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O mais velho

Férias, fui moleque de rua na Arealva. A rua de terra batida já me ensinava urbanismo: de um lado, casas com quintal; do outro, um sítio repleto de árvores das mais diversas espécies. Às três da tarde rolava a bola. Dois baixinhos eram nossos craques da rua: Marcinho e Luana. Às vezes, apostávamos um contra valendo dois litrão de coca.

Ali aprendi o que falei em 2015 – a várzea é uma célula-tronco do urbano – era na terra que a copa acontecia. Em uma das laterais havia um tronco que atuava de líbero para os dois times: bateu a bola nele, seguiu o jogo. Eu era zaga; a regra era clara: se a bola passar, a perna fica. No campo, eu (bom pereba) tinha duas missões: parar o adversário e entrar de voadora em quem batesse no Márcio ou Luana.

O juiz era o Mais Velho. Toda rua de subúrbio tem o Mais Velho. O Mais Velho é aquele cara que faz parte do bonde, mas não está na nossa faixa etária. Tem idade suficiente para ser respeitado como adulto, mas é jovem demais para ser da turma dos nossos pais. O Mais Velho tem um papel crucial na vida da molecada; ele é um modelo, é uma espécie de espelho futuro. Soa o apito, e ali, o Mais Velho nos ensinou um dos conceitos de Einstein: o tempo é relativo.

Nesse jogo, estávamos mal. Começamos perdendo e o relógio correndo. O Mais Velho, na sua função de juiz e com a legitimidade que a idade lhe dava, deixou o jogo seguir. Acho que foram os trinta minutos mais longos das nossas vidas. A tarde ia caindo e a bola rolava contra o relógio até que nossos craques desencantaram: um gol de placa atrás do outro e o jogo virou! Soa apito final. Troca de farpas e voadoras com o time adversário, pegamos o prêmio e fomos com o Mais Velho tomar os dois litrão de Coca pra comemorar.

Assim eram os dias de férias em Sepetiba, onde a rua de terra batida se transformava em terreno de aprendizados. Nós, nos aventurando em vários rolés, e o Mais Velho sempre por lá, como um guardião das nossas aventuras.

Nesses encantamentos que só o Brasil tem, sempre que via Romário ou Marta jogando, lembrava-me de Marcinho e Luana, da rua Arealva e dos meus dias de férias com a avó em Sepetiba. Fui privilegiado por jogar bola com eles.

caneta sobre papel: rua arealva, Sepetiba, pelos anos de 1992
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O seu lugar cura

A mente humana não é um sistema isolado; é uma parte indissociável de um vasto ecossistema social, ambiental e cultural. Neste ecossistema, cada indivíduo habita territórios existenciais únicos, ocupando lugares singulares, ainda que compartilhando um mesmo espaço. O ciclo é constante: assim como nossa mente é influenciada pelo ambiente, ela também o transforma, criando um dinamismo de mutabilidades incessantes.

Devemos conceber uma geo-psicologia. Na metrópole, a insalubridade, a violência e a desigualdade são experiências que geram estresses próprios, moldam nossa lida com o mundo. Porém, em um país onde aproximadamente 50 milhões de brasileiros vivem em áreas rurais e cidades com menos de 100 mil habitantes, onde uma parte significativa da economia gira em torno da agropecuária ou do agrobusiness, não é surpreendente uma contradição: a metrópole é a exceção.

Mesmo vivendo em cidades com elementos urbanos canônicos, se suas raízes são rurais, haverá uma força cultural que se aninha em certas odes de coesão comunitária. O sertanejo mostra isso: apesar de abordar temas universais como amor e nostalgia, que favorecem a regulação emocional, suas canções estão profundamente enraizadas na vida rural. Ela cria um território existencial que une a moradora de Duque de Caxias varrendo sua casa com o garoto da porteira sentado curtindo o seu radinho.

