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O Tempo Entre os Mundos


O tempo é um elemento estruturante da vida humana e da forma como organizamos a existência. Entre cronômetros e algoritmos, a sociedade moderna se desenvolveu sob a primazia de um tempo linear, homogêneo e quantitativo, uma abstração herdada do Iluminismo e potencializada pela Revolução Industrial. Entretanto, este modelo não esgota a compreensão sobre o tempo e suas possibilidades. Ao redor do mundo, epistemologias indígenas, cosmologias africanas e saberes populares oferecem alternativas à temporalidade hegemônica, propondo formas de viver que entrelaçam passado, presente e futuro de maneira mais orgânica e integrada.


O conceito de aceleração social, demonstra como a modernidade tardia impõe ritmos insustentáveis de trabalho e consumo, fragmentam a experiência da vida e comprometem a profundidade das relações humanas. Boaventura de Sousa Santos nos traz as epistemologias do Sul, aponta a necessidade de resgatar e articular saberes ancestrais que operam em temporalidades alternativas, não subordinadas à lógica produtivista.
Diferentes sociedades tradicionais estruturam o tempo de maneira não-linear.

Povos originários das Américas, como os Krenak, veem o tempo como um fluxo cíclico onde a relação entre humanos, natureza e cosmos não está sujeita à ditadura da urgência. Tradições iorubá remetem a flexibilidade do tempo,onde passados não estão encerrados e futuros são constantemente atualizados pelas ações no presente. Esses sistemas desafiam o tempo ocidental e apontam para modos de existir que valorizam a continuidade e a coexistência na Terra.


Para construir um futuro que equilibre os saberes tradicionais com a produção contemporânea da vida, precisaremos repensar os modelos de desenvolvimento. O paradigma da “desaceleração” tem ganhado força em movimentos como o decrescimento econômico, que propõe uma relação mais harmônica com os recursos naturais e com os ritmos da vida. Práticas como a agroecologia, organizadas nos calendários naturais dos povos campesinos, a arquitetura vernacular, que respeita os ciclos materiais dos territórios, são boas formas de viver, respeitam e dialogam com as diferentes temporalidades


A degustação do tempo não é um exercício romântico de retorno ao passado, mas sim um esforço de articulação entre as possibilidades que os avanços técnicos proporcionam e a sabedoria acumulada que por milênios nos capacitam. O futuro pode ser um espaço onde o tempo não seja um senhor impiedoso, cronos que tudo devora, mas um aliado na construção de um mundo mais habitável e justo.
Tomo um café com sabor de café, leio um livro, escrevo cartas a mão. Redesenho meu passeio pela teia do tempo dentro do cotidiano. Saboreio a fumaça que sai do copo e o desgaste do grafite no risco.

Lembro-me de Gana, onde o tempo do dia se iniciava com o bater da massa do Banku. Um som que ecoava por todo o país e dava um ritmo, o som do alimento de uma nação. O trabalho vivo de produção do próprio alimento dava o ritmo, o tom, demarcação do tempo.

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Notre-Dame: o tempo, a revolução e o modismo

Pensamentos da leitura de Notre Dame de Paris.

Victor Hugo, em Notre Dame de Paris, apresenta uma reflexão original ao identificar três lesões que marcam a arquitetura: o tempo, a revolução e o modismo, ironicamente considerando a última a mais agressiva. Em sua visão, a arquitetura medieval não é apenas um vestígio do passado, mas um símbolo vivo da identidade cultural. Ele denuncia a efemeridade dos modismos arquitetônicos e critica a destruição do patrimônio histórico em nome da modernização.

Notre Dame é lida por nós como resistência da história francesa, um monumento de continuidade. O autor preserva a memória da catedral e levanta uma reflexão sobre o impacto da ação humana no curso da história e na formação das sociedades futuras. Ele nos convida a perceber o tempo de maneira cíclica, onde a narrativa do romance, embora situada no século XV, carrega a marca da Revolução de 1830. A cidade de Paris, aos olhos de Victor Hugo, é um organismo vivo e em constante transformação.

A catedral não é apenas um cenário, mas um personagem ativo na história. A Paris de Victor Hugo se veste de memória e transitoriedade, construída a partir da vivência das pessoas que a habitaram. O autor descreve Notre Dame com uma devoção quase mística:

Victor Hugo vê na arquitetura gótica uma expressão da arte coletiva do povo, diz ele:

Diferente do renascimento e do neoclassicismo, o gótico surge em sua obra como uma manifestação periférica, uma estética de resistência contra os estilos elitistas e dominantes do seu tempo. O gótico, segundo o autor, propõe uma transição contínua, onde o passado é constantemente ressignificado pelas transformações humanas e a arquitetura é a escritura social desta história, diz ele:

A relação de Victor Hugo com Notre-Dame é profundamente afetiva e simbólica. Ele a vê como um marco da identidade francesa, um testemunho do gênio coletivo e da história de seu povo. Sua defesa contra os demolidores é também uma luta perene e atemporal contra o esquecimento e a padronização impostas pela modernidade. Ele parece lamentar que a cidade medieval possuísse uma unidade estética singular, enquanto a modernização fragmenta Paris em estilos desconectados. Esse olhar sobre o patrimônio também carrega uma crítica à política de apagamento que permite a destruição de edifícios históricos sob o pretexto do progresso.

