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Jovens Arquitetos e Futuro

Os jovens de hoje cresceram conectados. Acostumados com redes sociais, fóruns online, plataformas digitais e games em rede, pertencem a um mundo repleto de ferramentas que permitem organizar ações de forma rápida e articulações horizontalizadas. A arquitetura no entanto, ainda opera sob dinâmicas de mercado saturado , elitizado e atravessado por desigualdades estruturais. Recessão, machismo estrutural , desvalorização profissional e classismo são alguns dos enfrentamentos cotidianos de quem se forma no país.

Atualmente, o Brasil conta com mais de 200 mil arquitetos e urbanistas registrados no CAU/BR. Apesar desse crescimento, a falta de investimentos públicos e privados no setor da construção civil e a crise imobiliária, ausência de industrialização e de um plano nacional de habitação colocou a categoria e na verdade todo o campo da construção civil em um limbo. Cerca de 60% dos arquitetos brasileiros trabalham de forma autônoma , a maioria, enfrentando precarização e instabilidade. Para as mulheres, que representam a maioria entre os formados, a realidade é ainda mais árdua: desigualdade salarial , assédio e invisibilização profissional fazem parte do cotidiano. Em um mercado altamente elitizado, muitos desistem da carreira, migrando para áreas correlatas ou aceitando condições de trabalho precarizadas em qualquer área pra sobreviver.

Quando estudante, lembro-me de algumas táticas. Sem dinheiro para conhecer o mundo, desbravei-o nas bibliotecas da FAU. Lia em todos os meus tempos vagos, revistas, livros, artigos, teses. Porém não falarei sobre isso agora. Para este texto vou citar 3 documentos que me auxiliaram na auto-organização: o livro Manual do Arquiteto Descalço (aqui); o documento da FNA, na época da gestão Jeferson se não me engano, Manual de Defesa Pessoal do Jovem Arquiteto e Urbanista (aqui), e mais atualmente a Cartilha T.A.B.A. Trabalhadores Articulados em Benefício da Arquitetura (aqui).

A verdade dura é: minha geração já não via muito futuro na profissão, pois a forma estruturante dela é para poucos terem sucesso.

Apesar das enormes dificuldades deste porvir, os jovens de hoje têm à disposição ferramentas e práticas que podem revolucionar o campo da arquitetura, na verdade do trabalho. Redes sociais e plataformas digitais como Discord, Instagram e TikTok já estão sendo utilizadas para criar comunidades de troca e apoio . Diferentemente da minha geração, que utiliza essas ferramentas de forma mais expositiva, os mais jovens constroem nichos e espaços de diálogo muito próprios que desafiam a lógica tradicional. Para além do entretenimento, o que precisamos é otimizar estas ferramentas para articulação. 

Jovens Arquitetos podem utilizar esses espaços para compartilhar oportunidades de trabalho, oferecer ajuda técnica e podem divulgar projetos colaborativos em redes de interesse mútuo ou complementar. Um exemplo inspirador no Brasil é a rede Arquitetos pela Moradia , que conecta e articula profissionais e estudantes interessados ​​em Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS) . O grupo promove debates sobre políticas habitacionais, divulga editais e cursos, e fomenta projetos que impactam comunidades locais.

No âmbito internacional, iniciativas como o Open Architecture Collaborative (nascido do Architecture for Humanity), nos Estados Unidos, demonstram o poder do trabalho coletivo. Esse grupo cria projetos de impacto social em áreas vulneráveis, promovendo soluções de habitação e infraestrutura. Na Colômbia, o MU Micro Urbanismo em Bogotá realiza intervenções urbanas táticas em comunidades periféricas, promovendo a transformação de espaços públicos negligenciados.

Esses exemplos mostram que, em contextos de crise, a organização coletiva pode ser uma ferramenta poderosa de transformação econômica e social. No Brasil, movimentos autogeridos como mutirões, cooperativas, coletivos culturais e coletivos de assistência técnica e melhorias habitacionais, assim como coletivos de jovens arquitetos realizando diversas entradas de trabalho e experimentações podem propor um novo paradigma para a arquitetura.

Táticas de Ação: Como Começamos um Coletivo de Arquitetura?

  1. Forme o Grupo
    • Identifique colegas com interesses em comum. Um coletivo pequeno e bem alinhado é mais eficaz do que grupos dispersos. Não precisam ser necessariamente arquitetos.
  2. Organizar Grupos de Estudo
    • Utilize bibliotecas públicas, materiais online e promova rodas de debate. Estude além da sala de aula para entender como aplicar o conhecimento na realidade local.
  3. Crie uma Rede Digital
    • Use plataformas como Discord, telegram ou WhatsApp para organizar canais dedicados a oportunidades de trabalho, compartilhamento de materiais e discussões sobre temas de interesse global e local: justiça ambiental, urbanismo sustentável, crise climática e assistência técnica, por exemplo.
    • Um coletivo deve possuir uma agenda ativa de ações. Rodas de conversa, grupos de estudo, cineclubismo, oficinas de experimentação e projetos utópicos, estudos de estética, estudos políticos, entre outros.
  4. Mapeie Demandas Locais
    • Identificar espaços públicos ou habitacionais que necessitem de intervenção. Use ferramentas como o Google Earth para mapear condições e criar um portfólio. Conheça sua vizinhança, caminhe e identifique os problemas, produza documentos pessoais, compreenda a economia que gira em torno da construção de uma casa popular periférica.
  5. Busque Apoio e Financiamento
    • Articule-se para, quando apresentar o portfólio e a proposta de impacto social do coletivo, ter capacidade de pleitear recursos.
    • Auxiliar ONGs, Cooperativas, associações de moradores ou coletivos a realizar ações de melhorias. Disputar editais, organizar-se para acompanhar metodologicamente os instrumentos de fomento, assim como captar recursos via ferramentas de doação colaborativa. 
  6. Realize Projetos Colaborativos
    • Comece pequeno: revitalizar uma calçada, criar mobiliário urbano sustentável ou promover oficinas de educação ambiental, de estudo do lugar, de memórias afetivas.

A formação em arquitetura nos capacita com habilidades que vão além de projetos e obras. Cito alguns que considero interessantes. O olhar generalista e multidisciplinar, que comunga técnicas exatas, artes e ciências sociais aplicadas, nos dá flexibilidade para atuar em outros campos de trabalho. A capacidade de análise sistêmica é altamente valorizada em setores como gestão de projetos , consultoria estratégica e inovação tecnológica . A habilidade criativa nos conecta a áreas como design de serviços e publicidade, além de áreas que exigem soluções inovadoras para problemas. 

