Arquitetura e Urbanismo, artigo, pensamento

Um papo sobre a possível Bolha Imobiliária nos Grandes Centros Urbanos do Brasil.

A expressiva valorização dos preços dos imóveis, a desconexão entre esses valores e a renda dos consumidores e o aumento significativo no estoque de imóveis não vendidos, são indícios que nos levam a considerar seriamente a hipótese de estarmos vivendo uma bolha imobiliária.

Evidências da Formação de uma Bolha Imobiliária

Entre 2008 e 2014, os preços dos imóveis nas principais capitais brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro, tiveram uma expressiva valorização, registrando aumentos que chegaram a 200% em alguns casos. Essa valorização acentuada, em um período relativamente curto, é um sinal clássico de formação de bolhas imobiliárias. Comparações internacionais revelam que o aumento dos preços no Brasil superou o de outros países emergentes e até mesmo desenvolvidos, refletindo uma desconexão entre o crescimento dos preços e os fundamentos econômicos, como renda e crescimento populacional.

A relação entre o preço dos imóveis e a renda média dos brasileiros é outro indicador importante. Nos últimos anos, o preço médio dos imóveis se distanciou significativamente da capacidade de compra da população, especialmente quando olhamos pra cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Essa tendência é evidenciada pelo índice de acessibilidade habitacional, que tem se deteriorado, indicando que os preços estão fora do alcance de grande parte da população. Além disso, a desaceleração nas vendas de imóveis e o aumento no estoque de unidades não vendidas, registrado pela Associação Brasileira das Incorporadoras Imobiliárias (ABRAINC), reforçam a ideia de que o mercado pode estar caminhando para uma correção de preços.

Estratégias Governamentais para Mitigação

Diante desses sinais, o governo brasileiro, tem adotado medidas para evitar o estouro de uma bolha imobiliária. O Banco Central do Brasil, por exemplo, impôs regras mais rígidas para o crédito imobiliário, incluindo a exigência de maiores reservas de capital para os bancos que concedem financiamentos nessa modalidade. Essas medidas visam limitar a alavancagem excessiva das instituições financeiras, o que poderia inflacionar os preços dos imóveis de forma insustentável.

Além disso, o governo tem promovido políticas de controle da inflação. O endividamento das famílias, especialmente com crédito imobiliário, também é monitorado de perto, com o Banco Central implementando políticas macroprudenciais que limitam a relação entre o valor do imóvel e o financiamento concedido e ajudam na prevenção de uma inundação de crédito fácil no mercado, um dos principais catalisadores de bolhas imobiliárias.

Considerações

A possibilidade de uma bolha imobiliária nas grandes cidades brasileiras é uma preocupação legítima, dada a expressiva valorização dos preços dos imóveis e a desconexão entre esses preços e a renda dos consumidores.

No entanto, as ações governamentais, particularmente as políticas de regulação do crédito imobiliário e o monitoramento macroeconômico, têm sido importantes para mitigar os riscos de um colapso no mercado. Porém elas sozinhas não resolverão a problemática. Há um viés que precisamos debater: o que é construído nas grandes cidades enquanto solução habitacional?

Problemática dos Empreendimentos Studio

Nos últimos anos, os empreendimentos do tipo Studio, caracterizados por espaços habitacionais extremamente compactos, têm proliferado nas grandes cidades brasileiras. Esses empreendimentos, muitas vezes vendidos como uma solução moderna e prática para a vida urbana, acabam por se revelar desconectados da realidade de grande parte das famílias brasileiras.

A problemática desses imóveis está na inadequação às necessidades habitacionais da maioria da população. Enquanto o público-alvo desses empreendimentos é geralmente composto por jovens solteiros ou casais sem filhos, o perfil médio das famílias brasileiras, composto por mais membros e com necessidades espaciais mais complexas, não é atendido. Basta ver qualquer peça de marketing de vendas destes produtos e notará que não são destinados a vida cotidiana de uma família brasileira, são vendidos um meio de vida quase turística, o cidadão  almoça fora todo dia nos melhores restaurantes do bairro, passa o dia na rua e volta para o apartamento como quem volta para um quarto de hotel.

Esses imóveis, embora compactos, frequentemente são vendidos a preços por metro quadrado que superam em muito a média dos demais imóveis na mesma região. Isso cria uma bolha de especulação em torno desse tipo de empreendimento, descolando ainda mais o mercado imobiliário da realidade econômica da maioria da população. Assim, os empreendimentos do tipo Studio, apesar de sua aparente modernidade, agravam essa desconexão ao não atenderem às reais necessidades habitacionais da maioria da população.

Possíveis caminhos de mitigação

Para melhorar a equidade habitacional no país, é necessário repensar as políticas de incentivo à construção de imóveis. Uma abordagem mais inclusiva, que considere o perfil demográfico e as necessidades das famílias brasileiras, é essencial. Além disso, o fomento ao desenvolvimento de habitações populares de qualidade, associadas a boas condições de infraestrutura urbana, pode ser uma solução eficaz para equilibrar o mercado imobiliário.

