A desigualdade regional no Brasil gera uma das maiores dificuldades de articulação para projetos nacionais. A disparidade de bens, serviços e qualidade de vida oferecidos entre as regiões intensifica a concentração de serviços qualificados no Sudeste e Sul. Entre os muitos reflexos desse modelo está a concentração do conhecimento técnico-científico, que cristalizou um padrão de desenvolvimento desigual.
O país precisa enfrentar um desafio: como modificar esse fenômeno? Como criar uma estrutura sistêmica que amplie as capacidades de adaptação e inovação em regiões onde a economia ainda é muito pobre? Programas foram implementados, mas esbarram em problemas estruturais e na descontinuidade.
A expansão de universidades no interior trouxe avanços, mas muitos campi enfrentam a ausência do básico: laboratórios, bibliotecas e internet. Soma-se a isso um desalinhamento entre os cursos oferecidos e as vocações econômicas locais, além da dificuldade de atrair e reter pesquisadores em cidades que não oferecem o mesmo magnetismo material e simbólico do Sudeste e Sul.
Políticas de incentivos fiscais, como a Zona Franca de Manaus, também têm suas limitações. Embora atraiam indústrias, frequentemente resultam em enclaves econômicos desconectados das comunidades locais, sem transformar a base da economia regional. Da mesma forma, programas como o Mais Médicos mostraram que incentivos financeiros são insuficientes para fixar profissionais em áreas remotas. Sem uma estrutura de suporte, como moradia, segurança e acesso a serviços, a rotatividade desses trabalhadores segue alta, comprometendo a continuidade das ações.
Precisamos reconhecer que a maior parte do Brasil é formada por essas cidades e que criar estratégias de desenvolvimento regional para torná-las mais atrativas em qualidade de vida pode ajudar a reverter o processo de evasão da mão de obra qualificada que está hiper centralizado no eixo sul-sudeste.
A descentralização do saber técnico-científico , porém, exige mais do que boas intenções. É preciso articular infraestrutura educacional, incentivos econômicos, conectividade digital, redes de colaboração nacional e baratear a logística nacional, melhorando a capacidade de translado e conexão modal entre as inúmeras cidades deste País. Investir na formação de pólos de conhecimento alinhados às demandas locais e garantir a continuidade administrativa são passos fundamentais para superar a fragmentação que compromete a eficácia dessas políticas.
Este desafio é imenso. A governança brasileira, com sua complexidade federativa, exige alinhamento entre as esferas de poder, algo que frequentemente se perde em políticas descoordenadas e sobrepostas, além de inúmeras disputas de pequenos e grandes poderes. Isso nos obriga também a impessoalizar alguns processos administrativos e políticos estratégicos, visando mitigar a capacidade destes ficarem amarrados ao personalismo de lideranças.
Quero começar este texto com uma frase curta e incisiva de Pagu: “A dor do pobre é o dinheiro”. As políticas de arcabouço fiscal do governo Lula ilustram bem essa frase. A PLC 4614/2024 é sobre isso.
Duas medidas são duras: o aumento real do salário mínimo atrelado aos índices anuais efetivos de crescimento da despesa primária, conforme fixados na LC 200; e a exigência de que, para fins de concessão do BPC, a pessoa com deficiência seja definida como aquela incapaz de viver de forma independente e de trabalhar. De cara lhes digo: para o governo, o pobre é um gasto.
Ao impor um teto ao salário mínimo e limitar o acesso ao Benefício de Prestação Continuada, o governo abandona milhares de brasileiros já vulneráveis, deixando-os ainda mais expostos à precariedade, largados ao relento. Convém lembrar, bolsas e benefícios são, por si só, um atestado da incapacidade do Estado de enfrentar estruturalmente os problemas de desigualdade psico-socioeconômica que afetam o país.
O Projeto de Lei 4614/2024 exige que o beneficiário comprove incapacidade absoluta para a vida independente e para o trabalho. Esse requisito entra em conflito direto com o conceito de pessoa com deficiência (PCD) já consolidado no Brasil, em alinhamento com a ONU, que estabelece: “Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas”.
Assim sendo, o que o governo promove é a exclusão de um benefício afirmativo sem dar condições sociais para completa integração das pessoas a dignidade plena e todos os direitos civis. Entendemos que, mesmo a deficiência em um grau aparentemente leve carrega a longo prazo uma série de dificuldades ao longo da vida, ainda mais em um país pobre como o nosso.
O que o governo promove, portanto, é a exclusão de um benefício afirmativo sem oferecer as condições sociais necessárias para a plena integração dessas pessoas à dignidade e aos direitos civis. Mesmo uma deficiência considerada leve pode, a longo prazo, acarretar sérias dificuldades — ainda mais em um país marcado pela pobreza como o nosso. Tanto estes benefícios, quanto o salário mínimo não se justificam como economia, visto ser um dinheiro que circula novamente na economia, tão logo é recebido.
Quando junta esta política com a aprovação da precarização do professor no Rio de Janeiro, o recado dado permanece: reduzimos a ajuda permanente e dificultamos as condições de ensino. Admira-me a esquerda se alinhar a este tipo de projeto, rasgando bandeiras históricas de lutas populares e por um mundo igualitário.
Ao combinar essas políticas com a recente aprovação da precarização do trabalho docente no Rio de Janeiro (e no restante do Brasil), o recado é claro: reduzimos a ajuda permanente e precarizamos o acesso digno à educação.
Surpreende ver setores da esquerda (incluso o governo) alinhados a esse tipo de projeto, que contradiz bandeiras históricas de lutas populares e pela igualdade. O projeto do Brasil desenha um país com um planejamento frágil, baixíssimo fomento em desenvolvimento real, subserviente ao agronegócio. Um país que escolheu o pobre como alvo de seu projeto de controle social e econômico.
