segundo ponto essencial é a coerência das ações de Rick. Ele é o “desconhecido mais conhecido” que já vi, e sua trajetória expõe a crise de desconexão da esquerda carioca – e talvez nacional. Seu impacto eleitoral não se limita aos corredores da esquerda. Rick caminhou por onde muitos formuladores e líderes da esquerda já não passam: as filas de trens, os pontos de ônibus, as ruas da Baixada Fluminense, os subúrbios, o duro solo do trabalhador carioca e fluminense. Ele foi ao encontro do trabalhador, do desempregado, do pobre, aquele que ele efetivamente busca representar.

Rick faz uma crítica necessária e contundente ao sistema sindical, num momento em que o próprio governo federal, que deveria carregar as bandeiras do trabalhismo e sindicalismo, se curva diante da correlação desfavorável de forças e tem de negociar com um parlamento que empurra os trabalhadores para novas formas de exploração. E, ironicamente, é o mesmo governo que, ao optar por um ajuste fiscal, ameaça o Sistema Único de Saúde (SUS) em um contexto onde até a saúde privada se torna precária para o trabalhador médio.

Rick Azevedo se apresenta como uma força emergente, uma representação autêntica da luta contemporânea pelo trabalho no contexto carioca. Ele pode simbolizar uma esperança para a reconstrução do pensamento trabalhista e sindical e para o próprio PSOL. Que o ímpeto de suas pautas permaneça forte em sua atuação como parlamentar, este será seu novo desafio, manter-se firme às pautas que o levaram ao cargo no legislativo. Ver essa chama acesa no PSOL é inspirador. Essa bolha furada prova que ainda é possível lutar de verdade, basta ter coragem.

imagem de divulgação do próprio vereador
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Fundamentalismo Contemporâneo e sua Ascensão nas Margens da Exclusão Social

O Fundamentalismo contemporâneo cresce na desigualdade. A grande insegurança social, econômica e, por que não, existencial, que o coletivo humano vivencia atualmente, torna-se um terreno fértil para que esse tipo de pensamento brote. Crescido a isso, temos uma hegemonia de redes de comunicação interpessoal, estruturadas de forma a reforçar esse tipo de pensamento. Exemplificando: muitas pessoas, inseguras de si, buscam respostas absolutas em discursos fechados nas redes sociais, encontram nestas seus pares e ficam alimentando comunidades que repelem o contraditório. Se tornam assim um campo fértil para o dogmatismo e polarização social.

Primeiro, o que considero fundamentalismo quando escrevo aqui: Quaisquer formas de pensar e se organizar socialmente que tenham: rigidez ideológica, busca por uma liderança ou estruturas hierárquicas que reforcem obediência e controle, ausência de diálogo entre as diferenças, gerando intolerância e exclusão e resistência a transformações sociais, culturais e políticas e reforço ideológico com base em dualismo maniqueísta (sempre haverá um mal a combater). Tendo dito isso, percebemos que a leitura não se prende a uma visão religiosa, como o senso comum está acostumado e muito se ampara para tratar o fundamentalismo como algo a parte do seu dia a dia. Quando pensamos, por exemplo, em certos grupos online que se reúnem para definir regras de comportamento e valores morais, percebemos como a força e o controle se sobrepõem à diversidade e ao diálogo, resultando em hostilidade contra qualquer perspectiva que divirja da norma estabelecida pelo grupo.

Regiões historicamente marcadas pela desigualdade, marginalização e falta de infraestrutura tendem a ser mais vulneráveis ​​ao surgimento de pensamentos fundamentalistas. Nas comunidades periféricas, onde a exclusão social é evidente, imagine um jovem que cresceu em um bairro periférico onde o Estado pouco aparece e os direitos básicos são precários. Ao ser privado de acesso digno aos direitos materiais e subjetivos, necessários para o bem-estar, ele busca construir algum sentido de comunidade e segurança.  Diante da perda cultural, abraça portos seguros que lhe são apresentados. E aqui a religião acaba por ter um papel importante. Ao prover um senso de futuro seguro e de paz, desde que seguidos um secto de dogmas, provém a resposta simbólica.  Além disso, cria um elo comunitário entre os fiéis, oferecendo alto material e simbólico ao mesmo tempo.

Em um mundo extremamente mutável e com um futuro imponderado e instável, a necessidade de controle se torna quase um acontecimento natural. Assim, apegar-se a crenças fixas e absolutistas, recusar o dissenso e a contradição como parte da experiência humana na Terra e buscar certezas simplistas servem como defesa psicológica. Um exemplo disso é a tendência que muitos têm de se refugiar em doutrinas, grupos e seitas que oferecem respostas definitivas para suas angústias. Constitui-se no indivíduo o medo da mudança como uma forma de manter sua identidade estável em meio ao caos.