Programas habitacionais que incentivem a construção de moradias acessíveis, diversificadas e bem localizadas, além de um planejamento urbano que promova a integração social e econômica, são fundamentais para evitar o aprofundamento das desigualdades e a formação de bolhas especulativas no mercado imobiliário.

Imagem meramente ilustrativa, gerada por AI -DALL-E tendo como referencia um apartamento studio de 22m² e pé direito de 3,20m.

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Último Trem para Central

autoria própria caneta e hidrocor – Central do Brasil

No cair da noite, o último trem partia, sentido Deodoro – Central do Brasil. Wesley, um jovem morador de Sulacap, corria desesperado pela plataforma. Em sua mente, ecoava a última discussão com seu pai: “Você nunca vai ser nada se continuar com essas coisas de poesia.” Coração triste, seu pai, mecânico morador na Avenida Maquinista José Santana, não compreendia por que seu filho matava as aulas do SENAI para passar o dia lendo Ondjaki.

Ao embarcar, Wesley percebeu uma figura no fundo do vagão. Parecia familiar, porém não conseguia discernir muito bem de onde a conhecia. Seu vagão estava praticamente vazio. No banco à frente, um pixo feito a caneta pilot: “Você encontrará seu destino no último trem.”

A noite escura lá fora parecia engolir a cidade. Wesley muda de vagão e avista outro pixo: “Hoje, você decide seu futuro.” Com uma mistura de medo e determinação, sussurra para si: “Eu quero ser livre.” Naquela noite, ele desceu na Central com o coração leve, pronto para começar uma nova vida. Caminhava pela plataforma no sentido da saída.

“Passa o celular, anda, passa!”

Um tiro seco e solitário ecoa na estação. “Tá lá o corpo estendido no chão, em vez de rosto uma foto de um gol.” Estava livre.

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Pequena Contribuição Sobre o Campo Teórico na Arquitetura

Ler é uma arte, dizem que arquitetos não gostam de ler, tenho pena dos profissionais que acreditam nessa máxima. Ler é uma tarefa árdua que muitas vezes exige que nos prendamos dramaticamente em um parágrafo, tentando desvendar seus significados ocultos. Um exemplo disso é quando Manfredo Tafuri lança o seguinte parágrafo em “Projeto e Utopia”:

“Quando Laugier, em 1753, enuncia as suas teorias sobre o desenho das cidades, abrindo oficialmente a investigação dupla. Por um lado, a redução da própria cidade a fenômeno natural, por outro a de superar qualquer ideia apriorística do ordenamento urbano, através da extensão ao tecido citadino de dimensões formais ligadas à estética do pitoresco” (Tafuri, 1985, p. 13).

Tafuri nos mostra que Laugier propôs analisarmos a cidade como um fenômeno natural, um organismo vivo. Segundo Laugier, devemos abandonar a ideia de um planejamento urbano rígido, adotando uma abordagem flexível e adaptável ao movimento orgânico da cidade, buscando uma estética pitoresca.

Contudo, Tafuri se posiciona como crítico dessa visão. Ele argumenta que enxergar a cidade dessa maneira é uma simplificação excessiva, pois ignora as complexidades das forças políticas, econômicas e sociais que moldam o espaço.

A busca pelo pitoresco pode criar uma ilusão de naturalidade, uma beleza idílica que esconde problemas mais profundos, resultando em um urbanismo superficial. O próprio recorte de valor da paisagem é definido por estas relações complexas, qual paisagem aparece no recorte de observação dos pintores? Atualmente poderíamos nos perguntar: quais paisagens são cenário de novela e filmes dos mais diversos e o que elas representam nas cenas? Não há inocência por trás destas escolhas, mas sim disputa de valor sobre o território e o espaço construído. E nisso, o campo teórico e crítico é fundamental para a produção prática.

Construir instrumental teórico para a ação prática.

Agora vejamos um pouco sobre alguns pontos que tornam o ato de estudar Tafuri relevantes para a nossa profissão, assumir uma visão histórica, crítica, engajada e entendendo a complexidade da intervenção. Primeiro separemos aqui um pouco de instrumental teórico do qual podemos nos servir:

  • Abordagem Histórica: Evitar projetos que não levem em conta o contexto histórico específico, fugindo de soluções universalizadas.
  • Intervenções Críticas e Realistas: Enfrentar diretamente as contradições e desafios sociais do ambiente urbano.
  • Engajamento Social e Político: As intervenções devem ser socialmente engajadas, refletindo as necessidades e condições das comunidades.
  • Assumir a Complexidade: Reconhecer e abraçar a complexidade inerente à prática arquitetônica, evitando simplificações excessivas. Abraçar a interdisciplinaridade necessária para resolver problemas difíceis.
  • Autocrítica: Cada projeto ou obra deve gerar um processo de reflexão autocrítica, permitindo o aprimoramento contínuo dos métodos e práticas.

