artigo, cultura, filosofia de vida, literatura, política

O seu lugar cura

A mente humana não é um sistema isolado; é uma parte indissociável de um vasto ecossistema social, ambiental e cultural. Neste ecossistema, cada indivíduo habita territórios existenciais únicos, ocupando lugares singulares, ainda que compartilhando um mesmo espaço. O ciclo é constante: assim como nossa mente é influenciada pelo ambiente, ela também o transforma, criando um dinamismo de mutabilidades incessantes.

Devemos conceber uma geo-psicologia. Na metrópole, a insalubridade, a violência e a desigualdade são experiências que geram estresses próprios, moldam nossa lida com o mundo. Porém, em um país onde aproximadamente 50 milhões de brasileiros vivem em áreas rurais e cidades com menos de 100 mil habitantes, onde uma parte significativa da economia gira em torno da agropecuária ou do agrobusiness, não é surpreendente uma contradição: a metrópole é a exceção.

Mesmo vivendo em cidades com elementos urbanos canônicos, se suas raízes são rurais, haverá uma força cultural que se aninha em certas odes de coesão comunitária. O sertanejo mostra isso: apesar de abordar temas universais como amor e nostalgia, que favorecem a regulação emocional, suas canções estão profundamente enraizadas na vida rural. Ela cria um território existencial que une a moradora de Duque de Caxias varrendo sua casa com o garoto da porteira sentado curtindo o seu radinho.

É fascinante quando o sonhador de Leonardo é aquele que, sem saber para onde vai, deixa a vida seguir o sol no horizonte da estrada, mantendo a esperança de que, num toque do destino, o brilho do olhar continuará aceso. É o jovem lavrador que vê na chance de montar um boi no festival de Barretos, o horizonte para mudar sua história. Na mesma idade, um menino joga sua pelada no campo do Martins em São João, sonhando com a Champion League, enquanto sua mãe ouve Eyshila fazendo o almoço.

A perspectiva dos territórios existenciais valoriza a diversidade das experiências humanas ao rejeitar a ideia de uma normalidade universal, um lugar certo. O espaço sim! Tem que garantir toda infra material para a dignidade humana e ambiental, ali, deixemos o povo construir o lugar que o povo quiser, sem medo de amar.

autoral: o passe, grafite no papel
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Cidade: Unidade Estética e Desejo de Vida

Se você perguntar a 40 pensadores sobre o significado do termo cidade, provavelmente receberá 40 respostas diferentes. E essa pluralidade importa muito quando elucubramos sobre este espaço onde a vida de muitos de nós se desenrola. A cidade é algo tão complexo que escapa às definições.

Um recorte que gosto especialmente vem de Mumford: a cidade é “um símbolo estético de unidade coletiva”. Exploremos a estética a partir de Espinosa, não reduzindo-o a uma categoria puramente formal, mas refletindo nele como uma experiência subjetiva capaz de nos afetar, tornando-nos mais potentes e desejantes. Podemos entender a experiência estética como uma manifestação da nossa potência de existir, uma busca incessante por liberdade.

A vivência da cidade, com sua capacidade de promover dor ou prazer, nos potencializa a agir. Pense em um bairro aprazível, onde a comunidade, fortalecida pelo prazer e alegria de morar ali, se movimenta para melhorar o ambiente, impedindo ações outras contrárias aos interesses coletivos. Por outro lado, quando um local é constantemente marcado pelo medo e imersa na falta de potência vital, torna-se muito difícil a organização para a ação comum dos moradores em mobilizar uma vida diferente.

Existe uma vontade de existir que nos transcende, nos faz amar um ícone arquitetônico, uma pintura, uma música, ou outras expressões que parecem nos mover para o eterno. De certa forma, é como se a experiência estética nos permitisse escapar da morte, como uma pintura rupestre que nos conecta diretamente com a mensagem de um de nós que há muito se foi.

Construir a cidade como um símbolo estético da unidade coletiva nos obriga a pensar a cidade pelo desejo de vida, de estarmos vivos e ativos enquanto coletividade. Essa coletividade se torna capaz de fazer a melhor política, aquela que não precisa passar pelas estruturas de controle. E aqui temos um desafio: como abandonar a cidade construída pelo medo da morte e substituí-la por uma cidade que seja um desejo de vida? Suspeito que os melhores indícios estão nas conversas de rua, nos encontros de bar, nas feiras, no futebol, resumindo: nos encontros dos diferentes.

autoral: lapis e hidrocor
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No balanço do trem

No balanço do trem, vende água, vende biscoito, vende salame, vende queijo, vende sorvete, vende refri, vende cerveja, vende guaraná, vende fone, vende doce, vende bala, vende tudo. Vem de isopor, vem de break, vem de improviso, vem de pandeiro, vem de samba, vem de choro, vem de caixa de som. Vem devagar, chegando na estação, vem o trem.

