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O Sequestro de Maduro e o Retorno do Quintal

O ano começa cinematográfico: Nicolás Maduro sequestrado por forças dos EUA. Numa crua ambiguidade conceitual, Washington chama de “operação de aplicação da lei”, enquanto Trump fala em administrar a Venezuela até uma transição. A lógica é de exceção e retomada do controle do quintal: a potência veste farda de polícia e de tutela, reorganiza o tabuleiro e debocha do direito internacional. Não nos enganemos, o direito só vale até a linha do interesse. A democracia representativa reaparece como mito pacificador: acalma consciências, enquanto convive com o submundo da política crua dos impérios.

No subsolo econômico, a Venezuela é petróleo e infraestrutura em ruínas. A Casa Branca acena a investimentos de empresas “interessadas” para “reconstruir” o setor. Enquanto isso, o povo venezuelano sente a vida no preço. A geopolítica  de Trump tem estilo de capitão de obra emergencial: chega de solavanco, troca o comando do canteiro e abre concorrência pelos contratos.

E Putin, deixou Maduro isolado? Moscou condena, mas evita personalizar; chegou a alertar seus cidadãos a não viajarem ao país. É o pragmatismo frio, comum a todos os líderes aqui citados, mas na Rússia ele parece método nacional: no inverno da geopolítica, aliados são ativos, não parentes. Maduro era um aliado simbólico no quintal americano; a prioridade russa segue sendo a Ucrânia, e o episódio vira laboratório caro.

Trump, num primeiro momento, reage com choque à alegação de que a Ucrânia teria tentado atingir uma residência de Putin e entra no diálogo. Depois, recua: diz não acreditar que Kiev tenha mirado a residência. O padrão que confunde ideólogos é menos lealdade e mais transação comercial: cúpulas, negociação e garantias para Rússia e Ucrânia. Zelensky pede garantias longas porque conhece o preço de promessas vagas do amigo norte-americano; Putin testa limites; Trump tenta produzir uma saída negociada na reorganização dos blocos de influência.

A China entra nisso como em quase tudo: sem muito espetáculo. Para ela, Venezuela parece ser menos aliança ideológica e mais energia, dívida e posição estratégica. Condena a violação de soberania porque o precedente lhe interessa, inclusive no léxico sobre Taiwan, mas joga o pragmatismo: negociar com quem controlar o canteiro amanhã para preservar petróleo, contratos e recebíveis.

E o chavismo: cai junto? Sequestrar um líder não desmonta o ecossistema, e nem parece ser esse o objetivo. Delcy Rodríguez como interina sugere continuidade ainda que com possível disputa interna, não colapso automático. A base burocrático-militar pode soar fragilizada ou desleal pela facilidade e velocidade com o qual o presidente da nação foi raptado. Assim, parece muito aberto, o chavismo pode rachar; mas pode também se fortalecer na defesa da soberania diante da invasão do inimigo comum.

Aqui faço parêntese e saio da arquibancada acrítica da vida: nenhuma das lideranças citadas está pensando primeiro no povo pobre. Não é essa a pauta. Maduro, que também debocha do direito internacional, sai de cena justamente quando a Venezuela ensaiava uma melhora insípida e desigual: riqueza circulando em bolsões dolarizados, enquanto o país segue com salário pulverizado, serviço público em ruína, pobreza massiva e migração como destino. O país parece preso entre limites internos do chavismo e do Estado rentista e a pressão geopolítica das sanções, que estrangulam receita, crédito e a operação petroleira.

Os erros estruturais são conhecidos: incapacidade de focar e diversificar os caminhos de produção de riqueza, aprofundamento do rentismo; câmbio prolongado se transformando em máquina de arbítrio e corrupção; Estado aparelhado por amiguismo. Um projeto político que finda (querendo ou não) por misturar austeridade e welfarismo: benefícios pontuais como sustentação política enquanto a austeridade recai sobre salário derretido, investimento público e capacidade técnica estatal. O caminho misto do Chavismo mantém as elites, organizadas em duas redes sobrepostas: empresarial tradicional e burocrata-militar, que disputam o próprio Estado como “meio de produção” decisivo para manutenção de seus interesses corporativos, enquanto o povo fica ao relento da própria sorte.

O Brasil, vizinho estrutural da Venezuela e fronteira ativa, corretamente condena os bombardeios e o sequestro do então presidente Maduro enquanto tenta manter canal com Caracas, sem abrir mão de diálogo com os EUA e da postura de mediador de conflitos.

Os riscos principais, entre muitos, cito três:

  • humanitário-fronteiriço: pressão migratória e acolhimento dos irmãos latinos diante do aumento da instabilidade,
  • geopolítico-comercial: preservar canais com Washington sem aceitar o precedente arbitrário como padrão e
  • político-interno: nos prendermos em caricaturas de “defender ditadura” x “entreguismo yankee” em um ano eleitoral.

A verdade do mundo é velha: a riqueza é produzida coletivamente e privatizada pelos que têm poder para fazer isso. E aqui a esquerda falhou de um jeito especifico, foi elegante e engenhosa em distribuir renda, mas tímida em reorganizar os caminhos da produção e universalizar a riqueza. Como diria minha avó, perdeu o fio da meada. Enfraqueceu-se ao não fazer os enfrentamentos estruturantes da sociedade. Agora, diante da austeridade e do colapso de expectativas, parte da esquerda latino-americana se refugiou na liturgia militante: slogan, panfleto, guerra imagética, e manutenção do poder pelo poder, deixando o campo livre para forças que capturam a indignação popular ou a domesticam com retórica e medo.

Lembro-me de uma conversa com um venezuelano que era repositor de mercado em Buenos Aires, um dos dez venezuelanos que conheci na vida. Embora sofresse preconceito, tivesse um emprego pobre, morasse em uma periferia de Buenos Aires, estava se sentindo melhor ali. Sua fuga não fora ideológica, apenas material, uma frase me dele marcou, era algo como: “Chaves é um Bolsonaro de bandeira trocada”. Com todos que conversei aprendi o quão complexo é o problema do país deles, e que nós, brasileiros não sabemos xongas do que acontece na América Latina.

Mediante isso, uma coisa é certa: responsabilidade não se fabrica por intervenção unilateral, narrativa panfletária ou verticalização burocrática; o precedente piora o mundo. A crítica ao Trump é simples: não é santificar o Chavismo-Madurismo, é não normalizar a soberania como detalhe e a instabilidade como padrão político. Amanhã a exceção escolherá outro alvo, e nunca há motivo nobre, e o alvo, direto ou indireto será a vida do pobre. No fim, todos tratam “democracia” como gramática útil para legitimar violência, negociação, força e propriedade.

Se a esquerda latino-americana quiser virar o jogo, precisa parar de tratar produção como palavra inimiga e empreendedorismo como culpa, mérito como crime, entre muitas outras pautas contemporâneas. É preciso começar a falar de produção popular organizada, com regra, técnica e escala, sem precarizar a vida.