Podemos pensar a partir destes instrumentais para criar o arcabouço sobre o qual construiremos nossa produção intelectual e criativa, buscando soluções práticas para os problemas que enfrentaremos em campo. Somado a estes, separamos aqui alguns pontos para refletir, que nos ajudam a caminhar nesta complexidade aberta pela teoria de Tafuri:

  1. A Arquitetura como Reflexo das Contradições Sociais
    Um tema muito pertinente na cidade do Rio, e no Brasil como um todo. É irônico pois muitos de nós defendemos que a desigualdade urbana e espacial é reflexo direto da ausência do trabalho do arquiteto na produção destes espaços. Se partirmos de uma abordagem crítica podemos compreender que a contradição espacial é diretamente conectada com a contradição socioeconômica. Assim podemos assumir como o resultado de um projeto, uma cidade onde você tem bairros de alta renda com arquitetura de alto padrão e bem cuidados, contrastando com áreas periféricas onde a infraestrutura é precária.
  1. A Ideologia na Arquitetura
    A arquitetura é uma construção simbólica coletiva que expressa ideologias. Igrejas, relógios centrais e shopping centers reforçam sinais atrelados às formas vigentes de poder.

    Por exemplo, um shopping exprime sofisticação, controle social e o mundo privado sobrepondo-se ao público. Ele atua como referência de prazer e status, uma ode ao consumo. Podemos projetar sua forma para isolá-lo do contexto em que se insere, com grandes paredes nas fachadas, destacando apenas o interior, sempre bem trabalhado com materiais de qualidade, aromatizado, climatizado e mobiliado para que se perca a noção do tempo e do lugar. Isso contrasta claramente com a lógica tradicional do comércio de rua, feiras livres e camelos.
  1. O Papel da Arquitetura na Criação de Imagens de Poder
    A arquitetura é uma ferramenta poderosa de representação subjetiva. Ao longo da história, temos numerosos exemplos que expressam isso: túmulos reais, catedrais, castelos e mansões. A imponência de projetos como a Torre de TV de Berlim, Burj Khalifa, Empire State Building, CCTV em Pequim e Brasília no Brasil exemplifica esse poder.

    A arquitetura pode projetar e consolidar o poder de corporações ou instituições. Suas principais expressões sensíveis transmitem ao usuário a mensagem ideológica e os princípios dessas formas de poder: pujança, luxo, alteridade, solidez, riqueza e status.

    Ao mesmo tempo, a arquitetura pode empoderar os invisibilizados, ao legitimar seu território, seu lugar, suas expressões sensíveis em obra construída. Assumindo um caráter de belo e de interessante a estes invisíveis.
  1. Crítica ao Funcionalismo
    Tafuri busca um equilíbrio entre o funcional e o formal. Ele entende que uma arquitetura funcional ultrapassa aspectos da experiência humana sensível. Embora pareça extremamente prático, essa arquitetura ainda exprime um conceito. Ruas que focam apenas no ponto de partida e chegada perdem a sensibilidade do percurso, mesmo cumprindo sua função como passagem.

    Um exemplo interessante é a Estação Central do Brasil. Uma estação de trem, reflexo de uma ideologia de conexão e desenvolvimento nacional, possui uma arquitetura de qualidade espacial e formal. Em contraste, uma estação de metrô representa apenas uma passagem com qualidade ordinária e comum, oferecendo baixo conforto estético e espacial. Essa diferença especial ilustra bem como a arquitetura pode operar.
  2. A Arquitetura como Simbolismo do Contemporâneo
    A crise do hiper individualismo é evidente na arquitetura contemporânea. Construções contemporâneas, com o uso extensivo de aço, vidro e áreas de lazer controladas, frequentemente se tornam símbolos de alienação para seus moradores, que muitas vezes não conhecem sequer seus vizinhos. Isso contrasta com arquiteturas tradicionais, como os povos originários, que promovem um senso de comunidade e conexão humano-humano e humano-natureza, ou com ruas de bairro tradicionais onde moradores se conversam a gerações.

Esses exemplos ajudam a vivenciar como as ideias de Tafuri sobre arquitetura e urbanismo se manifestam nas construções e situações do dia a dia. Estudar Teorias e Críticas da arquitetura é crucial para nossa profissão. A leitura de Tafuri revela conexões essenciais que nos mostram que cada projeto e cada obra são reflexos diretos do nosso pensamento, moldados por uma teia intricada de nossas relações e condições de possibilidades.

Um dos maiores desafios do arquiteto é criar uma linha de pensamento e desenvolver ferramentas teóricas que fundamentem nossas ações. Consolidar essa teoria é uma jornada constante e desafiadora, mas quem se dedica a isso tem a oportunidade de alcançar um salto qualitativo na prática profissional.