No balanço do trem, a vida tem ritmo. Surfista da Zona Norte, moda dos anos 80, dropava no teto, entre a vida e a morte. Ferro, brita, rede contínua. Deodoro, Santa Cruz, Paracambi, Belford Roxo, Saracuruna, Vila Inhomirim, Guapimirim. De Japeri à Central, não há nada igual.

Vago, vagão, vagabundo, cuidado com o vão entre a porta e a plataforma. A sirene toca, o povo embarca, o pregador anuncia sua fala. Pede atenção, desculpa, senhores passageiros, por atrapalhar sua viagem. O camelô traz uma oportunidade única de ter algo supérfluo e provavelmente desnecessário. A viagem segue, a vida segue. Do lado de fora, mais um espírito da luz caído, olhando para o alto. Quanta arte se apaga com a queda do poeta. Caminha pelos trilhos, pula o muro, abre o buraco, passa por baixo. Jogo no Maracanã, jogo no Engenhão.

No reflexo, vejo uma paisagem de segredos esquecidos. Rostos se misturam com muros, casinhas, vazios, o aço desliza no espaço e no tempo. No ventre do trem, o humano é posto à prova; tem uma beleza e uma artimanha fugaz. Em cada curva a realidade se desdobra enquanto o trem avança pensativo, rumo à Central do Brasil.

Poucas obras são tão engenhosas e belas como a Central do Brasil: seu vão livre, seus relógios, a cara de um Brasil que um dia sonhou ser industrial e desenvolvido. Relógios que expõem o paradoxo do atraso, a escolha do abandono à própria sorte. Deixados ao relento, reinventamos a vida no interior do trem, porque somos carne de pescoço, carne que também está à venda dentro e fora dos vagões. “Eu morri e nem sei mesmo qual foi aquele mês.” Somos só gente simples, trabalhando de sol a sol, chegando na estação. Mais uma jornada, logo mais retorno.

autoral: caneta e lapis sobre papel: trem

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Feijão arroz e agenda.

Sempre me questiono por que apresentações de métodos de organização de trabalho em equipe sempre parecem mais bonitos e eficientes em powerpoint do que quando aplicados na prática.

Um dos motivos que mais assimilo é que gastamos tempos enormes enamorando métodos, assistindo eventos e palestras motivacionais que visam divulgar esses métodos e pouco trabalhamos a singularidade das equipes de trabalho. Quantos de nós somos bons em algo e mal aproveitados por conta da tentativa de se encaixar um método de gestão de trabalho na equipe?

Penso que todos os métodos são interessantes, não precisamos de dogmas sobre isso, são simplesmente ferramentas de trabalho para nos ajudar a moldar melhores jeitos de operar. Nenhum método precisa ser um dogma empresarial.

O que precisamos é entender bem os potenciais da equipe que temos, encontrar os pontos fracos e fortes, operar com isso. Valorizar a equipe financeiramente, garantir bons planos de cargos e salários, bons tempos de lazer e incentivo a estudo. Criar um bom ambiente para o trabalhador é das mais antigas e melhores garantias de sucesso numa equipe, além de tornar qualquer vaga de emprego na sua empresa algo realmente interessante, o que vai te permitir sempre ter melhores trabalhadores.

Simplificando: de nada adiantará você ser super aplicado em mil métodos de organização e planejamento estratégico de trabalho, se não consegue garantir valor material concreto para os seus trabalhadores.

Dito isso vou adentrar em outro modelo de organização, agora profissional e financeira:

1 – Pense o plano de cargos e salários dos seus trabalhadores de maneira que o trabalhador mais chão de fábrica possa alcançar, por tempo de serviço ou incremento de aprendizado, um salário similar a um trabalhador com especialização universitária. Por que não, seu encarregado de obras com 30 anos de empresa ter um salário igual o de um engenheiro pleno?