Não é pelo dinheiro economizado, é pelo valor que “sua cabeça agora está custando”. Com menos renda e salário, o que o governo faz é aumentar a massa de reserva de trabalhadores barateados pela necessidade de sobrevivência. Ao mesmo tempo, seguem os privilégios das famílias donas do poder, das OSs, das BETs e de inúmeras estruturas legais ou ilegais que gerenciam e rateiam o Brasil. Infelizmente, jogaremos fora um dos maiores ativos do País: o bem-estar e a dignidade do seu povo, Não terá narrativa ou militância que salve a esquerda do ônus destas decisões estapafúrdias.
A arquitetura, como era conhecida em tempos antigos, acabou. O que nos resta é a oportunidade e dever de reinventar nossa capacidade de trabalho, utilizando nossas ferramentas para enfrentar as pautas urgentes que moldam nosso tempo. Entre elas, quero destacar algo que me incomoda: premente necessidade de descentralização do desenvolvimento econômico e social do Brasil.
O modelo atual concentra riqueza e impactos no eixo Sudeste, deixando vastas áreas do território nacional relegadas ao abandono ou à exploração predatória. É um ciclo que alimenta desigualdades regionais e ambientais. O arquiteto militante, consciente de sua responsabilidade social, deveria propor e implementar projetos que alavanquem o interior do Brasil. Penso que criar polos de inovação sustentável por exemplo, é um caminho para mitigar os efeitos da concentração de renda e da superexploração territorial.
Interiorizar a arquitetura não é apenas deslocar profissionais para regiões periféricas. É articular esferas distintas de poder, estatal, comunitário, acadêmico, movimentos sociais, para criar espaços de gestão compartilhada. Centros regionais de pesquisa, ensino e prática podem ser organizados com o objetivo de oferecer soluções em arquitetura bioclimática, agroecologia e infraestrutura de baixo impacto extrativista e alto desempenho social.
O Brasil, em sua vastidão e diversidade, exige soluções regionais, não cabem em um modelo único e genérico. Dito isso, precisamos dispor de um olhar não nostálgico para o vernacular e o cultural, mas como um ponto de partida para construir uma arquitetura que dialogue com os desafios e recursos locais.
Uma estratégia central para essa mudança é a mobilização de arquitetos para territórios desassistidos. Há cidades e regiões inteiras onde sequer há um profissional atuando. Um esforço político sério deve permitir a interiorização de profissionais, incentivando a criação de soluções que priorizem o baixo impacto ambiental e a alta capacidade de transformação social.
Urge também reformular o currículo das escolas de arquitetura. Devemos integrar o foco regionalizado que prepare os arquitetos para os desafios locais, desmistificando que a única linguagem certa é a gramática globalizada que muitas vezes ignora as especificidades do território brasileiro. Trata-se de uma educação que valorize o contexto, o lugar e a realidade concreta de cada comunidade.
Mobilização e Impacto Político
A mobilização para interiorizar a arquitetura pode e deve operar em escalas comunitárias e globais. Redes com movimentos sociais, universidades e lideranças locais devem ser construídas para fortalecer as propostas e ampliar a capacidade de intervenção.
Plataformas digitais também tem um papel fundamental nesse processo. Ajudam a conectar ideias, expondo projetos de sucesso e promovendo o diálogo entre atores diversos. Exemplos concretos de transformação territorial sustentável precisam ser divulgados e trabalhados como modelos a serem replicados e transformados em políticas públicas.
Interiorizar a arquitetura é, antes de tudo, um ato político. É reivindicar a profissão como uma ferramenta de justiça social e ambiental. É garantir que os povos historicamente silenciados tenham voz, que suas demandas sejam ouvidas, e que as soluções não lhes sejam impostas, mas construídas coletivamente. Sabemos que a arquitetura sempre foi uma ferramenta de legitimidade do Poder, o que devemos nos propor agora é: Que poder queremos legitimar e que povo gostaríamos de empoderar?
Este é um desafio e uma oportunidade viável para o renascimento da arquitetura contemporânea no Brasil. Não podemos nos limitar a projetar a centralidade do país. A profissão está diante de um ponto de inflexão, que a escolha seja clara: reconstruir a arquitetura a partir da periferia, do interior, com força de quem acredita na transformação coletiva.
Quanto ao poder público, pode criar linhas de fomento e recurso para regiões pobres possam ser atendidas. Se isso nos soa algo inovador e talvez interessante de aplicar, o que digo é: basicamente este é o princípio pensado a décadas pelos ativistas da Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social. E suas ações diretas, soam quase quixotescas nestes muitos Brasis existentes que negligenciam a maior parte da população pobre. Tudo que precisamos é implementar o recurso, massificar a política e usar os bons exemplos como instrumentos de melhoria das políticas.
foto de Fred Loureiro/ Secom ES – original de Brasil de Fato
O Brasil, nesta semana, tornou-se o palco de um dos mais importantes encontros democráticos globais. Ao mesmo tempo, uma série de eventos articula ativistas e entidades da sociedade civil em torno de temas cruciais: governança, justiça social, e uma resposta urgente para a crise ambiental que já ceifa vidas e compromete gerações. Mas é impossível ignorar o paradoxo gritante: enquanto discutimos políticas para um mundo mais justo e ambientalmente seguro, nosso próprio país fecha os olhos para os crimes cometidos por mineradoras que exploram impiedosamente nosso solo, nossos rios e as vidas de comunidades inteiras.
A abertura do evento coincide, bizarramente, com o julgamento da SAMARCO – uma oportunidade perdida de fazer justiça a centenas de famílias e ao meio ambiente devastado pelo rompimento da barragem em Mariana. Um dos maiores crimes ambientais da nossa história recente expôs as entranhas de um sistema que protege o lucro ao custo do sacrifício de vidas pobres, deixando claro que o país que sedia o G20 não teve coragem de enfrentar o poder desproporcional do extrativismo de sua elite econômica. Milhares de toneladas de lama tóxica varreram o Rio Doce, soterrando sonhos e histórias, em um ato de violência impune contra a natureza, 19 pessoas, e as inúmeras famílias que dependiam do seu lugar para sobreviver. Em Mariana, o rompimento da barragem não só varreu vilas e comunidades, mas expôs, com uma violência gritante, a insensibilidade de um sistema que escolhe proteger o lucro ao custo de vidas. Esse crime ambiental expôs o preço de uma economia servil, que passa por cima dos mais pobres como se fossem descartáveis.