Quando isso se expõe ao coletivo, ele se torna a defesa diante da ameaça aos valores tradicionais e à identidade coletiva. Em um mundo de niilismo e sofrimento extremo, é compreensível que as pessoas queiram preservar os pequenos momentos de paz e amor que sentem em suas comunidades, como uma reunião de vizinhos que compartilham da mesma opinião e rejeitam “ameaças” externas. O elo com nossos iguais. Esse elo é reforçado, por sua vez, dentro de um discurso ideológico (maquinado verticalmente ou organicamente em redes complexas) que prega a homogeneidade do grupo, criando uma visão de “nós contra eles”. Essa visão reforça tanto laços internos quanto hostilidade aos diferentes. Eu sou pois o outro não é. É uma lógica que permite até pequenas interações do dia a dia, como a evidência defensiva de um grupo que se fecha contra críticas externas ou de famílias que se dividem em posições políticas opostas, cada uma vendo a outra como inimiga.

O grande problema deste “eu contra o outro” é que ele alimenta um clima de conflito que, além de reduzir o poder dos laços comunitários, pode extrapolar os limites do diálogo e entrar no circuito da indústria de guerra. Afinal, a lógica dos movimentos fundamentalistas é um ótimo campo de prospecção para manter e expandir seu mercado. Esse tipo de geopolítica do fundamentalismo constrói uma identidade coletiva. A lógica dos movimentos fundamentalistas torna-se um terreno fértil para a manutenção e expansão do mercado armamentista, com as empresas do setor lucrando com a venda de armas que “protegem a identidade ameaçada” desses grupos.

A indústria de guerra e o fundamentalismo muitas vezes se retroalimentam. Assim, a indústria armamentista se aproveita desses cenários para a venda de armamentos, reforçando a narrativa de que o aumento de arsenais é essencial para proteger o Estado ou uma identidade ameaçada. Influenciam políticos e lideranças influentes para promover políticas de militarização, aumentando os orçamentos de defesa, e direcionando-os principalmente para a venda de equipamentos bélicos em larga escala, ignorando as possibilidades de diplomacia, diálogo e estratégia de inteligência. Afinal, a indústria lucra com a manutenção controlada dos conflitos, ocorrendo em escalas diversas desde a construção de porta-aviões e bombas atômicas ao comércio de fuzis que circulam legal e ilegalmente.

Este tipo de geografia global na sociedade contemporânea, nos ajuda a compreender como as periferias globais se tornam reféns passivas ou voluntárias ou até mesmo crentes nestas guerras ideológicas. O fundamentalismo pode nascer em quaisquer frentes que tenham material suficiente para tal: seja ele no conflito Israel Palestina, seja no evangelismo do complexo de Israel sejam nas inúmeras guerras africanas. Também pode ser encontrado em territorialidades como as grandes polarizações políticas cujo debate e construção diplomática se perde para um populismo apaixonado desenfreado que desmonta famílias em festas de natal. O fundamentalismo contemporâneo seca a esperança, sufoca o diferente, mata o outro e usa da miséria e do desespero de muitos para retroalimentar seus podres poderes.

O grande paradoxo está no fato de que: quanto mais íntimos nos tornamos do outro, percebemos que somos muito mais diferentes do que iguais e este é o ponto onde somos humanos demasiado humanos. É exatamente essa diferença que faz os humanos criarem os pontos disruptivos que movimentam a cultura e a vida como um todo. E isso por si já demonstra que, o senso de comunidade gerado em torno dos pensamentos fundamentalistas não é tão comunitário assim, pois não coloca como principal a partilha e solidariedade acima de tudo. Em vez disso, a identidade é construída a partir da existência de um “outro” a ser combatido, e não de um amor fraterno amplo, capaz de, como São Francisco de Assis, abraçar a mãe Terra e todos os seres que nela habitam.