2- Garanta ao estagiário o direito ao aprendizado, tenha como meta um sistema de formação. Isso é algo básico do ser humano, aprendemos e ensinamos o trabalho, assim garantimos o legado.

3- Dê créditos a quem traz inovação, mesmo que seja o seu agente de limpeza do ambiente, se ele criou algo que gerou valor para sua empresa, valorize ele ao invés de assumir isso como autoria da corporação onde você (o dono) é a principal estrela.

4- Os tempos imperiais já terminaram, não escravize ou trate ninguém como escravo. Exemplo: pião não é categoria de trabalho, seu funcionário tem nome e tem expertise, trate-o como o profissional que é e te garanto que os resultados serão bem melhores pra você.

Com o básico, uma boa agenda já te organizará mais que um monte de aulas de coaches.

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Alguns desafios do plano Nova industrialização Brasil

O programa de reindustrialização do Brasil esbarra em alguns empecilhos que podem ser lidos como imensos desafios. Entre eles cito alguns: a melhoria dos centros nacionais de pesquisa e desenvolvimento, bens e recursos, custos de transações internacionais como logística de transporte.

Se o Reuni e Prouni acertaram precisamente a garantia de acesso universitário às camadas mais populares, errou muito ao deixar entregue ao mercado boa parte do capital investido em educação. Uma fala troncha que o presidente lançou falando sobre ter advogado demais no país é um bom reflexo disso. Um programa com o teor do Prouni e reuni, sem uma política estruturante em um país onde a maior segurança financeira vem de concursos públicos somado a cultura do cotidiano que sempre viu como emprego seguro ser advogado, médico ou professor gerou isso. Mudar esse cenário é um imenso desafio que exigirá uma reforma da educação pela base.

Retomando, os maiores ativos que uma indústria globalizada tem está em suas propriedades (patentes, intelectuais, físicas, patrimoniais etc.), localização e internacionalização. Dito isso, não há saída, a incapacidade que o país tem de desenvolver um campo decente e atrativo para pesquisadores nos coloca extremamente vulneráveis nas disputas internacionais. Creio que este é um investimento crucial para o plano dar certo, garantir que o maior bem que podemos ter é formar profissionais qualificados que se sintam interessados em permanecer vivendo e trabalhando no Brasil.

A fala troncha do Lula tem uma sinceridade intrínseca que aponta pra necessidade de o país formar este corpo intelectual e técnico de qualidade. Infelizmente, isso não se dará pela boa vontade dos grandes mercadores do sistema de educação que insistem em enxugar custos com cursos EAD e desvalorização completa de professores e de centros de pesquisa.

Construir uma política no Mercosul que de prioridade a uma saída de logística para o oceano pacífico, criando alternativa concreta ao canal do Panamá (globalmente falando) e alternativa de massa para alcançar parte significativa da América Latina. Há alguns projetos de ferrovia bioceânica, todos bem difíceis de realizar, porém que não deveríamos abandonar. Ainda mais em um momento em que a logística marítima sofre com a crise global. As tensões do mar vermelho devido às guerras no oriente médio e a seca do canal do Panamá tem gerado altas no preço do frete, o que torna propício quaisquer tentativas de negociar globalmente alternativas.

Ambas as saídas pedem do governo pulso e recursos altos, não são caminhos simples, mas são caminhos que precisam ser iniciados. Um plano de industrialização não nasce da noite para o dia e nem se finda em dois ou quatro anos, precisa de tempo e continuidade. Muito necessário ver isso quando vivemos uma era onde quaisquer intervenções globais, de grande porte de extração e mudança ambiental, pode afetar negativamente a capacidade do planeta existir.

Talvez o maior desafio de todos seja justamente convencer os corpos políticos que pensam o Brasil sob a tábula rasa do arrasa quarteirões a cada quatro anos de que precisamos construir um projeto que dure para mais gerações. Sem isso, ficaremos restritos a liberar apenas recursos primários como moeda de troca interessante para a indústria global, nos mantendo como eternos fornecedores de commodities.

Mapa da ferrocarril santiago-mendonza
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Reindustrializar o Brasil

Sobre o Plano de Ação da Neoindustrialização brasileira gostaria de comentar alguns pontos.

Primeiro, vejo com bons olhos o plano como uma alternativa de reaquecer o desenvolvimento nacional neste campo que segue esquecido. O programa vislumbra um sistema de reorganização nacional. Considero cedo para um grande ufanismo, mas considero uma boa caminhada para a saída da recessão e abertura de uma cadeia produtiva de trabalho que se mostra hiper necessária.