Diversificar não é palavra solta, é criar milhares de pequenas indústrias do cotidiano: alimento, reforma, saneamento, manutenção urbana, reciclagem, energia solar de bairro, logística leve, carpintaria, metal, costura, software simples, conectadas por cooperativas, consórcios comunitários e redes multi-escalares de serviços. O motor não precisa ser só o Estado, embora ele deva ter participação ativa: pode ser fundo rotativo de bairro (crédito barato gerido localmente e alimentado por imposto sobre grandes fortunas), compras ancoradas por médias e grandes empresas via metas de consumo local e cadeias curtas, cooperativas de plataformas (o app pertencendo a quem trabalha, não a um rentista), e direitos para o trabalhador por conta própria que se enquadre em microempreendedor individual (bolsa auxilio, previdência, seguro, descanso, proteção à doença), pra que autonomia não vire abandono.

Substituir a disputa etérea e moral por uma arquitetura de vida: desenho institucional simples, replicável, que faça o pobre produzir com dignidade, e não apenas sobreviver no intervalo entre um benefício e outro. É recolocar o fio da meada na agulha. Sem isso, a exceção seguirá escolhendo seus alvos, e, como sempre, o alvo final será a vida do pobre, enquanto os bilionários aproveitam o mundo como parque de diversões.

Desenho de autoria pessoal: viagem a Buenos Aires em 2019: Roda de conversa – Venezuelanos terminando seu dia de trabalho enquanto muitos da cidade estavam começando o dia de trabalho.
os temas: América Latina, Chaves, Bolsonaro, Conca jogava muita bola.
— em Caballito.
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Praça Onze Maravilha: entre o fetiche e a captura

Dia da Consciência Negra. No palco de um evento tradicional do Estácio, a prefeitura escolheu um estranho roteiro simbólico: usar uma celebração da memória negra para lançar mais uma operação urbana. Batizada de “Praça Onze Maravilha”. O nome tenta acenar para a história; o conteúdo, porém, repete a velha fórmula da cidade-negócio.

Enquanto Porto Maravilha ainda patina com edifícios vazios, terrenos cercados e pouca vida cotidiana real, a prefeitura apresenta mais um experimento com o mesmo DNA: criar valor construtivo para operações imobiliárias, embrulhado em discurso de “revitalização” e “cultura”. A lógica é conhecida desde o Estatuto da Cidade: produz-se solo criado, vende-se potencial construtivo, atrai-se capital financeiro, promete-se urbanidade, mas esta nunca vem. Na prática, entrega-se um pacote de adensamento, edifícios inexpressivos e usos sazonais, desconectados da vida de quem sustenta aquele território, outrora esquecido, no dia a dia.

É importante lembrar onde estamos pisando. A área da antiga Praça Onze, berço do samba, território de negros, pobres, ciganos, imigrantes, já foi estraçalhada várias vezes em nome da “modernização” global do Rio. A Avenida Presidente Vargas demoliu casas e modos de vida inteiros. O viaduto 31 de Março aprofundou o rasgo social e urbano. O que antes era território de compartilhamento, festa, trabalho e moradia virou corredor de passagem rápida, cheio de vazios e cicatrizes. Agora, o projeto chega mais sofisticado: menos demolição direta, mais captura simbólica. Usa a cultura negra como cenário de fundo para abrir caminho a uma nova rodada de valorização fundiária voltada para os de cultura branca.

Dentro desse pacote, surgem dois equipamentos que, vistos isoladamente, me parecem potentes: a Biblioteca dos Saberes e o Centro Cultural Rio-Áfricas. São ideias que, em outros arranjos urbanísticos, podem fortalecer um verdadeiro direito à cidade, à memória e à produção de conhecimento a partir das periferias negras. Aqui, porém, surgem como âncoras de um tabuleiro imobiliário vazio de lógica inclusiva. Servem para dar verniz “afro” a um modelo que já conhecemos bem no Porto Maravilha: torres adensadas, arquiteturas genéricas, usos voltados para turismo, escritórios e moradia temporária, com pouco enraizamento comunitário. O projeto peca não apenas no processo econômico que o viabiliza, a própria lógica do projeto parece não compreender bem a dinâmica daquela região, sequer no seu apogeu funcional: o Carnaval.

À primeira vista, pode parecer que funciona. É uma região atravessada por megaeventos sazonais, shows, carnaval e desfiles na Sapucaí. O problema é justamente esse: a cidade-espetáculo encobre a cidade real da mesma forma que os camarotes não veem o que acontece embaixo do Balança mas não cai. A operação urbana não se pergunta o que acontece no Catumbi numa terça-feira chuvosa de março, quando não há bloco, não há show, não há turista, assim como o Viaduto 31 de Março também não perguntou. Não enfrenta as condições de moradia precária nos arredores, a informalidade do trabalho, o transporte caro e ineficiente, a dificuldade de acesso a serviços públicos básicos. Repete-se o que já aconteceu no Porto: milhões investidos no cenário, pouca transformação estrutural na vida de quem mora e trabalha por perto. E que loucura, com quilometros de praça criada ao longo do cais, resolvem inventar um parque em uma ilha artificial com uma entrada só. Saudades do velho Niemeyer que pensou ao menos que as estruturas do sambódromo abrigariam escolas públicas nos demais dias do ano.

A dinâmica social de formação do Rio segue exibindo suas feridas abertas. A cidade insiste em tratar seu espaço como ativo financeiro, não como infraestrutura de vida cidadã. Em vez de assumir a urbanidade: rua, praça, transporte, moradia digna, equipamentos públicos robustos como base concreta para reconstruir vínculos, a prefeitura aposta em mais uma operação que empilha metros quadrados vendáveis para uso de airbnb. A memória negra, a cultura popular e a história da Praça Onze aparecem como logomarca, não como sujeito político de decisão.

Criticar um projeto como o “Praça Onze Maravilha” não é ser contra cultura, nem contra novos equipamentos urbanos e arquitetonicos. É exigir que não se repita o ciclo em que a cidade negra é usada como palco, mas segue excluída da plateia e dos lucros. A Cury os lucros, aos povos negros a bala de fuzil, triste corolário desta cidade.

Pergunto-me honestamente: alguém debateu abertamente este projeto com os moradores da Rocinha, do Alemão, da Maré? descendentes diretos dos processos de exclusão e massacre desta cidade. Se a intenção fosse realmente construir um outro modelo, o ponto de partida seria ouvir e integrar quem já está ali e sua ancestralidade: blocos, terreiros, escolas de samba, moradores, trabalhadoras e trabalhadores que, há décadas, seguram o cotidiano que não sai na foto oficial.

Foi um evento bonito, fico grato pelo convite recebido, mas, em um evento onde a Arquitetura assumiu centralidade no debate de luta contra o massacre negro desde tempos escravagistas, é necessário que eu enquanto arquiteto tenha responsabilidade sobre o fazer e teça a crítica necessária para que o massacre não se repita no material e subjetivo. Ainda há tempo de fazer uma ação mais coerente e inclusiva, tendo como protagonista a necessidade real do nosso povo. Arquitetura e Urbanismo é escolha política, esta frase foi falada inclusive pelo vice-prefeito! E sobre isso complemento: escolha política têm cor, classe e território.

Tenhamos cuidado ou a Praça Onze seguirá como metáfora cruel: o lugar onde a cidade celebra a negritude no discurso e no fetiche, enquanto reorganiza o espaço para expulsá-la, mais uma vez, na prática material.

Masterplan da Praça Onze Maravilha

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Entre Alphavilles e Airbnbs: o que sobra para o planejamento urbano?

