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Fome Global: Território, Violência e Redes

A Fome Global: Crises, Violência e Redes

Quem vivenciou Conjuntos Habitacionais sabe que uma regra é clara. Mesmo que você odiasse sua vizinha, você não recusava emprestar um pouco de arroz. As redes de solidariedade dos pobres formam um caráter para além de uma relação moral. Partilhamos para sobreviver. 

Uma das mais graves crises humanitárias contemporâneas é a fome global. Em 2021, estimou-se que cerca de 800 milhões de pessoas enfrentaram a fome, enquanto mais de 3 bilhões não tiveram acesso a dietas minimamente saudáveis. Esses números refletem uma desigualdade social brutal, agravada pela pandemia de COVID-19 e pelo avanço de políticas antiquadas, que impactaram profundamente os sistemas de distribuição alimentar. No Brasil e em outros países periféricos, a crise sanitária escancarou essas desigualdades e tensionou ainda mais o retorno do país ao mapa da fome.

Um Cenário Complexo

Resolver a crise da fome não parece ser tão simples. As mudanças climáticas, extremamente intensificadas pelas práticas agro-predatórias,  comprometem a produção do campo. O agronegócio, além de explorador, financeiriza a cultura alimentar, eleva os preços e reduz a acessibilidade. Para além da exploração dos biomas, há também uma crise distributiva: mesmo onde há comida, a desigualdade impede que ela chegue a quem tem fome. Transforma-se alimento em alternativa de lucro, mercantilizando-o e criando um impedimento significativo na equidade e direito alimentar.

Somado a isso, destaco também que, os conflitos armados (em suas muitas formas) desempenham um papel significativo no aumento da fome. Países como Sudão, Nigéria e Somália são exemplos onde a guerra destroi infraestruturas agrícolas, recursos hídricos e cadeias logísticas de suprimento. Sudão, por exemplo, representa o terceiro maior exportador de cana de açúcar do mundo, demonstrando claramente que a relação entre território e fome não é mais complexa do que nos parece. Esses conflitos, além do acima citado, também forçam deslocamentos populacionais, agravando ainda mais a crise humanitária.

Vale ressaltar aqui que: Em muitos territórios de conflito, a fome é usada como arma de guerra, destruindo povos inteiros, que atuam de maneira direta ou indireta nos combates, Um exemplo do modus operandi é a prática de bloqueio de ajuda humanitária, como apresentado pelo relatório do Conselho Norueguês para Refugiados, indicando o bloqueio – por Israel – da entrada de 83% da ajuda alimentar necessária à população de Gaza em 2024.

A violência urbana, comum no Brasil, também afeta esta lógica da fome. Indivíduos que assimilam sua vizinhança como violenta e pobre têm maior probabilidade de enfrentar insegurança alimentar. A violência urbana, em suas muitas formas, limita o acesso a serviços essenciais, oportunidades econômicas e, em casos extremos, resulta em deslocamentos internos e desestruturação de comunidades inteiras. Esta instabilidade afeta diretamente a produção e distribuição de alimentos. Qual o papel do urbanista em relação a isso? Aqui lembro que Sassen aponta a crise sistêmica e nos traz como elemento pertinente o novo mercado global de terras.

No âmbito do território, o impacto do novo mercado global de terras organiza a precariedade social.  A concentração para monoculturas voltadas à exportação reduz a disponibilidade de alimentos básicos no mercado interno e eleva preços, agravando a insegurança alimentar. Além disso, a exclusão de pequenos agricultores para a indústria do agrobusiness contribui para o constante êxodo rural, forçando ainda mais o crescimento das periferias urbanas. Nessas, diante da falta de emprego e infraestrutura adequada, resta aos pobres se inserir nas economias informais ou se vulnerabilizam diante de uma estrutura de mercado de violência urbana, criando um ciclo de precarização social que conecta diretamente a gestão desigual da terra, seja ela urbana ou rural.

No Brasil, em especial no Rio de Janeiro, a violência armada é parte deste sistema de controle territorial complexo. As políticas de segurança pública frequentemente operam como estratégias de controle territorial, com incursões violentas em favelas e comunidades periféricas que, além de afetarem diretamente a vida dos moradores, desorganizam atividades econômicas locais, como o comércio de alimentos e pequenos negócios, criando um ciclo de precariedade que conecta a violência urbana ao agravamento da insegurança alimentar. As operações também influenciam o mercado especulativo de terras urbanas, ao redesenhar o valor e o uso dos territórios urbanos em função do medo. 

A violência no campo no Brasil é diretamente associada à luta por terras e à concentração fundiária, impactando diretamente a produção de alimentos. Grilagem, ameaças e assassinatos de líderes comunitários são práticas corriqueiras de um Brasil que queremos esconder. Conflitos entre grandes latifundiários, pequenos agricultores e comunidades tradicionais, frequentemente mediados por ações violentas, resultam no deslocamento massivo de famílias, no abandono de terras produtivas e na redução da produção de alimentos destinados ao consumo interno.

A violência no campo também está ligada ao mercado especulativo de terras, onde conflitos são muitas vezes alimentados pela valorização de grandes extensões de terra como ativos financeiros. Além disso, projetos de infraestrutura, como hidrelétricas e estradas, impulsionam a valorização das terras, resultando na expulsão de comunidades locais em favor da especulação, concentrando ainda mais a posse e propriedade de terras nas mãos de poucos. Exemplos cotidianos incluem a expulsão de trabalhadores rurais para dar lugar a monoculturas voltadas à exportação, como soja e cana-de-açúcar, o que reduz a diversidade agrícola e contribui para a elevação dos preços dos alimentos básicos nas cidades, agravando a crise alimentar nacional.

Um projeto concreto de segurança pública precisaria partir de uma lógica mais complexa. Reduzir a relação ostensiva, comprovadamente inócua e elaborar um programa centrado na Segurança ambiental, Sanitária e de Saúde Coletiva, associada a equidade territorial. Assim, ponderamos a importância de planejar um sistema inteligente de segurança pública a partir destes pilares, de modo que tratemos a segurança como uma extensão do direito à vida e não da guerra.