Assim, em Notre Dame de Paris, Victor Hugo não descreve a arquitetura apenas como um traço físico da cidade, mas como um reflexo das transformações sociais e culturais. O desaparecimento de elementos arquitetônicos, como a escadaria que foi demolida ou ornamentos destruídos durante revoluções, simboliza essa luta entre o passado e o presente. Ele faz referência ao impacto de mudanças tecnológicas, como a substituição do arco pleno pelo arco ogival, introduzido a partir das Cruzadas.

Além de símbolo arquitetônico, Notre-Dame é um espelho da exclusão social. Os personagens principais expressam essa marginalização. Quasímodo, o sineiro corcunda e surdo, cresce na solidão das pedras góticas e encontra na catedral seu único refúgio. Esmeralda, cigana, carrega em si a beleza e o exotismo que fascinam e amedrontam a sociedade, tornando-se vítima do preconceito e da intolerância. Claude Frollo, o arquidiácono, representa a degradação moral e o fanatismo religioso. Gringoire, o poeta errante, oscila entre a intelectualidade e a miséria, sem nunca pertencer a lugar algum.

A catedral, imponente, abriga e condena. Para Quasímodo, Notre-Dame é um útero de pedra, um lar e uma prisão, um monumento de sombra e silêncio. Esmeralda busca refúgio, mas descobre que nem mesmo as paredes sagradas podem salvá-la da violência do mundo exterior. A praça pública, por sua vez, encarna a brutalidade da multidão. É ali que Quasímodo é açoitado e ridicularizado, que Esmeralda é condenada e que a justiça se manifesta como espetáculo sangrento.

A cidade medieval de Paris, com suas ruas tortuosas e becos marginais, é um labirinto onde aqueles que não se encaixam são condenados à sombra. A arquitetura e a sociedade se entrelaçam: Notre-Dame, a catedral-santuário corrompida, a praça-palco de julgamentos, e a cidade-organismo que exclui os párias sociais.

Hoje, Notre-Dame é reverenciada mundialmente, um amor que Victor Hugo ajudou a ensinar capítulo por capítulo. Ao ressaltar a beleza de um mundo esquecido e marginalizado, ele nos convida a olhar Paris através dos olhos dos corcundas, ciganos e miseráveis, que, à sua maneira, também são belos. 

Notre-Dame: Um Dispositivo Para a Arquitetura

A leitura de Notre-Dame de Paris nos oferece uma boa lente crítica para enxergar a arquitetura como um espaço de disputa política e social. Victor Hugo denuncia a destruição da memória coletiva em nome do progresso imposto por elites dominantes, algo que ressoa fortemente com a luta contra a gentrificação e a especulação imobiliária nas periferias urbanas. 

A defesa do gótico como expressão de uma arte popular e coletiva sugere um modelo alternativo ao academicismo e às imposições estéticas da elite, abrindo caminho para uma arquitetura enraizada nas necessidades reais do povo, que seja capaz de enxergar a beleza na “feiúra”. Ao reivindicar a preservação de Notre-Dame como um ato de resistência e nos apresentar uma vida urbana a partir do povo marginalizado, podemos traçar um paralelo de vida e conceber no urbanismo popular, uma forma de contestação, buscando construir cidades mais inclusivas que respeitem a história e vivência dos seus habitantes. Como construir cidades que abracem nossos Quasimodos e Esmeraldas? Esse é um desafio.

Para o arquiteto periférico, a obra de Victor Hugo pode ser uma referência para pensar projetos que desafiem a lógica excludente do urbanismo burguês, promovendo espaços de pertencimento e dignidade para aqueles que historicamente são deixados à margem. A catedral gótica, com sua resistência ao tempo e à destruição, é um símbolo de luta: da mesma forma que Victor Hugo lutou pela preservação do patrimônio histórico, os arquitetos podem lutar pelo direito à cidade, no seu aspecto físico e subjetivo, lutar pelo direito à beleza, garantindo que a memória e o pertencimento comunitário dos territórios populares não sejam apagadas pelo avanço da especulação e das políticas de segregação urbana.

Esse texto não seria possível sem duas leituras fundamentais: a própria obra de Victor Hugo, leitura que ainda segue em curso e pode produzir mais texto em breve, e uma tese interessante intitulado “O tempo que devora: história e revolução em Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo” de autoria de Jefferson Cano (que pode ser lido aqui).

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A praça de Grève, reflexões urbanas com Victor Hugo


Pensamentos da leitura de Notre Dame de Paris.

Victor Hugo tem um papel imprescindível no debate sobre memória e espaço. Em Notre Dame de Paris, o autor realiza uma verdadeira ode ao caráter gótico da cidade, utilizando a narrativa para revelar as camadas de história presentes em seus espaços urbanos. Recentemente, durante uma viagem de ônibus rumo ao trabalho, me deparei com o capítulo “Praça de Grève” e fiquei tentado a refletir sobre como o urbanismo dialoga com a preservação dos vestígios históricos e a memória coletiva.

Parte 1: A Praça como Símbolo do Espaço Urbano Histórico


No capítulo, Victor Hugo vai além da mera descrição de um espaço público. Ele apresenta a Praça de Grève (atual Place de l’Hôtel de Ville), situada às margens do Rio Sena, como um cenário carregado de simbolismo e nostalgia. Historicamente palco de execuções e eventos marcantes, a praça surge como um verdadeiro repositório de histórias e emoções. Ao transitar entre o passado e o presente, o autor nos convida a enxergar cada elemento físico da cidade como parte de uma narrativa viva, na qual os conflitos sociais e as transformações históricas se entrelaçam.