Ainda conseguimos falar de planejamento em um mundo de não-cidades? A cidade sempre foi o palco dos encontros. Criamos templos, ágoras, praças, passeios, cafés, incluo até os shoppings; formas concretas de organizar nossas demandas e afetos segundo os modelos sociais e econômicos de cada tempo. Mas na era da hiperinformação, a cidade perde essa função básica: reunir. Um clique no Teams dobra espaço-tempo e aproxima Dubai de São Paulo. O que parecia impossível ontem já virou banalidade hoje.

E nessa ausência de cidade, o capital encontrou a chave para um novo ordenamento. Os condomínios: autossuficientes, murados, higienizados por crédito, financiamento e controle digital. Até o porteiro já não precisa mais habitar o mesmo chão do morador: um algoritmo o substitui em uma central distante. O condomínio esvazia a função pública da cidade, como se o planejamento urbano não passasse agora de uma ficção burocrática. Planejar pra quê? Para gerar solo criado que logo será engolido e convertido em mais condomínio.

Essa é a lógica que se espalha pelo Brasil. Entre 2009 e 2015, foram R$ 788 bilhões em habitação financiada pelo FGTS, orçamento público ou capital privado, sem contrapartida equivalente em mobilidade, saneamento ou espaço público, como mostra Maricato. Um padrão se repete: enclaves isolados, que reforçam a segregação socioespacial e restringem o acesso comum. Milton Santos já advertia: o território, apropriado seletivamente pelo capital, torna-se um mecanismo de exclusão.

Os estudos de caso não deixam dúvidas. Em Sorocaba, comparações entre bairros convencionais e condomínios fechados revelam disparidades evidentes no acesso a áreas verdes e lazer. Em tantos municípios, a expansão se dá sobre vazios urbanos, sem qualquer integração com planos diretores ou a malha urbana tradicional das cidades. O projeto de cidade pode ficar até bonito no papel dos planos diretores, mas na prática ficam à margem da engrenagem financeira imobiliária que vende na planta, vende na obra, vende depois de pronto.

O entorno? Não importa. O bairro? Irrelevante. A autossuficiência condominial resolve. O que faltar, complementamos com um shopping. O quintal com galinha e horta virou memória quase esquecida. O alimento, que o pobre produzia em casa de quintal, pequenas roças e granjas, virou ativo do agronegócio, rodando nas engrenagens do sistema financeiro, lado a lado com o sistema imobiliário.

Planejamento urbano, então, passa a ser outra coisa. Não mais apenas a técnica de organizar ruas e bairros, mas um campo de disputa e resistência. Disputa contra a apropriação mercantil que privatiza o espaço urbano e ambiental resistência contra a uso técnico para justificar a exploração. Porque essa hegemonia do capital é excludente? a maioria da população não cabe nela, ainda que queira, não tem crédito, não tem renda e muitos que tem, não conseguem pagar anos a fio. Além disso, a maioria das cidades brasileiras é de médio ou pequeno porte, não há demanda real para esta prática. Condominializar não resolve, metropolizar não resolve, verticalizar não resolve.

Contemporaneamente temos dois macro padrões se espraiando muito rápido. Imóveis verticais feitos para uso de sistemas de moradia intermitente tipo airbnb, e a alphavillização das cidades médias e pequenas. Em comum, ambos têm uma lógica genérica preparada para implementar-se em qualquer vazio urbano e uma lógica econômica que os permite funcionar desconectados da real demanda de habitação das sociedades. Aqui, reside o maior problema da relação entre o modelo, a cidade e o plano diretor.

O risco deste modelo de operar o espaço é criarmos imóveis para poucos e esquecer que a vida acontece fora dos muros. A cidade continua, com ou sem eles. E o planejamento, se ainda tem sentido, é o de devolver a cidade ao comum: reconectar, democratizar, criar frestas contra a homogeneização genérica. Mas como recuperar a importância e força do Planejamento Urbano e Territorial,? É preciso assumirmos que uma sociedade complexa também exigirá de nós, um olhar mais sofisticado e complexo na lida política, científica e técnica da produção deste instrumento.

Parque Alphaville em Campinas; imagem extraída de: https://neofeed.com.br/negocios/alphaville-do-patria-anuncia-aumento-de-capital-de-ate-r-12-bilhao/

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Arquitetura é um colo de avó: pequenas reflexões para a prática nacional

A primeira lembrança que me atravessa quando se fala em interiores não é um catálogo de decoração, mas a casa da minha avó. Ali, a vida tinha escala de 1×1: o corpo inteiro cabia entre o bordado da capinha do gás, a máquina de costura que se transformava em carro de fórmula 1, o quintal que era ao mesmo tempo o mundo inteiro e  cantinho de acolhimento. É dessa escala íntima, olho no olho, que eu via nascer a arquitetura. A arquitetura é um colo de avó, um bolo de laranja quentinho na mesa, um sol que entra na fresta da janela.

No Brasil, a profissão foi arrastada para um dilema: somos vistos ora como luxo e supérfluo, ora como engrenagem de projetos estatais grandiosos e inacabados. No meio, fica o vazio: a vida cotidiana do povo.

Essa fratura não é apenas cultural; ela é estrutural, econômica. Em poucas décadas, deixamos de ocupar um lugar estratégico dentro do projeto nacional de desenvolvimento e passamos a ser percebidos como caros e substituíveis. A armadilha, a meu ver se aprofundou quando a profissão centralizou-se na lógica do luxo como um caminho único. E isso não é necessariamente uma crítica implacável à arquitetura de luxo, que tem seu espaço de direito na sociedade atual. 

O luxo funciona como dispositivo de status e exclusividade: molda o gosto, define o que é belo e desejável, mas apenas para uma fração ínfima da sociedade. A classe média, que em países industrializados sustenta tanto o consumo quanto a cultura material da sociedade, no Brasil nunca se consolidou plenamente. E os pobres, que são maioria, só nos enxergam quando o Estado entra em seus territórios com grandes obras, remoções ou empreendimentos de impacto praticamente autoritário. Fora disso, a figura do arquiteto desaparece de seu horizonte de vida, diferente do médico por exemplo.

Essa ausência tem consequências devastadoras. Quando o cotidiano das famílias não reconhece o arquiteto como parte de sua economia; alguém que resolve problemas espaciais urgentes, que age na escala doméstica, comunitária, de vizinhança, a profissão se isola. E quando uma categoria se isola, perde relevância social e política. É sintomático que, enquanto o país vivia a explosão de consumo de carros e imóveis nos anos 2000, embalado pela ascensão de milhões ao consumo básico, nós não conseguimos nos inserir como serviço acessível para essa massa. Continuamos restritos a dois pólos já citados: o do luxo exclusivo e o do planejamento estatal de megaprojetos. Ambos distantes da vida real.

É nesse ponto que precisamos recuperar uma lição das escalas. Há a escala da família: o sofá da avó, o banheiro que falta em tantas casas brasileiras, o quartinho inacabado do filho o espaço íntimo que define dignidade. Há a escala da comunidade: a rua onde se joga bola, a praça onde se organiza uma festa, a rede de solidariedade que sustenta bairros inteiros. E há a escala da multidão e do estatal: os fluxos da cidade, os planos que estruturam mobilidade, habitação e saúde coletiva. Claro, não são escalas fechadas, longe de mim querer atravessar a cidade por apenas três recortes possíveis, apenas simplifico para fins de dar algum inicio de pensamento sobre o tema. 