Minha sugestão é que se armem com todas as ferramentas que a vida oferece, buscar a cultura como quem busca o cultivo de uma arte. Mergulharmos na literatura, na ciência, na filosofia, na música e nas conversas descontraídas de botequim. Mantenhamos uma abordagem histórica, coerência crítica e realista, e nos engajemos socialmente. O mundo é vasto e complexo. Cultivemos o hábito de se instrumentalizar com o melhor que o mundo tem a oferecer, e estejamos preparados para transformar o mundo ao nosso redor com paixão.

Este texto, propositalmente foi grande e não terá imagens. Leiam! Quem se sentir a vontade, comente. O debate é importante.

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Cidade: Unidade Estética e Desejo de Vida

Se você perguntar a 40 pensadores sobre o significado do termo cidade, provavelmente receberá 40 respostas diferentes. E essa pluralidade importa muito quando elucubramos sobre este espaço onde a vida de muitos de nós se desenrola. A cidade é algo tão complexo que escapa às definições.

Um recorte que gosto especialmente vem de Mumford: a cidade é “um símbolo estético de unidade coletiva”. Exploremos a estética a partir de Espinosa, não reduzindo-o a uma categoria puramente formal, mas refletindo nele como uma experiência subjetiva capaz de nos afetar, tornando-nos mais potentes e desejantes. Podemos entender a experiência estética como uma manifestação da nossa potência de existir, uma busca incessante por liberdade.

A vivência da cidade, com sua capacidade de promover dor ou prazer, nos potencializa a agir. Pense em um bairro aprazível, onde a comunidade, fortalecida pelo prazer e alegria de morar ali, se movimenta para melhorar o ambiente, impedindo ações outras contrárias aos interesses coletivos. Por outro lado, quando um local é constantemente marcado pelo medo e imersa na falta de potência vital, torna-se muito difícil a organização para a ação comum dos moradores em mobilizar uma vida diferente.

Existe uma vontade de existir que nos transcende, nos faz amar um ícone arquitetônico, uma pintura, uma música, ou outras expressões que parecem nos mover para o eterno. De certa forma, é como se a experiência estética nos permitisse escapar da morte, como uma pintura rupestre que nos conecta diretamente com a mensagem de um de nós que há muito se foi.

Construir a cidade como um símbolo estético da unidade coletiva nos obriga a pensar a cidade pelo desejo de vida, de estarmos vivos e ativos enquanto coletividade. Essa coletividade se torna capaz de fazer a melhor política, aquela que não precisa passar pelas estruturas de controle. E aqui temos um desafio: como abandonar a cidade construída pelo medo da morte e substituí-la por uma cidade que seja um desejo de vida? Suspeito que os melhores indícios estão nas conversas de rua, nos encontros de bar, nas feiras, no futebol, resumindo: nos encontros dos diferentes.

autoral: lapis e hidrocor
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Feijão arroz e agenda.

Sempre me questiono por que apresentações de métodos de organização de trabalho em equipe sempre parecem mais bonitos e eficientes em powerpoint do que quando aplicados na prática.

Um dos motivos que mais assimilo é que gastamos tempos enormes enamorando métodos, assistindo eventos e palestras motivacionais que visam divulgar esses métodos e pouco trabalhamos a singularidade das equipes de trabalho. Quantos de nós somos bons em algo e mal aproveitados por conta da tentativa de se encaixar um método de gestão de trabalho na equipe?

Penso que todos os métodos são interessantes, não precisamos de dogmas sobre isso, são simplesmente ferramentas de trabalho para nos ajudar a moldar melhores jeitos de operar. Nenhum método precisa ser um dogma empresarial.

O que precisamos é entender bem os potenciais da equipe que temos, encontrar os pontos fracos e fortes, operar com isso. Valorizar a equipe financeiramente, garantir bons planos de cargos e salários, bons tempos de lazer e incentivo a estudo. Criar um bom ambiente para o trabalhador é das mais antigas e melhores garantias de sucesso numa equipe, além de tornar qualquer vaga de emprego na sua empresa algo realmente interessante, o que vai te permitir sempre ter melhores trabalhadores.

Simplificando: de nada adiantará você ser super aplicado em mil métodos de organização e planejamento estratégico de trabalho, se não consegue garantir valor material concreto para os seus trabalhadores.

Dito isso vou adentrar em outro modelo de organização, agora profissional e financeira:

1 – Pense o plano de cargos e salários dos seus trabalhadores de maneira que o trabalhador mais chão de fábrica possa alcançar, por tempo de serviço ou incremento de aprendizado, um salário similar a um trabalhador com especialização universitária. Por que não, seu encarregado de obras com 30 anos de empresa ter um salário igual o de um engenheiro pleno?

2- Garanta ao estagiário o direito ao aprendizado, tenha como meta um sistema de formação. Isso é algo básico do ser humano, aprendemos e ensinamos o trabalho, assim garantimos o legado.

