artigo, brasil, filosofia de vida, literatura

Memórias de Um Ano Novo no Quilombo da Fazenda

imagens da área de proteção ambiental

Texto organizado em quatro pequenos contos. Os contos expressam de forma lírica a experiencia pessoal de uma viagem de imersão comunitária no Quilombo da Fazenda. A viagem que se iniciou despretensiosa, trouxe a todos os que participaram um êxtase de transformação de vida. Dedico este texto também a todos que compartilharam esta mesma jornada. Seguem os contos:

Os Encantadores de Borboletas

A intuição é um sussurro, vento que antecede uma tempestade. Naquela semana entre Natal e Ano Novo, as almas tilintam, cada qual em busca de sua mudança particular. Na trilha onírica do rock n’ roll, abro meu Réveillon como quem não quer nada: não lanço expectativas, apenas rumo despretensiosamente ao bar, antes de partir para a viagem.

O bar de rock moderno é bacana: sem energias vacilantes, mas com o clássico tom de luz vermelho e preto, digno de um espírito errante. Um casal contagia. Ela, portando uma bela franja a la O’Riordan, era uma artista, um Jay DeFeo pintando sua arte nas peles. Ele, de portava no pescoço a face mística da lua, um alquimista da literatura. Havia uma energia beatnik, perdida desde as trilhas de 68, na visceralidade de Hendrix apaixonado por sua Strato.

Encantadores de borboletas, dançam com a vida, saboreiam a cerveja na efemeridade do instante. “Gostei de conversar contigo”, disse ele, genuinamente abraçando o mundo das alegrias, “Vou te dar um presente, quero que aceite”. Um pequeno cartão pousou na minha mão como pétala levada pela brisa. Nele, desenhado, uma borboleta azul, acompanhada da frase: “Seja a luz.” Por um instante, o trovão. O vento afasta o peso do universo. Naquele momento, senti o paladar do destino: vento e tempestade. Estava na encruzilhada de um tempo que gira e transforma. A metamorfose que Kafka amaria ter sido.

Eles dançavam, chamas ao sabor da brisa. No palco, Zé Ramalho, em ritmo rock. Nos sorrisos, a energia de tempestades e trovoadas; a alegria de estar ali.

Borboleta, senhora dos ventos, perdoai-me! Seguir o vento é difícil se você não conhece a dança das borboletas. Porque o vento dança em círculos: turbulências e brisas suaves. Não há linha reta, apenas giros, quedas voos e recomeços. Borboletas são tempestades em miniatura. Quem dança com borboletas “só quer girar, não quer cair.”

No tempo dos ventos, a viagem não teria volta. 2024 se vai, e 2025 nasce com os ecos de Kerouac: “Não havia para onde ir, a não ser para todos os lugares, então continue vagando sob as estrelas”.

Era o primeiro passo de uma jornada ainda sem nome. Mas essa já é outra história, embora seja a mesma.

autoria própria: casal que conheci no Rock n Roll.

O Abraço das Águas

O oceano toca o Brasil no abraço da floresta. Há uma textura que a cidade, em sua ânsia egoica, esqueceu de sentir. Num canto escondido da Mata Atlântica, o acolhimento se derrama em calmaria. Entre as árvores densas, a areia molhada surge como pele exposta, e suas águas rasas cochicham: aqui, não preciso ser revolto. Na superfície tranquila, há convite velado para profundidade. Mergulhamos onde o eterno se esconde.

No mar, o infinito se desenrola, leva consigo dores do corpo e murmúrios da alma. Ele guarda histórias de amantes, exílios, pescadores, caiçaras e quilombolas. Suas cores nos atravessam como o toque que desperta. De onde vinha a brisa? Ela envolvia a pele salgada enquanto saíamos das águas claras, abraçados pelo sol. O azul reluzente, reflexo do céu, carregava uma carta ao vento.

Adentramos as matas. Ela nos aguardava. Impulsiva, enérgica e forte. O sabor de sua água, tão doce quanto gelada. Energia indomada que assusta os incautos. Um deslize, e ela nos arrasta pelos veios da floresta, amante selvagem que não perdoa hesitação. Selvagem. Beijava a pele da floresta como quem deseja o laço do momento, pedindo perdão por sua fúria. Energia que desafia os que resistem.

Quanto pensávamos que o dia havia terminado, a Serra do Mar revelou seu véu úmido sobre nós. Tímida e introspectiva, a chuva logo floresceu. Levantou seu perfume de terra molhada, e sem escolha, nos envolveu por inteiro. Gota a gota, se fez corpo e presença, desaguando em nós até que não restasse nada além da exaustão e plenitude.Na gota que escorria por toda a pele, a reverência ao mistério, o azul de um voo que nos segue silencioso. Quem diria que a vida nos daria, em um único dia, três banhos de alma?

As águas que fluem pela floresta são floresta. Que beleza há no ócio sagrado, na integralidade entre o corpo e água. Em um mesmo dia, fomos oceano, cachoeira e tempestade. Os pés descalços sobre a areia e a mata, entre o sol e a sombra. Estamos vivos no fluir das águas. Somos água em seu fluxo incessante de calmaria e força, pulsante e rítmica. Nos fluxos que nos moldaram, a sensação persiste: o intenso instante em que o corpo se dissolve e o espírito se encontra inteiro.

Agora somos terra.

autoria própria: as águas

O Barro e o Tempo

Entre as trilhas da floresta, a terra nos banha em seu suor. Na umidade do chão, o tempo se faz barro, ventre que molda em nós a história de quem, com suor e fé, forjou sua liberdade. O passo do jongo, dança da vida, reverbera entre as árvores. Dos tambores, o som da resistência. Reza descalço no cruzeiro.

No barro, o calor das mãos e pés que o amassaram. Casas de pau a pique erguidas como testemunhas vivas, seus contornos trazem o aperto das mãos calejadas, o ritmo dos corpos que amam a terra. Entrelaçamos o bambu ao barro como o corpo ao universo. Tecemos a solidez com boniteza.