O arquiteto, ou o estudante de arquitetura precisa ser capaz de transitar entre essas dimensões, sem perder de vista que elas se conectam como sistema, como ensinavam os pensadores que viam o espaço não apenas como território físico, mas como campo de cidadania, de luta, de afetos.

Se a economia brasileira gira em torno de estratégias de mega exclusão e certa inclusão controlada para evitar grandes turbas disruptivas, a arquitetura não pode se reduzir ser apenas vitrine da exclusividade. A profissão precisa se reorganizar a partir da vida real, da urgência, daquele que não pode esperar seis meses por um projeto para então começar uma obra. Nosso trabalho tem de ser mais ágil, mais enraizado, mais próximo do cotidiano da maioria. Não se trata de reduzir a qualidade ou o rigor técnico, mas de reinventar formas de inserção econômica laboral: organizações coletivas, solidárias, mutirões, cooperativismos, abertas a novas economias de escala que vão do mutirão à assistência técnica, do microempreendimento comunitário às tecnologias sociais, da carreira de estado à arquitetura liberal de atendimento popular.

Sem uma estratégia econômica que inclua de fato o povo, não haverá campo de trabalho sustentável para a arquitetura. E sem arquitetos presentes no cotidiano popular, não haverá cidade justa. Entre o sofá da avó e os grandes planos da nação, existe uma vasta zona de vida que precisa ser ocupada, praticamente um universo de cores que se assemelha a um quadro de Pollock. É ali que a arquitetura pode recuperar sua relevância. Não como luxo, não como burocracia estatal distante, mas como prática social que desenha futuro a partir do olho no olho, da escala humana, daquilo que funda a dignidade de viver.

Para tal, temos uma missão: compreender, técnica e cientificamente, onde estamos e para onde podemos ir. Isso começa pelo gesto simples de olhar ao redor: o bairro, a rua, a casa do vizinho que precisa de um banheiro digno. Jovens arquitetos podem se organizar em coletivos, experimentar formatos de cooperativas, oferecer serviços acessíveis de assistência técnica, participar de mutirões de construção, articular-se com movimentos sociais e comunidades. Outros podem se dedicar ao setor público, disputando políticas urbanas e habitacionais de forma crítica. Há também espaço para a inovação: explorar tecnologias sociais, novos materiais e soluções sustentáveis de baixo custo.

O ponto é não esperar pela grande encomenda ou pelo concurso distante; é começar nos interstícios, nos entremeios, nos lugares que parecem pequenos, mas que são o coração da vida real. É ali que a arquitetura renasce como prática social. Não precisamos reinventar tudo de uma vez, nem sermos reféns de ferramentas. Afinal não é a ferramenta que define o arquiteto, é o arquiteto que define a ferramenta que vai utilizar. Basta iniciar os processos, criar redes e caminhar juntos. A relevância virá quando conseguirmos estar presentes na escala da família, da comunidade e da multidão, com a coragem de projetar os afetos dos mais pobres. Ou estamos presentes na escala da vida real, ou seremos apenas designers do privilégio.

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O mundo precisa reaprender a dialogar

Vivemos tempos estranhos. Enquanto as redes sociais gritam, os mercados oscilam e as potências se encaram, parece faltar algo básico na política: a capacidade de ouvir, entender e negociar. A era Trump, com sua retórica agressiva e decisões impulsivas, expõe uma fragilidade maior; a de um mundo que paulatinamente tem perdido seus mecanismos de mediação.

A Europa, nesse cenário, parece ter ficado sem rumo. Diante das pressões americanas e do avanço econômico da China, suas reações foram, muitas vezes, descoordenadas e marcadas por políticas internas que mais enclausuram e desunem do que somam. O economista Yanis Varoufakis aponta isso com lucidez: a Europa está se tornando um apêndice hesitante de um império em declínio. E o pior é que faz isso sem um plano próprio, sem coragem de assumir um papel autônomo na discussão global.

Mas o que significaria, hoje, retomar um projeto coletivo? Talvez não seja tão complexo quanto parece. Não se trata de criar novas alianças para enfrentar inimigos, mas de reinventar os modos de convivência globais. Abandonar tarifas que não servem a ninguém. Investir conjuntamente em tecnologia e sustentabilidade. Fortalecer laços com países que também buscam um lugar mais justo na engrenagem global. E, acima de tudo, recuperar a capacidade da mediação e da negociação. Essa arte, que em tempos de polaridades exacerbadas e guerras, parece tão esquecida, de construir acordos a partir de interesses compartilhados.

Quando diferentes interesses são colocados à mesa, a mediação busca justamente aquilo que, à primeira vista, parece impossível: transformar conflito em oportunidade. Para isso, é preciso mais do que diplomacia formal. É necessário método, é isso que separa a mediação do romantismo. Reconhecer os próprios limites, abrir mão de posições rígidas e aceitar que o outro também tem razões legítimas. Essa é uma arte rara, especialmente em tempos de egos inflados, disputas sangrentas de poder e nacionalismos exacerbados.

Em vez de disputas baseadas em força ou prestígio, os acordos bem-sucedidos tendem a se apoiar em algo mais sutil: o reconhecimento de que há um ganho possível para todos, ainda que não seja o ganho pleno. Parcerias econômicas, intercâmbios tecnológicos, cooperação climática, tudo isso exige uma mudança de postura, em que algum grau de interesse comum se sobreponha à vaidade  da disputa distópica da geopolítica. A Europa, por exemplo, poderia negociar diretamente com a China em torno de tecnologias verdes, não como quem desafia os EUA, mas como quem constroi pontes a partir de necessidades mútuas.

Essas negociações não se constroem em conferências relâmpago, mas em processos contínuos de escuta e operação conjunta. Elas exigem paciência, linguagem precisa e disposição para lidar com desacordos sem transformar tudo em guerra. É aí que a mediação se revela mais do que uma técnica: torna-se um modo de estar no mundo. Um modo de afirmar que, apesar das diferenças, ainda podemos e devemos construir futuros compartilhados.

É possível imaginar um mundo menos polarizado, se houver disposição para cooperar em vez de competir o tempo todo. A mediação, quando levada a sério, não é fraqueza: é maturidade política. É reconhecer que ninguém sobrevive sozinho em tempos de transição climática, crise econômica e tensões geopolíticas. Para a Europa, o convite está feito: em vez de seguir reagindo, pode escolher atuar. Não com gritos, mas com inteligência.

Talvez o que esteja em jogo não seja apenas uma disputa entre potências, mas a chance real de redesenhar as bases do sistema. As teorias da complexidade nos mostram que sistemas vivos, inclusive os sociais e econômicos, não operam bem sob controle centralizado e previsões lineares. Eles evoluem a partir da interação de múltiplos agentes, da cooperação descentralizada e de adaptação constante. Nesse sentido, o futuro não precisa repetir os impérios do passado: pode emergir como uma constelação de economias interdependentes, plurais, distribuídas, sem centros fixos, sem moedas únicas que arrastem nações inteiras para ciclos de dependência.