Essa tragédia não é isolada, é uma expressão clara do alinhamento político e classista que molda a realidade nacional. Um parêntese: É preciso que discutamos de maneira técnica e ética a responsabilidade que cabe. Nós, por exemplo, engenheiros, arquitetos, políticos e empresários têm responsabilidade diante de uma violência gerada por nosso erro. A ética profissional, longe de ser apenas individual, deve ser ancorada em uma perspectiva social, onde o “fiz porque fui mandado” deixa de ser uma desculpa para legitimar a destruição. Precisamos urgentemente de uma ética comprometida com o coletivo e com o meio ambiente, uma ética que não seja escrava do mercado. Fechando parênteses, retomemos o debate.
No Brasil, onde o abismo social é marcado pela desigualdade de voz, o G20, especialmente o G20 SOCIAL e o Urban 20, oferece uma chance ímpar de articular as lutas e reconstruir um espaço fragmentado. As discussões, as pautas e as deliberações desses fóruns não podem se limitar ao papel e anais a serem lembrados apenas no encontro seguinte: são um material precioso para reforçarmos a resistência contra os interesses que corroem nosso sistema planetário. Esses fóruns são espaços de luta, e não nos iludamos: sem uma luta efetiva contra o poder econômico e as elites corporativas que ditam as regras neste país, esses encontros se tornam espaços de catarse controlada, onde nossos gritos de justiça são abafados e o mercado continua dominando as decisões, deliberadas entre os donos do poder nos cafés da manhã dos hoteis, nos almoços e jantares exclusivos.
Enquanto a SAMARCO segue impune, operando, negociando com prefeituras, contaminando rios e terras, estendendo sua ganância sobre territórios vulneráveis. Outras mineradoras seguem o mesmo caminho, escoradas por uma lógica de mercado que coloca o lucro acima da vida. Esse é o retrato de um Brasil onde as grandes corporações controlam as políticas públicas, desdenhando da vida, da lei e da dignidade do povo. Temos que ser veementes em nossa posição, lutar e articular nossos interesses com força e clareza. Caso contrário, estaremos apenas domesticando nossas consciências, enquanto o poder faz seus acordos nos bastidores.
O G20 chega a um Rio de Janeiro que é vitrine dolorosa das contradições do Brasil. As delegações passam com velocidade pela periferia da cidade, das pistas do aeroporto para os hotéis. Neste Rio, barril de pólvora social, líderes globais tentam encontrar uma saída digna para um futuro que, a cada dia, se torna mais distópico.
É imperativo que transformemos esses fóruns em verdadeiros espaços de ação e resistência! Enquanto queimadas, inundações, fome, guerras e catástrofes climáticas se alastram, somos convocados a transformar os rumos da vida coletiva. A verdade é crua: o mundo mudou, e não há espaço para a inação. Não se trata apenas de uma escolha política, mas de uma necessidade de vida: ou disputamos a política global em todos os seus âmbitos, ou assistimos à destruição do que ainda resta de justo e humano em nossa sociedade.
A política é um campo das paixões, cujos afetos se constroem, em grande parte, pela linguagem. Seria leviano da minha parte fazer conjecturas definitivas sobre o possível retorno de Trump ao poder. Não falaria em “renascimento”, pois nunca o considerei, digamos, “morto”. O grupo político global ao qual Trump pertence – e é referência – permanece organizado e atuante no sistema contemporâneo. Demonstrando total capacidade de se manter firme em uma rede global.
Embora as redes sociais (muitas vezes taxadas como vilãs) valorizem a polarização e a autorreferência numa busca insólita por reconhecimento individual, não creio que isso explique, por si só, o fracasso do progressismo. Até porque existem redes que não operam nessa lógica, como o Discord, Mastodon, Couchsurfing, Goodreads entre outras. Também considero um exagero atribuir o fenômeno do trumpismo a um conjunto de erros do lado progressista, como se estivéssemos falando de eleições de duas décadas atrás. Prefiro encarar a dura e possível verdade: a pauta de Trump encontra eco nos corações de pessoas muito diversas, em diferentes partes do mundo. Além disso, esses grupos encontraram e aperfeiçoaram as ferramentas de linguagem e comunicação para alcançar esse impacto.
Hoje, em meio a uma mistura de insegurança econômica, mudanças culturais e medo da perda de identidade nacional em um mundo cada vez mais globalizado, abre-se espaço para uma busca desesperada por soluções rápidas e simplistas. É como se quiséssemos frear a Terra para encontrar algum eixo onde possamos ancorá-la.
A retórica de líderes extremistas ou populistas explora o desajuste em relação ao projeto de poder vigente, vendendo esse porto seguro. O modelo de poder articulado em organizações de representação (partidos, instituições, movimentos sociais, raciais, de gênero etc.) parece esbarrar em uma limitação: seu funcionamento exige a criação de uma máscara standard de imagem, capaz de gerar dados para políticas públicas com algum alcance expressivo. Contudo, a padronização, em uma sociedade tão complexa como a nossa, torna-se inviável atualmente. As ações afirmativas, por exemplo, atingem um teto estrutural: jovens cotistas, formados, que não encontram empregos dignos e precisam se lançar no empreendedorismo de sobrevivência, acabam esbarrando nos mitos do “self-made man”, encontrando ali algum tipo de referência para suas vidas.
Diante de um progressismo que não garante a completude da segurança psicológica e encontra limitações, o trumpismo, putinismo assim como o bolsonarismo no Brasil, trazem uma receita fácil para tempos de medo. Sugerem um inimigo comum – mesmo que mal definido –, seguido de um desejo coletivo: unir a nação, sermos “um só povo”, buscar a “grandeza”. Esse desejo, porém, carece de consistência prática, e aí paramos, pois não há soluções, apenas a retórica e a guerra para manter o inimigo comum vivaz nos corações apaixonados por um líder caricato.