O equilíbrio entre conhecimentos técnicos e sociais também permite que arquitetos transitem por áreas como políticas públicas , consultoria ambiental e empreendedorismo social. Assim, apesar da recessão, um bom preparo pode nos levar a algumas possibilidades que ampliam o horizonte de atuação e mostram que a formação em arquitetura apesar de não ser o principal elemento, se torna um ativo importante.

Estudar é um Ato Político

Lembro-me de uma frase que se lia num banheiro público e que sempre ouvi nos tempos de FAU: “Não deixe a faculdade atrapalhar seus estudos”. Estudar, no sentido amplo, vai além das aulas e exige esforço ativo. Quando jovens arquitetos se reúnem para aprender juntos, estão resistindo a um modelo de educação que prioriza a competitividade em detrimento da colaboração. Círculos de estudo livres podem ser sementes de movimentos maiores, assim como os cafés modernistas ou os escritórios brutalistas um dia o foram. Teoria e prática não andam separadas.

Em uma economia de recessão, a utopia também é panfleto. Muitos movimentos da Arquitetura se organizaram a partir de projetos panfletos, de produção de ideias, narrativas, discursos utópicos, experimentações teóricas. Cidades futuristas do Archigram ou o Cenotáfio de Newton de Boullée, são exemplos interessantes de arquiteturas sem sombra. Curioso, usei o termo panfleto alguns dias após tê-lo criticado em dois textos anteriores sobre organização política. Mas aqui cabe.

Conclusão

A arquitetura nunca foi apenas sobre construir prédios. Os desafios do mercado brasileiro são reais, mas as oportunidades para transformar a profissão também. A recessão constante e a desvalorização nos mostram que o modelo está muito equivocado. Nosso esforço atual precisa caminhar para a transformação do campo de trabalho, é um esforço que exigirá a emancipação da profissão e o realinhamento dela com as necessidades do Brasil Real.  Ao organizar-se, estudar juntos, criar redes, elos e cooperativismos e agir coletivamente, jovens arquitetos podem criar algo novo, redefinindo o papel da arquitetura na sociedade. Fica como um pequeno convite à ação. 

archigram cities: veja aqui

@rodrigobertame

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Fome Global: Território, Violência e Redes

A Fome Global: Crises, Violência e Redes

Quem vivenciou Conjuntos Habitacionais sabe que uma regra é clara. Mesmo que você odiasse sua vizinha, você não recusava emprestar um pouco de arroz. As redes de solidariedade dos pobres formam um caráter para além de uma relação moral. Partilhamos para sobreviver. 

Uma das mais graves crises humanitárias contemporâneas é a fome global. Em 2021, estimou-se que cerca de 800 milhões de pessoas enfrentaram a fome, enquanto mais de 3 bilhões não tiveram acesso a dietas minimamente saudáveis. Esses números refletem uma desigualdade social brutal, agravada pela pandemia de COVID-19 e pelo avanço de políticas antiquadas, que impactaram profundamente os sistemas de distribuição alimentar. No Brasil e em outros países periféricos, a crise sanitária escancarou essas desigualdades e tensionou ainda mais o retorno do país ao mapa da fome.

Um Cenário Complexo

Resolver a crise da fome não parece ser tão simples. As mudanças climáticas, extremamente intensificadas pelas práticas agro-predatórias,  comprometem a produção do campo. O agronegócio, além de explorador, financeiriza a cultura alimentar, eleva os preços e reduz a acessibilidade. Para além da exploração dos biomas, há também uma crise distributiva: mesmo onde há comida, a desigualdade impede que ela chegue a quem tem fome. Transforma-se alimento em alternativa de lucro, mercantilizando-o e criando um impedimento significativo na equidade e direito alimentar.

Somado a isso, destaco também que, os conflitos armados (em suas muitas formas) desempenham um papel significativo no aumento da fome. Países como Sudão, Nigéria e Somália são exemplos onde a guerra destroi infraestruturas agrícolas, recursos hídricos e cadeias logísticas de suprimento. Sudão, por exemplo, representa o terceiro maior exportador de cana de açúcar do mundo, demonstrando claramente que a relação entre território e fome não é mais complexa do que nos parece. Esses conflitos, além do acima citado, também forçam deslocamentos populacionais, agravando ainda mais a crise humanitária.

Vale ressaltar aqui que: Em muitos territórios de conflito, a fome é usada como arma de guerra, destruindo povos inteiros, que atuam de maneira direta ou indireta nos combates, Um exemplo do modus operandi é a prática de bloqueio de ajuda humanitária, como apresentado pelo relatório do Conselho Norueguês para Refugiados, indicando o bloqueio – por Israel – da entrada de 83% da ajuda alimentar necessária à população de Gaza em 2024.

A violência urbana, comum no Brasil, também afeta esta lógica da fome. Indivíduos que assimilam sua vizinhança como violenta e pobre têm maior probabilidade de enfrentar insegurança alimentar. A violência urbana, em suas muitas formas, limita o acesso a serviços essenciais, oportunidades econômicas e, em casos extremos, resulta em deslocamentos internos e desestruturação de comunidades inteiras. Esta instabilidade afeta diretamente a produção e distribuição de alimentos. Qual o papel do urbanista em relação a isso? Aqui lembro que Sassen aponta a crise sistêmica e nos traz como elemento pertinente o novo mercado global de terras.

No âmbito do território, o impacto do novo mercado global de terras organiza a precariedade social.  A concentração para monoculturas voltadas à exportação reduz a disponibilidade de alimentos básicos no mercado interno e eleva preços, agravando a insegurança alimentar. Além disso, a exclusão de pequenos agricultores para a indústria do agrobusiness contribui para o constante êxodo rural, forçando ainda mais o crescimento das periferias urbanas. Nessas, diante da falta de emprego e infraestrutura adequada, resta aos pobres se inserir nas economias informais ou se vulnerabilizam diante de uma estrutura de mercado de violência urbana, criando um ciclo de precarização social que conecta diretamente a gestão desigual da terra, seja ela urbana ou rural.

No Brasil, em especial no Rio de Janeiro, a violência armada é parte deste sistema de controle territorial complexo. As políticas de segurança pública frequentemente operam como estratégias de controle territorial, com incursões violentas em favelas e comunidades periféricas que, além de afetarem diretamente a vida dos moradores, desorganizam atividades econômicas locais, como o comércio de alimentos e pequenos negócios, criando um ciclo de precariedade que conecta a violência urbana ao agravamento da insegurança alimentar. As operações também influenciam o mercado especulativo de terras urbanas, ao redesenhar o valor e o uso dos territórios urbanos em função do medo. 