Deixo esse texto como uma humilde reflexão sem muita pesquisa. Deixo-o e sigo no campo que mais me agrada caminhar nos territórios. O campo da contradição, do imponderado e do casuístico. Gosto deste lugar onde o bem e o mal não precisa disputar uma verdade fixa, mas se encontra na caminhada da vida, no jogo e no baile entre os dois. As armas sempre vão encontrar as mãos de um iludido que se acha esperto e as balas sempre vão encontrar o corpo de um pobre que nada tinha a ver com o conflito.

imagem original de Viviane Costa: autora do livro: Traficantes evangélicos: Quem são e a quem servem os novos bandidos de Deus (livro que ainda preciso ler) – link na Amazon Aqui
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Do Trump ao Bolsonaro: Política de Medo e a Ascenção da Era da Inteligência Artificial

A política é um campo das paixões, cujos afetos se constroem, em grande parte, pela linguagem. Seria leviano da minha parte fazer conjecturas definitivas sobre o possível retorno de Trump ao poder. Não falaria em “renascimento”, pois nunca o considerei, digamos, “morto”. O grupo político global ao qual Trump pertence – e é referência – permanece organizado e atuante no sistema contemporâneo. Demonstrando total capacidade de se manter firme em uma rede global.

Embora as redes sociais (muitas vezes taxadas como vilãs) valorizem a polarização e a autorreferência numa busca insólita por reconhecimento individual, não creio que isso explique, por si só, o fracasso do progressismo. Até porque existem redes que não operam nessa lógica, como o Discord, Mastodon, Couchsurfing, Goodreads entre outras. Também considero um exagero atribuir o fenômeno do trumpismo a um conjunto de erros do lado progressista, como se estivéssemos falando de eleições de duas décadas atrás. Prefiro encarar a dura e possível verdade: a pauta de Trump encontra eco nos corações de pessoas muito diversas, em diferentes partes do mundo. Além disso, esses grupos encontraram e aperfeiçoaram as ferramentas de linguagem e comunicação para alcançar esse impacto.

Hoje, em meio a uma mistura de insegurança econômica, mudanças culturais e medo da perda de identidade nacional em um mundo cada vez mais globalizado, abre-se espaço para uma busca desesperada por soluções rápidas e simplistas. É como se quiséssemos frear a Terra para encontrar algum eixo onde possamos ancorá-la.

A retórica de líderes extremistas ou populistas explora o desajuste em relação ao projeto de poder vigente, vendendo esse porto seguro. O modelo de poder articulado em organizações de representação (partidos, instituições, movimentos sociais, raciais, de gênero etc.) parece esbarrar em uma limitação: seu funcionamento exige a criação de uma máscara standard de imagem, capaz de gerar dados para políticas públicas com algum alcance expressivo. Contudo, a padronização, em uma sociedade tão complexa como a nossa, torna-se inviável atualmente. As ações afirmativas, por exemplo, atingem um teto estrutural: jovens cotistas, formados, que não encontram empregos dignos e precisam se lançar no empreendedorismo de sobrevivência, acabam esbarrando nos mitos do “self-made man”, encontrando ali algum tipo de referência para suas vidas.

Diante de um progressismo que não garante a completude da segurança psicológica e encontra limitações, o trumpismo, putinismo assim como o bolsonarismo no Brasil, trazem uma receita fácil para tempos de medo. Sugerem um inimigo comum – mesmo que mal definido –, seguido de um desejo coletivo: unir a nação, sermos “um só povo”, buscar a “grandeza”. Esse desejo, porém, carece de consistência prática, e aí paramos, pois não há soluções, apenas a retórica e a guerra para manter o inimigo comum vivaz nos corações apaixonados por um líder caricato.

Sugiro aqui, o retorno à linguagem como tema. “Palavras têm poder”, já dizia o profeta… ou talvez tenha sido minha avó, durante a infância. Uma das grandes viradas de chave em 68 foi a percepção das mudanças sociais: onde estavam os desencaixados no mundo polarizado pela guerra fria? Os desajustados? Essa discussão, sei, já está batida, porém ainda não solucionada. Somada a ela reside minha nova preocupação: os avanços da inteligência artificial podem concentrar ainda mais o poder político e econômico nas mãos de um pequeno grupo de pessoas ou corporações que controlam os dados e a tecnologia.

O paradigma da IA traz uma transformação radical na forma de acumulação de poder e exploração do capital, em contraste com o modelo de produção industrial. Antes, o capital dependia diretamente da força de trabalho humano; agora, a IA reduz essa dependência ao automatizar tarefas e dispensar a intervenção humana em diversas etapas produtivas. Grandes corporações e governos acumulam esses recursos, monopolizando os meios de produção e elevando a concentração de riqueza a níveis jamais vistos.