Uma economia global pensada a partir dessa lógica complexa não precisaria se apoiar em um único lastro, como o dólar, nem aceitar como naturais as atuais hierarquias de valor e poder. Poderia, ao contrário, reconhecer a diversidade de soluções locais, fomentar moedas complementares, redes de trocas descentralizadas, circuitos cooperativos de produção e alianças tecnológicas orientadas pelo bem comum. Em vez de mercados auto-regulados à moda antiga, teríamos ecossistemas econômicos interligados por princípios de equidade, sustentabilidade e solidariedade. A mediação, nesse novo mundo, deixa de ser um mero instrumento de conciliação entre velhos blocos, para se tornar um modo de cultivar a inteligência coletiva capaz de sustentar essa ordem viva e interdependente.

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Terra Arrasada: o espólio imobiliário das guerras

As duas frentes de conflitos armados do nosso tempo: Rússia vs Ucrânia e Israel vs Palestina, partilham uma engrenagem comum: a guerra converte solo habitado em tábula rasa, criando a oportunidade perfeita para que o capital entre, mapeie, loteie e venda. A assimetria de força militar é flagrante, A capacidade de resistir ucraniana sempre parece apontar para um momento impossível de segurar o contra-ataque, enquanto Palestina e Israel já pode ser assumido como um caso de genocídio disfarçado de narrativa de autodefesa. Mas há outra assimetria em vigor, a do espólio de guerra. Esta é a que mais interessa aos investidores: quem controla a ruína controla também o redesenho urbano do território. Em ambos os casos, o campo de batalha é precursor do canteiro de obras — e, muitas vezes, da corretora de imóveis. 

Na Ucrânia, a recente ofensiva de drones que incendiou parte da frota estratégica russa mostrou que a tecnologia barata pode ferir um gigante, porém, isso não muda o desnível estrutural de poder nem evita que os escombros do combate virem um ativo financeiro. Já se calcula um plano de reconstrução de US$ 524 bilhões, acompanhado de um sistema de capital sedento por rentabilidade e de consultorias que apresentam Kiev como mercado dinâmico. Paralelamente, mantém-se o debate sobre abrir o mercado de terras a estrangeiros, enquanto moradores de cidades ocupadas precisam adotar passaportes russos para não perder a moradia. Enquanto a guerra devasta; o mercado imobiliário global agradece.

Em Gaza e na Cisjordânia, o roteiro é similar. A devastação de bairros inteiros alimenta projetos que sonham erguer um Balneário Camboriu do Oriente Médio ou um Dubai neofuturista: Gaza 2035, construído acima de um vazio demográfico, um apagamento histórico que se traduz em anúncios nas redes que vendem casas sobre ruínas vivas. O custo estimado para reconstruir Gaza passa de US$ 50 bilhões, cifra que desperta tanto fundos soberanos quanto incorporadoras privadas, todos prontos para transformar luto em metro quadrado. Aqui, a tábula rasa é literal: degola a história para assentar resorts, data-centers para os GAFAM e empreendimentos verdes.

O padrão é nítido: onde o míssil abre crateras, o mercado financeiro abre terrenos férteis de rendimento. A terra arrasada vira contabilidade no sistema, a dor e morte se converte em lucros e dividendos, e o mapa se refaz sem aqueles que habitavam a terra. 

Assim, são pelo menos dois os níveis do massacre: o primeiro a limpeza étnica, territorial, comunitária e o segundo a transformação do solo criado em dinheiro para o vencedor. Este é o mesmo enfrentamento que acontece em escala local no tocando de uma ocupação sem teto. A ruptura desta engrenagem é dificílima, exige a retomada dos territórios pelos povos sobreviventes, a retomada do direito à memória e o não apagamento de seus modos de vida. 

É possível construir um modelo de habitação ou de engenharia que não precise passar pelo instrumento da guerra? Sim, é totalmente possível, já temos inúmeros exemplos construídos e estudos de caso. A relação entre guerras e construção não é condicional. Não precisamos de guerras para construir, mas a guerra sempre gerará como espólio o território conquistado e o direito a reescrever a história e geografia de um povo inteiro.

foto Zain JAAFAR / AFP, publicado no O GLOBO.

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Governança em Metrópoles: O Rio de Janeiro e uma Transição Possível para Redes Distribuídas

Este texto propõe uma pequena análise ensaística ou de opinião sobre a crise institucional enfrentada por metrópoles contemporâneas, com especial atenção ao caso do Rio de Janeiro. A partir das discussões em aula realizada no curso A inteligência do espaço-tempo e o stress global e da teoria desenvolvida por Robin Dunbar que fora citada, sugere-se aqui uma pequena reflexão acerca dos limites cognitivos e organizacionais que moldam a governança urbana. Ainda que não se trate de um modelo absoluto, a teoria de Dunbar oferece um ponto de partida relevante para pensarmos os desafios atuais de gestão em cidades de grande porte.

Robin Dunbar, antropólogo britânico, propôs que existe um número máximo de relações sociais estáveis que um indivíduo é capaz de manter é de aproximadamente 150 pessoas. Conhecido como “número de Dunbar”, esse limite marca o ponto em que formas de organização social baseadas apenas em vínculos informais e confiança direta tornam-se inviáveis. A partir desse ponto, a complexidade social crescente demandaria a construção de instituições formais para manter a coesão e a funcionalidade do grupo. Mesmo que não tomemos esse número como exato, ele nos permite levantar uma questão fundamental: todo sistema organizacional possui um limiar a partir do qual precisa se tornar mais sofisticado para manter sua capacidade de governança.

Assim, podemos sugerir que tais instituições formais atualmente conhecidas por nós também enfrentam limites operacionais. Diversos estudiosos apontam que, em populações acima de 1 a 10 milhões de habitantes, os custos de manutenção institucional tendem a superar os benefícios, gerando ineficiência, sobrecarga burocrática e vulnerabilidades estruturais. Nesse ponto, os sistemas entram em risco de disfunção, colapso ou rupturas sistêmicas.

Essa problemática se torna plausível no contexto do Rio de Janeiro. Com uma região metropolitana que ultrapassa os 13 milhões de habitantes, a cidade opera em um grau de complexidade que supera a capacidade adaptativa de suas instituições centralizadas, construídas sob lógicas administrativas do século XX. A excessiva centralização do poder decisório, aliada à fragmentação territorial, à assimetria de informações e à lentidão das respostas institucionais, compromete a eficácia das políticas públicas e alimenta uma crise permanente de governança.

Nas periferias urbanas, como favelas e comunidades autogeridas, observa-se a formação de sistemas sociais quase autônomos, ou dominados por outras estruturas de poder, muitas vezes desconectados ou mesmo em confronto com os canais formais de poder consituído. Esses territórios, diante da ausência do Estado ou de sua atuação precária, tornam-se espaços disputados por múltiplos atores, legais ou não, que passam a exercer formas locais de governança mais ágeis e eficientes em seu escopo limitado. A perda gradual de controle institucional sobre o território fluminense reflete, assim, tanto a falência administrativa, como um descompasso entre o desenho das instituições e a complexidade do tecido social contemporâneo.

Redes distribuídas como alternativa estrutural

A ciência dos sistemas complexos nos oferece uma alternativa teórica e prática a esse modelo centralizado. Inspirada em estruturas biológicas e tecnológicas informacionais, ela propõe a reorganização da governança em redes distribuídas, sistemas com múltiplos centros de decisão, autônomos, interconectados por fluxos contínuos de informação e orientados por protocolos colaborativos.