A terra é mãe, matriarca que acolhe quem ousa criar mundos novos. Macia e úmida, nos convida ao toque; seca e firme, pede força em cada pisada. Esculpe na carne, histórias de quem a percorre. Não há impérios que resistam ao seu sabor, nem sonhos que não floresçam de sua fertilidade. Raízes.

Nas margens, ergue-se o manguezal. Somos vida no limiar do submerso e do revelado. Você, mangue, tem cheiro de criação, sua lama, anagrama de alma, guarda o calor milenar da vida. O solo que amamenta, submerge nossos passos e os devolve renovados. Terra paciente, atravessa oceanos em silêncio, escrevendo sua história no mundo.

No fígado da mata densa habita o jatobá. Árvore monumental! Memorável e imponente, suas raízes seguram o mundo. De sua seiva vem o combustível, de sua força, o abrigo, de sua casca, a cura. Ele observa em silêncio, testemunha do caminhar humano e da dança da floresta. Suas raízes se fundem ao ocre da terra, enquanto sua copa dança com o vento azulado. É o aquilombamento vegetal, rede invisível que protege quem sabe amar a floresta.

O solo nos molda, tanto quanto o moldamos. O barro desliza pelos dedos, a lama gruda na pele, o pedrisco arranha, enquanto o vento azulado vagueia entre raízes e pés. Pererecas, aves e borboletas nos lembram: agora, somos terra. O tempo é areia, barro e raiz, são tempos. Memória não escrita que sustenta. Somos chamados a fincar raízes. Argila, poeira, ventre de criação. Caminhamos enquanto o jatobá nos observa, de sua copa acolhendo o céu azul.

autoria própria: terra, raízes, floresta

A Dança da Via-Láctea

Deitado na rede aprendi, em uma aula admirável, a escutar. Não é tão simples quanto nos parece. Não falo sobre narrativas, mas os lapsos, as dobras do inaudito, o silêncio denso cheio de signos. Papiros do miúdo da alma.

Caminhamos ao mar. Noite de Réveillon. O chão escuro sob os pés; o céu, vasto e vivo, nos alumiava. Eu, um citadino, reencontrei a Via-Láctea depois de décadas. “O céu é onde o tempo e o espaço se dissolvem”, dizia o piloto de guerra. Desinteressado por guerras, escutei o universo. Somos crianças livres desbravando o mundo.

No encontro do mar com o cosmos, o horizonte era indiscernível. Bioluminescência brindava meus passos, lampejos de canção muda. Poeira Cósmica. Planetas adornados. Um silêncio cheio. Respiro das almas brincantes. A brisa no rosto. A areia fria. O sussurrar das ondas. Nossos pés ouviram o calor do Cosmos com a Terra.

Quantas ondas pulamos? Sete ou oito? Nos importa mais a fé, a cada salto ela renasce. Corpo e poeira; Galáxia e alma. O universo transpira em uma gota d’água, nas mãos calejadas, o barro. O vento me guia, a água pulsa em minhas veias, a terra sustenta meus passos, e agora, o cosmos me transpassa, arrebatamento. Tudo pulsa. A brisa do céu estrelado sobre a pele sela o pacto com o azul profundo.

Corpo, areia, mar e céu: tudo explode em partículas que se dissolvem e se fundem. Supernovas morrem para gerar vida. O mangue amamenta. O vento desliza entre os fios do cabelo. A gravidade desaparece. Um arrepio na nuca, e o tempo se curva.

Daqui do alto o mundo é tão frágil. Belo e azul. A Terra gira, enamorando a bailarina que dança com o brilho das ondas e as bênçãos do Jatobá. Acariciados pela brisa, o horizonte é íntimo aos jovens que acendem seus cigarros. Deleite da existência, crianças livres.

Um segundo. Entropia.

Não há mais o tempo. Não há mais o espaço. O infinito nos consome, arrebatador. No horizonte de eventos, o ar nos falta. Explosão e paz, eco e silêncio. Suave e eterno, todos os corpos, agora são um só. Ali, entre as estrelas e o mar, somos crianças em um céu de Van Gogh.

O mar ondula. O céu acalenta. A Terra gira. E nós, poeira na vastidão do ser. Primeiro de Janeiro de 2025, a jornada finda, sou poeira.

autoria própria: o céu do réveillon

Agradecimentos Finais e Considerações

Agradeço especialmente à equipe do Bicho Biotrips (link aqui: https://www.obichobiotrips.eco.br/) , que organiza atividades de ecoturismo e turismo comunitário, por possibilitar esta imersão no Quilombo da Fazenda .

Sobre o Quilombo da Fazenda

A comunidade de remanescentes quilombolas do Quilombo da Fazenda resiste com muita luta na Serra do Mar , região de Ubatuba, marcada pela riqueza natural e pela proteção ambiental. Este quilombo, que enfrenta constantemente o poder destruidor da especulação imobiliária, desempenha um papel fundamental na preservação da floresta e na proteção de áreas naturais indispensáveis ​​para o equilíbrio ambiental.

O quilombo é um espaço vivo de resistência e cuidado, que pode ser visitado e apoiado por aqueles que se interessam por se envolver em sua causa, recomendo que o façam! Sua luta é o reflexo e parte da luta de tantos outros grupos sociais que enfrentam o massacre das disputas territoriais neste País. Cada visita, cada gesto de apoio militante, ajuda a fortalecer as redes de defesa e o aquilombamento.

Sem a proteção e cuidado destas familias com a sua terra, que assegura a existência deste espaço paradisíaco, seria impossível vivenciar experiências transformadoras como as que compartilhamos. Mesmo o mais cético dos seres humanos, ao se conectar com a natureza da maneira que o grupo de 23 pessoas vivenciou neste Réveillon, é tocado pelo encontro com o universo e sai profundamente transformado.

Existem tantos aprendizados possíveis quantos mundos para construir. Que essa jornada nos inspire a seguir firmes nas lutas pela preservação, pela justiça e por novos mundos possíveis. Fica o humilde texto acima como reflexão.