A dualidade presente na narrativa, a sobreposição de um espaço marcado tanto por momentos de horror e violência quanto por mobilizações sociais, reforça a ideia de que praças e outros espaços urbanos são pontos de convergência para a transformação social.victor Hugo, ao descrever esses ambientes, enfatiza a necessidade de preservá-los e revitalizá-los, pois são verdadeiros símbolos da cultura e e da memória de uma cidade.


Parte 2: O Legado na Valorização do Patrimônio e do Gótico


A beleza da obra de Victor Hugo reside na sua contribuição para a conscientização sobre a preservação do patrimônio histórico. Em Notre Dame de Paris, Hugo celebra a arquitetura gótica como elemento central da identidade cultural de Paris. Ao descrever a catedral e seus arredores, o autor destaca a grandiosidade e a complexidade desse legado arquitetônico, transformando-o em personagem dentro da narrativa.


A estética gótica, com suas altas arcadas, vitrais coloridos e imponentes contrafortes, é apresentada como um verdadeiro repositório de memória e experiências coletivas. Essa valorização não só encantou gerações, mas também inspirou movimentos de restauração e conservação, como o realizado por Eugène Viollet-le-Duc na reabilitação de Notre Dame.


Hugo utiliza o cenário urbano para enfatizar a importância de preservar a história e os espaços que a abrigam. Ao resgatar elementos que definem a identidade de Paris – desde monumentos imponentes até praças repletas de eventos históricos – o autor propõe uma reflexão profunda sobre o valor intrínseco do patrimônio. Para o urbanismo contemporâneo, essa abordagem ressalta que cada espaço preservado contribui para a construção da memória coletiva e da identidade cultural de uma cidade.


A influência de Notre Dame de Paris ultrapassa os limites da literatura, impactando políticas de preservação e o olhar crítico sobre a arquitetura histórica. Victor Hugo não apenas enriqueceu a narrativa literária, mas também transformou a forma como entendemos e valorizamos os espaços urbanos, pavimentando o caminho para uma abordagem que integra análise crítica, preservação e valorização cultural.


Considerações Finais

Victor Hugo nos oferece uma visão multifacetada do espaço, apresentando-o como um elemento vivo e repleto de significados. Sua narrativa não só enriquece a literatura, mas também dialoga de forma profunda com os princípios do urbanismo e da preservação do patrimônio. Ao valorizar o gótico e cuidar da memória, Victor Hugo estabeleceu um precedente que continua a influenciar tanto as políticas urbanas quanto a percepção cultural dos espaços históricos. Ele revelou que a memória está em constante disputa, mostrando que cuidar do passado é essencial para a construção de um futuro que respeite a vida coletiva das cidades.


Como blog gosta de lista, segue uma pequena lista:


1 Amplie seu repertório cultural: Estude literatura, música e história para enriquecer sua visão e inspirar projetos com referências profundas e diversas.


2 Busque a interdisciplinaridade: Integre conceitos de diferentes áreas do conhecimento, assim como Victor Hugo uniu a arte literária à história e à cultura, para criar obras com significado e originalidade.


3 Valorize as narrativas históricas: Entenda que a história e a cultura, presentes em livros e músicas, oferecem lições valiosas para a construção de espaços que dialoguem com o passado e o presente.


4 Inspire-se em outras artes: Assim como a estética gótica foi resgatada por Victor Hugo, encontre na música, na literatura e em outras manifestações artísticas elementos que possam transformar e enriquecer seus projetos.


5 Crie pontes entre disciplinas: Use o conhecimento adquirido em diferentes frentes para desenvolver soluções inovadoras e contextualizadas, contribuindo para a preservação e valorização do patrimônio cultural urbano.

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Memórias de Um Ano Novo no Quilombo da Fazenda

imagens da área de proteção ambiental

Texto organizado em quatro pequenos contos. Os contos expressam de forma lírica a experiencia pessoal de uma viagem de imersão comunitária no Quilombo da Fazenda. A viagem que se iniciou despretensiosa, trouxe a todos os que participaram um êxtase de transformação de vida. Dedico este texto também a todos que compartilharam esta mesma jornada. Seguem os contos:

Os Encantadores de Borboletas

A intuição é um sussurro, vento que antecede uma tempestade. Naquela semana entre Natal e Ano Novo, as almas tilintam, cada qual em busca de sua mudança particular. Na trilha onírica do rock n’ roll, abro meu Réveillon como quem não quer nada: não lanço expectativas, apenas rumo despretensiosamente ao bar, antes de partir para a viagem.

O bar de rock moderno é bacana: sem energias vacilantes, mas com o clássico tom de luz vermelho e preto, digno de um espírito errante. Um casal contagia. Ela, portando uma bela franja a la O’Riordan, era uma artista, um Jay DeFeo pintando sua arte nas peles. Ele, de portava no pescoço a face mística da lua, um alquimista da literatura. Havia uma energia beatnik, perdida desde as trilhas de 68, na visceralidade de Hendrix apaixonado por sua Strato.

Encantadores de borboletas, dançam com a vida, saboreiam a cerveja na efemeridade do instante. “Gostei de conversar contigo”, disse ele, genuinamente abraçando o mundo das alegrias, “Vou te dar um presente, quero que aceite”. Um pequeno cartão pousou na minha mão como pétala levada pela brisa. Nele, desenhado, uma borboleta azul, acompanhada da frase: “Seja a luz.” Por um instante, o trovão. O vento afasta o peso do universo. Naquele momento, senti o paladar do destino: vento e tempestade. Estava na encruzilhada de um tempo que gira e transforma. A metamorfose que Kafka amaria ter sido.