A violência no campo no Brasil é diretamente associada à luta por terras e à concentração fundiária, impactando diretamente a produção de alimentos. Grilagem, ameaças e assassinatos de líderes comunitários são práticas corriqueiras de um Brasil que queremos esconder. Conflitos entre grandes latifundiários, pequenos agricultores e comunidades tradicionais, frequentemente mediados por ações violentas, resultam no deslocamento massivo de famílias, no abandono de terras produtivas e na redução da produção de alimentos destinados ao consumo interno.

A violência no campo também está ligada ao mercado especulativo de terras, onde conflitos são muitas vezes alimentados pela valorização de grandes extensões de terra como ativos financeiros. Além disso, projetos de infraestrutura, como hidrelétricas e estradas, impulsionam a valorização das terras, resultando na expulsão de comunidades locais em favor da especulação, concentrando ainda mais a posse e propriedade de terras nas mãos de poucos. Exemplos cotidianos incluem a expulsão de trabalhadores rurais para dar lugar a monoculturas voltadas à exportação, como soja e cana-de-açúcar, o que reduz a diversidade agrícola e contribui para a elevação dos preços dos alimentos básicos nas cidades, agravando a crise alimentar nacional.

Um projeto concreto de segurança pública precisaria partir de uma lógica mais complexa. Reduzir a relação ostensiva, comprovadamente inócua e elaborar um programa centrado na Segurança ambiental, Sanitária e de Saúde Coletiva, associada a equidade territorial. Assim, ponderamos a importância de planejar um sistema inteligente de segurança pública a partir destes pilares, de modo que tratemos a segurança como uma extensão do direito à vida e não da guerra.

Políticas Necessárias

Apesar de ser um texto de caráter mais opinativo, fica perceptível, sem muita análise academica profunda, que enfrentar a fome global exige mais do que simplesmente distribuir alimentos: é necessário reduzir a violência armada e tratar as causas estruturais da fome, como a concentração desigual da terra. No Brasil, políticas que promovam um futuro para territórios pobres são essenciais. Um povo com fome se torna um povo vulnerável à barbárie.

Um exemplo a se pensar, seria a criação de uma Política Global de Justiça Alimentar, estruturada de maneira supranacional, dividida em quatro níveis articulados em rede: global, regional, nacional e local.

  • Global: Coordenando a criação de diretrizes internacionais, tratados e políticas globais de eliminação da fome, implementação de um fundo financeiro de auxílio, alimentado por nações desenvolvidas e corporações. Criando também um tribunal internacional para julgar crimes de guerra relacionados à fome
  • Regional: Blocos econômicos como o BRICS, MercoSul, União Europeia podem coordenar reservas regionais de alimentos e promover políticas integradas de distribuição destes produtos. Garantimos assim, por ação política, melhor acesso a alimento aos mais pobres dos países que pertencerem ao acordo regional. 
  • Nacional: Políticas de redistribuição de terras e incentivo à agricultura familiar. Organização da logística nacional de distribuição de alimentos. Elaboração de um programa de Pesquisa e Desenvolvimento capaz de melhorar tecnologias, voltados especialmente para práticas de agrofloresta e agricultura familiar.
  • Local: Organizar Cooperativas agroalimentares, bancos de sementes e programas de educação alimentar. Estruturar instituições públicas para garantir que o alimento chegue na base da sociedade: entre elas, fortalecer o projeto alimentar e cumprir todas as refeições dentro das escolas de ensino básico e médio, por exemplo.

Sabemos que implementar um sistema como esse não seria fácil. Corporações do agronegócio e do mercado internacional de terras provavelmente resistiriam, e países dependentes de atividades agro-predatórias talvez se opusessem a regulações redistributivas. Além disso, haveria também resistências burocráticas de organismos internacionais na construção de âmbitos políticos, e em nível local, comunidades poderiam interpretar iniciativas globais como interferência em sua autonomia.

Mesmo assim, a governança organizada em rede se mostra potente e promissora. Por meio de blockchain e ferramentas de georreferenciamento, seria possível por exemplo, monitorar os fluxos alimentares e identificar áreas críticas, promovendo soluções rápidas e sustentáveis.  As tecnologias de IA e digital twins oferecem soluções que podem colaborar na organização logística de distribuição alimentar em contextos de vulnerabilidade social. Podem prever padrões de demandas com base em variáveis socioeconômicas e dados, otimizando rotas de entregas, reduzindo desperdícios e custos operacionais. Criar simulações de fluxo e testar alternativas em tempo real. Com machine learning, podemos mapear regiões prioritárias e garantir a distribuição com eficiência econômica, transparência e velocidade.

Se garantirmos os resultados abertos e utilizarmos uma rede peer to peer, podemos proporcionar menor burocracia e maior autonomia das comunidades locais que seriam atendidas, descentralizando e garantindo o compartilhamento direto dos dados para as organizações locais e movimentos sociais de combate a fome, eliminando a necessidade de uma cadeia de intermediários e burocracias.  Com acesso a essas tecnologias, as redes solidárias podem se expandir.

Enfrentar a fome é uma questão de justiça social e sobrevivência planetária. Uma abordagem integrada, baseada na colaboração global e local, é essencial para superar a crise alimentar. Mais do que alimentar corpos, precisamos nutrir sistemas que promovam dignidade e equilíbrio ambiental. O caminho é complexo, mas não é inalcançável e exigirá articulação dos precarizados. A pergunta: estamos prontos para redesenhar o mundo ou morreremos de fome?

foto de autoria desconhecida
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Descentralizar o saber técnico é um desafio estrutural no Brasil

A desigualdade regional no Brasil gera uma das maiores dificuldades de articulação para projetos nacionais. A disparidade de bens, serviços e qualidade de vida oferecidos entre as regiões intensifica a concentração de serviços qualificados no Sudeste e Sul. Entre os muitos reflexos desse modelo está a concentração do conhecimento técnico-científico, que cristalizou um padrão de desenvolvimento desigual.

O país precisa enfrentar um desafio: como modificar esse fenômeno? Como criar uma estrutura sistêmica que amplie as capacidades de adaptação e inovação em regiões onde a economia ainda é muito pobre? Programas foram implementados, mas esbarram em problemas estruturais e na descontinuidade.

A expansão de universidades no interior trouxe avanços, mas muitos campi enfrentam a ausência do básico: laboratórios, bibliotecas e internet. Soma-se a isso um desalinhamento entre os cursos oferecidos e as vocações econômicas locais, além da dificuldade de atrair e reter pesquisadores em cidades que não oferecem o mesmo magnetismo material e simbólico do Sudeste e Sul.