3- Dê créditos a quem traz inovação, mesmo que seja o seu agente de limpeza do ambiente, se ele criou algo que gerou valor para sua empresa, valorize ele ao invés de assumir isso como autoria da corporação onde você (o dono) é a principal estrela.

4- Os tempos imperiais já terminaram, não escravize ou trate ninguém como escravo. Exemplo: pião não é categoria de trabalho, seu funcionário tem nome e tem expertise, trate-o como o profissional que é e te garanto que os resultados serão bem melhores pra você.

Com o básico, uma boa agenda já te organizará mais que um monte de aulas de coaches.

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Agbogbloshie, Gana, a questão dos subúrbios, metrópoles e exploração

A questão da cidade é global. Estamos acostumados com os grandes estudos metropolitanos que envolvem mega arquiteturas, grandes intervenções urbanas, entre outros. Hoje queria apresentar uma questão peculiar, mas não menos importante.

Agbogbloshie é um subúrbio de Accra, cidade de Gana. Primeiro pra contextualizar, estamos falando de um país da África Oeste cuja história é demarcada por violentos processos de colonização, exploração de recursos e escravidão. Estes processos seguem até hoje, quando, dentro das lógicas da divisão internacional do trabalho, o país segue como produtor de minérios e agricultura e como um grande consumidor de produtos industriais de segunda ou terceira mão. E é nestas condições que vamos partir de Gana, um tipo de país de subúrbio global para Agbogbloshie, um subúrbio de Gana.

Num dado momento, o País propôs incentivar, como tentativa de abastecer o mercado interno, a importação de eletroeletrônicos usados (como faz com automóveis por exemplo). Uma proposta que, vista sem crítica, parece inocente e até promissora se transformou em um dos maiores problemas do país. Hoje, Gana abriga um dos maiores lixões de eletroeletrônicos do planeta, servindo de escoamento internacional para este ciclo de mercadoria. Falamos aqui de um ciclo que ainda é alimentado pelo movimento da obsolescência programada, criando um dos maiores problemas humanitários da região.

Uma quantidade significativa de cidadãos Ganenses sobrevive de um verdadeiro comércio de lixo tóxico, resultado de um descarte que para maioria de nós é invisível. A propaganda da sustentabilidade nos vende uma gama de discursos sobre indústria carbono zero, elementos reciclados, baixo consumo de água, mas pelo visto, são regras e códigos que só aparecem nas fotos do Vale do Silício. A imagem de simplicidade expressa no New Balance do Steve Jobs ou no Brunello Cucinelli de Zuckerberg cujo luxo silencioso esconde o silencio do lixão do Silício.

Aqui gostaria de propor um pensamento singular. Por um momento abandonemos o conceito de cidade ou metrópole como assumimos em nossas mentes e vamos realocar as fronteiras pelos fluxos e redes. Por um determinado recorte de tempo e espaço, Agbogbloshie é uma periferia de uma metrópole do Vale do Silício, sua destruição é aceitável desde que a roda da fortuna gire e a sustentabilidade se dará apenas sobre o meu quintal. Esta leitura que falseia o próprio senso da natureza, onde o todo é um só indivisível e onde não há um fora. Este subúrbio que é resultado de um movimento político internacional pesa, e pesa ainda mais quando está em um País que exporta ouro, pedras preciosas e demais minérios.

É possível que o custo do luxo silencioso de uma camisa do Zuckerberg mate a fome por um dia dos moradores de Agbogbloshie. Esta é a metrópole que me proporei a debater em breve, uma metrópole cujas principais fronteiras estão nas redes de poder que a impactam.

Foto de Andrew McConell para o jornal The Guardian.
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Mais um olhar suburbano sobre a cidade

Vamos fazer aqui algumas associações. Primeiramente, partir do conceito de capital, esse tipo de sujeito que movimenta o mundo. Para Marx (vamos resumir grosseiramente como) um tipo de valor que empregado em algum processo retorne ampliado ao proprietário (o lucro). Vamos agenciar isso com desejos, com vontades de poder, e outras coisas mais.

Quando o mundo opera e amarra materialmente as necessidades materiais e subjetivas do ser humano a produção de capital e a aquisição de renda, ele vende que: basta conseguir acumular capital que você vai ter conforto, vai ser feliz, vai ser amado, desejado, virar referencia. Esse é o mundo que se vende, porém ele esquece de te dizer que a acumulação do capital é relacional: pra um estar bem alguns precisarão continuar ferrados. E não está na pauta das dinâmicas do capital a solução do todo. Logo, você está num ciclo de sorte e fortuna: nascer herdeiro, ganhar na loteria, por um acaso se tornar um craque em algo que transforme você num objeto de valor, fazer parte de algum nicho de exclusividade te trará o bem-estar, caso não aconteça, vai fazer parte do ciclo que precisará lutar dia a dia pra sobreviver enquanto vai viver bombardeado de dizeres que vão tentar provar que voce vive e está no lugar errado de se estar.