Eles dançavam, chamas ao sabor da brisa. No palco, Zé Ramalho, em ritmo rock. Nos sorrisos, a energia de tempestades e trovoadas; a alegria de estar ali.

Borboleta, senhora dos ventos, perdoai-me! Seguir o vento é difícil se você não conhece a dança das borboletas. Porque o vento dança em círculos: turbulências e brisas suaves. Não há linha reta, apenas giros, quedas voos e recomeços. Borboletas são tempestades em miniatura. Quem dança com borboletas “só quer girar, não quer cair.”

No tempo dos ventos, a viagem não teria volta. 2024 se vai, e 2025 nasce com os ecos de Kerouac: “Não havia para onde ir, a não ser para todos os lugares, então continue vagando sob as estrelas”.

Era o primeiro passo de uma jornada ainda sem nome. Mas essa já é outra história, embora seja a mesma.

autoria própria: casal que conheci no Rock n Roll.

O Abraço das Águas

O oceano toca o Brasil no abraço da floresta. Há uma textura que a cidade, em sua ânsia egoica, esqueceu de sentir. Num canto escondido da Mata Atlântica, o acolhimento se derrama em calmaria. Entre as árvores densas, a areia molhada surge como pele exposta, e suas águas rasas cochicham: aqui, não preciso ser revolto. Na superfície tranquila, há convite velado para profundidade. Mergulhamos onde o eterno se esconde.

No mar, o infinito se desenrola, leva consigo dores do corpo e murmúrios da alma. Ele guarda histórias de amantes, exílios, pescadores, caiçaras e quilombolas. Suas cores nos atravessam como o toque que desperta. De onde vinha a brisa? Ela envolvia a pele salgada enquanto saíamos das águas claras, abraçados pelo sol. O azul reluzente, reflexo do céu, carregava uma carta ao vento.

Adentramos as matas. Ela nos aguardava. Impulsiva, enérgica e forte. O sabor de sua água, tão doce quanto gelada. Energia indomada que assusta os incautos. Um deslize, e ela nos arrasta pelos veios da floresta, amante selvagem que não perdoa hesitação. Selvagem. Beijava a pele da floresta como quem deseja o laço do momento, pedindo perdão por sua fúria. Energia que desafia os que resistem.

Quanto pensávamos que o dia havia terminado, a Serra do Mar revelou seu véu úmido sobre nós. Tímida e introspectiva, a chuva logo floresceu. Levantou seu perfume de terra molhada, e sem escolha, nos envolveu por inteiro. Gota a gota, se fez corpo e presença, desaguando em nós até que não restasse nada além da exaustão e plenitude.Na gota que escorria por toda a pele, a reverência ao mistério, o azul de um voo que nos segue silencioso. Quem diria que a vida nos daria, em um único dia, três banhos de alma?

As águas que fluem pela floresta são floresta. Que beleza há no ócio sagrado, na integralidade entre o corpo e água. Em um mesmo dia, fomos oceano, cachoeira e tempestade. Os pés descalços sobre a areia e a mata, entre o sol e a sombra. Estamos vivos no fluir das águas. Somos água em seu fluxo incessante de calmaria e força, pulsante e rítmica. Nos fluxos que nos moldaram, a sensação persiste: o intenso instante em que o corpo se dissolve e o espírito se encontra inteiro.

Agora somos terra.

autoria própria: as águas

O Barro e o Tempo

Entre as trilhas da floresta, a terra nos banha em seu suor. Na umidade do chão, o tempo se faz barro, ventre que molda em nós a história de quem, com suor e fé, forjou sua liberdade. O passo do jongo, dança da vida, reverbera entre as árvores. Dos tambores, o som da resistência. Reza descalço no cruzeiro.

No barro, o calor das mãos e pés que o amassaram. Casas de pau a pique erguidas como testemunhas vivas, seus contornos trazem o aperto das mãos calejadas, o ritmo dos corpos que amam a terra. Entrelaçamos o bambu ao barro como o corpo ao universo. Tecemos a solidez com boniteza.

A terra é mãe, matriarca que acolhe quem ousa criar mundos novos. Macia e úmida, nos convida ao toque; seca e firme, pede força em cada pisada. Esculpe na carne, histórias de quem a percorre. Não há impérios que resistam ao seu sabor, nem sonhos que não floresçam de sua fertilidade. Raízes.

Nas margens, ergue-se o manguezal. Somos vida no limiar do submerso e do revelado. Você, mangue, tem cheiro de criação, sua lama, anagrama de alma, guarda o calor milenar da vida. O solo que amamenta, submerge nossos passos e os devolve renovados. Terra paciente, atravessa oceanos em silêncio, escrevendo sua história no mundo.

No fígado da mata densa habita o jatobá. Árvore monumental! Memorável e imponente, suas raízes seguram o mundo. De sua seiva vem o combustível, de sua força, o abrigo, de sua casca, a cura. Ele observa em silêncio, testemunha do caminhar humano e da dança da floresta. Suas raízes se fundem ao ocre da terra, enquanto sua copa dança com o vento azulado. É o aquilombamento vegetal, rede invisível que protege quem sabe amar a floresta.