Essa mudança aprofunda o controle social e psicológico, com algoritmos que monitoram e manipulam preferências, criando uma nova “mais-valia comportamental”. A IA explora desejos e comportamentos de consumo, ampliando o lucro de forma indireta ao influenciar escolhas e subjetividades. O mercado de trabalho também sofre um impacto estrutural: o desemprego cresce com a substituição de trabalhadores por automação, e os empregos restantes tendem a ser mais precarizados, sem os direitos e o poder de organização típicos da era industrial. E a sobrevivência, o empreendedorismo real, torna-se a fusão completa de vida-trabalho-consumo, onde o made-yourself é a auto exploração e objetificação de si mesmo. Resta a humanidade que vive da sua força de trabalho, se auto vender enquanto objeto, retroalimentando as grandes plataformas que geram lucro. Seu novo trabalho nesta indústria é ser o próprio produto final vendido por ela.

Resistir às práticas exploratórias torna-se cada vez mais difícil.

Com a dissociação entre valor e trabalho, o paradigma da IA rompe o ciclo de reprodução do capital como o entendemos. A acumulação de riqueza continua sem a necessidade de redistribuir valor por meio de salários, uma vez que o capital pode ser reproduzido por máquinas e algoritmos. O capital, assim, torna-se menos dependente do trabalho humano, o que amplia as desigualdades e centraliza ainda mais o poder sobre a vida social e política. A IA impõe um desequilíbrio profundo ao sistema capitalista, redefinindo as bases da exploração e o papel da força de trabalho na sociedade.

Estamos diante de uma luta algorítmica que passa pela linguagem. Não é sensato pensar que a interface da IA ou das redes sociais seja um mero processo de manipulação; acredito que o maior desafio é perceber que elas criam camadas de existência relacional. Interfaces, mundos dentro de mundos. São novos territórios que se sobrepõem e se aproveitam do fato de que o espaço virtual, diferente do real, é infinitamente expansível em dimensões possíveis.

Hoje, as redes sociais permitem que os desencontrados e descontentes encontrem seus pares para dialogar e se organizar. Um jovem imigrante palestino, por exemplo, que não se sente representado pelas políticas de guerra do partido democrata, pode buscar apoio online. Mesmo que esse partido financie a guerra de Israel, ele acaba escolhendo Trump – alguém que, ironicamente, poderia deportá-lo para o centro do conflito, sem frear as ações israelenses. No entanto, em um futuro próximo, a IA poderá ir além: ela será capaz de criar personas virtuais que simulam uma presença real nesses debates.

Conclusão

Diante de um mundo repleto de inseguranças de futuro, surge um processo extremamente concentrador. A evolução de uma mais-valia comportamental, que já era prenunciada pela turma de maio de 68, capturada pelas redes algorítmicas trazem à tona um controle constante e  sutil sobre a exploração da vida. Ampliando o controle psicológico por meio de tecnologias cada vez mais intrusivas.

A ameaça iminente é de um aumento das desigualdades estruturais e da concentração de poder nas mãos de corporações e elites políticas, tendo a IA como ocorrência desse processo. Ao redefinir as bases do trabalho e da acumulação, estamos testemunhando um desequilíbrio que pode alterar de forma irreversível a sociedade, reforçando uma natureza paradoxal do progresso tecnológico.

Precisamos retomar a linguagem como pauta e construir a premissa ética sobre a automatização do mundo e o controle algorítmico, enquanto os avanços estão acontecendo. Este novo controle da linguagem nos permitirá organizar minimamente um futuro de segurança no tecido social e econômico da Terra.

Nestas semanas onde o Rio prepara-se para receber o G20 cabe a nós ter este tipo de debate na pauta. A democratização do kernel, a abertura dos códigos e a disputa urgente do direito a esta nova linguagem.

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Arquitetura e Bioeconomia: Caminhos para um Brasil Sustentável

Proponho uma leitura possível de Brasil que integre três conceitos interessantes para projetarmos novos tempos, na verdade dois conceitos e o meu ofício: bioeconomia, biossegurança e arquitetura. Embora esta construção exija uma base de pesquisa acadêmica sólida para um aprofundamento efetivo, pretendo humildemente oferecer uma abordagem que funcione como ponto de partida para reflexões e ações. Neste texto, tento conectar esses conceitos para pensarmos em um desenvolvimento sustentável capaz de unir a alta tecnologia e a industrialização necessária com a preservação ambiental e inclusão socioeconômica, em um país periférico e vulnerável como o Brasil.

O Brasil, com sua biodiversidade e populações vulneráveis ao lado de atividades industriais, precisa se apropriar dos conceitos de bioeconomia. Este é um ponto crítico, pois ainda não há um marco regulatório para a bioeconomia, e estamos lidando com um campo repleto de violentas disputas, que frequentemente vitimizam os povos mais vulneráveis, povos estes que deveriam ocupar o protagonismo das políticas nacionais de manejo sustentável. Assim, é crucial instrumentalizar juridicamente o país para que os conhecimentos locais sejam integrados aos processos industriais sem exploração cultural e econômica de povos vulneráveis, possibilitando colaboração para todos.