Políticas Necessárias

Apesar de ser um texto de caráter mais opinativo, fica perceptível, sem muita análise academica profunda, que enfrentar a fome global exige mais do que simplesmente distribuir alimentos: é necessário reduzir a violência armada e tratar as causas estruturais da fome, como a concentração desigual da terra. No Brasil, políticas que promovam um futuro para territórios pobres são essenciais. Um povo com fome se torna um povo vulnerável à barbárie.

Um exemplo a se pensar, seria a criação de uma Política Global de Justiça Alimentar, estruturada de maneira supranacional, dividida em quatro níveis articulados em rede: global, regional, nacional e local.

  • Global: Coordenando a criação de diretrizes internacionais, tratados e políticas globais de eliminação da fome, implementação de um fundo financeiro de auxílio, alimentado por nações desenvolvidas e corporações. Criando também um tribunal internacional para julgar crimes de guerra relacionados à fome
  • Regional: Blocos econômicos como o BRICS, MercoSul, União Europeia podem coordenar reservas regionais de alimentos e promover políticas integradas de distribuição destes produtos. Garantimos assim, por ação política, melhor acesso a alimento aos mais pobres dos países que pertencerem ao acordo regional. 
  • Nacional: Políticas de redistribuição de terras e incentivo à agricultura familiar. Organização da logística nacional de distribuição de alimentos. Elaboração de um programa de Pesquisa e Desenvolvimento capaz de melhorar tecnologias, voltados especialmente para práticas de agrofloresta e agricultura familiar.
  • Local: Organizar Cooperativas agroalimentares, bancos de sementes e programas de educação alimentar. Estruturar instituições públicas para garantir que o alimento chegue na base da sociedade: entre elas, fortalecer o projeto alimentar e cumprir todas as refeições dentro das escolas de ensino básico e médio, por exemplo.

Sabemos que implementar um sistema como esse não seria fácil. Corporações do agronegócio e do mercado internacional de terras provavelmente resistiriam, e países dependentes de atividades agro-predatórias talvez se opusessem a regulações redistributivas. Além disso, haveria também resistências burocráticas de organismos internacionais na construção de âmbitos políticos, e em nível local, comunidades poderiam interpretar iniciativas globais como interferência em sua autonomia.

Mesmo assim, a governança organizada em rede se mostra potente e promissora. Por meio de blockchain e ferramentas de georreferenciamento, seria possível por exemplo, monitorar os fluxos alimentares e identificar áreas críticas, promovendo soluções rápidas e sustentáveis.  As tecnologias de IA e digital twins oferecem soluções que podem colaborar na organização logística de distribuição alimentar em contextos de vulnerabilidade social. Podem prever padrões de demandas com base em variáveis socioeconômicas e dados, otimizando rotas de entregas, reduzindo desperdícios e custos operacionais. Criar simulações de fluxo e testar alternativas em tempo real. Com machine learning, podemos mapear regiões prioritárias e garantir a distribuição com eficiência econômica, transparência e velocidade.

Se garantirmos os resultados abertos e utilizarmos uma rede peer to peer, podemos proporcionar menor burocracia e maior autonomia das comunidades locais que seriam atendidas, descentralizando e garantindo o compartilhamento direto dos dados para as organizações locais e movimentos sociais de combate a fome, eliminando a necessidade de uma cadeia de intermediários e burocracias.  Com acesso a essas tecnologias, as redes solidárias podem se expandir.

Enfrentar a fome é uma questão de justiça social e sobrevivência planetária. Uma abordagem integrada, baseada na colaboração global e local, é essencial para superar a crise alimentar. Mais do que alimentar corpos, precisamos nutrir sistemas que promovam dignidade e equilíbrio ambiental. O caminho é complexo, mas não é inalcançável e exigirá articulação dos precarizados. A pergunta: estamos prontos para redesenhar o mundo ou morreremos de fome?

foto de autoria desconhecida
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Descentralizar o saber técnico é um desafio estrutural no Brasil

A desigualdade regional no Brasil gera uma das maiores dificuldades de articulação para projetos nacionais. A disparidade de bens, serviços e qualidade de vida oferecidos entre as regiões intensifica a concentração de serviços qualificados no Sudeste e Sul. Entre os muitos reflexos desse modelo está a concentração do conhecimento técnico-científico, que cristalizou um padrão de desenvolvimento desigual.

O país precisa enfrentar um desafio: como modificar esse fenômeno? Como criar uma estrutura sistêmica que amplie as capacidades de adaptação e inovação em regiões onde a economia ainda é muito pobre? Programas foram implementados, mas esbarram em problemas estruturais e na descontinuidade.

A expansão de universidades no interior trouxe avanços, mas muitos campi enfrentam a ausência do básico: laboratórios, bibliotecas e internet. Soma-se a isso um desalinhamento entre os cursos oferecidos e as vocações econômicas locais, além da dificuldade de atrair e reter pesquisadores em cidades que não oferecem o mesmo magnetismo material e simbólico do Sudeste e Sul.

Políticas de incentivos fiscais, como a Zona Franca de Manaus, também têm suas limitações. Embora atraiam indústrias, frequentemente resultam em enclaves econômicos desconectados das comunidades locais, sem transformar a base da economia regional. Da mesma forma, programas como o Mais Médicos mostraram que incentivos financeiros são insuficientes para fixar profissionais em áreas remotas. Sem uma estrutura de suporte, como moradia, segurança e acesso a serviços, a rotatividade desses trabalhadores segue alta, comprometendo a continuidade das ações.

Precisamos reconhecer que a maior parte do Brasil é formada por essas cidades e que criar estratégias de desenvolvimento regional para torná-las mais atrativas em qualidade de vida pode ajudar a reverter o processo de evasão da mão de obra qualificada que está hiper centralizado no eixo sul-sudeste.