O solo nos molda, tanto quanto o moldamos. O barro desliza pelos dedos, a lama gruda na pele, o pedrisco arranha, enquanto o vento azulado vagueia entre raízes e pés. Pererecas, aves e borboletas nos lembram: agora, somos terra. O tempo é areia, barro e raiz, são tempos. Memória não escrita que sustenta. Somos chamados a fincar raízes. Argila, poeira, ventre de criação. Caminhamos enquanto o jatobá nos observa, de sua copa acolhendo o céu azul.

autoria própria: terra, raízes, floresta

A Dança da Via-Láctea

Deitado na rede aprendi, em uma aula admirável, a escutar. Não é tão simples quanto nos parece. Não falo sobre narrativas, mas os lapsos, as dobras do inaudito, o silêncio denso cheio de signos. Papiros do miúdo da alma.

Caminhamos ao mar. Noite de Réveillon. O chão escuro sob os pés; o céu, vasto e vivo, nos alumiava. Eu, um citadino, reencontrei a Via-Láctea depois de décadas. “O céu é onde o tempo e o espaço se dissolvem”, dizia o piloto de guerra. Desinteressado por guerras, escutei o universo. Somos crianças livres desbravando o mundo.

No encontro do mar com o cosmos, o horizonte era indiscernível. Bioluminescência brindava meus passos, lampejos de canção muda. Poeira Cósmica. Planetas adornados. Um silêncio cheio. Respiro das almas brincantes. A brisa no rosto. A areia fria. O sussurrar das ondas. Nossos pés ouviram o calor do Cosmos com a Terra.

Quantas ondas pulamos? Sete ou oito? Nos importa mais a fé, a cada salto ela renasce. Corpo e poeira; Galáxia e alma. O universo transpira em uma gota d’água, nas mãos calejadas, o barro. O vento me guia, a água pulsa em minhas veias, a terra sustenta meus passos, e agora, o cosmos me transpassa, arrebatamento. Tudo pulsa. A brisa do céu estrelado sobre a pele sela o pacto com o azul profundo.

Corpo, areia, mar e céu: tudo explode em partículas que se dissolvem e se fundem. Supernovas morrem para gerar vida. O mangue amamenta. O vento desliza entre os fios do cabelo. A gravidade desaparece. Um arrepio na nuca, e o tempo se curva.

Daqui do alto o mundo é tão frágil. Belo e azul. A Terra gira, enamorando a bailarina que dança com o brilho das ondas e as bênçãos do Jatobá. Acariciados pela brisa, o horizonte é íntimo aos jovens que acendem seus cigarros. Deleite da existência, crianças livres.

Um segundo. Entropia.

Não há mais o tempo. Não há mais o espaço. O infinito nos consome, arrebatador. No horizonte de eventos, o ar nos falta. Explosão e paz, eco e silêncio. Suave e eterno, todos os corpos, agora são um só. Ali, entre as estrelas e o mar, somos crianças em um céu de Van Gogh.

O mar ondula. O céu acalenta. A Terra gira. E nós, poeira na vastidão do ser. Primeiro de Janeiro de 2025, a jornada finda, sou poeira.

autoria própria: o céu do réveillon

Agradecimentos Finais e Considerações

Agradeço especialmente à equipe do Bicho Biotrips (link aqui: https://www.obichobiotrips.eco.br/) , que organiza atividades de ecoturismo e turismo comunitário, por possibilitar esta imersão no Quilombo da Fazenda .

Sobre o Quilombo da Fazenda

A comunidade de remanescentes quilombolas do Quilombo da Fazenda resiste com muita luta na Serra do Mar , região de Ubatuba, marcada pela riqueza natural e pela proteção ambiental. Este quilombo, que enfrenta constantemente o poder destruidor da especulação imobiliária, desempenha um papel fundamental na preservação da floresta e na proteção de áreas naturais indispensáveis ​​para o equilíbrio ambiental.

O quilombo é um espaço vivo de resistência e cuidado, que pode ser visitado e apoiado por aqueles que se interessam por se envolver em sua causa, recomendo que o façam! Sua luta é o reflexo e parte da luta de tantos outros grupos sociais que enfrentam o massacre das disputas territoriais neste País. Cada visita, cada gesto de apoio militante, ajuda a fortalecer as redes de defesa e o aquilombamento.

Sem a proteção e cuidado destas familias com a sua terra, que assegura a existência deste espaço paradisíaco, seria impossível vivenciar experiências transformadoras como as que compartilhamos. Mesmo o mais cético dos seres humanos, ao se conectar com a natureza da maneira que o grupo de 23 pessoas vivenciou neste Réveillon, é tocado pelo encontro com o universo e sai profundamente transformado.

Existem tantos aprendizados possíveis quantos mundos para construir. Que essa jornada nos inspire a seguir firmes nas lutas pela preservação, pela justiça e por novos mundos possíveis. Fica o humilde texto acima como reflexão.

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Do Lamento da Ciência Solitária ao Êxtase do Abraço Coletivo

Tomo a liberdade de remixar um termo citado por Darcy Ribeiro em uma entrevista para refletir sobre a ciência e seu papel na sociedade. A ciência enfraquece quando se torna o território dos “cavalos de santo” da intelectualidade.