Standard
Arquitetura e Urbanismo, artigo, brasil, onu, política, Saúde

Descentralizar o saber técnico é um desafio estrutural no Brasil

A desigualdade regional no Brasil gera uma das maiores dificuldades de articulação para projetos nacionais. A disparidade de bens, serviços e qualidade de vida oferecidos entre as regiões intensifica a concentração de serviços qualificados no Sudeste e Sul. Entre os muitos reflexos desse modelo está a concentração do conhecimento técnico-científico, que cristalizou um padrão de desenvolvimento desigual.

O país precisa enfrentar um desafio: como modificar esse fenômeno? Como criar uma estrutura sistêmica que amplie as capacidades de adaptação e inovação em regiões onde a economia ainda é muito pobre? Programas foram implementados, mas esbarram em problemas estruturais e na descontinuidade.

A expansão de universidades no interior trouxe avanços, mas muitos campi enfrentam a ausência do básico: laboratórios, bibliotecas e internet. Soma-se a isso um desalinhamento entre os cursos oferecidos e as vocações econômicas locais, além da dificuldade de atrair e reter pesquisadores em cidades que não oferecem o mesmo magnetismo material e simbólico do Sudeste e Sul.

Políticas de incentivos fiscais, como a Zona Franca de Manaus, também têm suas limitações. Embora atraiam indústrias, frequentemente resultam em enclaves econômicos desconectados das comunidades locais, sem transformar a base da economia regional. Da mesma forma, programas como o Mais Médicos mostraram que incentivos financeiros são insuficientes para fixar profissionais em áreas remotas. Sem uma estrutura de suporte, como moradia, segurança e acesso a serviços, a rotatividade desses trabalhadores segue alta, comprometendo a continuidade das ações.

Precisamos reconhecer que a maior parte do Brasil é formada por essas cidades e que criar estratégias de desenvolvimento regional para torná-las mais atrativas em qualidade de vida pode ajudar a reverter o processo de evasão da mão de obra qualificada que está hiper centralizado no eixo sul-sudeste.

A descentralização do saber técnico-científico , porém, exige mais do que boas intenções. É preciso articular infraestrutura educacional, incentivos econômicos, conectividade digital, redes de colaboração nacional e baratear a logística nacional, melhorando a capacidade de translado e conexão modal entre as inúmeras cidades deste País. Investir na formação de pólos de conhecimento alinhados às demandas locais e garantir a continuidade administrativa são passos fundamentais para superar a fragmentação que compromete a eficácia dessas políticas.

Este desafio é imenso. A governança brasileira, com sua complexidade federativa, exige alinhamento entre as esferas de poder, algo que frequentemente se perde em políticas descoordenadas e sobrepostas, além de inúmeras disputas de pequenos e grandes poderes. Isso nos obriga também a impessoalizar alguns processos administrativos e políticos estratégicos, visando mitigar a capacidade destes ficarem amarrados ao personalismo de lideranças.

Standard
Arquitetura e Urbanismo, artigo, brasil, ciência, política, rio de janeiro, Saúde

A Dor do Pobre: 4614/24 e Desigualdade na Nova Política Fiscal

Quero começar este texto com uma frase curta e incisiva de Pagu: “A dor do pobre é o dinheiro”. As políticas de arcabouço fiscal do governo Lula ilustram bem essa frase. A PLC 4614/2024 é sobre isso. 

Duas medidas são duras: o aumento real do salário mínimo atrelado aos índices anuais efetivos de crescimento da despesa primária, conforme fixados na LC 200; e a exigência de que, para fins de concessão do BPC, a pessoa com deficiência seja definida como aquela incapaz de viver de forma independente e de trabalhar. De cara lhes digo: para o governo, o pobre é um gasto.

Ao impor um teto ao salário mínimo e limitar o acesso ao Benefício de Prestação Continuada, o governo abandona milhares de brasileiros já vulneráveis, deixando-os ainda mais expostos à precariedade, largados ao relento. Convém lembrar, bolsas e benefícios são, por si só, um atestado da incapacidade do Estado de enfrentar estruturalmente os problemas de desigualdade psico-socioeconômica que afetam o país.

O Projeto de Lei 4614/2024 exige que o beneficiário comprove incapacidade absoluta para a vida independente e para o trabalho. Esse requisito entra em conflito direto com o conceito de pessoa com deficiência (PCD) já consolidado no Brasil, em alinhamento com a ONU, que estabelece: “Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas”.

Assim sendo, o que o governo promove é a exclusão de um benefício afirmativo sem dar condições sociais para completa integração das pessoas a dignidade plena e todos os direitos civis. Entendemos que, mesmo a deficiência em um grau aparentemente leve carrega a longo prazo uma série de dificuldades ao longo da vida, ainda mais em um país pobre como o nosso. 

O que o governo promove, portanto, é a exclusão de um benefício afirmativo sem oferecer as condições sociais necessárias para a plena integração dessas pessoas à dignidade e aos direitos civis. Mesmo uma deficiência considerada leve pode, a longo prazo, acarretar sérias dificuldades — ainda mais em um país marcado pela pobreza como o nosso. Tanto estes benefícios, quanto o salário mínimo não se justificam como economia, visto ser um dinheiro que circula novamente na economia, tão logo é recebido.

Quando junta esta política com a aprovação da precarização do professor no Rio de Janeiro, o recado dado permanece: reduzimos a ajuda permanente e dificultamos as condições de ensino. Admira-me a esquerda se alinhar a este tipo de projeto, rasgando bandeiras históricas de lutas populares e por um mundo igualitário. 

Ao combinar essas políticas com a recente aprovação da precarização do trabalho docente no Rio de Janeiro (e no restante do Brasil), o recado é claro: reduzimos a ajuda permanente e precarizamos o acesso digno à educação. 

Surpreende ver setores da esquerda (incluso o governo) alinhados a esse tipo de projeto, que contradiz bandeiras históricas de lutas populares e pela igualdade. O projeto do Brasil desenha um país com um planejamento frágil, baixíssimo fomento em desenvolvimento real, subserviente ao agronegócio. Um país que escolheu o pobre como alvo de seu projeto de controle social e econômico. 