A descentralização do saber técnico-científico , porém, exige mais do que boas intenções. É preciso articular infraestrutura educacional, incentivos econômicos, conectividade digital, redes de colaboração nacional e baratear a logística nacional, melhorando a capacidade de translado e conexão modal entre as inúmeras cidades deste País. Investir na formação de pólos de conhecimento alinhados às demandas locais e garantir a continuidade administrativa são passos fundamentais para superar a fragmentação que compromete a eficácia dessas políticas.

Este desafio é imenso. A governança brasileira, com sua complexidade federativa, exige alinhamento entre as esferas de poder, algo que frequentemente se perde em políticas descoordenadas e sobrepostas, além de inúmeras disputas de pequenos e grandes poderes. Isso nos obriga também a impessoalizar alguns processos administrativos e políticos estratégicos, visando mitigar a capacidade destes ficarem amarrados ao personalismo de lideranças.

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A Dor do Pobre: 4614/24 e Desigualdade na Nova Política Fiscal

Quero começar este texto com uma frase curta e incisiva de Pagu: “A dor do pobre é o dinheiro”. As políticas de arcabouço fiscal do governo Lula ilustram bem essa frase. A PLC 4614/2024 é sobre isso. 

Duas medidas são duras: o aumento real do salário mínimo atrelado aos índices anuais efetivos de crescimento da despesa primária, conforme fixados na LC 200; e a exigência de que, para fins de concessão do BPC, a pessoa com deficiência seja definida como aquela incapaz de viver de forma independente e de trabalhar. De cara lhes digo: para o governo, o pobre é um gasto.

Ao impor um teto ao salário mínimo e limitar o acesso ao Benefício de Prestação Continuada, o governo abandona milhares de brasileiros já vulneráveis, deixando-os ainda mais expostos à precariedade, largados ao relento. Convém lembrar, bolsas e benefícios são, por si só, um atestado da incapacidade do Estado de enfrentar estruturalmente os problemas de desigualdade psico-socioeconômica que afetam o país.

O Projeto de Lei 4614/2024 exige que o beneficiário comprove incapacidade absoluta para a vida independente e para o trabalho. Esse requisito entra em conflito direto com o conceito de pessoa com deficiência (PCD) já consolidado no Brasil, em alinhamento com a ONU, que estabelece: “Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas”.

Assim sendo, o que o governo promove é a exclusão de um benefício afirmativo sem dar condições sociais para completa integração das pessoas a dignidade plena e todos os direitos civis. Entendemos que, mesmo a deficiência em um grau aparentemente leve carrega a longo prazo uma série de dificuldades ao longo da vida, ainda mais em um país pobre como o nosso. 

O que o governo promove, portanto, é a exclusão de um benefício afirmativo sem oferecer as condições sociais necessárias para a plena integração dessas pessoas à dignidade e aos direitos civis. Mesmo uma deficiência considerada leve pode, a longo prazo, acarretar sérias dificuldades — ainda mais em um país marcado pela pobreza como o nosso. Tanto estes benefícios, quanto o salário mínimo não se justificam como economia, visto ser um dinheiro que circula novamente na economia, tão logo é recebido.

Quando junta esta política com a aprovação da precarização do professor no Rio de Janeiro, o recado dado permanece: reduzimos a ajuda permanente e dificultamos as condições de ensino. Admira-me a esquerda se alinhar a este tipo de projeto, rasgando bandeiras históricas de lutas populares e por um mundo igualitário. 

Ao combinar essas políticas com a recente aprovação da precarização do trabalho docente no Rio de Janeiro (e no restante do Brasil), o recado é claro: reduzimos a ajuda permanente e precarizamos o acesso digno à educação. 

Surpreende ver setores da esquerda (incluso o governo) alinhados a esse tipo de projeto, que contradiz bandeiras históricas de lutas populares e pela igualdade. O projeto do Brasil desenha um país com um planejamento frágil, baixíssimo fomento em desenvolvimento real, subserviente ao agronegócio. Um país que escolheu o pobre como alvo de seu projeto de controle social e econômico. 

Não é pelo dinheiro economizado, é pelo valor que “sua cabeça agora está custando”. Com menos renda e salário, o que o governo faz é aumentar a massa de reserva de trabalhadores barateados pela necessidade de sobrevivência. Ao mesmo tempo, seguem os privilégios das famílias donas do poder, das OSs, das BETs e de inúmeras estruturas legais ou ilegais que gerenciam e rateiam o Brasil. Infelizmente, jogaremos fora um dos maiores ativos do País: o bem-estar e a dignidade do seu povo, Não terá narrativa ou militância que salve a esquerda do ônus destas decisões estapafúrdias.

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Falta d’água no Rio: Urge colocar a Água como centro da Política global!

A equidade sanitária é um desafio urgente para a nossa região metropolitana. A cidade do Rio está há dois dias sem acesso à água. Locais de trabalho e lazer fechados para garantir o racionamento. E mal começamos o verão.

Fui criança em um bairro que não recebia água regularmente. Na época, eu naturalizava, ainda não tinha conhecimento técnico sobre o problema real. Assim como eu, muitos cariocas são assim e por isso tendem a normalizar a crise. Ter uma cisterna grande (para quem podia), ligar a bomba e garantir a caixa cheia fazia parte do cotidiano. Sabíamos que, dia sim, dia não, ficaríamos à míngua. É surreal pensar que uma cidade com tantos recursos hídricos como a nossa, optou por um modelo de abastecimento centralizado em uma única fonte.

Mais surreal ainda é saber que, ano após ano, esse recurso sempre chega primeiro às regiões mais nobres, independentemente da distância. Para quem não conhece o Rio, o Guandu está mais próximo de bairros como Santa Cruz, Campo Grande, Sepetiba, Bangu e Realengo, todos na Zona Oeste ou Norte da cidade. Bairros que estão, literalmente, ao lado e ficam dias e dias sem água.