O campo acadêmico e científico é um dos pilares mais promissores da estrutura social contemporânea. Talvez o melhor investimento que a humanidade possa fazer esteja naqueles que se dedicam à experimentação, à pesquisa e ao desenvolvimento. Esses indivíduos arriscam-se no terreno das hipóteses, buscando inovações que transformam o mundo. Contudo, esse campo encontra-se hoje estruturado sob uma lógica de exploração e alienação, refletindo a organização de todo o sistema econômico. Se antes reverenciávamos a intelectualidade, como quem presta tributo a uma divindade, hoje nos deparamos com cientistas altamente precarizados, dedicando praticamente 24 horas por dia a seus projetos, enquanto enfrentam depressão, burnout e crises financeiras.

A realidade é dura: sem desmerecer outras profissões, eu, Rodrigo, com meu diploma de técnico em elétrica, consigo um emprego com um salário superior ao de uma bolsa de doutorado, e de forma relativamente confortável.

No entanto, não pretendo me aprofundar aqui na crise material, pois ela caminha ao lado de outra, ainda mais complexa e subjetiva. Um paradoxo emerge: a ciência e a produção de conhecimento são, por natureza, processos coletivos, contínuos e sem fronteiras. Contudo, o exercício científico, quando organizado como um sistema de produção formal, tornou-se altamente competitivo, individualista e solitário.

As publicações científicas, hoje, perecem ao valorizar mais o rigor da formatação, a citação de autores consagrados e a quantidade de títulos acadêmicos do que os resultados verdadeiramente inovadores e de impacto social relevante. Esses artigos são revisados por pares, em processos lentos e custosos, que muitas vezes limitam o acesso aos próprios resultados da pesquisa. A ciência se perdeu naquilo que criticava: tornou-se hermética, o território de poucos iluminados. A quantidade vale mais que a qualidade, e o furto de trabalhos, ideias e dados é uma constante, um verdadeiro campo minado. A ciência, que deveria ser um empreendimento coletivo, compartilhado entre aqueles que se dedicam ao seu avanço, foi reduzida a uma luta solitária por financiamento e reconhecimento. Nesse contexto, muitas vezes falta a abertura para o diálogo e a colaboração entre pares, assim como a coragem para assumir riscos e explorar caminhos menos convencionais.

autoria própria: Stephen Hawking e o Pequeno Príncipe conversando sobre o universo

Produzir conhecimento, por sua vez, é algo que fazemos continuamente. O maior desafio do indivíduo é ter a coragem de se lançar ao risco, diante de um sistema que aprisiona e formata a vida científica. Para além das universidades e dos centros de pesquisa, há saberes que nascem nas comunidades tradicionais, nas práticas cotidianas, nas trocas entre trabalhadores e em movimentos sociais que enfrentam desafios locais com soluções criativas. Esses conhecimentos têm suas próprias metodologias e princípios, muitas vezes transmitidos oralmente ou por práticas de convivência, como é o caso do conhecimento de povos indígenas sobre o manejo sustentável da terra ou das experiências comunitárias de cooperativas urbanas.

A estrutura científica contemporânea alcança resultados, mas, para isso, limita a existência da vida ao não se permitir costurar a trama dos muitos estímulos sensoriais que ritualizam a experiência humana na Terra. Falta à ciência o toque fino na vida e no outro, algo comum aos poetas, aos esotéricos, às culturas mais tradicionais.

O reconhecimento acadêmico desses saberes ainda é limitado. Muitas vezes, o que não se adequa aos rigorosos critérios de validação científica acaba sendo subvalorizado ou considerado anedótico, mesmo quando essas práticas trazem respostas concretas para problemas ambientais, sociais e econômicos. Rezadeiras, cartomantes, yogues tântricos, praticantes de tai chi, meditação e herbalistas são desconsiderados como parte da formação do saber.

É justamente nesse ponto que surge a necessidade urgente de reimaginar a ciência como um espaço de liberdade intelectual, onde o risco e a colaboração estejam no centro. Reimaginar a ciência significa, também, resgatar a noção de que o conhecimento científico não é um fim em si mesmo, mas um meio para melhorar a vida das pessoas, construir soluções coletivas e responder às crises que atravessamos enquanto sociedade global. Significa criar espaços em que cientistas possam trabalhar sem a sombra constante da precarização e da pressão por métricas de impacto. A experiência da pandemia de COVID-19 mostrou o valor de esforços colaborativos, como as coalizões internacionais para desenvolvimento de vacinas, demonstrando que, diante de grandes desafios, a união de esforços e a abertura de dados podem gerar avanços rápidos e transformadores.

É fundamental também repensar os critérios de avaliação científica, valorizando a qualidade do impacto social dos projetos e o compromisso com questões urgentes da população mundial fragilizada. Importa menos os santos da ciência, e muito mais os dispositivos que eles trazem e as formas como os utilizamos.

O próximo salto está aí, a meu ver: construir uma ciência aberta ao diálogo, ao risco e ao compartilhamento de saberes, onde a criatividade possa florescer. Com esses passos, talvez possamos resgatar a esperança de que a ciência, em sua diversidade, possa novamente ser um território de construção de um mundo mais justo para todos. Fazemos ciência nas conversas de bar, nas trocas cotidianas e na observação dos momentos simples de prazer e boas risadas.

No encontro entre o saber acadêmico e os conhecimentos que emergem dos povos, há um toque sutil, como um fluxo que pulsa entre a racionalidade e a intuição, tal como a respiração que conecta os corpos ao espírito. A ciência, ao abrir-se para esse toque, transcende seus recalques e mergulha num campo onde cada descoberta se torna um ato libertário de entrega, de diálogo com o desconhecido.