É fascinante quando o sonhador de Leonardo é aquele que, sem saber para onde vai, deixa a vida seguir o sol no horizonte da estrada, mantendo a esperança de que, num toque do destino, o brilho do olhar continuará aceso. É o jovem lavrador que vê na chance de montar um boi no festival de Barretos, o horizonte para mudar sua história. Na mesma idade, um menino joga sua pelada no campo do Martins em São João, sonhando com a Champion League, enquanto sua mãe ouve Eyshila fazendo o almoço.

A perspectiva dos territórios existenciais valoriza a diversidade das experiências humanas ao rejeitar a ideia de uma normalidade universal, um lugar certo. O espaço sim! Tem que garantir toda infra material para a dignidade humana e ambiental, ali, deixemos o povo construir o lugar que o povo quiser, sem medo de amar.

autoral: o passe, grafite no papel
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Amar a praia: uma lição do meu pai

Meu pai amava a praia de Sepetiba, enquanto eu a considerava sem graça. Preferia jogar bola no Recôncavo, andar de bicicleta com meus amigos, catar fruta no pé na Arealva, pular o rio, e soltar pipa.

Mas um dia, compreendi o amor de meu pai. Me dizia: “Não anda olhando para o chão, moleque, cabeça erguida”. E foi assim que diante da Baía de Sepetiba, levantei a cabeça e a paisagem renasceu. Ver a restinga da Marambaia ao fundo, riscando o horizonte, o pôr do sol, o barulho da marola e das aves, o aroma da maresia, nem lembrei do barro entre a areia e a água.

Nossa segunda praia era o Recreio, na época dos areais, acampando. Recreio é mar arredio, destes que querem ser livres, ou a gente respeita ou ele nos engole. Algumas vezes íamos às praias da Ilha do Governador. Mais velho, já arquiteto, aprendi a amar a Praia das Pedrinhas, mar de pescador, graças ao meu pai que lá atrás disse: “Olha para o horizonte”.

Privatizar praia é o sonho de quem para o 474 numa manhã de domingo e manda os garotos do Jacaré descerem; delírio que diz: “Nossa praia”. Praia é um ser livre, um ente de renovação. Quantos de nós não pulamos as ondas de um ano novo e renovamos nosso pacto com a vida? Aprisionar o mar em políticas privatistas é negar seu sentido libertário. O mar não cabe no bem privado, mal cabe no bem público. O mar é fluxo da vida, berço do imprevisível. Praia, pedacinho de terra que toca a imensidão das correntes, captamos seus valores e significados, a potência para além dos corpos.

Em um mundo que dá claros sinais de que nossa escolha limitante de transformar tudo em recurso cria danos irreversíveis, a lei da praia é fruto de uma visão estreita e obsoleta. Não enxerga a grandiosidade do mar, lança um olhar míope e mesquinho, que aprisiona a praia em cifras, reduzindo-a a um mero balanço financeiro para alguns poucos privilegiados, alheios à complexidade de vida que permeia nosso país.

foto autoral: povo na praia do Flamengo, reveillon
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Aprendendo a Ler o Mundo

Ler e escrever sempre foram partes inseparáveis da minha vida, uma insanidade que me acompanha desde antes mesmo de saber andar. Era como se eu tivesse nascido fazendo isso, confesso que nem lembro como aprendi. No entanto, foi aos 14 anos, em uma aula na ETEJK, que a professora Angela Renata me ensinou a ler jornais.

Angela Renata nos mostrou que cada jornal abre uma janela distinta sobre o dia, informando seus leitores sobre o que considera importante e relevante. Ela nos incentivava a, pelo menos uma vez por semana, ler três tipos diferentes de jornais. Escolhi algumas segundas-feiras, dia que ela sugeriu, e me dedicava à leitura de O Globo, Jornal do Brasil, Jornal do Comércio e O Povo. Afinal, quem nasce nos subúrbios precisa, ao menos, de um “cospe-sangue”.