Políticas de incentivos fiscais, como a Zona Franca de Manaus, também têm suas limitações. Embora atraiam indústrias, frequentemente resultam em enclaves econômicos desconectados das comunidades locais, sem transformar a base da economia regional. Da mesma forma, programas como o Mais Médicos mostraram que incentivos financeiros são insuficientes para fixar profissionais em áreas remotas. Sem uma estrutura de suporte, como moradia, segurança e acesso a serviços, a rotatividade desses trabalhadores segue alta, comprometendo a continuidade das ações.

Precisamos reconhecer que a maior parte do Brasil é formada por essas cidades e que criar estratégias de desenvolvimento regional para torná-las mais atrativas em qualidade de vida pode ajudar a reverter o processo de evasão da mão de obra qualificada que está hiper centralizado no eixo sul-sudeste.

A descentralização do saber técnico-científico , porém, exige mais do que boas intenções. É preciso articular infraestrutura educacional, incentivos econômicos, conectividade digital, redes de colaboração nacional e baratear a logística nacional, melhorando a capacidade de translado e conexão modal entre as inúmeras cidades deste País. Investir na formação de pólos de conhecimento alinhados às demandas locais e garantir a continuidade administrativa são passos fundamentais para superar a fragmentação que compromete a eficácia dessas políticas.

Este desafio é imenso. A governança brasileira, com sua complexidade federativa, exige alinhamento entre as esferas de poder, algo que frequentemente se perde em políticas descoordenadas e sobrepostas, além de inúmeras disputas de pequenos e grandes poderes. Isso nos obriga também a impessoalizar alguns processos administrativos e políticos estratégicos, visando mitigar a capacidade destes ficarem amarrados ao personalismo de lideranças.

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A Dor do Pobre: 4614/24 e Desigualdade na Nova Política Fiscal

Quero começar este texto com uma frase curta e incisiva de Pagu: “A dor do pobre é o dinheiro”. As políticas de arcabouço fiscal do governo Lula ilustram bem essa frase. A PLC 4614/2024 é sobre isso. 

Duas medidas são duras: o aumento real do salário mínimo atrelado aos índices anuais efetivos de crescimento da despesa primária, conforme fixados na LC 200; e a exigência de que, para fins de concessão do BPC, a pessoa com deficiência seja definida como aquela incapaz de viver de forma independente e de trabalhar. De cara lhes digo: para o governo, o pobre é um gasto.

Ao impor um teto ao salário mínimo e limitar o acesso ao Benefício de Prestação Continuada, o governo abandona milhares de brasileiros já vulneráveis, deixando-os ainda mais expostos à precariedade, largados ao relento. Convém lembrar, bolsas e benefícios são, por si só, um atestado da incapacidade do Estado de enfrentar estruturalmente os problemas de desigualdade psico-socioeconômica que afetam o país.

O Projeto de Lei 4614/2024 exige que o beneficiário comprove incapacidade absoluta para a vida independente e para o trabalho. Esse requisito entra em conflito direto com o conceito de pessoa com deficiência (PCD) já consolidado no Brasil, em alinhamento com a ONU, que estabelece: “Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas”.

Assim sendo, o que o governo promove é a exclusão de um benefício afirmativo sem dar condições sociais para completa integração das pessoas a dignidade plena e todos os direitos civis. Entendemos que, mesmo a deficiência em um grau aparentemente leve carrega a longo prazo uma série de dificuldades ao longo da vida, ainda mais em um país pobre como o nosso. 

O que o governo promove, portanto, é a exclusão de um benefício afirmativo sem oferecer as condições sociais necessárias para a plena integração dessas pessoas à dignidade e aos direitos civis. Mesmo uma deficiência considerada leve pode, a longo prazo, acarretar sérias dificuldades — ainda mais em um país marcado pela pobreza como o nosso. Tanto estes benefícios, quanto o salário mínimo não se justificam como economia, visto ser um dinheiro que circula novamente na economia, tão logo é recebido.

Quando junta esta política com a aprovação da precarização do professor no Rio de Janeiro, o recado dado permanece: reduzimos a ajuda permanente e dificultamos as condições de ensino. Admira-me a esquerda se alinhar a este tipo de projeto, rasgando bandeiras históricas de lutas populares e por um mundo igualitário. 

Ao combinar essas políticas com a recente aprovação da precarização do trabalho docente no Rio de Janeiro (e no restante do Brasil), o recado é claro: reduzimos a ajuda permanente e precarizamos o acesso digno à educação. 

Surpreende ver setores da esquerda (incluso o governo) alinhados a esse tipo de projeto, que contradiz bandeiras históricas de lutas populares e pela igualdade. O projeto do Brasil desenha um país com um planejamento frágil, baixíssimo fomento em desenvolvimento real, subserviente ao agronegócio. Um país que escolheu o pobre como alvo de seu projeto de controle social e econômico. 

Não é pelo dinheiro economizado, é pelo valor que “sua cabeça agora está custando”. Com menos renda e salário, o que o governo faz é aumentar a massa de reserva de trabalhadores barateados pela necessidade de sobrevivência. Ao mesmo tempo, seguem os privilégios das famílias donas do poder, das OSs, das BETs e de inúmeras estruturas legais ou ilegais que gerenciam e rateiam o Brasil. Infelizmente, jogaremos fora um dos maiores ativos do País: o bem-estar e a dignidade do seu povo, Não terá narrativa ou militância que salve a esquerda do ônus destas decisões estapafúrdias.

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Interiorizar a Arquitetura: Uma possibilidade de reinventarmos a Profissão

A arquitetura, como era conhecida em tempos antigos, acabou. O que nos resta é a oportunidade e  dever de reinventar nossa capacidade de trabalho, utilizando nossas ferramentas para enfrentar as pautas urgentes que moldam nosso tempo. Entre elas, quero destacar algo que me incomoda: premente necessidade de descentralização do desenvolvimento econômico e social do Brasil.

O modelo atual concentra riqueza e impactos no eixo Sudeste, deixando vastas áreas do território nacional relegadas ao abandono ou à exploração predatória. É um ciclo que alimenta desigualdades regionais e ambientais. O arquiteto militante, consciente de sua responsabilidade social, deveria propor e implementar projetos que alavanquem o interior do Brasil. Penso que criar polos de inovação sustentável por exemplo, é um caminho para mitigar os efeitos da concentração de renda e da superexploração territorial.