Ali, dissolve-se o ego sofrido do pesquisador isolado, dando lugar ao movimento coletivo, onde o risco é uma forma de êxtase e a colaboração entrelaça razão e sentimento. Assim, a ciência pode se transformar num espaço relacional, onde cada troca expande os limites da compreensão, ecoando um desejo profundo de alcançar e tocar, mesmo que de leve, a pulsação da vida real.

viva o SUS!!

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Último Trem para Central

autoria própria caneta e hidrocor – Central do Brasil

No cair da noite, o último trem partia, sentido Deodoro – Central do Brasil. Wesley, um jovem morador de Sulacap, corria desesperado pela plataforma. Em sua mente, ecoava a última discussão com seu pai: “Você nunca vai ser nada se continuar com essas coisas de poesia.” Coração triste, seu pai, mecânico morador na Avenida Maquinista José Santana, não compreendia por que seu filho matava as aulas do SENAI para passar o dia lendo Ondjaki.

Ao embarcar, Wesley percebeu uma figura no fundo do vagão. Parecia familiar, porém não conseguia discernir muito bem de onde a conhecia. Seu vagão estava praticamente vazio. No banco à frente, um pixo feito a caneta pilot: “Você encontrará seu destino no último trem.”

A noite escura lá fora parecia engolir a cidade. Wesley muda de vagão e avista outro pixo: “Hoje, você decide seu futuro.” Com uma mistura de medo e determinação, sussurra para si: “Eu quero ser livre.” Naquela noite, ele desceu na Central com o coração leve, pronto para começar uma nova vida. Caminhava pela plataforma no sentido da saída.

“Passa o celular, anda, passa!”

Um tiro seco e solitário ecoa na estação. “Tá lá o corpo estendido no chão, em vez de rosto uma foto de um gol.” Estava livre.

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Salve a malandragem

No último dia 7, o Rio celebrou a malandragem, essa arte de resistência social. Vivendo à margem das estruturas e redes privilegiadas, criamos ferramentas para navegar e subverter o desfavorável. A vida ensina a malandragem, não tem como fugir, mas ela também é aprendida na escola.

Malandragem não é marra! Há um estereótipo tolo andando pela cidade, como se ser malandro fosse meter bronca nos outros e arrumar treta. No fim viram um bando de mané.

Malandragem talvez seja simplesmente a capacidade que o mais fraco tem de sobreviver dentro das estruturas desiguais da vida, no balanço do trem, na amizade com o dono da bodega para pegar um fiado, na conversa fiada para espantar uma possível confusão. Malandragem é saber apreciar a noite, mas ser esperto para acordar cedo e não se estrepar no trabalho.

A malandragem tem sua potência de alegria acima de tudo, com a astúcia para “não dar mole pra Kojak”. É aceitar que há uma fluidez em certos discursos presos e que nem tudo pode ser 8 ou 80, nem tudo se bate de frente, mas também não é correr da raia dos princípios. Malandro que é malandro tem princípios!

Existe um equilíbrio curioso para se manter vivo, esse equilíbrio ocorre no cotidiano quando entendemos que não somos nós solitários, mas sim nós por nós. A malandragem, no melhor sentido da palavra, é uma arte política, uma arte marcial do diálogo.

Dito isso, não ligo para os estereótipos. O que faz o bom malandro não é a fantasia de malandro, o que faz o bom malandro é o balanço do trem, o descer da ladeira e o caminhar da vida, o drible que o craque aprendeu na várzea. Malandragem é uma arma ativa do pobre, a sagacidade do improviso diante do imprevisível.

Por isso, neste dia 7, o Rio não só celebrou a malandragem, mas também exaltou a astúcia dos que, na batalha do cotidiano, transformam as adversidades em momentos de aprendizado e resistência. A cidade, com sua encantaria malandra, continua a ensinar que a vida é uma grande roda de samba, nas ruas ou no fundo de quintal, improvisando, dançando, acima de tudo, vivendo.

autoral: caneta
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O mais velho

Férias, fui moleque de rua na Arealva. A rua de terra batida já me ensinava urbanismo: de um lado, casas com quintal; do outro, um sítio repleto de árvores das mais diversas espécies. Às três da tarde rolava a bola. Dois baixinhos eram nossos craques da rua: Marcinho e Luana. Às vezes, apostávamos um contra valendo dois litrão de coca.

Ali aprendi o que falei em 2015 – a várzea é uma célula-tronco do urbano – era na terra que a copa acontecia. Em uma das laterais havia um tronco que atuava de líbero para os dois times: bateu a bola nele, seguiu o jogo. Eu era zaga; a regra era clara: se a bola passar, a perna fica. No campo, eu (bom pereba) tinha duas missões: parar o adversário e entrar de voadora em quem batesse no Márcio ou Luana.

O juiz era o Mais Velho. Toda rua de subúrbio tem o Mais Velho. O Mais Velho é aquele cara que faz parte do bonde, mas não está na nossa faixa etária. Tem idade suficiente para ser respeitado como adulto, mas é jovem demais para ser da turma dos nossos pais. O Mais Velho tem um papel crucial na vida da molecada; ele é um modelo, é uma espécie de espelho futuro. Soa o apito, e ali, o Mais Velho nos ensinou um dos conceitos de Einstein: o tempo é relativo.