Não é pelo dinheiro economizado, é pelo valor que “sua cabeça agora está custando”. Com menos renda e salário, o que o governo faz é aumentar a massa de reserva de trabalhadores barateados pela necessidade de sobrevivência. Ao mesmo tempo, seguem os privilégios das famílias donas do poder, das OSs, das BETs e de inúmeras estruturas legais ou ilegais que gerenciam e rateiam o Brasil. Infelizmente, jogaremos fora um dos maiores ativos do País: o bem-estar e a dignidade do seu povo, Não terá narrativa ou militância que salve a esquerda do ônus destas decisões estapafúrdias.

Standard
Arquitetura e Urbanismo, artigo, brasil, cultura

Interiorizar a Arquitetura: Uma possibilidade de reinventarmos a Profissão

A arquitetura, como era conhecida em tempos antigos, acabou. O que nos resta é a oportunidade e  dever de reinventar nossa capacidade de trabalho, utilizando nossas ferramentas para enfrentar as pautas urgentes que moldam nosso tempo. Entre elas, quero destacar algo que me incomoda: premente necessidade de descentralização do desenvolvimento econômico e social do Brasil.

O modelo atual concentra riqueza e impactos no eixo Sudeste, deixando vastas áreas do território nacional relegadas ao abandono ou à exploração predatória. É um ciclo que alimenta desigualdades regionais e ambientais. O arquiteto militante, consciente de sua responsabilidade social, deveria propor e implementar projetos que alavanquem o interior do Brasil. Penso que criar polos de inovação sustentável por exemplo, é um caminho para mitigar os efeitos da concentração de renda e da superexploração territorial.

Interiorizar a arquitetura não é apenas deslocar profissionais para regiões periféricas. É articular esferas distintas de poder, estatal, comunitário, acadêmico, movimentos sociais, para criar espaços de gestão compartilhada. Centros regionais de pesquisa, ensino e prática podem ser organizados com o objetivo de oferecer soluções em arquitetura bioclimática, agroecologia e infraestrutura de baixo impacto extrativista e alto desempenho social.

O Brasil, em sua vastidão e diversidade, exige soluções regionais, não cabem em um modelo único e genérico. Dito isso, precisamos dispor de um olhar não nostálgico para o vernacular e o cultural, mas como um ponto de partida para construir uma arquitetura que dialogue com os desafios e recursos locais.

Uma estratégia central para essa mudança é a mobilização de arquitetos para territórios desassistidos. Há cidades e regiões inteiras onde sequer há um profissional atuando. Um esforço político sério deve permitir a interiorização de profissionais, incentivando a criação de soluções que priorizem o baixo impacto ambiental e a alta capacidade de transformação social.

Urge também reformular o currículo das escolas de arquitetura. Devemos integrar o foco regionalizado que prepare os arquitetos para os desafios locais, desmistificando que a única linguagem certa é a gramática globalizada que muitas vezes ignora as especificidades do território brasileiro. Trata-se de uma educação que valorize o contexto, o lugar e a realidade concreta de cada comunidade.

Mobilização e Impacto Político

A mobilização para interiorizar a arquitetura pode e deve operar em escalas comunitárias e globais. Redes com movimentos sociais, universidades e lideranças locais devem ser construídas para fortalecer as propostas e ampliar a capacidade de intervenção.

Plataformas digitais também tem um papel fundamental nesse processo. Ajudam a conectar ideias, expondo projetos de sucesso e promovendo o diálogo entre atores diversos. Exemplos concretos de transformação territorial sustentável precisam ser divulgados e trabalhados como modelos a serem replicados e transformados em políticas públicas.

Interiorizar a arquitetura é, antes de tudo, um ato político. É reivindicar a profissão como uma ferramenta de justiça social e ambiental. É garantir que os povos historicamente silenciados tenham voz, que suas demandas sejam ouvidas, e que as soluções não lhes sejam impostas, mas construídas coletivamente. Sabemos que a arquitetura sempre foi uma ferramenta de legitimidade do Poder, o que devemos nos propor agora é: Que poder queremos legitimar e que povo gostaríamos de empoderar?

Este é um desafio e uma oportunidade viável para o renascimento da arquitetura contemporânea no Brasil. Não podemos nos limitar a projetar a centralidade do país. A profissão está diante de um ponto de inflexão, que a escolha seja clara: reconstruir a arquitetura a partir da periferia, do interior, com força de quem acredita na transformação coletiva. 

Quanto ao poder público, pode criar linhas de fomento e recurso para regiões pobres possam ser atendidas. Se isso nos soa algo inovador e talvez interessante de aplicar, o que digo é: basicamente este é o princípio pensado a décadas pelos ativistas da Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social. E suas ações diretas, soam quase quixotescas nestes muitos Brasis existentes que negligenciam a maior parte da população pobre. Tudo que precisamos é implementar o recurso, massificar a política e usar os bons exemplos como instrumentos de melhoria das políticas.

casas ribeirinhas – Tarsila do Amaral

Standard
Arquitetura e Urbanismo, artigo, brasil, cultura, pensamento, política

Um dia do Arquiteto

Esta semana celebramos o Dia do Arquiteto e Urbanista no Brasil. Uma profissão curiosa e pitoresca. Parece-me um ofício tão essencial à sociedade e, ao mesmo tempo, tão supérfluo. Multidisciplinar, multi-escala, mas, convenhamos, nunca esqueçamos: é um ofício, um trabalho.

A carreira do arquiteto é vendida com um ar de vislumbre exclusivo. Não sei se chegamos a ser capitalistas. Tenho minhas dúvidas. Creio que somos aristocratas. As boas relações, o prazer do afago vaidoso, os elogios sinceros ou não, as capas de revista e vernissages parecem mais valiosos do que fechar o mês sem sufoco. A verdade nua e crua é: somos apenas proletários com bom gosto para cortinas e para boletos atrasados.