Interiorizar a arquitetura não é apenas deslocar profissionais para regiões periféricas. É articular esferas distintas de poder, estatal, comunitário, acadêmico, movimentos sociais, para criar espaços de gestão compartilhada. Centros regionais de pesquisa, ensino e prática podem ser organizados com o objetivo de oferecer soluções em arquitetura bioclimática, agroecologia e infraestrutura de baixo impacto extrativista e alto desempenho social.

O Brasil, em sua vastidão e diversidade, exige soluções regionais, não cabem em um modelo único e genérico. Dito isso, precisamos dispor de um olhar não nostálgico para o vernacular e o cultural, mas como um ponto de partida para construir uma arquitetura que dialogue com os desafios e recursos locais.

Uma estratégia central para essa mudança é a mobilização de arquitetos para territórios desassistidos. Há cidades e regiões inteiras onde sequer há um profissional atuando. Um esforço político sério deve permitir a interiorização de profissionais, incentivando a criação de soluções que priorizem o baixo impacto ambiental e a alta capacidade de transformação social.

Urge também reformular o currículo das escolas de arquitetura. Devemos integrar o foco regionalizado que prepare os arquitetos para os desafios locais, desmistificando que a única linguagem certa é a gramática globalizada que muitas vezes ignora as especificidades do território brasileiro. Trata-se de uma educação que valorize o contexto, o lugar e a realidade concreta de cada comunidade.

Mobilização e Impacto Político

A mobilização para interiorizar a arquitetura pode e deve operar em escalas comunitárias e globais. Redes com movimentos sociais, universidades e lideranças locais devem ser construídas para fortalecer as propostas e ampliar a capacidade de intervenção.

Plataformas digitais também tem um papel fundamental nesse processo. Ajudam a conectar ideias, expondo projetos de sucesso e promovendo o diálogo entre atores diversos. Exemplos concretos de transformação territorial sustentável precisam ser divulgados e trabalhados como modelos a serem replicados e transformados em políticas públicas.

Interiorizar a arquitetura é, antes de tudo, um ato político. É reivindicar a profissão como uma ferramenta de justiça social e ambiental. É garantir que os povos historicamente silenciados tenham voz, que suas demandas sejam ouvidas, e que as soluções não lhes sejam impostas, mas construídas coletivamente. Sabemos que a arquitetura sempre foi uma ferramenta de legitimidade do Poder, o que devemos nos propor agora é: Que poder queremos legitimar e que povo gostaríamos de empoderar?

Este é um desafio e uma oportunidade viável para o renascimento da arquitetura contemporânea no Brasil. Não podemos nos limitar a projetar a centralidade do país. A profissão está diante de um ponto de inflexão, que a escolha seja clara: reconstruir a arquitetura a partir da periferia, do interior, com força de quem acredita na transformação coletiva. 

Quanto ao poder público, pode criar linhas de fomento e recurso para regiões pobres possam ser atendidas. Se isso nos soa algo inovador e talvez interessante de aplicar, o que digo é: basicamente este é o princípio pensado a décadas pelos ativistas da Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social. E suas ações diretas, soam quase quixotescas nestes muitos Brasis existentes que negligenciam a maior parte da população pobre. Tudo que precisamos é implementar o recurso, massificar a política e usar os bons exemplos como instrumentos de melhoria das políticas.

casas ribeirinhas – Tarsila do Amaral

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Um dia do Arquiteto

Esta semana celebramos o Dia do Arquiteto e Urbanista no Brasil. Uma profissão curiosa e pitoresca. Parece-me um ofício tão essencial à sociedade e, ao mesmo tempo, tão supérfluo. Multidisciplinar, multi-escala, mas, convenhamos, nunca esqueçamos: é um ofício, um trabalho.

A carreira do arquiteto é vendida com um ar de vislumbre exclusivo. Não sei se chegamos a ser capitalistas. Tenho minhas dúvidas. Creio que somos aristocratas. As boas relações, o prazer do afago vaidoso, os elogios sinceros ou não, as capas de revista e vernissages parecem mais valiosos do que fechar o mês sem sufoco. A verdade nua e crua é: somos apenas proletários com bom gosto para cortinas e para boletos atrasados.

A arquitetura é essa jovem senhora que ainda mora na última mansão de um bairro que já foi chique. Ela observa a rua com relutância, escondida atrás de cortinas que não troca desde o enxoval de casamento. Do lado de fora, a vida acontece: o pau quebra, o churrasco estala, toca Naldo nas caixinhas JBL. Ela insiste no Chanel nº 5 comprado nos anos 80. Finge desgosto, mas dá pra ver o pé batendo discretamente ao som de “Amor de Chocolate”.

Ainda vivi um tempo em que as escolas de arquitetura recebiam grandes nomes como Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha e Zaha Hadid, gente que inspirava mais pelo gesto do que pelo marketing. Hoje, porém, a moda é influencer ensinando como ganhar milhões e lançando livros de autoajuda. Nada contra, afinal, nem eu tenho uma grande obra para vos apresentar. Enquanto isso, a profissão enfrenta recessão: evasão crescente, salários em queda e prestígio diminuindo. Sei que pareço um velho ranzinza, mas, no meu tempo, isso não era mato. Era paisagem.

Agora, na Delfim Moreira, vi varandas “orgânicas” e jogos de luzes de um edifício milionário tentando roubar o protagonismo da própria orla do Rio. Se me pagarem 38 milhões, talvez eu aceite morar lá. Mas, sinceramente, prefiro uma casinha de meia água com quintal e gramado na Praia Seca.

Minha irmã, formada em TI ou algo do tipo, me deu uma Caran D’Ache. Só mesmo alguém da tecnologia para bancar isso. Qualquer capitalista sabe que salário de arquiteto não banca essa lapiseira. E um bom comunista diria que é só parte do fetiche do imperialismo. Já o grafite? Compro na Shopee. Sei que é como ter uma Ferrari e instalar um kit-gás, mas esta é minha vida.

Enquanto discutimos formas orgânicas e conceitos abstratos no nosso baile da Ilha Fiscal, o povo mete a mão na massa e constrói a casinha pequenina que, cá entre nós, é a que eu gosto. “Ah, Rodrigo, não desvalorize tanto o seu saber!” Não o faço. Amo o saber e pratico o ofício. Mas aprendi com o velho Niemeyer que “o mais importante não é a arquitetura, mas a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar.”

Feliz Dia do Arquiteto e Urbanista, ainda que atrasado!

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O Jeito Carioca e a Romantização da Precariedade

Espaços Culturais: Entre o Improviso e a Segurança

Nada justifica o falecimento da servidora Virgínia Gazola da Petrobrás acidentada no Armazém do Campo, no Rio de Janeiro. Infelizmente, não se trata de um evento trágico singular, mas de um reflexo de uma cultura arraigada que alimenta um marketing da identidade carioca, no qual o “jeito carioca de ser” de ser descontraído e improvisado é romantizado a ponto de encobrir graves negligências.