Nesse jogo, estávamos mal. Começamos perdendo e o relógio correndo. O Mais Velho, na sua função de juiz e com a legitimidade que a idade lhe dava, deixou o jogo seguir. Acho que foram os trinta minutos mais longos das nossas vidas. A tarde ia caindo e a bola rolava contra o relógio até que nossos craques desencantaram: um gol de placa atrás do outro e o jogo virou! Soa apito final. Troca de farpas e voadoras com o time adversário, pegamos o prêmio e fomos com o Mais Velho tomar os dois litrão de Coca pra comemorar.

Assim eram os dias de férias em Sepetiba, onde a rua de terra batida se transformava em terreno de aprendizados. Nós, nos aventurando em vários rolés, e o Mais Velho sempre por lá, como um guardião das nossas aventuras.

Nesses encantamentos que só o Brasil tem, sempre que via Romário ou Marta jogando, lembrava-me de Marcinho e Luana, da rua Arealva e dos meus dias de férias com a avó em Sepetiba. Fui privilegiado por jogar bola com eles.

caneta sobre papel: rua arealva, Sepetiba, pelos anos de 1992
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O seu lugar cura

A mente humana não é um sistema isolado; é uma parte indissociável de um vasto ecossistema social, ambiental e cultural. Neste ecossistema, cada indivíduo habita territórios existenciais únicos, ocupando lugares singulares, ainda que compartilhando um mesmo espaço. O ciclo é constante: assim como nossa mente é influenciada pelo ambiente, ela também o transforma, criando um dinamismo de mutabilidades incessantes.

Devemos conceber uma geo-psicologia. Na metrópole, a insalubridade, a violência e a desigualdade são experiências que geram estresses próprios, moldam nossa lida com o mundo. Porém, em um país onde aproximadamente 50 milhões de brasileiros vivem em áreas rurais e cidades com menos de 100 mil habitantes, onde uma parte significativa da economia gira em torno da agropecuária ou do agrobusiness, não é surpreendente uma contradição: a metrópole é a exceção.

Mesmo vivendo em cidades com elementos urbanos canônicos, se suas raízes são rurais, haverá uma força cultural que se aninha em certas odes de coesão comunitária. O sertanejo mostra isso: apesar de abordar temas universais como amor e nostalgia, que favorecem a regulação emocional, suas canções estão profundamente enraizadas na vida rural. Ela cria um território existencial que une a moradora de Duque de Caxias varrendo sua casa com o garoto da porteira sentado curtindo o seu radinho.

É fascinante quando o sonhador de Leonardo é aquele que, sem saber para onde vai, deixa a vida seguir o sol no horizonte da estrada, mantendo a esperança de que, num toque do destino, o brilho do olhar continuará aceso. É o jovem lavrador que vê na chance de montar um boi no festival de Barretos, o horizonte para mudar sua história. Na mesma idade, um menino joga sua pelada no campo do Martins em São João, sonhando com a Champion League, enquanto sua mãe ouve Eyshila fazendo o almoço.

A perspectiva dos territórios existenciais valoriza a diversidade das experiências humanas ao rejeitar a ideia de uma normalidade universal, um lugar certo. O espaço sim! Tem que garantir toda infra material para a dignidade humana e ambiental, ali, deixemos o povo construir o lugar que o povo quiser, sem medo de amar.

autoral: o passe, grafite no papel
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Amar a praia: uma lição do meu pai

Meu pai amava a praia de Sepetiba, enquanto eu a considerava sem graça. Preferia jogar bola no Recôncavo, andar de bicicleta com meus amigos, catar fruta no pé na Arealva, pular o rio, e soltar pipa.

Mas um dia, compreendi o amor de meu pai. Me dizia: “Não anda olhando para o chão, moleque, cabeça erguida”. E foi assim que diante da Baía de Sepetiba, levantei a cabeça e a paisagem renasceu. Ver a restinga da Marambaia ao fundo, riscando o horizonte, o pôr do sol, o barulho da marola e das aves, o aroma da maresia, nem lembrei do barro entre a areia e a água.

Nossa segunda praia era o Recreio, na época dos areais, acampando. Recreio é mar arredio, destes que querem ser livres, ou a gente respeita ou ele nos engole. Algumas vezes íamos às praias da Ilha do Governador. Mais velho, já arquiteto, aprendi a amar a Praia das Pedrinhas, mar de pescador, graças ao meu pai que lá atrás disse: “Olha para o horizonte”.

Privatizar praia é o sonho de quem para o 474 numa manhã de domingo e manda os garotos do Jacaré descerem; delírio que diz: “Nossa praia”. Praia é um ser livre, um ente de renovação. Quantos de nós não pulamos as ondas de um ano novo e renovamos nosso pacto com a vida? Aprisionar o mar em políticas privatistas é negar seu sentido libertário. O mar não cabe no bem privado, mal cabe no bem público. O mar é fluxo da vida, berço do imprevisível. Praia, pedacinho de terra que toca a imensidão das correntes, captamos seus valores e significados, a potência para além dos corpos.

Em um mundo que dá claros sinais de que nossa escolha limitante de transformar tudo em recurso cria danos irreversíveis, a lei da praia é fruto de uma visão estreita e obsoleta. Não enxerga a grandiosidade do mar, lança um olhar míope e mesquinho, que aprisiona a praia em cifras, reduzindo-a a um mero balanço financeiro para alguns poucos privilegiados, alheios à complexidade de vida que permeia nosso país.

foto autoral: povo na praia do Flamengo, reveillon
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