A arquitetura é essa jovem senhora que ainda mora na última mansão de um bairro que já foi chique. Ela observa a rua com relutância, escondida atrás de cortinas que não troca desde o enxoval de casamento. Do lado de fora, a vida acontece: o pau quebra, o churrasco estala, toca Naldo nas caixinhas JBL. Ela insiste no Chanel nº 5 comprado nos anos 80. Finge desgosto, mas dá pra ver o pé batendo discretamente ao som de “Amor de Chocolate”.

Ainda vivi um tempo em que as escolas de arquitetura recebiam grandes nomes como Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha e Zaha Hadid, gente que inspirava mais pelo gesto do que pelo marketing. Hoje, porém, a moda é influencer ensinando como ganhar milhões e lançando livros de autoajuda. Nada contra, afinal, nem eu tenho uma grande obra para vos apresentar. Enquanto isso, a profissão enfrenta recessão: evasão crescente, salários em queda e prestígio diminuindo. Sei que pareço um velho ranzinza, mas, no meu tempo, isso não era mato. Era paisagem.

Agora, na Delfim Moreira, vi varandas “orgânicas” e jogos de luzes de um edifício milionário tentando roubar o protagonismo da própria orla do Rio. Se me pagarem 38 milhões, talvez eu aceite morar lá. Mas, sinceramente, prefiro uma casinha de meia água com quintal e gramado na Praia Seca.

Minha irmã, formada em TI ou algo do tipo, me deu uma Caran D’Ache. Só mesmo alguém da tecnologia para bancar isso. Qualquer capitalista sabe que salário de arquiteto não banca essa lapiseira. E um bom comunista diria que é só parte do fetiche do imperialismo. Já o grafite? Compro na Shopee. Sei que é como ter uma Ferrari e instalar um kit-gás, mas esta é minha vida.

Enquanto discutimos formas orgânicas e conceitos abstratos no nosso baile da Ilha Fiscal, o povo mete a mão na massa e constrói a casinha pequenina que, cá entre nós, é a que eu gosto. “Ah, Rodrigo, não desvalorize tanto o seu saber!” Não o faço. Amo o saber e pratico o ofício. Mas aprendi com o velho Niemeyer que “o mais importante não é a arquitetura, mas a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar.”

Feliz Dia do Arquiteto e Urbanista, ainda que atrasado!

Standard
artigo, brasil, cultura, política, rio de janeiro

Cemitérios no Rio: desigualdade até na última morada?

Nunca imaginei que fosse ser expulso de um jazigo. Pelo visto, a gentrificação alcança a todos. Quem diria que correríamos o risco de perder a última morada.

A saga de ver o jazigo da família ser ameaçado de leilão me fez enxergar um mundo imobiliário peculiar: a compra e venda de túmulos. Nos classificados, as melhores descrições possíveis: “Túmulo, ótima localização, direto com o proprietário”. O que viria a ser uma ótima localização? Estaria vivo o proprietário? “Oportunidade única: jazigo perpétuo, cemitério Caju, na primeira quadra”; “Jazigo Perpétuo, Cemitério da Cacuia, área nobre”; onde seria a periferia, no Dendê?

Não pensem que o Rio partido fica esquecido no além. Morar no São João Batista é luxo! Um buraco de 3m² pode ser comprado por módicos 180 mil reais, ou bem mais. Ainda assim, é mais barato e, quem sabe, até mais confortável que um estúdio da Avenida Paulista. Atravessou o túnel e pronto: estou pertinho da praia e do Bairro Peixoto, um dos cantinhos mais simpáticos para os vivos e mortos desta cidade se sentirem no aconchego de um Rio perdido no tempo.

Minha morada final, por enquanto, não custa mais de 30 mil reais. É no Murundu, ali entre Bangu e Realengo, terra de meu avô. Chão do meu batismo. Mas quem sabe, até lá, o Airbnb não crie um sistema imobiliário para a vida além? Podemos ser corpos nômades, vagando de aluguel nos túmulos por aí. Passar um fim de semana no Caju, ao lado do Cruzeiro. Outro fim de semana, curtir um samba com Paulo da Portela no Irajá. Passar uma tarde no Jardim da Saudade, sob um pé de laranjeira. Talvez uma noite no cemitério vertical. Ou tirar férias luxuosas na Recoleta.

Imagino até a notificação no celular: “Sua reserva no Vila Rosali foi confirmada. Check-in: 2084”. 104 anos, como o velho Niemeyer! Qual o prejuízo? Minha vida já é aluguel mal pago.

A morada final nunca foi algo que imaginei. Meu limite foi o velório. Quero todos os meus amigos presentes, os vivos e os mortos. Deem um jeito, dá para chegar de trem! De um lado, o samba; do outro, o rock’n’roll, sem misturar. Não gosto do Sambô. Um cortejo digno das vaidades que nunca tive, mas com o deboche niilista e existencial de quem sabe que a morte é só um detalhe.

Nada na vida é tão importante que não mereça ser celebrado. Se até lá meu túmulo ainda não tiver sido leiloado, deixo na lápide para todos: A vida é boa! Se sentirem saudades, fiquem tranquilos; venho visitá-los nas madrugadas para conversar.

quem é vivo sempre aparece

publicado originalmente no instagram: @rodrigobertame

replicado no Diário do Rio

Standard
artigo, brasil, carnaval, filosofia de vida, política, Saúde

Falta d’água no Rio: Urge colocar a Água como centro da Política global!

A equidade sanitária é um desafio urgente para a nossa região metropolitana. A cidade do Rio está há dois dias sem acesso à água. Locais de trabalho e lazer fechados para garantir o racionamento. E mal começamos o verão.

Fui criança em um bairro que não recebia água regularmente. Na época, eu naturalizava, ainda não tinha conhecimento técnico sobre o problema real. Assim como eu, muitos cariocas são assim e por isso tendem a normalizar a crise. Ter uma cisterna grande (para quem podia), ligar a bomba e garantir a caixa cheia fazia parte do cotidiano. Sabíamos que, dia sim, dia não, ficaríamos à míngua. É surreal pensar que uma cidade com tantos recursos hídricos como a nossa, optou por um modelo de abastecimento centralizado em uma única fonte.