Esses jornais me abriram os olhos para a diversidade de representações do mundo que coexistem dentro do mesmo mundo. Percebi que cada segmento da população tinha acesso a diferentes tipos de assuntos, moldando sua inserção e ação na vida. Economia, negócios e política eram mais proeminentes para a elite da cidade, enquanto futebol, assaltos e notícias de delegacias eram mais comuns nos jornais consumidos pelos mais pobres. A capa de jornal, exposta nas bancas, era como um meme, gerando um efeito manada no cotidiano. Escrever uma boa manchete é uma arte. Lembro-me de duas capas d’O Povo que ficaram gravadas na minha memória: a primeira, “MATOU A MÃE POR UM GUARANÁ”; a segunda, uma foto centralizada numa página vazia, mostrando apenas uma cabeça sem corpo. O POVO com sua pedagogia da violência nos ensinava a ter medo da vida, enquanto o jornal do comércio ensinava onde o rico deveria investir sua renda.

Hoje, os jornais impressos praticamente desapareceram, mas o ciclo complexo das informações e os parâmetros das janelas que querem nos mostrar continuam firmes. Ler o mundo é estar aberto a todas as janelas às quais temos acesso. Dos jornais, explorei a filosofia, os livros técnico-científicos, as críticas, e ao mesmo tempo, a oralidade dos pontos de ônibus, conversas de calçadas, quintais e praças. Hoje, meu hiperfoco volta à literatura, e aconselho: comecemos pelos clássicos.

autoral: grafite e caneta sobre papel
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Cidade: Unidade Estética e Desejo de Vida

Se você perguntar a 40 pensadores sobre o significado do termo cidade, provavelmente receberá 40 respostas diferentes. E essa pluralidade importa muito quando elucubramos sobre este espaço onde a vida de muitos de nós se desenrola. A cidade é algo tão complexo que escapa às definições.

Um recorte que gosto especialmente vem de Mumford: a cidade é “um símbolo estético de unidade coletiva”. Exploremos a estética a partir de Espinosa, não reduzindo-o a uma categoria puramente formal, mas refletindo nele como uma experiência subjetiva capaz de nos afetar, tornando-nos mais potentes e desejantes. Podemos entender a experiência estética como uma manifestação da nossa potência de existir, uma busca incessante por liberdade.

A vivência da cidade, com sua capacidade de promover dor ou prazer, nos potencializa a agir. Pense em um bairro aprazível, onde a comunidade, fortalecida pelo prazer e alegria de morar ali, se movimenta para melhorar o ambiente, impedindo ações outras contrárias aos interesses coletivos. Por outro lado, quando um local é constantemente marcado pelo medo e imersa na falta de potência vital, torna-se muito difícil a organização para a ação comum dos moradores em mobilizar uma vida diferente.

Existe uma vontade de existir que nos transcende, nos faz amar um ícone arquitetônico, uma pintura, uma música, ou outras expressões que parecem nos mover para o eterno. De certa forma, é como se a experiência estética nos permitisse escapar da morte, como uma pintura rupestre que nos conecta diretamente com a mensagem de um de nós que há muito se foi.

Construir a cidade como um símbolo estético da unidade coletiva nos obriga a pensar a cidade pelo desejo de vida, de estarmos vivos e ativos enquanto coletividade. Essa coletividade se torna capaz de fazer a melhor política, aquela que não precisa passar pelas estruturas de controle. E aqui temos um desafio: como abandonar a cidade construída pelo medo da morte e substituí-la por uma cidade que seja um desejo de vida? Suspeito que os melhores indícios estão nas conversas de rua, nos encontros de bar, nas feiras, no futebol, resumindo: nos encontros dos diferentes.

autoral: lapis e hidrocor
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No balanço do trem

No balanço do trem, vende água, vende biscoito, vende salame, vende queijo, vende sorvete, vende refri, vende cerveja, vende guaraná, vende fone, vende doce, vende bala, vende tudo. Vem de isopor, vem de break, vem de improviso, vem de pandeiro, vem de samba, vem de choro, vem de caixa de som. Vem devagar, chegando na estação, vem o trem.