Nos últimos anos, tornou-se comum ver a cidade inteira parar por alguns dias devido à falta de água. São muitos os problemas, mas o principal é a ausência de uma política nacional que trata o recurso hídrico como prioridade estratégica e direito humano básico. Não há vida na Terra sem água. Se continuarmos com essa matriz centralizadora, que depende exclusivamente do Rio Guandu, sem investir na requalificação de outros rios ou aquíferos do Estado, corremos o risco de matar nossa cidade de sede.

A equidade sanitária, neste ponto, é fundamental. Garantir o acesso ao tratamento de esgoto e água para toda a população periférica não apenas reduz a pressão no sistema, mas também gera dados para um melhor planejamento e melhoria das condições reais para a engenharia sanitária produzir soluções técnicas viáveis de melhoria do abastecimento da cidade como um todo. Além disso, é fundamental controlar e fiscalizar desperdícios industriais e empresariais. Por exemplo, as jazidas de extração de areia, grandes consumidoras de água, operam hoje em um sistema de mercado, digamos assim, misto (legal e ilegal) que precisa ser regulamentado, fiscalizado e com as jazidas ilegais veementemente combatidas.

Colocar água no centro da pauta política, junto com alimento, saúde e educação, é indispensável para a construção de uma cidade verdadeiramente sustentável. Penso que a saída passa por um arranjo que envolve os princípios políticos de equidade social, a pressão popular e um saber técnico que compreenda o papel ético e a função social da engenharia e arquitetura na solução de problemas como os que estão dados. Sem isso, não vislumbro futuro possível.

Como creio em um futuro belo, segue uma imagem de um Rio de Janeiro possível, o Rio de todos os Rios que a Portela nos presenteou em 2017.
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Do Lamento da Ciência Solitária ao Êxtase do Abraço Coletivo

Tomo a liberdade de remixar um termo citado por Darcy Ribeiro em uma entrevista para refletir sobre a ciência e seu papel na sociedade. A ciência enfraquece quando se torna o território dos “cavalos de santo” da intelectualidade.

O campo acadêmico e científico é um dos pilares mais promissores da estrutura social contemporânea. Talvez o melhor investimento que a humanidade possa fazer esteja naqueles que se dedicam à experimentação, à pesquisa e ao desenvolvimento. Esses indivíduos arriscam-se no terreno das hipóteses, buscando inovações que transformam o mundo. Contudo, esse campo encontra-se hoje estruturado sob uma lógica de exploração e alienação, refletindo a organização de todo o sistema econômico. Se antes reverenciávamos a intelectualidade, como quem presta tributo a uma divindade, hoje nos deparamos com cientistas altamente precarizados, dedicando praticamente 24 horas por dia a seus projetos, enquanto enfrentam depressão, burnout e crises financeiras.

A realidade é dura: sem desmerecer outras profissões, eu, Rodrigo, com meu diploma de técnico em elétrica, consigo um emprego com um salário superior ao de uma bolsa de doutorado, e de forma relativamente confortável.

No entanto, não pretendo me aprofundar aqui na crise material, pois ela caminha ao lado de outra, ainda mais complexa e subjetiva. Um paradoxo emerge: a ciência e a produção de conhecimento são, por natureza, processos coletivos, contínuos e sem fronteiras. Contudo, o exercício científico, quando organizado como um sistema de produção formal, tornou-se altamente competitivo, individualista e solitário.

As publicações científicas, hoje, perecem ao valorizar mais o rigor da formatação, a citação de autores consagrados e a quantidade de títulos acadêmicos do que os resultados verdadeiramente inovadores e de impacto social relevante. Esses artigos são revisados por pares, em processos lentos e custosos, que muitas vezes limitam o acesso aos próprios resultados da pesquisa. A ciência se perdeu naquilo que criticava: tornou-se hermética, o território de poucos iluminados. A quantidade vale mais que a qualidade, e o furto de trabalhos, ideias e dados é uma constante, um verdadeiro campo minado. A ciência, que deveria ser um empreendimento coletivo, compartilhado entre aqueles que se dedicam ao seu avanço, foi reduzida a uma luta solitária por financiamento e reconhecimento. Nesse contexto, muitas vezes falta a abertura para o diálogo e a colaboração entre pares, assim como a coragem para assumir riscos e explorar caminhos menos convencionais.

autoria própria: Stephen Hawking e o Pequeno Príncipe conversando sobre o universo

Produzir conhecimento, por sua vez, é algo que fazemos continuamente. O maior desafio do indivíduo é ter a coragem de se lançar ao risco, diante de um sistema que aprisiona e formata a vida científica. Para além das universidades e dos centros de pesquisa, há saberes que nascem nas comunidades tradicionais, nas práticas cotidianas, nas trocas entre trabalhadores e em movimentos sociais que enfrentam desafios locais com soluções criativas. Esses conhecimentos têm suas próprias metodologias e princípios, muitas vezes transmitidos oralmente ou por práticas de convivência, como é o caso do conhecimento de povos indígenas sobre o manejo sustentável da terra ou das experiências comunitárias de cooperativas urbanas.

A estrutura científica contemporânea alcança resultados, mas, para isso, limita a existência da vida ao não se permitir costurar a trama dos muitos estímulos sensoriais que ritualizam a experiência humana na Terra. Falta à ciência o toque fino na vida e no outro, algo comum aos poetas, aos esotéricos, às culturas mais tradicionais.

O reconhecimento acadêmico desses saberes ainda é limitado. Muitas vezes, o que não se adequa aos rigorosos critérios de validação científica acaba sendo subvalorizado ou considerado anedótico, mesmo quando essas práticas trazem respostas concretas para problemas ambientais, sociais e econômicos. Rezadeiras, cartomantes, yogues tântricos, praticantes de tai chi, meditação e herbalistas são desconsiderados como parte da formação do saber.