Sugiro aqui, o retorno à linguagem como tema. “Palavras têm poder”, já dizia o profeta… ou talvez tenha sido minha avó, durante a infância. Uma das grandes viradas de chave em 68 foi a percepção das mudanças sociais: onde estavam os desencaixados no mundo polarizado pela guerra fria? Os desajustados? Essa discussão, sei, já está batida, porém ainda não solucionada. Somada a ela reside minha nova preocupação: os avanços da inteligência artificial podem concentrar ainda mais o poder político e econômico nas mãos de um pequeno grupo de pessoas ou corporações que controlam os dados e a tecnologia.
O paradigma da IA traz uma transformação radical na forma de acumulação de poder e exploração do capital, em contraste com o modelo de produção industrial. Antes, o capital dependia diretamente da força de trabalho humano; agora, a IA reduz essa dependência ao automatizar tarefas e dispensar a intervenção humana em diversas etapas produtivas. Grandes corporações e governos acumulam esses recursos, monopolizando os meios de produção e elevando a concentração de riqueza a níveis jamais vistos.
Essa mudança aprofunda o controle social e psicológico, com algoritmos que monitoram e manipulam preferências, criando uma nova “mais-valia comportamental”. A IA explora desejos e comportamentos de consumo, ampliando o lucro de forma indireta ao influenciar escolhas e subjetividades. O mercado de trabalho também sofre um impacto estrutural: o desemprego cresce com a substituição de trabalhadores por automação, e os empregos restantes tendem a ser mais precarizados, sem os direitos e o poder de organização típicos da era industrial. E a sobrevivência, o empreendedorismo real, torna-se a fusão completa de vida-trabalho-consumo, onde o made-yourself é a auto exploração e objetificação de si mesmo. Resta a humanidade que vive da sua força de trabalho, se auto vender enquanto objeto, retroalimentando as grandes plataformas que geram lucro. Seu novo trabalho nesta indústria é ser o próprio produto final vendido por ela.
Resistir às práticas exploratórias torna-se cada vez mais difícil.
Com a dissociação entre valor e trabalho, o paradigma da IA rompe o ciclo de reprodução do capital como o entendemos. A acumulação de riqueza continua sem a necessidade de redistribuir valor por meio de salários, uma vez que o capital pode ser reproduzido por máquinas e algoritmos. O capital, assim, torna-se menos dependente do trabalho humano, o que amplia as desigualdades e centraliza ainda mais o poder sobre a vida social e política. A IA impõe um desequilíbrio profundo ao sistema capitalista, redefinindo as bases da exploração e o papel da força de trabalho na sociedade.
Estamos diante de uma luta algorítmica que passa pela linguagem. Não é sensato pensar que a interface da IA ou das redes sociais seja um mero processo de manipulação; acredito que o maior desafio é perceber que elas criam camadas de existência relacional. Interfaces, mundos dentro de mundos. São novos territórios que se sobrepõem e se aproveitam do fato de que o espaço virtual, diferente do real, é infinitamente expansível em dimensões possíveis.
Hoje, as redes sociais permitem que os desencontrados e descontentes encontrem seus pares para dialogar e se organizar. Um jovem imigrante palestino, por exemplo, que não se sente representado pelas políticas de guerra do partido democrata, pode buscar apoio online. Mesmo que esse partido financie a guerra de Israel, ele acaba escolhendo Trump – alguém que, ironicamente, poderia deportá-lo para o centro do conflito, sem frear as ações israelenses. No entanto, em um futuro próximo, a IA poderá ir além: ela será capaz de criar personas virtuais que simulam uma presença real nesses debates.
Conclusão
Diante de um mundo repleto de inseguranças de futuro, surge um processo extremamente concentrador. A evolução de uma mais-valia comportamental, que já era prenunciada pela turma de maio de 68, capturada pelas redes algorítmicas trazem à tona um controle constante e sutil sobre a exploração da vida. Ampliando o controle psicológico por meio de tecnologias cada vez mais intrusivas.
A ameaça iminente é de um aumento das desigualdades estruturais e da concentração de poder nas mãos de corporações e elites políticas, tendo a IA como ocorrência desse processo. Ao redefinir as bases do trabalho e da acumulação, estamos testemunhando um desequilíbrio que pode alterar de forma irreversível a sociedade, reforçando uma natureza paradoxal do progresso tecnológico.
Precisamos retomar a linguagem como pauta e construir a premissa ética sobre a automatização do mundo e o controle algorítmico, enquanto os avanços estão acontecendo. Este novo controle da linguagem nos permitirá organizar minimamente um futuro de segurança no tecido social e econômico da Terra.
Nestas semanas onde o Rio prepara-se para receber o G20 cabe a nós ter este tipo de debate na pauta. A democratização do kernel, a abertura dos códigos e a disputa urgente do direito a esta nova linguagem.
Vivemos a intensidade de um novo mundo que se desenha entre tragédias. Este momento nos empurra para a borda de um novo modelo de vida, potencialmente transformador. Pela primeira vez, enfrentamos crises que atravessam a geografia desigual do planeta; o que antes parecia ficção, agora arrasta o coletivo.
A pandemia foi o primeiro grande alerta: um sinal de que as políticas públicas precisam superar fronteiras para alcançar essa nova esfera de interdependência. Em um passado recente, o pensamento progressista abandonou as disputas classistas e centrou-se na inclusão, na equidade, na justiça social, buscando a inserção democrática dentro do capitalismo. Hoje, porém, é inevitável incorporar à pauta uma dimensão ampliada que recupere o centro da discussão da produção e da desigualdade e inclua a crise ecológica – é na racionalidade sobre produção e consumo que repousa a sustentabilidade social, vital para a vida na Terra.
Sem essa dimensão, o sistema revela-se um organismo exausto. As enchentes em Valência são um retrato disso: a vasta extensão de terra tomada pelas águas grita uma realidade incontestável – não estamos prontos para os desastres naturais da era da superexploração. E no sul do Brasil, as chuvas caem sem distinguir no território, o recorte de classe. Desaba sobre todos, ainda que os mais ricos encontrem alguma proteção. Mas todos, sem exceção, sentem algum peso da tragédia.