A bioeconomia surge como um modelo potencial para unir tecnologia, sustentabilidade e uso racional dos recursos biológicos, apontando para um desenvolvimento mais sustentável. Políticas públicas e linhas de crédito específicas podem fornecer suporte essencial a essas populações, promovendo estratégias de desenvolvimento que conectem alta tecnologia e economias locais sem comprometer a autonomia das comunidades.

No contexto brasileiro, setores industriais como o farmacêutico, o petrolífero e o alimentício poderiam atuar em sinergia com economias populares, valorizando saberes tradicionais de comunidades indígenas e ribeirinhas. Contudo, implementar essa visão encontra desafios práticos e requer soluções que viabilizem essa interação de forma justa.

Alcançar uma industrialização avançada e sustentável depende de alinhar o desenvolvimento tecnológico aos princípios da bioeconomia, inclusive para atrair investimentos. Comunidades indígenas e ribeirinhas podem oferecer conhecimentos valiosos às indústrias farmacêuticas e alimentícias, desde que seja garantido seu protagonismo e seguridade de direitos na gestão do patrimônio genético e dos saberes tradicionais, criando um ciclo de respeito às práticas culturais e ao território.

A pandemia de covid 19 nos ensinou sobre outro saber fundamental contemporâneo. A biossegurança envolve ações e métodos de contenção de riscos biológicos, como barreiras físicas e medidas operacionais para evitar a liberação de agentes prejudiciais ao ambiente e à saúde pública. Embora esse conceito seja aplicado sobretudo em indústrias e laboratórios estratégicos, ele pode se expandir para o urbanismo, ajudando a tratar das fronteiras entre o urbano e o rural, o construído e o natural. Há potencial para desenvolver uma mentalidade projetual que centralize a saúde pública e coletiva nas decisões de planejamento territorial e arquitetônico.

O Brasil possui um potencial estratégico em bioeconomia, mas esse potencial exige investimentos estruturais de grande escala. Por meio de um planejamento urbano bioeconômico, cidades brasileiras podem avançar no uso sustentável dos territórios, preservando biomas e gerando renda local, evitando a expansão urbana em áreas preservadas e espraiamento desenfreado. Espaços urbanos com jardins comunitários e agricultura urbana fortalecem a coesão social e a segurança alimentar, assim como o uso concomitante de parte do sistema industrial que permite a massificação da produção girar em favor de produções de escala menor. E o desenvolvimento arquitetônico sustentável pode promover inclusão e mitigar os efeitos massivos das mudanças climáticas.

A estruturação desse futuro bioeconômico requer políticas públicas consistentes. Incentivos, linhas de crédito e centros de pesquisa são fundamentais para conectar o conhecimento científico aos saberes tradicionais, racionalizar os riscos das ações nocivas à natureza por parte da industrialização e fomentar no seio da sociedade o valor agregado em torno de uma vida mais verde. Fortalecer a engenharia nacional para garantir a infraestrutura tão sonhada do país, as redes educacionais e as redes de solidariedade é vital dentro deste projeto.

Integrar biossegurança, bioeconomia e arquitetura representa uma transformação estrutural profunda. É um projeto de longo prazo que depende de políticas sólidas e da colaboração entre setores diversos, incluindo e relacionando comunidades e indústrias. Com sua biodiversidade e riqueza cultural, o Brasil possui uma vantagem única para desenvolver modelos que possam servir de referência global. Essa é uma oportunidade que exige planejamento, mas que pode fundamentar um futuro sustentável e inclusivo.

Construir um Brasil que valorize inovação, preservação ambiental e justiça social depende de abordagens colaborativas que promovam uma economia inclusiva e responsável. O valor da bioeconomia está em disputa no mundo, e é imprescindível que os povos mais vulneráveis estejam organizados e constituam força política para disputar os marcos regulatórios e implementar sistemas de segurança jurídica que defendam a biodiversidade. O papel do arquiteto, nesse contexto, pode ser o de apoiar a criação de valores e relações espaciais que defendam solos protegidos, nascentes, terras indígenas demarcadas, reflorestamento, soluções urbanas e tecnológicas de baixa poluição. Para que essa transição verde ocorra, o papel da arquitetura e do urbanismo pode ser crucial, pois traduz em materialidade espacial as demandas e fomento das práticas de bioeconomia.

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