Sinto que, no Brasil real (e não no legal) as três primeiras missões estão o coração onde o governo vai focar o olhar: cadeias agroindustriais, complexo econômico industrial de saúde e infraestrutura voltada para integração produtiva. As outras seis missões pode ser que na prática caminhe meio a reboque.

No que compete a gente, pensar estrategicamente os clusters e cadeias industriais desse país pode movimentar todo o sistema. Historicamente a implementação de qualquer pólo fabril traz consigo uma série de modificações estruturantes pra atender, coisas como habitação pra trabalhadores, mobilidade logística pra translado de produtos, entre outros muitos fatores.

Outro ponto que afeta diretamente o nosso campo profissional está no olhar da construção como indústria. Isso pode viabilizar uma nova organização do nosso setor que encontra nos sistemas BIM as ferramentas primordiais para operar o setor de obras por outra lógica empresarial, reduzindo-se os pequenos e médios escritórios que não conseguiriam suportar os custos de manutenção e criando-se corporações mais robustas que abraçarão via CNPJ estes médios e pequenos operários. Ok, é apenas um futurismo pensar assim, mas é um futuro viável de ser deduzido.

O estímulo do capital estrangeiro poderá ser um motor de giro desse plano, porém isso não parece significar um compromisso real com o resultado social. E aí vejo alguns grandes enfrentamentos que o governo precisará ter disposição de fazer:

  1. Transformar parte do resultado dos investimentos internacionais e projetos de desenvolvimento social para o país.
  2. Ter muito cuidado para que a Política Nacional de Exportação e facilitação de relações com o comércio exterior pese positivamente para o país
  3. Principal, cuidar para que a economia de mercado não faça um papel avassalador de retirada de todo e qualquer bem-produzido do país sem deixar benefícios para nós. Em especial o extrativismo territorial, degradação ambiental, entre outros.

Temos dificuldades de lidar com questões que envolvem investimento estrangeiro. Muito se dá por conta de a história deste país ter sido formada pela exploração estrangeira sobre seus recursos básicos e povo. Porém cabe a nós tentarmos tomar as rédeas de nossas diretrizes nas mãos.

Resumindo, como todo bom Plano, o que mostrará o sucesso é a capacidade de ser aplicado. A nós, neste momento, creio que neste momento cabe identificar as interfaces potentes e as possíveis lutas que serão necessárias de traçar.

Mais importante que ler minha opinião porém é, ler o documento final que se encontra neste link.

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Um pensar científico para os dias de hoje

Já se foi o tempo em que pesquisa científica era o espaço de grandes tratados e personagens icônicos. A imagem do gênio e sua descoberta que vemos até hoje por aí talvez não caiba mais na complexidade da vida contemporânea, ao menos não com a mesma qualidade que já fora um dia. Não falo isso desmerecendo os grandes nomes que já passaram na terra, apenas comentando sobre a readequação social do campo e da comunidade científica. É mister desmistificar este raciocínio do ser iluminado, como se não houvesse produção constante e historicidade nas trocas e descobertas.

Partindo deste ponto, vejamos aonde podemos chegar. As crises remodelam o mundo, e na década de 80 uma crise de saúde apareceu e ajudou a repensar os modelos de ciência, a AIDS. O advento da epidemia de AIDS, a comunidade científica operacionalizou suas ações junto a sociedade civil de uma forma interessante, enxergou a necessidade de trabalhar em conjunto com movimentos sociais, ativistas e diversos outros grupamentos. A lógica não era apenas laboratorial e a interdisciplinaridade ganhou um novo patamar e constituiu um paradigma.

A partir dos anos 80 fazer ciência implicava em reconhecer o diálogo com diversos atores sociais e as mais amplas expressões de conhecimento. Incluímos na pauta o âmbito social, sem o qual se tornaria inviável alguns avanços. Recentemente, vivemos a pandemia de COVID, e graças ao acúmulo destes estudos de método, somados a coragem de expansão de novas modelagens de pesquisas, a comunidade científica gerou um novo salto. Claro que abrimos a ressalva de que, como em qualquer relação social complexa, não podemos esconder que há no campo relações de racismo, misoginia e disputas de hegemonia e poder onde verdadeiras máquinas de pesquisa são engendradas por grandes captadores e fomentadores de recursos para pesquisas.