Essa proposta poderia ser sintetizada em três linhas (a princípio):

  1. Descentralização inteligente: por meio da criação de núcleos decisórios com autonomia territorial, como subprefeituras, associações locais e redes comunitárias. Esses núcleos seriam capazes de deliberar sobre questões específicas de seu território, comunicando suas decisões ao sistema mais amplo, sem a necessidade de submissão hierárquica. A descentralização, neste modelo, não implicaria a atual fragmentação vigente, mas uma reconfiguração organizativa a partir das redes.
  2. Inteligência coletiva: com o uso de plataformas digitais participativas para elaboração, monitoramento e fiscalização de políticas públicas. Esses espaços virtuais podem funcionar como canais de escuta contínua e construção colaborativa, onde a população contribui de maneira orgânica e descentralizada. A tecnologia atual já nos permite sistematizar essas contribuições de forma eficiente, acelerando os processos pré-deliberativos e fortalecendo a legitimidade popular das decisões.
  3. Adaptação em tempo real: a partir da incorporação de dados urbanos, sensores, algoritmos e inteligência artificial, é possível monitorar dinâmicas territoriais e redistribuir recursos públicos de forma responsiva e eficaz, acompanhando as variações reais da demanda nos diferentes bairros e regiões da metrópole. Um exemplo simples: uma mesma linha de ônibus poderia traçar uma rota diferente em determinados períodos como: dia e madrugada, em função do levantamento de demanda.

No caso do Rio de Janeiro, a adoção de um modelo de rede distribuída implicaria na reconversão de suas instituições executivas: elas deixariam de ser instâncias de comando centralizado tradicionais e passariam a funcionar como plataformas de articulação entre diferentes territórios. A administração pública atuaria como orquestradora de uma malha de redes locais, reconhecendo, fortalecendo e conectando as capacidades já existentes nas bases comunitárias. Iniciativas que hoje são tratadas como exceções ou soluções paliativas ou vozes retificadoras das políticas pensadas pelos poderes constituídos, como associações de moradores, mutirões urbanos e coletivos culturais, passariam a integrar a estrutura legítima de governança metropolitana como verdadeiras construtoras das políticas estruturantes da cidade.

O Rio de Janeiro encontra-se em um ponto crítico de inflexão. A insistência em modelos centralizados diante da complexidade crescente da metrópole não apenas limita a eficácia administrativa, como também representa uma ameaça à própria coesão urbana, cada vez mais frágil e tensionada pelos inúmeros poderes paralelos que conformam nosso território. A transição para uma governança distribuída, orientada pelos princípios da ciência dos sistemas complexos pode ser uma boa alternativa de saída. Ela oferece uma oportunidade para ressignificar o papel do Estado, potencializar o protagonismo cidadão e construir uma cidade mais adaptativa e democrática.

Pollock
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Arquitetura e Urbanismo, filosofia de vida, literatura

Notre-Dame: o tempo, a revolução e o modismo

Pensamentos da leitura de Notre Dame de Paris.

Victor Hugo, em Notre Dame de Paris, apresenta uma reflexão original ao identificar três lesões que marcam a arquitetura: o tempo, a revolução e o modismo, ironicamente considerando a última a mais agressiva. Em sua visão, a arquitetura medieval não é apenas um vestígio do passado, mas um símbolo vivo da identidade cultural. Ele denuncia a efemeridade dos modismos arquitetônicos e critica a destruição do patrimônio histórico em nome da modernização.

Notre Dame é lida por nós como resistência da história francesa, um monumento de continuidade. O autor preserva a memória da catedral e levanta uma reflexão sobre o impacto da ação humana no curso da história e na formação das sociedades futuras. Ele nos convida a perceber o tempo de maneira cíclica, onde a narrativa do romance, embora situada no século XV, carrega a marca da Revolução de 1830. A cidade de Paris, aos olhos de Victor Hugo, é um organismo vivo e em constante transformação.

A catedral não é apenas um cenário, mas um personagem ativo na história. A Paris de Victor Hugo se veste de memória e transitoriedade, construída a partir da vivência das pessoas que a habitaram. O autor descreve Notre Dame com uma devoção quase mística:

Victor Hugo vê na arquitetura gótica uma expressão da arte coletiva do povo, diz ele:

Diferente do renascimento e do neoclassicismo, o gótico surge em sua obra como uma manifestação periférica, uma estética de resistência contra os estilos elitistas e dominantes do seu tempo. O gótico, segundo o autor, propõe uma transição contínua, onde o passado é constantemente ressignificado pelas transformações humanas e a arquitetura é a escritura social desta história, diz ele:

A relação de Victor Hugo com Notre-Dame é profundamente afetiva e simbólica. Ele a vê como um marco da identidade francesa, um testemunho do gênio coletivo e da história de seu povo. Sua defesa contra os demolidores é também uma luta perene e atemporal contra o esquecimento e a padronização impostas pela modernidade. Ele parece lamentar que a cidade medieval possuísse uma unidade estética singular, enquanto a modernização fragmenta Paris em estilos desconectados. Esse olhar sobre o patrimônio também carrega uma crítica à política de apagamento que permite a destruição de edifícios históricos sob o pretexto do progresso.

Assim, em Notre Dame de Paris, Victor Hugo não descreve a arquitetura apenas como um traço físico da cidade, mas como um reflexo das transformações sociais e culturais. O desaparecimento de elementos arquitetônicos, como a escadaria que foi demolida ou ornamentos destruídos durante revoluções, simboliza essa luta entre o passado e o presente. Ele faz referência ao impacto de mudanças tecnológicas, como a substituição do arco pleno pelo arco ogival, introduzido a partir das Cruzadas.

Além de símbolo arquitetônico, Notre-Dame é um espelho da exclusão social. Os personagens principais expressam essa marginalização. Quasímodo, o sineiro corcunda e surdo, cresce na solidão das pedras góticas e encontra na catedral seu único refúgio. Esmeralda, cigana, carrega em si a beleza e o exotismo que fascinam e amedrontam a sociedade, tornando-se vítima do preconceito e da intolerância. Claude Frollo, o arquidiácono, representa a degradação moral e o fanatismo religioso. Gringoire, o poeta errante, oscila entre a intelectualidade e a miséria, sem nunca pertencer a lugar algum.

A catedral, imponente, abriga e condena. Para Quasímodo, Notre-Dame é um útero de pedra, um lar e uma prisão, um monumento de sombra e silêncio. Esmeralda busca refúgio, mas descobre que nem mesmo as paredes sagradas podem salvá-la da violência do mundo exterior. A praça pública, por sua vez, encarna a brutalidade da multidão. É ali que Quasímodo é açoitado e ridicularizado, que Esmeralda é condenada e que a justiça se manifesta como espetáculo sangrento.

A cidade medieval de Paris, com suas ruas tortuosas e becos marginais, é um labirinto onde aqueles que não se encaixam são condenados à sombra. A arquitetura e a sociedade se entrelaçam: Notre-Dame, a catedral-santuário corrompida, a praça-palco de julgamentos, e a cidade-organismo que exclui os párias sociais.

Hoje, Notre-Dame é reverenciada mundialmente, um amor que Victor Hugo ajudou a ensinar capítulo por capítulo. Ao ressaltar a beleza de um mundo esquecido e marginalizado, ele nos convida a olhar Paris através dos olhos dos corcundas, ciganos e miseráveis, que, à sua maneira, também são belos. 