É justamente nesse ponto que surge a necessidade urgente de reimaginar a ciência como um espaço de liberdade intelectual, onde o risco e a colaboração estejam no centro. Reimaginar a ciência significa, também, resgatar a noção de que o conhecimento científico não é um fim em si mesmo, mas um meio para melhorar a vida das pessoas, construir soluções coletivas e responder às crises que atravessamos enquanto sociedade global. Significa criar espaços em que cientistas possam trabalhar sem a sombra constante da precarização e da pressão por métricas de impacto. A experiência da pandemia de COVID-19 mostrou o valor de esforços colaborativos, como as coalizões internacionais para desenvolvimento de vacinas, demonstrando que, diante de grandes desafios, a união de esforços e a abertura de dados podem gerar avanços rápidos e transformadores.

É fundamental também repensar os critérios de avaliação científica, valorizando a qualidade do impacto social dos projetos e o compromisso com questões urgentes da população mundial fragilizada. Importa menos os santos da ciência, e muito mais os dispositivos que eles trazem e as formas como os utilizamos.

O próximo salto está aí, a meu ver: construir uma ciência aberta ao diálogo, ao risco e ao compartilhamento de saberes, onde a criatividade possa florescer. Com esses passos, talvez possamos resgatar a esperança de que a ciência, em sua diversidade, possa novamente ser um território de construção de um mundo mais justo para todos. Fazemos ciência nas conversas de bar, nas trocas cotidianas e na observação dos momentos simples de prazer e boas risadas.

No encontro entre o saber acadêmico e os conhecimentos que emergem dos povos, há um toque sutil, como um fluxo que pulsa entre a racionalidade e a intuição, tal como a respiração que conecta os corpos ao espírito. A ciência, ao abrir-se para esse toque, transcende seus recalques e mergulha num campo onde cada descoberta se torna um ato libertário de entrega, de diálogo com o desconhecido.

Ali, dissolve-se o ego sofrido do pesquisador isolado, dando lugar ao movimento coletivo, onde o risco é uma forma de êxtase e a colaboração entrelaça razão e sentimento. Assim, a ciência pode se transformar num espaço relacional, onde cada troca expande os limites da compreensão, ecoando um desejo profundo de alcançar e tocar, mesmo que de leve, a pulsação da vida real.

viva o SUS!!

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Queimadas, a Terra do Fogo e o fim do Futuro

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Brasil registrou mais de 90 mil focos de incêndio apenas na Amazônia em 2023, um aumento alarmante em comparação aos anos anteriores. No Cerrado, os números também são preocupantes: cerca de 60 mil focos no mesmo período. Esses números expõem uma crise ambiental alimentada de maneira significativa pelo modelo atual de agronegócio, que favorece a expansão da fronteira agrícola em detrimento de florestas e matas nativas. Expansão está, muitas vezes, feita à base de arranjos políticos somados ao fato de que temos uma elite com sistemas cognitivos encurtados, pessoas que não conseguem compreender o mundo de maneira sistêmica e se satisfazem com o fetiche do luxo.

O agronegócio é o motor econômico brasileiro, impulsiona o PIB e muda a cara de cidades pequenas e médias Brasil afora. Mas o modelo em voga, ao manter a ênfase em monoculturas e pecuária extensiva, fomenta o desmatamento e as queimadas. A prática de “limpar” áreas com fogo para plantio ou pastagem ainda é recorrente e se agrava pela falta de fiscalização eficaz. Além disso, a flexibilização das leis ambientais e o enquadramento dos órgãos de fiscalização, como o IBAMA, permite que essas práticas predatórias avancem sem punições adequadas.

Para além dos danos ambientais, o que já é inaceitável para um País com os biomas estratégico para o Planeta como o nosso, essa relação direta afeta a saúde pública devido a emissão de substâncias poluentes, contribuindo para a mudança climática e prejudicando o comércio internacional, que se propõe cada vez mais sustentável.

Isto é, não precisamos sequer apelar à consciência dos fomentadores do agro, a própria economia mostra que o caminho que percorrem terá um desfecho péssimo. A competitividade do Brasil no mercado global se põe em risco, pois cada vez mais consumidores e investidores bloqueiam negócios com quem tem práticas como as que o Brasil mantém. Dentro desta conjuntura internacional, logo nosso modelo que produz: poluição, aquecimento global e alimentação ultra processada se tornará antiquado e indesejado deixando como resquício a imensa sobrecarga no sistema de saúde pública devido às inúmeras doenças que ele acarreta. 

É inviável reverter esse cenário sem um esforço nacional que vá além de medidas paliativas e emergenciais. Algumas sugestões:

  1. Revisão do Código Florestal : É crucial revisar e fortalecer o Código Florestal, garantindo que as áreas de preservação permanente e de reserva legal sejam efetivamente protegidas, inclusive ampliando estas demarcações para que recuperemos terras perdidas. Isso implica em maior rigor na fiscalização e na aplicação de multas para quem desmata ilegalmente.
  2. Incentivo à Agricultura Sustentável : Redirecionar políticas de subsídio e crédito para práticas agrícolas sustentáveis, como sistemas agroflorestais e integração laboral-pecuária-floresta (ILPF). Esse modelo promove a recuperação do solo e reduz a necessidade de abertura de novas áreas para a agricultura.
  3. Tecnologia e Inovação no Combate a Incêndios : Investir em tecnologias de monitoramento e combate a incêndios, incluindo satélites, drones e inteligência artificial, que permitem a detecção precoce e a resposta rápida aos focos de incêndio. Além disso, o treinamento e a capacitação das brigadas de combate ao fogo são essenciais.
  4. Valorização da Floresta em Pé : Criar mecanismos de valorização econômica da floresta em pé, como o pagamento por serviços ambientais e o mercado de créditos de carbono. Isso gera um incentivo econômico para o produtor preservar a vegetação nativa do que expandir a agricultura predatória.
  5. Educação Ambiental : Promover e ampliar programas de educação ambiental nas comunidades rurais e urbanas, conscientizando sobre os impactos das queimadas e a importância da preservação dos recursos naturais. A formação de uma consciência coletiva é essencial para mudar comportamentos a longo prazo. É preciso que o meio ambiente esteja de forma clara na grade curricular. 
  6. Saúde preventiva : Promover o monitoramento integral e sistêmico das relações entre doenças e o ramo de atividade econômica do agronegócio. Aumento de doenças causadas por problemas respiratórios, calor e doenças causadas pelos produtos lançados no mercado para consumo da população.