Quando o globo precisa se focar em segurar a pandemia, a ciência se sente obrigada a romper com alguns padrões. Um dos mais importantes que gostaria de destacar é a abertura dos dados, toneladas de dados, artigos, testes, eram abertos independente de passar por revisão de pares e publicações, a troca em rede se tornou o novo paradigma. Pela primeira vez no mundo, se viu de forma expressiva a comunidade científica trocar tamanho volume de informação em tão pouco tempo, quase que o brainstorm global de pensamento e estudo. Todos tínhamos acesso, mesmo não pesquisadores conseguiram encontrar com facilidade.

Para além disso, o tripé: política-economia-ciência precisou operar em nível global. Talvez esta tenha sido uma das maiores dificuldades, pois precisamos lidar com inúmeras disputas que iam desde a luta pela quebra de patentes até guerras políticas locais que se usavam dos resultados científicos como palanque constante. Apesar dos conflitos, creio que este seja o grande paradigma: precisamos incluir a desigualdade social como uma dimensão constante nas discussões e pesquisas. Segundo a pesquisadora Andrea Silva, “pessoas com maior nível de pobreza têm 55% maior risco de evoluir do HIV para Aids”, só para citar uma pesquisa que revela o quanto as desigualdades sociais impactam ainda hoje no cuidado de uma doença que deveria ter um tratamento universal. Podemos compor o mesmo debate quando vivemos a pandemia de COVID. Ainda hoje a África é o continente com menor taxa global de vacinação, temos 70% da população do continente não vacinada.

No Brasil, uma das maiores missões se passou na fase inicial da pandemia, quando o país mostrou o tamanho de sua vulnerabilidade: falta de saneamento e acesso a água potável e falta de condições de seguridade social para garantir períodos de lockdown demonstraram o quanto ainda estamos com o tripé político, econômico e científico desconectados.

Apesar das inúmeras mudanças algo se mantém, o desejo de se lançar ao desconhecido. Talvez essa seja a grande graça da aventura da pesquisa, quando a gente se lança ao risco do desconhecido e das incertezas para investigar e achar elementos que seguirão nos mantendo nas incertezas. Aqui me permito uma alegoria poética, olharmos para o campo da ciência como um horizonte de eventos, onde cada um de nós seja um pequeno fóton girando rumo a singularidade que nos interessa. O mais bacana é ver que, nada na ciência é possível sem uma rede global de trabalhadores e ferramentas unidos em torno da aventura.

Espero que o modelo da ciência aberta siga, cada vez mais interdisciplinar, sem ficar presa em patentes, premiações e títulos de valores e se torne um dia o paradigma de organização do pensamento e da criação humana.

Entendo que, em um mundo onde os modelos econômicos e estruturais da sociedade ainda prezam por relações de competição, individualismos, e transformação de inovações em propriedades de direito privado, outras formas de se organizar demorem a conseguir espaço. Porém, a pandemia nos mostrou com muita clareza as vantagens da ruptura dos modelos tradicionais de organização do trabalho científico.

Almejo viver num mundo onde pensar e trabalhar cientificamente seja explorar as mais inesperadas redes de colaboração, inserir o trabalho sobre o social e termos a responsabilidade de entender que os nossos resultados impactam vidas. Vimos o quanto ganhamos com isso enquanto humanidade.

Foto 51 DNA por Rosalind Franklin e foto do Buraco Negro do centro da galáxia M87 resultado do trabalho coletivo de mais de 200 pesquisadores.
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Agbogbloshie, Gana, a questão dos subúrbios, metrópoles e exploração

A questão da cidade é global. Estamos acostumados com os grandes estudos metropolitanos que envolvem mega arquiteturas, grandes intervenções urbanas, entre outros. Hoje queria apresentar uma questão peculiar, mas não menos importante.

Agbogbloshie é um subúrbio de Accra, cidade de Gana. Primeiro pra contextualizar, estamos falando de um país da África Oeste cuja história é demarcada por violentos processos de colonização, exploração de recursos e escravidão. Estes processos seguem até hoje, quando, dentro das lógicas da divisão internacional do trabalho, o país segue como produtor de minérios e agricultura e como um grande consumidor de produtos industriais de segunda ou terceira mão. E é nestas condições que vamos partir de Gana, um tipo de país de subúrbio global para Agbogbloshie, um subúrbio de Gana.