O problema é: E todos os que não estão nesta situação? Viverão o infortúnio. Uma questão que pesa, desde a morte de Deus em Nietzsche, o ser humano perdeu também uma certa pacificação transcendente institucional, a recompensa que está no além túmulo. Esta recompensa que servia como moeda de troca diante da violência sofrida pelos trabalhadores escravizados para construir pirâmides, templos, cidades megalomaníacas, se esvaiu e sobrou a exploração e o trabalho. Vamos ver o trabalho como um lugar, o lugar do pobre no capital. Mas também proponho que pensemos o mesmo como uma arma de luta.

É mister pensar, quando Cidinho e Doca cantaram pela primeira vez: Eu só quero é ser feliz, morar tranquilamente na favela onde eu nasci e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar”. Há algumas leituras possíveis, não sei dizer ao certo o que pensavam, se apenas na paz e conforto da vida, se pensavam na busca de igualdade de tratamento, porém quero aqui subverter um pouco alguns conceitos e debruçar sobre a frase para armá-la.

A busca da felicidade, do amor do conforto psíquico, o desejo de afeto, é sobre isso que se trata a primeira parte. Um direito que parece banal, mas que nos é tirado e é perceptível em qualquer levantamento de dados de doenças da mente o quanto a desigualdade social refletida na forma como a violência é espacializada. Na segunda parte, uma cobrança, qual é o lugar do pobre? Um olhar colonizador trata a música como uma aceitação, porém, o sujeito que canta a música é o próprio pobre na busca de um direito. A frase não diz a priori sobre aceitar o lugar que foi imposto ao pobre, ela se abre sobre a cobrança do pobre de que aqueles que o exploram terão de aceitar nos seus lugares.

Se o funk melody tendia a falar sobre cantos de paz, um pouco de afeto e o direito ao seu lugar na terra, o funk contemporâneo segue traçando novas contradições, mas como cantou mc kevin: “Eu vim do funk, sou favela, mato e morro por ela”, expõe hoje como Bezerra da Silva expôs num passado recente a contradição desse capital. No fundo, todos buscando uma saída pra si com os códigos e condições de possibilidades que estão dados no espaço onde se encontram.

A frase do Senador americano Marco Rubio diz muita coisa sobre um problema que temos de enfrentar: “As vendas de armamentos são importantes não apenas pelo dinheiro, mas também porque proporcionam influência sobre comportamentos futuros”. A máquina de guerra dada está aí: os mesmos senhores da guerra que fazem fortuna e controlam comportamentos a partir da venda de armas vão condenar arbitrariamente todos que eles quiserem condenar. Seu filho pode aparecer no Datena com uma arma ou um guarda chuva, pode ser avião ou estudante, ele sempre vai ser condenado ou suspeito, vai morrer de tiro porque a opinião pública não está nem aí.

Adriano Imperador vai ser criticado por ser rico e decidir morar na favela, os MCs da ostentação serão criticados e rechaçados por ganharem dinheiro e decidirem morar na Barra da Tijuca. Mas os críticos são aqueles que até podem querer ir no baile da Penha a noite mas não vão querer morar na Merendiba e pegar o trem pra trabalhar no centro todo dia.

Assim, proponho deixar um flanco aqui aberto, pensar nosso espaço sem romantismo, sem culpa e com a crueza da vida. Lembrando Bezerra: “As coisas na Terra estão mal divididas, o pobre levando uma vida bandida e comendo mais o pão que o diabo amassou”. É isso, planos diretores, macro textos só servem até onde a cidade legal garante direitos, ali onde a cidade legal nos esquece, eu quero mesmo é aprender com Bezerra da Silva como entender, operar e modificar a cidade. A cidade é minha arma de guerra.

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Sobre o trabalho do arquiteto

A crise da construção civil traz à tona o discurso de desregulamentação do salário-mínimo profissional de arquitetos e engenheiros. Entre os argumentos mais falados entre arquitetos (leiam, entre nós) sempre se citam os pequenos escritórios que não conseguem arcar com os custos empregatícios de profissionais devidamente registrados. Me aterei a esse recorte no momento.

Estes mesmos pequenos escritórios sofrem também com a tributação excessiva e com os gastos em softwares e hardwares para manter-se vivos, e isso denota uma coisa importante: a crise não é por conta do trabalhador, mas por conta da má inserção do arquiteto no universo jurídico empresarial do Brasil. Quaisquer escritórios são tratados e vistos como uma construtora ou grande empresa de consultoria e não pelo perfil do profissional liberal como médicos ou psicólogos, que podem ter seus pequenos consultórios.

Sobre o caso do trabalhador no ramo de serviços, há uma questão viável de se fazer, os arquitetos podem compor um contrato civil entre as partes e ser pagos por prestação de serviços, o que isso acarreta é basicamente uma mudança de cultura de trabalho, pois não caberia mais a cobrança por CLT e sim por serviço entregue, visto que não há vínculo empregatício.