Mais surreal ainda é saber que, ano após ano, esse recurso sempre chega primeiro às regiões mais nobres, independentemente da distância. Para quem não conhece o Rio, o Guandu está mais próximo de bairros como Santa Cruz, Campo Grande, Sepetiba, Bangu e Realengo, todos na Zona Oeste ou Norte da cidade. Bairros que estão, literalmente, ao lado e ficam dias e dias sem água.

Nos últimos anos, tornou-se comum ver a cidade inteira parar por alguns dias devido à falta de água. São muitos os problemas, mas o principal é a ausência de uma política nacional que trata o recurso hídrico como prioridade estratégica e direito humano básico. Não há vida na Terra sem água. Se continuarmos com essa matriz centralizadora, que depende exclusivamente do Rio Guandu, sem investir na requalificação de outros rios ou aquíferos do Estado, corremos o risco de matar nossa cidade de sede.

A equidade sanitária, neste ponto, é fundamental. Garantir o acesso ao tratamento de esgoto e água para toda a população periférica não apenas reduz a pressão no sistema, mas também gera dados para um melhor planejamento e melhoria das condições reais para a engenharia sanitária produzir soluções técnicas viáveis de melhoria do abastecimento da cidade como um todo. Além disso, é fundamental controlar e fiscalizar desperdícios industriais e empresariais. Por exemplo, as jazidas de extração de areia, grandes consumidoras de água, operam hoje em um sistema de mercado, digamos assim, misto (legal e ilegal) que precisa ser regulamentado, fiscalizado e com as jazidas ilegais veementemente combatidas.

Colocar água no centro da pauta política, junto com alimento, saúde e educação, é indispensável para a construção de uma cidade verdadeiramente sustentável. Penso que a saída passa por um arranjo que envolve os princípios políticos de equidade social, a pressão popular e um saber técnico que compreenda o papel ético e a função social da engenharia e arquitetura na solução de problemas como os que estão dados. Sem isso, não vislumbro futuro possível.

Como creio em um futuro belo, segue uma imagem de um Rio de Janeiro possível, o Rio de todos os Rios que a Portela nos presenteou em 2017.
Standard
Arquitetura e Urbanismo, artigo, brasil, cultura, rio de janeiro

O Jeito Carioca e a Romantização da Precariedade

Espaços Culturais: Entre o Improviso e a Segurança

Nada justifica o falecimento da servidora Virgínia Gazola da Petrobrás acidentada no Armazém do Campo, no Rio de Janeiro. Infelizmente, não se trata de um evento trágico singular, mas de um reflexo de uma cultura arraigada que alimenta um marketing da identidade carioca, no qual o “jeito carioca de ser” de ser descontraído e improvisado é romantizado a ponto de encobrir graves negligências.

Espaços famosos da noite carioca, ocupados por bares, eventos culturais e áreas de lazer de rua frequentemente carecem de um mínimo de infraestrutura que garanta qualidade e segurança aos seus usuários. Muitos desses locais, mesmo com rotatividade suficiente para investir em melhorias, apoio e articulação política permanecem inertes. Vemos que, sustentabilidade financeira não se traduz, necessariamente, em responsabilidade.

Antes de avançarmos na crítica, é importante problematizar a própria imagem que vendemos do carioca. Essa imagem descontraída e improvisada foi historicamente capturada e moldada como parte de um projeto maior de controle simbólico, que remonta às décadas de 1920. O Rio de Janeiro é vendido como o cartão-postal do Brasil, mas a identidade de seu povo é frequentemente enquadrada em estereótipos que obscurecem a diversidade e a complexidade local.

Esse estereótipo não é inofensivo. Ele invalida práticas e comportamentos que fogem ao padrão romantizado, perpetuando a ideia de que o caos e o desleixo são parte da identidade carioca, parte da malandragem. Entendam! Uma coisa é, nascermos pobres, sem acesso a nada, precisarmos improvisar para solucionar problemas de vida cotidiana, outra coisa é o mercado cultural criar, conscientemente, simulacros deste modo improvisado de viver para vender a imagem de o Rio Cool. Na prática, o simulacro se reflete na aceitação tácita de condições precárias em espaços públicos e privados. Vendemos um certo desconforto e desorganização como elementos de autenticidade. Assim, somos “legais” à medida em que nossa experiência urbana reflita este estereótipo.

O acidente ocorrido no Armazém do Campo poderia, sim, ter sido evitado. Esse episódio expõe uma contradição dolorosa: triste que um espaço gerido por um movimento social de luta tenha vacilado com isso. Se o mundo que acreditamos é o melhor, temos a obrigação de, tanto nas lutas quanto na nossa micro escala de alcance sermos reflexo deste mundo, em todos os sentidos. Um espaço gerido por um movimento social de luta, que acredita em um mundo melhor, falhou em refletir esses ideais no cuidado e segurança oferecidos. Me assusta pensar que este mesmo espaço, ainda que sem alvará, tenha sido considerado Patrimônio Imaterial da Cidade, o que denota que o espaço não estava tão invisível ao poder público. Esse é um alerta ético.

Aqui entra também a relevância do conhecimento técnico. Arquitetos, engenheiros e técnicos possuem o ferramental necessário para pensar, projetar e construir espaços mais seguros, interessantes e funcionais, especialmente em contextos culturais e urbanos. Negligenciar isso, para além de irresponsável, é uma forma de desprezo pelos saberes profissionais que podem salvar vidas. Este alerta não cabe somente à casa em questão ou aos movimentos, mas a todo o circuito cultural do Rio, e incluo aqui os inúmeros empresários da economia cultural, de turismo e eventos.

Infelizmente, o desleixo não é exceção, mas padrão. Há no Rio uma infinidade de espaços culturais, bares e áreas de lazer que operam à beira da precariedade, oferecendo condições propícias às mais terríveis tragédias. Como exemplo, lembro-me de um dos banheiros de botequim mais bem cuidados que já encontrei, na Rua Paranhos, em Olaria. Na prática, um botequim de bairro suburbano, periférico, no pé do Complexo do Alemão, sem atrativos turísticos para participar do circuito hype do Rio. Paradoxalmente, aquele banheiro seria considerado luxuoso em comparação com muitos espaços badalados da Lapa ou outros polos da noite carioca.