Num dado momento, o País propôs incentivar, como tentativa de abastecer o mercado interno, a importação de eletroeletrônicos usados (como faz com automóveis por exemplo). Uma proposta que, vista sem crítica, parece inocente e até promissora se transformou em um dos maiores problemas do país. Hoje, Gana abriga um dos maiores lixões de eletroeletrônicos do planeta, servindo de escoamento internacional para este ciclo de mercadoria. Falamos aqui de um ciclo que ainda é alimentado pelo movimento da obsolescência programada, criando um dos maiores problemas humanitários da região.

Uma quantidade significativa de cidadãos Ganenses sobrevive de um verdadeiro comércio de lixo tóxico, resultado de um descarte que para maioria de nós é invisível. A propaganda da sustentabilidade nos vende uma gama de discursos sobre indústria carbono zero, elementos reciclados, baixo consumo de água, mas pelo visto, são regras e códigos que só aparecem nas fotos do Vale do Silício. A imagem de simplicidade expressa no New Balance do Steve Jobs ou no Brunello Cucinelli de Zuckerberg cujo luxo silencioso esconde o silencio do lixão do Silício.

Aqui gostaria de propor um pensamento singular. Por um momento abandonemos o conceito de cidade ou metrópole como assumimos em nossas mentes e vamos realocar as fronteiras pelos fluxos e redes. Por um determinado recorte de tempo e espaço, Agbogbloshie é uma periferia de uma metrópole do Vale do Silício, sua destruição é aceitável desde que a roda da fortuna gire e a sustentabilidade se dará apenas sobre o meu quintal. Esta leitura que falseia o próprio senso da natureza, onde o todo é um só indivisível e onde não há um fora. Este subúrbio que é resultado de um movimento político internacional pesa, e pesa ainda mais quando está em um País que exporta ouro, pedras preciosas e demais minérios.

É possível que o custo do luxo silencioso de uma camisa do Zuckerberg mate a fome por um dia dos moradores de Agbogbloshie. Esta é a metrópole que me proporei a debater em breve, uma metrópole cujas principais fronteiras estão nas redes de poder que a impactam.

Foto de Andrew McConell para o jornal The Guardian.
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Mais um olhar suburbano sobre a cidade

Vamos fazer aqui algumas associações. Primeiramente, partir do conceito de capital, esse tipo de sujeito que movimenta o mundo. Para Marx (vamos resumir grosseiramente como) um tipo de valor que empregado em algum processo retorne ampliado ao proprietário (o lucro). Vamos agenciar isso com desejos, com vontades de poder, e outras coisas mais.

Quando o mundo opera e amarra materialmente as necessidades materiais e subjetivas do ser humano a produção de capital e a aquisição de renda, ele vende que: basta conseguir acumular capital que você vai ter conforto, vai ser feliz, vai ser amado, desejado, virar referencia. Esse é o mundo que se vende, porém ele esquece de te dizer que a acumulação do capital é relacional: pra um estar bem alguns precisarão continuar ferrados. E não está na pauta das dinâmicas do capital a solução do todo. Logo, você está num ciclo de sorte e fortuna: nascer herdeiro, ganhar na loteria, por um acaso se tornar um craque em algo que transforme você num objeto de valor, fazer parte de algum nicho de exclusividade te trará o bem-estar, caso não aconteça, vai fazer parte do ciclo que precisará lutar dia a dia pra sobreviver enquanto vai viver bombardeado de dizeres que vão tentar provar que voce vive e está no lugar errado de se estar.

O problema é: E todos os que não estão nesta situação? Viverão o infortúnio. Uma questão que pesa, desde a morte de Deus em Nietzsche, o ser humano perdeu também uma certa pacificação transcendente institucional, a recompensa que está no além túmulo. Esta recompensa que servia como moeda de troca diante da violência sofrida pelos trabalhadores escravizados para construir pirâmides, templos, cidades megalomaníacas, se esvaiu e sobrou a exploração e o trabalho. Vamos ver o trabalho como um lugar, o lugar do pobre no capital. Mas também proponho que pensemos o mesmo como uma arma de luta.

É mister pensar, quando Cidinho e Doca cantaram pela primeira vez: Eu só quero é ser feliz, morar tranquilamente na favela onde eu nasci e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar”. Há algumas leituras possíveis, não sei dizer ao certo o que pensavam, se apenas na paz e conforto da vida, se pensavam na busca de igualdade de tratamento, porém quero aqui subverter um pouco alguns conceitos e debruçar sobre a frase para armá-la.