No balanço do trem, a vida tem ritmo. Surfista da Zona Norte, moda dos anos 80, dropava no teto, entre a vida e a morte. Ferro, brita, rede contínua. Deodoro, Santa Cruz, Paracambi, Belford Roxo, Saracuruna, Vila Inhomirim, Guapimirim. De Japeri à Central, não há nada igual.

Vago, vagão, vagabundo, cuidado com o vão entre a porta e a plataforma. A sirene toca, o povo embarca, o pregador anuncia sua fala. Pede atenção, desculpa, senhores passageiros, por atrapalhar sua viagem. O camelô traz uma oportunidade única de ter algo supérfluo e provavelmente desnecessário. A viagem segue, a vida segue. Do lado de fora, mais um espírito da luz caído, olhando para o alto. Quanta arte se apaga com a queda do poeta. Caminha pelos trilhos, pula o muro, abre o buraco, passa por baixo. Jogo no Maracanã, jogo no Engenhão.

No reflexo, vejo uma paisagem de segredos esquecidos. Rostos se misturam com muros, casinhas, vazios, o aço desliza no espaço e no tempo. No ventre do trem, o humano é posto à prova; tem uma beleza e uma artimanha fugaz. Em cada curva a realidade se desdobra enquanto o trem avança pensativo, rumo à Central do Brasil.

Poucas obras são tão engenhosas e belas como a Central do Brasil: seu vão livre, seus relógios, a cara de um Brasil que um dia sonhou ser industrial e desenvolvido. Relógios que expõem o paradoxo do atraso, a escolha do abandono à própria sorte. Deixados ao relento, reinventamos a vida no interior do trem, porque somos carne de pescoço, carne que também está à venda dentro e fora dos vagões. “Eu morri e nem sei mesmo qual foi aquele mês.” Somos só gente simples, trabalhando de sol a sol, chegando na estação. Mais uma jornada, logo mais retorno.

autoral: caneta e lapis sobre papel: trem

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Da janela do ônibus

Pego o 350, do centro a irajá, no cair da noite, a viagem é mais vazia.

Das janelas do ônibus, a cidade passa como um filme em cores sépias, distorcido pelo embaçamento sujo dos vidros que balançam sem parar. Todo ônibus suburbano tem um ritmo percussivo de parafusos frouxos, vidros tremulando em ferro, portas rangendo. O ritmo é cortado por um grito: “Vai descer, piloto!”, substituindo o toque da campainha que não funciona. Do lado de fora, a vida passa. Benfica, Manguinhos, Bonsucesso, Olaria, Penha, Brás de Pina, Penha Circular, Vicente, Quitungo, Vila da Penha, a vida passa.

Garotos com suas caixas de som do tamanho de carrinhos de feira conversam, um senhor vende balas, bares abertos, igrejas cheias, jovens sem capacete em suas motos, corpos solitários, corpos conversativos, olhares perdidos. Se Wim Wenders fosse brasileiro, certamente Damiel e Cassiel experimentariam este pitoresco passeio.

Há uma angústia suave na viagem, cada passageiro singular com sua história, suas narrativas mentais, na expectativa ansiosa da chegada ao ponto onde vai descer. Cada rosto, uma história não contada, uma vida em suspense aos olhos de quem observa.

Quando sai da fábrica, o ônibus é apenas uma máquina, um símbolo da evolução capital, um marco de sucesso. Nas ruas, ganha nome, apelido.
Há um evento chamado 350 quando inúmeros corpos adentram ele para tentar chegar a seus destinos. Cada viagem é um teatro de vidas passando pelas janelas, cenas de um filme contínuo e inacabado, projetado nas paredes sujas do ônibus.