Quanto aos tributos, este sim é o grande entrave que ninguém aparentemente quer tocar. Inventam-se meios e subterfúgios, mas a realidade é que um pequeno escritório NÃO DEVERIA SER TRIBUTADO COMO UMA GRANDE EMPRESA DO CAMPO DA CONSTRUÇÃO CIVIL. Ao que parece a reforma tributária não prevê uma mudança nisso, correndo ainda o risco de haver uma maior tributação sobre o profissional liberal e com isso uma pane no campo da profissão.

Como, diferente da engenharia, que se manteve no canteiro de obras e se fortaleceu enquanto categoria hegemônica na construção civil pesada e na indústria, os arquitetos se tornaram um item de serviço que muitas das vezes se vende pelo luxo e pela exclusividade. Isso para o mercado é um prato cheio a favor da precariedade, nós mesmos criamos um campo oferta e demanda de serviços que é muito mais de nicho social que de massa.

Somado a isso tudo ainda temos os altíssimos custos de um sistema de ferramentas que nos cabem: pacotes proprietários de softwares que cobram preços anuais astronômicos por exemplo. Todo o desenho de sistema é dado para que se crie alguns pouquíssimos grandes conglomerados de projeto. Como um campus industrial da arquitetura e urbanismo, que aglutinará projeto, gerenciamento e acompanhamento de obras. Estes subcontratarão arquitetos por pequenas demandas (encaixando legalmente na lógica de contrato civil). Com isso, a hegemonia de controle da profissão estaria completamente domesticada por meia dúzia de grandes bilionários no mundo a fora. Não é ilusório pensar nisso em um planeta onde a disputa de controle territorial é travada de forma cada vez mais severa.

Assim, retomo uma tecla que sempre bato, o que o brasileiro médio não consegue compreender é que o recorte classista da sociedade inclui ele – o pequeno profissional liberal – no balaio dos explorados, para que uma casta de grandes donos de capital consiga manter seus privilégios.

No campo ampliado da arquitetura, o projeto parece claramente o mesmo de sempre: a constituição e manutenção de um determinado grupo privilegiado que, ainda assim, sofrerá danos materiais. Estes danos serão repassados em uma manifestação contra os donos do capital do Brasil? Provavelmente não, estes irão estourar na massa de arquitetos sem sobrenome famoso no meio, sem dinheiro e contatos para ir a congressos e afins, arquitetos estes que acabarão hiper explorados ganhando salários de estagiário premium e muitos destes quietos pois sonharão que um dia pertencerão ao tal ciclo privilegiado. Porém, sem um embate real com as políticas trabalhistas vigentes, a tendencia é isso virar um ciclo vicioso de escritórios mambembes que entregam projetos e obras de pouco esmero realizados por trabalhadores hiper explorados e nada recompensados (nada muito diferente do que já acontece na educação com as escolas privadas).

Este é o charco diário na cabeça do trabalhador. Ainda somos uma categoria que se enquadra numa certa classe média brasileira, e infelizmente isso coloca as possibilidades reais de luta em uma letargia sem fim. Vamos seguir tomando prosecco no último baile da ilha fiscal enquanto o Brasil pega fogo.

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Penha: sobre sua Pedra edificarei o meu lar

Pouca coisa é mais terrível no debate de formação e de cultura dos subúrbios que o apagamento do protagonismo negro na construção do solo.

É comum contarmos a história da paisagem suburbana vinculada ao imaginário das casas de porte neocoloniais, na formação dos trabalhadores fabris, em geral imigrantes europeus e na glória de grandes beneméritos que investiram num lugar.

Concordo que seja plausível contar a história da Zona da Leopoldina citando nomes como Capitão Baltazar, família Nunes ou Álvaro da Costa Mello, porém esta leitura esconde a força que riscou o chão sendo capaz de consolidar a peculiaridade e identidade que o abraça.

Era na festa da Penha que os citadinos espacializavam a região. Os escravizados ocupavam a base da pedra e ali construíam sua realidade, seus batuques, sambas, rodas de capoeira. A festa da Penha fora por séculos um fervo de expressão cultural com impacto geográfico. O mesmo porto que escoava a produção agrícola, trazia romeiros. A rua dos Romeiros demarca até hoje em traçado o encontro do mar (do porto maria angu quem sabe) até a Penha onde fora erguida a Igreja.

Nos importa lembrar sempre que: Penha não é Vila da Penha, ambas são fundadas por “penhas” distintas diga-se de passagem. Apesar disso, se encontram na avenida da arte. Noel, que era de outra Vila muito cantou sobre a Penha. Fico a pensar que anos mais tarde, a vila de Noel leva um dos mais imponentes sambas enredos do carnaval para a passarela Darcy Ribeiro. Seu compositor, Luís Carlos que era da Vila da Penha.  Alguma coisa realmente acontece na nossa vida quando a gente cruza a esquina da Rua dos Romeiros com a Brás de Pina, admiramos o Parque Shangai e sua jóia de carrossel, gostamos do comércio e vemos o povo nos corres do BRT, do alto Nossa Senhora da Penha nos observa quieta.  