Espaços famosos da noite carioca, ocupados por bares, eventos culturais e áreas de lazer de rua frequentemente carecem de um mínimo de infraestrutura que garanta qualidade e segurança aos seus usuários. Muitos desses locais, mesmo com rotatividade suficiente para investir em melhorias, apoio e articulação política permanecem inertes. Vemos que, sustentabilidade financeira não se traduz, necessariamente, em responsabilidade.

Antes de avançarmos na crítica, é importante problematizar a própria imagem que vendemos do carioca. Essa imagem descontraída e improvisada foi historicamente capturada e moldada como parte de um projeto maior de controle simbólico, que remonta às décadas de 1920. O Rio de Janeiro é vendido como o cartão-postal do Brasil, mas a identidade de seu povo é frequentemente enquadrada em estereótipos que obscurecem a diversidade e a complexidade local.

Esse estereótipo não é inofensivo. Ele invalida práticas e comportamentos que fogem ao padrão romantizado, perpetuando a ideia de que o caos e o desleixo são parte da identidade carioca, parte da malandragem. Entendam! Uma coisa é, nascermos pobres, sem acesso a nada, precisarmos improvisar para solucionar problemas de vida cotidiana, outra coisa é o mercado cultural criar, conscientemente, simulacros deste modo improvisado de viver para vender a imagem de o Rio Cool. Na prática, o simulacro se reflete na aceitação tácita de condições precárias em espaços públicos e privados. Vendemos um certo desconforto e desorganização como elementos de autenticidade. Assim, somos “legais” à medida em que nossa experiência urbana reflita este estereótipo.

O acidente ocorrido no Armazém do Campo poderia, sim, ter sido evitado. Esse episódio expõe uma contradição dolorosa: triste que um espaço gerido por um movimento social de luta tenha vacilado com isso. Se o mundo que acreditamos é o melhor, temos a obrigação de, tanto nas lutas quanto na nossa micro escala de alcance sermos reflexo deste mundo, em todos os sentidos. Um espaço gerido por um movimento social de luta, que acredita em um mundo melhor, falhou em refletir esses ideais no cuidado e segurança oferecidos. Me assusta pensar que este mesmo espaço, ainda que sem alvará, tenha sido considerado Patrimônio Imaterial da Cidade, o que denota que o espaço não estava tão invisível ao poder público. Esse é um alerta ético.

Aqui entra também a relevância do conhecimento técnico. Arquitetos, engenheiros e técnicos possuem o ferramental necessário para pensar, projetar e construir espaços mais seguros, interessantes e funcionais, especialmente em contextos culturais e urbanos. Negligenciar isso, para além de irresponsável, é uma forma de desprezo pelos saberes profissionais que podem salvar vidas. Este alerta não cabe somente à casa em questão ou aos movimentos, mas a todo o circuito cultural do Rio, e incluo aqui os inúmeros empresários da economia cultural, de turismo e eventos.

Infelizmente, o desleixo não é exceção, mas padrão. Há no Rio uma infinidade de espaços culturais, bares e áreas de lazer que operam à beira da precariedade, oferecendo condições propícias às mais terríveis tragédias. Como exemplo, lembro-me de um dos banheiros de botequim mais bem cuidados que já encontrei, na Rua Paranhos, em Olaria. Na prática, um botequim de bairro suburbano, periférico, no pé do Complexo do Alemão, sem atrativos turísticos para participar do circuito hype do Rio. Paradoxalmente, aquele banheiro seria considerado luxuoso em comparação com muitos espaços badalados da Lapa ou outros polos da noite carioca.

Para enfrentar esse cenário, é necessário promover uma mudança de paradigma que integre políticas públicas, responsabilidade empresarial e educação técnica. Isso inclui a implementação rigorosa de normas de segurança em espaços culturais e comerciais, acompanhada de fiscalização efetiva para coibir negligências.  Também é fundamental oferecer programas de capacitação voltados para pequenos empresários, destacando que investir em segurança não é apenas uma obrigação, mas um diferencial competitivo. Além disso, criar linhas de crédito ou incentivos fiscais para estabelecimentos que realizem melhorias estruturais e de preservação e restauração de patrimônio arquitetônico pode estimular a adoção de boas práticas. 

Por fim, é essencial integrar (e respeitar) o saber técnico dos arquitetos, engenheiros e técnicos às discussões públicas sobre segurança e planejamento, garantindo soluções acessíveis, criativas e eficazes. Algo que com o tempo foi sendo perdido ou ocupado por outras forças econômicas que atuam na cidade. Avanços como os do Corredor Cultural parecem ter se estagnado diante da precariedade ou falta de política firme de preservação e restauração. E aqui, temos um compromisso necessário de ser assumido pela prefeitura atual do Rio, maior beneficiária e fomentadora da narrativa do jeito carioca de ser como identidade para atrair turismo e outras atividades econômicas.

Acidentes como o que vitimou a servidora são evitáveis. O primeiro passo é desconstruir a romantização da precariedade, do caos e do improviso, reconhecendo que, acima de tudo, o cuidado com o bem estar do cidadão é parte  fundamental de qualquer identidade cultural que se pretenda digna. O segundo ´passo é respeitar as condições técnicas mínimas da arquitetura e engenharia nos quesitos: segurança, conforto, ergonomia, entre outros.

Há um equívoco, quem acredita que este tipo de prática sugere uma certa gourmetização (a gentrificação dos espaços de cultura), como se isso afastasse o povo. Primeiro, a maior parte do povo sequer consegue chegar nos principais pólos centrais de noitada do Rio de Janeiro pois o metrô fecha cedo e muitos ônibus da zona norte, oeste e baixada param de circular. Segundo, muitos destes lugares, apesar de ter pouco cuidado na sua arquitetura e engenharia, já são gentrificados, com preços caríssimos para o que oferecem a seu público. O que estes empreendimentos fazem, é aplicar maximização do lucro a partir da redução dos custos de investimento, justificando isso na cultura do lugar: “este é o espírito do meu bar”.

Para ilustrar esta postagem, que é dura de escrever, optei por usar uma antiga foto de Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Marçal caminhando. Lembro-me de uma frase atribuída a Paulo da Portela que talvez fosse uma das mais replicadas por minha família e muita gente que conheço na vida: “Posso estar sem um nada no bolso, mas a elegância e a postura eu não perco“.  Este estereótipo romantizado do carioca ser autentico por um desleixo fantasiado de improviso não reflete a maior parte da população dessa cidade. E ainda que refletisse, nada justificaria a negligencia técnico-científica de todas as forças envolvidas na boa conservação dos espaços culturais da cidade.