Viver numa sociedade focada em mitigação e inclusão não resolveu o cerne da questão: o próprio modo de produção e reprodução do sistema está desalinhado com a capacidade de equilíbrio do planeta. A intensidade dos efeitos naturais sobre a vida humana exige uma ruptura, uma pausa que permita recomeçar – algo que soa utópico, até mesmo na literatura.
Contudo, é preciso lembrar: as tragédias globais apontam para a urgência de um modelo transformador. Crises são janelas para redesenhar o presente. A justiça climática poderia ser a base de um novo modelo, onde o poder econômico serve à sustentabilidade e à inclusão, rompendo o ciclo de exploração que multiplica as tragédias sociais e ambientais.
A pandemia nos deixou um eco profundo da fragilidade global e demonstrou a imensa necessidade da interdependência entre políticas públicas, saúde e sustentabilidade. O caminho aponta para a busca de sistemas de saúde integrados e políticas que criem uma “saúde planetária”, capaz de prever e mitigar futuras pandemias, reconhecendo o laço estreito entre degradação ambiental e zoonoses. Esse novo olhar sobre a vida – sistêmico, ecológico, preventivo – surge como urgência.
Asimov nos lançou um interessante paradoxo sobre tecnologia: “O fogo é perigoso a princípio, assim como a fala (…) mas os humanos não seriam humanos sem eles.” A tecnologia é parte do que nos define, ao mesmo tempo nos desafia. Em vez de apagá-la, devemos redirecioná-la, fazê-la pulsar por metas coletivas e planetárias, onde “techné” recupere seu sentido grego de habilidade útil, arte, equilibrada com a razão. Assim, não é a inovação tecnológica em si o problema, mas a ética que a rege.
Poderíamos então nos dedicar a outra ciência, uma ciência do ofício, do sensível e do toque ancestral. Em um mundo que se despedaça, recuperar o manejo sustentável da terra e dos biomas é inovador. A justiça ambiental emerge como uma expansão da luta por equidade, elevando o direito à vida para além da humanidade. A superexploração é um elemento a ser reescrito, com a diminuição das práticas extrativistas e a adoção de práticas regenerativas, ainda que isso traga rupturas profundas na organização global atual.
Adoramos a ciência moderna, que nos deu anos a mais de vida. Mas a imortalidade não é um parâmetro humano alcançável. Precisamos, talvez, de uma ciência que valorize a vida enquanto coletividade, que enxergue o humano demasiado humano enquanto um ser múltiplo, que deixe uma história viva após nossa passagem. Reconstruir escalas de valor, sem o romantismo de que a ação individual é o bastante. Um novo pacto passaria primordialmente pela articulação entre indivíduos, instituições e culturas. Formação de redes, encontro entre muitas vozes, ativismos locais, lideranças globais, são muitas as frentes que disseminam o caminho possível.
Há um desejo forte, de parte de lideranças globais, de estruturar uma governança para as grandes crises; mas essa iniciativa precisa das raízes locais, comunitárias. Precisamos atingir a microescala, aprender com a natureza a respiração de seus ciclos. Retomar o encontro do relógio maquínico com o tempo sagrado dos astros.
Alguns mitos e símbolos ancestrais nos ensinam sobre valores sustentáveis. Povos originários, em suas relações simbióticas com o sagrado da natureza, trazem outra ética. Em movimentos de direitos da natureza, como no Equador e Nova Zelândia, rios e florestas têm voz. Esse novo olhar ecológico, ao reintroduzir os mitos no debate ambiental, nos afasta da visão instrumental da natureza. Não falo sobre dogmas, verticalidades de pensamento, mas sobre o saber do sensível, da capacidade de religar-se com o que importa.
A urgência é, então, costurar a rede existente de forma que ela se entrelace com a governança global e local. Dar voz aos modelos de gestão e resistência que permitam decisões políticas concretas, enraizadas na realidade das micro escalas. Redes como o Navdanya, Pachamama.org, Rede Ambiental Indigena, Seed Freedom, Global Forest Coalition, Via Campesina, entre outros, nos permitem conhecer outros mundos possíveis. Mundos capazes de tentar frear o ciclo devastador e realinhar nosso modo de viver com as possibilidades reais do planeta.
Ultimo pedaço de terra livre
No alto dessa colina estamos reunidos sob o céu carregado. Somos camponeses, cientistas, poetas e anciãos de diversas etnias, unidos pelo propósito que nos sobrou. Transformar essa colina em um santuário de resistência e renascimento. Sem certeza de nada, apenas uma missão clara: desacelerar o tempo. Queriam, como quem retém a respiração, reconfigurar a existência.
Sentimos o peso da crise em cada camada da pele, mas ali, no silêncio coletivo, começamos a compreender o real significado do vínculo entre terra e vida. A humanidade, percebe atônita, não poderia sobreviver sem mudar o curso de seus passos.
Ali, plantamos as últimas sementes que nos alimentavam. A “ciência do toque”, técnica ancestral de cultivo e afeto com o ecossistema local. Ao lado do plantador, cientistas traduzem aquele saber em dados, replicáveis e espalháveis para outras comunidades. O que germinou em nós, espalhamos pelo mundo, como um fogo que arde em nome da cura. Será que há outros de nós por aí?
E no murmurar da madrugada que já não ve estrelas, em torno da fogueira debatemos um futuro onde a economia serve à terra e não o oposto. No silêncio da urgência, esta é uma revolução do sensível. Se um dia o futuro existir, começaria exatamente ali, sob o céu em murmúrio e o último solo fértil e livre. Ali respiramos o tempo calmo das sementes.
Esta semana, deparei-me com um novo elemento curioso na paisagem urbana. Pelo que observei, ele já está consolidado há algum tempo em certos pontos da cidade: totens espalhados por vias importantes de diversos bairros, construídos em material metálico, com uma luz verde que remete ao visual de “Matrix”, decorados com símbolos criptografados e a mensagem: “Esta rua é protegida pela Gabriel.”