As queimadas são um desafio estrutural que envolve o futuro do nosso desenvolvimento econômico e social. Na atual esfera da emergência, somos obrigados a reavaliar o modelo e adotar políticas que assegurem um equilíbrio entre a produção agrícola, posse de terras e a preservação ambiental. Como já anunciavam os zapatistas, “nada é impossível para quem não tem nada a perder”; e estamos, agora, na iminência de perder tudo: nossa terra, nossa água, nosso ar. O Brasil está em uma encruzilhada, onde resistir já não é mais uma escolha, mas uma necessidade urgente. Só assim será possível garantir um futuro sustentável para as próximas gerações. Na verdade, só assim será possível garantir algum futuro — um onde a fumaça que cobre os céus sejam só uma triste memória e não o nosso destino.

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Saúde Coletiva e Emergência Climática: O Desafio de uma Governança Global a Partir dos Mundos Menores

A crise climática e os desafios de saúde coletiva revelam um panorama que vai além das fronteiras nacionais, exigindo uma resposta coordenada e efetiva em escala global. No entanto, para que essa resposta seja genuína, precisamos de um novo paradigma de governança que não apenas integre o tripé político, técnico e econômico, mas que também valorize e empodere o que chamamos aqui “mundos menores” (uma paráfrase deleuziana) — pequenas comunidades, cidades periféricas, povos tradicionais e regiões historicamente marginalizadas que muitas vezes possuem soluções interessantes e inovadoras.

O Paradigma dos Mundos Menores: Uma Governança de Baixo para Cima

Historicamente, a governança global tem sido centralizada em grandes metrópoles e centros de poder econômico, que ditam as diretrizes políticas e tecnológicas, frequentemente ignorando as realidades e conhecimentos dos mundos menores.

Esse modelo centralizado não apenas perpetua desigualdades, mas também limita a capacidade de resposta a crises complexas, como a emergência climática e os desafios de saúde coletiva, que requerem soluções adaptadas às especificidades locais.

Os mundos menores, entretanto, têm mostrado uma potência que as grandes estruturas de governança global frequentemente falham em replicar.

Pequenas cidades, comunidades rurais e povos tradicionais operam com uma lógica de proximidade com a natureza e um senso comunitário que possibilitam respostas rápidas e eficazes a desastres.

Exemplos como o manejo do fogo pelos aborígenes australianos ou as respostas dos Moken aos tsunamis mostram que, muitas vezes, a sabedoria ancestral e local é mais eficaz do que as tecnologias impostas de cima para baixo.

Integração Política: Descentralizando o Poder e Empoderando as Comunidades Locais.

O primeiro passo para um novo paradigma de governança global é a descentralização do poder político. É necessário que a tomada de decisões seja compartilhada, incorporando as vozes e conhecimentos das comunidades locais como parte ativa dos fóruns globais. Essa integração não deve ser meramente simbólica, mas estrutural, garantindo que as prioridades das minorias e das regiões periféricas sejam colocadas no centro das políticas climáticas e de saúde.

Devemos fomentar os conselhos globais de governança de maneira que incluam representantes das comunidades locais, pequenos municípios e minorias. Esses conselhos teriam poder de deliberação e influência sobre as políticas internacionais, promovendo uma troca constante de saberes e experiências entre o global e o local. A governança deixaria de ser um monólogo das grandes potências para se tornar um diálogo genuíno e multidirecional.

A Força Técnica dos Mundos Menores: Redes Locais e Conhecimentos Ancestrais

Em termos técnicos, os mundos menores trazem uma riqueza de conhecimentos que pode revolucionar a forma como enfrentamos as crises climáticas e de saúde coletiva. A integração de saberes tradicionais com tecnologias contemporâneas cria soluções adaptáveis, acessíveis e sustentáveis. Esse modelo híbrido de ação técnica valoriza o que é tradicional, sem ignorar os avanços tecnológicos globais, promovendo inovações que realmente atendam às necessidades das comunidades.

Faz-se necessário implementar uma rede aberta e descentralizada de cooperação técnica que conecte cidades pequenas, comunidades rurais e povos tradicionais com centros de pesquisa e inovação, facilitando a troca de dados, práticas e tecnologias. Plataformas colaborativas de acesso aberto permitiriam que soluções locais fossem amplamente disseminadas, oferecendo modelos replicáveis de resiliência e adaptação.

Por exemplo, mediante um território propício a tsunamis, podemos elaborar a implementação de sistemas de alerta que utilizem tanto tecnologias de ponta quanto sinais naturais reconhecidos por comunidades locais, como alterações no comportamento animal ou mudanças climáticas perceptíveis, criando um sistema de alerta antecipado que é ao mesmo tempo preciso e culturalmente relevante.

Economia Inclusiva

O financiamento de ações climáticas e de saúde coletiva precisa ser reimaginado sob uma perspectiva de justiça econômica que reconheça a importância dos mundos menores. Os atuais mecanismos financeiros internacionais frequentemente favorecem grandes projetos que beneficiam principalmente centros urbanos e países desenvolvidos, deixando as comunidades mais vulneráveis à margem.

Sugiro estabelecermos fundos descentralizados e de fácil acesso para financiar iniciativas locais de adaptação climática e saúde coletiva. Esses fundos seriam geridos por conselhos comunitários, garantindo que os recursos sejam direcionados para as necessidades reais das populações. A criação de parcerias público-comunitárias, em que empresas privadas se comprometem não apenas com o financiamento, mas também com a cocriação de soluções junto às comunidades, fortaleceria a economia local e incentivaria a inovação.

Projetos de microfinanciamento que apoiem a adaptação climática em pequenas comunidades, como sistemas de captação de água de baixo custo, hortas comunitárias para segurança alimentar, e clínicas de saúde integradas que combinam medicina tradicional e moderna.