Notre-Dame: Um Dispositivo Para a Arquitetura

A leitura de Notre-Dame de Paris nos oferece uma boa lente crítica para enxergar a arquitetura como um espaço de disputa política e social. Victor Hugo denuncia a destruição da memória coletiva em nome do progresso imposto por elites dominantes, algo que ressoa fortemente com a luta contra a gentrificação e a especulação imobiliária nas periferias urbanas. 

A defesa do gótico como expressão de uma arte popular e coletiva sugere um modelo alternativo ao academicismo e às imposições estéticas da elite, abrindo caminho para uma arquitetura enraizada nas necessidades reais do povo, que seja capaz de enxergar a beleza na “feiúra”. Ao reivindicar a preservação de Notre-Dame como um ato de resistência e nos apresentar uma vida urbana a partir do povo marginalizado, podemos traçar um paralelo de vida e conceber no urbanismo popular, uma forma de contestação, buscando construir cidades mais inclusivas que respeitem a história e vivência dos seus habitantes. Como construir cidades que abracem nossos Quasimodos e Esmeraldas? Esse é um desafio.

Para o arquiteto periférico, a obra de Victor Hugo pode ser uma referência para pensar projetos que desafiem a lógica excludente do urbanismo burguês, promovendo espaços de pertencimento e dignidade para aqueles que historicamente são deixados à margem. A catedral gótica, com sua resistência ao tempo e à destruição, é um símbolo de luta: da mesma forma que Victor Hugo lutou pela preservação do patrimônio histórico, os arquitetos podem lutar pelo direito à cidade, no seu aspecto físico e subjetivo, lutar pelo direito à beleza, garantindo que a memória e o pertencimento comunitário dos territórios populares não sejam apagadas pelo avanço da especulação e das políticas de segregação urbana.

Esse texto não seria possível sem duas leituras fundamentais: a própria obra de Victor Hugo, leitura que ainda segue em curso e pode produzir mais texto em breve, e uma tese interessante intitulado “O tempo que devora: história e revolução em Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo” de autoria de Jefferson Cano (que pode ser lido aqui).

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A praça de Grève, reflexões urbanas com Victor Hugo


Pensamentos da leitura de Notre Dame de Paris.

Victor Hugo tem um papel imprescindível no debate sobre memória e espaço. Em Notre Dame de Paris, o autor realiza uma verdadeira ode ao caráter gótico da cidade, utilizando a narrativa para revelar as camadas de história presentes em seus espaços urbanos. Recentemente, durante uma viagem de ônibus rumo ao trabalho, me deparei com o capítulo “Praça de Grève” e fiquei tentado a refletir sobre como o urbanismo dialoga com a preservação dos vestígios históricos e a memória coletiva.

Parte 1: A Praça como Símbolo do Espaço Urbano Histórico


No capítulo, Victor Hugo vai além da mera descrição de um espaço público. Ele apresenta a Praça de Grève (atual Place de l’Hôtel de Ville), situada às margens do Rio Sena, como um cenário carregado de simbolismo e nostalgia. Historicamente palco de execuções e eventos marcantes, a praça surge como um verdadeiro repositório de histórias e emoções. Ao transitar entre o passado e o presente, o autor nos convida a enxergar cada elemento físico da cidade como parte de uma narrativa viva, na qual os conflitos sociais e as transformações históricas se entrelaçam.


A dualidade presente na narrativa, a sobreposição de um espaço marcado tanto por momentos de horror e violência quanto por mobilizações sociais, reforça a ideia de que praças e outros espaços urbanos são pontos de convergência para a transformação social.victor Hugo, ao descrever esses ambientes, enfatiza a necessidade de preservá-los e revitalizá-los, pois são verdadeiros símbolos da cultura e e da memória de uma cidade.


Parte 2: O Legado na Valorização do Patrimônio e do Gótico


A beleza da obra de Victor Hugo reside na sua contribuição para a conscientização sobre a preservação do patrimônio histórico. Em Notre Dame de Paris, Hugo celebra a arquitetura gótica como elemento central da identidade cultural de Paris. Ao descrever a catedral e seus arredores, o autor destaca a grandiosidade e a complexidade desse legado arquitetônico, transformando-o em personagem dentro da narrativa.


A estética gótica, com suas altas arcadas, vitrais coloridos e imponentes contrafortes, é apresentada como um verdadeiro repositório de memória e experiências coletivas. Essa valorização não só encantou gerações, mas também inspirou movimentos de restauração e conservação, como o realizado por Eugène Viollet-le-Duc na reabilitação de Notre Dame.


Hugo utiliza o cenário urbano para enfatizar a importância de preservar a história e os espaços que a abrigam. Ao resgatar elementos que definem a identidade de Paris – desde monumentos imponentes até praças repletas de eventos históricos – o autor propõe uma reflexão profunda sobre o valor intrínseco do patrimônio. Para o urbanismo contemporâneo, essa abordagem ressalta que cada espaço preservado contribui para a construção da memória coletiva e da identidade cultural de uma cidade.


A influência de Notre Dame de Paris ultrapassa os limites da literatura, impactando políticas de preservação e o olhar crítico sobre a arquitetura histórica. Victor Hugo não apenas enriqueceu a narrativa literária, mas também transformou a forma como entendemos e valorizamos os espaços urbanos, pavimentando o caminho para uma abordagem que integra análise crítica, preservação e valorização cultural.


Considerações Finais

Victor Hugo nos oferece uma visão multifacetada do espaço, apresentando-o como um elemento vivo e repleto de significados. Sua narrativa não só enriquece a literatura, mas também dialoga de forma profunda com os princípios do urbanismo e da preservação do patrimônio. Ao valorizar o gótico e cuidar da memória, Victor Hugo estabeleceu um precedente que continua a influenciar tanto as políticas urbanas quanto a percepção cultural dos espaços históricos. Ele revelou que a memória está em constante disputa, mostrando que cuidar do passado é essencial para a construção de um futuro que respeite a vida coletiva das cidades.


Como blog gosta de lista, segue uma pequena lista:


1 Amplie seu repertório cultural: Estude literatura, música e história para enriquecer sua visão e inspirar projetos com referências profundas e diversas.


2 Busque a interdisciplinaridade: Integre conceitos de diferentes áreas do conhecimento, assim como Victor Hugo uniu a arte literária à história e à cultura, para criar obras com significado e originalidade.


3 Valorize as narrativas históricas: Entenda que a história e a cultura, presentes em livros e músicas, oferecem lições valiosas para a construção de espaços que dialoguem com o passado e o presente.


4 Inspire-se em outras artes: Assim como a estética gótica foi resgatada por Victor Hugo, encontre na música, na literatura e em outras manifestações artísticas elementos que possam transformar e enriquecer seus projetos.


5 Crie pontes entre disciplinas: Use o conhecimento adquirido em diferentes frentes para desenvolver soluções inovadoras e contextualizadas, contribuindo para a preservação e valorização do patrimônio cultural urbano.

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Arquitetura e Urbanismo, cultura, política

Por que Estudar Teoria da Arquitetura e por que eu leio Tafuri?