A busca da felicidade, do amor do conforto psíquico, o desejo de afeto, é sobre isso que se trata a primeira parte. Um direito que parece banal, mas que nos é tirado e é perceptível em qualquer levantamento de dados de doenças da mente o quanto a desigualdade social refletida na forma como a violência é espacializada. Na segunda parte, uma cobrança, qual é o lugar do pobre? Um olhar colonizador trata a música como uma aceitação, porém, o sujeito que canta a música é o próprio pobre na busca de um direito. A frase não diz a priori sobre aceitar o lugar que foi imposto ao pobre, ela se abre sobre a cobrança do pobre de que aqueles que o exploram terão de aceitar nos seus lugares.

Se o funk melody tendia a falar sobre cantos de paz, um pouco de afeto e o direito ao seu lugar na terra, o funk contemporâneo segue traçando novas contradições, mas como cantou mc kevin: “Eu vim do funk, sou favela, mato e morro por ela”, expõe hoje como Bezerra da Silva expôs num passado recente a contradição desse capital. No fundo, todos buscando uma saída pra si com os códigos e condições de possibilidades que estão dados no espaço onde se encontram.

A frase do Senador americano Marco Rubio diz muita coisa sobre um problema que temos de enfrentar: “As vendas de armamentos são importantes não apenas pelo dinheiro, mas também porque proporcionam influência sobre comportamentos futuros”. A máquina de guerra dada está aí: os mesmos senhores da guerra que fazem fortuna e controlam comportamentos a partir da venda de armas vão condenar arbitrariamente todos que eles quiserem condenar. Seu filho pode aparecer no Datena com uma arma ou um guarda chuva, pode ser avião ou estudante, ele sempre vai ser condenado ou suspeito, vai morrer de tiro porque a opinião pública não está nem aí.

Adriano Imperador vai ser criticado por ser rico e decidir morar na favela, os MCs da ostentação serão criticados e rechaçados por ganharem dinheiro e decidirem morar na Barra da Tijuca. Mas os críticos são aqueles que até podem querer ir no baile da Penha a noite mas não vão querer morar na Merendiba e pegar o trem pra trabalhar no centro todo dia.

Assim, proponho deixar um flanco aqui aberto, pensar nosso espaço sem romantismo, sem culpa e com a crueza da vida. Lembrando Bezerra: “As coisas na Terra estão mal divididas, o pobre levando uma vida bandida e comendo mais o pão que o diabo amassou”. É isso, planos diretores, macro textos só servem até onde a cidade legal garante direitos, ali onde a cidade legal nos esquece, eu quero mesmo é aprender com Bezerra da Silva como entender, operar e modificar a cidade. A cidade é minha arma de guerra.

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Descriminalizar a maconha, uma política de Estado

O intenso debate em torno da maconha frequentemente se torna cansativo quando abordado com um viés excessivamente moralista, em vez de ser visto de maneira séria e científica.

Tal debate atrasa, entre muitos, pesquisas farmacológicas e de produção, bem como geram uma falta de investimento mapeado de capital na exploração das potencialidades das fibras do cânhamo e dos produtos derivados dessa planta. Isso ocorre em parte devido à complexidade do mercado global da maconha é praticamente um comodities global paralelo capaz de mexer com todo o cenário do agro (, que pode influenciar drasticamente o panorama agrícola, dominado por culturas como algodão, soja e milho.

No mercado paralelo, a maconha desempenha um serviço ótimo ao capital, cria instrumentos de controle dos mais pobres, cria espaços financeiros para lavagem de dinheiro e fluxos de riqueza não rastreáveis, fortalecendo estruturas de poder substanciais. No entanto, devemos questionar se esse mundo que queremos? Vamos seguir vendo as coisas andarem soltas por aí e gente pobre morrendo? verdadeiramente desejamos permanecer passivos diante do sofrimento dos menos afortunados, enquanto os mais ricos desfrutam sem restrições legais ou morais. Isso não é uma perspectiva de sociedade aceitável.

A descriminalização da maconha apresenta uma oportunidade de aprimorar até o controle de forma muito mais eficiente! Num país como o Brasil, essa medida inseriria a maconha na discussão sobre saúde pública.