Governança Global a Partir dos Mundos Menores

Os desafios da emergência climática e da saúde coletiva não serão superados com mais do mesmo. É necessário romper com o modelo centralizado de governança que privilegia as metrópoles e adotar um novo paradigma, onde os mundos menores são reconhecidos não como beneficiários, mas como protagonistas das soluções globais. Descentralizar o poder político, integrar conhecimentos técnicos locais e criar uma economia inclusiva são passos fundamentais para construir uma governança que seja verdadeiramente global e que responda às complexidades do nosso tempo.

Ao valorizar as comunidades locais e empoderar as minorias, podemos criar um sistema de governança que não apenas enfrente as crises climáticas e de saúde coletiva, mas que também promova justiça, resiliência e inclusão. Esse é o caminho para um futuro sustentável, onde as soluções emergem de baixo para cima, refletindo a diversidade e a riqueza dos mundos menores que formam o nosso planeta.

desenho: autoria própria

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Arquitetura e Urbanismo, artigo, política, Saúde, trabalho

Feijão arroz e agenda.

Sempre me questiono por que apresentações de métodos de organização de trabalho em equipe sempre parecem mais bonitos e eficientes em powerpoint do que quando aplicados na prática.

Um dos motivos que mais assimilo é que gastamos tempos enormes enamorando métodos, assistindo eventos e palestras motivacionais que visam divulgar esses métodos e pouco trabalhamos a singularidade das equipes de trabalho. Quantos de nós somos bons em algo e mal aproveitados por conta da tentativa de se encaixar um método de gestão de trabalho na equipe?

Penso que todos os métodos são interessantes, não precisamos de dogmas sobre isso, são simplesmente ferramentas de trabalho para nos ajudar a moldar melhores jeitos de operar. Nenhum método precisa ser um dogma empresarial.

O que precisamos é entender bem os potenciais da equipe que temos, encontrar os pontos fracos e fortes, operar com isso. Valorizar a equipe financeiramente, garantir bons planos de cargos e salários, bons tempos de lazer e incentivo a estudo. Criar um bom ambiente para o trabalhador é das mais antigas e melhores garantias de sucesso numa equipe, além de tornar qualquer vaga de emprego na sua empresa algo realmente interessante, o que vai te permitir sempre ter melhores trabalhadores.

Simplificando: de nada adiantará você ser super aplicado em mil métodos de organização e planejamento estratégico de trabalho, se não consegue garantir valor material concreto para os seus trabalhadores.

Dito isso vou adentrar em outro modelo de organização, agora profissional e financeira:

1 – Pense o plano de cargos e salários dos seus trabalhadores de maneira que o trabalhador mais chão de fábrica possa alcançar, por tempo de serviço ou incremento de aprendizado, um salário similar a um trabalhador com especialização universitária. Por que não, seu encarregado de obras com 30 anos de empresa ter um salário igual o de um engenheiro pleno?

2- Garanta ao estagiário o direito ao aprendizado, tenha como meta um sistema de formação. Isso é algo básico do ser humano, aprendemos e ensinamos o trabalho, assim garantimos o legado.

3- Dê créditos a quem traz inovação, mesmo que seja o seu agente de limpeza do ambiente, se ele criou algo que gerou valor para sua empresa, valorize ele ao invés de assumir isso como autoria da corporação onde você (o dono) é a principal estrela.

4- Os tempos imperiais já terminaram, não escravize ou trate ninguém como escravo. Exemplo: pião não é categoria de trabalho, seu funcionário tem nome e tem expertise, trate-o como o profissional que é e te garanto que os resultados serão bem melhores pra você.

Com o básico, uma boa agenda já te organizará mais que um monte de aulas de coaches.

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artigo, brasil, política, Saúde

Reindustrializar o Brasil

Sobre o Plano de Ação da Neoindustrialização brasileira gostaria de comentar alguns pontos.

Primeiro, vejo com bons olhos o plano como uma alternativa de reaquecer o desenvolvimento nacional neste campo que segue esquecido. O programa vislumbra um sistema de reorganização nacional. Considero cedo para um grande ufanismo, mas considero uma boa caminhada para a saída da recessão e abertura de uma cadeia produtiva de trabalho que se mostra hiper necessária.

Sinto que, no Brasil real (e não no legal) as três primeiras missões estão o coração onde o governo vai focar o olhar: cadeias agroindustriais, complexo econômico industrial de saúde e infraestrutura voltada para integração produtiva. As outras seis missões pode ser que na prática caminhe meio a reboque.

No que compete a gente, pensar estrategicamente os clusters e cadeias industriais desse país pode movimentar todo o sistema. Historicamente a implementação de qualquer pólo fabril traz consigo uma série de modificações estruturantes pra atender, coisas como habitação pra trabalhadores, mobilidade logística pra translado de produtos, entre outros muitos fatores.

Outro ponto que afeta diretamente o nosso campo profissional está no olhar da construção como indústria. Isso pode viabilizar uma nova organização do nosso setor que encontra nos sistemas BIM as ferramentas primordiais para operar o setor de obras por outra lógica empresarial, reduzindo-se os pequenos e médios escritórios que não conseguiriam suportar os custos de manutenção e criando-se corporações mais robustas que abraçarão via CNPJ estes médios e pequenos operários. Ok, é apenas um futurismo pensar assim, mas é um futuro viável de ser deduzido.

O estímulo do capital estrangeiro poderá ser um motor de giro desse plano, porém isso não parece significar um compromisso real com o resultado social. E aí vejo alguns grandes enfrentamentos que o governo precisará ter disposição de fazer:

  1. Transformar parte do resultado dos investimentos internacionais e projetos de desenvolvimento social para o país.
  2. Ter muito cuidado para que a Política Nacional de Exportação e facilitação de relações com o comércio exterior pese positivamente para o país
  3. Principal, cuidar para que a economia de mercado não faça um papel avassalador de retirada de todo e qualquer bem-produzido do país sem deixar benefícios para nós. Em especial o extrativismo territorial, degradação ambiental, entre outros.