Sem muito alarde, o Rio de Janeiro recebeu um novo tipo de controle social — desta vez, tecnológico e digno das literaturas de Orwell, Asimov, Neumeier e Miner, ou até mesmo das irmãs Wachowski. A tecnologia em si, assim como sua implementação na cidade, não é uma novidade. Ela me remete à transformação de um conceito comunitário estudado por Jane Jacobs, o dos “olhos da cidade”, em capital e negócio.
Não entrarei aqui no debate sobre a privatização total do controle da violência no Rio, tema que se manifesta em exemplos como o domínio de territórios por forças paramilitares diversas. O foco, neste caso, é o fim da urbanidade e a terceirização dos olhos das ruas. Modelos tradicionais de bairro, que sempre foram vendidos pela ideia de encontros, de relações diretas com o espaço público, com o diferente e o inesperado, perderam a disputa subjetiva. A “condominialização” da vida venceu, e isso nos diz muito sobre como a cidade pode ser completamente terceirizada.
A vida condominial transfere responsabilidades significativas do Estado para grupos privados. Vias públicas inteiras passam a ser monitoradas por sistemas variados: síndicos, associações de moradores, lideranças locais, empresas de segurança, entre outros. A vigilância por câmeras, que o próprio Estado já promoveu com iniciativas como o COR (Centro de Operações Rio), agora divide espaço com empresas como a Gabriel.
Um aspecto intrigante da câmera é sua estética própria, claramente bem estudada, que vai das cores às mensagens e aos símbolos, sua cor verde, seus signos criptografados no totem e até mesmo seu nome próprio masculino sendo tratado pelo gênero feminino. Esses elementos constroem uma “persona” e uma mensagem, como nos ensinaram os grandes pensadores da ficção científica e os grandes religiosos do mundo. À primeira vista, pode parecer o mesmo modelo de negócio do COR, mas o universo simbólico em torno da Gabriel aponta para outra direção. A câmera quer ser vista, decifrada e, acima de tudo, quer nos vigiar 24 horas por dia.
Ironicamente, num mundo onde o direito de ir e vir e a defesa da vida privada são tratados quase como mantras por aqueles que defendem esse modelo de segurança, essas empresas têm o poder de transformar nosso cotidiano em um verdadeiro “Big Brother”, usando a segurança como justificativa. Outra ironia: os mesmos defensores dessas câmeras nas ruas muitas vezes se opõem ao uso delas para monitorar operações policiais.
Curiosamente, a presença da Gabriel não parece ter tido um impacto significativo na redução da criminalidade ou na sensação de segurança entre a população, assim como o COR tampouco teve. No entanto, essas câmeras foram fundamentais para registrar casos de abuso de poder policial e racismo, como o que ocorreu com os jovens negros, filhos de diplomatas, em Ipanema.
O povo, em geral, parece indiferente à presença vigilante passiva desses totens — soldados eletrônicos privados que tudo veem — assim como são com relação às câmeras do COR. Quanto a nós, é preciso compreender um ponto crucial: nenhuma tecnologia aplicada está isenta das escolhas humanas. E é nisso que devemos nos concentrar ao lidar com as “Gabriels” e CORs da vida. Vale lembrar que, quando certas forças de poder na cidade quiseram executar Marielle Franco, algumas câmeras do COR simplesmente fecharam os seus olhos.
Este é o ponto, o problema não está nas tecnologias por si mesmas, mas sim na nossa relação com elas. Este talvez tenha sido uma das lições mais importantes que Asimov nos deixou. Portanto, fica o recado a todos esses olhos que nos vigiam: estou ligado no movimento.
A gestão pública é um campo que exige um equilíbrio complexo entre conhecimento técnico, administrativo, jurídico e político. Enquanto a experiência puramente militante pode fornecer uma base de engajamento político e definir prioridades, a gestão pública demanda um enfoque técnico para que essas políticas se tornem realidade. Sem esse equilíbrio, há o risco de que as pautas definidas jamais se transformem em resultados concretos e mensuráveis. A prática da gestão pública é marcada pela necessidade de procedimentos formais, controle social e uma vasta rede de regulações que orientam o uso dos recursos e a prestação de serviços à coletividade.
Entro muitos fatores, destaco que: o desequilíbrio conceitual surge dois. De um lado, há forças altamente qualificadas na produção política, mas que falham na execução burocrática. Do outro, estão aqueles que não compreendem as distinções entre o público e o privado, o que desvirtua a administração pública de suas funções principais. Como resultado, órgãos públicos não conseguem cumprir plenamente suas responsabilidades para com o povo.
Assim, destaco o seguinte recorte: a distinção entre o público e privado. Estes já começam na finalidade, no papel social. A administração pública tem como objetivo constitucional o atendimento ao interesse coletivo, que estabelece os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Em contraste, a gestão privada onde resultados financeiros, competitividade no mercado e lucro para os acionistas ou proprietários são foco.
Essa diferença fundamental reflete-se nas práticas, legislações e restrições que regulam cada área. No privado, o tripé mercado-trabalho-receita guia as máquinas de sua regulação. Já o gestor público está sujeito a um complexo sistema de controle externo, como tribunais de contas, controladoria geral, entidades fiscalizadoras, Lei de Responsabilidade Fiscal. Esse instrumental de segurança ao Erário impõe limites rigorosos, tornando a flexibilidade do setor privado um privilégio raro no setor público. A responsabilidade administrativa no setor público preza pela severidade e segurança.
Lidar com o bem comum é mais complexo do que com o privado. Isso torna a tomada de decisão da administração pública mais lenta. Seguem-se ritos que garantam ampla participação social, como processos licitatórios, consultas públicas e debates em câmaras. No setor privado, as decisões são mais ágeis, geralmente passando apenas pelos gestores ou, no máximo, por assembleias de acionistas.
A contratação de pessoal e a transparência são pontos cruciais. No setor privado, contratações e demissões são ajustes de mercado. No público, a admissão ocorre via concurso, garantindo impessoalidade, transparência e eficiência, promovendo igualdade de oportunidades e prevenindo favorecimentos. Além disso, a gestão pública exige maior transparência, com a divulgação de contratos, licitações e execuções orçamentárias, permitindo a fiscalização pela sociedade.