Para enfrentar esse cenário, é necessário promover uma mudança de paradigma que integre políticas públicas, responsabilidade empresarial e educação técnica. Isso inclui a implementação rigorosa de normas de segurança em espaços culturais e comerciais, acompanhada de fiscalização efetiva para coibir negligências.  Também é fundamental oferecer programas de capacitação voltados para pequenos empresários, destacando que investir em segurança não é apenas uma obrigação, mas um diferencial competitivo. Além disso, criar linhas de crédito ou incentivos fiscais para estabelecimentos que realizem melhorias estruturais e de preservação e restauração de patrimônio arquitetônico pode estimular a adoção de boas práticas. 

Por fim, é essencial integrar (e respeitar) o saber técnico dos arquitetos, engenheiros e técnicos às discussões públicas sobre segurança e planejamento, garantindo soluções acessíveis, criativas e eficazes. Algo que com o tempo foi sendo perdido ou ocupado por outras forças econômicas que atuam na cidade. Avanços como os do Corredor Cultural parecem ter se estagnado diante da precariedade ou falta de política firme de preservação e restauração. E aqui, temos um compromisso necessário de ser assumido pela prefeitura atual do Rio, maior beneficiária e fomentadora da narrativa do jeito carioca de ser como identidade para atrair turismo e outras atividades econômicas.

Acidentes como o que vitimou a servidora são evitáveis. O primeiro passo é desconstruir a romantização da precariedade, do caos e do improviso, reconhecendo que, acima de tudo, o cuidado com o bem estar do cidadão é parte  fundamental de qualquer identidade cultural que se pretenda digna. O segundo ´passo é respeitar as condições técnicas mínimas da arquitetura e engenharia nos quesitos: segurança, conforto, ergonomia, entre outros.

Há um equívoco, quem acredita que este tipo de prática sugere uma certa gourmetização (a gentrificação dos espaços de cultura), como se isso afastasse o povo. Primeiro, a maior parte do povo sequer consegue chegar nos principais pólos centrais de noitada do Rio de Janeiro pois o metrô fecha cedo e muitos ônibus da zona norte, oeste e baixada param de circular. Segundo, muitos destes lugares, apesar de ter pouco cuidado na sua arquitetura e engenharia, já são gentrificados, com preços caríssimos para o que oferecem a seu público. O que estes empreendimentos fazem, é aplicar maximização do lucro a partir da redução dos custos de investimento, justificando isso na cultura do lugar: “este é o espírito do meu bar”.

Para ilustrar esta postagem, que é dura de escrever, optei por usar uma antiga foto de Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Marçal caminhando. Lembro-me de uma frase atribuída a Paulo da Portela que talvez fosse uma das mais replicadas por minha família e muita gente que conheço na vida: “Posso estar sem um nada no bolso, mas a elegância e a postura eu não perco“.  Este estereótipo romantizado do carioca ser autentico por um desleixo fantasiado de improviso não reflete a maior parte da população dessa cidade. E ainda que refletisse, nada justificaria a negligencia técnico-científica de todas as forças envolvidas na boa conservação dos espaços culturais da cidade.

Standard
artigo, brasil, cultura, filosofia de vida, onu, política

O Rio é menos Doce no G20

foto de  Fred Loureiro/ Secom ES – original de Brasil de Fato

O Brasil, nesta semana, tornou-se o palco de um dos mais importantes encontros democráticos globais. Ao mesmo tempo, uma série de eventos articula ativistas e entidades da sociedade civil em torno de temas cruciais: governança, justiça social, e uma resposta urgente para a crise ambiental que já ceifa vidas e compromete gerações. Mas é impossível ignorar o paradoxo gritante: enquanto discutimos políticas para um mundo mais justo e ambientalmente seguro, nosso próprio país fecha os olhos para os crimes cometidos por mineradoras que exploram impiedosamente nosso solo, nossos rios e as vidas de comunidades inteiras. 

A abertura do evento coincide, bizarramente, com o julgamento da SAMARCO – uma oportunidade perdida de fazer justiça a centenas de famílias e ao meio ambiente devastado pelo rompimento da barragem em Mariana. Um dos maiores crimes ambientais da nossa história recente expôs as entranhas de um sistema que protege o lucro ao custo do sacrifício de vidas pobres, deixando claro que o país que sedia o G20 não teve coragem de enfrentar o poder desproporcional do extrativismo de sua elite econômica. Milhares de toneladas de lama tóxica varreram o Rio Doce, soterrando sonhos e histórias, em um ato de violência impune contra a natureza, 19 pessoas, e as inúmeras famílias que dependiam do seu lugar para sobreviver. Em Mariana, o rompimento da barragem não só varreu vilas e comunidades, mas expôs, com uma violência gritante, a insensibilidade de um sistema que escolhe proteger o lucro ao custo de vidas. Esse crime ambiental expôs o preço de uma economia servil, que passa por cima dos mais pobres como se fossem descartáveis.

Essa tragédia não é isolada, é uma expressão clara do alinhamento político e classista que molda a realidade nacional. Um parêntese: É preciso que discutamos de maneira técnica e ética a responsabilidade que cabe. Nós, por exemplo, engenheiros, arquitetos, políticos e empresários têm responsabilidade diante de uma violência gerada por nosso erro. A ética profissional, longe de ser apenas individual, deve ser ancorada em uma perspectiva social, onde o “fiz porque fui mandado” deixa de ser uma desculpa para legitimar a destruição. Precisamos urgentemente de uma ética comprometida com o coletivo e com o meio ambiente, uma ética que não seja escrava do mercado. Fechando parênteses, retomemos o debate.