É surpreendente a decisão de Trump, que ao assinar um decreto impôs uma estética clássica para as artes e os edifícios cívicos. Em vez de recorrer a análises já exploradas, como as apresentadas no Arquitetura da Destruição, de Peter Cohen, proponho uma leitura que nos convide a repensar aspectos naturalizados e que demandam uma abordagem crítica. Afinal, não há prática arquitetônica sem teoria.

A estética arquitetônica está intrinsecamente ligada às disputas sociais. Cada transição estilística, seja a tensão entre modernistas e neo-coloniais ou outras mudanças de paradigma, evidencia que a arquitetura nunca pode ser considerada isolada de seu contexto histórico. As obras construídas são, acima de tudo, produtos de ambientes históricos e culturais, marcados por contradições sociais, políticas e econômicas. Reduzir a arquitetura a uma mera linguagem estética ou funcional é ocultar a influência concreta dos interesses de poder que orientam diretrizes, planos, projetos e até a escolha dos materiais construtivos.

Nesse sentido, a arquitetura atua como uma escritura, um documento que registra as lutas e disputas de uma sociedade na produção do espaço. Manfredo Tafuri exemplifica essa ideia ao analisar o modernismo, destacando a contradição entre a utopia revolucionária que fundamentava a ideologia moderna e a prática concreta, que se dissolveu sob o sistema capitalista. Dessa forma, a promessa de uma arquitetura libertadora frequentemente se transforma em instrumento de dominação e controle.

Esse cenário revela, ainda, o “esquecimento” dos estudos sobre Tafuri, reflexo da disputa por novas formas de organizar a sociedade. Embora seu trabalho seja historicamente relevante e conceitualmente denso, seu rigor metodológico nem sempre se coaduna com o discurso acadêmico contemporâneo  que tende a valorizar produções mais acessíveis e diretamente aplicáveis à prática do design, em favor dos interesses do capital e do poder. Essa tendência gera debates estilísticos automáticos, tratando a arquitetura como uma arte desconectada de sua função social. Em tempos de automação, inteligência artificial, tecnologias digitais e globalização dos processos construtivos, a crítica torna-se indispensável. Hoje, obras pragmáticas e orientadas pelo mercado ilustram exatamente o que Tafuri apontava: a organização da arquitetura atua como um mecanismo de controle e representação do poder.

Ao construir mundos contrastantes, como os de Dubai e Orangi Town, esse modelo evidencia a dualidade entre a prática imediata e a reflexão crítica. Enquanto a linguagem dos projetos contemporâneos privilegia inovações rápidas, a análise dos fundamentos teóricos possibilita uma compreensão integral do processo de produção do espaço. Conhecer a teoria que molda nosso campo fortalece nossa consciência crítica e profissional, revelando o que realmente estamos produzindo enquanto trabalho.

Na escola modernista, e entre seus discípulos, inclusive esse que escreve, havia a aspiração de transformar a sociedade por meio da arquitetura. O objetivo era criar espaços que não apenas abrigassem, mas também emancipassem os indivíduos, promovendo uma profunda reconfiguração das relações sociais, políticas e econômicas. Acreditava-se que essa nova arquitetura poderia servir de alicerce para uma sociedade mais justa e igualitária, onde o ambiente construído expressasse a libertação humana. Crer no potencial transformador da arquitetura é, de fato, um ideal compartilhado.

Entretanto, na prática contemporânea, essa utopia é frequentemente apropriada e subvertida pelos próprios mecanismos do sistema. Projetos emblemáticos emergem sob o manto da inovação e modernidade, mas, na realidade, estão marcados pela lógica do consumo, do espetáculo e da exclusão. Arranha-céus  que deveriam simbolizar a grandeza arquitetônica acabam se transformando em complexos sistemas de engenharia e automação, onde elementos como elevadores, fluxos de circulação, condicionamento de ar e a separação entre o natural e o construído definem a estética, como exemplifica o Burj Khalifa. Dessa forma, o espaço destinado à realização de ideais emancipatórios torna-se um palco para a concentração de poder econômico e riqueza, reafirmando as estruturas de dominação.

Outra ilustração dessa tensão encontra-se nas iniciativas de “smart cities” e no conceito da “cidade dos 15 minutos”, amplamente debatidos em centros urbanos como Paris. Embora tais propostas prometam uma organização mais integrada e sustentável do espaço urbano, na prática, a ausência de políticas inclusivas faz com que seus benefícios se concentrem em áreas já privilegiadas, diluindo seu potencial revolucionário. O uso intensivo de tecnologias para monitoramento e gestão urbana revela um duplo caráter: a promessa de melhoria na qualidade de vida contrasta com o aumento da vigilância e do controle social. Em cidades como Rio e São Paulo, por exemplo, a persistência de altos índices de violência, frutos de décadas de desigualdade, descaso e falta de investimentos em educação, demonstra que sistemas de segurança privados, como as “câmeras da Gabriel” mencionadas neste texto aqui, não resolvem os problemas de fundo.

Enquanto, por um lado, pregávamos o sonho revolucionário da arquitetura, a proposta de Trump evoca o reacionarismo ao defender o retorno ao estilismo clássico, justamente questionado pelo modernismo. Esse retorno nos surpreende, pois, parafraseando Latour, nunca deixamos de ser modernos. Mas o que Trump pretende comunicar com esse aparato estético? Ao revisitar as Beaux-Arts, ele define um conceito próprio de beleza e de expressão cultural, afastando-se do capital contemporâneo e evocando um tempo que se perdeu. Ao apelar para um passado repleto de signos que persiste em nossas memórias por meio de contos e histórias  ele se vale de uma arquitetura que jamais foi concebida para solucionar os problemas fundamentais da população, como a reabilitação de bairros carentes ou a crise habitacional, questões centrais no pensamento moderno e revolucionário. Nosso estranhamento reside no fato de que o tempo evocado por Trump não se coaduna com nossa perspectiva contemporânea. O neoclássico que o inspira carrega um discurso e uma estética do século XVIII e anterior, símbolo de uma era marcada pelo Iluminismo e pelas revoluções francesa e americana, mas também uma era altamente escravagista e um sonho de passado utópico.

Dessa forma, somos convidados à reflexão. A abordagem teórica que vai além da mera descrição dos estilos e projetos procura revelar as condições socioeconômicas e políticas que moldaram cada momento histórico, exigindo uma análise criteriosa dos contextos de produção e das narrativas oficiais. Essa postura crítica nos instiga a questionar a eficácia e o impacto dos projetos arquitetônicos, bem como a própria essência da disciplina. Apesar do aparente desinteresse contemporâneo pelos estudos de Tafuri, possivelmente decorrente da ênfase em soluções tecnológicas e mercadológicas e da proliferação de novas abordagens teóricas alinhadas ao capitalismo global , sua obra continua a oferecer um olhar essencial para questionar os pressupostos que regem a produção do espaço.

Compreender os mecanismos que moldam o o meio ambiente construído fortalece nossa capacidade de atuar com menos ingenuidade e de reconhecer que a arquitetura não se resume ao “como” projetar, mas, sobretudo, ao “porquê” de projetar, estando imersa em complexas relações de poder, ideologia e história. O que Trump acaba por nos revelar é esse efeito: uma construção de linguagem de poder fundamentada na representação estética. Ao romper com a linguagem que naturalizamos, expõe nossa própria contradição. De certo modo, estamos todos nus enquanto representantes de uma arquitetura do poder em disputa.

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