O orçamento é outra distinção. No setor privado, há mais liberdade para relocar recursos conforme o mercado, estratégias de gerencia e governança corporativa. No âmbito da gestão pública, por sua vez, o orçamento segue normas rígidas e protetivas, como a Lei Orçamentária Anual e o Plano Plurianual, limitando a capacidade de reação rápida a imprevistos.
Diferente do setor privado, onde a responsabilidade geralmente está vinculada ao cumprimento de contratos e à satisfação dos acionistas. Gestores públicos estão sujeitos à Lei de Improbidade Administrativa, que pode acarretar penalidades severas, incluindo a perda do mandato, em casos de má gestão ou corrupção.
Diante dessa realidade, é imprescindível que o gestor público tenha um viés de função social. Ele deve entender que sua responsabilidade vai além da política ou da técnica: é necessário ser um exímio trabalhador, um cuidadoso articulador, capaz de unir conhecimento técnico, políticas sociais e a complexidade administrativa do espaço que gere. A capacidade de equilibrar as demandas da população com as exigências formais da administração pública é o que distingue de verdade um proeminente líder. Somente assim é possível transformar as políticas desejadas em resultados concretos que beneficiem a sociedade como um todo.
Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Brasil registrou mais de 90 mil focos de incêndio apenas na Amazônia em 2023, um aumento alarmante em comparação aos anos anteriores. No Cerrado, os números também são preocupantes: cerca de 60 mil focos no mesmo período. Esses números expõem uma crise ambiental alimentada de maneira significativa pelo modelo atual de agronegócio, que favorece a expansão da fronteira agrícola em detrimento de florestas e matas nativas. Expansão está, muitas vezes, feita à base de arranjos políticos somados ao fato de que temos uma elite com sistemas cognitivos encurtados, pessoas que não conseguem compreender o mundo de maneira sistêmica e se satisfazem com o fetiche do luxo.
O agronegócio é o motor econômico brasileiro, impulsiona o PIB e muda a cara de cidades pequenas e médias Brasil afora. Mas o modelo em voga, ao manter a ênfase em monoculturas e pecuária extensiva, fomenta o desmatamento e as queimadas. A prática de “limpar” áreas com fogo para plantio ou pastagem ainda é recorrente e se agrava pela falta de fiscalização eficaz. Além disso, a flexibilização das leis ambientais e o enquadramento dos órgãos de fiscalização, como o IBAMA, permite que essas práticas predatórias avancem sem punições adequadas.
Para além dos danos ambientais, o que já é inaceitável para um País com os biomas estratégico para o Planeta como o nosso, essa relação direta afeta a saúde pública devido a emissão de substâncias poluentes, contribuindo para a mudança climática e prejudicando o comércio internacional, que se propõe cada vez mais sustentável.
Isto é, não precisamos sequer apelar à consciência dos fomentadores do agro, a própria economia mostra que o caminho que percorrem terá um desfecho péssimo. A competitividade do Brasil no mercado global se põe em risco, pois cada vez mais consumidores e investidores bloqueiam negócios com quem tem práticas como as que o Brasil mantém. Dentro desta conjuntura internacional, logo nosso modelo que produz: poluição, aquecimento global e alimentação ultra processada se tornará antiquado e indesejado deixando como resquício a imensa sobrecarga no sistema de saúde pública devido às inúmeras doenças que ele acarreta.
É inviável reverter esse cenário sem um esforço nacional que vá além de medidas paliativas e emergenciais. Algumas sugestões:
Revisão do Código Florestal : É crucial revisar e fortalecer o Código Florestal, garantindo que as áreas de preservação permanente e de reserva legal sejam efetivamente protegidas, inclusive ampliando estas demarcações para que recuperemos terras perdidas. Isso implica em maior rigor na fiscalização e na aplicação de multas para quem desmata ilegalmente.
Incentivo à Agricultura Sustentável : Redirecionar políticas de subsídio e crédito para práticas agrícolas sustentáveis, como sistemas agroflorestais e integração laboral-pecuária-floresta (ILPF). Esse modelo promove a recuperação do solo e reduz a necessidade de abertura de novas áreas para a agricultura.
Tecnologia e Inovação no Combate a Incêndios : Investir em tecnologias de monitoramento e combate a incêndios, incluindo satélites, drones e inteligência artificial, que permitem a detecção precoce e a resposta rápida aos focos de incêndio. Além disso, o treinamento e a capacitação das brigadas de combate ao fogo são essenciais.
Valorização da Floresta em Pé : Criar mecanismos de valorização econômica da floresta em pé, como o pagamento por serviços ambientais e o mercado de créditos de carbono. Isso gera um incentivo econômico para o produtor preservar a vegetação nativa do que expandir a agricultura predatória.
Educação Ambiental : Promover e ampliar programas de educação ambiental nas comunidades rurais e urbanas, conscientizando sobre os impactos das queimadas e a importância da preservação dos recursos naturais. A formação de uma consciência coletiva é essencial para mudar comportamentos a longo prazo. É preciso que o meio ambiente esteja de forma clara na grade curricular.
Saúde preventiva : Promover o monitoramento integral e sistêmico das relações entre doenças e o ramo de atividade econômica do agronegócio. Aumento de doenças causadas por problemas respiratórios, calor e doenças causadas pelos produtos lançados no mercado para consumo da população.
As queimadas são um desafio estrutural que envolve o futuro do nosso desenvolvimento econômico e social. Na atual esfera da emergência, somos obrigados a reavaliar o modelo e adotar políticas que assegurem um equilíbrio entre a produção agrícola, posse de terras e a preservação ambiental. Como já anunciavam os zapatistas, “nada é impossível para quem não tem nada a perder”; e estamos, agora, na iminência de perder tudo: nossa terra, nossa água, nosso ar. O Brasil está em uma encruzilhada, onde resistir já não é mais uma escolha, mas uma necessidade urgente. Só assim será possível garantir um futuro sustentável para as próximas gerações. Na verdade, só assim será possível garantir algum futuro — um onde a fumaça que cobre os céus sejam só uma triste memória e não o nosso destino.