Os pés que marcaram a rua dos Romeiros definiram o traçado urbano daquela região antes mesmo que qualquer administrador público o fizesse oficialmente. E quem haverá de contestar? Claro, esta não é uma história romântica, é a história crua de formação de uma região onde a repressão sempre foi forte.  Apesar de tudo, o chão da Leopoldina venceu e seu povo segue resistindo através dos seus modos de habitar.

A Penha, como qualquer recorte de Rio de Janeiro, representa em alguma escala esse emaranhado que compõe o solo brasileiro.  Aqui faz-se legal rememorar Espírito da Luz, o sambista anônimo de Rio Zona Norte que coloca o dedo na ferida do recorte geográfico etnocentrado no homem branco médio. Em tempos em que buscamos um novo marco civilizatório, é imprescindível que histórias como esta sejam contadas sem o enviesamento da branquitude. É, entre outros, a festa da Penha, o aquilombamento, a sociabilidade, dos negros que viabiliza o uso e a ocupação urbana da zona da Leopoldina e não o contrário. É através da força deste povo que esse território ganha valores culturais capazes de torná-lo especial, singular e aprazível.

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Arquitetura e Urbanismo, artigo, política

Condominialização da vida

Uma das grandes contradições das relações entre espaço e sociedade se dá na busca do condomínio fechado. Nós urbanistas estudamos e entendemos os riscos e problemas que este modelo traz nas cidades, porém sempre fica a questão: Por que estes modelos seguem vingando?

Neste momento vamos pensar sobre alguns pontos: segurança, igualdade e qualidade de vida.

O que a maioria dos condomínios vende é uma vida com lazer “urbano” controlado, destinado a um determinado grupamento de moradores selecionados pela capacidade de compra destes imóveis. A vida vendida nas propagandas garante isso, a segurança e conforto é produto da capacidade de gestão de iguais sob um mesmo território murado. A vida fora dos muros é o risco, o medo do outro, do diferente, do imigrante.

O que o condomínio fechado nos mostra com isso é que a relação de qualidade de vida que nos sistemas do capital neoliberal é destinada a alguns poucos têm preço. Para seguirmos em frente vamos observar um pouco o que o modelo neoliberal nos traz:

O modelo se sustenta por um pequeno grupo de mega ricos cuja flexibilidade e poder econômico os permite escapar das muitas relações nacionais de controle social e econômico, temos um grupamento razoável de trabalhadores que se inserem numa lógica de classe média: a quem é destinada a alegria a partir de pequenos consumos, e a quem incide boa parte das tributações que pagam o estado. Por fim, temos uma massa de pobres, cujo poder de consumo é mínimo ou zero, cujo controle se dá pela manutenção do mínimo do mínimo para a sobrevivência destes. Resumindo, o sistema constrói um Estado realmente desigual e incapaz de resolver seus problemas.

É jogado a sociedade a resolução dos problemas por si mesmo, cada um que se resolva. O sistema se torna capaz de flexibilizar suas soluções justamente porque ele aliena a lógica de oferta e demanda devem caminhar juntas na solução de problemas vitais. Não precisamos construir habitação para toda a população, vamos construir X habitações e cada pessoa com seu recurso que tente adquirir sua moradia.  

Quaisquer modelos de governança que visem políticas sociais, seja a social-democracia seja o próprio comunismo é logo traçado como ofensa ao direito individual do cidadão enfrentar por si só o seu caminho.

Agora voltando a contradição: o modelo de condominialização vinga porque ele promove exatamente alguns dos conceitos da justiça social ou do comunismo. Em um microcosmo ele produz espaços de qualidade de vida a um grupamento de cidadãos com igualdade de renda, identidade, conceito de vida. Garante-se o controle de invasores ao ecossistema e por sua vez a segurança.

O que o condomínio nos ensina de interessante é que a segurança está muito relacionada com a capacidade de uma vida igualitária, esta é a busca daqueles que se encantam com a proposta da vida condominial.  Ironicamente um dos desejos de conforto humano se consolida naquilo que o pensamento da esquerda propõe, da Deleuziana até o mais ortodoxo dos modelos, a igualdade.

O condomínio se transforma nesta válvula de escape social, a busca de uma vida comum que de comunitária não tem nada. Se torna um espaço estéril, onde a igualdade entre os que coabitam é construída pelas ferramentas de controle dos grandes investidores (que modelam o negócio).

Assim, o condomínio e a condominialização da vida tentam trazer uma falsa solução aos problemas que ninguém parece ter interesse de resolver, como por exemplo, recuperar as relações de vida comum e vida pública da sociedade garantindo o direito de igualdade de tratamento a todos os cidadãos.

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