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Arquitetura e Bioeconomia: Caminhos para um Brasil Sustentável

Proponho uma leitura possível de Brasil que integre três conceitos interessantes para projetarmos novos tempos, na verdade dois conceitos e o meu ofício: bioeconomia, biossegurança e arquitetura. Embora esta construção exija uma base de pesquisa acadêmica sólida para um aprofundamento efetivo, pretendo humildemente oferecer uma abordagem que funcione como ponto de partida para reflexões e ações. Neste texto, tento conectar esses conceitos para pensarmos em um desenvolvimento sustentável capaz de unir a alta tecnologia e a industrialização necessária com a preservação ambiental e inclusão socioeconômica, em um país periférico e vulnerável como o Brasil.

O Brasil, com sua biodiversidade e populações vulneráveis ao lado de atividades industriais, precisa se apropriar dos conceitos de bioeconomia. Este é um ponto crítico, pois ainda não há um marco regulatório para a bioeconomia, e estamos lidando com um campo repleto de violentas disputas, que frequentemente vitimizam os povos mais vulneráveis, povos estes que deveriam ocupar o protagonismo das políticas nacionais de manejo sustentável. Assim, é crucial instrumentalizar juridicamente o país para que os conhecimentos locais sejam integrados aos processos industriais sem exploração cultural e econômica de povos vulneráveis, possibilitando colaboração para todos.

A bioeconomia surge como um modelo potencial para unir tecnologia, sustentabilidade e uso racional dos recursos biológicos, apontando para um desenvolvimento mais sustentável. Políticas públicas e linhas de crédito específicas podem fornecer suporte essencial a essas populações, promovendo estratégias de desenvolvimento que conectem alta tecnologia e economias locais sem comprometer a autonomia das comunidades.

No contexto brasileiro, setores industriais como o farmacêutico, o petrolífero e o alimentício poderiam atuar em sinergia com economias populares, valorizando saberes tradicionais de comunidades indígenas e ribeirinhas. Contudo, implementar essa visão encontra desafios práticos e requer soluções que viabilizem essa interação de forma justa.

Alcançar uma industrialização avançada e sustentável depende de alinhar o desenvolvimento tecnológico aos princípios da bioeconomia, inclusive para atrair investimentos. Comunidades indígenas e ribeirinhas podem oferecer conhecimentos valiosos às indústrias farmacêuticas e alimentícias, desde que seja garantido seu protagonismo e seguridade de direitos na gestão do patrimônio genético e dos saberes tradicionais, criando um ciclo de respeito às práticas culturais e ao território.

A pandemia de covid 19 nos ensinou sobre outro saber fundamental contemporâneo. A biossegurança envolve ações e métodos de contenção de riscos biológicos, como barreiras físicas e medidas operacionais para evitar a liberação de agentes prejudiciais ao ambiente e à saúde pública. Embora esse conceito seja aplicado sobretudo em indústrias e laboratórios estratégicos, ele pode se expandir para o urbanismo, ajudando a tratar das fronteiras entre o urbano e o rural, o construído e o natural. Há potencial para desenvolver uma mentalidade projetual que centralize a saúde pública e coletiva nas decisões de planejamento territorial e arquitetônico.

O Brasil possui um potencial estratégico em bioeconomia, mas esse potencial exige investimentos estruturais de grande escala. Por meio de um planejamento urbano bioeconômico, cidades brasileiras podem avançar no uso sustentável dos territórios, preservando biomas e gerando renda local, evitando a expansão urbana em áreas preservadas e espraiamento desenfreado. Espaços urbanos com jardins comunitários e agricultura urbana fortalecem a coesão social e a segurança alimentar, assim como o uso concomitante de parte do sistema industrial que permite a massificação da produção girar em favor de produções de escala menor. E o desenvolvimento arquitetônico sustentável pode promover inclusão e mitigar os efeitos massivos das mudanças climáticas.

A estruturação desse futuro bioeconômico requer políticas públicas consistentes. Incentivos, linhas de crédito e centros de pesquisa são fundamentais para conectar o conhecimento científico aos saberes tradicionais, racionalizar os riscos das ações nocivas à natureza por parte da industrialização e fomentar no seio da sociedade o valor agregado em torno de uma vida mais verde. Fortalecer a engenharia nacional para garantir a infraestrutura tão sonhada do país, as redes educacionais e as redes de solidariedade é vital dentro deste projeto.

Integrar biossegurança, bioeconomia e arquitetura representa uma transformação estrutural profunda. É um projeto de longo prazo que depende de políticas sólidas e da colaboração entre setores diversos, incluindo e relacionando comunidades e indústrias. Com sua biodiversidade e riqueza cultural, o Brasil possui uma vantagem única para desenvolver modelos que possam servir de referência global. Essa é uma oportunidade que exige planejamento, mas que pode fundamentar um futuro sustentável e inclusivo.

Construir um Brasil que valorize inovação, preservação ambiental e justiça social depende de abordagens colaborativas que promovam uma economia inclusiva e responsável. O valor da bioeconomia está em disputa no mundo, e é imprescindível que os povos mais vulneráveis estejam organizados e constituam força política para disputar os marcos regulatórios e implementar sistemas de segurança jurídica que defendam a biodiversidade. O papel do arquiteto, nesse contexto, pode ser o de apoiar a criação de valores e relações espaciais que defendam solos protegidos, nascentes, terras indígenas demarcadas, reflorestamento, soluções urbanas e tecnológicas de baixa poluição. Para que essa transição verde ocorra, o papel da arquitetura e do urbanismo pode ser crucial, pois traduz em materialidade espacial as demandas e fomento das práticas de bioeconomia.

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10 de outubro – Saude mental, uma luta coletiva!

A cada vez que um morador de rua me para, eu pergunto o seu nome. É uma ação simples, mas poderosa. Um gesto que reconhece no outro uma humanidade que a sociedade muitas vezes ignora. Para o morador, ouvir seu nome é um sinal de pertencimento, de que ele ainda é visto e ouvido. Essa troca pode ser tão significativa quanto o dinheiro, às vezes até mais. E ali, no meio da rua, um pedaço de vida é compartilhado. Quem não gosta de um bom papo furado? Todos gostamos. E essa é uma verdade que esquecemos: somos feitos de encontros e histórias, uma mistura do singular com o coletivo.