Temos dificuldades de lidar com questões que envolvem investimento estrangeiro. Muito se dá por conta de a história deste país ter sido formada pela exploração estrangeira sobre seus recursos básicos e povo. Porém cabe a nós tentarmos tomar as rédeas de nossas diretrizes nas mãos.

Resumindo, como todo bom Plano, o que mostrará o sucesso é a capacidade de ser aplicado. A nós, neste momento, creio que neste momento cabe identificar as interfaces potentes e as possíveis lutas que serão necessárias de traçar.

Mais importante que ler minha opinião porém é, ler o documento final que se encontra neste link.

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artigo, ciência, pensamento, política, Saúde

Um pensar científico para os dias de hoje

Já se foi o tempo em que pesquisa científica era o espaço de grandes tratados e personagens icônicos. A imagem do gênio e sua descoberta que vemos até hoje por aí talvez não caiba mais na complexidade da vida contemporânea, ao menos não com a mesma qualidade que já fora um dia. Não falo isso desmerecendo os grandes nomes que já passaram na terra, apenas comentando sobre a readequação social do campo e da comunidade científica. É mister desmistificar este raciocínio do ser iluminado, como se não houvesse produção constante e historicidade nas trocas e descobertas.

Partindo deste ponto, vejamos aonde podemos chegar. As crises remodelam o mundo, e na década de 80 uma crise de saúde apareceu e ajudou a repensar os modelos de ciência, a AIDS. O advento da epidemia de AIDS, a comunidade científica operacionalizou suas ações junto a sociedade civil de uma forma interessante, enxergou a necessidade de trabalhar em conjunto com movimentos sociais, ativistas e diversos outros grupamentos. A lógica não era apenas laboratorial e a interdisciplinaridade ganhou um novo patamar e constituiu um paradigma.

A partir dos anos 80 fazer ciência implicava em reconhecer o diálogo com diversos atores sociais e as mais amplas expressões de conhecimento. Incluímos na pauta o âmbito social, sem o qual se tornaria inviável alguns avanços. Recentemente, vivemos a pandemia de COVID, e graças ao acúmulo destes estudos de método, somados a coragem de expansão de novas modelagens de pesquisas, a comunidade científica gerou um novo salto. Claro que abrimos a ressalva de que, como em qualquer relação social complexa, não podemos esconder que há no campo relações de racismo, misoginia e disputas de hegemonia e poder onde verdadeiras máquinas de pesquisa são engendradas por grandes captadores e fomentadores de recursos para pesquisas.

Quando o globo precisa se focar em segurar a pandemia, a ciência se sente obrigada a romper com alguns padrões. Um dos mais importantes que gostaria de destacar é a abertura dos dados, toneladas de dados, artigos, testes, eram abertos independente de passar por revisão de pares e publicações, a troca em rede se tornou o novo paradigma. Pela primeira vez no mundo, se viu de forma expressiva a comunidade científica trocar tamanho volume de informação em tão pouco tempo, quase que o brainstorm global de pensamento e estudo. Todos tínhamos acesso, mesmo não pesquisadores conseguiram encontrar com facilidade.

Para além disso, o tripé: política-economia-ciência precisou operar em nível global. Talvez esta tenha sido uma das maiores dificuldades, pois precisamos lidar com inúmeras disputas que iam desde a luta pela quebra de patentes até guerras políticas locais que se usavam dos resultados científicos como palanque constante. Apesar dos conflitos, creio que este seja o grande paradigma: precisamos incluir a desigualdade social como uma dimensão constante nas discussões e pesquisas. Segundo a pesquisadora Andrea Silva, “pessoas com maior nível de pobreza têm 55% maior risco de evoluir do HIV para Aids”, só para citar uma pesquisa que revela o quanto as desigualdades sociais impactam ainda hoje no cuidado de uma doença que deveria ter um tratamento universal. Podemos compor o mesmo debate quando vivemos a pandemia de COVID. Ainda hoje a África é o continente com menor taxa global de vacinação, temos 70% da população do continente não vacinada.

No Brasil, uma das maiores missões se passou na fase inicial da pandemia, quando o país mostrou o tamanho de sua vulnerabilidade: falta de saneamento e acesso a água potável e falta de condições de seguridade social para garantir períodos de lockdown demonstraram o quanto ainda estamos com o tripé político, econômico e científico desconectados.

Apesar das inúmeras mudanças algo se mantém, o desejo de se lançar ao desconhecido. Talvez essa seja a grande graça da aventura da pesquisa, quando a gente se lança ao risco do desconhecido e das incertezas para investigar e achar elementos que seguirão nos mantendo nas incertezas. Aqui me permito uma alegoria poética, olharmos para o campo da ciência como um horizonte de eventos, onde cada um de nós seja um pequeno fóton girando rumo a singularidade que nos interessa. O mais bacana é ver que, nada na ciência é possível sem uma rede global de trabalhadores e ferramentas unidos em torno da aventura.

Espero que o modelo da ciência aberta siga, cada vez mais interdisciplinar, sem ficar presa em patentes, premiações e títulos de valores e se torne um dia o paradigma de organização do pensamento e da criação humana.

Entendo que, em um mundo onde os modelos econômicos e estruturais da sociedade ainda prezam por relações de competição, individualismos, e transformação de inovações em propriedades de direito privado, outras formas de se organizar demorem a conseguir espaço. Porém, a pandemia nos mostrou com muita clareza as vantagens da ruptura dos modelos tradicionais de organização do trabalho científico.

Almejo viver num mundo onde pensar e trabalhar cientificamente seja explorar as mais inesperadas redes de colaboração, inserir o trabalho sobre o social e termos a responsabilidade de entender que os nossos resultados impactam vidas. Vimos o quanto ganhamos com isso enquanto humanidade.

Foto 51 DNA por Rosalind Franklin e foto do Buraco Negro do centro da galáxia M87 resultado do trabalho coletivo de mais de 200 pesquisadores.
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