No Brasil, onde o abismo social é marcado pela desigualdade de voz, o G20, especialmente o G20 SOCIAL e o Urban 20, oferece uma chance ímpar de articular as lutas e reconstruir um espaço fragmentado. As discussões, as pautas e as deliberações desses fóruns não podem se limitar ao papel e anais a serem lembrados apenas no encontro seguinte: são um material precioso para reforçarmos a resistência contra os interesses que corroem nosso sistema planetário. Esses fóruns são espaços de luta, e não nos iludamos: sem uma luta efetiva contra o poder econômico e as elites corporativas que ditam as regras neste país, esses encontros se tornam espaços de catarse controlada, onde nossos gritos de justiça são abafados e o mercado continua dominando as decisões, deliberadas entre os donos do poder nos cafés da manhã dos hoteis, nos almoços e  jantares exclusivos. 

Enquanto a SAMARCO segue impune, operando, negociando com prefeituras, contaminando rios e terras, estendendo sua ganância sobre territórios vulneráveis. Outras mineradoras seguem o mesmo caminho, escoradas por uma lógica de mercado que coloca o lucro acima da vida. Esse é o retrato de um Brasil onde as grandes corporações controlam as políticas públicas, desdenhando da vida, da lei e da dignidade do povo. Temos que ser veementes em nossa posição, lutar e articular nossos interesses com força e clareza. Caso contrário, estaremos apenas domesticando nossas consciências, enquanto o poder faz seus acordos nos bastidores.

O G20 chega a um Rio de Janeiro que é vitrine dolorosa das contradições do Brasil. As delegações passam com velocidade pela periferia da cidade, das pistas do aeroporto para os hotéis. Neste Rio, barril de pólvora social, líderes globais tentam encontrar uma saída digna para um futuro que, a cada dia, se torna mais distópico.

É imperativo que transformemos esses fóruns em verdadeiros espaços de ação e resistência! Enquanto queimadas, inundações, fome, guerras e catástrofes climáticas se alastram, somos convocados a transformar os rumos da vida coletiva. A verdade é crua: o mundo mudou, e não há espaço para a inação. Não se trata apenas de uma escolha política, mas de uma necessidade de vida: ou disputamos a política global em todos os seus âmbitos, ou assistimos à destruição do que ainda resta de justo e humano em nossa sociedade.

Standard
artigo, brasil, política, rio de janeiro, Subúrbios, trabalho

De onde surgiu Rick Azevedo? O drible do trabalhador no enfrentamento do 6×1

De onde surgiu Rick Azevedo? Essa pergunta tem ecoado entre certa parte dos pensadores da esquerda carioca. Confesso que também conheço pouco sobre ele, mas já o considero um nome promissor. A expressiva votação que o candidato do PSOL alcançou nos diz muito sobre a invisibilidade do trabalhador pobre diante do sistema político brasileiro.

Há dois pontos essenciais que gostaria de destacar. Primeiro, Rick foi direto e incisivo em uma análise crucial: diante da precarização, não basta resiliência; é preciso disputar espaço. Esse é o recado do “6×1”, um sinal de uma luta popular real. Engana-se quem pensa que essa pauta é restrita a celetistas ou trabalhadores com contrato formal; ela representa todos aqueles que, frente à precarização de suas vidas, precisam estar disponíveis para o mercado, 24 horas por dia, sete dias por semana, para sobreviver.

O que quero dizer com empregabilidade? Quando falo em “empregabilidade”, refiro-me não apenas à exigência de estar sempre “pronto para uso” no mercado, sempre competitivo e adaptado às transformações econômicas, tecnológicas e sociais. É a pressão para ser “empregável” em qualquer situação, diferentemente de um emprego, que é uma ocupação formal e estável. Empregabilidade abrange o trabalho informal, o bico, o subemprego, e principalmente o desemprego, todos os sistemas onde o trabalhador vende sua força na esperança de um retorno que talvez nunca venha.

Assim, a jornada “6×1” vai muito além de um acordo para celetistas. É a rotina dos entregadores, motoristas de Uber, microempreendedores (MEIs) e todo tipo de trabalhador que não consegue, em 40 horas semanais, garantir o básico para viver. Enquanto a Europa experimenta e disputa jornadas reduzidas, como o modelo “4×3”, que permite mais equilíbrio entre trabalho e vida, o Brasil segue pelo caminho oposto, abraçando uma lógica de exploração que mantém a mão de obra barata e a pobreza crônica, favorecendo a hiperexploração. E essa realidade só se aplica à gigantesca massa de pobres, sem heranças ou privilégios, cujas vidas são devoradas por um mercado que exige sempre mais e oferece cada vez menos.

O segundo ponto essencial é a coerência das ações de Rick. Ele é o “desconhecido mais conhecido” que já vi, e sua trajetória expõe a crise de desconexão da esquerda carioca – e talvez nacional. Seu impacto eleitoral não se limita aos corredores da esquerda. Rick caminhou por onde muitos formuladores e líderes da esquerda já não passam: as filas de trens, os pontos de ônibus, as ruas da Baixada Fluminense, os subúrbios, o duro solo do trabalhador carioca e fluminense. Ele foi ao encontro do trabalhador, do desempregado, do pobre, aquele que ele efetivamente busca representar.

Rick faz uma crítica necessária e contundente ao sistema sindical, num momento em que o próprio governo federal, que deveria carregar as bandeiras do trabalhismo e sindicalismo, se curva diante da correlação desfavorável de forças e tem de negociar com um parlamento que empurra os trabalhadores para novas formas de exploração. E, ironicamente, é o mesmo governo que, ao optar por um ajuste fiscal, ameaça o Sistema Único de Saúde (SUS) em um contexto onde até a saúde privada se torna precária para o trabalhador médio.

Rick Azevedo se apresenta como uma força emergente, uma representação autêntica da luta contemporânea pelo trabalho no contexto carioca. Ele pode simbolizar uma esperança para a reconstrução do pensamento trabalhista e sindical e para o próprio PSOL. Que o ímpeto de suas pautas permaneça forte em sua atuação como parlamentar, este será seu novo desafio, manter-se firme às pautas que o levaram ao cargo no legislativo. Ver essa chama acesa no PSOL é inspirador. Essa bolha furada prova que ainda é possível lutar de verdade, basta ter coragem.

imagem de divulgação do próprio vereador
Standard