Que este Dia Mundial da Saúde Mental -10 de outubro – seja um dia de enfrentamento! Precisamos romper com a visão ultrapassada de que saúde mental é apenas uma questão individual. Somos seres coletivos, conectados ao tecido social que nos envolve. Nossa saúde mental reflete, em grande parte, a qualidade desse tecido.

Imagine um jovem crescendo em uma casa sem janelas, sem saneamento básico, cercado por esgoto a céu aberto. Todos os dias, ele enfrenta a violência urbana, o medo constante, a falta de oportunidades. Esse jovem terá uma estrutura psíquica mais fragilizada em comparação com outro que cresce em um bairro com lazer, segurança e conforto. A desigualdade que permeia as ruas e os lares também afeta a psique.

Estudos da OMS e dados do PNUD mostram que os problemas de saúde mental afetam desproporcionalmente as populações de baixa renda, especialmente em países em desenvolvimento. Depressão, ansiedade e dependência química são comuns em contextos de pobreza, onde o acesso ao tratamento é escasso. Quem vive à margem está mais vulnerável à violência, à instabilidade social e à falta de assistência. Além disso, os serviços de saúde mental, quando existem, são frequentemente subfinanciados, perpetuando o ciclo de exclusão. Ciclo este que é global e estrutural!

O Índice de Pobreza Multidimensional de 2023 revela que mais de 1,1 bilhão de pessoas vivem em pobreza extrema, enfrentando privações em áreas fundamentais como saúde, educação e moradia. Esse cenário reflete a desigualdade socioeconômica que alimenta as disparidades de saúde. O pior paradoxo é que, mesmo quando o serviço de saúde mental está disponível, o estigma cultural em torno dos tratamentos impede muitos de buscar ajuda.

A saúde mental deve ser vista em sua totalidade. Ela é geográfica e relacional, conectada ao entorno do indivíduo. Assim, torna-se essencial construir políticas públicas que abordem a saúde mental de forma integrada e sistêmica. Precisamos consolidar  estratégias que considerem o cidadão como parte de um contexto maior, no qual as desigualdades sociais desempenham um papel central em sua psique.

Neste 10 de outubro, não discutamos apenas o tratamento clínico! Reforcemos a importância de intervenções socioeconômicas como parte dos processos de cura. Tratar a mente é também tratar o ambiente, a pobreza, a educação e garantir a proteção social. Arquitetos e urbanistas têm um papel importante nesta batalha: construir espaços que proporcionem bem-estar. Uma cidade que adoece seus habitantes nunca será uma cidade interessante e viva.

Que neste dia, a saúde mental seja assumida como um direito de todos e, para garantir esse direito, precisamos combater as raízes da desigualdade que deixam tantos para trás.

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Quem Vigia a Cidade? Os olhos verdes dos Totens de Segurança no Rio.

Esta semana, deparei-me com um novo elemento curioso na paisagem urbana. Pelo que observei, ele já está consolidado há algum tempo em certos pontos da cidade: totens espalhados por vias importantes de diversos bairros, construídos em material metálico, com uma luz verde que remete ao visual de “Matrix”, decorados com símbolos criptografados e a mensagem: “Esta rua é protegida pela Gabriel.”

Sem muito alarde, o Rio de Janeiro recebeu um novo tipo de controle social — desta vez, tecnológico e digno das literaturas de Orwell, Asimov, Neumeier e Miner, ou até mesmo das irmãs Wachowski. A tecnologia em si, assim como sua implementação na cidade, não é uma novidade. Ela me remete à transformação de um conceito comunitário estudado por Jane Jacobs, o dos “olhos da cidade”, em capital e negócio.

Não entrarei aqui no debate sobre a privatização total do controle da violência no Rio, tema que se manifesta em exemplos como o domínio de territórios por forças paramilitares diversas. O foco, neste caso, é o fim da urbanidade e a terceirização dos olhos das ruas. Modelos tradicionais de bairro, que sempre foram vendidos pela ideia de encontros, de relações diretas com o espaço público, com o diferente e o inesperado, perderam a disputa subjetiva. A “condominialização” da vida venceu, e isso nos diz muito sobre como a cidade pode ser completamente terceirizada.

A vida condominial transfere responsabilidades significativas do Estado para grupos privados. Vias públicas inteiras passam a ser monitoradas por sistemas variados: síndicos, associações de moradores, lideranças locais, empresas de segurança, entre outros. A vigilância por câmeras, que o próprio Estado já promoveu com iniciativas como o COR (Centro de Operações Rio), agora divide espaço com empresas como a Gabriel.

Um aspecto intrigante da câmera é sua estética própria, claramente bem estudada, que vai das cores às mensagens e aos símbolos, sua cor verde, seus signos criptografados no totem e até mesmo seu nome próprio masculino sendo tratado pelo gênero feminino. Esses elementos constroem uma “persona” e uma mensagem, como nos ensinaram os grandes pensadores da ficção científica e os grandes religiosos do mundo. À primeira vista, pode parecer o mesmo modelo de negócio do COR, mas o universo simbólico em torno da Gabriel aponta para outra direção. A câmera quer ser vista, decifrada e, acima de tudo, quer nos vigiar 24 horas por dia.

Ironicamente, num mundo onde o direito de ir e vir e a defesa da vida privada são tratados quase como mantras por aqueles que defendem esse modelo de segurança, essas empresas têm o poder de transformar nosso cotidiano em um verdadeiro “Big Brother”, usando a segurança como justificativa. Outra ironia: os mesmos defensores dessas câmeras nas ruas muitas vezes se opõem ao uso delas para monitorar operações policiais.

Curiosamente, a presença da Gabriel não parece ter tido um impacto significativo na redução da criminalidade ou na sensação de segurança entre a população, assim como o COR tampouco teve. No entanto, essas câmeras foram fundamentais para registrar casos de abuso de poder policial e racismo, como o que ocorreu com os jovens negros, filhos de diplomatas, em Ipanema.

O povo, em geral, parece indiferente à presença vigilante passiva desses totens — soldados eletrônicos privados que tudo veem — assim como são com relação às câmeras do COR. Quanto a nós, é preciso compreender um ponto crucial: nenhuma tecnologia aplicada está isenta das escolhas humanas. E é nisso que devemos nos concentrar ao lidar com as “Gabriels” e CORs da vida. Vale lembrar que, quando certas forças de poder na cidade quiseram executar Marielle Franco, algumas câmeras do COR simplesmente fecharam os seus olhos.

Este é o ponto, o problema não está nas tecnologias por si mesmas, mas sim na nossa relação com elas. Este talvez tenha sido uma das lições mais importantes que Asimov nos deixou. Portanto, fica o recado a todos esses olhos que nos vigiam: estou ligado no movimento.

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