O bater das janelas no ritmo desordenado da vida urbana, a curva fechada e o banco solto são um lembrete da nossa fragilidade enquanto seres humanos. Seu centro de gravidade parece feito pra carregar batatas no lugar de gente, é esse o presente para o trabalhador, pros idosos, cada degrau é um Everest. A vida passa lá fora, mas dentro do 350 o tempo parece suspenso, ainda que estejamos em movimento.

Cada parada, um novo cenário, um novo ato. Chego ao destino final, não o do ônibus, mas o meu, avenida Brás de Pina, esquina com a São Félix. O 350 ainda tem mais um pequeno chão pra andar, nada que eu não faria andando.

autoral: passageiro no ônibus

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Sambas e milongas numa birosca da avenida Niévski

autoral: macunaíma e o homem do subterraneo conversando em um bar em Nievski

Em Buenos Aires, procurei uma milonga. Tentei encontrar um canto mais distante dos eixos turísticos possível e, assim, caí num “subúrbio” curioso. O som Era numa padaria (ou algo do tipo) onde, à noite, alguns músicos tocavam, quase como uma roda de amigos, uma JAM. Ali conheci muito da música argentina e ouvi uma hipótese genial.

Um músico virou-se e disse: “O samba e o tango são iguais.” Em espanto, esperei a continuidade, quando veio: “Ambos falamos das mi3rdas das nossas vidas, mas vocês fazem do jeito doido brasileiro, e nós com o Draaama argentino.”

Anos depois, lendo “Memórias do Subterrâneo” de Dostoiévski, lembrei-me dessa frase e uma loucura veio à mente. Numa birosca na Avenida Nievski, dessas que só têm um banheiro quebrado e vendem ovo rosa, sentam-se Macunaíma e um Anônimo saído do subterrâneo. Ao fundo um rádio toca Atahualpa Yupanqui, Nosso herói sem caráter diz: “Quem é você, compadre, que cara fechada é essa?”

“Sou um homem doente e desagradável. E você?” – responde o homem.

Com a inteligência perturbada, deu uma grande gargalhada. “Vim das terras quentes do Brasil, mas me conte, que diabos de doença é essa?”
Estranhando, o homem responde: “Não é uma doença do corpo, mas da alma. Não consegui chegar a nada. Quanto mais consciência eu tenho do belo e sublime, mais me afundo no lodo. Conheço-me a partir da degradação.”

Nosso herói sem caráter, pensativo: “Ai, que preguiça,” aconselha: “Olha, rapaz, lá na minha terra a gente cura disso com banho de rio e uma cachaça.”

autoral: milonga em Buenos Aires

“Mas isso não é uma fuga? Você não vê a miséria do mundo?” retruca o russo.

“Vejo sim, rapaiz, sou dela, mas prefiro rir e despreocupar. A vida tem surpresas, contradições.”

De fuga em fuga, Macunaíma roda o mundo em busca de aventuras. De fuga em fuga, o russo se aprofunda no subterrâneo, num desejo pungente de conhecer a si por sua própria degradação. O dia acaba, ambos desconfortáveis de estar ali. O homem volta para o subsolo, e Macunaíma vira constelação. “Não há nada melhor que a Avenida Nievski, pelo menos em Petersburgo.”

Em Buenos Aires, a milonga segue e realmente concordo: temos maneiras muito distintas de lidar com as nossas mi3rdas de vida.

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Centro do Rio: Livros e Sebos

Caminhar pelo centro do Rio é uma experiência singular e envolvente. Talvez a maior vocação do centro resida em tentar se parecer com o que não é, em ocultar-se sob véus de dissimulação. O Rio é como aquela pessoa que, sentindo-se feia, recorre a inúmeros artifícios e adornos. Alguma vez foi diferente? Não cultivo esperanças quanto a isso. A Rio-Paris de João Barreto, o João do Rio, revelava-se muito aquém da aposta de Pereira Passos.