A crise climática e os desafios de saúde coletiva revelam um panorama que vai além das fronteiras nacionais, exigindo uma resposta coordenada e efetiva em escala global. No entanto, para que essa resposta seja genuína, precisamos de um novo paradigma de governança que não apenas integre o tripé político, técnico e econômico, mas que também valorize e empodere o que chamamos aqui “mundos menores” (uma paráfrase deleuziana) — pequenas comunidades, cidades periféricas, povos tradicionais e regiões historicamente marginalizadas que muitas vezes possuem soluções interessantes e inovadoras.
O Paradigma dos Mundos Menores: Uma Governança de Baixo para Cima
Historicamente, a governança global tem sido centralizada em grandes metrópoles e centros de poder econômico, que ditam as diretrizes políticas e tecnológicas, frequentemente ignorando as realidades e conhecimentos dos mundos menores.
Esse modelo centralizado não apenas perpetua desigualdades, mas também limita a capacidade de resposta a crises complexas, como a emergência climática e os desafios de saúde coletiva, que requerem soluções adaptadas às especificidades locais.
Os mundos menores, entretanto, têm mostrado uma potência que as grandes estruturas de governança global frequentemente falham em replicar.
Pequenas cidades, comunidades rurais e povos tradicionais operam com uma lógica de proximidade com a natureza e um senso comunitário que possibilitam respostas rápidas e eficazes a desastres.
Exemplos como o manejo do fogo pelos aborígenes australianos ou as respostas dos Moken aos tsunamis mostram que, muitas vezes, a sabedoria ancestral e local é mais eficaz do que as tecnologias impostas de cima para baixo.
Integração Política: Descentralizando o Poder e Empoderando as Comunidades Locais.
O primeiro passo para um novo paradigma de governança global é a descentralização do poder político. É necessário que a tomada de decisões seja compartilhada, incorporando as vozes e conhecimentos das comunidades locais como parte ativa dos fóruns globais. Essa integração não deve ser meramente simbólica, mas estrutural, garantindo que as prioridades das minorias e das regiões periféricas sejam colocadas no centro das políticas climáticas e de saúde.
Devemos fomentar os conselhos globais de governança de maneira que incluam representantes das comunidades locais, pequenos municípios e minorias. Esses conselhos teriam poder de deliberação e influência sobre as políticas internacionais, promovendo uma troca constante de saberes e experiências entre o global e o local. A governança deixaria de ser um monólogo das grandes potências para se tornar um diálogo genuíno e multidirecional.
A Força Técnica dos Mundos Menores: Redes Locais e Conhecimentos Ancestrais
Em termos técnicos, os mundos menores trazem uma riqueza de conhecimentos que pode revolucionar a forma como enfrentamos as crises climáticas e de saúde coletiva. A integração de saberes tradicionais com tecnologias contemporâneas cria soluções adaptáveis, acessíveis e sustentáveis. Esse modelo híbrido de ação técnica valoriza o que é tradicional, sem ignorar os avanços tecnológicos globais, promovendo inovações que realmente atendam às necessidades das comunidades.
Faz-se necessário implementar uma rede aberta e descentralizada de cooperação técnica que conecte cidades pequenas, comunidades rurais e povos tradicionais com centros de pesquisa e inovação, facilitando a troca de dados, práticas e tecnologias. Plataformas colaborativas de acesso aberto permitiriam que soluções locais fossem amplamente disseminadas, oferecendo modelos replicáveis de resiliência e adaptação.
Por exemplo, mediante um território propício a tsunamis, podemos elaborar a implementação de sistemas de alerta que utilizem tanto tecnologias de ponta quanto sinais naturais reconhecidos por comunidades locais, como alterações no comportamento animal ou mudanças climáticas perceptíveis, criando um sistema de alerta antecipado que é ao mesmo tempo preciso e culturalmente relevante.
Economia Inclusiva
O financiamento de ações climáticas e de saúde coletiva precisa ser reimaginado sob uma perspectiva de justiça econômica que reconheça a importância dos mundos menores. Os atuais mecanismos financeiros internacionais frequentemente favorecem grandes projetos que beneficiam principalmente centros urbanos e países desenvolvidos, deixando as comunidades mais vulneráveis à margem.
Sugiro estabelecermos fundos descentralizados e de fácil acesso para financiar iniciativas locais de adaptação climática e saúde coletiva. Esses fundos seriam geridos por conselhos comunitários, garantindo que os recursos sejam direcionados para as necessidades reais das populações. A criação de parcerias público-comunitárias, em que empresas privadas se comprometem não apenas com o financiamento, mas também com a cocriação de soluções junto às comunidades, fortaleceria a economia local e incentivaria a inovação.
Projetos de microfinanciamento que apoiem a adaptação climática em pequenas comunidades, como sistemas de captação de água de baixo custo, hortas comunitárias para segurança alimentar, e clínicas de saúde integradas que combinam medicina tradicional e moderna.
Governança Global a Partir dos Mundos Menores
Os desafios da emergência climática e da saúde coletiva não serão superados com mais do mesmo. É necessário romper com o modelo centralizado de governança que privilegia as metrópoles e adotar um novo paradigma, onde os mundos menores são reconhecidos não como beneficiários, mas como protagonistas das soluções globais. Descentralizar o poder político, integrar conhecimentos técnicos locais e criar uma economia inclusiva são passos fundamentais para construir uma governança que seja verdadeiramente global e que responda às complexidades do nosso tempo.
Ao valorizar as comunidades locais e empoderar as minorias, podemos criar um sistema de governança que não apenas enfrente as crises climáticas e de saúde coletiva, mas que também promova justiça, resiliência e inclusão. Esse é o caminho para um futuro sustentável, onde as soluções emergem de baixo para cima, refletindo a diversidade e a riqueza dos mundos menores que formam o nosso planeta.