Por outro lado, é válido mencionar a associação entre o uso da maconha e o risco de esquizofrenia, ou outros males causados por ela. No entanto, esse risco não é diferente do que observamos em relação ao tabaco, que amplia as chances de enfisema, ou ao álcool, que contribui para a cirrose. Analogamente, problemas de saúde pública como burnout, depressão e outros são agravados por diferentes fatores, como condições de trabalho precárias ou desemprego persistente. A ciência médica é a chave para lidar com essas questões.

É inegável que o debate sobre a maconha enfrenta dificuldades nos estratos sociais mais pobres, pois é justamente nesse território carentes que o Estado não consegue chegar. É nesses ambientes onde a qualidade dos serviços de saúde é deficiente que a maconha, assim como outras substâncias, tende a ser utilizada de forma descontrolada e criar mais prejuízos comunitários, gerando um imaginário do senso comum que se cristaliza. Nesse contexto, a ilegalidade é explorada como uma ferramenta de exploração econômica pelo sistema.

A comparação entre diferentes estratos sociais também é relevante. Um pai de família pobre, que se torna alcoólatra, provavelmente enfrentará um destino mais severo do que um pai de classe média ou rico, que tem acesso a melhores cuidados médicos e uma rede de apoio mais sólida. Para muitos de nós, médico é aquele cara que só conhecemos quando estamos perto do leito de morte, nas portas de uma emergência ou UTI. Só recente que os médicos de família conseguiram furar uma bolha cultural.

Nem toda política de Estado deve agradar a todos; isso seria populismo. O objetivo de uma política de Estado deve ser a caminhar para um lado popular. Embora a legalização da maconha possa ser cooptada pelo sistema capitalista, é viável que com pequenos ajustes institucionaliza a economia que gira por fora dos fiscos e sistemas de controle financeiro, ela pode se tornar uma grande ferramenta nacional de equidade e socialização nacional.  Penso que a descriminalização, fazendo parte um programa abrangente de saúde pública, possa contribuir para a produção agrícola, a indústria farmacêutica e têxtil, além do entretenimento, de forma a abordar problemas sociais complexos, como a violência urbana decorrente do mercado ilegal.

Mercados ilegais frequentemente estão associados a níveis mais altos de violência. Se até mesmo o guaraná antártica fosse proibido, logo surgiriam pontos de venda clandestinos protegidos por segurança privada, competindo por áreas de alto valor econômico. A analogia serve para ressaltar que a descriminalização das drogas traz consigo a ação de desmilitarizar as narcocidades e campos e, no mínimo colocar em visibilidade a relação capital-trabalho que envolve esta pauta. Se esta pauta tiver conectada em um programa que vislumbre a ruptura da contradição capital-trabalho e da hiper acumulação de renda em cima da maioria do povo, melhor ainda!  não apenas reduziria a violência, mas também permitiria uma abordagem mais ampla das questões sociais, com a possibilidade de uma inserção estratégica da cannabis na economia e sociedade do país.

Concluindo, é crucial associar a descriminalização da maconha a um plano de desenvolvimento estratégico social, incorporando-a em todas as esferas do país. Isso evitaria a repetição de erros do passado, como a abolição da escravidão sem uma estratégia de inclusão socioeconomica da população negra. O processo de descriminalização e legalização deve ser planejado, considerando suas implicações econômicas e sociais, com o objetivo de transformar a relação entre capital e trabalho e reduzir a desigualdade.

Mesmo que pareça que o debate pertença só a um nicho estereotipado de população, ao benefício do usuário de classe média ou outros, o que pretendi apontar foi o quanto a descriminalização pode movimentar dentro do sistema: da agricultura familiar ao agronegócio, a indústria, os mais pobres, usuários ou não, envolvidos direta ou indiretamente. O Brasil e qualquer país se beneficiaria muito ao ajustar as ferramentas de controle, orientação e tratamentos necessários. Descriminalizar também é sobre isso! O oba oba que os moralistas tanto temem é o que já acontece com as drogas ilegais, onde os pobres morrem na ponta do fuzil enquanto os ricos se divertem em suas festanças liberais.  

Para ilustrar simbolicamente essa discussão, compartilho uma imagem de meu pequeno pé de Mertiolate. Meus amigos que consomem maconha sabem que ela não é uma planta de cannabis, mas os amigos não usuários frequentemente têm essa impressão, e assim, o pé de mertiolate pode ser perseguido por pura falta de conhecimento. Essa experiência destaca a importância da percepção pública e das narrativas construídas em torno de determinados temas.

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