Andar no Rio é isso: fazemo-nos flainar por entre ruas cujo tempo fica marcado nos casarões de uma cidade que quer parecer rica e se revela pobre. Amava caminhar por entre essas ruas, e muito o fazia enquanto depositava currículos. Via as vestes alinhadas de quem parava na Confeitaria Colombo para tomar um expresso com bolo, a face burguesa de quem almoçava na Leiteria Mineira, ali na Rua da Ajuda, e a pressa do corre-corre daqueles que viviam de montar computadores e lotavam os corredores das galerias do Edifício Central.

Meu acalanto vinha do adentrar sebos dos mais diversos. Não ligava para livrarias renomadas, exceto a Leonardo Da Vinci. Nos sebos há uma outra aura: livros bons são livros usados, muitas vezes há uma comunicação à parte, rasuras, notas de rodapé feitas à mão, dedicatórias que expõem amores ou amizades de outros tempos. Tive um professor que dizia: “Estudante de arquitetura tem que ter lido dez mil livros antes de se formar!” No mestrado, dizia o mesmo: “Mestrando tem que ter lido dez mil livros.” Nunca entendi bem a conta, talvez só bastasse ler na graduação.

Os sebos são um pequeno tesouro da nossa biblioteca de Babel. Da Belle Époque de João do Rio à Belle Époque do Méier, o aroma dos livros usados aprofunda a vida carioca. Talvez minha pequena esperança no centro do Rio esteja em caminhar a esmo e adentrar esses pequenos espaços, amontoados de um jeito fenomenológico, que apenas o proprietário sabe como nos guiar até o que procuramos. Pode ter certeza: sempre vamos encontrar o que procuramos, isso quando não é o próprio livro que nos encontra, quando estamos perdidos ali, algo muito comum nesses espaços místicos chamados sebos.

autoral – caneta esferográfica sobre papel: gato nos livros
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A Singularidade do Horizonte de eventos

O que faríamos diante do horizonte de eventos? Existe um limiar em cada travessia, um instante em que a fronteira entre o presente e o futuro se dissolve. Como habitar um espaço onde um mero fragmento de segundo pode significar o fim da história, enquanto simultaneamente a história se torna eterna? Há um término absoluto nesse horizonte ou seria o nascimento? E se aceitarmos que não há um verdadeiro início, o cenário se torna ainda mais perturbador.

Nesse canto onde a luz parece ausente, mas a eternidade se desdobra, algo profundo se mobiliza. Parece-nos incapaz, como se fossemos atingidos por um nocaute, testemunhando a vida passar diante dos nossos olhos. Décadas de existência se desenrolam em um piscar de olhos entre o golpe e a queda.

Sobre a morte, o luto é uma experiência alheia. Para nós, resta a singularidade, o instante em que estamos apenas com nós mesmos. Podemos criar mil analogias, mas talvez sejamos incapazes de capturar plenamente esse momento. O medo surge da falta de controle sobre os processos, muito mais do que do desfecho em si.

Acreditamos piamente que podemos controlar a vida, o cotidiano, os movimentos. Esquecemos que, além de nós, a existência é pura entropia. A incerteza, associada a uma variável aleatória, é o padrão mais comum, e para nós, o máximo que conseguimos é a suspeita de um possível resultado entre mil probabilidades. O universo é uma infinidade de mundos semelhantes ao nosso, dizia Giordano Bruno diante da Inquisição. O mais fascinante é que, mesmo que passem gerações sem um sinal claro disso, é possível que ele estivesse certo.

Ali, onde a arte se separa da ciência, a ciência da filosofia e todos esses domínios da religião, experimentamos a persuasão da luz e sombra barroca, o desejo de luz e ascensão aos céus das arquiteturas góticas, e o brilho de sermos seres capazes de amar e enfrentar os mais loucos mistérios. Alegra-me saber que, de tempos em tempos, alguém decide se desfazer e aceitar a entropia da vida, rompendo com a banalidade de si mesmo.

autoral: caneta esferográfica sobre papel

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